terça-feira, 18 de julho de 2017

Começou o ano

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Começou o ano. Ainda não é setembro, mas todas as medidas cabíveis já precisam ter sido tomadas porque o ano é previsível e antecipado em países onde andar na rua sem levar uma bala ou facada não são preocupações diárias.
Hoje caminhei na Lagoa e, além de passar ao lado das placas - muitas - que contam a história de crianças que morreram por causa da violência urbana e do Estado, estive também atenta ao recapeamento branco que os escrementos de pássaros fizeram na via compartilhada. Na minha frente, duas senhoras acima do peso e com roupas de ginástica param para ver a vista, alheias aos pássaros que pendem dos galhos como frutos gordos e maduros. Também eu estou alheia. Enquanto vejo isso, minha vida nos Estados Unidos seguiu e eu não sei mais se eu sei viver lá. Definitivamente ainda sei viver aqui. Mas não quero. Agora, uma moça cuja roupa não vi enquadra o Dois Irmãos em um celular. Clique. A gente pisca e passam três bicicletas. Nenhum rosto conhecido, não sei a história de ninguém ali. Passam dois corredores, a moça tem sotaque paulista e diz que é melhor passar correndo. É julho, mas já é ano que vem para mim. Embora esteja presa aqui, esperando o sinal fechar, o sinal nunca fecha, e um casal de skatistas emparelha comigo, e eles rolam os olhos por mim, como se as rodinhas tivessem subido até seus rostos. Flip. Já olham para outra pessoa. Na minha cabeça, uma lista de coisas que preciso e quero fazer. Não. Na minha cabeça, uma lista de coisas que eu deveria e queria ter feito. Não. Na minha cabeça, todo o passado. Eu vim alheia a tudo isso, como as moças que não sabiam dos pássaros nos galhos da árvore toda branca na beira da Lagoa. Mas agora, está um pouco difícil de escapar, de sair ilesa, de sair limpa dessa curva que minha vida fez. Estou presa. Passei por um homem que falava, não, gritava sozinho. Cheguei mais perto da Lagoa e uma jovem, adolescente ainda, remava no tanque, observando a mulher de ombros e braços torneados que já estava dentro da Lagoa em seu barco. Eu sou a moça do tanque e a moça da Lagoa ao mesmo tempo. Um descompasso me acorda todos os dias, uma dissonância me põe na cama todas  as noites. Tem uma fileira de arrependimentos no meu horizonte. Belo, mas impossível. Talvez eu não esteja mais na Lagoa, mas sim tenha chegado à praia, com um oceano infinito e inalcançável. Porque o lago Michigan parece um mar, com as bordas todas tão distantes e a água tão azul quando vista do alto, que agora eu não sei mais o que é mar, o que é lago, então a Lagoa pode muito bem ter me engolido e agora eu vejo um oceano impossível, presa aqui, quando o ano já começou.

Já é verão de novo. Corpos suados, sol forte. Mas o carioca insiste no casaco. Eu mesma tenho um casaco. Tão inútil quanto as listas que faço. Tão desajustado quanto minha vida descompassada. Tão inapropriado quanto as perguntas que insisto em fazer e os caminhos que insisto em tomar.
O ano já começou, e tudo que fiz foi virar para trás quando o homem passou por mim gritando, sozinho, desconexo, alheio à realidade. Foi observar as árvores, os pássaros, os excrementos, as mulheres. Nenhuma medida concreta. Passos soltos e um diálogo interno mais intenso e amedrontador que o do homem que passou gritando sozinho. Eu também grito sozinha dentro de mim. Só que não dá para chegar mais para o lado, não dá para evitar essa loucura. Atravesso a rua. O ano já começou, algumas coisas já existem lá. Só que com a Lagoa no meio fica muito difícil de enxergar qualquer coisa além do belo horizonte carioca que insiste em me prender.

2 comentários:

  1. Sinto que o tempo corre muito rápido, voa! E , por outro lado, em alguns momentos, parece que estamos em 'stand by'...
    um beijo carinhoso para vc! adorei te ler de novo!

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  2. Que texto intenso...
    Lindo!
    Venha mais, você faz falta.

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