quinta-feira, 14 de junho de 2018

Relato do segundo positivo

Oficialmente, iríamos começar as tentativas em agosto de 2018, mas eu sabia que existia a possibilidade de estar grávida.
Então fiquei atenta ao combo tentante: micro sintomas da progesterona em meu corpo, olho na temperatura basal (que pela primeira vez na vida estava sendo tirada certinho, no mesmo horário todos os dias e tal - tudo como preparação para agosto) e contando os dias do ciclo.
Aproveitei para catar umas anotações que tinha feito durante a gravidez do Arthur, com as datas de exames, da provável ovulação, com os sintomas que senti no comecinho, depois nas primeiras semanas. Enfim, dei aquela refrescada na memória porque, né, quase seis anos se passaram.

(Eu tenho a teoria do HD, que é a seguinte: nossa cabeça vai acumulando memórias e informações até um certo teto, depois ela vai abrindo espaços deletando o que já não serve e substituindo por infomações ou lembranças mais úteis naquele momento. Isso explica porque eu soube a fórmula de Baskara por tantos anos, mas hoje em dia não consigo nem me lembrar para o que serve a dita fórmula.)

Pois bem, eu já tinha liberado espaço para coisas maravilhosas da vida como: qual marca de café é a mais gostosa aqui, como preencher o IR, qual caminho é mais curto para chegar à biblioteca, qual é o telefone do marido, essas coisas. Então, reler as tudo aquilo à luz dos conhecimentos que acumulei ao longo desses anos sobre o método sintotermal de controle da fertilidade me trouxe uma série de informações curiosas e valiosas sobre meu corpo.
Com isso, fiquei atenta e sabia exatamente quando começar a testar para detectar uma possível gravidez.

Então, o aplicativo que uso para controle da fertilidade me sugeriu um dia da ovulação, e eu concordava com a data apontada. Dali, contei uma semana e decidi que começaria a testar. Seria meu 7DPO (sétimo dia pós-ovulação), o que é bastante cedo, eu sabia, mas estava ansiosa, óbvio. Admiro as pessoas que falam "vou esperar até o 12DPO para testar" e esperam! Eu não sou dessas. Então comprei 20 "internet cheapies" (baratinhos da internet, na tradução livre) e decidi que tinha 20 dias de xixi no palito pela frente.

Desde o 1DPO eu vinha sentindo coliquinhas, o que era bem esquisito, porque eu NUNCA tenho cólicas, e quando tenho é só no dia da menstruação mesmo. Fiquei atenta e comecei a marcar no aplicativo as cólicas. Meus seios também ficaram doloridos, mas embora esse sintoma seja mais comum alguns dias antes da minha menstruação, eu não achei tão fora da curva quanto as cólicas. Isso porque eu sabia que seios doloridos são uma das consequências da progesterona no corpo, e que progesterona faz parte do ciclo natural feminino, mesmo quando não ocorre gravidez ela está lá. Passei 6 dias anotando detalhadamente tudo que sentia durante o dia no aplicativo (um diário mesmo). Tintim por tintim. Tudo!
No 6DPO senti uma dor lancinante na altura do umbigo à noite. Eu estava sentada quando aconteceu e foi difícil até me mexer. Ela veio forte e depois fiquei com a sombra dela por alguns minutos mais. Decidi fazer o teste, primeiro porque para uma pessoa ansiosa tudo é pretexto, segundo porque eu estava começando a ficar preocupada, achando que eu poderia estar desenvolvendo uma infecção urinária (eu nunca tive IU, então não faço ideia dos sintomas). O teste voltou negativo, sem dúvida, e eu falei com umas amigas, que me acalmaram quanto à IU, porque eu não tinha febre e os sintomas clássicos. Fui dormir encucada, preocupada comigo.
Então, no 7DPO eu fiz xixi no palito de novo. Os sintomas que eu vinha sentindo desapareceram por completo e eu estava desesperançada. Esperei os cinco minutos determinados pelo fabricante e o teste ficou branco, só com a linha de controle.
No 8DPO, acordei e decidi testar com a primeira urina da manhã. Os outros testes eu fiz quando deu, sem muita esperança, sem muita disciplina, porque sabia que era cedo demais. Esse do 8DPO, de manhã, voltou branquinho, branquinho. Mas, porque sou teimosa, fiz outro teste à noite. Olhei para a tira e achei que estivesse vendo coisas. Olhei na luz do abajur, na luz do banheiro, com a lanterna do celular e continuei sem saber se era mesmo uma segunda linha ou não. Decidi fazer outro teste, convencida de que aquele estava defeituoso, me mostrando uma sombra, uma linha evaporação, sei lá. O segundo teste voltou com outra sombra. Chamei marido (Arthur já dormia) e falei: tô vendo uma segunda linha. Ele não viu e tentou sugerir que eu estava querendo tanto um bebê que via coisas que não existiam. Cortei logo e falei: amanhã eu provo para você que a linha existe. Porque eu via a linha, ela estava lá, duas vezes, duas sombras, dois borrões quase invisíveis. Mas eu não sabia se ela iria de fato escurecer.
No 9DPO, com a primeira urina da manhã, apareceram as duas linhas. Uma delas claríssima, mas já não dava para dizer que era impressão, defeito ou delírio. Fiz outro teste com a segunda urina da manhã (que descobri ser melhor para mim, em termos de teste) e lá estavam as duas linhas de novo. Marido continuou em negação. hahahaha
Entrei em um fórum gringo, criei uma conta e postei a foto, perguntando se as pessoas também viam a segunda linha. E elas viram! Aí, eu já não tinha mais dúvidas, mas marido continuava desconfiado, achando tão surreal engravidarmos de primeira, que eu precisei esperar até o dia seguinte para provar que eu estava, sim, grávida, muito embora eu tenha feito mais dois testes ao longo do dia, todos positivos.
Então, no 10DPO eu acordei e fiz outro teste com a primeira urina da manhã. Positivo ainda clarinho, mas inegável e mais escuro que o do dia anterior. Ou seja, havia progressão do hcg. Aproveitei que estava saindo e anunciei: vou comprar um teste de outra marca, para tirarmos a dúvida de vez. E voltei com um teste digital do supermercado daqui de perto. Testes digitais são mais direitos e objetivos, porque mostram SIM ou NÃO, sem linhas clarinhas para confundir. As instruções falavam em três minutos para o resultado, mas entre o primeiro e o segundo minuto a ampulheta parou de piscar e apareceu bem bonito na tela "PREGNANT", grávida. Era oficial!
Ao contrário da gravidez do Arthur, decidi contar para algumas pessoas próximas logo de cara. Algumas amigas queridas ficaram sabendo quase que na mesma hora que tiramos a prova dos nove. Marido contou também para os dois melhores amigos. E seguimos no plano de contar para todo mundo oficialmente só depois dos três meses iniciais.
Também contei para duas amigas daqui dos EUA, porque precisava de ajuda para entender o sistema de saúde, saber como iniciar o pré-natal, com quem, essas coisas.
E decidimos só contar para Arthur quando tivéssemos a certeza de ser uma gravidez viável e saudável. Isso porque desde que aprendeu a falar que Arthur me pede um irmão ou uma irmã, e seria absolutamente frustrante para ele viver essa montanha-russa emocional. Decidimos poupá-lo.

Para concluir, vou colocar aqui os sintomas que tive e que me fizeram ligar o alerta:

Cólicas desde o dia seguinte à ovulação; micro tonturas por dois dias não consecutivos; seios doloridos também desde o dia seguinte à ovulação; meu colo do útero de repente fechou, alguns dias após a ovulação, o que colocou uma pulga imensa atrás da minha orelha, porque desde que Arthur passou por ali que meu colo ficava fechado, pero no mucho. As cólicas se alternaram entre "sensação de atividade no baixo ventre" (como se estivesse acontecendo alguma coisa por ali); "sensação de peso", que às vezes se expandia para as pernas, como se eu estivesse perto da menstruação; pontatinhas e incômodos no lado esquerdo, primeiro perto do ovário, depois mais embaixo; pontadas agudas e bastante doloridas na altura do umbigo e como se estivessem descendo pelo colo do útero (por isso que pensei que fosse IU). Outra coisa que também estava bem fora do padrão era o muco cervical, que desapareceu, quando, geralmente fica constante até a chegada da menstruação.

domingo, 1 de abril de 2018

É só um momento miserável

Arthur estava dormindo. Eu estava na cama, já quase tomando o mesmo destino quando me sobressaltei com um berro: MÃÃÃEEEEE!
Dei um pulo e em dois segundos estava ao lado dele, que estava visivelmente chateado, mau humorado mesmo.
- O que foi, filho? Quer água?
- Não! (Ainda muito chateado.)
- Quer fazer xixi?
- Não!
- Teve um pesadelo?
- Não, I'm just having a miserable time*.

E durma-se com um vocabulário desses!!

*Tradução: "eu só tô passando por um momento miserável".

sábado, 10 de março de 2018

Porque a vida está fácil...

Marido foi viajar a trabalho. Nem foi para longe, mas foi. Com isso, na quinta, véspera da viagem, ele foi buscar o pequeno na escola (geralmente eu que busco). Chegaram em casa quarenta minutos depois, o que é normal, porque sempre rola aquela brincadeira no parquinho, aquela caminhada devagar, catando pedrinhas e gravetos. Chegaram com uma sacola e Arthur com cara de safado, falando frases tipo: "a gente não comprou nada, tá?" (e "baixinho" para o pai: "não conta pra ela!"). Entrei na brincadeira, olhando de soslaio a sacola plástica na mão do marido. "Ah, não compraram? Tudo bem."
Era a mesma sacola do restaurante japonês, então meu estômago já dava pulinhos de alegria.
Marido, então, pede: "Ártemis, olha a mochila do Arthur."
A mochila pesa mais de 2kg, o que é surreal, pois ele saiu de casa só com o tênis lá dentro.
Abro.
Em uma fração de segundos processo tudo que está ali dentro. Não é sushi. Nem sashimi. Um saco. Cheio de pedrinhas. Pedrinhas cor-de-rosa e lilás. Pedrinhas que eu conheço bem.
Porque a vida está bem fácil, comigo trabalhando com três clientes ao mesmo tempo, marido na fase mais difícil do trabalho dele, com viagens, compromissos e palestras, Arthur demandando aquela atenção que um menino esperto de 5 anos demanda, a casa, as coisas da casa, a vida no Brasil e as pessoas no Brasil, porque tudo isso estava fácil demais, marido comprou um peixe!
Agora temos um peixe no quarto do Arthur. Ele nada em um aquário de pedrinhas cor-de-rosa e lilás e em meio a uma planta de plástico cafona nas mesmas cores das pedrinhas. Ele é vermelho e se chama Pinky. A nova cor favorita do Arthur é rosa, acho que já deu para notar, né?
Arthur está encantado.
No dia que o peixe chegou, notamos que a loja esqueceu de colocar a comida no kit do aquário. Por isso, precisamos sair de novo para estrearmos a vida a quatro em grande estilo (ou seja, sem matar o peixe e traumatizar a criança para sempre). Arthur começou a chorar, sentido.
"Mamãe, o peixe vai ficar sozinho? Ele acabou de chegar aqui, não conhece a casa, não sabe quem somos, não sabe que a gente vai cuidar dele. Ele vai achar que está sozinho, abandonado!"
"Meu filho, não vai. Ele sabe que chegou aqui, ele vai ficar bem. Vamos lá antes que a loja feche."
"Não! Ele vai ficar sozinho, tadinho!"
E chorou. E chorou.
Aí chamei filhote para o colo, abracei e sugeri:
"Por que você não vai lá e explica para ele? Assim ele vai saber que a gente vai e a gente volta, vai saber que fomos só buscar comidinha para ele!"
Ele foi. E falou, contou tudo. Quando achei que, enfim, ele sairia comigo, Arthur deu meia-volta e, por sobre o ombro, explicou:
"Ele não vai entender! Eu falei em português com ele!"
E repetiu tudo, tintim por tintim, em inglês.

O peixe está aqui e, brincadeiras à parte, não dá muito trabalho, não. É só dar comida diariamente e trocar a água a cada 1 ou 2 semanas. Quero dizer. Isso e, é claro, todas as noites precisamos dar beijinhos de boa noite no vidro, todas as vezes que vamos sair temos de explicar onde vamos, quando voltamos, quanto tempo ele vai ficar sozinho... Mas pelo menos agora, ao que parece, o peixe já aprendeu o português.

sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

A Sibéria não é fria

Chicago é uma cidade cosmopolita e, aqui, você encontra gente de tudo quanto é canto do mundo. Muitos, muitos, muitos imigrantes mesmo. Arrisco dizer que metade das pessoas que conheço são nascidas aqui, a outra metade imigrou.
Pois que nessa cidade do mundo também faz um frio dos infernos. Semana passada chegamos a -20 e tantos. Amanhã uma penca de serviços estarão fechados por conta da nevasca que está caindo enquanto escrevo este post. E assim, falar sobre o tempo para puxar papo é sempre maravilhoso, primeiro porque esse é, mundialmente, o tópico número um de quebração de gelo, um terreno bastante seguro para conversar com o cara de Kosovo ou com a moça da Turquia, com a adolescente mexicana ou com o senhorzinho sul-coreano. Segundo, porque aqui, com esse tempo doido e gélido, sempre temos assunto: é nevasca, é tufão, é calor dos infernos, é tornado, é chuva torrencial...
Então, quando entrei na sala de aula naquele dia, minha língua nem precisou se conectar ao cérebro para articular um "nossa, que frio!" em meio a norte-americanos e imigrantes. Responderam todos no mesmo tom - sim, muito frio! nossa, está demais! tomara que melhore logo - e por isso me senti segura. Continuei o papo. Alguém perguntou: ei, de onde você é? E eu: do Brasil. A pessoa: nossa, e veio parar em Chicago? E eu de novo: pois é, vim parar na Chibéria. Norte-americanos riram, uma moça da Moldávia também. Mas uma outra, não. Ela, muito séria, perguntou: é o quê, hein? E eu expliquei: é que aqui é tão frio que o pessoal brinca que é Chibéria, uma mistura de Chicago com Sibéria. E ela, muito espantada: mas a Sibéria não é fria! Todos nós: OOOOOOO (essas são as bocas abertas, depois de os queixos caírem). E ela continuou: é! Eu sou russa e na Sibéria não faz frio, na minha cidade natal chega a -50. Nós de novo: OOOOOOO.
Então, amigxs, porque você continua lendo este blog, agora já sabe que o trocadilho é engraçado, mas só funciona se não tivermos russos nos arredores, porque, afinal, não faz tanto frio assim na Sibéria, como disse a moça que foi a única a não reclamar dos -20 e tantos da semana passada.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ártemis Tribiani, ou o mico do dia do peru

Vocês já assistiram a esse episódio de Friends? É um que a Rachel decide fazer a comida e não percebe que misturou duas receitas: um bolo de carne e uma espécie de pavê. Todo mundo acha aquilo horrível, menos Joey, que come e ainda explica porque gostou:


GIF daqui: https://goo.gl/images/63tPqF

Então...
Ontem foi Dia de Ação de Graças. Também conhecido como Thanksgiving ou Dia do peru, como preferirem.
Fomos gentilmente convidados para o jantar por um amigo meu. Família tradicional, jantar tradicional, aquela coisa.
Às vezes é bem tenso ser estrangeiro, porque a gente nunca sabe de verdade, e geralmente até cometer uma gafe, quando foi que ultrapassamos um limite social ou quando ficamos aquém da polidez esperada.
Tomei o cuidado de levar flores para a dona da casa, cuidei para que estivéssemos todos vestidos adequadamente, me certifiquei de usar todos os porfavores e obrigadas. Mas não estava preparada para o jantar.
A anfitriã passou a manhã toda cozinhando um imenso peru, o molho de cranberry, as vagens com um toque de limão e gengibre, uns bolinhos de alguma coisa que não identifiquei, as couves-de-bruxelas temperadas e misturadas com macadâmias glaceadas, o purê de batatas e mais alguns pratos que estavam à mesa. Eu não queria fazer desfeita, eu queria ser delicada e grata àquela pessoa que cozinhou para mim, eu queria que meu amigo continuasse meu amigo, então fiz o que mamãe me ensinou: coloquei no prato um pouquinho de cada coisa, tomando o cuidado de pôr quantidades proporcionais ao meu apetite, para não fazer a desfeita de deixar comida no prato.
Fomos para a mesa. Bebemos, comemos. Todos rindo muito das tiradas engraçadíssimas e mordazes da dona da casa (uma: ela virou-se para nós, falando do Arthur: "ele é adorável! quantas vezes por dia vocês precisam bater nele para que ele se comporte bem assim?" e todos rimos muito). Que sorte a minha, porque ninguém reparou quando eu tive um acesso de riso. Que sorte, porque ninguém prestou atenção no que ia no meu prato. Que sorte! Porque entre perus, couves-de-bruxelas, vagens e purês de batatas, eu me servi de um doce feito de custard (um creme bastante tradicional nos países anglófonos), abacaxi e marshmallows, achando que fosse uma espécie de salada de batatas (aquelas com maionese e maçã, sabem?). Agora vocês imaginem minha surpresa ao mordiscar um marshmallow entre um naco de peru e vagens!
Em minha defesa, informo que meu amigo foi nomeando os pratos e chamou isso de "salada". Óbvio que eu não ia perder a oportunidade de rir de mim mesma, então eu contei a história ali mesmo, à mesa, logo depois do ocorrido, e só o casal de mexicanos que também estava lá como convidados riu frouxamente. Os norte-americanos não entenderam muito bem, porque, conforme eles me explicaram, algumas pessoas comem aquilo, sim, como uma salada, junto com a comida salgada.
Eu deveria ter desconfiado quando fui a única a me servir daquilo, ou mesmo quando uma bolota branca rolou para a beirada do prato. Mas eu estava preocupada em manter a polidez, em prestigiar os anfitriões, então apenas me sentei e comi quietinha: peru? booom. Vagem? boooom. Purê de batatas? booom. Custard com marshmallow e abacaxi? boooom!

terça-feira, 21 de novembro de 2017

"A Grace gosta muito de peru" e outras gracinhas

Faz tempo que não comento das gracinhas/fofuras do Arthur por aqui. Então, quando hoje ele voltou para casa com mais uma história deliciosamente engraçadinha, decidi vir aqui registrar.

Estamos na época do Thanksgiving, que é tipo "o" feriado norte-americano. As famílias viajam para jantarem juntas, a escola do Arthur fica uma semana inteirinha sem aula (socorro!), as pessoas começam a comprar imensos perus que serão assados e comidos acompanhados de molho de cranberry e uma espécie de farofa de pão temperada com ervas e alho (chamada stuffing) e também é quando as pessoas contam os segundos para a famosa Black Friday, que como o nome sugere, acontece na sexta-feira depois do Thanksgiving.
Pois bem, como aqui nada se perde, tudo vira consumo, é hora de substituir a decoração de Halloween pela decoração de Thanksgiving, que geralmente envolve as cores laranja, vermelho e marrom, alusões a folhas secas, cornucópias recheadas de abóboras remanescentes e outras coisas na paleta de cores acima, perus e trajes típicos dos chamados pioneiros, os primeiros colonos (ou dependendo da leitura histórica, os usurpadores de terras indígenas e assassinos do povo que aqui habitava).
Saíamos do clube. E aqui eles têm um espaço kids, onde as crianças podem brincar, correr, andar de bicicleta e desenhar. E os desenhos/pinturas das crianças ficam expostos no corredor. É bem fofo!
Então, saíamos do clube, passando por esse tal corredor, quando Arthur para diante de um desenho de um peru sorridente.
— Pai, o que está escrito ali?
— Grace, meu filho. Foi quem pintou esse desenho.
— E aqui?  — outro desenho de peru, em outra posição agora, com as penas abertas como se fosse um pavão.
— Também foi a Grace, filho.
— Nossa! A Grace gosta muito de peru!

***

Hoje foi dia de vacina. E, ao que parece, também foi dia do número quatro: nossa consulta foi às 4, eram 4 vacinas e foram precisos 4 adultos para segurar Arthur.
Bom, passado o estresse necessário (eu, pelo menos, considero necessário), voltamos para casa e começamos a preparar o jantar. (Jantar no inverno nessas bandas é cedo: seis da tarde já está todo mundo desesperado de fome como se fossem nove, dez horas no Brasil.) Aqui temos o hábito de ouvir música enquanto cozinhamos, e hoje o aplicativo escolheu Wilson Simonal para trilha sonora.
Daqui a pouco, Arthur se vira para nós com a expressão de quem entendeu tudo e diz:
— Ahhhhh, já sei porque vocês escolheram essa música para tocar!
Nós:
— ??????
— Porque fala de vacina!
E Simonal, como que para referendar Arthur, canta seu refrão: "nem vem, guarda seu lugar na fila, todo homem que VACILA, a mulher passa pra trás."

***

Por fim, para finalizar esta adorável coleção de gostosuras, uma mais antiguinha, mas ainda inédita por aqui.

Eu não sei se vocês todxs sabem, mas almoço aqui nos EUA é um troço meio esquisito. Acho que a melhor definição é de uma amiga brasileira que mora aqui há quase 15 anos: é comida que não é de panela.
Então, vale tudo, desde que panelas não estejam envolvidas: sanduíches, saladas, biscoitinhos, queijo, legumes crus (geralmente cenoura, brócolis, couve-flor, aipo e tomate), pipoca, cheetos, maçã, frutas. Enfim, qualquer coisa, dependendo do hábito alimentar da pessoa. Mas qualquer coisa que não esteja quente (única exceção é sopa, que eles também tomam no almoço, mas que costuma ir na garrafinha térmica).
Bom, Arthur é um brasileiro morando fora, então, mesmo que já tenha absorvido muitos aspectos de outras culturas, a base é brasileira ainda, e com o almoço não é diferente: ele come comida de panela, que geralmente eu faço às sete da matina, antes de despachar a criança para a escola.
Bom, confesso que eu estava um pouco apreensiva quando chegamos porque seria a primeira vez que Arthur almoçaria na escola, e eu sei dessa diferença cultural. Então, me perguntava se Arthur notaria a diferença (claro que sim, mas eu me perguntava em que nível, com que leitura), como os amiguinhos receberiam um hábito alimentar diferente, essas coisas.
Aí, logo depois da primeira semana de aulas, Arthur se vira para mim e fala:
— Mamãe, ninguém almoça na minha escola!
— Ah, é, filho?
— É, eles só fazem um lanchinho, eles até chamam de lunch.

(<3)

Aí eu expliquei que lunch era almoço em inglês e que as pessoas têm hábitos diferentes na hora de comer.
Ele segue levando comida de panela, os amiguinhos seguem só fazendo um lanchinho, e tá tudo bem. :)