terça-feira, 1 de outubro de 2013

Aprendizagens

Há muito tempo eu vinha pensando em como determinadas coisas que descobri/aprendi/resgatei com a maternidade pareciam muito próximas de vivências e experiências que tive enquanto praticante de atividades físicas.
Sabem, eu fui sedentária por muitos anos. Vinte e seis, para ser mais exata. Eu era a criança que preferia pique-alto porque tinha tempo de descanso, era a adolescente que matava todas as aulas de educação física e fui a jovem adulta que fugia da academia porque, sendo magra, para quê, né?
Um dia, porém, eu acordei e percebi que tinha perdido o movimento do pescoço. Não era torcicolo. Era perda de movimento. E eu sabia que a coisa estava feia, porque nos meses anteriores eu havia, pouco a pouco, sido limitada por meu próprio corpo. Começou com o movimento de torção do quadril, depois eu perdi a capacidade de mover adequadamente os braços, até que um dia, aos vinte e seis anos, eu perdi todos esses movimentos mais a capacidade de virar o pescoço. Fora a dor, que já me acompanhava desde meus 11 anos.
Resolvi procurar ajuda, claro. Fui a diversos ortopedistas e iniciei um longo processo de recuperação com fisioterapia. Eu era a única jovem da minha "turma" de pilates fisioterápico. Ao meu lado, senhoras e senhores que conseguiam levantar mais peso e ter mais mobilidade que eu, que estava no auge da juventude. Na minha avaliação, constatou-se que eu havia perdido quase toda minha massa muscular (não sei o termo técnico) de determinada parte das costas, estava fraquíssima e, pior, com a coluna seriamente comprometida, pois não havia sustentação e uma hérnia se anunciava como a próxima etapa da deterioração de minha saúde óssea/postural. Fora a pelanca na barriga, mesmo sendo magra, as enxaquecas quase diárias e, claro, a lordose horrível, que me dava um ar de derrotada mesmo nos dias mais felizes da minha vida.
Decidi mudar. Era uma escolha: ser saudável e enfrentar meus preconceitos (já que eu nunca havia feito atividades físicas de forma sistemática antes) ou continuar na minha zona de (des)conforto.
Dediquei-me à fisioterapia e, mesmo sem receber alta (fisioterapeutas, não me matem; e leitores, não repitam isso em casa!), me matriculei numa atividade física. Escolhi uma que eu sempre quis fazer: balé! E aos vinte e seis, quase vinte e sete, comprei minha primeira sapatilha.
A turma, assim como no pilates, era composta de pessoas mais velhas que eu. E, claro, pessoas com muito mais experiência no balé. Então, eu era a mais jovem, a mais flácida, a mais descoordenada e a que menos tinha conhecimento das posições e fundamentos da dança.
Insisti. Fui em frente. Chovesse ou fizesse sol, ia eu lá para o balé, para a fisioterapia, e um ano depois já não tinha enxaquecas, havia recuperado meus movimentos e a hérnia voltara a ser apenas uma sombra no horizonte (embora eu tenha até hoje espondilolistese).
Depois do balé, fiz ioga, alongamento e pilates de chão e com bolas, hidroginástica, musculação...
Mas o que eu quero contar aconteceu mesmo no balé.
Cheguei com as sapatilhas novas, o collant, a calça, e logo na primeira aula veio a frustração, o desafio incompleto de executar com perfeição o movimento.
Se você nunca entrou em um studio de balé, informo: é cruel. Só os fortes sobrevivem. E não digo isso só porque bailarinos clássicos (ou outros, mas como eu fiz balé clássico, vou falar sobre ele) são fortalezas musculares. Não, não! A crueldade está na parede INTEIRAMENTE espelhada. É um espelho IMENSO, GIGANTESCO, do qual você não pode escapar e que a cada movimento coloca em perspectiva o seu movimento e o da professora, a sua execução e a dos seus colegas. É cruel!
Meu conselho: não desista, mesmo que você veja o quão limitada é sua musculatura e o quão precária é a sua coordenação motora.
Então, eu estava no meio dessa crueldade toda, lutando muito para coordenar membros superiores, inferiores e respiração (convém não desmaiar nas aulas, né?), quando tive um clique. Sabem aqueles cliques que depois você até conta para as pessoas e elas fazem cara de "e daí essa coisa óbvia?", mas que é uma coisa tão óbvia, tão evidente, mas que você nunquinha tinha notado antes, e que depois que você percebe essa coisa coloca toda sua vida em perspectiva? Pois é. Tive um desses.
Entre um demi plié e um pas de bourrée (meu terror!) eu vi: minha limitação. Bem ali. Na minha frente. Posta ao lado das limitações alheias. E também lado a lado com os êxitos alheios. E eu vi que se eu me enrolava toda no pas de bourrée (causando comoção na aula quando enfim acertava o passo), minha incrível flexibilidade nata me colocava no mesmíssimo patamar da professora, quando o assunto era alongar as pernas (arrasava nos jettés!).
Isso, meu deus!, revolucionou minha vida.
Daí eu saí do balé, fui para a ioga, para outras práticas, outras maneiras de me conectar com meu corpo, sempre tendo em mente esse aprendizado do balé: limites. Os meus.
E aí eu engravidei. E pari (cheia de limitações, rompendo algumas barreiras, ficando em outras). E fui, fui, fui. E depois que Arthur chegou, fiquei matutando sobre essa coisa de aprender e de perceber o corpo material e de como ter um filho oferece a genial oportunidade de revisitarmos determinadas vivências.
E então, hoje, eu assisti a este vídeo (clique na imagem):


E, finalmente, eu entendi: ter um bebê é ter a incrível e única oportunidade de resgatar em si aprendizagens há muito esquecidas. É a grande dádiva que a natureza nos dá para que observemos mais uma vez o prosaico, aquilo que a repetição dos experts fez embotar: que para seguir adiante, precisamos dos pequenos movimentos executados com a máxima consciência e perfeição de que formos capazes. Porque só assim, plenamente conscientes do lugar em que estamos e do corpo que habitamos, somos capazes de escolher, aprender e conquistar.
Não desistam, tentem outra vez.

5 comentários:

  1. Eu era basicamente como vc, tinha pavor das aulas de educação física na escola, mas mais pelo fato de ser uma perna de pau magrela que usava óculos e estudava em um colégio estadual com meninas meio, digamos, masculinizadas que levavam futebol um pouco a sério... Fiz balé dos 8 aos 11 anos, e ADORAVA! Me sentia exatamente assim, forçando meus limites, esticando os músculos, alongando tudo. Mas sempre fui magra, sem muita massa muscular, o que me rendia calças 34 por vezes largas.... Quando estava na faculdade, com 23 para 24 anos, decidi que estava na hora de mudar: me matriculei na academia antes de ir para a aula e a balança que acusava 42míseroskg, saltou para 45kg em questão de meses! E assim fui ganhando massa muscular, até o dia em que comprei minha primeira (e rara) calça 36, porque antes do pânceps-Thomas, as 36 ainda ficavam largas....
    Essa questão de ter um filho, é basicamente a mesma coisa, como vc falou: testar seus limites, seu corpo desde a concepção, até o dia em que ele puder andar pelas próprias pernas.... Adorei seu texto, as always!
    Agora......Esse video é pra derreter a maquiagem, né?
    PQP, q nenê fofa! hehe
    bjoks
    Carol

    ResponderExcluir
  2. As tuas palavras, teu post foi o empurrão que me faltava pra parar de ser preguiçosa (pois eu sou mesmo) e ir atrás do que eu tanto quero... um corpo bacana, que eu me sinta bem!
    Sempre fui dessas de odiar aula de educação física, rezava que chovesse pois as aulas eram ao ar livre... mas a idade tá pesando e minha gestação modificou meu corpo de uma maneira que não curti. Voltei ao peso de sempre, fofa, mas as coisas não voltaram para o lugar certo entende?
    é estranho, me sinto estranha.
    agora vou mexer o corpo e vencer a minha preguiça... me testar, testar meus limites. Lembro na mesa de cirurgia que a médica que fez o parto do meu filho disse que eu tinha umas gorduras que pessoas idosas tem... me mandou rápido me mexer, me cuidar. isso me magoou na hora mas a minha mudança começou ali...

    simbora!

    beijo flor

    ResponderExcluir
  3. Lindo vídeo! A descoberta dos sentidos é realmente assim, né? Pega a gente completamente de surpresa...Eu sou do tipo "preguiçosa-compulsiva": Passo quase o ano todo sedentária, mas tem uns 3-4 meses que fico completamente obcecada por algum exercício e me dedico que nem atleta...(mas esse ânimo só dura alguns meses...ainda tenho que descobrir o segredo da continuidade...) Esse ano, foi a vez de me descobrir na ioga. Nossa, depois da primeira aula (e de me sentir a pessoa mais dura e desengonçada do mundo), músculos doíam aonde eu nem sabia que músculos existiam...Impressionante como a gente perde conhecimento de si mesma. Ainda bem que (pelo menos por enquanto), ainda dá para resgatar esse auto-conhecimento :)
    Beijinhos!

    ResponderExcluir
  4. Morri aqui: "Porque só assim, plenamente conscientes do lugar em que estamos e do corpo que habitamos, somos capazes de escolher, aprender e conquistar.
    Não desistam, tentem outra vez. "
    Ainda bem que já foi no final do texto. rsrsrs
    Sobre atividade física, eu sempre fiz, de todos os jeitos, por períodos diferentes, inclusive seis meses de balé aos 12 anos. Mas não parava em nenhuma, não sentia que precisava, pq sempre fui magrela, esse blá blá blá. Mas a idade vai chegando, a pochete vai se formando, e eu parei no pilates. Vou sempre, não pelo exercício, mas pelo bate-papo, pela turma que é mais ou menos fixa e acaba rolando uma amizade. É o segredo.

    ResponderExcluir