domingo, 1 de abril de 2018

É só um momento miserável

Arthur estava dormindo. Eu estava na cama, já quase tomando o mesmo destino quando me sobressaltei com um berro: MÃÃÃEEEEE!
Dei um pulo e em dois segundos estava ao lado dele, que estava visivelmente chateado, mau humorado mesmo.
- O que foi, filho? Quer água?
- Não! (Ainda muito chateado.)
- Quer fazer xixi?
- Não!
- Teve um pesadelo?
- Não, I'm just having a miserable time*.

E durma-se com um vocabulário desses!!

*Tradução: "eu só tô passando por um momento miserável".

sábado, 10 de março de 2018

Porque a vida está fácil...

Marido foi viajar a trabalho. Nem foi para longe, mas foi. Com isso, na quinta, véspera da viagem, ele foi buscar o pequeno na escola (geralmente eu que busco). Chegaram em casa quarenta minutos depois, o que é normal, porque sempre rola aquela brincadeira no parquinho, aquela caminhada devagar, catando pedrinhas e gravetos. Chegaram com uma sacola e Arthur com cara de safado, falando frases tipo: "a gente não comprou nada, tá?" (e "baixinho" para o pai: "não conta pra ela!"). Entrei na brincadeira, olhando de soslaio a sacola plástica na mão do marido. "Ah, não compraram? Tudo bem."
Era a mesma sacola do restaurante japonês, então meu estômago já dava pulinhos de alegria.
Marido, então, pede: "Ártemis, olha a mochila do Arthur."
A mochila pesa mais de 2kg, o que é surreal, pois ele saiu de casa só com o tênis lá dentro.
Abro.
Em uma fração de segundos processo tudo que está ali dentro. Não é sushi. Nem sashimi. Um saco. Cheio de pedrinhas. Pedrinhas cor-de-rosa e lilás. Pedrinhas que eu conheço bem.
Porque a vida está bem fácil, comigo trabalhando com três clientes ao mesmo tempo, marido na fase mais difícil do trabalho dele, com viagens, compromissos e palestras, Arthur demandando aquela atenção que um menino esperto de 5 anos demanda, a casa, as coisas da casa, a vida no Brasil e as pessoas no Brasil, porque tudo isso estava fácil demais, marido comprou um peixe!
Agora temos um peixe no quarto do Arthur. Ele nada em um aquário de pedrinhas cor-de-rosa e lilás e em meio a uma planta de plástico cafona nas mesmas cores das pedrinhas. Ele é vermelho e se chama Pinky. A nova cor favorita do Arthur é rosa, acho que já deu para notar, né?
Arthur está encantado.
No dia que o peixe chegou, notamos que a loja esqueceu de colocar a comida no kit do aquário. Por isso, precisamos sair de novo para estrearmos a vida a quatro em grande estilo (ou seja, sem matar o peixe e traumatizar a criança para sempre). Arthur começou a chorar, sentido.
"Mamãe, o peixe vai ficar sozinho? Ele acabou de chegar aqui, não conhece a casa, não sabe quem somos, não sabe que a gente vai cuidar dele. Ele vai achar que está sozinho, abandonado!"
"Meu filho, não vai. Ele sabe que chegou aqui, ele vai ficar bem. Vamos lá antes que a loja feche."
"Não! Ele vai ficar sozinho, tadinho!"
E chorou. E chorou.
Aí chamei filhote para o colo, abracei e sugeri:
"Por que você não vai lá e explica para ele? Assim ele vai saber que a gente vai e a gente volta, vai saber que fomos só buscar comidinha para ele!"
Ele foi. E falou, contou tudo. Quando achei que, enfim, ele sairia comigo, Arthur deu meia-volta e, por sobre o ombro, explicou:
"Ele não vai entender! Eu falei em português com ele!"
E repetiu tudo, tintim por tintim, em inglês.

O peixe está aqui e, brincadeiras à parte, não dá muito trabalho, não. É só dar comida diariamente e trocar a água a cada 1 ou 2 semanas. Quero dizer. Isso e, é claro, todas as noites precisamos dar beijinhos de boa noite no vidro, todas as vezes que vamos sair temos de explicar onde vamos, quando voltamos, quanto tempo ele vai ficar sozinho... Mas pelo menos agora, ao que parece, o peixe já aprendeu o português.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Sibéria não é fria

Chicago é uma cidade cosmopolita e, aqui, você encontra gente de tudo quanto é canto do mundo. Muitos, muitos, muitos imigrantes mesmo. Arrisco dizer que metade das pessoas que conheço são nascidas aqui, a outra metade imigrou.
Pois que nessa cidade do mundo também faz um frio dos infernos. Semana passada chegamos a -20 e tantos. Amanhã uma penca de serviços estarão fechados por conta da nevasca que está caindo enquanto escrevo este post. E assim, falar sobre o tempo para puxar papo é sempre maravilhoso, primeiro porque esse é, mundialmente, o tópico número um de quebração de gelo, um terreno bastante seguro para conversar com o cara de Kosovo ou com a moça da Turquia, com a adolescente mexicana ou com o senhorzinho sul-coreano. Segundo, porque aqui, com esse tempo doido e gélido, sempre temos assunto: é nevasca, é tufão, é calor dos infernos, é tornado, é chuva torrencial...
Então, quando entrei na sala de aula naquele dia, minha língua nem precisou se conectar ao cérebro para articular um "nossa, que frio!" em meio a norte-americanos e imigrantes. Responderam todos no mesmo tom - sim, muito frio! nossa, está demais! tomara que melhore logo - e por isso me senti segura. Continuei o papo. Alguém perguntou: ei, de onde você é? E eu: do Brasil. A pessoa: nossa, e veio parar em Chicago? E eu de novo: pois é, vim parar na Chibéria. Norte-americanos riram, uma moça da Moldávia também. Mas uma outra, não. Ela, muito séria, perguntou: é o quê, hein? E eu expliquei: é que aqui é tão frio que o pessoal brinca que é Chibéria, uma mistura de Chicago com Sibéria. E ela, muito espantada: mas a Sibéria não é fria! Todos nós: OOOOOOO (essas são as bocas abertas, depois de os queixos caírem). E ela continuou: é! Eu sou russa e na Sibéria não faz frio, na minha cidade natal chega a -50. Nós de novo: OOOOOOO.
Então, amigxs, porque você continua lendo este blog, agora já sabe que o trocadilho é engraçado, mas só funciona se não tivermos russos nos arredores, porque, afinal, não faz tanto frio assim na Sibéria, como disse a moça que foi a única a não reclamar dos -20 e tantos da semana passada.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ártemis Tribiani, ou o mico do dia do peru

Vocês já assistiram a esse episódio de Friends? É um que a Rachel decide fazer a comida e não percebe que misturou duas receitas: um bolo de carne e uma espécie de pavê. Todo mundo acha aquilo horrível, menos Joey, que come e ainda explica porque gostou:


GIF daqui: https://goo.gl/images/63tPqF

Então...
Ontem foi Dia de Ação de Graças. Também conhecido como Thanksgiving ou Dia do peru, como preferirem.
Fomos gentilmente convidados para o jantar por um amigo meu. Família tradicional, jantar tradicional, aquela coisa.
Às vezes é bem tenso ser estrangeiro, porque a gente nunca sabe de verdade, e geralmente até cometer uma gafe, quando foi que ultrapassamos um limite social ou quando ficamos aquém da polidez esperada.
Tomei o cuidado de levar flores para a dona da casa, cuidei para que estivéssemos todos vestidos adequadamente, me certifiquei de usar todos os porfavores e obrigadas. Mas não estava preparada para o jantar.
A anfitriã passou a manhã toda cozinhando um imenso peru, o molho de cranberry, as vagens com um toque de limão e gengibre, uns bolinhos de alguma coisa que não identifiquei, as couves-de-bruxelas temperadas e misturadas com macadâmias glaceadas, o purê de batatas e mais alguns pratos que estavam à mesa. Eu não queria fazer desfeita, eu queria ser delicada e grata àquela pessoa que cozinhou para mim, eu queria que meu amigo continuasse meu amigo, então fiz o que mamãe me ensinou: coloquei no prato um pouquinho de cada coisa, tomando o cuidado de pôr quantidades proporcionais ao meu apetite, para não fazer a desfeita de deixar comida no prato.
Fomos para a mesa. Bebemos, comemos. Todos rindo muito das tiradas engraçadíssimas e mordazes da dona da casa (uma: ela virou-se para nós, falando do Arthur: "ele é adorável! quantas vezes por dia vocês precisam bater nele para que ele se comporte bem assim?" e todos rimos muito). Que sorte a minha, porque ninguém reparou quando eu tive um acesso de riso. Que sorte, porque ninguém prestou atenção no que ia no meu prato. Que sorte! Porque entre perus, couves-de-bruxelas, vagens e purês de batatas, eu me servi de um doce feito de custard (um creme bastante tradicional nos países anglófonos), abacaxi e marshmallows, achando que fosse uma espécie de salada de batatas (aquelas com maionese e maçã, sabem?). Agora vocês imaginem minha surpresa ao mordiscar um marshmallow entre um naco de peru e vagens!
Em minha defesa, informo que meu amigo foi nomeando os pratos e chamou isso de "salada". Óbvio que eu não ia perder a oportunidade de rir de mim mesma, então eu contei a história ali mesmo, à mesa, logo depois do ocorrido, e só o casal de mexicanos que também estava lá como convidados riu frouxamente. Os norte-americanos não entenderam muito bem, porque, conforme eles me explicaram, algumas pessoas comem aquilo, sim, como uma salada, junto com a comida salgada.
Eu deveria ter desconfiado quando fui a única a me servir daquilo, ou mesmo quando uma bolota branca rolou para a beirada do prato. Mas eu estava preocupada em manter a polidez, em prestigiar os anfitriões, então apenas me sentei e comi quietinha: peru? booom. Vagem? boooom. Purê de batatas? booom. Custard com marshmallow e abacaxi? boooom!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

"A Grace gosta muito de peru" e outras gracinhas

Faz tempo que não comento das gracinhas/fofuras do Arthur por aqui. Então, quando hoje ele voltou para casa com mais uma história deliciosamente engraçadinha, decidi vir aqui registrar.

Estamos na época do Thanksgiving, que é tipo "o" feriado norte-americano. As famílias viajam para jantarem juntas, a escola do Arthur fica uma semana inteirinha sem aula (socorro!), as pessoas começam a comprar imensos perus que serão assados e comidos acompanhados de molho de cranberry e uma espécie de farofa de pão temperada com ervas e alho (chamada stuffing) e também é quando as pessoas contam os segundos para a famosa Black Friday, que como o nome sugere, acontece na sexta-feira depois do Thanksgiving.
Pois bem, como aqui nada se perde, tudo vira consumo, é hora de substituir a decoração de Halloween pela decoração de Thanksgiving, que geralmente envolve as cores laranja, vermelho e marrom, alusões a folhas secas, cornucópias recheadas de abóboras remanescentes e outras coisas na paleta de cores acima, perus e trajes típicos dos chamados pioneiros, os primeiros colonos (ou dependendo da leitura histórica, os usurpadores de terras indígenas e assassinos do povo que aqui habitava).
Saíamos do clube. E aqui eles têm um espaço kids, onde as crianças podem brincar, correr, andar de bicicleta e desenhar. E os desenhos/pinturas das crianças ficam expostos no corredor. É bem fofo!
Então, saíamos do clube, passando por esse tal corredor, quando Arthur para diante de um desenho de um peru sorridente.
— Pai, o que está escrito ali?
— Grace, meu filho. Foi quem pintou esse desenho.
— E aqui?  — outro desenho de peru, em outra posição agora, com as penas abertas como se fosse um pavão.
— Também foi a Grace, filho.
— Nossa! A Grace gosta muito de peru!

***

Hoje foi dia de vacina. E, ao que parece, também foi dia do número quatro: nossa consulta foi às 4, eram 4 vacinas e foram precisos 4 adultos para segurar Arthur.
Bom, passado o estresse necessário (eu, pelo menos, considero necessário), voltamos para casa e começamos a preparar o jantar. (Jantar no inverno nessas bandas é cedo: seis da tarde já está todo mundo desesperado de fome como se fossem nove, dez horas no Brasil.) Aqui temos o hábito de ouvir música enquanto cozinhamos, e hoje o aplicativo escolheu Wilson Simonal para trilha sonora.
Daqui a pouco, Arthur se vira para nós com a expressão de quem entendeu tudo e diz:
— Ahhhhh, já sei porque vocês escolheram essa música para tocar!
Nós:
— ??????
— Porque fala de vacina!
E Simonal, como que para referendar Arthur, canta seu refrão: "nem vem, guarda seu lugar na fila, todo homem que VACILA, a mulher passa pra trás."

***

Por fim, para finalizar esta adorável coleção de gostosuras, uma mais antiguinha, mas ainda inédita por aqui.

Eu não sei se vocês todxs sabem, mas almoço aqui nos EUA é um troço meio esquisito. Acho que a melhor definição é de uma amiga brasileira que mora aqui há quase 15 anos: é comida que não é de panela.
Então, vale tudo, desde que panelas não estejam envolvidas: sanduíches, saladas, biscoitinhos, queijo, legumes crus (geralmente cenoura, brócolis, couve-flor, aipo e tomate), pipoca, cheetos, maçã, frutas. Enfim, qualquer coisa, dependendo do hábito alimentar da pessoa. Mas qualquer coisa que não esteja quente (única exceção é sopa, que eles também tomam no almoço, mas que costuma ir na garrafinha térmica).
Bom, Arthur é um brasileiro morando fora, então, mesmo que já tenha absorvido muitos aspectos de outras culturas, a base é brasileira ainda, e com o almoço não é diferente: ele come comida de panela, que geralmente eu faço às sete da matina, antes de despachar a criança para a escola.
Bom, confesso que eu estava um pouco apreensiva quando chegamos porque seria a primeira vez que Arthur almoçaria na escola, e eu sei dessa diferença cultural. Então, me perguntava se Arthur notaria a diferença (claro que sim, mas eu me perguntava em que nível, com que leitura), como os amiguinhos receberiam um hábito alimentar diferente, essas coisas.
Aí, logo depois da primeira semana de aulas, Arthur se vira para mim e fala:
— Mamãe, ninguém almoça na minha escola!
— Ah, é, filho?
— É, eles só fazem um lanchinho, eles até chamam de lunch.

(<3)

Aí eu expliquei que lunch era almoço em inglês e que as pessoas têm hábitos diferentes na hora de comer.
Ele segue levando comida de panela, os amiguinhos seguem só fazendo um lanchinho, e tá tudo bem. :)

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O cano - episódio final

Então, no dia seguinte àquela postagem, o bombeiro hidráulico veio aqui. Simpático, trabalhou por TRÊS horas na minha cozinha e não conseguiu desentupir!
Saí de casa para buscar Arthur na escola com a recomendação de que não abrisse a pia, pois ele também tinha colocado um "dissolve tudo" do capeta no cano e precisava esperar algumas horas antes de ver se a coisa tinha funcionado. Quis sugerir que ele calçasse luvas, mas achei que ele já sabia dessa manha e fui embora. O plano era: de duas a três horas sem abrir a pia, depois abrir a pia. Se a água corresse, vida que segue, tudo deu certo. Se não, ele subiria para ver se o vizinho do outro andar também estava sofrendo com o entupimento. Se estivesse, a coisa era mesmo na coluna, se não, era aqui em casa.
Bom, três horas depois o rapaz veio, ligou a água: tudo na mesma. Subiu: não era coluna. E como já era supertarde, ele disse que voltaria no dia seguinte para QUEBRAR MINHA PAREDE e furar o cano.
Chorem comigo.
Obra na gringa.

Mas o dia seguinte veio e levou consigo o que quer que estivesse entupindo o cano, porque o rapaz não quebrou foi nada (eu estava na rua dessa vez, não vi como ele resolveu) e agora tenho uma pia que não vaza, nem alaga. E o mais importante: a máquina de lavar louça está funcionando a pleno vapor! <3

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Entrando pelo cano

Eu vou contar aqui porque minhas amigas não deram muita bola e eu preciso exorcizar esse dia.

Eu acho que esse dia começou há um ano, quando ainda estávamos na Bélgica, e todos comemos um hambúrguer maravilhoso que depois colocou todo mundo para vomitar as tripas. Então, hoje, quando o telefone tocou às quatro da manhã com uma notícia preocupante do Brasil, fui graciosamente lembrada do "hambúrguer do mal", apelido carinhoso que demos ao lachinho belga. Fui lembrada porque tiramos foto no restaurante, inclusive do hambúrguer, que estava muito gostoso (até colocar todo mundo passando muito mal). E eu tenho um aplicativo que às vezes volta no tempo e traz fotos de um, dois, três anos atrás.
O telefone tocou, marido atendeu, conversou o suficiente para eu saber qual era o assunto e seu grau de importância, e então fui checar o celular, para ver as horas e tinha lá "há um ano" com a foto do hambúrguer do mal.
Depois disso, o dia seguiu como todos os outros. Até de tarde.
Cheguei na escola e fiquei tentada a perguntar para a professora se deram um expresso no lanche para Arthur. O menino estava numa energia tamanha que era capaz de acender uma lâmpada se eu encostasse na ponta do nariz dele! Voltamos correndo para casa porque a pia entupiu.

[pausa dramática]

Vasos, pias, banheiras. Domino a arte do desentupimento depois de tantos perrengues (se não leu ou não se lembra, cata aqui nos arquivos a história do vaso entupido). Por isso, antes de ir buscar Arthur dei uma passadinha na loja de ferragens do bairro e comprei o equivalente ao Diabo Verde na gringa. Eu já conhecia o produto e sua velocidade em resolver entupimentos chatinhos, então fiz o primeiro procedimento antes de ir buscar filhote e depois voltei correndo para casa a fim de fazer tudo de novo e, enfim, resolver o problema na pia da cozinha.

[eu queria mandar um beijo para o meu amigo Murphy. Fiel e leal, nunca me abandona]

Às vezes eu acho que o universo sabe que eu tenho um blogue e que eu gosto de escrever, então torna as coisas, de propósito, mais atraentes para uma romanceada. Nada parece ser simples, nada parece se resolver em poucas etapas na minha humilde vida. Passo perrengue na neve, no calor, no sol, em inglês, em holandês. É só escolher: tá lá, feito um aplicativo da vida real, uma memória das situações complexas dessa vida simples que levo.
Uma pessoa, não eu, desentupiria a pia e seria feliz. A minha pessoa não desentope a pia, porque se tivesse desentupido não dava história.
Bom, cheguei em casa, refiz o procedimento com o químico e a coisa piorou. Trancou de vez o ralo, a água que antes escorria com vagar agora poderia ser criadouro do mosquito da dengue se aqui tivesse mosquito da dengue e se eu não tivesse jogado química braba naquela água (guardem esta informação).
Arthur quicava dentro de casa, animado na mesma medida que estava irritado/entediado (eu estava tentando resolver a pia, lembram? sem mamãe para brincar com ele, portanto). Marido fora, resolvendo pendengas (ele também é rei!). Eu, além de resolvendo a pia, estava olhando de cinco em cinco segundos para o celular, esperando uma ligação importante que deve acontecer por esses dias a respeito de um pepino burocrático que precisamos resolver (de novo, para sempre). Marido chega, trouxe comida congelada, brinca com Arthur, salva a mulher do endoidecimento, vamos todos para a cozinha esquentar as coisas no micro-ondas.
Marido ouve um barulho debaixo da pia e descobre que o cano está vazando! Gotas gordas caem em cima das coisas que armazenamos ali embaixo. Retiramos tudo apressados, colocamos um balde, o estrago foi pouco, mas em poucos minutos as gotas se transformam em um filete, que logo passa a um fluxo considerável. Aguardamos com o balde ali.
No armário debaixo da pia, o sifão me dá uma piscadinha:
- Ei, Ártemis, vem cá. Se você me abrir, pode ser que encontre o entupimento e resolva o problema.
Ele só faz isso porque leu o e-mail do faz-tudo que chamei dizendo que só poderá vir aqui amanhã, boa noite, madame, tenha bons sonhos. Ele só faz isso porque sabe que eu sou dessas, que tenta resolver, que aparafusa, serra, martela. Ele só faz isso porque sabe que eu tenho um blogue.
Vou até lá, marido saca o flerte e chega junto.
- Vamos abrir o sifão, Ártemis.
- Vamos!
Balde a postos, Arthur curiosíssimo, rosqueia daqui, rosqueia de lá e... chuáááááá! Uma cachoeira de água nojenta nos encharca (Arthur salvo, felizmente). Desentupiu? Sim, não, talvez? E de repente...
- AAAAAHHHHHHHHHHHH!
Lembram do químico que joguei na pia? Então, ele queima a pele, tá? Fica a dica, caso vocês morem aqui. Não abram o sifão sem luvas se tiverem jogado químico cano abaixo. Nós fizemos isso e corremos com as mãos em brasas para debaixo do chuveiro. Um pânico!
Neste momento, neste exato e preciso momento, o que acontece? Hein, hein, hein? Isso aí: toca meu telefone com aquela ligação importante! Vocês atenderam? Nem eu. Mas tudo bem, pensei, acabou de pular o ícone da caixa postal, a pessoa deve ter deixado recado. Fui ver e a mensagem (3 minutos) era um lindo apito de estática gravado e reproduzido no meu ouvido.
Bom, resumo do dia: marido comeu algo que não lhe fez bem (não foi hambúrguer, mas foi igualmente do mal), nosso entupimento não é no apartamento, mas sim na COLUNA do edifício, não sei o que a pessoa que me ligou queria dizer e amanhã já tenho tarefas burocráticas de novo e aqui estou passando cremes e mais cremes nas mãos para amenizar a aspereza pós-produto químico do capeta.
Amanhã a saga continua com o faz-tudo, a ligação, limpar e arrumar a cozinha toda ensopada de água nojenta (limpamos quase tudo hoje, mas com certeza amanhã teremos nova edição, já que o homem que vem aqui deve também fazer certa bagunça para desentupir o cano).

Universo, só queria dizer que eu também sei fazer postagens fofinhas, tá?