quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Tragam comida. E livros. (Ou: a lapada de final de ano.)

Eu sei que estamos nos últimos suspiros de 2014 e que eu deveria escrever uma retrospectiva aqui, contando todas as coisas bacanudas e desesperadoras que meu rebento de dois anos e meio sabe fazer, falar e viver. Eu sei, mas vocês também sabem que eu não sou muito seguidora desses protocolos internéticos de escrita de blog, né?
[Aliás, se você ainda me lê e me segue, beijo e obrigada!]
Então eu vou escrever mesmo sobre o dia 18 de dezembro.
Eu, a diva das panelas, a apaixonada por cozinha, a toda-poderosa dos pratos e alimentos, a ironia em pessoa, levei arroz, frango, salada e molho para a escola do Arthur. As coisas foram em potinhos desconexos de outras comidas (tipo o arroz, no pote que era de iogurte e a salada, no pote dos salgadinhos que sobraram de uma festa a que fomos) exalando seu inebriante aroma pelas ruas daqui da vizinhança, encheram o ar na antessala da escola e foram parar nas mãos de uma das mães. A filha dela estuda com o meu filho. E ela teve um bebê.
Outra menina. Loirinha igual à irmã. Mas que acorda de hora em hora, diferente da irmã. Os pais estão no clima de "all joy, no fun" dos primeiros dias, sabem? E foi organizado um rodízio entre as mães da turma do meu pequeno para que a (coitada da) nova mãe de duas não precisasse cozinhar nos primeiros dias com o bebezico.
Gente, eu vou repetir, porque só de pensar nisso eu sinto vontade de sorrir e gargalhar, antecipando o júbilo e o regozijo que deve ser receber tal dádiva generosa. AS PESSOAS COZINHARAM PARA ELA! E entregaram comidinhas gostosinhas (menos eu), prontinhas, saudáveis e maravilhosas para que os pais pudessem focar a energia no que era mesmo importante: as filhas.
Ah, que coisa linda! Fiz o frango com gosto (ou com o máximo de gosto que meu horror à cozinha permite) e fiquei realmente feliz de ter dado um presente útil e maravilhoso desses.
E aí eu fiquei pensando, que se eu tiver um segundinho, um dia, em 2026, não vou fazer chá de fraldas uma pinoia! Vou é fazer um chá de comida. Cada pessoa contribui com o valor de uma quentinha saudável e eu passo um puerpério menos miserável.
Aliás, antes disso eu já tinha pensado em outra alternativa ao chá de fraldas ou chá de bebês: o chá de livros, para montar uma tremenda biblioteca para o pequeno.
E por falar em livros, preciso registrar que ando cortando um dobrado com a questão leituras aqui em casa.
Arthur ama, adora, idolatra livros. Lê todos os dias, sem exceção. Fica entretido sozinho, acompanhado, lê no banho, enquanto come, pede até para ler no carrinho (quando não está fazendo menos vinte, tipo hoje). Acontece que (sempre tem um porém, né?) ele só quer que a gente leia os livros para ele em português. A biblioteca daqui é fabulosa e podemos pegar quantos livros quisermos, praticamente. Então sempre vamos até lá e voltamos com alguns títulos. Todos, óbvio, em inglês. Ao chegarmos em casa com os livrinhos novos, filhote quer ler to-dos e, claro, quer que eu leia para ele em português. Alguns livros têm tradução fácil, com estruturas sintáticas simples e palavras conhecidas. Outros, contudo, são difíceis pacas! Outro dia pegamos um sobre uns caminhões que apostavam corrida em uma cidade dos caminhões (Truckville). Cada caminhão tinha um nome e o livro brincava com o abecedário. Impossível casar a tradução, pois a betoneira não caía na letra B e as aliterações eram irreproduzíveis. Me julguem, mas escondi o livro. Depois desse teve o do trem que apostava corrida com um carro esporte (já viram que veículos que correm é hit aqui em casa, né?). Quinze expressões idiomáticas por página e cada vagão tinha um nome diferente de acordo com a função que exercia. Inventei uma história nova, óbvio. E assim vamos. Hoje Arthur escolheu um livro sobre dinossauros que, como se não bastasse ter aqueles nomes escabrosos que eu só sei por causa do Jurassic Park, é todo em versos. Versos sobre dinossauros. Vão vendo...
Então, tudo isso para dizer que nos vemos em 2015. Que eu desejo tudo de bom para vocês e suas famílias. E quem quiser vir me visitar, por favor traga comida e livros. Em português. Agradecida.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Sobre ser livre

Eu queria pôr a culpa na língua.
"O quê? Isso? Não, não. Não foi isso que eu disse. Vocês se confundiram."
Eu queria poder colocar a culpa na minha incapacidade de dizer não.
"Ah, eu fiquei tão sem-graça de negar, sabe? Ela disse com tanto jeitinho."
Eu queria até culpar Arthur.
"Sabe, foi ele que quis muito, quis tanto, é importante para ele."
Mas a verdade é que fui eu que quis e precisei e desejei e disse sim. Um sim consciente. Tá, de repente não tão consciente assim, porque sempre tem umas surpresas na vida que a gente não prevê nas mirabolâncias do nosso pensamento.
E se alguém pode ser considerado culpado pela presença de Lola nas nossas vidas, esse alguém sou eu!
Lola: peludinha, fofinha, meio vesga, uma porquinha-da-índia. Ela mora na sala de aula do Arthur e não tinha com quem ficar nas férias de inverno. E eu me candidatei ao cargo de guinea pig sitter. Babá de porquinha-da-índia.
Ela veio na gaiola, de carona na mala do carro de uma das mães que tem carro. Eu não tenho carro. Mas agora eu tenho Lola. Que mastiga alface, cenoura, couve, espinafre, maçã e outras gostosuras vegetais. Lola, tímida, arredia e assustada. No fundo da gaiola. Dentro da casinha. Escapando só para comer, beber e ver Arthur. Eles parecem gostar um do outro. Eu que não gostei. Não da Lola, óbvio. Eu não gostei foi do que aprendi com ela aqui.
A gaiola fica aberta quase que o tempo todo. Ela é livre dentro dessa miniprisão chamada apartamento. Pode entrar e sair, pode correr, se esconder, guinchar e até roer os pés dos móveis. Ela pode vir se aninhar no meu colo, ou no do Arthur, ou no do marido. Mas ela não: fica só lá dentro de seu mundinho conhecido, como se aprisionada pelas portas da domesticação. Portas imaginárias, portas irreais que a confinam em um espaço solitário e isolado. Vamos até ela, fazemos-lhe festinhas, no entanto ela fica ali. Recebe o que oferecemos com desconfiança, arredia e assustada. Nunca sai e fica ali, bebendo sua aguinha, comendo suas folhinhas, vendo a vida listrada através das barras da gaiola.
E eu pensei que tem muita Lola na minha vida.
Lolas humanas.
Lolas que culpam portas que não existem de fracassos ou limitações que, exatamente como a minha decisão de ficar com Lola durante as férias de inverno, são fruto das decisões tomadas livre e espontaneamente. As portas imaginárias confinam e a culpa nunca é de quem decide. O cosmos, a vida, o azar, o destino, Deus ou até mesmo outras pessoas, essas filhas da mãe que cruzam o nosso caminho. A pessoa é mero barquinho de papel no tsunami da vida: sem controle, sem arrimo, sem vela ou direção.
Mesmo no inverno, não quero ser uma Lola. Porque o mais triste de ser Lola não é ficar limitada dentro de jaulas imaginárias, nem viver a vida pacata do ócio e do tédio, mas sim não ter consciência de tudo isso. Tomar decisões conscientes, para mim, é a verdadeira liberdade. Não que dê para pensar em todas as possibilidades de fracasso que as escolhas possam acarretar, mas aceitar e não colocar a culpa em outro ou no que vai fora, ah, esse é o segredo. Trazer para si as responsabilidades e liberdades. Eu escolho, eu assumo, eu aguento, eu faço.
Enquanto isso, a portinhola da gaiola está aberta. E Lola ali dentro, os olhos olhando para a ponta do nariz, é um lembrete constante de que é preciso coragem para se viver em liberdade.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

De repente trinta!

Era ali que morava o bebê, na fralda, na linguagem restrita, no sono diurno. O silêncio só vigiado. A brincadeira só acompanhada. Não comia, não se vestia, não corria.
De repente, agora, tenho um senhor de trinta meses.
Ele fala duas línguas. Uma muito bem e outra galopantemente se consolidando. Brinca sozinho, se veste sozinho, come. Come muito. Come coisas verdes, vermelhas, amarelas, azuis, marrons, brancas e roxas. Fica em silêncio, vivendo a infância, mas não mais desafiando os poderes que um corpo movente lhe dá: já sabe correr sem tropeçar, já sabe que dá choque, machuca ou assusta. E não faz. Ainda apronta, claro, é pequeno, é criança, tem muito o que testar. Fico de olho, com alguma liberdade, porém. Desfralda aos poucos, meu menino. Não dorme mais de dia. Não mama mais de dia. À noite, vulnerável pelo sono, entregue às quimeras, em meio ao escuro, ao intenso, ao visceral, ao cru, dorme e volta a ser um bebê: fraldas, fala, seio. Mas aí desperta com a força de mil cavalos, a energia de mil cafés, a alegria de mil de mim e já não tem mais sua indefesa semiconsciência. É sábio: sabe tudo o que precisa para se vestir, correr, pular, falar, comer, agir e reagir. Faz tantas coisas impressionantes, frases tão elaboradas, que me espanta. Tem trinta meses. De repente. Espera mais um pouco, meu menino, ainda falta um tempo para nos separarmos devidamente. Quanto mais ele cresce, mais espaço abre no mundo e no tempo, e quanto mais espaço, mais saudade cabe aqui dentro.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Aqui!

Cheguei na escolinha (Arthur está na escolinha agora) e uma das professoras estava agachada, como sempre, se despedindo dos alunos. Mas meus ouvidos tupiniquins dispararam o alarme, porque o que ela dizia não parecia nada com um "bye, see you tomorrow". Nem mesmo soava como o "tchau" que ela aprendeu a falar logo na primeira semana. Nem como o "oi", nem como o "tudo bem", todos ensinamentos do meu filho a ela.
Cheguei mais perto. Mais perto. Ela, baixinho, repetia: aqui, aqui, aqui, treinando pronúncia e entonação, repetindo o que Arthur dizia para uma coleguinha mais adiante, tentando devolver à menininha o papel que ela deixara cair no chão.
Nos despedimos com o "tchau, see you tomorrow" de todo dia e eu fui pensando pelo caminho. Não sei se filhote está aprendendo inglês na escola, mas que está ensinando o português, ah, isso ele está!

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Chulé

Era bem cedinho. Não sei quão cedo, porque de manhã vejo o termômetro, não o relógio. Era de manhã temperatura de -20C de sensação térmica. Era de manhã "filho, deixa a mamãe dormir mais um pouquinho". De manhã pelamordedeusalguémfazumcafébemforte.
Enfiei os chinelos sabe-se como, caí meio de banda no sofá, um olho aberto e o outro dormindo enquanto meu bólido pulava, ria, brincava e me chamava.
- Vem, mamãe. Brincar de carrinho co-mi-go. Vem!
Eu de "tá bom, filho, tô indo", me rastejando quase literalmente até a mesa dos brinquedinhos, sorte a minha que ele adora brincar de engarrafamento, então é tudo bem paradinho, até que ele vira para mim e fala:
- Mamãe, sua boca está com chulé!

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Um conto de Halloween

Era tarde (para um bebê) e estávamos na cama, coladinhos, tentando fazer o soninho chegar.
Arthur, agitado, estava atento a todos os barulhos do vizinho. E aqui, o prédio é velho, o piso range, as madeiras das paredes estalam e o pátio interno ecoa todas as portas que se fecham. Ele, então, perguntava a cada minuto:
- É o papai?
Não era. Eu sabia que não era. Mas o pequeno, não.
Ficou agitado, ansioso, atento. Foram umas quinze perguntas até que eu decidisse fazer um tour noturno pela casa, para mostrar ao filhote que não havia ninguém em casa e que os barulhos que ele escutava vinham dos vizinhos. Ele topou, pulou para o meu colo e assim fomos:
- Viu, filho? Aqui a cozinha toda apagada. E não tem ninguém. O papai ainda está no trabalho. Olha a sala, ninguém, tudo escuro. Somos só eu e você. Banheiro, quarto, armário. Viu? Ninguém. Agora, vamos dar tchau para a casa e vamos dormir.
Começamos pelo quarto dele:
- Tchau, brinquedos. Tchau, caixa de papelão. Tchau, janela.
Ele ria, divertindo-se.
- Tchau, sofá. Tchau, estante. Tchau, poltrona.
Chegamos à cozinha, último cômodo antes de entrarmos no quarto. Tudo escuro. Nós dois sozinhos. Tudo em silêncio.
- Tchau, geladeira. Tchau, fogão.
- Mamãe?
- Oi, filho?
- E praquele moço ali? A gente também pode dar tchau?
- Vamos dormir, Arthur. Vamos!

uahauahuahua [risada de bruxa]

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Mamãe, a espertona.

- Aqui, filho, um franguinho. Come.
- Não.
- Cococó, cococó...
- Que isso, mãe?
- É o franguinho, filho, dizendo que quer entrar na sua boca.
(Ele tranca a boca. Pega o telefone de brinquedo.)
- Alô... aham... é...
- Quem é filho?
- Pera, eu tô ligando pro franguinho.
(Pausa dramática.)
- Alô, franguinho, eu tô ligando pra você não entrar na minha boca, não. Tá? Beijo, tchau.

E eu me achando a esperta.

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A geladeira NÃÃÃOOOO!

Era bem tarde, umas duas, talvez três da manhã, quando a geladeira fez seu VUUUUUSHHHHH bem alto. A porta fechada não adiantou e parecia que um Boing tinha ligado as turbinas dentro da minha casa. Arthur, óbvio, acordou. Aliás, duas vezes na mesma madrugada, pelo mesmo motivo.
Decidimos, então, pedir que trocassem a geladeira.
Aqui, a responsabilidade de troca de equipamentos básicos da casa ou da cozinha é do senhorio. Ligamos, pois, para o nosso, que depois de tentar resolver o problema com manutenção e mandingas, veio substituir o avião por uma geladeira.
Isso foi hoje. Os rapazes da manutenção bateram à porta, trouxeram a geladeira nova, levaram a velha, varreram o chão e fizeram a realocação de tudo que estava dentro do avião refrigerado.
Eu estava satisfeita, quase feliz - daquelas felicidades prosaicas, sabem?
Filhote perguntou quem eram as pessoas e eu respondi. Quis saber por que estavam ali e eu disse. Ele, então, abriu um berreiro, sentido, de lágrimas gordas e quentes pingando na camisa, o rostinho vermelho com a emoção. Surpresa, abracei-o e indaguei o motivo do choro, da tristeza, ao que ele esclareceu:
- Eu não quero que levem a geladeira velha!
Consolei, expliquei, distraí, abracei, fiz tudo que estava a meu alcance. Mas ele ficou mesmo ressentido com a troca e precisei passar uma tarde toda revezando entre consolar e escutar muito choro por causa da geladeira velha.
Durma-se com um barulho desses (ou daquele).

quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Seu, meu, nosso...

Arthur na rua conosco e encontramos, os três, nosso vizinho.
Conversa vai, conversa vem, despedimo-nos e vamos adiante.
Arthur, então, pergunta:
- Quem era?
- Nosso vizinho, filho, o Supratim.
- Hã?
- Supratim, filho, nosso vizinho.
- Hã?
- Aquele moço era o Supratim.
- Hã?
- Supratim, Arthur.
- E cadê o meu pratinho?

domingo, 21 de setembro de 2014

sábado, 20 de setembro de 2014

Retorno

Em meio aos rangidos e às batidas não dava para ouvir, mas eu lia os lábios. Pessoas bonitas e arrumadas e simpáticas e alegres me davam as boas-vindas, alheias ao intenso chacolhar do avião. Achei irônico que a turbulência tenha começado no exato instante em que o vídeo da companhia aérea dava boas-vindas e instruções sobre como proceder na alfândega/imigração. Ninguém prestava atenção aos sorrisos e podes-não-podes. Todo mundo era tensão, ansiedade e nervosismo.
Odeio turbulência.
Eu estava no chão do avião. De novo. Arthur dormia esparramado, ou melhor, o mais esparramado que duas poltronas da classe econômica permitem a uma pessoa. Classe econômica. Rá. No embarque entrei numa fila que achava ser a de prioridades e fui perguntada se era da executiva. Respondi que era da "normal". Mas devia ter dito que era do setor de cargas. Até nosso cachorro vai viajar mais confortável, num canil próprio, com espaço para ficar de pé e se deitar por completo. E eu no chão, tentando ajeitar minha carcaça em meio aos solavancos e pulos da turbulência.
Chegamos. Conectamos, dessa vez sem perder o voo, e voltamos para casa.
Já está frio. Senti a secura do ar. Dormi de manhã, de tarde e de noite. Lavei, esfreguei e varri. Habitamos.
Arthur aprendeu a falar loucamente. Além de conversar muito, ele usa "loucamente" para tudo: "olha, mamãe, esquilos loucamente lá fora"; "o trem passou loucamente"; "aham, quero melancia loucamente". E por aí vai.
Loucamente estou eu, às voltas com processos de retorno complexos e sobrepostos. Retorno à casa, ao trabalho madrugada adentro, à rotina estafante de cuidar de tanta coisa.
Fiquei pensando, depois, claro, que a turbulência da chegada foi uma grande metáfora da vida, que sorri e recepciona enquanto só quando dá aquela chacoalhada.
Que o voo seja tranquilo daqui em diante.

terça-feira, 19 de agosto de 2014

Volver

Estou no Brasil.
É estranho.
Voltar sempre trouxe desafios. O olhar estranha prédios novos e velhas histórias, as coisas parecem fora de lugar mesmo quando são exatamente iguais, os lugares parecem sempre estáticos, o que nos faz extáticos.
Essa volta, temporária e necessária, veio bem a calhar. Veio fora de hora. Veio, enfim, assim, contraditória e confusa, me engolfando nas diferenças entre a vida que deixei e a vida que ficou.
Arthur abraçou a língua portuguesa como se fosse o último de seus afetos. Ama as palavras e repete "no, no, no" se puxo papo em inglês. Arthur desatou a língua, que, solta, conta histórias e mais histórias, protesta, diverte, comunica num tagarelar impressionante. Meu filho conjuga verbos - até os irregulares - numa prodigiosa parlação cheio de idas e vindas do passado e ao futuro.
Menino esperto, esse meu. Sabe ir e voltar, partir e regressar, trazer e levar: eu fui, farei, amo e tantos outros tempos e verbos.
E a mãe dele aqui, perplexa na estranheza de estar outra, mesmo que há mais de trinta anos eu esteja outra e outra e outra.

sábado, 17 de maio de 2014

Dicas de ouro

3. No auge da irritação, lembre-se de que são uma família. Você e seu filho estão do mesmo lado. Aliás, lado a lado. E perder-se é perdê-lo um pouquinho.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

Dicas de ouro

1. Se for comprar um carrinho com alta dirigibilidade e morar em uma cidade com muitos, muitos ventos, teste bem o freio e veja se também é ótimo.

terça-feira, 29 de abril de 2014

Pesadelo

Hoje eu tive um pesadelo. Nele, Arthur acordou às seis e meia da matina, tocando o terror, subindo nas coisas e numa agitação de tsunami. Nele, eu fiquei morta-viva de sono, dando cabeçada enquanto tentava entreter o menino e distrair a fera. Nele, eu arrumava tudo para irmos para a piscina às nove da manhã: fralda de banho, maiô, xampu, brinquedinhos, roupas e comidinhas. Também empurrava o carrinho, descia pela minha rua e entrava no clube. Trocava de roupa, guardava a mochila e voltava para trocar Arthur. Arthur, que, tsunâmico, arrancava meu prendedor de cabelo, que, solto, me obrigava a prendê-lo novamente, revelando, enfim, um suvaco cabeludo que passou duas semanas crescendo debaixo de casacos enquanto eu e Arthur convalescíamos de uma gripe trevas. Um suvaco cabeludo, no meio do clube, sem lâmina de barbear na bolsa (embora eu ande por aí carregando um pandeiro) e já de maiô para entrar na piscina.
Esse foi meu pesadelo.
Tipo aquele em que você sai de casa e descobre que está pelada. Ou lembra que sua festança de casamento é dali a uma hora e você não tem vestido ou maquiagem.
A única diferença foi que eu não estava dormindo. Ao contrário. Acordada desde às seis da matina, com um menino insandecido depois de dias trancafiado em casa por uma gripe e de suvaco cabeludo na piscina do clube.

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Coisas que só acontecem comigo

Estávamos dentro do vestiário do clube quando escutei o primeiro tim-tim-tim. Achei que fosse coisa da minha cabeça, achei que fossem as crianças lá fora brincando de bater em alguma coisa de metal, achei que fosse maquinário do elevador, achei que fosse qualquer coisa, essa é a verdade. Mas aí o barulho se repetiu: tim-tim-tim. E veio junto o som inconfundível para uma carioca feito eu: TUM-TUM-TUM.
Arthur olhou para mim assustado, dedinho em riste perto da orelha, como quem diz "tá ouvindo, mamãe?". Se era alucinação, então era coletiva, se é que se pode chamar de coletividade uma dupla.
Nos vestimos apressadamente, guardamos os pertences na bolsa. Seguimos o som, que crescia conforme subíamos os degraus: TUM-TUM-TUM tim-tim TUM-TUM.
Samba.
Com surdos, tamborins e caixas. Compasso ternário único, cadenciado.
Entrei na sala do ensaio e fiz a única coisa que poderia fazer naquele momento. Ou seja, saquei um pandeiro da bolsa e fiquei ali, assistindo.
Juro.
Samba, aqui. E eu tinha um pandeirinho na bolsa.
Coisas que só acontecem comigo.

terça-feira, 8 de abril de 2014

No balanço

O parquinho estava lotado. Crianças de todas as cores e idades se engalfinhavam para ver quem desceria o escorrega em espiral de costas primeiro, quem se balançaria mais alto, quem se sacolejaria nos brinquedos de mola com mais ferocidade. Crianças podem ser muito selvagens. E eu agarrei meu filho, coloquei-o sob minha asa e estendi meu firme e protetor braço para permitir que ele explorasse com segurança seu novo mundinho de menino que corre, sobe escada e desce escorrega sozinho. Sozinho, porque independente, não desacompanhado.
Duas loirinhas desciam os escorregas das crianças pequenas de costas e de cabeça para baixo, olhavam feio para mim e faziam cara de deboche para meu bebê. Um garotinho obeso que falava espanhol e estava ali com a mãe corria sem rumo, de um lado para o outro, quase esmagando as mãozinhas pequeninas do meu filho em seu afã por diversão. Uma adolescente entediada gritava nomes e vociferava ameaças enquanto deslizava o polegar na tela do telefone, os ouvidos enfiados em fones brancos. Um cachorro amarrado à árvore latia de vez em quando.
A gritaria estava me deixando exausta, e acho que em determinado momento, também chateou Arthur. Ofereci de irmos ao outro lado do parque, onde em vez de brinquedos há uma quadra de basquete e um gramado, e ele aceitou. Perguntei se queria jogar bola, retirei o brinquedo da mochila, e fomos nós para o gramado.
Meu menino jogava a bola gritando "É dois e já!", ria, pegava o brinquedo e corria. Fez isso umas dez vezes e parou. Não queria mais. Foi até a quadra, apontou o jogo dos rapazes grandes, arrancou em direção a um pai e um filho que jogavam (que clichê!) uma bola de futebol americano um para o outro, catou uma pedrinha no chão, correu mais um pouco e quis, por fim, voltar aos brinquedinhos.
Quase todas as crianças tinham ido embora, e só umas poucas ficaram ali, balançando-se preguiçosamente no frio de início de primavera ou cavando na areia com gravetos.
Arthur foi andando devagar, parando diversas vezes. Perguntei se ele queria água. Fez que sim com a cabeça. Parei no carrinho, Arthur junto, e foi então que vi a moça com o filho obeso acenando para mim do balanço. A essa hora, notei que estávamos ali somente nós duas, nossos filhos, e os rapazes que jogavam basquete na quadra mais adiante. Ela acenou mais uma vez. Agitei a mão em resposta, peguei a garrafa de água, ofereci um gole a Arthur, bebi um pouco, e fui em direção aos dois, mãe e filho.
Conforme me aproximava, distingui melhor que o que antes parecia ser uma cena de amor, com a mãe balançando o filho e de vez em quando se abaixando para falar com ele, na verdade era algo estranho. A criança chorava. A mãe sorria, embora parecesse nervosa. Pensei o que ela quereria comigo. Peguei Arthur no colo, pois que coisas estranhas despertam meu instinto de proteção da cria. O menino, no balanço, chorava lágrimas gordas, até babava um pouco, naqueles choros sentidos e nervosos em que a infância nos aprisiona às vezes. Tive pena. Tive receio. Achei que a mãe queria ir ao banheiro e, agachada ao lado do filho, tentava convencê-lo a ficar comigo durante um tempo. Olhei ao redor. Estávamos sozinhos ali. Os quatro estranhos e estrangeiros.
Ela, então, sorrindo, angustiada, veio no espanhol me explicar. Apontava para o filho, agora de cabeça baixa, e atropelava desculpas: você é a única pessoa aqui, desculpe não falar inglês, estou nervosa.
O menino, agora perto dele eu conseguia ouvir, murmurava entre lágrimas que doía. Arthur se assustou e olhou para mim, apontando o dedinho: neném.
E enfim eu compreendi, juntando as imagens e as palavras confusas da moça que me pedia ajuda. O filho dela, por ser obeso, ficou preso no balanço. As coxas gordinhas se prenderam firmemente, e ele, embora grande, não tinha coordenação motora ou mesmo força física para se içar dali. A estrutura do brinquedo comprimia seus testísculos e tudo era dor ali: a humilhação de pedir ajuda naquelas condições, a falta do inglês para se comunicar, o desconforto físico, as tentativas frustradas daquela mãe em retirá-lo sozinho da cadeirinha.
O menino, que devia ter uns 3 ou 4 anos, era pequeno, mas estava visivelmente envergonhado com toda a situação.
Pousei Arthur no chão, coloquei a garrafa de água ao lado e tentei, com todas as minhas forças e a ajuda da moça, erguer o menino do balanço. Nada.
Olhei para os lados e ainda estávamos sozinhas. Os dois cada vez mais assustados, nervosos. Imagina só ficar preso num brinquedo de parquinho com a tarde chegando ao fim!
Usei meu portunhol de colégio para explicar para a mãe que seria melhor se ele tentasse jogar o corpo para trás, mas o menino não conseguia, pois as pernas estavam muito presas e ele não tinha a angulação necessária para a manobra. Segurei por sob as axilas do garoto, puxei, empurrei, a mãe colocou-se de joelhos diante dele, para que o menino tivesse um apoio para os pés e tentasse empurrar as pernas dos buracos, mas nada adiantou. Estava preso, bem preso ali.
Arthur repetia neném, assustado, segurando o balanço vizinho, como se tentasse também ajudar.
O menino então começou a chorar com mais intensidade, angustiado, acredito eu, com a perspectiva de ficar ali. No imaginário infantil, provavelmente para sempre.
Tentamos mais algumas vezes, até que eu dei a volta e segurei o menino por sob as axilas pelas costas. Pedi que a mãe o avisasse que eu iria deitá-lo, e assim que ele ficou sabendo do que eu faria com ele, pus meu plano em prática. Com esforço e muito vagar, ele foi deitado de costas e uma das pernas se moveu um pouco. A mãe se pôs de frente para ele, ergueu suas pernas e, enquanto as empurrava, eu puxava o garoto. Aos poucos ele foi se soltando, e nem me lembro como foi que aguentei segurá-lo para que ele saísse dali. Mas ele saiu. E sorriu. E a mãe agradeceu mais do que havia se desculpado. Em espanhol, em inglês, com os olhos, com a alma.
Eu sou mãe, sei que foi muito mais difícil para ela ver o filho naquela situação do que foi para mim segurar uma criança que deveria pesar quase o mesmo que eu (eu peso 45kg).
Voltei para casa tocada pela humildade da moça, pelo desespero do menino, pela dificuldade de ser estrangeiro e não saber o mínimo da língua do país, mas, principalmente, pela certeza de que se eu tivesse permanecido distante, fingido que não tinha visto a moça acenar, pegado meu carrinho e ido embora pelo outro lado do parque, teria achado que o desespero daqueles dois era amor. Porém, às vezes, o que a distância parece carinho e cotidiano, pode ser que de perto seja, na verdade, dor e o sopro do inesperado criando novas fragilidades.
Precisamos, no ir e vir da vida, de mais sororidade.

Arthur no balanço.
PS: Obrigada pelo carinho no último post. Ainda não sei se estou de volta.

quarta-feira, 12 de março de 2014

Hiato

Eu mirava a minha imagem refletida quando notei que o que eu estava usando não caía muito bem. Faltava um pouco ali, sobrava um tanto acolá. E então, vendo além do meu próprio rosto, fitando o cursor piscando ritmadamente na tela, entendi que era hora de parar.
Não caibo mais aqui. Sobra e falta ao mesmo tempo uma porção de coisas que deveriam estar na medida.
Volto? Muito provavelmente. Mas por ora a decisão é pela pausa. Necessária e fundamental para ajustar medidas.
Continuarei lendo (muito) e comentando (pouco). Respirando sempre.
Obrigada pelas trocas feitas aqui.

sábado, 8 de março de 2014

Dia das mulheres

Arthur dorme. Junto dele, um bichinho de pelúcia. Cor-de-rosa. Quando ganhamos o brinquedo, ainda durante a gravidez, foi com a promessa de que receberíamos um outro porquinho azul (temos uma história familiar com porquinhos. Piada interna). Não comentei nada porque já sou a chata da família, mas pensei "qual o problema de ter um porquinho cor-de-rosa?". Além de porquinhos serem cor-de-rosa na natureza, cores são cores, para todos, para todas, sem preconceito. E porquinhos também.
Arthur nasceu, ganhou um porquinho azul, e hoje em dia só dorme com Zé Porqueira, o porquinho cor-de-rosa. O outro, azul, nem nome tem, porque ele não curte muito. Pega, acha graça, mas só por um minuto. Já Zé Porqueira é sensação! Ajuda a fazer tarefas chatas, ganha abraços e beijinhos espontâneos, dorme agarradinho, é requisitado amiúde e com muito afeto.
Eu estimulo. O afeto, as cores múltiplas em brinquedos, a construção de um ambiente livre para experimentações, como a infância deve ser. Brincar, testar, experimentar: cores, bichos, roupas, fantasias, papéis sociais. Arthur varre, brinca de carrinho, faz comidinha, abraça o Zé Porqueira, chuta a bola de futebol, arremessa a bola de basquete e lê os livrinhos que escolhe na biblioteca (e os que eu escolho também). Sem restrições.
E por que estou falando tudo isso? Porque hoje é dia 8 de março, e não podemos querer um mundo com mais justiça de gêneros se dentro de casa já começamos a segregação e a disseminação dos preconceitos arraigados na nossa sociedade. Despir-se de ideias retrógradas e educar seres mais conscientes das diferenças, lutas e direitos (ou falta deles) é obrigação de todas as mães. As de meninos e meninas. Para que, enfim, possamos caminhar com mais firmeza em direção a uma sociedade que trate de maneira equilibrada as diferenças entre gêneros e identidades sexuais.
Feliz dia das mulheres.

sexta-feira, 7 de março de 2014

Olhe as unhas do pé

Se você está tentando engravidar, peço que olhe as unhas do pé do seu parceiro. Agora. Vai lá. Eu espero.
Olhou?
Então saiba que seu filho pode nascer com as unhas do pé dele. Aconteceu aqui em casa. E olha, vou dizer que se tivessem me dito isso antes de eu engravidar eu teria me preparado psicologicamente para a aventura que é cortar unhas tão diferentes das minhas.
Tenho quase trinta anos de prática de cortar minhas unhas, e cumpro a tarefa muito bem, obrigada. No entanto, você não percebe (ou não se lembra) de quão difícil pode ser cortar as unhas de um pé até que precise cortar unhas diferentes das que você tem.
Aliás, não sei se te contaram, mas seu bebê pode herdar uma porção de coisas diferentes de você, e aí, além de todo trabalho que um bebezinho dá, você ainda vai ter de enfrentar o desafio de realizar tarefas em anatomias nunca dantes exploradas, em personalidades totalmente diferentes da sua, diante de padrões ou comportamentos inéditos (aposto que o filho de alguém que me lê faz coisas i-gual-zi-nho a um dos avós!).
É, é duro!
E ninguém te conta isso. Ao menos, nunca me contaram.
Então, recomendo: antes de engravidar, ou antes de parir, vá lá dar uma olhada nas unhas do pé do companheiro.
Mas não olhe demais, senão é capaz de você desistir de engravidar ao pensar em todos os defeitos ou diferenças que seu filho pode herdar e perder o que há de mais especial, que para cada mãe significa um aprendizado único e intransferível no que se refere à maneira de lidar com o outro.

terça-feira, 4 de março de 2014

Luz

A noite vai quase alta, e estamos sozinhos em casa. Telefono para marido e pergunto que horas ele vem. Vai demorar ainda. Resignada, vou agitar a vida, colocar o menino para dormir, organizar o dia que virá. Tiro a calça para entrar no banho.
Toc toc toc.
Não acreditando no que ouço, paro, aguço a audição e escuto novamente.
Toc toc toc.
Marido não é. Acabou de desligar e não vinha antes das onze. Amigo não é. Não conheço quem venha sem avisar e ninguém tocou a campainha lá de fora.
Toc toc toc.
Insistente.
Toc toc toc.
Assalto? Fogo? Polícia? Quem entra no prédio sem tocar campainha/interfone? Pedinte? Senhorio? Paramédicos? Quem está no prédio? Vizinho pedindo açúcar? Parente que ficou preso do lado de fora do apartamento? Engano? Quem? Correios? Entrega? Pizza?
Visto a calça, ajeito a blusa, encaixo Arthur na anca.
Nhéééééé.
A porta se abre, misteriosa e lentamente, o ranger soando afinado com meu coração disparado, histérico, fantasiando mil histórias e desfechos. Do outro lado, no corredor, a japinha loira que mora no andar de baixo. Sorridente, lápis e papel na mão, leva embora o que restava da minha sanidade ao perguntar:
- Sua conta de luz aumentou no último mês?

quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Uma palavra vale mais que mil imagens

As palavras, ao contrário do que prega o dito popular, podem construir cenários bem detalhados. E dizem muito, principalmente se ditas por um serzinho que ainda não as domina por completo, e que, portanto, escolhe as mais emblemáticas, comezinhas e repetidas para compor seu vocabulário.

Tirem, então, suas próprias conclusões com a lista abaixo:
bobagem
Árfur
não
dodói
chá
xixi-cocô-bumbum (nessa ordem!)
e...
colágeno

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Missão dada, missão comprida

Não, eu não escorreguei na grafia. É assim mesmo aqui em casa: missão dada, missão comprida.
Supermercado, lavar roupa, sair de casa, às vezes até mesmo ir da sala para a cozinha é uma lerdeza sem tamanho. Tem a novela das roupas, em camadas, muitas, que dão calor e irritam. Tem aquele brinquedo no meio do caminho, que se torna irresistível. Tem a vontade, agora verbalizada com a palavra favorita do momento: não! Tem isso, tem aquilo, e com tantas posses, tendo tantas coisas, fica mesmo difícil caminhar. Correr, então, nem pensar!
E assim vamos, um dia de cada vez, uma hora de cada vez, um minuto de cada vez, exercitando a paciência, maravilhosa qualidade que nunca fez parte do meu pacote arrasador de maravilhas, mas que ganha novas perspectivas sempre que eu penso que estou aqui para ele e por ele.

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Mãe não é tudo igual

Nenhum discurso é neutro. Não se iluda: cada palavra proferida carrega uma ordem, uma visão de mundo, um recorte e valores. Podemos até escolher nossas frases e falas de maneira inconsciente, mas isso não quer dizer que elas sejam neutras ou descompromissadas com um viés político. Mesmo que você odeie política, seu discurso é quase uma entidade autônoma, anunciando com doze mil megafones o seu posicionamento político frente ao mundo.
Dito isto, preciso comentar os cartazes que andaram bombando na internet por esses dias.
Se você não sabe do que estou falando, não vou colocar um link, porque isso faria com que os tais cartazes tivessem ainda mais visualizações, do que, sinceramente, nosso mundo não precisa.
Pois bem, a primeira vez que vi foi quando uma amiga de Facebook postou o link, rindo-se horrores das falas sempre repetidas das mães. Depois veio outra. E mais outra. Todas com ensino superior completo, duas com mestrado até.
Depois a coisa se espalhou num crescente tedioso (todo viral é meio tedioso, já que você vê a mesma postagem umas doze vezes no dia). E todo mundo rindo, achando graça, compartilhando com as mãaes: olha aí, progenitora, o que você me falava!
Pois eu digo que eu achei terrível!
Além de feios, os cartazes servem a um propósito absolutamente apavorante e, de quebra, testemunham como as diretrizes da educação na minha realidade (classe média carioca, zona sul maravilha) não poderiam, como de fato não o fizeram, construir seres humanos mais humanos, engajados, críticos e empáticos.
O hedonismo da coisa começa na estética. O projeto é a esteticização de frases que ouvimos (sim, eu ouvi) das nossas mães. Quando você torna a coisa estética, você insere ela em outros valores. Então, além das palavras, temos nos tais cartazes o discurso reforçado pelos elementos visuais, que, em consonância com os padrões vigentes, nos dizem: olhem, tudo o que nos é dito pelas mães é uma regra, um mandamento lindo e maravilhoso de se ter como referência. Sim, porque é nisso que as tais imagens se constróem, referências. Quando se quiser, a partir de agora, reproduzir os discursos maternos ali estampados, a preferência vai ser pelos cartazes, porque além de estéticos (e afinados, como disse, com a estética vigente), eles são práticos, e se espalham com o simples clique num botão.
Aliás, o botão compartilhar do Facebook merecia um post a parte, mas vou poupar os meus parcos leitores dessa ladainha crítica e continuar com a digressão sobre os tais cartazes (ciente de que não se trata, porém, de menos ladainha crítica. Mas aqui o espaço é democrático e fica quem quer ler).
As peças são, ao mesmo tempo, chocantes, tristes e curiosos. Curiosos porque desde a essência captam valores embrenhados na nossa cultura. Poderiam ser oito, ou quinze, mas são dez, como os mandamentos da religião mais seguida (ainda é?) no Brasil. Eis, então, que isso já sacraliza o discurso, o que se confirma, ainda, com o fato de serem falas maternas, e não parentais. Ou seja, reforça-se o estereótipo da mãe como figura sagrada, indelével e perfeita. E isso, minha gente, esmaga o feminino, achatando-o numa categoria plana (mães são todas iguais), estanque (ai daquela que ousar sair do padrão!) e machista. Mãe, dez mandamentos e falas sacralizadas. A coisa está ficando feia, e você aí ainda rindo no Facebook.
Mas como eu disse, os cartazes não são apenas curiosos, também são tristes e chocantes. Tristes porque a esteticização da disciplina autoritária serve para reforçar o modelo, e para fazer deles leves e aceitáveis, do tipo que se pendurados na parede da sala não fariam feio com as visitas. E como modelos, referenciam e, pior, não questionam a ordem vigente. São, portanto, retrógrados. E são ainda chocantes, pois denunciam que tanta gente foi criada nessa disciplina opressora, arrogante, sacralizante e agressiva (engole o choro???) e, de quebra, acabaram por me mostrar como tanta gente inteligente do meu Facebook postou sem questionar a mensagem por trás da brincadeira.

terça-feira, 18 de fevereiro de 2014

Estou avaliando

O impacto da neve, o impacto dos caninos, a solidão, o exílio.
Avalio as condições de criação, as escolhas que fiz até agora, as escolhas que (penso) pautarão o futuro. Estou buscando o aval. O meu, que fique bem claro. Vasculhando a mente para verificar se vale a pena: postar, escrever, registrar, me expor.
Existe outra pessoa depois desses vinte meses. Estou avaliando se consigo conhecê-la.

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Diálogos possíveis

- Senhora?
- Sim, pois não?
- Sua bolsa está buzinando.
- O quê?
- Sua bol-sa es-tá bu-zi-nan-do.
- Minha bolsa está buzinando?
- É o que estou falando.
- Hum... acho que deve haver algum engano.
- Senhora, quem parece ter problemas de audição aqui não sou eu, visto que precisei repetir três vezes, ou quatro, se considerarmos esta também, que a sua bolsa está buzinando.
- Meu senhor, estou com meu celular na mão, portanto é impossível que minha bolsa esteja apitando.
- Buzinando.
- Buzinando, apitando, que seja. É impossível.
- Minha senhora, minha senhora...
- Olha aqui, senhor: meu celular, na minha mão, mudo. Aqui dentro da bolsa, olha só, tem carteira, chaveiro, cobertor para o menino, potinho com frutas, fralda, lencinho umedecido, luvas extras, um pé de meia descasado, um palito de fósfoto queimado... como isso veio parar aqui?... uma cenoura ressecada, meu Deus!... uma colher de sopa e... ops!... um chaveiro com buzina.
Bibiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

*A categoria semificção reúne em uma só narrativa histórias que aconteceram, mas não no mesmo dia.

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O que você está fazendo?

Estávamos todos na sala, conversando. Sim, porque agora falamos os três. Alguns mais ladinos, é verdade, mas ainda assim falamos.
Marido e eu proseávamos e discutíamos os rumos e planos da semana. Arthur, no cantinho atrás do sofá, balbuciava suas conversas ininteligíveis, provavelmente opinando também sobre o que viria a fazer.
Conversa vai, conversa vem, o e-mail do marido apitou, sinalizando nova mensagem recebida. Trabalhando demais, ele foi rapidamente até o computador para ver do que se tratava, se era importante, se era bobagem. Eu continuei tagarelando. Arthur, porém, ficou quietinho.
Blá-blá-blá... vou passar no supermercado. Tititi... precisamos telefonar para o Fernando. Patati... quero visitar a Helen. E marido lá, no computador. Desconfiei que ele não estivesse mais lendo e-mail de trabalho porcaria nenhuma, mas sim que tivesse passado à máquina do tempo conhecida como Facebook, uma ferramenta incrível de transporte para o futuro em questão de segundos.
Virei-me para ele e perguntei:
- O que você está fazendo?
Ao que Arthur, de trás do sofá, responde:
- Cocô.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A rotina e Nietzsche

Eu invejo quem tem rotina certinha. Aliás, na mesma medida em que invejo a tal pessoa, dela desconfio, pois como, COMO?, é possível cumprir ritualisticamente funções e atividades todos os dias? São tantas as variáveis, em todos os níveis de tarefas, que, sinceramente, acho um milagre comermos três refeições e dois lanches diariamente.
Tudo começa na madrugada. Se Arthur dorme bem, geralmente acorda de bom humor. Pode ser que acorde bem-humorado e com a pá virada, pode ser que acorde bem-humorado e calmo, dócil e meigo. Quem sabe? Se ele dorme mal, porém, costuma acordar cansado, o que pode levar a um humor meio estranho. Ou não. Cansado, pode ou não ficar mais calmo, ou mais agitado, ou mais levado, ou irritadiço. Mas a variável da madrugada não termina aí, porque eu também entro na jogada, e o meu sono, se foi bom, ruim, suficiente (não existe muito na maternidade) ou pouco, tudo isso vai influenciar na rotina do dia seguinte, já que serei eu fazendo coisas com e para Arthur.
Complexo? Assustador? Mas nós ainda nem começamos a fazer nada. Estamos nos preâmbulos, no prólogo da história cotidiana, que, se você quer mesmo saber, não deveria se chamar rotina, mas sim caostina.
O caos se instaura quando abro os olhos. Invariavelmente, Arthur já está saindo da cama, o que me faz correr porta do quarto afora, a fim de evitar artes e peraltices. E o caos continua ao longo do dia. Cada microtarefa tem a potencialidade da tragédia. Um lápis na mão e uma folha de papel em branco sobre a mesa? Tanto pode gerar um lindo desenho de rabiscos quanto: uma mão cortada pelo papel; lápis no olho da criança; lápis no olho da mãe da criança; lápis na orelha, perfurando o tímpano; lápis na parede; papel no chão, transformando-se, segundos mais tarde, numa superfície deslizante; entre outras zilhões de possibilidades.
Realizar as tarefas enquanto cuido do pequeno é jogar com o imprevisível, que pode vir com uma surpresa incrível nas mãos, tipo uma nova palavra aprendida pelo pequeno ou um pratão comido no almoço, como também pode acenar com o caos absolutamente enlouquecedor de um pequeno ser correndo pelado pela casa enquanto eu tento, sem qualquer êxito, enfiar, pelo menos, a fraldinha naquela bundinha livre, leve e solta. Poças de xixi, carinho no bichinho de pelúcia, uma subida perigosa numa cadeira arrastada para perto do fogão, uma tentativa de entrar sozinho (de cabeça) na banheira, uma leitura pacata e compenetrada no livro favorito, a espera paciente pelo fim do processo de cortar uma cebola, batidas com um objeto pesado no vidro da janela; a cabeça de um bebê é território inescrutável.
Com isso, meus dias de caostina são nietzschenianos: o eterno retorno, a vida que se repete tim-tim por tim-tim, a vida que traz, na potencialidade de se desdobrar de infinitas maneiras, a eternidade na duração de um dia.
Sendo assim, porque todas as rotinas maternas são, essencialmente iguais, é que eu desconfio de quem diz que traz tudo sob controle.
Maternar é viver no limite do incontrolável.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O vizinho e o bife

Era uma vez uma mãe que acabara de se mudar para um país que falava outra língua que não a sua. Ela sabia relativamente bem os usos e desusos da gramática e do vocabulário, mas, como todo falante de segunda língua que acaba de aportar na nova terra, ainda precisava lapidar certos meios e modos no novo idioma.
Um dia, essa mãe estava com seu filho na cozinha, almoçando, quando um barulho ritmado e forte começa no pavimento de cima: POU, POU, POU. O filho, com seu dedinho gorducho e carinha de curioso emite um "hã". Aquele "hã" típico, que a mãe já conhece e sabe que signfica: que porra é essa, senhora minha progenitora?
A mãe, prestando bastante atenção, conclui que, àquela hora e naquele lugar, o barulho só poderia significar duas coisas: sexo selvagem enlouquecido ou uma pessoa batendo o bife para o almoço.
Diante das possibilidades, a mãe resolve escolher a resposta mais provável e, também, a mais simples e menos vexatória.
- Filhinho, esse barulho POU POU POU é o vizinho de cima batendo bife.
O filhinho, com seu dedo gorducho, carinha de curioso e olhinhos espertos logo assimila a informação, e para mostrar que entendeu direitinho, dá um tapão no próprio braço.
A mãe não entende de onde aquilo saiu, mas compreende que o filhinho do dedo gorducho captou o sentido de suas palavras. Ela, então, riu, e eles seguiram o almoço entre garfadas, batidas no braço e a frase "é o vizinho batendo bife".
Alguns dias mais tarde, o vizinho, que não é nenhum pé de anjo, caminha para lá e para cá em seu apartamento. A mãe e o filhinho de carinha de curioso escutam. O menino, então, aponta para cima e dá um tapa no próprio braço. Mensagem enviada, mensagem captada. Eles seguem comentando sobre o vizinho que batia bife, muito embora naquele momento apenas caminhasse (e ao que constasse, sem bater bife durante o processo).
Mais tempo se passa e, certa noite, durante o jantar, no dia da final do campeonato de futebol americano, esporte adorado no país estrangeiro em que moram mãe e filhinho de olhinhos espertos, o vizinho resolve dar uma festa. É um tal de passa pisando duro para cá, range o piso da cozinha para lá, bate portas, armários e pratos, grita e muxoxeia a cada lance da partida. E os dois seguem todo o tempo da refeição comentando (e o menino batendo no próprio braço) sobre o vizinho que batia bife, ainda que naquele momento ele apenas comesse snacks, bebesse cerveja e assistisse à televisão.
Eis, então, que um belo dia, no corredor do prédio, acontece o encontro. Mãe e filhinho dão de cara com o vizinho que bate bife, o qual, naquele momento, todavia, não batesse nada, apenas entrasse em casa, como eles.
A mãe arranha um cumprimento no idioma adquirido, o vizinho responde e o filho pergunta:
- Hã?
A mãe, educada, responde:
- Este é o vizinho, filhinho. Our neighbor, sweetheart.
E o filhinho, esperta e previsivelmente, embora a mãe não tivesse atinado para isso naquele momento, começa, feliz da vida, a bater com força no próprio bracinho.

Moral da história: sempre tenha na manga a desculpa de que "arm" (braço) e "neighbor" (vizinho), em português, são palavras muito, muito, muito parecidas em português. Ou apenas ensine que seu vizinho está fazendo sexo selvagem alucicrazy na cozinha durante o horário de almoço. Mas sem gestos, pelo amor!

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Batuque na cozinha sinhá não qué

Eu odeio cozinhar. Tipo, odeio muito. Tipo eu lavo o banheiro, mas não frito um bife. Tipo eu desço e patino no gelo do corredor do prédio com quinze mil quilos no lombo, mas não faço um feijão. Tipo eu sofro, diariamente, pensando nos momentos em que fatalmente irei para a cozinha cozinhar. Sofro. Quase choro.
No entanto, sem falsa modéstia, preciso dizer que tenho talento. Minha memória gustativa e olfativa me permitem calcular de olho os ingredientes e temperos de muita coisa, eu faço combinações inusitadas que dão certo, e raramente erro o ponto das coisas. Sei lá, sexto sentido, coisa cultural ou um ato desesperado do meu inconsciente para se livrar do terror terrificante de esquentar o umbigo no fogão. Não sou uma chef nata, com pratos divinos de lamber a tigela, não. Mas para quem tem tamanha ogeriza ao fogão, eu cozinho bem. Então que esse meu talento só costumava se revelar às pessoas em raríssimas ocasiões, e em casa, no Brasil, eu tinha uma santa faxineira que cozinhava quilos de arroz, feijão, quiabo, espinafre, batata, vagem, milho, cenoura e o que mais minha imaginação (ou a feira livre) permitisse que eu criasse. Pratos simples, pratos especiais, até cuscuz de milho eu tinha prontinho na geladeira mais próxima (no caso, a minha mesmo). Era divino. Era o paraíso na terra. E eu tinha plena ciência disso. Aproveitava cada garfada cozinhada por outrem. Cada pedacinho que não tinha o meu dedo de cozinheira.
Aí nasceu Arthur.
E eu virei a provedora-master de alimentos: sete meses de amamentação exclusiva, depois as papinhas (as primeiras, antes de começar com o BLW), e então a escolha pelos alimentos que meu pequeno consumiria. Não cozinhava muito nesse último estágio, é verdade, mas orientava os rumos da comida na casa.
Aí nós nos mudamos.
Aí acabou a mordomia de faxineira.
Mas eu me mudei para o paraíso das comidas prontas, congeladas, semi-prontas, rápidas, gordas, devagares e orgânicas. Tem de tudo, para todos os bolsos e taxas de colesterol!
Sabe qual a ironia dessa história? Arthur, meu filho, este que saiu do meu ventre, simplesmente recusa-se a comer qualquer comida que não seja a minha.
Um beijo que eu vou ali fazer um arroz.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Os dentinhos e o colar de âmbar

Aos quase vinte meses Arthur tem quase catorze dentes. Digo quase porque os caninos superiores apenas apontaram, rasgando a gengiva, mas ainda não nasceram por completo. Então, ele tem, digamos, doze dentes e meio (1/4 de cada canino).
Os primeiros dentes que vieram, conforme os manuais indicam, foram os incisivos centrais inferiores. Dois de uma vez. Como meu pequeno já vinha usando colar de âmbar, não notei grandes mudanças, sobretudo porque Arthur nunca babou. Pelo menos não daquele jeito que babam muitos bebês, de molhar babador, camiseta e calça.
Esperei os primeiros dentes apontarem para, oficialmente, iniciar a introdução de outros alimentos que não o leite materno. A minha escolha foi pessoal e nada científica, apenas baseada na crença de que a natureza daria os primeiros sinais de que Arthur estaria pronto para ingerir novas texturas e sabores. Esperei, portanto, que ele se sentasse com firmeza e que tivesse dentinhos.
Durante o período, para ajudar a aliviar e também porque era muito divertido, ofereci ao meu molecote cenoura geladinha (devidamente descascada e limpa, sob supervisão para que, caso um pedacinho se soltasse, ele não engasgasse) e picolé de leite materno. A cenoura foi uma curtição, principalmente porque os dentinhos vieram bem no carnaval e fantasiei Arthur de coelhinho, com a cenoura-mordedor fazendo parte dos adereços de mão! E o picolé de leite materno era moleza de fazer: congelava meu leite em uma forminha de picolé (vende em supermercados e lojas de utilidades para o lar, bem baratinho),  o menino pronto para se melecar e deixava que ele mesmo guiasse o geladinho para onde quisesse.
(Sobre o picolé, existe uma ressalva importante: como Arthur nunca apresentou qualquer problema crônico nas vias superiores, como eu morava no Hell de Janeiro e seus 70 graus na sombra, oferecia o picolezinho com parcimônia e ciente de que não era a coisa mais recomendada do mundo, embora aliviasse calor e dentinhos e, de lambuja, ainda proporcionasse uma visível diversão ao meu filho. Escolhas que fazemos nessa vida.)
Depois dos incisivos inferiores, vieram os superiores, e então aquelas gengivinhas rosadas e nuas começaram a ficar povoadas de dentinhos branquinhos e graciosos... que me mordiam os mamilos!
Fiquei desesperada, confesso, com o fato de que depois de sofrer quase todas as urucubacas da amamentação então precisasse encarar um bebê mordedor. Mas fazer o quê? Amamentar era preciso, ficar sem dor não era preciso, segui, portanto, em frente. Quando ele mordia, eu enfiava meu dedinho mindinho na gengiva dele, por trás dos novos dentinhos, e impedia, explicando que machucava a mamãe, um estrago maior. Claro que não funcionava muito. E claro que ele continuou testando no lugar mais seguro do mundo (para ele) a função dos novos apetrechos de seu corpinho. Se seu bebê está fazendo isso contigo, infelizmente, só tenho a dizer: paciência, paciência, amor e muito cuidado para que ele não fira seu mamilo e abra, assim, a porta para infecções.
Pois a vida continuou e veio a nossa loucura da mudança.
Arthur continuava com seu colar de âmbar, e os dentes foram chegando de maneira relativamente suave. Nunca febre, diarreia ou irritação extrema. Um ou outro dia de mordeção (mordedores, dedos e, claro, meus peitos!). Até que um dia eu dei um morango para o pequeno. Não comentei aqui, mas desde que Arthur saiu da creche que eu adotei como método de alimentação o baby led weaning (um pouco sobre aqui e aqui), mais prático. Pois que ele estava atracado ao morango, comigo supervisionando, e de repente o morango acabou: foi devorado com uma rapidez nunca antes vista! Achei curioso, mas nem pensei muito mais sobre o assunto (provavelmente porque, na sequência do morango, Arthur deve ter ido aprontar altas confusões e aventuras). Alguns dias mais tarde, em meio a uma gargalhada, gelei. Ali dentro daquela boquinha lindinha havia manchas brancas. Como tive uma monília carente até mais ou menos uns três meses atrás, fiquei apavorada achando que o fungo tinha passado para meu bebê, e que as manchinhas brancas (características da patologia) eram colônias de cândida na boquinha do meu cândido! Surtei. Um pouco. E por pouco. Fazendo Arthur gargalhar mais uma vez, descobri, completamente perplexa, que os quatro molares haviam nascido ao mesmo tempo (a julgar pelo tamanho uniforme) e eu nem sequer notara! E, não, eu não notara porque estava atarantada demais com as coisas da mudança, mas sim porque ele superou o nascimento quádruplo sem qualquer tipo de reclamação!
Agora, com os caninos apontando, ele tem ficado mais irritadiço e angustiado, levando brinquedinhos e os dedinhos à boca com mais frequência, mas ainda assim tem levado numa boa.
Embora não haja qualquer comprovaçã científica de que o colar de âmbar seja realmente eficaz, por aqui a fase crítica do nascimentos dos dentinhos foi superada com relativa tranquilidade e sem maiores traumas. O risco de estrangulamento e de aspiração das contas de âmbar existe, e todos que optarem por usar tal acessório em seu(s) filho(s) devem estar cientes disso (uma pesquisa rápida no Google oferecerá diversos resultados e advertências). Por aqui, no entanto, essa foi a opção que mais se adequou às minhas crenças e ao meu estilo de vida, e pretendo manter meu pequeno usando-o sob supervisão por mais um bom tempo, já que suas propriedades antiinflamatórias não servem somente para a dentição.
E só para fins de curiosidade, já que nunca experimentei, existe ainda uma outra alternativa natural para aliviar os sintomas do nascimentos dos dentinhos: trata-se da raiz de íris.
Alguém conhece mais algum método não-farmacológico (ou seja, nada de remédios!) de alívio para o período de nascimento de dentinhos?

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Ode ao café

Arábico das mil e uma noites insones
Foste renegado por mim por anos
Mas agora trinca meus dentes
Num sorriso preciso porque vivo

Vivo com sono
Caindo pelos cantos
Cantos de ninar, cantos de embalar
Cantos de acocorar e brincar

Vivo, o grão amargo mais doce que existe
Ressoa dentro de mim
Num bailado artificialmente natural
Cheio de energia e um pouco de polca

Não polco, pois brasileira sou
Mas cafeíno-me,
Pois mãe e trabalhadora,
Estou sempre cansada.
- Ufa, que bom, né? Sexta-feira...
- É. O que vamos fazer amanhã?
- Ué, o que fazemos todos os dias!
- Tentar dominar o mundo?
- Não. Tentar dormir mais cinco minutinhos de manhã.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pequeno guia visual de lavagem de roupa

Se ir ao mercado é corrida com obstáculos, lavar roupa é pentatlo: levantamento de pesos, tiros de dez metros para buscar o guri, agachamentos e, porque estamos no inverno, também tem patinação no gelo do corredor dos fundos e, claro, patinação artística, com equilibrio de bebê, trouxas de roupas, chave, sabão e moedinhas.
Ficou curioso(a) para saber como é a aventura?
Apresentamos o primeiro guia visual do blog!

A roupa suja acumulou e você está sem coragem de enfrentar a missão? Este pequeno guia visual vai ajudá-lo(a) a ver com novos olhos essa tarefa inglória das atividades domésticas.

Comece separando o que você precisa para lavar roupa.
Por aqui, precisamos de:

  • Mãe disposta;
  • Bebê disposto, alimentado, trocado e descansado;
  • Roupas sujas;
  • Recipiente para transporte de roupas sujas e limpas;
  • Roupas limpas (ou quase) para vestir - a saber: duas calças adulto, camiseta adulto, suéter adulto, casaco corta-vento adulto, meias e sapatos, luvas e protetores de orelhas + body de manga comprida, macacão flanelado ou de fleece, casaco de inverno com corta-vento, meias, botas, luvas, gorro;
  • Canguru;
  • Chave das áreas comuns do prédio;
  • Sabão para lavar as roupas - aqui usamos um para nossas roupas, outro para as do Arthur;
  • Quinze moedinhas.
Pouparei meus leitores da chatura das camadas e mais camadas de roupas, então vamos logo para a ação.

Chaves, moedinhas e paciência. Muita paciência e disposição.

Prestes a encarar sensação térmica de -27C.

Depois dos levantamentos de pesos iniciais e dos primeiros agachamentos, eis a modalidade patinação no gelo do corredor.

Neve, neve, neve. E mais neve.


Canguru, bebê, trouxa de roupa suja e outra trouxa carregando isso tudo.

Rinque de patinação artística.
Ufa! Chegamos. Agora é hora de mais agachamentos e dos tiros livres atrás do rapaz encasacado.

Moedinhas, moedinhas, moedinhas. Um desafio completo, desde a sua coleção até evitar que filhote as engula.
São quase quatro, mas o processo começou bem mais cedo, logo depois do almoço, afinal todo mundo sabe o quão exaustivo é separar roupas com um bebê ajudando no processo.
Não se esqueça de que todas as etapas feitas até agora são feitas duas vezes, pois temos as roupas nossas e as do Arthur, e eu não tenho a compleixão física suficiente para fazer apenas uma viagem com todas as tralhas + o bebê.
Quase uma hora mais tarde, voltamos para colocar a roupa para secar.
E roupa que seca na máquina num clima seco vocês já sabem o que proporciona, né? Choques de eletricidade estática. Eu gosto de pensar que é TENS, para ajudar nas dores das costas.

Tudo lavado, seco, empacotado, pronto para ser carregado em meio ao gelo e à neve. Muques de aço!
Achei fanfarrão da parte do condomínio colocar esta placa. Singela homenagem à mãe que lava roupa.
Já é noite quando o processo termina. Aí, começam os malabarismos na cozinha.
E aí, pessoal, joinha?







quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Duende

Tem um duende aqui em casa. Ele mora em algum buraco que ainda não descobri onde fica, e no meio da noite sai para passear.
Quando eu morava com os meus pais, também tínhamos um duende, e eu, quando cheguei aqui, preferia o duende tupiniquim, que enquanto eu saía para trabalhar, arrumava a sala, lavava e estendia a roupa, fazia comida, varria a casa, lavava a louça. E eu preferia o duende brasileiro porque o daqui faz justamente o contrário!
E, por culpa desse maroto, embora eu seja agora uma dona de casa, as coisas não andam arrumadíssimas por aqui. 
É que  como agora eu passo muito mais tempo em casa, o tal duende, quando sai, não tem tempo de bagunçar e depois arrumar, como é da natureza desses seres.
Mas querem saber? Bagunceiro ou não, o duende já faz parte da família, e embora me deixe bem cansada, pois há momentos em que não é possível simplesmente deixar para lá a confusão de louça na pia ou a pilha de roupas por lavar, ele trouxe consigo um presente incrível: permitir que eu assista, todos os dias, o dia inteiro, meu filho descobrir o mundo e a si mesmo.

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Porque não oferecer água a um bebê amamentado exclusivamente ao seio

Rio de Janeiro, setenta graus na sombra.
Tá, tá, tá. Exagerei. Mas a gente sabe que nessa época do ano, no Brasil, a coisa ferve mesmo em alguns lugares, e tem dias que é difícil viver sem derrapar no próprio suor.
Aí, amiga, você, recém-parida (ou quase), se pergunta, como todas as mães que pariram no trópicos antes de você: dou ou não dou água para o meu filhotinho que só mama no peitinho?
E eu respondo: NÃO!*
Não dê água para o bebê menor de seis meses e que é amamentado exclusivamente ao seio.
Está calor, eu sei. Mas sabe quem também sabe? Suas tetas! É. Suas glândulas mamárias já perceberam que a coisa está quente e que a ingestão de água aumentou, com isso, o seu leite já está mais hidratante, inclusive perfeitamente equilibrado em termos de sais minerais, que entre outras coisas, facilitam a absorção de líquidos. Além disso, outra pessoa também já notou que está calor: o seu bebê, que provavelmente está mamando mais vezes porque, afinal, suar dá sede.
E não importa que venha a tia agourenta do vizinho do avô do marido falar que deu água para o bebê de dois meses. Também não se deixe convencer pela própria mãe, ou sogra, se elas insistirem que "mal não faz". Porém, se a tentação é grande e você derrapou não somente no suor lá em cima, mas também na segurança que tinha sobre a informação, deixo com vocês a resposta da Socorro Moreira, ex-participante da lista Parto Nosso, que frequentei por anos, sobre por que não devemos dar água ao bebê menor de seis meses amamentado somente ao seio:
"Em primeiro lugar, porque para garantir que o bebê vai receber uma água perfeitamente estéril é preciso filtrar, ferver e aerar a água, já que a água depois de fervida fica 'pesada'. Ah, e tem que ser água tratada. E precisa ferver todos os acessórios, como bicos, mamadeiras e copinhos. E precisa convencer a criança a beber aquela água, que não tem gosto de nada. Como se não bastasse toda essa trabalheira, ainda tem o fato de que água é só água. Não tem vitamina, anticorpos, não vem na temperatura do corpo que facilita e muito a absorção.
Se for água mineral, dependendo da quantidade de sais minerais da água, ainda pode-se correr o risco de se sobrecarregar os rins do bebê.

Ok, não convence a pessoa. Porque tem gente que diz: Ah, mas você começou a tomar água com dois meses.
Bom, se a pessoa se propuser a filtrar a água, ferver, aerar, esterilizar a mamadeira ou o copinho que vai dar e ainda por cima oferecer a água para a criança, cara, essa criatura precisa vir aqui em casa. Tô precisando de alguém assim disposto para lavar louça, guardar roupa, olhar os meninos enquanto eu trabalho.
No final das contas, às vezes tudo que a gente precisa é daquele sorriso muuuito carinhoso e a frase: 'Ele não bebe água porque a mãe dele sou eu e eu não permito. Quando chegar o tempo de dar água, eu mesma dou!'"



OBS: Não quero ver ninguém surtando porque não deu água tratada, filtrada E fervida para o filho, ou porque deu água mineral. Este é um texto informativo e que visa a ressaltar a superioridade da praticidade e da qualidade do aleitamento materno frente à hidratação feita somente com água, sem destinação específica. Ou seja: na dúvida, pesquise, se informe e vá debater o seu caso com o profissional da área de saúde que atende o seu caso. A orientação, por exemplo, para o Arthur, que começou a beber água com a introdução alimentar, foi somente água filtrada ou mineral, sem necessidade de ferver.


[Quem tiver dúvidas, pode consultar a muito acessível e bem-feita cartilha da Fiocruz ou o documento da OMS sobre o assunto. Se as dúvidas persistirem, convém procurar um banco de leite humano (no fim da cartilha da Fiocruz existem telefones e endereços em todo o Brasil), um grupo de apoio à amamentação (como a La Leche League, por exemplo) ou uma consultora em amamentação.]


*Mas se o médico que acompanha o seu caso mandou dar água, dê! Não sou médica e estou falando de um modo geral. Se você tem dúvidas sobre o seu caso específico, consulte o pediatra do seu filho ou o profissional de saúde que geralmente o atende.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Receita de frango ao molho de laranja com gengibre

Olá, queridos leitores. Na postagem de hoje vamos fazer um delicioso peito de frango grelhado com molho de laranja e gengibre!
Todos prontos?
Lápis e papel na mão que eu vou começar.

Primeiro, antes de mais nada, você deve ir ao supermercado.
Se conseguir voltar com: todos os ingredientes, o bebê sem escoriações ou choros descontrolados, tempo hábil para fazer o almoço e, sobretudo, uma paciência de Jó, já podemos dar início ao prato.
Esta é um refeição leve, muito gostosa e prática.
Quero dizer, é uma refeição muito leve e gostosa.

Ingredientes:
Peito de frango cortado em finas fatias (para nenhuma parte ficar crua, porque é perigoso consumir frango cru)
Laranja
Açúcar mascavo
Manteiga ou margarina
Shoyo
Amido de milho
Gengibre
Um ralador
Uma panela
Uma frigideira

Modo de fazer:
Chegue do mercado esbaforida e pouse no chão da sala todas as sacolas e o seu bebê. Enquanto ele se entretém espalhando todos os itens pelo chão, vá despindo as muitas camadas de roupas, casacos e acessórios invernais. Reserve.
Cate todos os produtos, não se esquecendo de ir buscar no chão do banheiro a caixa de morangos, e dentro da gaveta de calcinhas a bandeja de frango. Guarde o que for de geladeira, deixe o bebê brincando com o que não necessitar de regrigeração e nem representar perigo imediato, tipo o frasco de água sanitária.
Lave as mãos.
Abra a embalagem de frango e repita pelo menos três vezes "não, amorzinho, não mexe no franguinho. Toma aqui este pacote de fraldas, que isso pode". Reserve.
Corra na sala para ver se o silêncio que impera no seu lar significa que o seu bebê McGyver está fazendo fogo somente com um pacote de fraldas e um chocalho babado. Volte correndo para a cozinha e tempere os peitos de frango somente com sal (pouco) e, se quiser, algumas ervas. Afague o cabelo do bebê que está agarrado nas suas pernas, resmungando. Cuidado para não temperar a criança. A não ser que seja dia do marido dar banho.
Lave as mãos, ligue o fogo e coloque a frigideira para aquecer.
Corra no quarto e descubra o que o bebê está arrastando. Volte se for um brinquedinho, corrija se for o iPad do pai.
Volte. Lave as mãos, corte a laranja ao meio e esprema na mão o suco de uma das metades. Pare, vá verificar se o som de batida foi a cabeça da criança no chão ou a estante da sala sendo derrubada. Grite. Arrependa-se. Volte, lave as mãos, continue a espremer a metade da laranja na panela.
Lave as mãos, pegue o seu filho no colo. Com muito cuidado, para não queimar ninguém, coloque os frangos para grelhar. Lave as mãos, não molhe o bebê, esprema a outra metade da laranja. Coloque um pouco de açúcar mascavo no suco de laranja. Desvie das mãozinhas curiosas e derrame uma porção involuntária e generosa de mais açúcar mascavo. Pense "dane-se!" e continue. Segure o bebê, não deixando que ele caia ao se jogar do seu colo rumo ao pedaço de gengibre. Tudo bem se ele mascar a raiz. Dizem que faz bem para a garganta.
Pegue um biscoito. Entregue o biscoito na mão do bebê, tentando, ao mesmo tempo, recuperar o gengibre. Negocie. Regateie. Chantageie. Arrependa-se.
Pegue o gengibre (de preferência distraindo o bebê com outras coisas), passe no ralador. Não muito. Para uma laranja grande eu usei cerca de uma colher de café.
Vire o frango na frigideira. Cuidado com a perna da criança.
Ligue o fogo sob a panela com o suco de laranja "temperado". Você deve fazer uma redução. Ou esquentar um pouquinho, o que seu bebê permitir que você faça.
Pouse a criança no chão, explicando que agora você vai precisar das duas mãos um pouquinho.
Vete a tentativa de mexer nos botões do fogão. Vete a tentativa de puxar o fio da cafeteira. Repita "não, amorzinho, não mexe no franguinho. Toma aqui este pacote de fraldas, que isso pode". Mais uma vez. Mexa a panela com a redução.
Ignore a receita e passe a misturar os ingredientes conforme você "sente" que funciona.
Corra na sala, não deixe que o bebê pegue o copo de água que você esqueceu em cima da escrivaninha. Console seu choro. Volte para a cozinha, mexa a panela, desligue o frango, chame o bebê e apresente a ele uma maravilhosa escumadeira. Repita "não, amorzinho, não mexe no franguinho. Toma aqui a escumadeira, que isso pode". Guarde (finalmente!) o frango. Pegue o bebê no colo. Coloque a manteiga (uma colher de sopa) e dissolva. Retire a mão do bebê de dentro do pote de manteiga e lave-a copiosamente, para minimizar a gordura. Pouse a criança no chão. Acrescente um pouco de shoyo. No molho, não no bebê. Cuidado, pois o ideal é o equivalente a uma colher e meia de sopa, mas se você for olhar para o lado porque o menino está prestes a prender o dedo na gaveta, você pode derramar mais do que o necessário. Se isso acontecer, console-se pensando que o açúcar mascavo em excesso vai cortar o sal do shoyo em excesso.
Lave as mãos, abra o armário, retire a faca da mão do bebê (era sem serra e sem ponta, ok, mas nunca se sabe). Coloque uma colher de sopa de amido de milho na panela. Assista ao empelotamento do molho enquanto você dá colo ao bebê. Mexa até engrossar. Acalme o bebê, coloque-o na cadeira de refeições. Sirva-o.
Sirva-se de arroz, um peito de frango e regue com o molho, tomando o cuidado para não pescar as bolotas de amido e nem o biscoito ou o pedaço de cenoura (!!) que seu filho conseguiu jogar dentro da panela.

Bom apetite!

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Da chegada - voo

Olha, longe de mim querer traumatizar as pessoas, por isso faço questão de lembrar-vos de que Murphy me ama. Aliás, Murphy deve ter uma paixão enrustida por mim, daquelas que deixam cheia de recalque o apaixonado não-correspondido, que a qualquer pretexto ou oportunidade dá aquela espezinhada safada. Sabem como é? Tipo o Pedrinho, da terceira série, que puxava o seu cabelo no recreio, e que no primeiro ano do ensino médio veio declarar o seu amor no meio do primeiro porre na festinha do Gutão.
Então. É assim comigo.
Murphy me ama, me idolatra e se ressente de eu já ser casada.
Tendo isso em mente e a passagem na mão, vamos embacar comigo nesse voo.
"Atenção, senhores passageiros, com destino a Chicago. Embarque no portão 666. O inferno os aguarda."
Ignorei a voz sensual no microfone e, de passaportes e passagens em riste, fui dar tchau para a família, que foi em peso ao aeroporto. Só faltou a Genoveva, a galinha do sítio da minha tia. Aliás, era só ela mesmo que estava faltando naquele aeroporto ABARROTADO! Das duas uma: ou o Brasil vai muito bem e está todo mundo podre de rico, viajando horrores, queimando dólares para aquecer lareira e euros para acender charutos, ou o país vai mal e todo mundo está fugindo!
Bom, eu não estava nem fugindo, muito menos nadando em dinheiro. Estava apenas tentando embarcar para minha nova vida. Embarcar com marido, filhote e a madrinha do filhote, devidamente convocada para ser um par extra de mãos (a.k.a. mão de obra para trabalhos domésticos e babazísticos. Faz parte. Por isso, sugiro que a madrinha do filho de vocês seja jovem. Se não jovem, disposta e cheia de energia. Se nada disso, pelo menos rica. Optei pela madrinha jovem.). Então estávamos nós e nossas infindáveis malas, malinhas, maletas, sacolinhas e bolsinhas, sling, objetos de uso pessoal, passaportes, apretrechos e casacos, nos despedindo da família inteira. Choro, gente se jogando no chão e gritando "nããããoooo", correria, desespero. Tá, mentira, não teve nada disso, mas a minha mãe chorou.
Entregamos as passagens para a moça da entrada, ela fez "PIP" com aquele leitor a laser, e nos encaminhamos para a área de segurança. Nós e a penca de penduricalhos, aí incluído Arthur, que arrastávamos conosco.
Eu não sei vocês, mas sempre fico tensa em revistas. Mesmo que eu não deva, eu tremo. Acontece que dessa vez eu achava que devia, porque entrei num fight com o pessoal da companhia aérea e estava contrabandeando para os EUA duas perigosíssimas sopas congeladas sem leite ou derivados. É que a bodega da American Airlines não tem dieta especial sem leite e derivados, só uma refeição vegetariana safada (cheia de queijo e abobrinha, provavelmente. Odeio abobrinha), e a solução que me deram para o meu caso foi que eu levasse a minha própria comida. Mas precisava ser industrializada. Lá fui eu na véspera do embarque catar uma comida congelada sem leite ou derivados. E lá fui eu, no dia do embarque, para a área de segurança cheia de medo de me interrogarem por conta das sopas.
Passamos. Nós, as tranqueiras e as sopas.
Eu deveria ter desconfiado de que, se uma coisa funciona maravilhosamente bem na minha vida é porque Murphy está preparando algo mais grandioso em meu futuro. Eu, porém, devia estar ocupada demais correndo atrás do Arthur para notar tal fato. E segui em frente.
O avião foi um caso a parte. Não digo NO avião, mas sim O avião, que devia ser velho, recauchutado e obsoleto, já que teco-tecoou do início ao fim, nos brindando com narizes e gargantas secos, barulhos altos e incômodos, sacolejos e nheque-nheques mil. Se viajar com um bebê já é uma aventura, na classe econômica, num avião caindo aos pedaços e sem jantar pode ser considerado um inferno.
Opa! Pera lá! Sem jantar? Mas e as sopas? Bem, em meio a mil e uma ligações para a companhia aérea, ninguém nunca, jamais, em nenhum momento mencionou que a comida congelada deveria vir numa embalagem que permitisse o descongelamento e aquecimento em forno convencional. E eu, preocupada com mil outras coisas, nem me lembrei de que microondas e instrumentos de navegação aérea não devem combinar, né? Enfim, minhas sopas só poderiam ser descongeladas e aquecidas em microondas, que não tinha no avião, e então eu passei a viagem toda comendo Oreo, que não tem leite.
Ao chegarmos, enfim, em solo americano, a viagem parecia mais ou menos encaminhada para um desfecho tranquilo, pois o voo seguinte seria feito a partir do mesmo aeroporto em que fizemos a imigração e tinha uma folguinha no horário. Depois de cerca de onze horas sem dormir, com pele e mucosas faciais ressecadas pelo ar tenebroso da cabine, as costas massacradas pelas "poltronas" e por carregar Arthur para cima e para baixo, o voo de cerca de duas horas parecia, ao mesmo tempo, a redenção e o que sugaria nossas últimas energias.
Tudo parecia bem, até que os computadores da imigração norte-americana travaram. E nós ficamos por ali, na fila, esperando, uma pá de tempo. E quando saímos, para pegar o segundo voo, já estávamos atrasados. Marido e madrinha não queriam perder tempo, e fizeram cara feia quando eu parei para perguntar a um funcionário do aeroporto para que lado ficava o nosso portão de embarque. O tal funcionário pilotava uma geringonça que parecia a limusine dos carrinhos de golfe motorizados. Um trenzinho "conversível" comprido mesmo, com os símbolos de portadores de necessidades especiais na lateral. O moço, apiedado da nossa situação, falou "entrem!", e nós entramos. Entramos e saímos em grande velocidade, com um vento gelado batendo no nosso rosto, pelo JFK! Foi divertido, Arthur adorou, eu adorei, todo mundo se divertiu. E chegamos ao guichê/portão de embarque bem na hora... de ver, através daquele janelão, o nosso avião levantar voo sem nós!
Emitimos novas passagens e esperamos. Uma hora até o próximo voo. Depois, outra hora dentro do avião, nem me lembro mais do motivo, confesso. Aliás, depois do passeio de trenzinho pelo aeroporto, não me lembro de mais nada. Tudo não passa de um borrão de exaustão, choro, fome, dores musculares e ansiedade. Acho que chegamos bem. Acho que comemos. Acho até que fomos ao supermercado comprar itens de necessidade básica.
Depois me perguntam se eu não quero voltar para o Brasil. Minha gente, se eu pudesse, e se a saudade deixasse, nunca mais que eu entrava num avião, que é para não correr o risco de pegar, mais uma vez, Murphy na cabine de comando.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

Mimem seus filhos!

Segundo o dicionário Aulete, existem cinco acepções da palavra "mimo", e somente uma tem cunho pejorativo. Acho curioso que justamente esta acepção, que associa excesso e carinho especificamente ao mundo infantil, tenha ganhado tal força que apague as demais. Como assim vivemos numa sociedade em que ignoramos solenemente "graça, leveza, coisa encantadora, delicada ou bela"?
Bom, aí eu comecei a remoer, né?
Tudo começou... ora, sei lá bem como começou. Acho que desde que Arthur saiu daqui da pança e não ficou no bebê conforto, nem no carrinho, nem no bercinho, as pessoas começaram a ficar incomodadas com as minhas escolhas. Ora, que chatura! Gostaria de saber de onde as pessoas tiraram a ideia estapafúrdia de que carinho faz mal, sobretudo, ao caráter de uma pessoa. 
Pois bem, o fato é que fiquei aqui matutando sobre o que significa mimar uma criança, e sobre por que encher o filhote de carinhos e afagos causa tanto frisson.
Ora, mimar, se tomarmos a significação pejorativa da coisa, entendendo que uma criança mimada é necessariamente algo não desejável, logo inferimos a ideia de oferecer à criança uma resposta incorreta quando ela pede amor. Incorreta porque imprecisa, porque não precisa, desnecessária. 
A criança PRECISA de amor, de cuidado, de afeto, de atenção. Ou seja, ela precisa de mimos, nas outras quatro acepções dadas pelo dicionário. 
Por outro lado, a criança NÃO precisa do último videogame, de ganhar presentes e mais presentes a cada efeméride, de ter zilhões de brinquedos e DVDs e, sobretudo, ela NÃO precisa (e nem deveria) ser largada sozinha com todas essas desnecessárias materialidades. Note bem que eu não estou julgando ninguém, nem pretendo analisar a conduta de nenhuma mãe. Estou pensando genericamente sobre esse rótulo do "mimado", até porque ele foi o meu rótulo durante anos, apenas porque eu sou filha única.
Eu acho que as pessoas dizem que uma criança é mimada porque não entendem que amar é mimar, porque é cuidar, é zelar, é dar afeto, é dar carinho, é agradar/ser agradável. Isso não estraga ninguém. E mais: é coisa completamente diferente de dar materialmente as coisas. Esses "agrados materiais" são, muitas vezes, uma muleta para os pais, que compensam ausências físicas e emocionais, e para os filhos, que se agarram a coisas, quando deveriam se agarrar a pessoas e emoções. Na nossa sociedade, em que ter se confunde com ser, não causa espanto a confusão na mais primordial das relações, não é de se estranhar que mães e pais queiram mostrar à sociedade o quanto amam seus filhos enchendo-os de símbolos e emblemas do ter, do bem-cuidar: carrinhos caros, eletrônicos, coisas de última geração (e aqui se incluem alimentos ditos "de ponta", como leites fortificados ou vitaminas XPTO), tudo "do bom e do melhor". Não acho que façam isso de má fé. Ao contrário, querem mesmo dar tudo de bom e do melhor. Mas a gente está numa sociedade em que as escolhas (e escolher É consumir) estão pasteurizadas, ou pré-definidas. Vemos isso quando os pais são rotulados, tipo, se o nascimento se deu através de cesárea, os pais vão dar leite artificial, chupeta, Galinha Pintadinha e festa no buffet infantil. Em contrapartida, se o nascimento se deu através de um parto domiciliar, os pais serão adeptos de sling, evacuation comunication, amamentar até fazer 18 anos e só dar presente de garrafa PET reciclada. Como se fosse um pacote, feito aqueles de quando a gente casa: dez bem-casados, vinte chocolates, dois tipos de croquete, suco e refri.
Só que não é assim, né? 
As escolhas estáo aí para serem... escolhidas. E muita gente está ocupada demais para fazer isso, ou então ainda não percebeu que pode ser assim. Ou já percebeu, já escolheu algumas coisas, outras não, mas não se livra do rótulo. E o rótulo serve para quê? Para vender! Vender ideias e produtos e estilos de vida a um grupo que possa ser enquadrado num determinado público-alvo. Então, se a criança está "mimada", num estado que parece beirar a patologia, vem uma série de produtos e soluções para ela: Super Nanny, livros, filmes, produtos que vão fazer do momento de interação com o filho algo inesquecível e dinâmico. 
Mas eu vou contar um segredo, aqui, ó, bem baixinho. Só entre nós: as crianças não precisam de rótulos, nem de brinquedos, nem de angústias, nem de exigências de independência e maturidade precoces. Eles precisam de amor, limites claros para que não se machuquem (física e emocionalmente) e para que se insiram socialmente de acordo com os valores da família em que vivem.
Então, por favor, mime o seu filho! Continue amando, siga o seu coração, continue se questionando, mas respire fundo. Você não está sozinha nas escolhas, medos, dúvidas e angústias. Nós todas somos você, a mãe que quer (e deve) oferecer ao filho todo amor do mundo.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pling, pling, pling

Pling. Pling. Pling.
Eu não sabia de onde vinha o barulho, e tal e qual um cão perdigueiro, saí pela casa caçando-o.
Pling. Pling. Pling.
Ia pensando que o frila estava atrasado de novo. Pensando se eu tinha comprado comida suficiente para os estimados três dias de frio intenso, durante os quais fomos recomendados a ficar em casa, sob o risco de congelar os membros expostos em apenas cinco minutos. Pensando se daria tempo, naquele dia, de pegar o computador de tardinha, quando Arthur dormisse, para frilar um pouco e tentar correr atrás do tempo perdido.
E então eu descobri!
Pling. Pling. Pling.
Uma infiltração. Uma goteira. Muitas gotas, que depois viraram um fio de água que escorria do teto. Bem em cima da mesa. Onde repousava nosso computador.
Perdemos frila, computador, manchamos a mesa e ainda ficamos com um teto estropiado. Tudo isso no meio da onda de frio glacial que varreu os EUA.

Daí, ontem, de novo: Pling. Pling. Pling.
Gelei.
Pelo menos não temos mais computador (na sala) para quebrar.
Pling. Pling. Pling.
Feito um cão perdigueiro, fui caçar de onde vinha o som.
Pling. Pling. Pling.
Vocês não imaginam a alegria que é ter uma pia mal fechada na cozinha!

Da chegada

Olhando de baixo, na segurança sólida do solo sob os nossos pés, nem sempre os desafios parecem ser tão intensos. A perspectiva dá uma coragem muitas vezes enganosa, quase sempre surpreendente.
"Claro que eu vou! Imagina, nem é tão alto, nem é tão difícil, tanta gente já fez isso."
A verdade é que em todas, em absolutamente todas as situações da vida, a gente nunca sabe o que realmente acontecerá até que realmente vivamos o momento. Mesmo uma grávida de milésima viagem, mesmo uma pessoa que já se mudou duzentas vezes, mesmo quem está mais do que escolado em fazer qualquer coisa na vida. A pessoa tem uma ideia do que lhe espera, mas saber, saber de verdade, não sabe.
E aí que eu não sabia. E acho que não soube até que todo o processo estivesse numa nova fase, dando por encerrada a etapa da mudança.
No Brasil, as expectativas foram até realistas, sob certo aspecto, porque repetíamos a cada passo burocrático que dávamos rumo à nova vida "vai ser difícil no começo". No entanto, a gente não fazia ideia de COMO seria difícil. Ou seja, nós sabíamos que teríamos desafios a enfrentar, alguns até já desconfiávamos que encararíamos, mas só quando vivemos o processo foi que conhecemos o rosto dos monstros contra os quais precisaríamos lutar.
Hoje, seis meses depois da mudança, sinto que finalmente vencemos a primeira etapa, a da chegada, a do estabelecimento básico. Agora, no horizonte, novos desafios, novas armadilhas, novas surpresas, alegrias, desventuras, sustos. Mas, por ora, por hoje, enfim chegamos.