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terça-feira, 27 de agosto de 2019

O dia em que eu perdi uma batata

Estou tentando escrever este texto já tem uma semana.
Minha vida está caótica.
Administro uma criança de 7 anos de férias (3 meses), um bebê de 8 meses que coloca tudo na boca e já começou a se deslocar (não engatinha, mas quase), um apartamento com todas as suas necessidades (limpar, cozinhar, guardar, lavar, abastecer...), um casamento, uma carreira a distância (muito mais difícil, já que manter contato de longe é complicado), projetos pessoais e profissionais e, no topo disso, minha sanidade. Minha sanidade precisa de: livros, hobbies, banho, exercício físico e meditação. Minha sanidade precisa de muito, porque além de ser muito exigida, já sei que retomar o prumo é infinitamente pior que manter o eixo.
Pois bem, no meio disso tudo meu bebê começou a comer sólidos. E agora, quando vou ao mercado ou cozinho, preciso ter em mente este novo fato.
Semana passada abri a geladeira e tomei um golpe de ar: não havia nada dentro. Comecei a saga "ida ao mercado".
Lembram que há muito tempo contei como era ir ao mercado com Arthur? (Cata lá nos arquivos, que eu vou ser realista: não vou conseguir colocar o link.) Pois ir ao mercado com Arthur + Gael não ficou exatamente mais fácil.
Primeiro preciso fazer uma lista (de compras), depois outra lista (de coisas que vão na mochila comigo), depois outra lista (roupas que preciso separar para todos aqui se vestirem) e, quando já estou exausta de arrumar tudo e de tentar convencer Arthur a sair de casa, é hora de sair.
Eu saio de carrinho, mas levo o ergobaby porque geralmente Gael chora na volta e eu preciso carregá-lo. Eu saio fazendo mil papagaiadas para distrair Arthur. Eu saio já doida para voltar. E é por isso que, ao pisar no mercado, minha mente está focada em uma e apenas uma coisa :pegar tudo rápido e ir embora o mais rápido possível.
Outro dia marido ficou chocado comigo. Fomos juntos fazer as compras e, enquanto ele pegava uma dúzia de ovos e um potinho de morangos, eu já estava na boca do caixa com absolutamente todos os outros itens da lista + uma barra de chocolate extra. Acho que levei 2 minutos para resolver tudo.
Bom, então semana passada fui ao mercado, determinada a sofrer, digo, passar o menor tempo possível na missão compras. Em poucos minutos tinha resolvido tudo, pegado todos os itens, inclusive uma batata, que viraria um purê para dar para Gael.
Geralmente não compro batata porque 1) Arthur não gosta; 2) dá um trabalho do cão esfregar a casca para limpar a terra (batata aqui vem suja, você que limpe). Mas nesse dia estava determinada a fazer o tal purê.
Cheguei em casa, ainda na vibração purê, comecei a guardar tudo, organizar a cozinha para preparar o jantar e dar sequência à rotina de todos os dias.
Eu não sei vocês, mas eu cozinho assim: corre na sala para ver o bebê, briga com o mais velho porque está apertando o bebê, volta e liga o fogo, vai ver o mais velho pulando do lado do bebê, quebra dois ovos, quase joga os ovos no mais velho ou no bebê, corre para diminuir o fogo e mexer, vai pegar o bebê no colo porque chorou, desliga o fogo para não ter acidente com o bebê no colo e vai lavar louça com uma mão só, briga com o mais velho que não é hora de comer nada antes do jantar, aceita o argumento de que pepino antes do jantar pode, coloca o bebê em frente à porta da cozinha, liga o fogo, grita "outro pepino não!" e se pergunta quando virou essa adulta que grita essas frases sem sentido, tira o livro que estava lendo da boca do bebê, queima o omelete, faz o prato, pega o bebê que chorou, diz "não, chega de pepino" para o mais velho, que também chora, coloca o ergo, coloca o bebê no ergo, consola o mais velho, pede ajuda, descobre que o mais velho pegou os talheres mas parou no meio do caminho para ler revistinha e os talheres estão no chão, pega os talheres, lava os talheres, coloca o prato no micro-ondas, esquece os talheres, grita três vezes antes de ser ouvida pelo mais velho, que largou a revistinha e espalhou 457 cartas de Pokémon no chão, pisa em três cartas e num macarrão velho que não sabe de onde veio, senta, esqueceu o copo de água, volta e o mais velho tá comendo com a mão e o bebê jogou o brócolis no chão... E por aí vai.
Acho que vocês captaram a ideia.
Pois bem, nesse dia eu peguei o raio da batata e comecei a esfregar quando o caos se restabeleceu (não vou falar que ele se instaurou porque pode dar a vocês a ideia errada de que o caos não é o padrão, e sabemos que isso não é verdade). Fui acudir alguma urgência e larguei a batata lá. Que rolou quando peguei o prato para lavar e preparar o jantar. Que rolou de novo quando decidi dar outra coisa para Gael naquele dia porque já estava tarde para preparar o purê. Que se escondeu entre a louça por lavar e, finalmente, se escafedeu.
Não temos triturador de lixo acoplado ao ralo. Marido não se lembra de ter jogado a batata fora. Arthur não mexeu na pia. Eu não guardei batata alguma. Para falar a verdade, só me lembrei dela no dia seguinte, perto do almoço, quando a ideia do purê voltou a me atiçar. Mas aí já era tarde, a batata já se tinha perdido. E, como até hoje eu não sei que fim levou a batata, só posso concluir que, não, ainda não venci! Seguirei na luta diária.

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Ártemis Tribiani, ou o mico do dia do peru

Vocês já assistiram a esse episódio de Friends? É um que a Rachel decide fazer a comida e não percebe que misturou duas receitas: um bolo de carne e uma espécie de pavê. Todo mundo acha aquilo horrível, menos Joey, que come e ainda explica porque gostou:


GIF daqui: https://goo.gl/images/63tPqF

Então...
Ontem foi Dia de Ação de Graças. Também conhecido como Thanksgiving ou Dia do peru, como preferirem.
Fomos gentilmente convidados para o jantar por um amigo meu. Família tradicional, jantar tradicional, aquela coisa.
Às vezes é bem tenso ser estrangeiro, porque a gente nunca sabe de verdade, e geralmente até cometer uma gafe, quando foi que ultrapassamos um limite social ou quando ficamos aquém da polidez esperada.
Tomei o cuidado de levar flores para a dona da casa, cuidei para que estivéssemos todos vestidos adequadamente, me certifiquei de usar todos os porfavores e obrigadas. Mas não estava preparada para o jantar.
A anfitriã passou a manhã toda cozinhando um imenso peru, o molho de cranberry, as vagens com um toque de limão e gengibre, uns bolinhos de alguma coisa que não identifiquei, as couves-de-bruxelas temperadas e misturadas com macadâmias glaceadas, o purê de batatas e mais alguns pratos que estavam à mesa. Eu não queria fazer desfeita, eu queria ser delicada e grata àquela pessoa que cozinhou para mim, eu queria que meu amigo continuasse meu amigo, então fiz o que mamãe me ensinou: coloquei no prato um pouquinho de cada coisa, tomando o cuidado de pôr quantidades proporcionais ao meu apetite, para não fazer a desfeita de deixar comida no prato.
Fomos para a mesa. Bebemos, comemos. Todos rindo muito das tiradas engraçadíssimas e mordazes da dona da casa (uma: ela virou-se para nós, falando do Arthur: "ele é adorável! quantas vezes por dia vocês precisam bater nele para que ele se comporte bem assim?" e todos rimos muito). Que sorte a minha, porque ninguém reparou quando eu tive um acesso de riso. Que sorte, porque ninguém prestou atenção no que ia no meu prato. Que sorte! Porque entre perus, couves-de-bruxelas, vagens e purês de batatas, eu me servi de um doce feito de custard (um creme bastante tradicional nos países anglófonos), abacaxi e marshmallows, achando que fosse uma espécie de salada de batatas (aquelas com maionese e maçã, sabem?). Agora vocês imaginem minha surpresa ao mordiscar um marshmallow entre um naco de peru e vagens!
Em minha defesa, informo que meu amigo foi nomeando os pratos e chamou isso de "salada". Óbvio que eu não ia perder a oportunidade de rir de mim mesma, então eu contei a história ali mesmo, à mesa, logo depois do ocorrido, e só o casal de mexicanos que também estava lá como convidados riu frouxamente. Os norte-americanos não entenderam muito bem, porque, conforme eles me explicaram, algumas pessoas comem aquilo, sim, como uma salada, junto com a comida salgada.
Eu deveria ter desconfiado quando fui a única a me servir daquilo, ou mesmo quando uma bolota branca rolou para a beirada do prato. Mas eu estava preocupada em manter a polidez, em prestigiar os anfitriões, então apenas me sentei e comi quietinha: peru? booom. Vagem? boooom. Purê de batatas? booom. Custard com marshmallow e abacaxi? boooom!

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O cano - episódio final

Então, no dia seguinte àquela postagem, o bombeiro hidráulico veio aqui. Simpático, trabalhou por TRÊS horas na minha cozinha e não conseguiu desentupir!
Saí de casa para buscar Arthur na escola com a recomendação de que não abrisse a pia, pois ele também tinha colocado um "dissolve tudo" do capeta no cano e precisava esperar algumas horas antes de ver se a coisa tinha funcionado. Quis sugerir que ele calçasse luvas, mas achei que ele já sabia dessa manha e fui embora. O plano era: de duas a três horas sem abrir a pia, depois abrir a pia. Se a água corresse, vida que segue, tudo deu certo. Se não, ele subiria para ver se o vizinho do outro andar também estava sofrendo com o entupimento. Se estivesse, a coisa era mesmo na coluna, se não, era aqui em casa.
Bom, três horas depois o rapaz veio, ligou a água: tudo na mesma. Subiu: não era coluna. E como já era supertarde, ele disse que voltaria no dia seguinte para QUEBRAR MINHA PAREDE e furar o cano.
Chorem comigo.
Obra na gringa.

Mas o dia seguinte veio e levou consigo o que quer que estivesse entupindo o cano, porque o rapaz não quebrou foi nada (eu estava na rua dessa vez, não vi como ele resolveu) e agora tenho uma pia que não vaza, nem alaga. E o mais importante: a máquina de lavar louça está funcionando a pleno vapor! <3

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Entrando pelo cano

Eu vou contar aqui porque minhas amigas não deram muita bola e eu preciso exorcizar esse dia.

Eu acho que esse dia começou há um ano, quando ainda estávamos na Bélgica, e todos comemos um hambúrguer maravilhoso que depois colocou todo mundo para vomitar as tripas. Então, hoje, quando o telefone tocou às quatro da manhã com uma notícia preocupante do Brasil, fui graciosamente lembrada do "hambúrguer do mal", apelido carinhoso que demos ao lachinho belga. Fui lembrada porque tiramos foto no restaurante, inclusive do hambúrguer, que estava muito gostoso (até colocar todo mundo passando muito mal). E eu tenho um aplicativo que às vezes volta no tempo e traz fotos de um, dois, três anos atrás.
O telefone tocou, marido atendeu, conversou o suficiente para eu saber qual era o assunto e seu grau de importância, e então fui checar o celular, para ver as horas e tinha lá "há um ano" com a foto do hambúrguer do mal.
Depois disso, o dia seguiu como todos os outros. Até de tarde.
Cheguei na escola e fiquei tentada a perguntar para a professora se deram um expresso no lanche para Arthur. O menino estava numa energia tamanha que era capaz de acender uma lâmpada se eu encostasse na ponta do nariz dele! Voltamos correndo para casa porque a pia entupiu.

[pausa dramática]

Vasos, pias, banheiras. Domino a arte do desentupimento depois de tantos perrengues (se não leu ou não se lembra, cata aqui nos arquivos a história do vaso entupido). Por isso, antes de ir buscar Arthur dei uma passadinha na loja de ferragens do bairro e comprei o equivalente ao Diabo Verde na gringa. Eu já conhecia o produto e sua velocidade em resolver entupimentos chatinhos, então fiz o primeiro procedimento antes de ir buscar filhote e depois voltei correndo para casa a fim de fazer tudo de novo e, enfim, resolver o problema na pia da cozinha.

[eu queria mandar um beijo para o meu amigo Murphy. Fiel e leal, nunca me abandona]

Às vezes eu acho que o universo sabe que eu tenho um blogue e que eu gosto de escrever, então torna as coisas, de propósito, mais atraentes para uma romanceada. Nada parece ser simples, nada parece se resolver em poucas etapas na minha humilde vida. Passo perrengue na neve, no calor, no sol, em inglês, em holandês. É só escolher: tá lá, feito um aplicativo da vida real, uma memória das situações complexas dessa vida simples que levo.
Uma pessoa, não eu, desentupiria a pia e seria feliz. A minha pessoa não desentope a pia, porque se tivesse desentupido não dava história.
Bom, cheguei em casa, refiz o procedimento com o químico e a coisa piorou. Trancou de vez o ralo, a água que antes escorria com vagar agora poderia ser criadouro do mosquito da dengue se aqui tivesse mosquito da dengue e se eu não tivesse jogado química braba naquela água (guardem esta informação).
Arthur quicava dentro de casa, animado na mesma medida que estava irritado/entediado (eu estava tentando resolver a pia, lembram? sem mamãe para brincar com ele, portanto). Marido fora, resolvendo pendengas (ele também é rei!). Eu, além de resolvendo a pia, estava olhando de cinco em cinco segundos para o celular, esperando uma ligação importante que deve acontecer por esses dias a respeito de um pepino burocrático que precisamos resolver (de novo, para sempre). Marido chega, trouxe comida congelada, brinca com Arthur, salva a mulher do endoidecimento, vamos todos para a cozinha esquentar as coisas no micro-ondas.
Marido ouve um barulho debaixo da pia e descobre que o cano está vazando! Gotas gordas caem em cima das coisas que armazenamos ali embaixo. Retiramos tudo apressados, colocamos um balde, o estrago foi pouco, mas em poucos minutos as gotas se transformam em um filete, que logo passa a um fluxo considerável. Aguardamos com o balde ali.
No armário debaixo da pia, o sifão me dá uma piscadinha:
- Ei, Ártemis, vem cá. Se você me abrir, pode ser que encontre o entupimento e resolva o problema.
Ele só faz isso porque leu o e-mail do faz-tudo que chamei dizendo que só poderá vir aqui amanhã, boa noite, madame, tenha bons sonhos. Ele só faz isso porque sabe que eu sou dessas, que tenta resolver, que aparafusa, serra, martela. Ele só faz isso porque sabe que eu tenho um blogue.
Vou até lá, marido saca o flerte e chega junto.
- Vamos abrir o sifão, Ártemis.
- Vamos!
Balde a postos, Arthur curiosíssimo, rosqueia daqui, rosqueia de lá e... chuáááááá! Uma cachoeira de água nojenta nos encharca (Arthur salvo, felizmente). Desentupiu? Sim, não, talvez? E de repente...
- AAAAAHHHHHHHHHHHH!
Lembram do químico que joguei na pia? Então, ele queima a pele, tá? Fica a dica, caso vocês morem aqui. Não abram o sifão sem luvas se tiverem jogado químico cano abaixo. Nós fizemos isso e corremos com as mãos em brasas para debaixo do chuveiro. Um pânico!
Neste momento, neste exato e preciso momento, o que acontece? Hein, hein, hein? Isso aí: toca meu telefone com aquela ligação importante! Vocês atenderam? Nem eu. Mas tudo bem, pensei, acabou de pular o ícone da caixa postal, a pessoa deve ter deixado recado. Fui ver e a mensagem (3 minutos) era um lindo apito de estática gravado e reproduzido no meu ouvido.
Bom, resumo do dia: marido comeu algo que não lhe fez bem (não foi hambúrguer, mas foi igualmente do mal), nosso entupimento não é no apartamento, mas sim na COLUNA do edifício, não sei o que a pessoa que me ligou queria dizer e amanhã já tenho tarefas burocráticas de novo e aqui estou passando cremes e mais cremes nas mãos para amenizar a aspereza pós-produto químico do capeta.
Amanhã a saga continua com o faz-tudo, a ligação, limpar e arrumar a cozinha toda ensopada de água nojenta (limpamos quase tudo hoje, mas com certeza amanhã teremos nova edição, já que o homem que vem aqui deve também fazer certa bagunça para desentupir o cano).

Universo, só queria dizer que eu também sei fazer postagens fofinhas, tá?

domingo, 5 de novembro de 2017

No olho do tornado e outras hipérboles

Amanhã haverá uma tempestade. Serão raios, trovões e ventos muito fortes. Temos risco de haver tornados. A recomendação é sempre exagerada, como se estivéssemos a beira de um cataclisma sem precedentes na história da humanidade. Foi assim no vórtex polar de 2013 e será assim em todos os anos, para todos os eventos naturais. E eu sou cria do Twistter, o filme, não o jogo. Então, planejo ficar em casa, segura, quentinha e bem longe de vacas.
Mas, Ártemis, não tô acompanhando.
É, é que essa história me fez lembrar de um causo que eu nunca contei por aqui, e agora me parece a hora perfeita.
Então, pega lá a pipoca, senta confortável e vem comigo, de volta a 2015.

Era junho. Eu já morava aqui tinha um tempinho e nunca soube que Illinois (o estado onde fica Chicago) fazia parte da rota dos furacões. Ficou chocadx? Pois é, eu também fiquei em 2015. E sabem como eu descobri isso? No olho de um tornado.

Era junho e, como vocês sabem (e se não sabem deem uma olhada no meu relato de parto), Arthur nasceu neste lindo mês. Então, estava eu prestes a ir passar umas férias no Brasil, com o aniversário do rebento a poucos dias de acontecer e eu resolvi fazer o quê, o quê? Isso: comprar as lembrancinhas da festinha que teríamos no Brasil numa loja daqui. Ia sair baratinho e com certeza faria sucesso (como de fato fez). Estávamos com um amigo hospedado aqui em casa e ele queria comprar umas coisas para o casamento dele, então decidimos ir juntos.
Eu nunca, nunca, nunca saio de casa sem olhar o aplicativo de previsão do tempo. Nunca. Isso e tirar as luvas da mochila são duas coisas que eu nunca faço aqui. Uma maluquice está ligada a outra: o clima doido da região pode trazer um frio de lascar em pleno verão ou outras gracinhas climáticas altamente insuspeitas para uma carioca como eu. Na minha terra, o clima funciona assim: temos duas estações, o verão e o eutono (eu tô no inferno). De manhã a temperatura é sempre mais baixa e geralmente ela vai aumentando ao longo do dia até se tornar insuportável por volta de meio-dia, uma da tarde, então ela vai baixando de novo - às vezes não muito, é verdade - até que de madrugada/de manhãzinha ela está mais baixa. Outro funcionamento climático bastante preciso e regrado: se o tempo tá com aquele bafo quente, lá vem chuva. E no verão vai ser chuvona rápida e pesada. Fim. Mas aqui, amigos e amigas, é tudo louco e imprevisível. Tem bafão sem chuva, tem calor de madrugada e um frio de rachar ao meio-dia do mesmo dia, tem chuva e cinco minutos depois um céu tão azul que faz a Galinha Pintadinha parecer verde. É doido assim. Por isso as luvas e por isso sempre aquela conferida no aplicativo de previsão de tempo - que, felizmente, funciona com uma precisão bastante impressionante, dando os MINUTOS do horário da chuva e geralmente acertando.
Pois bem, era junho e eu vi no aplicativo que choveria. Bastante. Raios e trovões previstos. Pensei: vou estar no trem, depois na loja, só tenho hoje para compras as lembrancinhas porque viajamos amanhã, então decidi encarar. Nosso amigo embarcou na maluquice comigo e lá fomos nós, sacolejando dentro do trem e chegando na loja com ajuda do GPS.
Entramos, vimos muitas coisas, separamos algumas, desistimos de outras e fomos pagar. Pagamos. Deu fome. Pensei: é rapidinho até em casa, ainda não tá chovendo, não sei onde comer por aqui por perto, vou entrar logo no trem e como em casa.
Bom, depois desse dia, existem TRÊS coisas que eu nunca faço aqui: sair de casa sem luvas, sair de casa sem checar o tempo e sair de onde quer que eu esteja sem comer, porque eu tenho o péssimo hábito de desmaiar quando fico mais de três horas sem comer.
Entramos na estação cheios de sacolas e, de repente, em questão de três, quatro minutos, o céu virou noite. Ainda era cedo, mas precisaram acender as luzes da plataforma. Tinha muita gente ali esperando o trem. E o lugar foi enchendo cada vez mais. E mais. E o céu foi escurecendo mais e mais e mais e... ZÁÁÁSSS. Cabrum.
O primeiro raio caiu relativamente perto de nós e iluminou meu rosto abobado diante daquela tempestade monumental. Eu entendi ali o sentido da expressão "brewing a storm". A coisa estava meio que em ebulição na minha frente, com as nuvens escuras se movendo em alta velocidade e com os raios caindo cada vez mais perto e a intervalos mais curtos. De repente, um raio cai no segundo prédio depois da estação. E nada de o trem chegar. E nada da minha fome melhorar (óbvio). E eu não sabia se minhas mãos estavam frias de nervoso, frio ou fome. Depois do último raio a cidade entrou em alerta. As sirenes dispararam, algumas luzes se apagaram e ficamos ali, na plataforma apinhada de chicagoanos entediados, ouvindo as sirenes entrecortadas por trovões. Minha pressão começou a cair e eu fiquei apavorada com a possibilidade de desmaiar em meio a um tornado, pois meu celular começou a vibrar loucamente com alertas vermelhos piscando e avisando dos tornados que vinham chegando. Paniquei. Liguei pro marido. Dei mini chilique com o amigo. Pensei, com o pouco de energia que me restava, em estratégias de sobrevivência: voltar correndo para a loja de onde viemos e me entupir de chocolates? Descer e pegar um táxi? Agarrar o primeiro transeunte pela gola da camisa e gritar "stop this train"? Ops, essa última ideia eu já tinha usado outra vez, em outra história e não tinha dado muito certo.
Enfim, meu estado de nervos era tal que quando chegou o trem eu nem me lembro como consegui um lugar sentada. Talvez eu tenha pedido ajuda, talvez o amigo tenha sido cavalheiramente sagaz e tenha guardado um banco para mim. Não me lembro, porque eu só conseguia pensar em vacas voando, em desmaios cinematográficos em meio à multidão, nos noticiários que contariam a história da mãe que foi levada pelo tornado quando saiu para comprar lembrancinhas para a festa do filho.
Chegamos em casa antes da chuva, antes do tornado que afinal nunca veio e antes do meu desmaio. Hoje virou história engraçada para entreter os amigos, mas sendo história, também me serve de lembrança e aviso para o futuro. Amanhã temos previsão de tempestades fortes e possibilidade de tornado. Estou em casa, com comida na geladeira e luvas na bolsa. Ainda bem que é novembro, um mês sem aniversários por aqui.

quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Fernando Sabino reeditado

Estava eu em casa, de pijama, em mais um dia modorrento de pré-inverno chuvoso na Bélgica. Estamos com chuva há 5 dias e teremos tempo nublado/chuvoso até dia 23, pelo menos. Então, no panorama geral, Trump tinha sido eleito presidente do país onde devo morar até 2018, Temer deu um golpe no país onde nasci e no país onde atualmente passo uma temporada estava chovendo gordas lágrimas de decepção liberal. Nesse contexto, pijama em casa era o máximo que eu conseguia administrar.
Tudo corria bem, apesar do clima 7X1-e-os-fascistas-tão-chegando, até que Arthur grita e dá um pulo:
- Uma aranha!
Onde? Não tô vendo. Ali, correu. Vi. Era uma pernalta amarronzada e estava bem na frente do meu filho. Meu filho que não admite que matemos nenhum bicho que não seja mosquito que morde. Meu filho, também de pijama, que acompanhava o caminhar elegante da aranha pelo chão da nossa sala.
Qual saída? Distrair o menino e pá!, matar a aranha? Não, o mundo não precisa de mais gente escrota, mentirosa e hipócrita. Então, fui tocando a aranha feito gado pela sala, no intuito de expulsá-la para fora de casa, pela porta da frente, em grande estilo e sem estragos. Passamos pela mesa, conduzi o aracnídeo até o hall de entrada e ali peguei a vassoura que tinha acabado de pousar quando filhote me chamou. Acendi a luz, abri a porta, com muito cuidado ia pisando com meu chinelo de oncinha para fazer um movimento forte o bastante para levar a aranha para onde eu queria, mas suave o suficiente para não machucá-la ou assustá-la demais. A vassoura seria minha aliada para conseguir pousar a bichinha em um dos degraus da escada, o plano era perfeito. Arthur me acompanhava, intrigado com o desfecho, eu ia conduzindo tudo direitinho, todo mundo feliz, a aranha subiu espontaneamente na vassoura, o que facilitaria bastante para mim, pois agora era só colocar a vassoura na escada e esperar a aranha sair andando em suas patas compridas e...
clic
Com um clique suave e quase inaudível a porta da minha casa se fechou atrás de mim.
Quarta-feira, Trump eleito, três graus e muita chuva lá fora, eu sozinha com filhote e os dois de pijama, trancados do lado de fora de casa.
Embora estivesse de calça, chinelo e casaco, me senti o próprio Claudio Marzo em "O homem nu".

Maldita aranha! (imagem daqui, ó: http://www.papodecinema.com.br/filmes/o-homem-nu)
Eu vestia calça, casaco e chinelo, mas Arthur estava descalço. Meu celular ficara do lado de dentro, assim como carteira com dinheiro ou qualquer outra coisa que pudesse me ajudar a encontrar uma solução digna para a situação.
O prédio só tem um vizinho, que não estava em casa, e nossos senhorios moram na casa ao lado. No dia anterior, para minha vergonha completa, eu já tinha tocado na casa deles e pedido que por favor abrissem a porta porque saí e larguei a chave do lado de fora da porta de casa. Então, não foi sem constrangimento que desci (depois de calçar no menino as botas que estavam do lado de fora de casa! que sorte!) e toquei a campainha. Chuva, vento, frio. Nenhuma resposta.
Voltei para dentro do prédio, sentei na escada. O que fazer? Não conheço ninguém aqui, marido ainda demoraria pelo menos mais 3h para chegar em casa, vizinho fora de casa, senhorios idem. Eu queria chorar. Eu queria fazer xixi. Conseguia escutar o som tocando dentro de casa, ver a luz do hall acesa.
Esperei.
Desci de novo. Mais um toque na campainha. Outro. Ninguém.
Voltamos para dentro do prédio porque meus dedinhos estavam começando a ficar dormentes com o vento gelado.
Sentei na escada, vi a aranha tentar escalar a parede, ajeitei a vassoura, tentei distrair Arthur.
Desci. Toquei. Nada.
Subi, me esquentei, tive uma ideia.
Desci, abri a garagem, peguei a chave do cadeado da bicicleta. Óbvio que não funcionaria, mas pelo menos iria me distrair. Quantas horas eu ficaria ali, naquele corredor? Tinha acabado de mandar uma mensagem para marido perguntando que horas ele voltaria para casa. Vejam que coincidência escrota! E antes de ver a resposta, clique.
Subi com a chave e ela nem sequer tinha a mesma espessura do buraco da fechadura, tudo que eu podia fazer era achar um ângulo qualquer e tentar criar uma espécie de alavanca para girar o tambor da fechadura. Óbvio que não funcionou.
Desci de novo. O corredor do prédio estava ficando gelado com tanto abre e fecha de porta da rua. Toquei a campainha. Nada. De novo. Nada. Arthur correndo, pulando, achando tudo uma graça (pelo menos isso!). Subi. Peguei a chave da bicicleta de novo. Tentei mais uma vez. Desisti e achei que se McGyver conseguia consertar um jato com chiclete e um chumaço de algodão, talvez eu conseguisse abrir a porta da minha casa desfazendo o aro que ligava a chave da bicicleta ao chaveiro. Desfiz o aro. Enfiei o arame dentro do buraco da fechadura e tentei todas as combinações possíveis de posição do arame + força na porta + chave da bicicleta formando uma espécie de alavanca. Não funcionou, é claro.
Desci de novo. O vizinho do outro lado chegava em casa, perguntei as horas, quatro e dez, lascou-se, acho que talvez seja bom pensar em ir ao mercado daqui a pouco porque lá tem aquecimento e está ficando frio, mas se eu for ao mercado, marido pode voltar para casa e ter um pequeno surto ao encontrar tudo aceso, som ligado e nós desaparecidos, melhor ficar aqui, mas marido só deve chegar lá pelas seis e meia, o que faço, Arthur, desce daí, meu filho. Respira.
Toquei a campainha. Nada. Quis chorar. Pensei onde eu poderia fazer xixi nas redondezas, mas aqui não é os EUA e nenhum estabelecimento comercial tem banheiro para clientes. E eu nem seria uma cliente, já que não tinha dinheiro para consumir.
Subi. Arthur canta com a vassoura. Arthur dança com a vassoura. Arthur quer saber da aranha. Tento, insistente e inutilmente, abrir a porta com o arame e a chave que não entra na fechadura. Desisto. Sento no degrau.
Ouço um barulho.
Desço.
Serão os senhorios? Será o vizinho? Será um delírio?
Não! Era meu próprio marido, ensopado, com as mãos duras de tanto frio e o olhar atônito de quem achou, por alguns segundos, que a mulher estava saindo de casa de pijama e chinelo. Ele veio mais cedo para casa, mal posso crer!
Ficamos uma hora e seis minutos trancados do lado de fora. E, ainda assim, quando entrei em casa, o Trump ainda estava eleito.
Que tempos, minha gente. Que tempos!

quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Cuidado, olha a Cona!

Uma das coisas mais loucas daqui da Bélgica são as ruas. Nesta época do ano (não sei em meses mais frios), elas são abarrotadas de um tudo: carros, bicicletas - muitas bicicletas -, patinetes, motos, troles, ônibus, caminhões, pedestres, cachorros, carrinhos de bebê. Há trechos imensos em que a calçada e a rua propriamente dita não têm limites claros e definidos, e a sensação que dá é que testemunharemos acidentes horrorosos entre uma criancinha andando de bicicleta e o trole que vem vindo, ou um patinete a toda velocidade e aquele velhinho de bengala ali na frente, ou... vocês entenderam, né?
Nesse contexto - e considerando que bicicletas aqui são realmente muito populares e trafegam por todos os lados, inclusive em cima de calçadas e em vias partilhadas com pedestres -, ando tensa. Motores são fáceis de serem escutados, mas muitas coisas que circulam por aqui são bastante silenciosas, e eu nunca sei se estou na calçada, na via compartilhada, no meio da rua.
Numa dessas, estava eu com a família completa, contemplando um castelo no caminho - Europa tem disso, né? Tá andando e pá!, um castelo de mil anos -, quando ouvi um barulho na calçada. Era uma bicicleta, seguida por um patinete. Saltei para a rua, ou o que achei que era a rua, e fui advertida pelo marido:
- Cuidado, olha a Cona!
Ergui os olhos e vinha, atrás de mim, um imenso caminhão vermelho com CONA em letras brancas. Dentro dele, dois homens que não faziam a menor ideia de que, na minha língua, eles dirigiam uma imensa vulva.
Bélgica, o país onde o tráfego é tão louco que até mesmo uma cona poderia ter me atropelado!

Bicletas, pessoas, carros, ônibus, troles, igrejas e quase nenhuma separação entre rua e calçada.

quarta-feira, 25 de maio de 2016

Traje escroto fino

Recebemos um convite. No rodapé vinha escrito "business casual". Traduzi como "esporte fino".
Saí catando os trapos que usamos como roupa aqui em casa para os três (lembra? sem babá, sem família, é tipo corda e caçamba: vai um, vão todos). Coordena daqui, ajeita de lá, estávamos prontos e minimamente dignos. Parecia "business casual".
Tomamos o rumo e já no primeiro quarteirão fiquei pensando que a parte do "fino" não era para mim. O sapato, bico fino, salto agulha, estrangulava.
Se você me acompanha há algum tempo, já sabe que sandálias ou sapatos de tiras + meu pé não dão uma equação bonita. Mas a gente esquece, não é mesmo? Ainda mais quando o sapato é um pitéu. Ainda mais quando é o único que poderia se encaixar no traje "business casual". Ainda mais quando temos um dia de sol e calor de verdade, com trinta deliciosos graus e você está há três anos usando botas e suas variações.
Então, lá fui eu, de "business casual/esporte fino" dos pés à cabeça, já pisando meio de lado e contando mentalmente quantos quarteirões ainda faltavam para chegar ao local da festa.
Tô estropiada, mas tô na moda.
Achei que dava para aguentar, mas a verdade é que não. Teimosa e orgulhosa, porém (e também atrasada, como sempre), segui em frente. Às vezes segui meio de banda, porque era muito difícil pisar com todas as partes do pé no chão, posto que eu já não sentia algumas partes, sobretudo os dedinhos. Mas fui. Cheguei. Recompus minha elegância na antessala do evento (festa chique tem disso, né?) e adentrei o recinto, sonhando com o sapato confortável que com certeza, sem qualquer sombra de dúvida compraria tão logo saísse dali.
E adivinhem quem foi uma das primeiras pessoas que vi ao fazer minha entrada triunfal em "business casual"? O rapaz. O rapaz que estava usando camiseta tipo Hering. O rapaz que estava usando calça fucking jeans. O rapaz de TÊNIS. Na festa "business casual mandatory". Na festa em que meus dedinhos do pé agonizavam enquanto eu lutava para não fazer um esgar de dor. Na festa em que, aleluia, grazadeusa!, Arthur ficou pertinho da gente e não me obrigou a sair correndo sobre saltos agulha.
Agora, sabem do pior? O rapaz de camiseta, calça jeans e TÊNIS não estava só em seu traje "casual, not business at all". Muitas pessoas trajavam coisas confortáveis e despojadas, inúmeros filhinhos do puto estavam usando sapatos deliciosamente confortáveis e sem salto. Homens, mulheres, jovens, velhos, carecas, cabeludos, gays, héteros, estrangeiros e locais.
Felizmente a festa foi breve e tinha camarão e chocolate. Comi, fiquei menos miserável e encarei o trajeto de volta. Ao menos até a primeira loja que encontrei: uma farmácia.
As farmácias aqui vendem de tudo um pouco, são meio como Lojas Americanas, então eu sabia que encontraria qualquer coisa para meus pés tão fatigados. Só que, amigxs, se tem uma coisa com a qual nunca me canso de me surpreender é a capacidade norte-americana de comercializar itens. Dos mais lindos aos mais esdrúxulos, todos têm seu lugar ao sol neste paraíso capitalista. E o que havia na loja era: uma sandália tipo Havaianna (de novo! Oh, céus!), mas de qualidade MUITO inferior e que me custaria 8 doletas OOOOOUUUUUU um calçado azul-marinho que me custaria 3 doletas. Sofri, ponderei, me debati em questionamentos, mas achei que 8 dólares por um pedaço de espuma de alta densidade era demais.
Por alguns quarteirões eu amei aquele sapato recém-adquirido. Por alguns quarteirões eu pensei que nunca na minha vida usaria outro par em meus pobres pezinhos carcomidos pela sandália assassina. Por alguns quarteirões eu até achei bonito e combinante o que cobria meus pés.
Mas hoje era um dia de sol e calor, minha gente. Fosse um dia de chuva e frio, poderia manter essa ilusão por mais algum tempo. Como não era, no entanto, eu vi: um dos sapatos mais feios que já calcei nesta vida. E ainda um ou dois números maior que meu pé.

Piteuzinho.
E foi assim, queridxs leitorxs, que em um belo dia de sol nas longínquas terras norte-americanas, passei, em questão de três dólares, do traje esporte fino para o traje escroto fino.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Fuéééém

Era uma festa diferente. A comemoração estava marcada para acontecer em uma loja-ateliê aqui perto. A aniversariamente era apenas um nome para mim.
Compramos presente, colocamos roupa bonita, até passei perfume! 
Tudo estava correndo dentro dos conformes de normalidade social: nada de bolo na cara do amiguinho, nada de arremesso de argila no teto (sim, era um ateliê de peças de cerâmica e a brincadeira era colocar as crianças para fazer uma tigela). Tudo tranquilo, tudo favorável.
Claro que meu filho era o único a correr por ali. Óbvio que ele foi o único que preferiu esculpir um dinossauro de argila a fazer o que o dono do ateliê nos instruiu a fazer. É evidente que ele começou a cantar BEM ALTO o parabéns porque queria comer logo o bolo. Mas, sinceramente, nada assombroso ou altamente vexatório. Vida que segue e ainda bem que a festa só dura uma hora e meia.
Bom, depois do lanche e do parabéns, estando todas as crianças devidamente munidas de tédio + cornetas e chapéus comemorativos + bastante açúcar no sangue, começou uma pequena algazarra. Não havia correria e nem gritos histéricos, mas "calmas" não era uma definição boa para aquelas crianças.
Arthur, então, resolveu ir interagir com a aniversariante. Eles se davam surpreendentemente bem (surpreendente porque a menina não é muito citada aqui em casa quando pergunto como foi a escola). Eles têm o mesmo nível de energia e potencial de fazer bobagens. Estava lindo.
Foi quando eu vi.
Eu me levantei do banquinho, calça toda suja de barro em seus diversos estados (a saber: sólido, semisólido, líquido e poeira), tentando chegar antes que Arthur começasse a interagir com a MÃE da aniversariante. Acontece que os traquinas estavam todos fartos e zanzavam, os pais ao encalço para evitarem tragédias com as peças delicadas, e, então, não consegui nada além de assistir de longe a interação.
A moça foi chegando perto do Arthur, falando: 
- Noooooossa, mas que olhos bonitos que você...
FUÉÉÉÉÉÉÉM
Arthur deu-lhe uma cornetada na fuça. A moça ganhou distância e tentou mais uma vez elogiar o meu rebento munido de corneta, mas desistiu a tempo e eu só cheguei, pateticamente, para falar:
- Filhinho, espaço pessoal, lembra?

Voltei para casa com a sensação de ter saído de uma rave, mas acho que entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Que syrup é esse?

Era meu dia de ficar na cama até mais tarde. Marido, portanto, acordou e foi preparar o café da manhã. Só que fiquei naquele estágio entre o sono e o despertar, ouvindo o amanhecer dos dois. Ora dormia e sonhava, ora acordava e escutava conversas e barulhinhos matutinos, feito café sendo coado e talheres batendo de leve no prato.
Até que Arthur pergunta:
- Papai, que syrup é esse?
Aquilo entrou nas profundezas dos meus devaneios sonolentos e eu sabia que havia alguma coisa se debatendo debaixo da superfície idílica, alguma coisa que queria sair, que precisava sair. Syrup? Será que meu cérebro está preocupado com troca de códigos linguísticos a esta hora da manhã? Não pode ser. Será que estou em um estado tal de estresse que preciso controlar tudo o que acontece mesmo que eu saiba que tudo está bem e todos estão em segurança? Será que estou pensando na lista de compras quando deveria estar sonhando com massagens e piña-coladas à beira-mar? Será que eu sei de alguma coisa que eles também precisam saber?
SIM!
- Ei - gritei eu das fossas abissais de meu torpor sonolento -, isso aí não é xarope de bordo! Vocês estão colocando azeite temperado com alho na panqueca!

Lição do dia: se for reciclar potinhos de vidro, escreva bem grande no rótulo qual a NOVA substância que está ali dentro.

sexta-feira, 11 de março de 2016

Treta Park

Era um dia de sol. O parquinho, portanto, estava populado: duplas de irmãos corriam aqui, trios de amigos se balançavam acolá, Arthur pulava na caixa de areia. Tudo normal.
Até que o fantasma da treta, o Tretageist, chegou.
O Tretageist é primo do famoso Poltergeist, de quem tem um pouco de inveja e ciúme.
O Tretageist não traz pedras e nem arrasta móveis e objetos. Não! Ele, na verdade, se esconde atrás da polêmica, se alimenta da dinâmica pré-conceituada e de pataquadas e, em vez de se manifestar através de objetos, ele se faz presente em meio às pessoas. Sabe aquela frase infeliz que, assim que saiu da sua boca, você já sabia que ia dar treta com seu irmão? Foi ele. E aquele comentário da sua filha, na hora errada e para a pessoa errada? Ele também. Ultimamente, tretinha encontrou um novo habitat muito confortável e rico em alimentos, e lá tem ficado muitas horas do dia: o Facebook. É treta atrás de treta, de grupos sobre maternidade a páginas pessoais, passando por postagens de empresa e até mesmo chegando ao mundo acadêmico! Mas não se enganem, não. Tretageist não marca touca na vida real e basta um mísero descuido e ele – pá! – se manifesta. Em qualquer língua ou localidade geográfica.
Então estávamos nós no parquinho, fazendo as coisas normais de parquinho – a saber: correndo descabelada atrás da criança, segurando o balanço que ia acertar a boca do garoto brincando de pega-pega, agarrando o tornozelo da garota que ia caindo do trepa-trepa etc.
Mas Arthur, possuído pelo ritmo da Ragatanga e pelo Tretageist, resolveu empurrar um moleque. Chamei atenção, tudo bem, vida que segue. De novo. Chamei atenção, alertei que era o segundo aviso, o terceiro ele sabe que é casa, parou, pediu desculpas. Foi brincar em outro canto. Mas, uma vez evocado o Tretageist, é difícil se livrar dele. Ele curte brincar com efeito dominó. Então o moleque empurrado pelo Arthur resolveu descontar a frustração de ter sido empurrado em outro garoto. Empurrou. Mas o garoto era mais velho, fez que não viu o Tretageist por trás dos olhos empesteados do moleque e seguiu adiante. O moleque foi atrás. De novo. Mas a mãe dele não chamou atenção, nem avisou, nem notou, na verdade. Então o garoto mais velho fez o que ele poderia fazer: empurrou o moleque, que desceu o escorrega chorando, gritando e urrando. 
A mãe, do outro lado do parque, gritou com sua voz poderosa: 
FULANO (não peguei o nome), ABRE ESSA SUA BOCA E FALA O QUE ACONTECEU EM VEZ DE CHORAR.
Cabeças se viraram para a mãe. Todo mundo naquele lugar viu o Tretageist ganhando corpo. Ficamos imóveis.
O moleque correu para a mãe, abriu a boca e falou. O quê, ninguém sabe. Mas a gente sabe que a mãe continuou no mesmo tom e volume: 
NÃO PODE EMPURRAR, VOCÊ TÁ CERTO. QUEM FOI QUE TE EMPURROU?
O moleque responde.
UM GAROTO MAIS VELHO?
Responde de novo.
QUEM É? MOSTRA PRA MIM?
A tensão crescendo. Mães e pais chamam seus filhos para mais perto. A mãe se levanta. O moleque vai andando até apontar um dedão bem apontado para o garoto mais velho.
EI, GAROTO, VOCÊ NÃO PODE EMPURRAR OS OUTROS.
O garoto nada.
GAROTO, TÔ FALANDO COM VOCÊ!
Pensei, meio assustada e bastante ansiosa, cadê a mãe dessa criança, pelamor?!
EI, GAROTO, OLHA PRA MIM, TÁ ME OUVINDO?
Nisso chega a mãe do garoto, esbaforida, sacoleja os braços para chamar a atenção do filho e... começa a fazer perguntas através da linguagem de sinais.

Bróder, o garoto era deficiente auditivo!

As mães conversaram. Dessa vez em voz baixa, não deu para ouvir, mas dava para ver que uma estava sem graça por conta do filho ter empurrado uma criança mais nova e a outra, por conta da deficiência tomada por falta de educação do filho da outra.
Os ânimos se acalmaram, elas ficaram uma meia hora conversando, as crianças todas foram empurrar novos garotos e garotas, Arthur brincou de dar socos e pontapés em duas menininhas, as menininhas eram mais da pá virada que ele, afastamos os indomáveis, Arthur foi brincar de pega-pega ou grita-grita com o moleque, o garoto foi ver passarinhos e assim seguimos a tarde de sol depois de mais um inverno enclausurado.
Tretageist se entediou, ou ficou com fome, ou ficou satisfeito com a treta alcançada e voltou para os memes/posts/discussões acaloradas sobre o futuro político do Brasil.
E nós, bem, nós agora temos um parque rebatizado: o Treta Park. Onde as treta-kids tretam umas com as outras alegremente.

domingo, 11 de outubro de 2015

Eva!

Era hora do jantar e marido foi para a cozinha preparar seu prato enquanto eu e Arthur ficávamos na sala, já comendo. E então...

PLOFT, PLEM! [bem alto]

E marido:

– MERDA! [bem alto também]

E Arthur, que nunca ouve palavrão porque aqui em casa decidimos não falar na frente dele, vira-se, perplexo:

– Mamãe, quem é Eva?

Eis a corrupção original, só que desta vez protagonizada pelo homem.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Um conto de Halloween

Era tarde (para um bebê) e estávamos na cama, coladinhos, tentando fazer o soninho chegar.
Arthur, agitado, estava atento a todos os barulhos do vizinho. E aqui, o prédio é velho, o piso range, as madeiras das paredes estalam e o pátio interno ecoa todas as portas que se fecham. Ele, então, perguntava a cada minuto:
- É o papai?
Não era. Eu sabia que não era. Mas o pequeno, não.
Ficou agitado, ansioso, atento. Foram umas quinze perguntas até que eu decidisse fazer um tour noturno pela casa, para mostrar ao filhote que não havia ninguém em casa e que os barulhos que ele escutava vinham dos vizinhos. Ele topou, pulou para o meu colo e assim fomos:
- Viu, filho? Aqui a cozinha toda apagada. E não tem ninguém. O papai ainda está no trabalho. Olha a sala, ninguém, tudo escuro. Somos só eu e você. Banheiro, quarto, armário. Viu? Ninguém. Agora, vamos dar tchau para a casa e vamos dormir.
Começamos pelo quarto dele:
- Tchau, brinquedos. Tchau, caixa de papelão. Tchau, janela.
Ele ria, divertindo-se.
- Tchau, sofá. Tchau, estante. Tchau, poltrona.
Chegamos à cozinha, último cômodo antes de entrarmos no quarto. Tudo escuro. Nós dois sozinhos. Tudo em silêncio.
- Tchau, geladeira. Tchau, fogão.
- Mamãe?
- Oi, filho?
- E praquele moço ali? A gente também pode dar tchau?
- Vamos dormir, Arthur. Vamos!

uahauahuahua [risada de bruxa]

terça-feira, 7 de outubro de 2014

A geladeira NÃÃÃOOOO!

Era bem tarde, umas duas, talvez três da manhã, quando a geladeira fez seu VUUUUUSHHHHH bem alto. A porta fechada não adiantou e parecia que um Boing tinha ligado as turbinas dentro da minha casa. Arthur, óbvio, acordou. Aliás, duas vezes na mesma madrugada, pelo mesmo motivo.
Decidimos, então, pedir que trocassem a geladeira.
Aqui, a responsabilidade de troca de equipamentos básicos da casa ou da cozinha é do senhorio. Ligamos, pois, para o nosso, que depois de tentar resolver o problema com manutenção e mandingas, veio substituir o avião por uma geladeira.
Isso foi hoje. Os rapazes da manutenção bateram à porta, trouxeram a geladeira nova, levaram a velha, varreram o chão e fizeram a realocação de tudo que estava dentro do avião refrigerado.
Eu estava satisfeita, quase feliz - daquelas felicidades prosaicas, sabem?
Filhote perguntou quem eram as pessoas e eu respondi. Quis saber por que estavam ali e eu disse. Ele, então, abriu um berreiro, sentido, de lágrimas gordas e quentes pingando na camisa, o rostinho vermelho com a emoção. Surpresa, abracei-o e indaguei o motivo do choro, da tristeza, ao que ele esclareceu:
- Eu não quero que levem a geladeira velha!
Consolei, expliquei, distraí, abracei, fiz tudo que estava a meu alcance. Mas ele ficou mesmo ressentido com a troca e precisei passar uma tarde toda revezando entre consolar e escutar muito choro por causa da geladeira velha.
Durma-se com um barulho desses (ou daquele).

quinta-feira, 17 de abril de 2014

Coisas que só acontecem comigo

Estávamos dentro do vestiário do clube quando escutei o primeiro tim-tim-tim. Achei que fosse coisa da minha cabeça, achei que fossem as crianças lá fora brincando de bater em alguma coisa de metal, achei que fosse maquinário do elevador, achei que fosse qualquer coisa, essa é a verdade. Mas aí o barulho se repetiu: tim-tim-tim. E veio junto o som inconfundível para uma carioca feito eu: TUM-TUM-TUM.
Arthur olhou para mim assustado, dedinho em riste perto da orelha, como quem diz "tá ouvindo, mamãe?". Se era alucinação, então era coletiva, se é que se pode chamar de coletividade uma dupla.
Nos vestimos apressadamente, guardamos os pertences na bolsa. Seguimos o som, que crescia conforme subíamos os degraus: TUM-TUM-TUM tim-tim TUM-TUM.
Samba.
Com surdos, tamborins e caixas. Compasso ternário único, cadenciado.
Entrei na sala do ensaio e fiz a única coisa que poderia fazer naquele momento. Ou seja, saquei um pandeiro da bolsa e fiquei ali, assistindo.
Juro.
Samba, aqui. E eu tinha um pandeirinho na bolsa.
Coisas que só acontecem comigo.

terça-feira, 8 de abril de 2014

No balanço

O parquinho estava lotado. Crianças de todas as cores e idades se engalfinhavam para ver quem desceria o escorrega em espiral de costas primeiro, quem se balançaria mais alto, quem se sacolejaria nos brinquedos de mola com mais ferocidade. Crianças podem ser muito selvagens. E eu agarrei meu filho, coloquei-o sob minha asa e estendi meu firme e protetor braço para permitir que ele explorasse com segurança seu novo mundinho de menino que corre, sobe escada e desce escorrega sozinho. Sozinho, porque independente, não desacompanhado.
Duas loirinhas desciam os escorregas das crianças pequenas de costas e de cabeça para baixo, olhavam feio para mim e faziam cara de deboche para meu bebê. Um garotinho obeso que falava espanhol e estava ali com a mãe corria sem rumo, de um lado para o outro, quase esmagando as mãozinhas pequeninas do meu filho em seu afã por diversão. Uma adolescente entediada gritava nomes e vociferava ameaças enquanto deslizava o polegar na tela do telefone, os ouvidos enfiados em fones brancos. Um cachorro amarrado à árvore latia de vez em quando.
A gritaria estava me deixando exausta, e acho que em determinado momento, também chateou Arthur. Ofereci de irmos ao outro lado do parque, onde em vez de brinquedos há uma quadra de basquete e um gramado, e ele aceitou. Perguntei se queria jogar bola, retirei o brinquedo da mochila, e fomos nós para o gramado.
Meu menino jogava a bola gritando "É dois e já!", ria, pegava o brinquedo e corria. Fez isso umas dez vezes e parou. Não queria mais. Foi até a quadra, apontou o jogo dos rapazes grandes, arrancou em direção a um pai e um filho que jogavam (que clichê!) uma bola de futebol americano um para o outro, catou uma pedrinha no chão, correu mais um pouco e quis, por fim, voltar aos brinquedinhos.
Quase todas as crianças tinham ido embora, e só umas poucas ficaram ali, balançando-se preguiçosamente no frio de início de primavera ou cavando na areia com gravetos.
Arthur foi andando devagar, parando diversas vezes. Perguntei se ele queria água. Fez que sim com a cabeça. Parei no carrinho, Arthur junto, e foi então que vi a moça com o filho obeso acenando para mim do balanço. A essa hora, notei que estávamos ali somente nós duas, nossos filhos, e os rapazes que jogavam basquete na quadra mais adiante. Ela acenou mais uma vez. Agitei a mão em resposta, peguei a garrafa de água, ofereci um gole a Arthur, bebi um pouco, e fui em direção aos dois, mãe e filho.
Conforme me aproximava, distingui melhor que o que antes parecia ser uma cena de amor, com a mãe balançando o filho e de vez em quando se abaixando para falar com ele, na verdade era algo estranho. A criança chorava. A mãe sorria, embora parecesse nervosa. Pensei o que ela quereria comigo. Peguei Arthur no colo, pois que coisas estranhas despertam meu instinto de proteção da cria. O menino, no balanço, chorava lágrimas gordas, até babava um pouco, naqueles choros sentidos e nervosos em que a infância nos aprisiona às vezes. Tive pena. Tive receio. Achei que a mãe queria ir ao banheiro e, agachada ao lado do filho, tentava convencê-lo a ficar comigo durante um tempo. Olhei ao redor. Estávamos sozinhos ali. Os quatro estranhos e estrangeiros.
Ela, então, sorrindo, angustiada, veio no espanhol me explicar. Apontava para o filho, agora de cabeça baixa, e atropelava desculpas: você é a única pessoa aqui, desculpe não falar inglês, estou nervosa.
O menino, agora perto dele eu conseguia ouvir, murmurava entre lágrimas que doía. Arthur se assustou e olhou para mim, apontando o dedinho: neném.
E enfim eu compreendi, juntando as imagens e as palavras confusas da moça que me pedia ajuda. O filho dela, por ser obeso, ficou preso no balanço. As coxas gordinhas se prenderam firmemente, e ele, embora grande, não tinha coordenação motora ou mesmo força física para se içar dali. A estrutura do brinquedo comprimia seus testísculos e tudo era dor ali: a humilhação de pedir ajuda naquelas condições, a falta do inglês para se comunicar, o desconforto físico, as tentativas frustradas daquela mãe em retirá-lo sozinho da cadeirinha.
O menino, que devia ter uns 3 ou 4 anos, era pequeno, mas estava visivelmente envergonhado com toda a situação.
Pousei Arthur no chão, coloquei a garrafa de água ao lado e tentei, com todas as minhas forças e a ajuda da moça, erguer o menino do balanço. Nada.
Olhei para os lados e ainda estávamos sozinhas. Os dois cada vez mais assustados, nervosos. Imagina só ficar preso num brinquedo de parquinho com a tarde chegando ao fim!
Usei meu portunhol de colégio para explicar para a mãe que seria melhor se ele tentasse jogar o corpo para trás, mas o menino não conseguia, pois as pernas estavam muito presas e ele não tinha a angulação necessária para a manobra. Segurei por sob as axilas do garoto, puxei, empurrei, a mãe colocou-se de joelhos diante dele, para que o menino tivesse um apoio para os pés e tentasse empurrar as pernas dos buracos, mas nada adiantou. Estava preso, bem preso ali.
Arthur repetia neném, assustado, segurando o balanço vizinho, como se tentasse também ajudar.
O menino então começou a chorar com mais intensidade, angustiado, acredito eu, com a perspectiva de ficar ali. No imaginário infantil, provavelmente para sempre.
Tentamos mais algumas vezes, até que eu dei a volta e segurei o menino por sob as axilas pelas costas. Pedi que a mãe o avisasse que eu iria deitá-lo, e assim que ele ficou sabendo do que eu faria com ele, pus meu plano em prática. Com esforço e muito vagar, ele foi deitado de costas e uma das pernas se moveu um pouco. A mãe se pôs de frente para ele, ergueu suas pernas e, enquanto as empurrava, eu puxava o garoto. Aos poucos ele foi se soltando, e nem me lembro como foi que aguentei segurá-lo para que ele saísse dali. Mas ele saiu. E sorriu. E a mãe agradeceu mais do que havia se desculpado. Em espanhol, em inglês, com os olhos, com a alma.
Eu sou mãe, sei que foi muito mais difícil para ela ver o filho naquela situação do que foi para mim segurar uma criança que deveria pesar quase o mesmo que eu (eu peso 45kg).
Voltei para casa tocada pela humildade da moça, pelo desespero do menino, pela dificuldade de ser estrangeiro e não saber o mínimo da língua do país, mas, principalmente, pela certeza de que se eu tivesse permanecido distante, fingido que não tinha visto a moça acenar, pegado meu carrinho e ido embora pelo outro lado do parque, teria achado que o desespero daqueles dois era amor. Porém, às vezes, o que a distância parece carinho e cotidiano, pode ser que de perto seja, na verdade, dor e o sopro do inesperado criando novas fragilidades.
Precisamos, no ir e vir da vida, de mais sororidade.

Arthur no balanço.
PS: Obrigada pelo carinho no último post. Ainda não sei se estou de volta.

terça-feira, 4 de março de 2014

Luz

A noite vai quase alta, e estamos sozinhos em casa. Telefono para marido e pergunto que horas ele vem. Vai demorar ainda. Resignada, vou agitar a vida, colocar o menino para dormir, organizar o dia que virá. Tiro a calça para entrar no banho.
Toc toc toc.
Não acreditando no que ouço, paro, aguço a audição e escuto novamente.
Toc toc toc.
Marido não é. Acabou de desligar e não vinha antes das onze. Amigo não é. Não conheço quem venha sem avisar e ninguém tocou a campainha lá de fora.
Toc toc toc.
Insistente.
Toc toc toc.
Assalto? Fogo? Polícia? Quem entra no prédio sem tocar campainha/interfone? Pedinte? Senhorio? Paramédicos? Quem está no prédio? Vizinho pedindo açúcar? Parente que ficou preso do lado de fora do apartamento? Engano? Quem? Correios? Entrega? Pizza?
Visto a calça, ajeito a blusa, encaixo Arthur na anca.
Nhéééééé.
A porta se abre, misteriosa e lentamente, o ranger soando afinado com meu coração disparado, histérico, fantasiando mil histórias e desfechos. Do outro lado, no corredor, a japinha loira que mora no andar de baixo. Sorridente, lápis e papel na mão, leva embora o que restava da minha sanidade ao perguntar:
- Sua conta de luz aumentou no último mês?

sexta-feira, 7 de fevereiro de 2014

Diálogos possíveis

- Senhora?
- Sim, pois não?
- Sua bolsa está buzinando.
- O quê?
- Sua bol-sa es-tá bu-zi-nan-do.
- Minha bolsa está buzinando?
- É o que estou falando.
- Hum... acho que deve haver algum engano.
- Senhora, quem parece ter problemas de audição aqui não sou eu, visto que precisei repetir três vezes, ou quatro, se considerarmos esta também, que a sua bolsa está buzinando.
- Meu senhor, estou com meu celular na mão, portanto é impossível que minha bolsa esteja apitando.
- Buzinando.
- Buzinando, apitando, que seja. É impossível.
- Minha senhora, minha senhora...
- Olha aqui, senhor: meu celular, na minha mão, mudo. Aqui dentro da bolsa, olha só, tem carteira, chaveiro, cobertor para o menino, potinho com frutas, fralda, lencinho umedecido, luvas extras, um pé de meia descasado, um palito de fósfoto queimado... como isso veio parar aqui?... uma cenoura ressecada, meu Deus!... uma colher de sopa e... ops!... um chaveiro com buzina.
Bibiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii

*A categoria semificção reúne em uma só narrativa histórias que aconteceram, mas não no mesmo dia.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Compras

Assim que a porta se fecha eu me arrependo. Vejam bem, é uma necessidade. Se eu tivesse escolha, não ia. Mas se eu não vou, o que acontece? Fome. Choro. Ranger de dentes. Mãe desmaiando. Então, eu preciso ir.
A vontade é de vestir armadura e ir urrando pelo caminho, já que é papo de matar um leão. Um leão por dia. Porque não tenho carro e preciso fazer as compras de supermercado a pé, no meio da neve, com Arthur a tiracolo. Ou melhor, no carrinho. Ou melhor, no carrinho quando ele quer entrar. Ou melhor, no carrinho quando eu consigo colocá-lo lá dentro antes que ele escorregue por baixo da barra de segurança me dando vários choquinhos por causa da estática do casacão friccionando-se contra o tecido do carrinho.
No topo da escada, eu estou com Arthur no colo (ou no chão, tentando se jogar escada abaixo, já que ele ainda não sabe descer direito), o meu casaco, o casaco dele, luvas, cachecol, gorros e a chave de casa. Trancar a porta é luxo. Chegar com o coque ainda preso lá embaixo, também.
A vontade é de voltar correndo, me jogar no sofá e ler um livro a tarde toda. Mas se eu não for ao supermercado, fico com fome. Ou melhor: ficamos. E como agora não sou a única por aqui, visto a armadura (virtual) e desço quatro lances de escada, espeto filhote no carrinho e saio arrastando neve e mais neve por aí.
Invariavelmente chego no supermercado (que fica a uns quatro quarteirões daqui de casa) suada onde coberta, gelada onde exposta e meio rouca, de tanto ficar matraqueando no frio para distrair Arthur.
Lá dentro, táticas de guerrilha, pois o leão espreita: carne ou frango, arroz, feijão, frutas, verduras e legumes, suco, outro item de necessidade imediata. Não posso comprar muito porque não tenho como carregar tudo de uma só vez: se estou de carrinho de bebê não posso pegar o carrinho de compras; mas se vou sem carrinho de bebê, não posso comprar muitas coisas já que não dou conta de carregar compras + bebê + roupas minhas e do bebê. Também o carrinho é meio fuleira e anda mais para lá do que para cá. Não convém sobrecarregar.
Pago. Ensaco. Arrumo no carrinho, na mochila, e volto.
O leão ainda espreita: às vezes preciso comprar uma barrinha de cereal porque a saída é tão complexa que acabo morrendo de fome no supermercado mesmo, e para não desmaiar, vou comendo pelo caminho. Comendo e arrastando carrinho, bebê, compras, roupas e neve. Muita neve. Neve a dar com pau. Neve de se atolar, de se perder, de fazer pocinha de água suja iguaizinhas às do Rio. Neve branca, neve preta, neve cinza, até neve amarela de xixi de cachorro. Neve. Neve socada e firme. Neve fofa e soltinha. Neve que cai do céu, que voa do chão e dos telhados, neve que vem até na horizontal, sabe-se lá de onde, porque aqui nessa terra batem uns ventos muito loucos!
Coberta de neve, chego à portaria.
Não tem porteiro, então preciso abrir e fechar a mão diversas vezes, para que o sangue volte a fluir e eu consiga mover os dedos e pegar a chave. Calço sempre duas luvas, mas não bastam. Já comprei luvas de todos os tipos e formatos e elas ainda assim deixam minha mão gelada. Paciência. Vai ver um duende enfia neve dentro da luva. Vai ver sou sensível. Vai ver eu me acostumo.
Entrar na portaria às vezes é fácil, mas geralmente complica porque a porta é pesada e preciso encontrar o sutil equilíbrio entre erguer as rodas dianteiras do carrinho enquanto o puxo, e com a perna, chutar a porta (que delicadeza!) para que ela se abra. Agora tenho músculos firmes nas pernas. Mas o equilíbrio é o segredo, para que o carrinho não tombe para trás, nem eu caia de bunda ou de cara. Já virei o carrinho uma vez. Arthur, felizmente, estava do lado de fora, com o pai. Porém, geralmente estou sozinha, com Arthur dentro do carrinho, então é importante manter o equilíbrio.
Aliás, é sempre muito importante manter o equilíbrio. Dentro de casa, fora dela, ou entrando nela.
Entrar na portaria é fácil. Duro é abrir a segunda porta e estacionar o carrinho e retirar as sacolas e o pequeno e subir com tudo: compras, bebê, roupas. O carrinho fiz um acordo e fica mesmo na portaria, amém!
Geralmente respiro fundo (que é para não endoidecer logo de manhã) e faço tiros de lances, nova modalidade olímpica para 2016. Sabem como é? Você coloca o bebê no chão, pede para ele ficar quietinho e esperar, sobe correndo, pulando de 2 em 2 degraus o primeiro lance de escada com as compras todas nas mãos. Pousa as sacolas, desce correndo para evitar que o bebê suba as escadas sozinho, agarra o filhote, sobre com ele, pousando-o ao lado das compras. Daí, você fala para ele esperar um pouquinho, quietinho, passa a mão nas sacolas mais uma vez, sobe correndo, pousa as compras, volta, pega o moleque, pousa o moleque...
São quatro lances de escada. Tô craque!
Às vezes estou ousada: subo com tudo dando um foda-se à minha resistência patética. Quatro lances de escada com bebê, roupas, compras e chave na mão. Se tiver correspondência, também levo. Chego suada, esbaforida, achando que vou morrer. Mas não tem a adrenalina de ficar olhando Arthur para que, ao menor movimento em direção à escada, eu dê um triplo twist mortal para trás e segure o menino, mesmo às custas de ovos se quebrando ou compras se esparramando escadaria abaixo (sim, já aconteceu comigo. As duas coisas).
Há também os dias em que estou paciente, ou cansada, ou temerosa (a gente conhece os filhos, e quando eles acordam na vibe de fazer besteira, melhor não arriscar). Nesses dias eu costumo soltar Arthur na escada e subir escorando ele, carregando tudo, e chegando em casa cerca de meia hora depois de ter entrado na portaria.
Já tentei também deixar filhote no carrinho, subir correndo com todas as compras e voltar num pulo para buscá-lo. Mas não curti. Foi rápido, é seguro, mas tenho medo de alguém entrar (a louca, já que só quem tem chave entra) e levar meu filho, de ele chorar ou se sentir abandonado.
Já tentei dividir as compras em partes e ir subindo com elas e com Arthur no colo. Mas quase morri e achei que enquanto eu não treinar para triatlo, não vale o risco de infarte.
Também já arrisquei subir, pegar sling, colocar Arthur lá dentro e subir com as compras e com ele no sling. funcionou em termos, pois filhote ficou meio frustrado quando voltamos para casa e não demos uma nova voltinha.
Enfim, cada dia é uma técnica nova, mas sempre que chego à porta de casa rola o estresse da abertura da porta. Mesmo se não deu tempo de trancar, eu vou precisar empurrar a porta (pesada), enfiar compras e Arthur dentro de casa ao mesmo tempo em que descalço nossas botas cheias de neve e as deixo na entrada de casa. Costumo ter de interromper a missão umas duas ou três vezes para evitar que Arthur se atire lá embaixo ou que jogue nossas compras pelo corredor do prédio. Também evito subidas para o andar de cima e abertura de embalagens, sobretudo das caixas de ovos, que são incrivelmente tentadoras. Tão tentadoras que guardei uma para virar caminhão para ele brincar!
Enfim, eu sei que deveria, como a Aline sugeriu, tirar uma foto ilustrativa do caos. Mas pergunto: onde vou enfiar uma câmera no meio dessa situação?
É favor não responder.
Obrigada.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Primeira consulta médica

Um lado meu bem safado queria omitir a referência a Fernando Sabino e sua crônica do nariz entupido em Bruxelas. Mas meu lado honesto e certinho ocupa mais espaço. Droga! Porque o conto é sensacional e até hoje me faz rir. Daí, o que resta a mim e meus companheiros de viagem? Militar na conversa com a médica.
Querem ver?

A clínica é bonita. Novíssima. Cheguei no dia da inauguração (sorte minha, vocês já vão ver por quê). Fui resolver um pepino, mas aproveitei para solicitar uma consulta médica para o pequeno, já que desde que saímos do Brasil ele não passava por um exame. O dia estava frio, nublado, clínica recém-inaugurada, muita gente ainda pregando espelho na parede, encerando chão, aplicando revestimento na laminação da madeira, essas coisas que o destino nos dá de presente de vez em quando e que permitem que a gente receba a pergunta: "quer ser atendida hoje, agora?"
Opa! Claro!
Sentei-me, respondi um formulário gigantesco, que de tão grande, completo e complexo, não acharia estranho se perguntassem para qual time a gente torce, qual era a cor da minha calcinha ou com quantos paus se faz uma canoa. Bom, eu disse que eu me sentei para responder a esse interrogatório? Sentei-me nada! Fiquei correndo atrás do Arthur, prancheta em riste: casos de reumatismo na família? Hum, aquele tio-avó da minha prima era reumatismo ou... Arthur, desce daí! Diabetes tipo 2? Acho que sim, mas... Arthur, volta aqui, não corre para o estacionamento.
Coisa delícia, coisa simples, coisa que acontece diariamente.
Daí que essa coisa de corre-escreve-pensa-traduz-lembra-fala-para-o-moleque-descer-da-cadeira-mostra-passaporte levou uns bons quarenta minutos. E eu já estava por ali, na clínica, resolvendo a tal pendência anterior, há mais de duas horas. Então, a manhã já se encaminhava para seu fim quando terminei a avaliação prévia e fui chamada para ser atendida.
A enfermeira mediu temperatura, pesou, mediu e aumentou o aquecimento da sala, já que Arthur estava só de fraldinha, esperando a médica.
Que veio logo atrás de sua barriga: 39 semanas. Mas parecia bem, sabem? Eu fui uma grávida de 39 semanas digna de piedade, com minha falta de ar e barriga imensamente pesada. Mal me aguentava de pé. Mas a Dra. Rebecca estava graciosa em seu vestido vermelho de cintura imperial, jaqueta jeans e fita domando o cabelo cacheado. Bonita. Sem falta de ar.
Sorriu e perguntou: o que lhe traz aqui?
Assim, na lata.
Em inglês.
Por ter apenas obedecido às ordens da enfermeira que veio primeiro, e por ter passado uns cinco minutos na sala de exames tentando domar a ferinha só de fralda que tentava apertar todos os botões ali existentes, nem me lembrava mais de que teria que expor, em inglês, o que me afligia em relação a meu filho. Sem contar a anamnese feita na língua de Shakespeare! Como responder até mesmo o trivial, tipo peso? Sei lá a conversão entre quilos e libras de cabeça! Deveria ter me preparado.
Mas não me preparei. Fiquei correndo atrás do filhote de prancheta na mão, bolsa no ombro e passaporte no bolso. E, além disso, quem poderia imaginar ir resolver pendência burocrática e acabar de frente com uma médica grávida que lhe pergunta sem preâmbulos: o que lhe traz aqui?
Eu, que li o conto sabinesco trocentas vezes, me aferrei ao fato de que, na área biomédica, muitos termos são equivalentes em português e inglês porque, afinal, vêm do latim. Puxei na memória o latim tosco que tenho (cof, cof, cof!), caprichei no sotaque e fui. Até porque já estava na hora do almoço, Arthur e eu ficando com fome, e eu queria ir para casa logo.
Deixei a coisa fluir. Vacina. Peso. Altura. Angústias. Sonhos. Necessidades. Desejos. Até que me saí bem, sobretudo se considerarmos o meu nível de latim (amor, amore, amoribus).
Mas então aconteceu.
A médica, grávida de 39 semanas, perguntou se eu ainda amamentava. E se eu fazia cama compartilhada.
Sugeriu o desmame noturno. Questionei. Ela perguntou se eu estava feliz assim, acordando até 4 vezes na madrugada boladona. Sim, estou. Cansada, mas feliz. Ela disse, ok, então continue, e emendou, em algum momento da consulta, que mamar a toda hora parecia um "estilo de vida para ele" e que ele claramente me fazia de chupeta. Que faça! É assim que estamos felizes, principalmente em meio a todas as grandes mudanças por que passamos.
Veio então a cama compartilhada. Ela veio com o discurso ensaiado e eu só respondi: conheço os riscos. Ela foi bacana, não insistiu muito, apenas sugeriu graciosamente que colocássemos o colchão no chão. Já está, respondi. Está no chão porque perdemos uma trave de metal que sustenta o estrado, pensei. E nossa cama do colchão vagabundo está aqui, no chão, semi-montada, compartilhada por toda a família.
Ela também quis saber dos dentes, da alimentação, das vacinas (quis muito saber das vacinas) e do desenvolvimento. Respondi, crente que estava abafando. Até que a consulta, longa, minuciosa, já entrando tarde adentro, encaminhou-se para o fim. Arthur já dormindo atrelado ao peito, só de fraldinha (e lá fora fazendo 7 graus). Perguntou se eu tinha mais alguma dúvida. Tinha. Como explicar que tenho medo de Arthur fazer fimose? Bom, usei o método confuso de explicação, com gestos, palavras que não eram exatas para a situação, mas que funcionavam lindamente na metáfora e arrisquei: segurei na mão de Fernando Sabino e mandei o meu "limpar o esmegma". O rosto dela se iluminou: sim, sim, sim! Esmegma. Ela conhecia a palavra, entendeu toda minha encenação anterior e falou uma porção de coisas sobre o assunto. Compreendi metade, a outra metade começou a ficar confusa, perdida entre apitos e estrelinhas brilhantes e, por fim, eu compreendi. Não o que ela disse, mas que eu não estava entendendo patavinas do esmegma e da fimose porque eu estava... tchanã... desmaiando de fome.
Pausa dramática.
EU. ESTAVA. DESMAIANDO. DE. FOME.
Fazer o quê? A única coisa que me restava: olha, Dra. Rebecca, negócio é o seguinte. Quando fico muito tempo sem comer, e eu não esperava ter esta consulta, ser atendida tão rapidamente, eu desmaio. E é o que estou fazendo bem agora. Por acaso, assim, de repente, vocês teriam uma cafeteria, lanchonete ou mesmo máquina de refrigerante por aqui? Não, não tinha. Mas era meu dia de sorte, lembram? Inauguração da clínica. Havia um convescote na sala de reuniões. Bagels, batatinhas fritas, bolinhos, muffins. Um mundo de leite e manteiga para arruinar minha dieta APLV. Mas que remédio? Desmaiar a dez quadras de casa com um bebê de dezesseis meses no colo? Ganhei, feito mendiga, um bagel de alho, um muffin de mirtilo e um saco de batatinhas fritas. Arthur dormiu, tasquei no carrinho, e fui arrastando tudo: carrinho, Arthur, minha dignidade ferida e o bagel, que rolou no meio do estacionamento quando eu fui segurar a receita médica que o vento tentou levar.
Segurei a receita. Lamentei o bagel agora esmigalhado por uma roda. E li.
Phimosis.
Fimosis, minha gente!
É Fernando Sabino, mirei no esmegma, acertei na fimose, e voltei para casa com a certeza de que, na literatura, nada se perde, e muito me diverte.