segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Nos lençóis dessa pindaíba

Deixa eu contar uma história para vocês.
Começa assim, como a maioria das histórias daqui: estamos na pindaíba.
"Ainda, Ártemis? Leio seu blog há sete anos e você ainda tá na pindaíba?!  Eu já comprei casa, carro, viajei doze vezes para a Disney e casei com uma festa de 300k, e você ainda aí, contando história de contar moedinha?!"
Pois é.

Bom, se estamos na pindaíba, precisamos ter uma lista de prioridades, né? Um teto com aquecimento: prioridade. Um teto com aquecimento e decorado ao nosso gosto: dispensável. Roupas quentes que não nos deixem congelar lá fora: prioridade. Roupas quentes e novas: dispensável. Vocês já entenderam.
Quando voltamos para Chicago, tivemos um Natal micareta, com caixas e caixas sendo abertas ao som de "noooossa! Que bom que guardamos isso!", porque depois de tanta aventura pelo mundo eu, sinceramente, não tinha muita ideia do que tinha sido jogado fora/doado e do que tinha permanecido. Arthur também ficou feliz da vida redescobrindo brinquedos que ele já tinha esquecido. Enfim, foi massacrante e exaustivo, mas também foi reconfortante e feliz voltar para cá.
No meio dessas caixas todas, algumas sacolas com roupa de cama. Não sei se elas se reproduziram enquanto estivemos fora, mas eu não me lembrava de ter tantos lençóis assim! E o mais curioso foi que, conforme eu abria as sacolas, ia notando que nenhum lençol cabia na nossa cama — talvez eu devesse ter dado mais um tempo para os lençóis filhotes crescerem, né?
Quando fomos para o Brasil no primeiro ano, lá pelos idos de 2014, trocamos nossa cama de casal por uma king. Para a cama de casal, comprei dois jogos de lençol, porque assim poderia lavar um enquanto usava o outro. Mas para a cama king, acabou a verba, então só tínhamos um lençol mesmo, que era lavado e secado a toque de caixa. Mas tudo fluía.
Até voltarmos.
Porque abrimos todas as sacolas e não encontramos o lençol king. Resolvi, então, comprar um jogo novo. Em cntp, eu compraria o lençol, tudo funcionaria e vida que segue. Mas quando se vive na pindaíba, até mesmo comprar um lençol é um evento importante: você não quer gastar seu parco dinheirinho e depois se arrepender da compra, porque não vai existir "ah, vou precise comprar outro lençol". Por isso, passei alguns dias pesquisando diligentemente os jogos disponíveis na internet. Achei um com bom custo benefício. Comprei. Aguardei ansiosa os dois dias de prazo de entrega e quando finalmente a encomenda chegou, corri para colocar o lençol na cama, que àquela altura estava forrada com dois lençóis numa gambiarra desconfortável.
Abri caixa, abri pacote, desenrolei lençol e... não coube!
Pânico!
Como não coube? Eu comprei o lençol queen, certinho.
Opa! Fui ver a nota fiscal da cama, porque no meu raciocínio lógico, passamos de uma cama de casal para uma cama queen, que era o upgrade seguinte, né? Mas eu fui ousada, pessoal, e fiz um upgrade audaz: de casal direto para king. E, na pindaíba, sem lençol, comprei a porcaria do tamanho errado! Vou devolver, claro, mas o frete vai comer metade do preço que paguei no lençol, então não vou poder simplesmente trocar o tamanho.
Bom, ai hoje fui ao mercado fazer uma luxuosa compra de condicionador (um luxo! Pindaíba, lembram?) quando dei de cara com um jogo de lençóis em promoção! Tamanho certo! Comprei, claro, porque era prioridade. Mas, infelizmente, era um lençol verde-oliva, e eu tenho a mania de rock star de só gostar de dormir em lençol branco. Paciência. Na pindaíba, lençol no tamanho certo é prioridade, cor de que gosto é dispensável.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Começou o ano

tique
taque

Começou o ano. Ainda não é setembro, mas todas as medidas cabíveis já precisam ter sido tomadas porque o ano é previsível e antecipado em países onde andar na rua sem levar uma bala ou facada não são preocupações diárias.
Hoje caminhei na Lagoa e, além de passar ao lado das placas - muitas - que contam a história de crianças que morreram por causa da violência urbana e do Estado, estive também atenta ao recapeamento branco que os escrementos de pássaros fizeram na via compartilhada. Na minha frente, duas senhoras acima do peso e com roupas de ginástica param para ver a vista, alheias aos pássaros que pendem dos galhos como frutos gordos e maduros. Também eu estou alheia. Enquanto vejo isso, minha vida nos Estados Unidos seguiu e eu não sei mais se eu sei viver lá. Definitivamente ainda sei viver aqui. Mas não quero. Agora, uma moça cuja roupa não vi enquadra o Dois Irmãos em um celular. Clique. A gente pisca e passam três bicicletas. Nenhum rosto conhecido, não sei a história de ninguém ali. Passam dois corredores, a moça tem sotaque paulista e diz que é melhor passar correndo. É julho, mas já é ano que vem para mim. Embora esteja presa aqui, esperando o sinal fechar, o sinal nunca fecha, e um casal de skatistas emparelha comigo, e eles rolam os olhos por mim, como se as rodinhas tivessem subido até seus rostos. Flip. Já olham para outra pessoa. Na minha cabeça, uma lista de coisas que preciso e quero fazer. Não. Na minha cabeça, uma lista de coisas que eu deveria e queria ter feito. Não. Na minha cabeça, todo o passado. Eu vim alheia a tudo isso, como as moças que não sabiam dos pássaros nos galhos da árvore toda branca na beira da Lagoa. Mas agora, está um pouco difícil de escapar, de sair ilesa, de sair limpa dessa curva que minha vida fez. Estou presa. Passei por um homem que falava, não, gritava sozinho. Cheguei mais perto da Lagoa e uma jovem, adolescente ainda, remava no tanque, observando a mulher de ombros e braços torneados que já estava dentro da Lagoa em seu barco. Eu sou a moça do tanque e a moça da Lagoa ao mesmo tempo. Um descompasso me acorda todos os dias, uma dissonância me põe na cama todas  as noites. Tem uma fileira de arrependimentos no meu horizonte. Belo, mas impossível. Talvez eu não esteja mais na Lagoa, mas sim tenha chegado à praia, com um oceano infinito e inalcançável. Porque o lago Michigan parece um mar, com as bordas todas tão distantes e a água tão azul quando vista do alto, que agora eu não sei mais o que é mar, o que é lago, então a Lagoa pode muito bem ter me engolido e agora eu vejo um oceano impossível, presa aqui, quando o ano já começou.

Já é verão de novo. Corpos suados, sol forte. Mas o carioca insiste no casaco. Eu mesma tenho um casaco. Tão inútil quanto as listas que faço. Tão desajustado quanto minha vida descompassada. Tão inapropriado quanto as perguntas que insisto em fazer e os caminhos que insisto em tomar.
O ano já começou, e tudo que fiz foi virar para trás quando o homem passou por mim gritando, sozinho, desconexo, alheio à realidade. Foi observar as árvores, os pássaros, os excrementos, as mulheres. Nenhuma medida concreta. Passos soltos e um diálogo interno mais intenso e amedrontador que o do homem que passou gritando sozinho. Eu também grito sozinha dentro de mim. Só que não dá para chegar mais para o lado, não dá para evitar essa loucura. Atravesso a rua. O ano já começou, algumas coisas já existem lá. Só que com a Lagoa no meio fica muito difícil de enxergar qualquer coisa além do belo horizonte carioca que insiste em me prender.