quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O cano - episódio final

Então, no dia seguinte àquela postagem, o bombeiro hidráulico veio aqui. Simpático, trabalhou por TRÊS horas na minha cozinha e não conseguiu desentupir!
Saí de casa para buscar Arthur na escola com a recomendação de que não abrisse a pia, pois ele também tinha colocado um "dissolve tudo" do capeta no cano e precisava esperar algumas horas antes de ver se a coisa tinha funcionado. Quis sugerir que ele calçasse luvas, mas achei que ele já sabia dessa manha e fui embora. O plano era: de duas a três horas sem abrir a pia, depois abrir a pia. Se a água corresse, vida que segue, tudo deu certo. Se não, ele subiria para ver se o vizinho do outro andar também estava sofrendo com o entupimento. Se estivesse, a coisa era mesmo na coluna, se não, era aqui em casa.
Bom, três horas depois o rapaz veio, ligou a água: tudo na mesma. Subiu: não era coluna. E como já era supertarde, ele disse que voltaria no dia seguinte para QUEBRAR MINHA PAREDE e furar o cano.
Chorem comigo.
Obra na gringa.

Mas o dia seguinte veio e levou consigo o que quer que estivesse entupindo o cano, porque o rapaz não quebrou foi nada (eu estava na rua dessa vez, não vi como ele resolveu) e agora tenho uma pia que não vaza, nem alaga. E o mais importante: a máquina de lavar louça está funcionando a pleno vapor! <3

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Entrando pelo cano

Eu vou contar aqui porque minhas amigas não deram muita bola e eu preciso exorcizar esse dia.

Eu acho que esse dia começou há um ano, quando ainda estávamos na Bélgica, e todos comemos um hambúrguer maravilhoso que depois colocou todo mundo para vomitar as tripas. Então, hoje, quando o telefone tocou às quatro da manhã com uma notícia preocupante do Brasil, fui graciosamente lembrada do "hambúrguer do mal", apelido carinhoso que demos ao lachinho belga. Fui lembrada porque tiramos foto no restaurante, inclusive do hambúrguer, que estava muito gostoso (até colocar todo mundo passando muito mal). E eu tenho um aplicativo que às vezes volta no tempo e traz fotos de um, dois, três anos atrás.
O telefone tocou, marido atendeu, conversou o suficiente para eu saber qual era o assunto e seu grau de importância, e então fui checar o celular, para ver as horas e tinha lá "há um ano" com a foto do hambúrguer do mal.
Depois disso, o dia seguiu como todos os outros. Até de tarde.
Cheguei na escola e fiquei tentada a perguntar para a professora se deram um expresso no lanche para Arthur. O menino estava numa energia tamanha que era capaz de acender uma lâmpada se eu encostasse na ponta do nariz dele! Voltamos correndo para casa porque a pia entupiu.

[pausa dramática]

Vasos, pias, banheiras. Domino a arte do desentupimento depois de tantos perrengues (se não leu ou não se lembra, cata aqui nos arquivos a história do vaso entupido). Por isso, antes de ir buscar Arthur dei uma passadinha na loja de ferragens do bairro e comprei o equivalente ao Diabo Verde na gringa. Eu já conhecia o produto e sua velocidade em resolver entupimentos chatinhos, então fiz o primeiro procedimento antes de ir buscar filhote e depois voltei correndo para casa a fim de fazer tudo de novo e, enfim, resolver o problema na pia da cozinha.

[eu queria mandar um beijo para o meu amigo Murphy. Fiel e leal, nunca me abandona]

Às vezes eu acho que o universo sabe que eu tenho um blogue e que eu gosto de escrever, então torna as coisas, de propósito, mais atraentes para uma romanceada. Nada parece ser simples, nada parece se resolver em poucas etapas na minha humilde vida. Passo perrengue na neve, no calor, no sol, em inglês, em holandês. É só escolher: tá lá, feito um aplicativo da vida real, uma memória das situações complexas dessa vida simples que levo.
Uma pessoa, não eu, desentupiria a pia e seria feliz. A minha pessoa não desentope a pia, porque se tivesse desentupido não dava história.
Bom, cheguei em casa, refiz o procedimento com o químico e a coisa piorou. Trancou de vez o ralo, a água que antes escorria com vagar agora poderia ser criadouro do mosquito da dengue se aqui tivesse mosquito da dengue e se eu não tivesse jogado química braba naquela água (guardem esta informação).
Arthur quicava dentro de casa, animado na mesma medida que estava irritado/entediado (eu estava tentando resolver a pia, lembram? sem mamãe para brincar com ele, portanto). Marido fora, resolvendo pendengas (ele também é rei!). Eu, além de resolvendo a pia, estava olhando de cinco em cinco segundos para o celular, esperando uma ligação importante que deve acontecer por esses dias a respeito de um pepino burocrático que precisamos resolver (de novo, para sempre). Marido chega, trouxe comida congelada, brinca com Arthur, salva a mulher do endoidecimento, vamos todos para a cozinha esquentar as coisas no micro-ondas.
Marido ouve um barulho debaixo da pia e descobre que o cano está vazando! Gotas gordas caem em cima das coisas que armazenamos ali embaixo. Retiramos tudo apressados, colocamos um balde, o estrago foi pouco, mas em poucos minutos as gotas se transformam em um filete, que logo passa a um fluxo considerável. Aguardamos com o balde ali.
No armário debaixo da pia, o sifão me dá uma piscadinha:
- Ei, Ártemis, vem cá. Se você me abrir, pode ser que encontre o entupimento e resolva o problema.
Ele só faz isso porque leu o e-mail do faz-tudo que chamei dizendo que só poderá vir aqui amanhã, boa noite, madame, tenha bons sonhos. Ele só faz isso porque sabe que eu sou dessas, que tenta resolver, que aparafusa, serra, martela. Ele só faz isso porque sabe que eu tenho um blogue.
Vou até lá, marido saca o flerte e chega junto.
- Vamos abrir o sifão, Ártemis.
- Vamos!
Balde a postos, Arthur curiosíssimo, rosqueia daqui, rosqueia de lá e... chuáááááá! Uma cachoeira de água nojenta nos encharca (Arthur salvo, felizmente). Desentupiu? Sim, não, talvez? E de repente...
- AAAAAHHHHHHHHHHHH!
Lembram do químico que joguei na pia? Então, ele queima a pele, tá? Fica a dica, caso vocês morem aqui. Não abram o sifão sem luvas se tiverem jogado químico cano abaixo. Nós fizemos isso e corremos com as mãos em brasas para debaixo do chuveiro. Um pânico!
Neste momento, neste exato e preciso momento, o que acontece? Hein, hein, hein? Isso aí: toca meu telefone com aquela ligação importante! Vocês atenderam? Nem eu. Mas tudo bem, pensei, acabou de pular o ícone da caixa postal, a pessoa deve ter deixado recado. Fui ver e a mensagem (3 minutos) era um lindo apito de estática gravado e reproduzido no meu ouvido.
Bom, resumo do dia: marido comeu algo que não lhe fez bem (não foi hambúrguer, mas foi igualmente do mal), nosso entupimento não é no apartamento, mas sim na COLUNA do edifício, não sei o que a pessoa que me ligou queria dizer e amanhã já tenho tarefas burocráticas de novo e aqui estou passando cremes e mais cremes nas mãos para amenizar a aspereza pós-produto químico do capeta.
Amanhã a saga continua com o faz-tudo, a ligação, limpar e arrumar a cozinha toda ensopada de água nojenta (limpamos quase tudo hoje, mas com certeza amanhã teremos nova edição, já que o homem que vem aqui deve também fazer certa bagunça para desentupir o cano).

Universo, só queria dizer que eu também sei fazer postagens fofinhas, tá?

domingo, 5 de novembro de 2017

No olho do tornado e outras hipérboles

Amanhã haverá uma tempestade. Serão raios, trovões e ventos muito fortes. Temos risco de haver tornados. A recomendação é sempre exagerada, como se estivéssemos a beira de um cataclisma sem precedentes na história da humanidade. Foi assim no vórtex polar de 2013 e será assim em todos os anos, para todos os eventos naturais. E eu sou cria do Twistter, o filme, não o jogo. Então, planejo ficar em casa, segura, quentinha e bem longe de vacas.
Mas, Ártemis, não tô acompanhando.
É, é que essa história me fez lembrar de um causo que eu nunca contei por aqui, e agora me parece a hora perfeita.
Então, pega lá a pipoca, senta confortável e vem comigo, de volta a 2015.

Era junho. Eu já morava aqui tinha um tempinho e nunca soube que Illinois (o estado onde fica Chicago) fazia parte da rota dos furacões. Ficou chocadx? Pois é, eu também fiquei em 2015. E sabem como eu descobri isso? No olho de um tornado.

Era junho e, como vocês sabem (e se não sabem deem uma olhada no meu relato de parto), Arthur nasceu neste lindo mês. Então, estava eu prestes a ir passar umas férias no Brasil, com o aniversário do rebento a poucos dias de acontecer e eu resolvi fazer o quê, o quê? Isso: comprar as lembrancinhas da festinha que teríamos no Brasil numa loja daqui. Ia sair baratinho e com certeza faria sucesso (como de fato fez). Estávamos com um amigo hospedado aqui em casa e ele queria comprar umas coisas para o casamento dele, então decidimos ir juntos.
Eu nunca, nunca, nunca saio de casa sem olhar o aplicativo de previsão do tempo. Nunca. Isso e tirar as luvas da mochila são duas coisas que eu nunca faço aqui. Uma maluquice está ligada a outra: o clima doido da região pode trazer um frio de lascar em pleno verão ou outras gracinhas climáticas altamente insuspeitas para uma carioca como eu. Na minha terra, o clima funciona assim: temos duas estações, o verão e o eutono (eu tô no inferno). De manhã a temperatura é sempre mais baixa e geralmente ela vai aumentando ao longo do dia até se tornar insuportável por volta de meio-dia, uma da tarde, então ela vai baixando de novo - às vezes não muito, é verdade - até que de madrugada/de manhãzinha ela está mais baixa. Outro funcionamento climático bastante preciso e regrado: se o tempo tá com aquele bafo quente, lá vem chuva. E no verão vai ser chuvona rápida e pesada. Fim. Mas aqui, amigos e amigas, é tudo louco e imprevisível. Tem bafão sem chuva, tem calor de madrugada e um frio de rachar ao meio-dia do mesmo dia, tem chuva e cinco minutos depois um céu tão azul que faz a Galinha Pintadinha parecer verde. É doido assim. Por isso as luvas e por isso sempre aquela conferida no aplicativo de previsão de tempo - que, felizmente, funciona com uma precisão bastante impressionante, dando os MINUTOS do horário da chuva e geralmente acertando.
Pois bem, era junho e eu vi no aplicativo que choveria. Bastante. Raios e trovões previstos. Pensei: vou estar no trem, depois na loja, só tenho hoje para compras as lembrancinhas porque viajamos amanhã, então decidi encarar. Nosso amigo embarcou na maluquice comigo e lá fomos nós, sacolejando dentro do trem e chegando na loja com ajuda do GPS.
Entramos, vimos muitas coisas, separamos algumas, desistimos de outras e fomos pagar. Pagamos. Deu fome. Pensei: é rapidinho até em casa, ainda não tá chovendo, não sei onde comer por aqui por perto, vou entrar logo no trem e como em casa.
Bom, depois desse dia, existem TRÊS coisas que eu nunca faço aqui: sair de casa sem luvas, sair de casa sem checar o tempo e sair de onde quer que eu esteja sem comer, porque eu tenho o péssimo hábito de desmaiar quando fico mais de três horas sem comer.
Entramos na estação cheios de sacolas e, de repente, em questão de três, quatro minutos, o céu virou noite. Ainda era cedo, mas precisaram acender as luzes da plataforma. Tinha muita gente ali esperando o trem. E o lugar foi enchendo cada vez mais. E mais. E o céu foi escurecendo mais e mais e mais e... ZÁÁÁSSS. Cabrum.
O primeiro raio caiu relativamente perto de nós e iluminou meu rosto abobado diante daquela tempestade monumental. Eu entendi ali o sentido da expressão "brewing a storm". A coisa estava meio que em ebulição na minha frente, com as nuvens escuras se movendo em alta velocidade e com os raios caindo cada vez mais perto e a intervalos mais curtos. De repente, um raio cai no segundo prédio depois da estação. E nada de o trem chegar. E nada da minha fome melhorar (óbvio). E eu não sabia se minhas mãos estavam frias de nervoso, frio ou fome. Depois do último raio a cidade entrou em alerta. As sirenes dispararam, algumas luzes se apagaram e ficamos ali, na plataforma apinhada de chicagoanos entediados, ouvindo as sirenes entrecortadas por trovões. Minha pressão começou a cair e eu fiquei apavorada com a possibilidade de desmaiar em meio a um tornado, pois meu celular começou a vibrar loucamente com alertas vermelhos piscando e avisando dos tornados que vinham chegando. Paniquei. Liguei pro marido. Dei mini chilique com o amigo. Pensei, com o pouco de energia que me restava, em estratégias de sobrevivência: voltar correndo para a loja de onde viemos e me entupir de chocolates? Descer e pegar um táxi? Agarrar o primeiro transeunte pela gola da camisa e gritar "stop this train"? Ops, essa última ideia eu já tinha usado outra vez, em outra história e não tinha dado muito certo.
Enfim, meu estado de nervos era tal que quando chegou o trem eu nem me lembro como consegui um lugar sentada. Talvez eu tenha pedido ajuda, talvez o amigo tenha sido cavalheiramente sagaz e tenha guardado um banco para mim. Não me lembro, porque eu só conseguia pensar em vacas voando, em desmaios cinematográficos em meio à multidão, nos noticiários que contariam a história da mãe que foi levada pelo tornado quando saiu para comprar lembrancinhas para a festa do filho.
Chegamos em casa antes da chuva, antes do tornado que afinal nunca veio e antes do meu desmaio. Hoje virou história engraçada para entreter os amigos, mas sendo história, também me serve de lembrança e aviso para o futuro. Amanhã temos previsão de tempestades fortes e possibilidade de tornado. Estou em casa, com comida na geladeira e luvas na bolsa. Ainda bem que é novembro, um mês sem aniversários por aqui.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Nos lençóis dessa pindaíba

Deixa eu contar uma história para vocês.
Começa assim, como a maioria das histórias daqui: estamos na pindaíba.
"Ainda, Ártemis? Leio seu blog há sete anos e você ainda tá na pindaíba?!  Eu já comprei casa, carro, viajei doze vezes para a Disney e casei com uma festa de 300k, e você ainda aí, contando história de contar moedinha?!"
Pois é.

Bom, se estamos na pindaíba, precisamos ter uma lista de prioridades, né? Um teto com aquecimento: prioridade. Um teto com aquecimento e decorado ao nosso gosto: dispensável. Roupas quentes que não nos deixem congelar lá fora: prioridade. Roupas quentes e novas: dispensável. Vocês já entenderam.
Quando voltamos para Chicago, tivemos um Natal micareta, com caixas e caixas sendo abertas ao som de "noooossa! Que bom que guardamos isso!", porque depois de tanta aventura pelo mundo eu, sinceramente, não tinha muita ideia do que tinha sido jogado fora/doado e do que tinha permanecido. Arthur também ficou feliz da vida redescobrindo brinquedos que ele já tinha esquecido. Enfim, foi massacrante e exaustivo, mas também foi reconfortante e feliz voltar para cá.
No meio dessas caixas todas, algumas sacolas com roupa de cama. Não sei se elas se reproduziram enquanto estivemos fora, mas eu não me lembrava de ter tantos lençóis assim! E o mais curioso foi que, conforme eu abria as sacolas, ia notando que nenhum lençol cabia na nossa cama — talvez eu devesse ter dado mais um tempo para os lençóis filhotes crescerem, né?
Quando fomos para o Brasil no primeiro ano, lá pelos idos de 2014, trocamos nossa cama de casal por uma king. Para a cama de casal, comprei dois jogos de lençol, porque assim poderia lavar um enquanto usava o outro. Mas para a cama king, acabou a verba, então só tínhamos um lençol mesmo, que era lavado e secado a toque de caixa. Mas tudo fluía.
Até voltarmos.
Porque abrimos todas as sacolas e não encontramos o lençol king. Resolvi, então, comprar um jogo novo. Em cntp, eu compraria o lençol, tudo funcionaria e vida que segue. Mas quando se vive na pindaíba, até mesmo comprar um lençol é um evento importante: você não quer gastar seu parco dinheirinho e depois se arrepender da compra, porque não vai existir "ah, vou precise comprar outro lençol". Por isso, passei alguns dias pesquisando diligentemente os jogos disponíveis na internet. Achei um com bom custo benefício. Comprei. Aguardei ansiosa os dois dias de prazo de entrega e quando finalmente a encomenda chegou, corri para colocar o lençol na cama, que àquela altura estava forrada com dois lençóis numa gambiarra desconfortável.
Abri caixa, abri pacote, desenrolei lençol e... não coube!
Pânico!
Como não coube? Eu comprei o lençol queen, certinho.
Opa! Fui ver a nota fiscal da cama, porque no meu raciocínio lógico, passamos de uma cama de casal para uma cama queen, que era o upgrade seguinte, né? Mas eu fui ousada, pessoal, e fiz um upgrade audaz: de casal direto para king. E, na pindaíba, sem lençol, comprei a porcaria do tamanho errado! Vou devolver, claro, mas o frete vai comer metade do preço que paguei no lençol, então não vou poder simplesmente trocar o tamanho.
Bom, ai hoje fui ao mercado fazer uma luxuosa compra de condicionador (um luxo! Pindaíba, lembram?) quando dei de cara com um jogo de lençóis em promoção! Tamanho certo! Comprei, claro, porque era prioridade. Mas, infelizmente, era um lençol verde-oliva, e eu tenho a mania de rock star de só gostar de dormir em lençol branco. Paciência. Na pindaíba, lençol no tamanho certo é prioridade, cor de que gosto é dispensável.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Começou o ano

tique
taque

Começou o ano. Ainda não é setembro, mas todas as medidas cabíveis já precisam ter sido tomadas porque o ano é previsível e antecipado em países onde andar na rua sem levar uma bala ou facada não são preocupações diárias.
Hoje caminhei na Lagoa e, além de passar ao lado das placas - muitas - que contam a história de crianças que morreram por causa da violência urbana e do Estado, estive também atenta ao recapeamento branco que os escrementos de pássaros fizeram na via compartilhada. Na minha frente, duas senhoras acima do peso e com roupas de ginástica param para ver a vista, alheias aos pássaros que pendem dos galhos como frutos gordos e maduros. Também eu estou alheia. Enquanto vejo isso, minha vida nos Estados Unidos seguiu e eu não sei mais se eu sei viver lá. Definitivamente ainda sei viver aqui. Mas não quero. Agora, uma moça cuja roupa não vi enquadra o Dois Irmãos em um celular. Clique. A gente pisca e passam três bicicletas. Nenhum rosto conhecido, não sei a história de ninguém ali. Passam dois corredores, a moça tem sotaque paulista e diz que é melhor passar correndo. É julho, mas já é ano que vem para mim. Embora esteja presa aqui, esperando o sinal fechar, o sinal nunca fecha, e um casal de skatistas emparelha comigo, e eles rolam os olhos por mim, como se as rodinhas tivessem subido até seus rostos. Flip. Já olham para outra pessoa. Na minha cabeça, uma lista de coisas que preciso e quero fazer. Não. Na minha cabeça, uma lista de coisas que eu deveria e queria ter feito. Não. Na minha cabeça, todo o passado. Eu vim alheia a tudo isso, como as moças que não sabiam dos pássaros nos galhos da árvore toda branca na beira da Lagoa. Mas agora, está um pouco difícil de escapar, de sair ilesa, de sair limpa dessa curva que minha vida fez. Estou presa. Passei por um homem que falava, não, gritava sozinho. Cheguei mais perto da Lagoa e uma jovem, adolescente ainda, remava no tanque, observando a mulher de ombros e braços torneados que já estava dentro da Lagoa em seu barco. Eu sou a moça do tanque e a moça da Lagoa ao mesmo tempo. Um descompasso me acorda todos os dias, uma dissonância me põe na cama todas  as noites. Tem uma fileira de arrependimentos no meu horizonte. Belo, mas impossível. Talvez eu não esteja mais na Lagoa, mas sim tenha chegado à praia, com um oceano infinito e inalcançável. Porque o lago Michigan parece um mar, com as bordas todas tão distantes e a água tão azul quando vista do alto, que agora eu não sei mais o que é mar, o que é lago, então a Lagoa pode muito bem ter me engolido e agora eu vejo um oceano impossível, presa aqui, quando o ano já começou.

Já é verão de novo. Corpos suados, sol forte. Mas o carioca insiste no casaco. Eu mesma tenho um casaco. Tão inútil quanto as listas que faço. Tão desajustado quanto minha vida descompassada. Tão inapropriado quanto as perguntas que insisto em fazer e os caminhos que insisto em tomar.
O ano já começou, e tudo que fiz foi virar para trás quando o homem passou por mim gritando, sozinho, desconexo, alheio à realidade. Foi observar as árvores, os pássaros, os excrementos, as mulheres. Nenhuma medida concreta. Passos soltos e um diálogo interno mais intenso e amedrontador que o do homem que passou gritando sozinho. Eu também grito sozinha dentro de mim. Só que não dá para chegar mais para o lado, não dá para evitar essa loucura. Atravesso a rua. O ano já começou, algumas coisas já existem lá. Só que com a Lagoa no meio fica muito difícil de enxergar qualquer coisa além do belo horizonte carioca que insiste em me prender.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Fernando Sabino reeditado

Estava eu em casa, de pijama, em mais um dia modorrento de pré-inverno chuvoso na Bélgica. Estamos com chuva há 5 dias e teremos tempo nublado/chuvoso até dia 23, pelo menos. Então, no panorama geral, Trump tinha sido eleito presidente do país onde devo morar até 2018, Temer deu um golpe no país onde nasci e no país onde atualmente passo uma temporada estava chovendo gordas lágrimas de decepção liberal. Nesse contexto, pijama em casa era o máximo que eu conseguia administrar.
Tudo corria bem, apesar do clima 7X1-e-os-fascistas-tão-chegando, até que Arthur grita e dá um pulo:
- Uma aranha!
Onde? Não tô vendo. Ali, correu. Vi. Era uma pernalta amarronzada e estava bem na frente do meu filho. Meu filho que não admite que matemos nenhum bicho que não seja mosquito que morde. Meu filho, também de pijama, que acompanhava o caminhar elegante da aranha pelo chão da nossa sala.
Qual saída? Distrair o menino e pá!, matar a aranha? Não, o mundo não precisa de mais gente escrota, mentirosa e hipócrita. Então, fui tocando a aranha feito gado pela sala, no intuito de expulsá-la para fora de casa, pela porta da frente, em grande estilo e sem estragos. Passamos pela mesa, conduzi o aracnídeo até o hall de entrada e ali peguei a vassoura que tinha acabado de pousar quando filhote me chamou. Acendi a luz, abri a porta, com muito cuidado ia pisando com meu chinelo de oncinha para fazer um movimento forte o bastante para levar a aranha para onde eu queria, mas suave o suficiente para não machucá-la ou assustá-la demais. A vassoura seria minha aliada para conseguir pousar a bichinha em um dos degraus da escada, o plano era perfeito. Arthur me acompanhava, intrigado com o desfecho, eu ia conduzindo tudo direitinho, todo mundo feliz, a aranha subiu espontaneamente na vassoura, o que facilitaria bastante para mim, pois agora era só colocar a vassoura na escada e esperar a aranha sair andando em suas patas compridas e...
clic
Com um clique suave e quase inaudível a porta da minha casa se fechou atrás de mim.
Quarta-feira, Trump eleito, três graus e muita chuva lá fora, eu sozinha com filhote e os dois de pijama, trancados do lado de fora de casa.
Embora estivesse de calça, chinelo e casaco, me senti o próprio Claudio Marzo em "O homem nu".

Maldita aranha! (imagem daqui, ó: http://www.papodecinema.com.br/filmes/o-homem-nu)
Eu vestia calça, casaco e chinelo, mas Arthur estava descalço. Meu celular ficara do lado de dentro, assim como carteira com dinheiro ou qualquer outra coisa que pudesse me ajudar a encontrar uma solução digna para a situação.
O prédio só tem um vizinho, que não estava em casa, e nossos senhorios moram na casa ao lado. No dia anterior, para minha vergonha completa, eu já tinha tocado na casa deles e pedido que por favor abrissem a porta porque saí e larguei a chave do lado de fora da porta de casa. Então, não foi sem constrangimento que desci (depois de calçar no menino as botas que estavam do lado de fora de casa! que sorte!) e toquei a campainha. Chuva, vento, frio. Nenhuma resposta.
Voltei para dentro do prédio, sentei na escada. O que fazer? Não conheço ninguém aqui, marido ainda demoraria pelo menos mais 3h para chegar em casa, vizinho fora de casa, senhorios idem. Eu queria chorar. Eu queria fazer xixi. Conseguia escutar o som tocando dentro de casa, ver a luz do hall acesa.
Esperei.
Desci de novo. Mais um toque na campainha. Outro. Ninguém.
Voltamos para dentro do prédio porque meus dedinhos estavam começando a ficar dormentes com o vento gelado.
Sentei na escada, vi a aranha tentar escalar a parede, ajeitei a vassoura, tentei distrair Arthur.
Desci. Toquei. Nada.
Subi, me esquentei, tive uma ideia.
Desci, abri a garagem, peguei a chave do cadeado da bicicleta. Óbvio que não funcionaria, mas pelo menos iria me distrair. Quantas horas eu ficaria ali, naquele corredor? Tinha acabado de mandar uma mensagem para marido perguntando que horas ele voltaria para casa. Vejam que coincidência escrota! E antes de ver a resposta, clique.
Subi com a chave e ela nem sequer tinha a mesma espessura do buraco da fechadura, tudo que eu podia fazer era achar um ângulo qualquer e tentar criar uma espécie de alavanca para girar o tambor da fechadura. Óbvio que não funcionou.
Desci de novo. O corredor do prédio estava ficando gelado com tanto abre e fecha de porta da rua. Toquei a campainha. Nada. De novo. Nada. Arthur correndo, pulando, achando tudo uma graça (pelo menos isso!). Subi. Peguei a chave da bicicleta de novo. Tentei mais uma vez. Desisti e achei que se McGyver conseguia consertar um jato com chiclete e um chumaço de algodão, talvez eu conseguisse abrir a porta da minha casa desfazendo o aro que ligava a chave da bicicleta ao chaveiro. Desfiz o aro. Enfiei o arame dentro do buraco da fechadura e tentei todas as combinações possíveis de posição do arame + força na porta + chave da bicicleta formando uma espécie de alavanca. Não funcionou, é claro.
Desci de novo. O vizinho do outro lado chegava em casa, perguntei as horas, quatro e dez, lascou-se, acho que talvez seja bom pensar em ir ao mercado daqui a pouco porque lá tem aquecimento e está ficando frio, mas se eu for ao mercado, marido pode voltar para casa e ter um pequeno surto ao encontrar tudo aceso, som ligado e nós desaparecidos, melhor ficar aqui, mas marido só deve chegar lá pelas seis e meia, o que faço, Arthur, desce daí, meu filho. Respira.
Toquei a campainha. Nada. Quis chorar. Pensei onde eu poderia fazer xixi nas redondezas, mas aqui não é os EUA e nenhum estabelecimento comercial tem banheiro para clientes. E eu nem seria uma cliente, já que não tinha dinheiro para consumir.
Subi. Arthur canta com a vassoura. Arthur dança com a vassoura. Arthur quer saber da aranha. Tento, insistente e inutilmente, abrir a porta com o arame e a chave que não entra na fechadura. Desisto. Sento no degrau.
Ouço um barulho.
Desço.
Serão os senhorios? Será o vizinho? Será um delírio?
Não! Era meu próprio marido, ensopado, com as mãos duras de tanto frio e o olhar atônito de quem achou, por alguns segundos, que a mulher estava saindo de casa de pijama e chinelo. Ele veio mais cedo para casa, mal posso crer!
Ficamos uma hora e seis minutos trancados do lado de fora. E, ainda assim, quando entrei em casa, o Trump ainda estava eleito.
Que tempos, minha gente. Que tempos!

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Sobre estar aqui

Quase todas as pessoas para quem eu conto que estou passando um tempo na Bélgica comentam comigos coisas do tipo "nossa, quem me dera!" ou "ah, que máximo!" ou "um sonho! uma maravilha!". E emendam com um "aproveite!".
Não chega a me irritar, mas acho curioso como as pessoas têm uma ideia completamente equivocada do que significa, na vida real, morar fora, sobretudo em um lugar temporário.
Se eu tivesse grana, a história toda seria diferente, porque eu poderia viajar e passear e curtir a ideia de "morar na Europa" que as pessoas têm. Mas como não tenho grana e a pouca que tenho está comprometida com coisas supérfluas, tipo pagar um teto e comer, então morar fora significa mesmo é passar perrengue em outras línguas e com as quatro estações do ano bem marcadas.
Também não estou reclamando. Nem posso. Mesmo com os perrengues é uma coisa incrível estar aqui, ver e viver coisas que eu nunca veria ou viveria no Brasil (para o bem e para o mal), perceber que estou começando a pescar uma ou outra palavra em holandês (palavras escritas, que fique bem claro, porque para as faladas eu precisaria de mais uns cinco anos aqui), comer chocolate bom todos os dias e beber cerveja famosa pagando bem menos.
Acho que estou desabafando, aqui, no meu cantinho, porque quando as pessoas me respondem, com os olhinhos brilhando, noooooooossa, que beleza morar na Bélgica, eu não posso e nem quero falar que é muito chato e deprimente ficar em um lugar onde só chove, ou que me sinto frustrada por ver meu filho sem conseguir se comunicar com as outras crianças porque as línguas não são compatíveis, ou que tem dias que me cansa pedalar e trepidar nos paralelepípedos das ruas centenárias da cidade só para ir até o centro ver gente e não deprimir, ou que a rotina avança nos dias mesmo falando holandês, ou que cuidar do pequeno 24h por dia não me deixa espaço (interno) para organizar outras coisas da minha vida, ou que estar com as malas já lotadas e não poder comprar materiais e brinquedos para distrair uma criança que não consegue brincar com outras crianças e que passa muitos dias enfiada dentro de casa porque lá fora está chovendo e fazendo 5 graus é mais do que frustrante, é exasperante!
Às vezes sinto como se eu subaproveitasse a oportunidade, mas não vejo muitas soluções, sinceramente. Ao menos, não vejo soluções que caibam no meu orçamento ou na gincana na qual parece que entramos em 2011 e da qual nunca saímos. Viajar não é uma possibilidade. Passear, comer fora, conhecer restaurantes e museus, tudo isso custa dinheiro (euros, não se esqueçam) e não é exatamente recebido com gritinhos de alegria pelo meu bólido.
Estar aqui é ótimo, mas muitas vezes se parece com estar em qualquer outro lugar do mundo. Sou grata pela oportunidade, mas não é raro que eu precise dar um sorriso amarelo ou uma resposta educada para as pessoas que vibram com a minha estada aqui, como se morar na Bélgica de repente sanasse todos os problemas do mundo e solucionasse boa parte das angústias medíocres que vivo. Estar aqui não é passear aqui, não é estar de férias aqui, não é apreciar tudo o que a Bélgica tem de melhor a nos oferecer. Estar aqui é ser estrangeira, e continuar sem grana, e ter rotina (sobretudo com e por causa do pequeno), e fazer supermercado com meia dúzia de frutas disponíveis, e lavar roupa (na máquina dentro de casa. LUXO!), cozinhar (blergh!), lavar privada, varrer chão, arrumar entretenimento, arrumar tempo para não deixar a peteca cair, se lembrar de que acabou o guardanapo e o café, é saber que em poucos dias estaremos empacotando tudo de novo, entrando num avião de novo, indo de novo para mais uma temporada temporária em outro país.
Estar aqui é fazer o estar aqui fazer sentido, enquanto estamos aqui. Faz sentido nossos passeios bestas para não pirar, faz sentido nossas tradições recém-inventadas, faz sentido abrirmos as exceções que abrimos e mantermos o que mantivemos. Estar aqui é, de verdade, estar aqui. A cada segundo. Sem espaço para idealizações. E isso é legal na mesma medida que é difícil. Estar.