segunda-feira, 17 de junho de 2019

Sete anos de Arthur!

Hoje meu filho completa sete anos.
Arthur é meu sol. Eu digo isso para ele. Não conheço outra criança tão brilhante e tão intensa como ele. Ele chega e tudo em volta de se apaga porque a luz que ele irradia é a mais vibrante, a mais forte, a mais incrivelmente sedutora.
Hoje, olhando para trás, percebo que não só ele é o filho com o qual eu sempre sonhei, mas também é o filho de que eu preciso para ser melhor, para crescer, para encontrar em mim tantas sementes que só germinam com a força que ele traz.
Arthur chega e muda as órbitas. Um líder nato, generoso, teimoso, determinado, pulsante, feroz, curioso, engraçado, doce, esperto, sagaz, intenso, profundo, sensível, cuidadoso, responsável, fanfarrão, divertido, amigo, adorável. Meu filho. Que há sete anos esquenta (às vezes até quase queimar) a pele delicada da maternidade que me reveste todos os dias.
Como eu amo este menino! ❤

sábado, 2 de março de 2019

O parto — parte 4

O quarto ficava em algum andar mais alto, já não me lembro qual, e dava para ver o templo de Bahá'í. Mas isso eu só descobri mais bem mais tarde, quando consegui me levantar da cama. Porque quando cheguei, precisei me deitar.
Eu me acomodei na cama para, em menos de cinco minutos descobrir que passaria 2 dias sem dormir. Mentira. Na hora eu não sabia disso, mas no fim do dia, já.
É que as camas desse hospital têm um sistema de alteração de pontos de pressão para evitar escaras e dores nos pacientes. Por isso, em intervalos regulares e curtos, esteja a cabeceira erguida ou não, a cama se mexia sozinha. No começo foi engraçado é e confortáv. No fim, desesperador! Porque quando eu finalmente encontrava uma boa posição, a cama mudava o ponto de apoio que eu estava usando e eu ficava desconfortável. Ou Gael acordava no meu colo.
Os primeiros momentos neste quarto são um borrão para mim. Não me lembro mais da ordem dos fatos e certamente já esqueci muitos detalhes.
Eu lembro que a primeira ida ao banheiro para fazer xixi foi um pavor. Eu me levantei e parecia que todos os meus órgãos estavam soltos dentro de mim. (E deveriam estar mesmo.) Me senti tonta, fraca, incapaz. Fiz xixi com ajuda da enfermagem, que me ajudou a colocar calcinha descartável, absorvente de 2m de comprimento, saco de gelo e spray anestésico.
Se o parto não teve qualquer intervenção ou medicação, o pós-parto foi uma enxurrada de tudo isso. E esse "tudo isso" teve um impacto significativo em mim.
Quando Gael chegou, veio para meu colo, para o meu peito.
Aqui, o bebê fica, durante todo o tempo que fica internado, de fralda e cueiro apenas. Isso era bom para o contato pele a pele, mas eu fiquei (outra vez) neurótica com a possibilidade de hipotermia. Até porque, em dado momento, mediram a temperatura dele e me pediram para embrulhar bem ele, porque Gael perderá muito calor.
Ficamos nós três ali, pedi comida (o hospital tinha um cardápio de várias páginas! Eu poderia escolher o que eu quisesse do menu, desde mingau de aveia até pizza) e como eu disse, só me lembro de sentir incômodos: as enfermeiras entrando todas as horas, eu ser a responsável por tomar a dose cavalar de analgésicos que me receitaram (e que tomei por medo da amamentação), eu ser a responsável por pedir comida uma hora antes de eu sentir fome (porque o menu era gigante, mas demorava mais de uma hora para chegar o que tivesse sido escolhido), ir ao banheiro e trocar aquele monte de coisas entre minhas pernas, o fato de eu sentir minha musculatura abdominal e pélvica totalmente flácidas e isso me deixar insegura para ir sozinha ao banheiro, para me levantar. Tudo que me lembro do hospital é incômodo.
Arthur veio conhecer o irmão de tarde, depois da escola. Veio, ganhou um lego, ficou todo feliz, todo enciumado, todo amoroso, todo saudoso e foi embora carregando um pedaço do meu coração, deixando um buraco que demorou para cicatrizar.
Não consegui dormir na primeira noite, mas uma hora lá apareceu uma enfermeira perguntando se eu não queria que eles levassem Gael para o berçário e eu quis. Quis porque sabia que precisava descansar e não tinha qualquer rede de apoio para fazer isso depois, em casa. Quis porque estava fraca, vinda de uma gravidez insone e desconfortável. Quis porque eram só duas horinhas, templo que Gael dormia depois de mamar. E essas duas horinhas foram as únicas horinhas que dormi ao longo da minha estada no hospital.
No dia seguinte, quinta-feira, consegui carregar meu celular, tirar fotos, levantar sem achar que iria morrer, mas ainda não conseguia me mexer com Gael no colo e não me sentia segura para andar com ele por aí. Acontece que marido precisou sair por 4h. Tinha umas coisas para resolver. Coisas inadiáveis — mas que hoje eu pediria para ele adiar mesmo assim. Fiquei sozinha. Ninguém veio me visitar. Ninguém me ligou. Ninguém veio conhecer Gael.
As enfermeiras entravam, apertavam meu útero, mediam temperaturas, pressões, valores e iam embora. Eu estava presa à cama que se mexia. Eu era um emaranhado de panos soltos, que me impediam movimentos. Gael, o tempo todo no meu colo. Eu não queria pedir ajuda para as enfermeiras, não sentia abertura na correria impessoal delas. Eu precisava fazer xixi, mas não tinha onde deixar Gael, porque para me levantar alguém tinha de me ajudar, eu não podia me levantar com ele no colo. Estava com fome com sede, cansada. Marido chegou, me salvou, fiz xixi, comi, bebi, ele chegou a ficar 4h com Gael no colo, mas não consegui pregar o olho. A cama se mexia, os hormônios rugiam dentro de mim. Comecei a sentir dor ao amamentar, os mamilos esfolaram.
Eu estava sozinha, vulnerável, a cada 12 horas mudava a equipe e vinham novos rostos apertar meu útero, medir tudo, verificar a icterícia do Gael.
Na sexta nós poderíamos ir para casa. Isso significava um mundo de burocracias. Certidão de nascimento, cadastro do bebê no plano de saúde, avaliações, assinaturas.
Era perto da hora do almoço e eu estava preenchendo o formulário amarelo da certidão de nascimento quando vi tudo rodar. Não foi uma tonturinha, não. O quarto girou, meu lábio empalideceu. Chamamos enfermagem. Mediram tudo, tudo normal. Eu achei que estivesse tendo um treco, um derrame, um ataque cardíaco, uma trombose. Chamaram a neurologista. Perguntei se eu ia morrer. Eu jurava que ia morrer nessa terra gelada, sozinha, sem visitas ao meu recém-nascido tão lindo e grande, ia morrer porque estava fraca, frágil, vulnerável, sem saber onde colocar no formulário amarelo da certidão de nascimento os 4 sobrenomes que Gael carrega.
A médica não respondeu que não. Ela não pode responder isso porque, se eu morrer, ela é processada. Mas a resposta evasiva dela não me ajudou. Reconheci o ataque de ansiedade. Avisei. Fui ignorada. Foram embora. Foram brigar com a cozinha, que ainda não tinha trazido meu almoço. Foram buscar biscoitinhos. Foram anotar no prontuário. Foram.
E o estrago estava feito: exausta, sozinha, vulnerável, responsável pela vida e bem-estar de duas crianças. Eu sentia a pressão de precisar estar bem para criar de tudo, de toda a minha vida que me esperava em casa. Eu estava me sentindo etérea, aérea, um sopro, uma pluma, leve e insustentável. Frágil.
Mas eu não podia ser frágil. Eu precisava ser forte. Inquebrável. Ágil. Destra. Independente. Responsável. Completa.
Mas toda hora vinha um rosto novo apertar meu útero, medir o mensurável, reforçar a fragilidade. Você está bem, mas pode não estar muito em breve. Você gestou e pariu 3,820kg de bebê, mas precisa de ajuda. Não, mais: precisa de vigia. Não uma vigia cuidadosa, amorosa. Uma vigia preocupada, em busca do erro que você vai cometer: deixar o bebê ir para o berçário, não chamar a enfermagem para ajudar, não ligar para a cozinha na hora certa, se esquecer de tomar os analgésicos. Estamos aqui para aguardar o erro. Inexorável e imenso. O erro está aí, basta termos tempo ou técnica para encontrá-lo.

***

A enfermeira obstétrica da clínica que eu frequentava deveria vir me dar alta. Gael estava de alta já há algumas horas. Não perdeu muito peso, icterícia controlada, meu leite já estava descendo e o colostro já não era amarelado, vinha rajado de branco. Gael estava ótimo, lindo, um mamador profissional, conforme atestou a consultora de amamentação que chamei no quarto para ver a pega.
A enfermeira que me daria alta demorou horas.
Eu me debatia entre a insegurança de ir para casa ainda me sentindo muito mal ou ficar no hospital da cama que se mexia e da imensa solidão.
Marido me pressionava para voltarmos para casa: trabalho, Arthur. A vida não parou lá fora. Eu só tinha ganhado mais uma responsabilidade, mais uma fragilidade da qual cuidar.
Eu queria ficar. Tinha medo de ir para casa e acontecer, enfim, o erro.
Eu queria ir embora, para bem longe do protocolo que não me deixava dormir na mesma cama que Gael. Para longe da cama semovente. Queria ver Arthur, abraçar Arthur, amar meu primeiro filho.
Decidi ir embora.
A enfermeira passou lá de noite.
Você sabia que o risco de eclâmpsia não desaparece com o fim da gravidez? Sabia que ela pode se manifestar até 2 semanas depois do parto?
Eu me lembro de estar sentada na recepção do hospital. Uma enfermeira desceu para nos ajudar. Eu fazia muito esforço para entender o que ela dizia. Eu fazia muito esforço para não desmaiar. Eu tinha comido um sanduíche que fiz questão de comprar naquelas máquinas automáticas antes de ir embora. O que me salvou, porque tudo demorou imensamente. Gael estava todo embrulhadinho em muitas camadas dentro da cadeirinha. Lá fora fazia -11°C. O motorista do carro foi simpático. Dei um passo de cada vez para vencer o trajeto entre a rua e a porta do prédio.
Assim que Gael deitou na nossa cama, reconheceu aquilo como seu lar. Eu vi naqueles olhos escuros que ele sabia que era outro ambiente, um ambiente repleto de erros, mas sem alguém para procurá-los incansavelmente 24h por dia. E isso fez toda a diferença. Porque os erros se misturaram aos acertos já naquele exato instante. Os acertos vieram aos poucos, embalaram meu sono. Um sono abraçado ao meu filho recém-nascido. Um sono na cama imóvel. Um sono que consolidou a rotina e fez nascer nossa nova família de quatro pessoas que erram e acertam.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O parto — parte 3

Eu entrei em total desespero. Pânico. Pedi cesárea — mas em português, malandramente, porque eu só queria alguém para segurar minha mão e me ajudar, e esse alguém foi marido.. Eu não aguentaria dilatar mais 2 centímetros naquela intensidade de dor que eu estava sentindo! Estava há duas horas em trabalho de parto de fato, e estava sentindo muita dor! Não tinha sido assim com Arthur. Claro que eu tinha sentido dor da primeira vez, mas dessa feita as dores estavam muito mais intensas.

A midwife sugeriu umas posições, testei e não gostei, até que encontrei uma mais ou menos ok. Fiquei de joelhos na cama, a cara enfiada na cabeceira, que estava elevada. Achei que ela deu uma conduzida para me colocar numa posição boa para todo mundo, mas não estava em condições de discutir nada. Sobretudo porque eu estava desesperada, em pânico, apavorada. Eu não aguentaria aquela dor por muito mais tempo.
E foi aí que, às 11:49 da manhã, eu comecei a sentir vontade de fazer força.
E foi aí que, mais uma vez, eu tive um rebordo de colo.
A midwife ficou preocupada, me mandou parar de fazer força, disse para eu arfar quando viesse a contração, mas eu não conseguia. Eu precisava fazer força. E eu fiz.
Eu não vi, mas marido contou que ela chamou a médica de plantão do hospital, e que foi um momento tenso. Eu estava ocupada demais sentindo muita dor e fazendo força.
Fiz umas sete forças e senti o círculo de fogo. Esperei o orgasmo, mas ele não veio dessa vez, tudo era uma grande dor.
A cabeça do Gael nasceu e ele não chorou. A midwife disse que eu precisava fazer sair o corpinho e eu respondi que não estava sentindo contrações, que eu ia esperar um pouco. Quando veio a próxima contração eu senti o corpinho girar e escorregar.
Gael ficou quietinho por alguns segundos, mas então chorou. Um choro de verdade, mas não muito forte.
Eu ainda estava na mesma posição do parto, eu ainda não estava pronta para receber meu filho no colo, porque eu esperei mais de dois meses para conseguir respirar sem sentir falta de ar. Eu, então, respirei fundo e peguei meu filho, meu segundo filho nos braços.
Coloquei ele no peito, perguntei as horas, eram 12:02, e algum tempo depois nasceu a placenta. Tirei foto da placenta. O cordão parou de pulsar, marido cortou, Gael foi colocar uma touca e ser embrulhado em paninhos.
Voltou para o meu colo.
O protocolo do hospital é deixar mãe e bebê por uma hora e meia na sala de parto, juntos, sozinhos, com uma enfermeira vindo de tempos tem tempos para medir os sinais vitais da dupla e monitorar o pós-parto imediato.
Ficamos, portanto, uma hora e meia ali, amamentando, curtindo o novo bebê, tirando foto.
O tempo voou.
Veio, então, a enfermeira me buscar para me levar para o quarto onde eu ficaria internada pelos próximos dois dias — outro protocolo.
Eu fui com Gael na cadeira de rodas. Subimos para pesar, medir e fazer os primeiros testes com o bebê. Eu poderia ter ficado ali se quisesse. Mas estava me sentindo muito fraca e tonta, preferi ir para o quarto descansar e deixei marido com a função de cuidar do pequeno.
Essa parte também está confusa na memória porque eu estava realmente tonta. Sei que pesaram ele na hora e todos ali se espantaram com o tamanho: 3,820kg.
Eu não fiquei muito espantada. Primeiro porque eu sabia que era um bebê grande, já que minha barriga ficou gigante e eu fiquei imprestável no fim da gravidez, sem conseguir comer, respirar, dormir, andar... Segundo porque eu estava doidona de hormônios + tonta de cansaço.
Fui para o quarto, e aí começou o terror.
(Continua na próxima postagem — spoiler: clinicamente, meu pós-parto foi perfeito, mas psicologicamente...)

domingo, 27 de janeiro de 2019

O parto — parte 2

O quarto era simples, em termos estéticos, mas com tudo que eu precisava para parir, em termos de equipamentos.
Na visita que fizemos ao hospital no começo do terceiro trimestre, nos informaram de várias coisas que considerei bem chatinhas. Uns protocolos irritantes, tipo acesso venoso obrigatório, monitoramento contínuo obrigatório, impossibilidade de parir dentro da banheira, só para citar os mais inconvenientes para mim.
Entrei, portanto, esperando uma chuva de obrigatoriedades, mas parir com midwife é tudo de bom, e meu monitoramento foi intermitente e não tive acesso venoso!
O esquema de trabalho lá é assim: eu tenho a midwife que me acompanha particularmente, o hospital tem a midwife de plantão e a estudante sob sua supervisão porque se trata de hospital-escola. Assim, a midwife do hospital e sua aprendiz vieram se apresentar a mim. Não faço ideia do nome delas. Mas foram as duas que controlaram os monitores cardíacos (um para mim, um para o bebê) no começo do TP, e foram elas que perguntaram uma série de coisas, tipo: eu aceitava credê? E vacina de hepatite B? E injeção de vitamina K? Como eu planejava lidar com a dor?
Autorizei a estudante, a vacina e a vitamina K. Vetei colírio e circuncisão. A midwife da clínica disse que eu não precisava de acesso venoso e nem de monitoramento contínuo, então neguei isso também.
Já eram umas 6 da manhã, e as contrações estavam super tranquilas ainda. Eu conversava e brincava entre elas.
Foi então que me deu uma fome horrorosa !Aliás, eu tive fome no começo do TP também, e a midwife falou que esse era um sinal de que eu NÃO estava em TP ativo.
Beleza.
Falei que estava com fome e rolou aquele constrangimento, porque eu não poderia comer no hospital. A midwife comentou que tinha uma cafeteria no hospital, que seria bom eu dar uma caminhada para ajudar nas contrações, e eu, idiotamente, não entendi que ela estava dando um jeito de dizer onde e como eu poderia arranjar comida no hospital. Além de estar em TP, sou caxias demais para burlar regras assim, então nem me liguei.
Fui à cafeteria para comprar café para marido e para caminhar. A cafeteria fica bem longe da ala da maternidade, e eu fui numa boa, tirando foto fanfarrona, fazendo graça, mas já voltei com dores mais fortes, parando para respirar/contrair naquele looooongo corredor.
Voltei sem comida e a midwife, então, precisou pedir as únicas coisas que eu poderia comer: gelatina, suco de maçã e caldo de galinha. Comi uma gelatina aos bocadinhos porque não queria vomitar. Mas aí minha glicose dei aquele show que vinha dando: subiu rápido, desceu rápido e eu fiquei miserável! Pediram, então, o caldo, que tomei com muita alegria ao longo do TP e que me salvou legal em termos de energia e tapeação da fome.
Aliás, isso foi bem diferente do parto do Arthur, quando eu perdi totalmente o apetite e não comi nada do que eu tinha comprado para enfrentar o processo. Dessa vez eu estava faminta, e me senti assim mesmo já avançada na dilatação.
Bom, entre 6 e 9 da manhã eu fiquei em trabalho de parto latente, conversando, comendo, bebendo, acompanhando as conversas entre marido e a midwife, monitorando as taxas todas no painel de exames, uma beleza! Entrei na banheira, andei pelo quarto, fiz tudo que meu corpo pedia. A medidam e marido se revezavam para fazer massagens na minha lombar — outra diferença em relação ao primeiro trabalho de parto, quando eu não queria ninguém pensando em encostar a mão em mim, menos ainda durante as contrações!
Antes de deixar o plantão, a midwife perguntou se podia fazer um toque. Autorizei, até porque eu estava muito curiosa e bem tranquila. Ela mediu e eu estava com 4cm. Debi, esse era o nome dela, uma vovozinha fofa e de voz calma, se despediu e começou o plantão da Barbara. Bróder, meu santo não cruzou com o dela! Nem no pré-natal, nem na hora, nem depois. Ela foi muito correta durante meu TP, mas foi só isso. Sei lá, não deu aquele clique legal, sabe?
Bom, como eu não tinha escolha, foquei no trabalho de parto, tentando me desconectar do mundo ao redor e mergulhar no processo, em mim, buscando me conectar de maneira profunda com meu filho.
Eu fechava os olhos, abria a boca, relaxava os músculos faciais, vocalizava e buscava a melhor posição. Naquelas horas de trabalho de parto latente, usei bola, banheira, massagens, cama, chão, banqueta, tudo! Exauri os recursos do quarto.
A coisa começou a engrenar às 10 da manhã. Entrei, nitidamente, na fase ativa. Já estava mais aérea e distante das pessoas ao redor, as contrações vinham bem doloridas e eu já estava começando a xingar — um hit para meus partos desde 2012. Também a memória ficou confusa, parece que tudo foi um grande embolado de sensações e não um continuum de tempo e fatos. Sei que tomei mais caldo de galinha, chupei gelo, mudei bastante de posição porque todas doíam muito, em algum momento parei de falar "oh my goodness" e comecei a berrar, urrar e gritar "oh my fucking goodness", porque, sim, ao contrário do que eu imaginei, eu pari em inglês, e isso fez com que meu lado racional ficasse alerta e operante durante toooooooodo o TP! Isso foi beeeem diferente em relação ao primeiro parto, e dessa vez eu não consegui mergulhar naquele estado de entrega absoluta, porque eu precisava estar presente e responder de maneira coerente à equipe que mal me conhecia — mesmo a Barbara tinha me visto uma única vez durante o pré-natal
Quando chegamos perto de meio-dia, Barbara pediu para fazer novo toque. Deixei. Estava com 8cm.
Nessa hora eu me desesperei!
(Continua na próxima postagem)

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

O parto — parte 1

Eu estava finalmente dormindo. Tinha tomado um remédio para insônia, porque nos últimos meses de gravidez estava bem difícil dormir. No meu sonho, eu sentia contrações e ia para o hospital. Chegando lá, a única sala de parto com banheira estava ocupada por uma japonesa. E eu falava "não acredito que mais uma vez eu não vou ter o quarto com banheira por causa de uma japonesa".
Acordei rindo, porque não teve nada disso no primeiro parto e eu estava em casa ainda, grávida de 40 semanas e 2 dias, conformada de que Gael nasceria só depois das 41 semanas.
Mas aí, meu riso virou surpresa, porque o que me fez acordar não foi a japonesa ladra de banheira, nem a insônia insistente, mas sim contrações. As contrações que eu vinha sentindo no sonho eram reais!
Comecei a cronometrar. Estavam vindo mais ou menos de 2 em 2 minutos.
Acordei marido e disse "alô, povão, agora é sério :chora cavaco!". Começamos a entrar em semi pânico juntos.
Era madrugada, contrações bem juntinhas, segundo filho — que geralmente nasce mais rápido que o primeiro, é isso no meu caso era meio assustador porque eu tive um TP ativo rápido para uma primípara. Nossas principais preocupações eram deixar Arthur bem com um amigo que mora aqui perto e chegar no hospital a tempo, sem parir no uber, sem sujar o carro alheio.
Liguei para a midwife, mesmo sabendo que ainda era muito cedo, porque eu precisava de respaldo profissional no monitoramento das contrações. Eu ainda achava que iria conseguir desligar meu lado racional e mergulhar fundo no trabalho de parto.
Ela confirmou que era cedo e que, apesar do curto espaço entre contrações e da possibilidade de ter um parto rápido, eu ainda estava sem sinais de TP ativo, com contrações fracas.
Fiquei em casa monitorando, portanto, por algumas horas. Sempre ligando para a midwife e tentando contato com o amigo que cuidaria do Arthur. Quando ele finamente atendeu o telefone, decidimos que deixaríamos Arthur com ele e iríamos para o hospital em seguida. Acordamos Arthur, contamos que Gael estava chegando, perguntamos se ele preferia ir ao hospital conosco ou ficar na casa do amigo. Ele escolheu o amigo, e marido foi levá-lo lá — o amigo mora no quarteirão do lado.
De repente, esse amigo liga. Para a nossa sorte, ele tinha alugado um carro para ir buscar a irmã no aeroporto! Teríamos, então, carro para ir ao hospital e a irmã dele para cuidar do Arthur enquanto ele nos levava lá.
Arrumamos o que faltava na mala — que preparei de novo em cima da hora, coisa de alguns dias antes — e fomos. As contrações estavam mais fortes e continuavam nos 2 minutos de intervalo.
Cheguei no hospital — Felipe, o amigo, entrou com o carro na contramão da emergência, para dar aquela emoção — e fui para a ala da maternidade.
O hospital daqui é imeeeeeeenso, com várias especialidades e alas. Foi onde fiz o check-up cardíaco, onde levamos Arthur quando ele deu uma cambalhota de mal jeito e machucou o pescoço alguns dias antes (eu estava de 39 semanas e tal!), enfim, é um hospital bem grande mesmo.
Na recepção, me fizeram assinar o tempo de consentimento e de ciência (de que poderia morrer em decorrência de complicações, algo bem legal), colocaram uma pulseira de identificação em mim e me encaminharam para o quarto. A midwife da clínica estava lá, preenchendo papéis, e disse que já iria nos encontrar. Pedi que me colocassem no quarto com banheira e... não tinha japonesa alguma ocupando o lugar, e a midwife já tinha reservado ele para mim.
Aqui, as coisas funcionam no sistema de plantão. Ao menos na clínica que escolhi. A midwife que estava de plantão não era a minha favorita. Na verdade, nem curtia muito ela. Mas ao longo do trabalho de parto me afeiçoei a ela e foi difícil a troca do plantão!
Entrei no quarto com marido, a midwife veio logo atrás.
(Continua na próxima postagem)

domingo, 16 de dezembro de 2018

Dez dias de vida nova

Hoje completamos dez dias de vida nova para todos da família: eu, mãe de dois, marido, pai de dois, Arthur irmão mais velho e Gael vivendo nesse mundão louco.
O coto umbilical do Gael caiu com 6 dias de vida (dia 11/12, portanto) e aqui eles mandam dar banho só depois que o coto cai. Demos banho hoje. Gael já tinha tomado uma esfregada no hospital, e hoje demos um banho caseiro. Ele detestou, chorou e brigou, mas depois ficou beeeem calminho e dormiu no colo do pai.
Hoje também tentamos dar uma volta aqui perto. Íamos tomar um café na esquina de casa porque está "calor" (5 graus Celsius). Agasalhei o pequeno, coloquei ele no ergo e fomos. Fomos até a esquina com Gael chorando e lá descobrimos que o café na tinha fechado. Eu voltei para casa e marido e Arthur seguiram até outro café mais adiante.
Nesses dez dias precisei reaprender um monte de coisas, porque já tinha esquecido desde o nascimento do Arthur, e também vi meu amor crescer vertiginosamente! Meu baby blues dessa vez foi quase inexistente, três dias de choro, cinco dias de ultra ansiedade e pronto. Também achei a transição geral mais suave. Com Arthur eu tomei um coice, caí no meio de um furacão e levei uns meses (um ano, talvez) para me levantar e lamber as feridas. Dessa vez, tomei a porrada do parto, mas saí caminhando depois de uns dias. Sei que é cedo ainda, muita água vai rolar debaixo dessa ponte, mas só de ter, até agora, conseguido dormir mais horas do que vinha dormindo no fim da gestação já é uma vitória sem tamanho.
Espero que o primeiro mês se feche leve e ocupado, como tem sido viver a 4 nos últimos dez dias.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Já deu ruim

É, pessoal, a zica da amamentação está de volta.
Começou tudo ok, dor, ferida, mas a consultora de amamentação do hospital e a enfermeira da ala da maternidade deram nota dez para a pega. Me animei e tal.
Cheguei em casa e consegui amamentar deitada, dormir com Gael no peito, estava um luxo só!
Aí, ontem (12/12), por volta de seis da tarde comecei a sentir uma puta dor de cabeça. Tomei remédio, vida que segue. A dor foi aumentando, foi ganhando como companheiras dor num quadrante do peito, dor pelo corpo como se um caminhão cegonha tivesse passado por cima de mim e ela, a estrela da noite, a febre de 38/38,5 graus.
Mastite de novo.
Agora são 4 da manhã e estou esperando a farmácia abrir para pegar o antibiótico. Na minha cidade maravilhosa não tem uma porcaria de farmácia 24h perto de mim.

Enfim, vamos que vamos, já que não tem outro jeito, né ?