quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O dia em que eu perdi a noção do tempo

Depois de perder a batata, achei que a vida entraria nos eixos, já que os exercícios viraram rotina e tudo parecia voltar aos eixos depois de três meses de férias na escola do Arthur.
Ledo engano.
Depois de perder a batata, eu perdi a noção do tempo. E comemorei, toda feliz, com um monte de gente, os dez meses do Gael! Opa! Pera. Dez meses? Pois é. Tô tão doida que errei a idade do meu filho. Mas pior mesmo foi marido, que errou o nome da criança e NÃO PERCEBEU!
Estamos cansados. Mas daqui a pouco melhora.

domingo, 8 de setembro de 2019

Uma gravidez fora da barriga

Tá sentadx? Então, senta. Vou falar uma coisa chocante que NÃO é relacionada com uma nova gravidez.
Posso falar?
Gael está com nove meses.
Uma gravidez fora da barriga.
Ele fala mamamamamã e papapapá para as pessoas certas, bate palmas, engatinha, fica de pé com apoio e come comidinhas.
Já usa roupa de 18 meses e tem sete dentes.
Mês que vem vai se matricular na faculdade e no fim do ano, morar sozinho.
Seguimos mamando, sem percalços depois do início turbulento (fissuras, mastite e noites insones).
Arthur está louco de paixão na mesma medida em que está louco de ciúmes, e vamos, dia após dia, tentando administrar essas duas vidinhas que criamos, marido e eu.
Tenho feito exercícios físicos regulares pela primeira vez na vida. Tenho meditado sempre que posso ou lembro. Tenho comido direito. Sigo 4kg acima do peso com que engravidei, 10kg a mais de quando casei. Como chocolate sem leite todos os dias.
Durmo ok. Trabalho pouco para fora de casa (me contratem! Mandem frilas!). Tenho grandes planos, pouco tempo, muita esperança.
Minha vida está em suspensão dentro de um trem-bala. Ali na frente tem uma bifurcação: não sei se voltamos ou se não voltamos para o Brasil.
A meditação mudou minha maneira de encarar todas essas incertezas. Todos os dias eu estabeleço uma meta simples, única e executável. Com isso, conquisto pequenos espaços, alcanço objetivos modestos e piro menos.
Tem dias que tudo explode. Ou desmorona. Ou derrapa. Ou estanca. No dia seguinte tiro o pó e recomeço. Ou sigo em frente.
Nove meses dentro, nove meses fora. Parece que está tudo equilibrado. Mas mês que vem ele faz dez, e é preciso reorganizar tudo de novo. Para sempre.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

O dia em que eu perdi uma batata

Estou tentando escrever este texto já tem uma semana.
Minha vida está caótica.
Administro uma criança de 7 anos de férias (3 meses), um bebê de 8 meses que coloca tudo na boca e já começou a se deslocar (não engatinha, mas quase), um apartamento com todas as suas necessidades (limpar, cozinhar, guardar, lavar, abastecer...), um casamento, uma carreira a distância (muito mais difícil, já que manter contato de longe é complicado), projetos pessoais e profissionais e, no topo disso, minha sanidade. Minha sanidade precisa de: livros, hobbies, banho, exercício físico e meditação. Minha sanidade precisa de muito, porque além de ser muito exigida, já sei que retomar o prumo é infinitamente pior que manter o eixo.
Pois bem, no meio disso tudo meu bebê começou a comer sólidos. E agora, quando vou ao mercado ou cozinho, preciso ter em mente este novo fato.
Semana passada abri a geladeira e tomei um golpe de ar: não havia nada dentro. Comecei a saga "ida ao mercado".
Lembram que há muito tempo contei como era ir ao mercado com Arthur? (Cata lá nos arquivos, que eu vou ser realista: não vou conseguir colocar o link.) Pois ir ao mercado com Arthur + Gael não ficou exatamente mais fácil.
Primeiro preciso fazer uma lista (de compras), depois outra lista (de coisas que vão na mochila comigo), depois outra lista (roupas que preciso separar para todos aqui se vestirem) e, quando já estou exausta de arrumar tudo e de tentar convencer Arthur a sair de casa, é hora de sair.
Eu saio de carrinho, mas levo o ergobaby porque geralmente Gael chora na volta e eu preciso carregá-lo. Eu saio fazendo mil papagaiadas para distrair Arthur. Eu saio já doida para voltar. E é por isso que, ao pisar no mercado, minha mente está focada em uma e apenas uma coisa :pegar tudo rápido e ir embora o mais rápido possível.
Outro dia marido ficou chocado comigo. Fomos juntos fazer as compras e, enquanto ele pegava uma dúzia de ovos e um potinho de morangos, eu já estava na boca do caixa com absolutamente todos os outros itens da lista + uma barra de chocolate extra. Acho que levei 2 minutos para resolver tudo.
Bom, então semana passada fui ao mercado, determinada a sofrer, digo, passar o menor tempo possível na missão compras. Em poucos minutos tinha resolvido tudo, pegado todos os itens, inclusive uma batata, que viraria um purê para dar para Gael.
Geralmente não compro batata porque 1) Arthur não gosta; 2) dá um trabalho do cão esfregar a casca para limpar a terra (batata aqui vem suja, você que limpe). Mas nesse dia estava determinada a fazer o tal purê.
Cheguei em casa, ainda na vibração purê, comecei a guardar tudo, organizar a cozinha para preparar o jantar e dar sequência à rotina de todos os dias.
Eu não sei vocês, mas eu cozinho assim: corre na sala para ver o bebê, briga com o mais velho porque está apertando o bebê, volta e liga o fogo, vai ver o mais velho pulando do lado do bebê, quebra dois ovos, quase joga os ovos no mais velho ou no bebê, corre para diminuir o fogo e mexer, vai pegar o bebê no colo porque chorou, desliga o fogo para não ter acidente com o bebê no colo e vai lavar louça com uma mão só, briga com o mais velho que não é hora de comer nada antes do jantar, aceita o argumento de que pepino antes do jantar pode, coloca o bebê em frente à porta da cozinha, liga o fogo, grita "outro pepino não!" e se pergunta quando virou essa adulta que grita essas frases sem sentido, tira o livro que estava lendo da boca do bebê, queima o omelete, faz o prato, pega o bebê que chorou, diz "não, chega de pepino" para o mais velho, que também chora, coloca o ergo, coloca o bebê no ergo, consola o mais velho, pede ajuda, descobre que o mais velho pegou os talheres mas parou no meio do caminho para ler revistinha e os talheres estão no chão, pega os talheres, lava os talheres, coloca o prato no micro-ondas, esquece os talheres, grita três vezes antes de ser ouvida pelo mais velho, que largou a revistinha e espalhou 457 cartas de Pokémon no chão, pisa em três cartas e num macarrão velho que não sabe de onde veio, senta, esqueceu o copo de água, volta e o mais velho tá comendo com a mão e o bebê jogou o brócolis no chão... E por aí vai.
Acho que vocês captaram a ideia.
Pois bem, nesse dia eu peguei o raio da batata e comecei a esfregar quando o caos se restabeleceu (não vou falar que ele se instaurou porque pode dar a vocês a ideia errada de que o caos não é o padrão, e sabemos que isso não é verdade). Fui acudir alguma urgência e larguei a batata lá. Que rolou quando peguei o prato para lavar e preparar o jantar. Que rolou de novo quando decidi dar outra coisa para Gael naquele dia porque já estava tarde para preparar o purê. Que se escondeu entre a louça por lavar e, finalmente, se escafedeu.
Não temos triturador de lixo acoplado ao ralo. Marido não se lembra de ter jogado a batata fora. Arthur não mexeu na pia. Eu não guardei batata alguma. Para falar a verdade, só me lembrei dela no dia seguinte, perto do almoço, quando a ideia do purê voltou a me atiçar. Mas aí já era tarde, a batata já se tinha perdido. E, como até hoje eu não sei que fim levou a batata, só posso concluir que, não, ainda não venci! Seguirei na luta diária.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A ferida

Eu tinha poucos anos, não sei dizer com exatidão, mas foi depois da minhas mortes e antes das minhas vidas. Eu usava um triciclo e corria feliz, naquele clichê de infância com vento no cabelo e despreocupação. Fui fazer uma curva e caí. Rolei. Parei na parte de areia antes da água e levantei já sentindo o cotovelo arder.
Não lembro se chorei. Nem como voltei para casa. 
À casa, que não era minha porque depois das minhas mortes eu não tive mais nada, limpei como tinham me ensinado: água, sabão e álcool. Queria pôr um curativo, porque cotovelo costuma chegar primeiro a muitos lugares — mesa, roupa, pessoa ao lado, colchão —, mas se sobrepuseram a casa que não era minha, sem minha gente, e a história perversa que se disseminou na minha infância de que eu não doía. Por isso, fiquei sem curativo, à mercê da cicatrização natural para diminuir minha dor.
Todos os dias eu passava água oxigenada, para não causar infeção. E seguia de perto a transformação de carne viva, rósea e dorida em crosta. No começo eram raios avermelhados. Depois de alguns dias escureceram, adensaram e ao fim mudaram para uma casca marrom e grossa. 
Ainda doía, só que de um jeito diferente.
Tive muito cuidado ali naquele lugar. Era sozinha e uma inflamação era arriscado.
Fui evitando raspar o cotovelo no cotidiano, segui os rituais de cura que pareceram lógicos e que doeram menos e em algum tempo caiu a casca e ficou uma cicatriz. Está aqui até hoje. 
*
Sozinha, naquele quarto de hospital, nasceu  em mim uma outra ferida. 
Ninguém veio ver Gael. Nem a mim. Rostos estranhos entravam, saíam e nunca voltavam. Eu era um número, um protocolo, um prontuário.
Nenhum amigo ligou. Nem mandou flores. Ou presentes. Ninguém correu para ver o ascendente ou fazer o mapa astral do Gael.
Eu contei que estava passando por um mau momento, que foi um parto intenso, mas as pessoas seguiram em conversas paralelas. Ninguém fez chamada de vídeo. Ou mandou comida para minha casa. Ninguém fez um texto bonito para o meu filho. Tão perfeito. Tão incrível.
Ele nasceu e tudo roçava nessa solidão horrorosa e doloridíssima.
De novo eu não estava em casa. As pessoas seguem descrendo de minha dor. Não houve curativo e há oito meses venho acompanhando com cuidado e interesse a ferida. Todos os dias passo unguentos e em alguns poucos dias tentei usar lágrimas. Parece que tem um ponto que está inflamado, mas sem pus ninguém me leva a sério. A distância também não ajuda: já tentou enxergar estando longe em cerca doze horas de voo? Tudo vira ficção. Você imagina tanto, completa muitas lacunas, tantas, aliás, que tem mais das coisas imaginadas que das experimentadas ou testemunhadas.
Todos os dias doem e sigo sozinha. Não vejo ainda estrias avermelhadas em meio à carne viva. Todos os dias eu busco a cura, a cicatrização. Mas a ferida está em área que chega antes em qualquer lugar.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Sete anos de Arthur!

Hoje meu filho completa sete anos.
Arthur é meu sol. Eu digo isso para ele. Não conheço outra criança tão brilhante e tão intensa como ele. Ele chega e tudo em volta de se apaga porque a luz que ele irradia é a mais vibrante, a mais forte, a mais incrivelmente sedutora.
Hoje, olhando para trás, percebo que não só ele é o filho com o qual eu sempre sonhei, mas também é o filho de que eu preciso para ser melhor, para crescer, para encontrar em mim tantas sementes que só germinam com a força que ele traz.
Arthur chega e muda as órbitas. Um líder nato, generoso, teimoso, determinado, pulsante, feroz, curioso, engraçado, doce, esperto, sagaz, intenso, profundo, sensível, cuidadoso, responsável, fanfarrão, divertido, amigo, adorável. Meu filho. Que há sete anos esquenta (às vezes até quase queimar) a pele delicada da maternidade que me reveste todos os dias.
Como eu amo este menino! ❤

sábado, 2 de março de 2019

O parto — parte 4

O quarto ficava em algum andar mais alto, já não me lembro qual, e dava para ver o templo de Bahá'í. Mas isso eu só descobri mais bem mais tarde, quando consegui me levantar da cama. Porque quando cheguei, precisei me deitar.
Eu me acomodei na cama para, em menos de cinco minutos descobrir que passaria 2 dias sem dormir. Mentira. Na hora eu não sabia disso, mas no fim do dia, já.
É que as camas desse hospital têm um sistema de alteração de pontos de pressão para evitar escaras e dores nos pacientes. Por isso, em intervalos regulares e curtos, esteja a cabeceira erguida ou não, a cama se mexia sozinha. No começo foi engraçado é e confortáv. No fim, desesperador! Porque quando eu finalmente encontrava uma boa posição, a cama mudava o ponto de apoio que eu estava usando e eu ficava desconfortável. Ou Gael acordava no meu colo.
Os primeiros momentos neste quarto são um borrão para mim. Não me lembro mais da ordem dos fatos e certamente já esqueci muitos detalhes.
Eu lembro que a primeira ida ao banheiro para fazer xixi foi um pavor. Eu me levantei e parecia que todos os meus órgãos estavam soltos dentro de mim. (E deveriam estar mesmo.) Me senti tonta, fraca, incapaz. Fiz xixi com ajuda da enfermagem, que me ajudou a colocar calcinha descartável, absorvente de 2m de comprimento, saco de gelo e spray anestésico.
Se o parto não teve qualquer intervenção ou medicação, o pós-parto foi uma enxurrada de tudo isso. E esse "tudo isso" teve um impacto significativo em mim.
Quando Gael chegou, veio para meu colo, para o meu peito.
Aqui, o bebê fica, durante todo o tempo que fica internado, de fralda e cueiro apenas. Isso era bom para o contato pele a pele, mas eu fiquei (outra vez) neurótica com a possibilidade de hipotermia. Até porque, em dado momento, mediram a temperatura dele e me pediram para embrulhar bem ele, porque Gael perderá muito calor.
Ficamos nós três ali, pedi comida (o hospital tinha um cardápio de várias páginas! Eu poderia escolher o que eu quisesse do menu, desde mingau de aveia até pizza) e como eu disse, só me lembro de sentir incômodos: as enfermeiras entrando todas as horas, eu ser a responsável por tomar a dose cavalar de analgésicos que me receitaram (e que tomei por medo da amamentação), eu ser a responsável por pedir comida uma hora antes de eu sentir fome (porque o menu era gigante, mas demorava mais de uma hora para chegar o que tivesse sido escolhido), ir ao banheiro e trocar aquele monte de coisas entre minhas pernas, o fato de eu sentir minha musculatura abdominal e pélvica totalmente flácidas e isso me deixar insegura para ir sozinha ao banheiro, para me levantar. Tudo que me lembro do hospital é incômodo.
Arthur veio conhecer o irmão de tarde, depois da escola. Veio, ganhou um lego, ficou todo feliz, todo enciumado, todo amoroso, todo saudoso e foi embora carregando um pedaço do meu coração, deixando um buraco que demorou para cicatrizar.
Não consegui dormir na primeira noite, mas uma hora lá apareceu uma enfermeira perguntando se eu não queria que eles levassem Gael para o berçário e eu quis. Quis porque sabia que precisava descansar e não tinha qualquer rede de apoio para fazer isso depois, em casa. Quis porque estava fraca, vinda de uma gravidez insone e desconfortável. Quis porque eram só duas horinhas, templo que Gael dormia depois de mamar. E essas duas horinhas foram as únicas horinhas que dormi ao longo da minha estada no hospital.
No dia seguinte, quinta-feira, consegui carregar meu celular, tirar fotos, levantar sem achar que iria morrer, mas ainda não conseguia me mexer com Gael no colo e não me sentia segura para andar com ele por aí. Acontece que marido precisou sair por 4h. Tinha umas coisas para resolver. Coisas inadiáveis — mas que hoje eu pediria para ele adiar mesmo assim. Fiquei sozinha. Ninguém veio me visitar. Ninguém me ligou. Ninguém veio conhecer Gael.
As enfermeiras entravam, apertavam meu útero, mediam temperaturas, pressões, valores e iam embora. Eu estava presa à cama que se mexia. Eu era um emaranhado de panos soltos, que me impediam movimentos. Gael, o tempo todo no meu colo. Eu não queria pedir ajuda para as enfermeiras, não sentia abertura na correria impessoal delas. Eu precisava fazer xixi, mas não tinha onde deixar Gael, porque para me levantar alguém tinha de me ajudar, eu não podia me levantar com ele no colo. Estava com fome com sede, cansada. Marido chegou, me salvou, fiz xixi, comi, bebi, ele chegou a ficar 4h com Gael no colo, mas não consegui pregar o olho. A cama se mexia, os hormônios rugiam dentro de mim. Comecei a sentir dor ao amamentar, os mamilos esfolaram.
Eu estava sozinha, vulnerável, a cada 12 horas mudava a equipe e vinham novos rostos apertar meu útero, medir tudo, verificar a icterícia do Gael.
Na sexta nós poderíamos ir para casa. Isso significava um mundo de burocracias. Certidão de nascimento, cadastro do bebê no plano de saúde, avaliações, assinaturas.
Era perto da hora do almoço e eu estava preenchendo o formulário amarelo da certidão de nascimento quando vi tudo rodar. Não foi uma tonturinha, não. O quarto girou, meu lábio empalideceu. Chamamos enfermagem. Mediram tudo, tudo normal. Eu achei que estivesse tendo um treco, um derrame, um ataque cardíaco, uma trombose. Chamaram a neurologista. Perguntei se eu ia morrer. Eu jurava que ia morrer nessa terra gelada, sozinha, sem visitas ao meu recém-nascido tão lindo e grande, ia morrer porque estava fraca, frágil, vulnerável, sem saber onde colocar no formulário amarelo da certidão de nascimento os 4 sobrenomes que Gael carrega.
A médica não respondeu que não. Ela não pode responder isso porque, se eu morrer, ela é processada. Mas a resposta evasiva dela não me ajudou. Reconheci o ataque de ansiedade. Avisei. Fui ignorada. Foram embora. Foram brigar com a cozinha, que ainda não tinha trazido meu almoço. Foram buscar biscoitinhos. Foram anotar no prontuário. Foram.
E o estrago estava feito: exausta, sozinha, vulnerável, responsável pela vida e bem-estar de duas crianças. Eu sentia a pressão de precisar estar bem para criar de tudo, de toda a minha vida que me esperava em casa. Eu estava me sentindo etérea, aérea, um sopro, uma pluma, leve e insustentável. Frágil.
Mas eu não podia ser frágil. Eu precisava ser forte. Inquebrável. Ágil. Destra. Independente. Responsável. Completa.
Mas toda hora vinha um rosto novo apertar meu útero, medir o mensurável, reforçar a fragilidade. Você está bem, mas pode não estar muito em breve. Você gestou e pariu 3,820kg de bebê, mas precisa de ajuda. Não, mais: precisa de vigia. Não uma vigia cuidadosa, amorosa. Uma vigia preocupada, em busca do erro que você vai cometer: deixar o bebê ir para o berçário, não chamar a enfermagem para ajudar, não ligar para a cozinha na hora certa, se esquecer de tomar os analgésicos. Estamos aqui para aguardar o erro. Inexorável e imenso. O erro está aí, basta termos tempo ou técnica para encontrá-lo.

***

A enfermeira obstétrica da clínica que eu frequentava deveria vir me dar alta. Gael estava de alta já há algumas horas. Não perdeu muito peso, icterícia controlada, meu leite já estava descendo e o colostro já não era amarelado, vinha rajado de branco. Gael estava ótimo, lindo, um mamador profissional, conforme atestou a consultora de amamentação que chamei no quarto para ver a pega.
A enfermeira que me daria alta demorou horas.
Eu me debatia entre a insegurança de ir para casa ainda me sentindo muito mal ou ficar no hospital da cama que se mexia e da imensa solidão.
Marido me pressionava para voltarmos para casa: trabalho, Arthur. A vida não parou lá fora. Eu só tinha ganhado mais uma responsabilidade, mais uma fragilidade da qual cuidar.
Eu queria ficar. Tinha medo de ir para casa e acontecer, enfim, o erro.
Eu queria ir embora, para bem longe do protocolo que não me deixava dormir na mesma cama que Gael. Para longe da cama semovente. Queria ver Arthur, abraçar Arthur, amar meu primeiro filho.
Decidi ir embora.
A enfermeira passou lá de noite.
Você sabia que o risco de eclâmpsia não desaparece com o fim da gravidez? Sabia que ela pode se manifestar até 2 semanas depois do parto?
Eu me lembro de estar sentada na recepção do hospital. Uma enfermeira desceu para nos ajudar. Eu fazia muito esforço para entender o que ela dizia. Eu fazia muito esforço para não desmaiar. Eu tinha comido um sanduíche que fiz questão de comprar naquelas máquinas automáticas antes de ir embora. O que me salvou, porque tudo demorou imensamente. Gael estava todo embrulhadinho em muitas camadas dentro da cadeirinha. Lá fora fazia -11°C. O motorista do carro foi simpático. Dei um passo de cada vez para vencer o trajeto entre a rua e a porta do prédio.
Assim que Gael deitou na nossa cama, reconheceu aquilo como seu lar. Eu vi naqueles olhos escuros que ele sabia que era outro ambiente, um ambiente repleto de erros, mas sem alguém para procurá-los incansavelmente 24h por dia. E isso fez toda a diferença. Porque os erros se misturaram aos acertos já naquele exato instante. Os acertos vieram aos poucos, embalaram meu sono. Um sono abraçado ao meu filho recém-nascido. Um sono na cama imóvel. Um sono que consolidou a rotina e fez nascer nossa nova família de quatro pessoas que erram e acertam.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

O parto — parte 3

Eu entrei em total desespero. Pânico. Pedi cesárea — mas em português, malandramente, porque eu só queria alguém para segurar minha mão e me ajudar, e esse alguém foi marido.. Eu não aguentaria dilatar mais 2 centímetros naquela intensidade de dor que eu estava sentindo! Estava há duas horas em trabalho de parto de fato, e estava sentindo muita dor! Não tinha sido assim com Arthur. Claro que eu tinha sentido dor da primeira vez, mas dessa feita as dores estavam muito mais intensas.

A midwife sugeriu umas posições, testei e não gostei, até que encontrei uma mais ou menos ok. Fiquei de joelhos na cama, a cara enfiada na cabeceira, que estava elevada. Achei que ela deu uma conduzida para me colocar numa posição boa para todo mundo, mas não estava em condições de discutir nada. Sobretudo porque eu estava desesperada, em pânico, apavorada. Eu não aguentaria aquela dor por muito mais tempo.
E foi aí que, às 11:49 da manhã, eu comecei a sentir vontade de fazer força.
E foi aí que, mais uma vez, eu tive um rebordo de colo.
A midwife ficou preocupada, me mandou parar de fazer força, disse para eu arfar quando viesse a contração, mas eu não conseguia. Eu precisava fazer força. E eu fiz.
Eu não vi, mas marido contou que ela chamou a médica de plantão do hospital, e que foi um momento tenso. Eu estava ocupada demais sentindo muita dor e fazendo força.
Fiz umas sete forças e senti o círculo de fogo. Esperei o orgasmo, mas ele não veio dessa vez, tudo era uma grande dor.
A cabeça do Gael nasceu e ele não chorou. A midwife disse que eu precisava fazer sair o corpinho e eu respondi que não estava sentindo contrações, que eu ia esperar um pouco. Quando veio a próxima contração eu senti o corpinho girar e escorregar.
Gael ficou quietinho por alguns segundos, mas então chorou. Um choro de verdade, mas não muito forte.
Eu ainda estava na mesma posição do parto, eu ainda não estava pronta para receber meu filho no colo, porque eu esperei mais de dois meses para conseguir respirar sem sentir falta de ar. Eu, então, respirei fundo e peguei meu filho, meu segundo filho nos braços.
Coloquei ele no peito, perguntei as horas, eram 12:02, e algum tempo depois nasceu a placenta. Tirei foto da placenta. O cordão parou de pulsar, marido cortou, Gael foi colocar uma touca e ser embrulhado em paninhos.
Voltou para o meu colo.
O protocolo do hospital é deixar mãe e bebê por uma hora e meia na sala de parto, juntos, sozinhos, com uma enfermeira vindo de tempos tem tempos para medir os sinais vitais da dupla e monitorar o pós-parto imediato.
Ficamos, portanto, uma hora e meia ali, amamentando, curtindo o novo bebê, tirando foto.
O tempo voou.
Veio, então, a enfermeira me buscar para me levar para o quarto onde eu ficaria internada pelos próximos dois dias — outro protocolo.
Eu fui com Gael na cadeira de rodas. Subimos para pesar, medir e fazer os primeiros testes com o bebê. Eu poderia ter ficado ali se quisesse. Mas estava me sentindo muito fraca e tonta, preferi ir para o quarto descansar e deixei marido com a função de cuidar do pequeno.
Essa parte também está confusa na memória porque eu estava realmente tonta. Sei que pesaram ele na hora e todos ali se espantaram com o tamanho: 3,820kg.
Eu não fiquei muito espantada. Primeiro porque eu sabia que era um bebê grande, já que minha barriga ficou gigante e eu fiquei imprestável no fim da gravidez, sem conseguir comer, respirar, dormir, andar... Segundo porque eu estava doidona de hormônios + tonta de cansaço.
Fui para o quarto, e aí começou o terror.
(Continua na próxima postagem — spoiler: clinicamente, meu pós-parto foi perfeito, mas psicologicamente...)