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quinta-feira, 14 de junho de 2018

Relato do segundo positivo

Oficialmente, iríamos começar as tentativas em agosto de 2018, mas eu sabia que existia a possibilidade de estar grávida.
Então fiquei atenta ao combo tentante: micro sintomas da progesterona em meu corpo, olho na temperatura basal (que pela primeira vez na vida estava sendo tirada certinho, no mesmo horário todos os dias e tal - tudo como preparação para agosto) e contando os dias do ciclo.
Aproveitei para catar umas anotações que tinha feito durante a gravidez do Arthur, com as datas de exames, da provável ovulação, com os sintomas que senti no comecinho, depois nas primeiras semanas. Enfim, dei aquela refrescada na memória porque, né, quase seis anos se passaram.

(Eu tenho a teoria do HD, que é a seguinte: nossa cabeça vai acumulando memórias e informações até um certo teto, depois ela vai abrindo espaços deletando o que já não serve e substituindo por infomações ou lembranças mais úteis naquele momento. Isso explica porque eu soube a fórmula de Baskara por tantos anos, mas hoje em dia não consigo nem me lembrar para o que serve a dita fórmula.)

Pois bem, eu já tinha liberado espaço para coisas maravilhosas da vida como: qual marca de café é a mais gostosa aqui, como preencher o IR, qual caminho é mais curto para chegar à biblioteca, qual é o telefone do marido, essas coisas. Então, reler as tudo aquilo à luz dos conhecimentos que acumulei ao longo desses anos sobre o método sintotermal de controle da fertilidade me trouxe uma série de informações curiosas e valiosas sobre meu corpo.
Com isso, fiquei atenta e sabia exatamente quando começar a testar para detectar uma possível gravidez.

Então, o aplicativo que uso para controle da fertilidade me sugeriu um dia da ovulação, e eu concordava com a data apontada. Dali, contei uma semana e decidi que começaria a testar. Seria meu 7DPO (sétimo dia pós-ovulação), o que é bastante cedo, eu sabia, mas estava ansiosa, óbvio. Admiro as pessoas que falam "vou esperar até o 12DPO para testar" e esperam! Eu não sou dessas. Então comprei 20 "internet cheapies" (baratinhos da internet, na tradução livre) e decidi que tinha 20 dias de xixi no palito pela frente.

Desde o 1DPO eu vinha sentindo coliquinhas, o que era bem esquisito, porque eu NUNCA tenho cólicas, e quando tenho é só no dia da menstruação mesmo. Fiquei atenta e comecei a marcar no aplicativo as cólicas. Meus seios também ficaram doloridos, mas embora esse sintoma seja mais comum alguns dias antes da minha menstruação, eu não achei tão fora da curva quanto as cólicas. Isso porque eu sabia que seios doloridos são uma das consequências da progesterona no corpo, e que progesterona faz parte do ciclo natural feminino, mesmo quando não ocorre gravidez ela está lá. Passei 6 dias anotando detalhadamente tudo que sentia durante o dia no aplicativo (um diário mesmo). Tintim por tintim. Tudo!
No 6DPO senti uma dor lancinante na altura do umbigo à noite. Eu estava sentada quando aconteceu e foi difícil até me mexer. Ela veio forte e depois fiquei com a sombra dela por alguns minutos mais. Decidi fazer o teste, primeiro porque para uma pessoa ansiosa tudo é pretexto, segundo porque eu estava começando a ficar preocupada, achando que eu poderia estar desenvolvendo uma infecção urinária (eu nunca tive IU, então não faço ideia dos sintomas). O teste voltou negativo, sem dúvida, e eu falei com umas amigas, que me acalmaram quanto à IU, porque eu não tinha febre e os sintomas clássicos. Fui dormir encucada, preocupada comigo.
Então, no 7DPO eu fiz xixi no palito de novo. Os sintomas que eu vinha sentindo desapareceram por completo e eu estava desesperançada. Esperei os cinco minutos determinados pelo fabricante e o teste ficou branco, só com a linha de controle.
No 8DPO, acordei e decidi testar com a primeira urina da manhã. Os outros testes eu fiz quando deu, sem muita esperança, sem muita disciplina, porque sabia que era cedo demais. Esse do 8DPO, de manhã, voltou branquinho, branquinho. Mas, porque sou teimosa, fiz outro teste à noite. Olhei para a tira e achei que estivesse vendo coisas. Olhei na luz do abajur, na luz do banheiro, com a lanterna do celular e continuei sem saber se era mesmo uma segunda linha ou não. Decidi fazer outro teste, convencida de que aquele estava defeituoso, me mostrando uma sombra, uma linha evaporação, sei lá. O segundo teste voltou com outra sombra. Chamei marido (Arthur já dormia) e falei: tô vendo uma segunda linha. Ele não viu e tentou sugerir que eu estava querendo tanto um bebê que via coisas que não existiam. Cortei logo e falei: amanhã eu provo para você que a linha existe. Porque eu via a linha, ela estava lá, duas vezes, duas sombras, dois borrões quase invisíveis. Mas eu não sabia se ela iria de fato escurecer.
No 9DPO, com a primeira urina da manhã, apareceram as duas linhas. Uma delas claríssima, mas já não dava para dizer que era impressão, defeito ou delírio. Fiz outro teste com a segunda urina da manhã (que descobri ser melhor para mim, em termos de teste) e lá estavam as duas linhas de novo. Marido continuou em negação. hahahaha
Entrei em um fórum gringo, criei uma conta e postei a foto, perguntando se as pessoas também viam a segunda linha. E elas viram! Aí, eu já não tinha mais dúvidas, mas marido continuava desconfiado, achando tão surreal engravidarmos de primeira, que eu precisei esperar até o dia seguinte para provar que eu estava, sim, grávida, muito embora eu tenha feito mais dois testes ao longo do dia, todos positivos.
Então, no 10DPO eu acordei e fiz outro teste com a primeira urina da manhã. Positivo ainda clarinho, mas inegável e mais escuro que o do dia anterior. Ou seja, havia progressão do hcg. Aproveitei que estava saindo e anunciei: vou comprar um teste de outra marca, para tirarmos a dúvida de vez. E voltei com um teste digital do supermercado daqui de perto. Testes digitais são mais direitos e objetivos, porque mostram SIM ou NÃO, sem linhas clarinhas para confundir. As instruções falavam em três minutos para o resultado, mas entre o primeiro e o segundo minuto a ampulheta parou de piscar e apareceu bem bonito na tela "PREGNANT", grávida. Era oficial!
Ao contrário da gravidez do Arthur, decidi contar para algumas pessoas próximas logo de cara. Algumas amigas queridas ficaram sabendo quase que na mesma hora que tiramos a prova dos nove. Marido contou também para os dois melhores amigos. E seguimos no plano de contar para todo mundo oficialmente só depois dos três meses iniciais.
Também contei para duas amigas daqui dos EUA, porque precisava de ajuda para entender o sistema de saúde, saber como iniciar o pré-natal, com quem, essas coisas.
E decidimos só contar para Arthur quando tivéssemos a certeza de ser uma gravidez viável e saudável. Isso porque desde que aprendeu a falar que Arthur me pede um irmão ou uma irmã, e seria absolutamente frustrante para ele viver essa montanha-russa emocional. Decidimos poupá-lo.

Para concluir, vou colocar aqui os sintomas que tive e que me fizeram ligar o alerta:

Cólicas desde o dia seguinte à ovulação; micro tonturas por dois dias não consecutivos; seios doloridos também desde o dia seguinte à ovulação; meu colo do útero de repente fechou, alguns dias após a ovulação, o que colocou uma pulga imensa atrás da minha orelha, porque desde que Arthur passou por ali que meu colo ficava fechado, pero no mucho. As cólicas se alternaram entre "sensação de atividade no baixo ventre" (como se estivesse acontecendo alguma coisa por ali); "sensação de peso", que às vezes se expandia para as pernas, como se eu estivesse perto da menstruação; pontatinhas e incômodos no lado esquerdo, primeiro perto do ovário, depois mais embaixo; pontadas agudas e bastante doloridas na altura do umbigo e como se estivessem descendo pelo colo do útero (por isso que pensei que fosse IU). Outra coisa que também estava bem fora do padrão era o muco cervical, que desapareceu, quando, geralmente fica constante até a chegada da menstruação.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Parem as máquinas e suspendam a água!

PAREM AS MÁQUINAS!

É preciso publicar em todos os jornais a notícia mais importante do semestre! Nada de Mensalão, cavaleiros que sugerem cavalos em lugar de cachorros, disputas acirradas pelas eleições que se aproximam. Não, nada disso. O fato mais importante do segundo semestre é: pela primeira vez em minha vida e na vida do Arthur, amamentei um dia inteiro sem sentir uma dorzinha sequer! Mesmo no mamilo mutilado e com Arthur terminando a mamada com um pedacinho do meu seio na boca (achei que fosse uma afta e meti o mãozão: era um pedaço da minha pele). Notem bem: SEM DOR!
Foi ontem. Sem dor, sem traumas, até queria que Arthur pedisse peito. E ele não se fez de rogado: mamou loucamente, dormia de 2 a 3 horas na sequência (e passou a madrugada acordadão, damn it!) e, então, queria mais peitinho. Ô beleza! Até acho que tem mais bochechinha naquele rostinho lindo (mas só saberemos da verdade verdadeira na outra semana, depois da pesagem no pediatra, e não vou criar expectativas novamente).

Além disso, dessa novidade incrível, tenho outra. Aliás, outras. E preciso que suspendam a distribuição de água aqui no Rio, porque ao meu redor tenho QUATRO grávidas. Isso mesmo: quatro grávidas pertinho de mim. A primeira já está na reta final e também será mãe de um menininho. A segunda está com 12 semanas e acabou de descobrir que também será mãe de um rapaz. A terceira está com 9 semanas e ainda não sabe o sexo, e a última acabou de tomar aquele susto do beta. Sabem qual? Aquele em que você abre o exame e lê no resultado uma vírgula no lugar do ponto e acha que 3 mil é 3 vírgula qualquer coisa, e que "deu negativo, droga, bora seguir com a vida... mas peraí, isso é um ponto e estou MUITO grávida". O mais legal é que todas as 4 grávidas querem um parto normal (e duas delas querem um parto normal natural).
Se por um lado eu fico feliz, por outro fico preocupada, pois por mais que esteja amamentando exclusivamente e tenha, então, meus níveis de prolactina na estratosfera, não pretendo engravidar novamente antes de o Arthur completar um aninho. Por isso que passei a beber só água mineral e a evitar banhos prolongados. Vocês já sabem do poder que a água tem quando o assunto é gravidez, né? Eu, então, por via das dúvidas, tô suspendendo toda água que considero suspeita.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Positivo (parte II)

Era uma quarta-feira de setembro. Dia de consulta com a médica Iemanjá.
Saí do trabalho rumo ao laboratório (para buscar a ultra) e de lá iria para o consultório quando me dei conta de que minha carteira ficara em casa. Carteirinha do plano, identidade, tudo. Ou melhor: nada. Nada ali comigo. Liguei para o marido, pedi ajuda (santo homem!) e fui tentar, na cara de pau, buscar a ultra sem identidade. Consegui, mas marido não: o carro morreu na contra-mão atrapalhando o tráfego da esquina de nossa casa. Resultado: fui encontrá-lo, demorei um tempão para chegar ao consultório, o que fiz esbaforida e num franco ataque de falta de ar.
A recepcionista já havia ido embora e a médica quase se apiedou de mim. Cheguei apenas cinco minutos atrasada. Mais uma vez fui atendida com calma e paciência, mas, se eu já estava decidida a tentar uma outra opinião sobre meus OP (na semana anterior eu havia marcado uma endócrino), o fato de ela dizer que se enganou sobre a "atualidade" dos meus exames de sangue e me pedir duzentas dosagens hormonais me fez ter certeza de que eu não gostaria de continuar a me consultar com ela.
Não foi o fato de ela me pedir os exames. O que me deixou cabreira foi ter me sentido insegura quando ela fez isso: numa consulta os exames estão válidos, na outra, duas semanas depois, eles estão velhos demais? Isso e eu ter perguntado novamente sobre as minhas alternativas, sem ser beber água, claro, para meus OP. Ao que ela respondeu: por enquanto, água. Mais tarde, se você quiser, uma terapia de acesso ao inconsciente e blá-blá-blá. Não confiei mais.
Ela anotou todos os exames na guia e, aproveitando que minha cara de pau estava mode on, pedi um beta. Expliquei que sentia os seios doloridos e coliquinhas havia alguns dias. Ela riu, disse que a chamavam de cegonha, e anotou bem bonito: BHCG.
Eu ri.
E saí correndo para o laboratório, que colhia sangue até 19h, e já eram 18h50. Cheguei e perguntei se eu poderia fazer somente o beta naquele dia, porque os demais exames precisavam de jejum de 10h e eu, obviamente, não cumpria essa exigência às 19h. A mocinha explicou que tudo bem, que eu poderia fazer os outros exames outro dia, anotou isso na minha ficha e me mandou para a coleta.
Eu estava nervosíssima. Não sei por quê. Não era medo, não tinha grandes expectativas, não era um exame desconhecido. Mas o fato era que eu estava nervosa a rodo.
Mas respirei fundo, contei minha história para a enfermeira (é que quando eu fico nervosa, abro meu coraçãozinho e quero que todos me deem a mão) e me deixei furar.
Voltei para casa, contei para o marido sobre meu dia e avisei: a mocinha do laboratório disse que por volta de meia-noite deve ter o resultado. Vocês dormiriam cedo? Pois é, eu também não dormi. E a meia-noite, lá estava o resultado: indeterminado.
Quando eu abri o exame fiz um barulho de susto, e marido riu, achando que eu estava pregando uma peça nele. Quando ele viu meu olhar assustado e percebeu que eu comecei a tremer, logo entendeu e foi ver os valores de referência do laboratório. Eu já sabia de cor, por isso o susto foi imediato. Ele não. Talvez por isso tenha tido tempo de processar tudo de maneira mais racional e deu a boa ideia: Ártemis, desce, compra dois testes na farmácia e faz um hoje e outro amanhã de manhã.
Era bem tarde, mas eu desci na mesma hora. Comprei os testes e ácido fólico. Por via das dúvidas, tomei logo um comprimido e danei a beber água. É que, nervosa, não tinha a menor vontade de fazer xixi. Bebi quase toda a água da casa e fiz xixi no palitinho. A listrinha era tão discreta que marido nem a viu. Eu acendi a luz mais potente da casa e lá estava ela: clarinha, tímida, mas inegavelmente existente.
Respirei fundo, tentei colocar a cabeça no lugar e decidi: no dia seguinte iria à consulta com a endócrino (que eu já havia marcado antes do retorno na médica Iemanjá) e contaria minha história para que ela decidisse se e como me atenderia.
Acordei cedinho e, claro, fui fazer o segundo teste que eu comprara na noite anterior. Xixi no palitinho e: duas listrinhas. A segunda ainda clarinha, mas definitivamente visível. Tanto que marido nem precisou de legenda.
Me despenquei para o consultório e já lá dentro fui perguntada: por que você me procura?
Eu ri. Estava meio nervosa porque não tinha pensado muito bem em como começar o papo e acabei falando que eu marquei a consulta por um motivo, mas que algo havia mudado e agora ela me ajudaria de outra maneira, achava eu. Contei do meu histórico de OP, da médica do botox que me passou indutores, da médica Iemanjá que me mandou beber água, da ultra, do médico catador de milho que disse que eu não ovulara naquele mês, do exame indeterminado e dos testes de urina positivos. Ela me olhou e disse: vou passar um novo beta para você fazer daqui a dois dias. Se der negativo, você volta aqui que vamos pensar em um tratamento mais que água e menos que indutores. Se der positivo, aí não é mais comigo e você pode procurar um obstetra.
Fui para o trabalho com a bolsa pesando vinte toneladas: novo BHCG.
Aproveitando minha peregrinação médica, consegui um encaixe na minha dermatologista, já pensando em orientações anti-estrias. Ela viu meu exame indeterminado, me olhou muito seriamente e disse que o valor estava baixo demais, que eu deveria repetir o exame porque é muito comum que as primigestas perdessem o primeiro filho, que aconteceu com ela e que ela só me consideraria grávida quando eu fizesse a ultra e escutasse o coraçãozinho do feto.
Saí arrasada. Mas lembro que pensei: que bom que essa médica é minha dermatologista, e não minha obstetra. E me lembrei do que a minha ex-médica, a do botox, havia me dito quando que ainda era sua paciente: as grávidas precisam filtrar tudo que lhes dizem porque alguém sempre tem uma história escabrosa para apavorá-la.
Achei que a médica foi sem tato, mas não fez por mal. Respirei fundo e pensei que não havia absolutamente nada que eu pudesse fazer para controlar qualquer tipo de coisa naquele momento. Assim, decidi viver minha vida, um dia de cada vez, e esperar pelo dia do novo exame.

Os dias se arrastaram, mas finalmente chegou o dia 1­° de outubro, um sábado, três dias depois do primeiro beta. Aproveitei que seria furada e fui fazer os outros exames que a médica Iemanjá me pedira.
Acordei supercedo (quem me conhece sabe o quanto isso é digno de nota), respirei fundo e fui para o laboratório. A mocinha foi simpaticíssima e me avisou que no meio da tarde, por volta das 16h30 ou 17h eu já teria o resultado do beta. Me desejou sorte, tudo de bom e uma boa gestação. Achei fofo e ri.
Voltei para casa, arrumei minhas coisas e fui com marido para a região serrana do Rio. A casa em que me casei, pensava, é um excelente lugar para receber a notícia da minha gravidez.
Às 16h41, na casa em que me casei, abri o resultado do exame: positivo. Marido já estava escolado nos valores de referência e nem precisou que eu me assustasse ou tremesse. Eu estava grávida! Sem dúvidas!
Gostaria de contar aqui, sobretudo para fins dramáticos, que nos abraçamos e nos beijamos chorando copiosamente, mas a verdade é que ficamos tão atônitos que tudo o que conseguimos fazer foi rir um para o outro.

Positivo (parte I)

Era manhã de setembro. Dia 21, para ser exata. Na hora do almoço dei uma corridinha no laboratório porque havia uma ultra marcada. Essa ultra fora o único exame que a médica Iemanjá me pedira porque, segundo ela, os de sangue que eu havia feito uns meses antes ainda estavam atuais o suficiente. Confesso que achei bom. Já me acostumei, porque tendo OP desde que me entendo por mulher, fiz muitos exames de sangue. Mas convenhamos: não é nada legal ficar tomando agulhada. Então, o que é uma sala gelada e um exame que não dói se comparado aos hemogramas? Alívio.
Naquele dia eu tinha esperança. Mas eu sempre carrego minha dose de positividade, então não posso dizer que houve uma pista, um indício claro ou um evento marcante. Era só minha velha e incansável esperança. Essa mesma que vocês todos conhecem: a expectativa de que as coisas deem certo mesmo quando não há muito que indique isso. E ela foi minha companheira na sala de espera.
Laboratório cheio, não fui atendida na hora marcada. Nem liguei. Estava ansiosa, esperançosa e o médico, apesar de ligeiramente irritante, coitado!, era simpático. Antes do exame avisei que meu último ciclo se fechara em maio, que eu tinha esperanças de estar grávida, mas que sabia que tinha OP e que tudo poderia não passar de uma brincadeirinha hormonal sem graça do meu organismo.
Ele me examinou, mediu tudo o que tinha de medir e setenciou: você não está grávida e nem sequer ovulou esse mês. Se minha vida tivesse trilha sonora, eu ouviria aquele "quém-quém-quém" de desenho animado. Foi tipo a bigorna caindo no Coyote enquanto o Ligeirinho fazia seu "bip-bip" são e salvo. Na hora, pensei que o Coyote fosse eu e o Papaléguas meus OP. Mas depois descobri que não era bem assim...
Voltei arrasada, me arrastando com meu óvulo que não fora liberado e, para solapar de vez minha esperança e meu bom-humor, levei uma cusparada no casaco.

Mas, como diria minha avó, nada como um dia após o outro.
Joguei fora o casaco (já estava velhinho e fiquei tendo nojinhos incontroláveis da sacolinha plástica onde o havia colocado, quando ainda tinha esperança de mandá-lo lavar na lavanderia), acordei para ir trabalhar e... senti de novo o gostinho de metal na boca. No dia da ultra eu já tinha acordado com um sabor diferente na boca, como se eu tivesse bebido um copo d'água em que, sem querer, tivesse caído um prego enferrujado dentro. Não era nada muito intenso. Mas achei curioso. Lembrei que a única coisa que minha mãe sentira quando estava grávida de mim fora justamente um gostinho de metal na boca. Claro que achei que estava sugestionada e segui adiante. Trabalhei. As pessoas me olhavam na rua. Achei glamour. Achei luxo e poder. Mas nem dei muita pelota. Achei que fosse minha roupa colorida e segui minha vida.
De noite, como sempre, fui ao pilates. Havia comentado na aula anterior que eu achava que poderia estar grávida. A mulherada que faz aulas comigo ficou em polvorosa e quando cheguei essa foi a primeira pergunta: e aí?
Meu muxoxo denunciou a negativa. O jeito era descontar a frustração nos exercícios. E assim foi.
Chegou o fim de semana. Chegou uma nova semana. Chegou o dia da consulta com a médica Iemanjá. Uma quarta-feira.

Quer saber o que aconteceu?
No próximo post...

domingo, 2 de outubro de 2011

Todos os olhos sobre mim

"Há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia." - W. Shakespeare

Ah, Shakespeare! Tantos séculos depois e você ainda embala sonhos, angústias, descreve sentimentos e mantém a literatura viva e pulsante em uma sociedade imagética e consumista.

E o post de hoje é shakepeariano porque tocante, intenso, memorial e pulsante.



O fato é que eu danei de filosofar, e me angustiar, e quase enlouqueci, como o rei dinamarquês do poeta inglês, mas nem todo esse barulho foi capaz de alcançar a proporção que deveria. Eu devia ter gritado mais alto, ter arrebatadamente escrito frases e posts sem pé nem cabeça. Mas não, e o motivo disso, acho eu, é só porque as pequenas coisas da vida são, na verdade, as mais importantes - e, muitas vezes, são curtidas com discrição.

Eu acordei, como nos outros dias. Tudo igual: céu azul de primavera, aquela covardia preguiçosa de sair da cama, o mesmo caminhar de todos os dias. Casa, rua, ponto de ônibus, ônibus, rua, trabalho. Mas no caminho, sentia todos os olhos sobre mim.

Não sou linda, mas tenho meus dias em que atraio olhares, e esse era um desses. Fui, trabalhei, almocei, trabalhei, e fui à consulta da médica Iemanjá. Mostrei a ultra, contei do óvulo que ficou no folículo e recebi uma lista considerável de exames de sangue a serem feitos. Pedi, meio constrangida, um beta ali no meio.

- A gente não deixa de ter esperança, não é mesmo - ri amarelo.

E ela anotou: BHCG.
E eu ri. E saí correndo do consultório, pensando que era mais um dia de outono e, embora todos os olhos estivessem sobre mim naquele dia, tudo estava como deveria ser.

O beta seria a confirmação que eu aguardava para iniciar um fitoterápico, pois eu queria ovular. Apenas ovular no mês seguinte já me deixaria aliviada. E assim, em meio a olhares, fui.

A agulhada não doeu: a enfermeira era simpática e conversou comigo, até animada, se considerarmos que era uma quarta-feira à noite. Eu seria, muito provavelmente, a última a colher sangue naquele dia, e fim de expediente é sempre uma alegria. Ela, então, me garantiu que se eu fosse dormir tarde, já teria o resultado do beta naquele mesmo dia.

Eu ri.

Cheguei em casa e fui recebida com um elogioso olhar do marido: linda! Eu acordara assim, e gostei de receber esse carinho do homem (lindo) que eu amo. As horas se passaram ansiosas, mas novamente isso não era qualquer novidade. E por volta das 23h, abri o exame.

INDETERMINADO.

Eu ri. Marido riu. Eu tremia e foi ele que teve a ideia: passa na farmácia e compra um teste. Corri, no meio da noite, quase já dia seguinte, para comprar dois testes e ácido fólico. Comprei, bebi toda a água que tinha em casa, fiz xixi.

Duas listrinhas. Meu deus!!! Duas listrinhas, um beta indeterminado e todos os olhos sobre mim.

Eu ri. E fui dormir.

No dia seguinte, de manhãzinha, tinha endócrino, marcada na tentativa de encontrar uma solução para meus ovários policísticos. No consultório, eu ri. É que ela perguntou por que eu estava ali, ao que respondi:

- Eu marquei por um motivo, mas estou aqui, afinal, por outro.

E ela me deu outro beta.

Eu, justo eu, que durmo de madrugada, e acordo todos os sábados depois da hora do almoço, madruguei no laboratório. Me furei, conversei com a enfermeira (outra, mas igualmente simpática), e aproveitei para fazer todos os outros exames que a médica Iemanjá pedira. No meio da tarde, às 16h41 eu e marido abrimos o resultado.

GRÁVIDA.

Eu ri. Ele riu. E eu me lembrei de que tive todos os olhos sobre mim. E eu ri mais e com mais gosto, como quando a gente tem um segredo, daqueles bem grandes e maravilhosos, que nos deixam felizes e bonitas, mas que, por ser segredo, ninguém desconfia. Eu estava grávida, todos os olhos estavam sobre mim, mas ninguém sonhava, em suas vãs filosofias, que meu grande mistério, enfim, pulsa intenso, porém ainda quietinho, dentro de mim.

PS: Vocês perdoam meu sumiço, né?