terça-feira, 14 de novembro de 2017

Entrando pelo cano

Eu vou contar aqui porque minhas amigas não deram muita bola e eu preciso exorcizar esse dia.

Eu acho que esse dia começou há um ano, quando ainda estávamos na Bélgica, e todos comemos um hambúrguer maravilhoso que depois colocou todo mundo para vomitar as tripas. Então, hoje, quando o telefone tocou às quatro da manhã com uma notícia preocupante do Brasil, fui graciosamente lembrada do "hambúrguer do mal", apelido carinhoso que demos ao lachinho belga. Fui lembrada porque tiramos foto no restaurante, inclusive do hambúrguer, que estava muito gostoso (até colocar todo mundo passando muito mal). E eu tenho um aplicativo que às vezes volta no tempo e traz fotos de um, dois, três anos atrás.
O telefone tocou, marido atendeu, conversou o suficiente para eu saber qual era o assunto e seu grau de importância, e então fui checar o celular, para ver as horas e tinha lá "há um ano" com a foto do hambúrguer do mal.
Depois disso, o dia seguiu como todos os outros. Até de tarde.
Cheguei na escola e fiquei tentada a perguntar para a professora se deram um expresso no lanche para Arthur. O menino estava numa energia tamanha que era capaz de acender uma lâmpada se eu encostasse na ponta do nariz dele! Voltamos correndo para casa porque a pia entupiu.

[pausa dramática]

Vasos, pias, banheiras. Domino a arte do desentupimento depois de tantos perrengues (se não leu ou não se lembra, cata aqui nos arquivos a história do vaso entupido). Por isso, antes de ir buscar Arthur dei uma passadinha na loja de ferragens do bairro e comprei o equivalente ao Diabo Verde na gringa. Eu já conhecia o produto e sua velocidade em resolver entupimentos chatinhos, então fiz o primeiro procedimento antes de ir buscar filhote e depois voltei correndo para casa a fim de fazer tudo de novo e, enfim, resolver o problema na pia da cozinha.

[eu queria mandar um beijo para o meu amigo Murphy. Fiel e leal, nunca me abandona]

Às vezes eu acho que o universo sabe que eu tenho um blogue e que eu gosto de escrever, então torna as coisas, de propósito, mais atraentes para uma romanceada. Nada parece ser simples, nada parece se resolver em poucas etapas na minha humilde vida. Passo perrengue na neve, no calor, no sol, em inglês, em holandês. É só escolher: tá lá, feito um aplicativo da vida real, uma memória das situações complexas dessa vida simples que levo.
Uma pessoa, não eu, desentupiria a pia e seria feliz. A minha pessoa não desentope a pia, porque se tivesse desentupido não dava história.
Bom, cheguei em casa, refiz o procedimento com o químico e a coisa piorou. Trancou de vez o ralo, a água que antes escorria com vagar agora poderia ser criadouro do mosquito da dengue se aqui tivesse mosquito da dengue e se eu não tivesse jogado química braba naquela água (guardem esta informação).
Arthur quicava dentro de casa, animado na mesma medida que estava irritado/entediado (eu estava tentando resolver a pia, lembram? sem mamãe para brincar com ele, portanto). Marido fora, resolvendo pendengas (ele também é rei!). Eu, além de resolvendo a pia, estava olhando de cinco em cinco segundos para o celular, esperando uma ligação importante que deve acontecer por esses dias a respeito de um pepino burocrático que precisamos resolver (de novo, para sempre). Marido chega, trouxe comida congelada, brinca com Arthur, salva a mulher do endoidecimento, vamos todos para a cozinha esquentar as coisas no micro-ondas.
Marido ouve um barulho debaixo da pia e descobre que o cano está vazando! Gotas gordas caem em cima das coisas que armazenamos ali embaixo. Retiramos tudo apressados, colocamos um balde, o estrago foi pouco, mas em poucos minutos as gotas se transformam em um filete, que logo passa a um fluxo considerável. Aguardamos com o balde ali.
No armário debaixo da pia, o sifão me dá uma piscadinha:
- Ei, Ártemis, vem cá. Se você me abrir, pode ser que encontre o entupimento e resolva o problema.
Ele só faz isso porque leu o e-mail do faz-tudo que chamei dizendo que só poderá vir aqui amanhã, boa noite, madame, tenha bons sonhos. Ele só faz isso porque sabe que eu sou dessas, que tenta resolver, que aparafusa, serra, martela. Ele só faz isso porque sabe que eu tenho um blogue.
Vou até lá, marido saca o flerte e chega junto.
- Vamos abrir o sifão, Ártemis.
- Vamos!
Balde a postos, Arthur curiosíssimo, rosqueia daqui, rosqueia de lá e... chuáááááá! Uma cachoeira de água nojenta nos encharca (Arthur salvo, felizmente). Desentupiu? Sim, não, talvez? E de repente...
- AAAAAHHHHHHHHHHHH!
Lembram do químico que joguei na pia? Então, ele queima a pele, tá? Fica a dica, caso vocês morem aqui. Não abram o sifão sem luvas se tiverem jogado químico cano abaixo. Nós fizemos isso e corremos com as mãos em brasas para debaixo do chuveiro. Um pânico!
Neste momento, neste exato e preciso momento, o que acontece? Hein, hein, hein? Isso aí: toca meu telefone com aquela ligação importante! Vocês atenderam? Nem eu. Mas tudo bem, pensei, acabou de pular o ícone da caixa postal, a pessoa deve ter deixado recado. Fui ver e a mensagem (3 minutos) era um lindo apito de estática gravado e reproduzido no meu ouvido.
Bom, resumo do dia: marido comeu algo que não lhe fez bem (não foi hambúrguer, mas foi igualmente do mal), nosso entupimento não é no apartamento, mas sim na COLUNA do edifício, não sei o que a pessoa que me ligou queria dizer e amanhã já tenho tarefas burocráticas de novo e aqui estou passando cremes e mais cremes nas mãos para amenizar a aspereza pós-produto químico do capeta.
Amanhã a saga continua com o faz-tudo, a ligação, limpar e arrumar a cozinha toda ensopada de água nojenta (limpamos quase tudo hoje, mas com certeza amanhã teremos nova edição, já que o homem que vem aqui deve também fazer certa bagunça para desentupir o cano).

Universo, só queria dizer que eu também sei fazer postagens fofinhas, tá?

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