terça-feira, 29 de outubro de 2013

Cigarras da micareta

Seis da manhã de terça-feira: a dor de coluna por causa do colchão vagabundo me acorda. Sacanagem! Arthur ainda está dormindo e eu poderia descansar mais um pouco, mas tudo bem, vamos lá.
Vou até a cozinha, como um pedaço generoso de bolo regado a suco de laranja, aproveito para dar uma geral na bagunça cativa da cozinha. Seis e vinte. Decido voltar para a cama, nem que seja por uma questão de honra, não acordar antes de o sol nascer.
Entro no quarto e ouço cigarras cantando.
A média da semana foi 4 graus, e eu me pergunto de que micareta essas cigarras saíram. Aproximo-me da janela e sou atingida por uma lufada quente, e me pergunto: holocausto nuclear? aquecimento global? inversão térmica? que porra é essa?
Chego mais perto, abro a persiana com cautela, temendo dar de cara com um extraterrestre que veio me abduzir (melhor eu parar de pedir que isso aconteça quando estiver cansada) e o vidro da janela está estranhamente embaçado. O lado esquerdo é uma nódoa úmida; o lado direito, uma distorção opaca. Caceta! As cigarras estão certas: o dia está quente, mas como, já estamos no outono, que por aqui é de verdade, zona temperada, estações bem marcadas (um beijo, professor de geografia do primeiro ano!)?
Chego mais perto do vidro e decido desembaçá-lo. Ao mesmíssimo tempo em que toco sua superfície gélida, meu vizinho sai do prédio todo encasacado: gorro, luvas, cachecol. As informações díspares causam um efêmero curto-circuito em meu cérebro já não lá muito bom. Calor, frio, cigarras, luvas, ar quente e gorros rodopiam em minha mente. Sinto-me ancestralmente cansada, levemente tonta. Preciso respirar: tento abrir a janela, mas tremo tanto que não consigo. Marido acorda com a movimentação e, das profundezas de seu sono pergunta o que estou fazendo. Tento explicar, confundo-me, enrolo-me, até que ele murmura, já virando-se para o outro lado: ok, ok, só não abre a janela porque senão o aquecimento vai embora. E tudo se ilumina em minha mente.
Fica a dica, gente: aquecedores à água assobiam feito cigarras temporãs.

5 comentários:

  1. Hahahaha! Adorei! Já estava estranhando... Calor em Chicago? Nunca vi! Um dos dias mais frios que vivi foi aí...
    Li também o último post, uns dias atrás, não acabei não comentando. Só queria dizer o seguinte: todas nós somos as melhores mães que podemos ser para os nossos filhos. Isso é quase um mantra para mim, de tanto que repito mentalmente ;)
    Beijos, Paty

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  2. hahahahahahah A-DO-RO suas presepadas e os textos que contam. Diversão garantida, mas imagino o desespero dos segundos de confusão mental. hahah
    linda!!

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  3. Hahaha pois é! Esses aquecedores fazem uma barulheira!!! O lá de casa, vira e mexe, além de cantar e assobiar que nem cigarra, faz uns estalos, meio "clec, clec" (como se alguém tivesse pego uma colher e estivesse batendo no fundo de uma panela, sabe?!) Uma delícia!!! (só que não...)

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  4. Hhehehe adorei a analogia!! E os maridos com o pensamento prático que nos deixam de boc a aberta (e nos sentindo otárias)

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