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domingo, 1 de abril de 2018

É só um momento miserável

Arthur estava dormindo. Eu estava na cama, já quase tomando o mesmo destino quando me sobressaltei com um berro: MÃÃÃEEEEE!
Dei um pulo e em dois segundos estava ao lado dele, que estava visivelmente chateado, mau humorado mesmo.
- O que foi, filho? Quer água?
- Não! (Ainda muito chateado.)
- Quer fazer xixi?
- Não!
- Teve um pesadelo?
- Não, I'm just having a miserable time*.

E durma-se com um vocabulário desses!!

*Tradução: "eu só tô passando por um momento miserável".

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Nosso lindo balão azul 2

Há pouco tempo, estivemos novamente na casa de uns amigos queridos. Aqueles mesmos que nos receberam no dia do balão azul. A tal festa do balão azul tinha acontecido algumas boas semanas atrás e eu mal me lembrava do episódio, sobretudo com Arthur correndo para cima e para baixo, brincando horrores com o amigo aniversariante, querendo roubar os brigadeiros da mesa e todos os pães de queijo da bandeja - sim, festas com brigadeiros e pães de queijo! <3
Ou seja, eu nem me lembrei de toda aquela choradeira do balão e passei horas muito divertidas com o filhote.
Na hora de ir embora, Arthur cisma com o quê? O quê? Isso mesmo: um balão azul!
Como gato escaldado tem medo de água fria, peço autorização para a anfitriã, retiro o balão escolhido por Arthur e vou embora com o brinquedo, me certificando de que o dito cujo está bem seguro e não será, sob hipótese alguma, esquecido.
Faço isso, mas acho que Arthur nem se lembra do ocorrido, afinal ele estava sonolento, depois daquela noite/madrugada ele nunca mais tocou no assunto e tudo isso aconteceu há algum tempo já.
Ledo engano: assim que entramos no uber filhote se vira para mim e exclama, todo feliz: "que bom que dessa vez você não esqueceu o meu balão azul!"
Segura esse cometa!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O resgate oriental

Domingo de sol e todos no parque. Um festival de artes movimenta a cidade e parece que todo mundo está ali, na beira daquele laguinho artificial com patinhos nadadores.
Encontramos Lola, a menina fofa que corria com Arthur na aula de música. Conversamos um pouco, as crianças correm, tudo bem.
Lola vai embora e Arthur decide que quer ir ver os patinhos.
Lá na beira do laguinho tem pato e passarinho, e a brincadeira é correr na beirada, sobre o calçamento de pedras, para espantar as aves. O calçamento é estreito e de pedra, por isso, fico em pânico e vou junto. Falo 237854 vezes para ele parar de correr porque pode cair na água ou se estropiar nas pedras. Por 237854 vezes ele me ignora. E corre. E ri. E acha um barato arriscar cair na água cheia de cocô de pato.
Decido falar mais uma vez, porque sou mãe e recebi treinamento ainda na maternidade para efetuar repetições no nível "batendo recorde do Guiness Book".
Assim que termino de proferir o último fonema da advertência acontece aquilo!
Um oriental, que estava correndo junto a Arthur, brincando com ele de um pique-pega apavorante, usando uma mochila maior que seu corpinho de 3 anos, este menino resolve cuspir no laguinho artificial. Com os dois bracinhos jogados para trás em busca de equilíbrio, ele inclina o corpinho para a frente, vê o reflexo de seus lábios cuspindo na superfície do lago e, antes que até mesmo um pato consiga dizer "quém", cai de cara na água. Arthur continua correndo e pulando. A mãe da criança está em outro mundo, de costas para a cena, assistindo ao show de jazz que acontecia. Então, vendo o oriental ainda submerso naquela poça de concreto com pouco mais de dois palmos de profundidade, consigo me certificar de que Arthur não será o próximo a beber um drinque de cocô de pato e resgato o pequeno rapaz. Nos segundos que levei até alcançar o lugar onde ele caiu de cara na água, o menino conseguiu, sabe-se lá como, dar uma espécie de cambalhota e ficar de pé no lago. Por isso, quando chego, tudo o que faço é içar o garoto, ensopado e coberto de excrementos de pato, colocando-o de novo no calçamento de pedras. A mãe ainda está assistindo ao show, então fico com ele, olho para ter certeza de que está bem, sem cortes, machucados ou qualquer outro problema evidente. Ele parece bem. E só quando a mãe olha, finalmente, é quando ele começa a chorar. Assustado, provavelmente com frio. A mãe o conforta, o leva embora.
Sou parabenizada pela pequena multidão que estava acompanhando o show e viu tudo o que aconteceu.
Pego Arthur pela mão. Ele gargalha. Ri muito do oriental que mergulhou no laguinho. Se diverte de verdade. Eu sei que empatia não é o forte de crianças novinhas, mas como é de pequeno que se torce o pepino, tento falar que o menino chorou, que a gente não pode rir, mas não consigo, porque estou gargalhando junto com meu filho. Recebendo parabéns pelo resgate de pessoas que também gargalham. Indo contar, com o riso frouxo, a história para outros que assistiam de longe, e que também gargalham.
E assim, queridxs leitorxs, resgatei o oriental às gargalhadas - espero que uma ação neutralize a outra e eu fique com o karma zerado - e agora tenho um filho que não pode ouvir falar em cocô de pato sem ter um acesso de riso incontrolável.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O nosso lindo balão azul

Rio de Janeiro. Fim dos anos 1980.
Dentro do carro lotado, crianças amontoadas nos colos dos adultos - época em que cinto de segurança servia para a gente tropeçar quando entrava no banco de trás por uma das duas únicas portas existentes (carro de 4 portas era luxo! Eu me lembro que meu carro favorito era um Monza 4 portas. Achava lindo, achava chique, achava moderno) -, meu primo, que devia ter uns 3 ou 4 anos, chorava. E reclamava. E dizia, incessantemente "eu quero o meu nariiiiiiz".
O nariz em questão era uma lembrancinha da festa de onde acabáramos de sair. Um nariz de palhaço, daqueles de plástico. E ele, exausto, cheio de sono, inconformado porque o nariz estava guardado, passou o trajeto inteiro lamentando sua tristeza.

Chicago. 2016.
Entramos no Uber 4 portas e Arthur, depois de dar boa-noite ao motorista, pergunta "cadê o meu balão azul?".
O balão azul em questão era, de fato, um balão azul. Tínhamos acabado de sair de um aniversário na casa de uns amigos e o balão, no meio do processo não-quero-ir-para-casa-buáááá, ficou para trás. Entramos no carro com mochila, saco de papel recheado de gostosuras e Arthur. Nada de balão. Arthur, quase trinta anos depois do meu primo, foi fazendo uma nova edição do "eu quero o meu nariz" ao longo de toooooodo o trajeto. Cochilava, acordava, pedia o balão. Chorava, se acalmava, dormia. Acordava, chorava, queria o balão azul. Soluçava, relaxava e dormia. Trinta quilômetros e um engarrafamento do Lollapalooza depois, chegamos em casa com ele, enfim, sem som e sem imagem.
Colocamos o rapaz na cama, certos de que, depois de um dia imenso e exaustivo, Arthur dormiria pesado até meio-dia do dia seguinte e fomos nos deitar também.
Uma da manhã ele acorda chorando. Eu quero o balão azul.
Negociamos, conversamos, ponderamos e fazemos um acordo: quando o sol chegar, vamos comprar um lindo balão azul. Ele dorme, nós dormimos, até que, duas e meia da manhã, ouço um choro sentido e a indefectível frase "eu quero o meu balão azul!". Olha, cuidado mesmo com o que vocês fazem com a filharada por aí, porque essa coisa de inconsciente é real e incansável. Das profundezas do império do sono vem o desejo sublimado e, aí, salve-se quem puder, meu povo!
A essa altura, mais nada adiantava: nem conversa, nem promessa, nem abraço. Nada!
Até que marido (já disse que ele é gênio?) pega o telefone no meio da madrugada e anuncia: vou ligar para a Letícia! Arthur para de chorar, pisca os olhinhos molhados, dá três soluços para recuperar o fôlego e para, enfim, de repetir seu mote das últimas três horas e meia. Presta atenção. Marido faz o teatro completo, digno de Oscar: disca, coloca o celular na orelha, conversa, com direito a pausas dramáticas e muita função fática. Combina com Letícia que ela vai guardar o balão e que amanhã iremos todos buscá-lo. Claro, obrigada, beijos, até amanhã.
Arthur pisca os olhinhos sonados, suspira e, então, aceita. Dormimos todos, pegando carona nessa cauda de cometa que, a julgar pela reedição dos anos 1980, deve ser o Halley.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Entrevista com Arthur

Está rolando na internet uma brincadeira muito fofinha, que consiste em uma série de perguntas feitas às crianças e suas respostas espontâneas e muitas vezes engraçadas. Entrevistas são maneiras dinâmicas e divertidas de fazer um registro do momento de vida e podem render muitas surpresas. É bacana também repetir a entrevista algum tempo depois, para ver o que mudou, o que permaneceu e como sxx filhx vê o mundo.
Não resisti e fiz com Arthur.

Qual seu nome?
Começa com A. Arthur.

Quantos anos você tem?
4.

Quando é o seu aniversário?
Foi outro dia.

Quantos anos tem o papai?
Não sei.

Quantos anos tem a mamãe?
Não sei.

Qual sua cor favorita?
Azul.

Qual sua comida favorita?
Macarrão.

Quem é o seu melhor amigo?
Foster!

Qual seu programa favorito?
Todos.

Qual sua música favorita?
Arca [de Noé, do Vinicius de Moraes].

Qual seu animal favorito?
Cachorro.

Onde você mais gosta de ir?
Children's Museum [tipo um parque indoor aqui em Chicago].

O que você quer ser quando crescer?
Um papai.

O que a mamãe mais gosta de fazer?
Me abraçar.

O que o papai mais gosta de fazer?
Brincar.

Do que você mais gosta de brincar?
Star Wars.


E vocês, já fizeram com os filhos de vocês? Que outras perguntas fariam?

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Arthur e o esmalte

Eu não uso esmalte. A última vez que fiz minha unha deve ter sido no meu casamento, não me lembro. Então, Arthur nunca me vê de unhas pintadas.
Acontece que essa semana me deu vontade de pintar as unhas de dourado. Saí, catei as moedas no fundo da bolsa e comprei um esmalte e um batom. Batom eu uso de vez em quando, logo não causou muita sensação - embora ele tenha ficado hipnotizado quando passei pela primeira vez esta nova cor, além de ter perguntado por que eu tinha colocado aquilo na boca. O esmalte, porém, era novidade absoluta. Pintei as unhas e mostrei para ele.
- Mamãe, o que é isso?
- Esmalte, filho. Tipo uma tinta para as unhas.
- Por que você fez isso?
- Porque achei que ia ser divertido ter unhas coloridas. Gostou?
- Não. [Ah, a sinceridade infantil!] Você pode lavar a mão e tirar?
- Não, filho. Eu vou ficar assim porque eu estou gostando.
- Vai ficar assim para sempre?
- Ah, não. Quando eu quiser, posso tirar.
- E aí?
- E aí eu posso ficar sem ou usar uma cor nova. Eu posso pintar com qualquer cor!
- Azul?
- Até azul.
- Oba!

Acho que vocês já conseguem adivinhar qual vai ser a próxima cor do meu esmalte.
;)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O rolo do rolo

Arthur me pediu leite. Aqui, ele vem em galão, pesado, difícil de manobrar e jarro com leite na geladeira dá aquele gostinho, né? Então dona Maria que me desculpe, mas nada de Montessori para pegar leite aqui em casa. Fui lá eu.
Arthur resolveu fazer xixi. Fez. Deu descarga. E de novo.
Opa! Duas descargas?
O alerta "deu ruim" começou a tocar e perguntei, com a voz doce, tentando administrar o leite e a calma ao mesmo tempo:
- Filhinho, tudo bem? O que aconteceu?
- Nada, mamãe. Caiu um papel no vaso e eu dei a descarga.
- Ah, tá bom. Então lava a mão e vem buscar seu leite.
Alguns minutos depois derrubei um pouco de café no chão e limpei com papel toalha. Cansada, pensei: ah, vou jogar no vaso mesmo, tá tão mais perto que a lixeira. Joguei.
Noé deve ter sentido a mesma angústia que senti vendo aquela enchente de água de privada se aproximando da borda do vaso. A diferença era que Noé sabia o que estava acontecendo porque deus avisou e quando tudo passou, ele não precisou pegar pano nenhum para limpar água de privada. Portanto, pensando bem, talvez eu tenha ficado mais nervosa e angustiada que Noé.
Felizmente, não transbordou, mas não restava qualquer dúvida de que o vaso estava entupido.
Ora, por mais que a tubulação aqui seja velha, uns pedaços de papel toalha não causam este estrago todo. Foi quando me lembrei das duas descargas que ouvi.
- Filho, lembra quando caiu o papel no vaso?
- Lembro.
- Que papel era esse?
Ele pega um dos milhares rolos vazios de papel higiênico que guardo para fazer brinquedinho reciclado.
- Aqui, ó.
Cogitei chorar. Cogitei fugir. Amaldiçoei minha vocação crafter.
Mas a água ainda fluía, por isso apenas pensei que papel se dissolve na água, né? Era, portanto, tudo uma questão de tempo.
Só que dois dias depois as coisas não iam mais bem. O papelão do rolo não se dissolvia e as muitas descargas que dei na esperança de fazer descer o cilindro, na verdade, devem tê-lo girado, e a água passou a não mais descer. Ou melhor, descia a proporções nanométricas. E paciência tem limite, sobretudo quando estamos falando do único vaso da casa.
Fui a uma loja de ferramentas e utilidades domésticas. O vendedor da loja acabou com as minhas esperanças de comprar uma coisa tipo o bom e velho diabo verde. Mas this is USA, minha gente, e não há problema, real ou inventado, crônico ou agudo que não tenha uma invenção revolucionária para exterminá-lo. O moço, então, me puxou para outro corredor da loja, apontou uma parafernalha estranha e me jurou de pés juntos que uma geringonça que parecia a mistura de uma vara de pescar com manivela para desenrolar cortina de estabelecimento comercial era o que eu precisava. Não tinha muita alternativa a não ser acreditar naquilo.
Voltei com o trambolho na mão, depois de um dia intenso, com direito a compras de supermercado e devolução de livros na biblioteca. Tudo que eu não queria era labutar no vaso. Mas fui eu lá, labutar, lá botar a geringonça no vaso.
Olhei descrente para a vareta. Arthur fez o mesmo. Perguntei:
- Será que vai funcionar, filho?
- Quero ajudar mamãe!
O troço tem uma mola meio brocha que sai de um tubo ligado a uma manivela que não entendi para o que servia. Um mistério que nem a tarja com instruções resolveu. Evoquei a lembrança do vendedor me explicando como deveria usar o aparelho e decidi arriscar. Primeira tentativa e eu achei que nada aconteceu. Nível de água nojenta preservado. Empurrei o cabo e dei uma girada discreta na manivela. Nada. Mais força, Arthur tentando me ajudar, eu tentando preservar meu filho da queda que parecia inevitável naquela água radioativa, mais força, filhinho chega mais para cá, até que... POFT! Funcionou. A água escoou. Puxei a descarga e, sim, o rolo desceu, que alegria! que júbilo!
Virei para Arthur:
- Ah, meu filho, olha, funcionou - dizia eu, visivelmente emocionada, como se o vaso tivesse cantado lindas músicas na festinha de dia das mães para mim.
Ao que meu rebento, igualmente animado, responde:
- Oba, mamãe! Agora eu posso jogar outro rolo lá dentro, porque o aparelho funciona!

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Fuéééém

Era uma festa diferente. A comemoração estava marcada para acontecer em uma loja-ateliê aqui perto. A aniversariamente era apenas um nome para mim.
Compramos presente, colocamos roupa bonita, até passei perfume! 
Tudo estava correndo dentro dos conformes de normalidade social: nada de bolo na cara do amiguinho, nada de arremesso de argila no teto (sim, era um ateliê de peças de cerâmica e a brincadeira era colocar as crianças para fazer uma tigela). Tudo tranquilo, tudo favorável.
Claro que meu filho era o único a correr por ali. Óbvio que ele foi o único que preferiu esculpir um dinossauro de argila a fazer o que o dono do ateliê nos instruiu a fazer. É evidente que ele começou a cantar BEM ALTO o parabéns porque queria comer logo o bolo. Mas, sinceramente, nada assombroso ou altamente vexatório. Vida que segue e ainda bem que a festa só dura uma hora e meia.
Bom, depois do lanche e do parabéns, estando todas as crianças devidamente munidas de tédio + cornetas e chapéus comemorativos + bastante açúcar no sangue, começou uma pequena algazarra. Não havia correria e nem gritos histéricos, mas "calmas" não era uma definição boa para aquelas crianças.
Arthur, então, resolveu ir interagir com a aniversariante. Eles se davam surpreendentemente bem (surpreendente porque a menina não é muito citada aqui em casa quando pergunto como foi a escola). Eles têm o mesmo nível de energia e potencial de fazer bobagens. Estava lindo.
Foi quando eu vi.
Eu me levantei do banquinho, calça toda suja de barro em seus diversos estados (a saber: sólido, semisólido, líquido e poeira), tentando chegar antes que Arthur começasse a interagir com a MÃE da aniversariante. Acontece que os traquinas estavam todos fartos e zanzavam, os pais ao encalço para evitarem tragédias com as peças delicadas, e, então, não consegui nada além de assistir de longe a interação.
A moça foi chegando perto do Arthur, falando: 
- Noooooossa, mas que olhos bonitos que você...
FUÉÉÉÉÉÉÉM
Arthur deu-lhe uma cornetada na fuça. A moça ganhou distância e tentou mais uma vez elogiar o meu rebento munido de corneta, mas desistiu a tempo e eu só cheguei, pateticamente, para falar:
- Filhinho, espaço pessoal, lembra?

Voltei para casa com a sensação de ter saído de uma rave, mas acho que entre mortos e feridos, salvaram-se todos.

segunda-feira, 18 de abril de 2016

O apresentável

Arthur teve um dia intenso. O primeiro de sol a pino depois de muito tempo de chuvas e tempo nublado. Com isso, fez o que raramente faz: tirou uma soneca de tarde.
Acontece que tínhamos um compromisso, eu e marido, e sem babá ou família a única opção que temos, se quisermos ir a algum lugar ou comparecer a algum evento, é levar o pequeno conosco.
Acordei Arthur. O sono era forte, ele mal abria o olho, mas disse que queria ir (dei a opção, lógico, de ele ficar em casa comigo). Se quer ir, então vamos!
Na sala, lutava para manter as pálpebras abertas. Foi quando resolvi dar uma forcinha:
- Filho, vamos. O papai está doido para apresentar você aos amigos dele!
- Ah, mamãe. Eu não sou uma pessoa fácil de apresentar.
- Não? Por quê?
- Porque eu tenho a very long name*.


*Porque eu tenho um nome muito comprido. E é verdade. Arthur tem o nome + 4 sobrenomes, o que nos EUA é tipo ser verde com bolinhas roxas.

quarta-feira, 30 de março de 2016

Que syrup é esse?

Era meu dia de ficar na cama até mais tarde. Marido, portanto, acordou e foi preparar o café da manhã. Só que fiquei naquele estágio entre o sono e o despertar, ouvindo o amanhecer dos dois. Ora dormia e sonhava, ora acordava e escutava conversas e barulhinhos matutinos, feito café sendo coado e talheres batendo de leve no prato.
Até que Arthur pergunta:
- Papai, que syrup é esse?
Aquilo entrou nas profundezas dos meus devaneios sonolentos e eu sabia que havia alguma coisa se debatendo debaixo da superfície idílica, alguma coisa que queria sair, que precisava sair. Syrup? Será que meu cérebro está preocupado com troca de códigos linguísticos a esta hora da manhã? Não pode ser. Será que estou em um estado tal de estresse que preciso controlar tudo o que acontece mesmo que eu saiba que tudo está bem e todos estão em segurança? Será que estou pensando na lista de compras quando deveria estar sonhando com massagens e piña-coladas à beira-mar? Será que eu sei de alguma coisa que eles também precisam saber?
SIM!
- Ei - gritei eu das fossas abissais de meu torpor sonolento -, isso aí não é xarope de bordo! Vocês estão colocando azeite temperado com alho na panqueca!

Lição do dia: se for reciclar potinhos de vidro, escreva bem grande no rótulo qual a NOVA substância que está ali dentro.

terça-feira, 29 de março de 2016

Ele é sempre assim?

É uma das frases que eu mais ouço. E eu nem sei por quê. Minhas olheiras deveriam bastar. Mas não bastam, e eu respondo pelo menos uma vez por dia: é, ele é sempre assim.

Um bólido, um dínamo, um ás, um foguete. Zuuuuuuum. Corre, pula, rola, grita, quer tudo agora, quer tudo rápido. Zuuuuuuuuuum. Já foi, não pode tirar o olho um segundo, caiu, levantou, tá lá de novo, já passou.

Ele é sempre assim?

Sempre. Mas não vai ser assim para sempre.
Vai crescer. Vai parar de correr, vai parar de rolar, vai se interessar por outras energias, outras maneiras de explorar o mundo. Pode ser que continue indômito. Pode ser que se transforme. Podem ser tantas coisas, que agora eu prefiro ficar com ele, do jeitinho que ele está, sem tirar nem pôr esses quatro anos que vêm chegando a passos largos: no rosto, no corpo, no cérebro. Quatro anos e ainda cabe no meu colo, embora pareça, cada vez mais, transbordar do meu coração.

sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Chegamos!

A biblioteca pública daqui é ótima. Especialmente durante o inverno, quando as opções de lazer passar a ficar mais restritas devido ao clima. É, portanto, um dos nossos passeios favoritos e vamos lá pelo menos duas vezes na semana.
Ontem fomos.
Logo na entrada eu ouvi uma moça falar "Ali na máquina, filha", em português. Era a minha xará, brasileira, que conheci lá mesmo, na biblioteca. Uma fofa. As filhas (são duas) também. Conversamos um pouco, mas Arthur quis brincar de alguma coisa. Ele mesmo, sozinho, deu boa tarde aos bibliotecários que estavam ali, explicou o que queria e escolheu o brinquedo. Aqui, a gente "aluga" uns jogos e brinquedos para usar dentro da biblioteca. Conversei um pouco com os funcionários, todos muito simpáticos, e perguntamos uns aos outros sobre coisas do dia a dia: "melhorou da gripe?" ou "e esse frio?!" ou "planos para o fim de semana?". Conversas comezinhas. Nada especial. Mas Arthur quis ir logo jogar o jogo que escolheu.
Era Monopólio. A gente joga free style, porque ele é muito novo para aquele tanto de regra. Isso significa que a gente escolhe os bonequinhos, roda o dado e fica andando no tabuleiro, pega o quanto quiser de dinheiro (que escolhemos pela cor, não pelo valor), coloca casinhas quando e onde quer, vaipara a cadeira a cada rodada (Arthur acha muito engraçado, embora não entenda por que tem uma cadeia se é um jogo de casinha. "Mamãe, mas quem é o ladrão? O que ele fez?", pergunta ele todas as vezes). Basicamente, a gente faz o que quer, quando quer.
Então estávamos no meio do jogo quando chegaram Finn e Colin. O Finn tem pouco mais de um ano e é filho do Colin, marido de uma colega de trabalho do marido. São ótimos, os três, e papeamos um pouco, marcamos um play date para os meninos e logo o pequeno Finn ficou com fome, fazendo gestos (ele usa a linguagem de sinais para bebês para se comunicar. Um fofo!), e eles se foram.
Guardamos o jogo e quando nos levantamos para devolvê-lo à mesa dos bibliotecários, onde ele fica, encontramos no caminho nosso ex-vizinho. Antes de se mudar para cá aquele meu vizinho que morreu, vivia uma família aqui embaixo. O menino é bem mais velho que Arthur, deve ter uns 8 anos, então eles não interagem muito. Mas os pais são muito simpáticos e o ex-vizinho veio perguntar do zica e conversamos longamente sobre zica, dengue e malária.
Arthur, entediado, saiu correndo e eu fui atrás, pedindo desculpas, toda enrolada.
Encontrei meu filhote sentado em um dos computadores. A seu lado, Vidhya, uma amiguinha fofa da sala dele. Eles ficaram quietinhos, interagindo com um joguinho de palavras/histórias que ela estava vendo/brincando, e eu conversei com a babá. O irmãozinho da Vidhya é um bebê redondo e sorridente e foi bem difícil me concentrar na conversa com aquele ser todo simpático para cima de mim.
Já tinha enfiado gorro, luvas e casaco no Arthur quando chegou meu próprio marido.
Então eu me dei conta de que, enfim, chegamos aqui. Chegamos na comunidade. Chegamos na nossa vida. Chegamos a um ponto em que conversamos, conhecemos e reconhecemos as pessoas, sabemos coisas sobre suas vidas e nos preocupamos com elas e elas conosco. Chegamos ao momento em que o coração se divide: amigos aqui, amigos lá. E vocês sabem, em coração dividido cabe mais amor. Então eu acho que está bom. Muito bom.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Vieram todos escada abaixo. Eu ia reconhecendo os rostos, procurando o do meu filho. Vieram todos. Menos ele.
Mais de cinco minutos depois, vem ele, ao lado da professora, que me vê e revira os olhos, embora o sorriso denuncie que é um revirar de olhos brincalhão.
Eu pergunto: "Aconteceu alguma coisa?"
E ela responde: "Não. Ele só ficou fazendo gracinhas para os amigos, que riam muito, então não se arrumou a tempo para descer."
"Sei bem como é", disse eu.

E saí feliz por ter um filho que se atrasa porque se distraiu com as brincadeiras.
<3

domingo, 24 de janeiro de 2016

Golden Retriever

Ele é um fofo, um verdadeiro amorzinho, mas ao mesmo tempo, uma peste! Corre, pisa nas poças geladas de lama espalhando sujeira para todos os lados, dispara pela calçada mesmo que eu diga "não!" diversas vezes e, principalmente, carrega para casa toda a sorte de coisas achadas na rua. Gravetos, pinhas, pedras, pedrinhas e pedregulhos, galhos inteiros com ou sem folhas ou só as folhas.
A última que aprontou foi achar um galho imeeenso, com uma forquilha na ponta, tão pesado que mal consegue erguê-lo, carregá-lo consigo a despeito de minhas argumentações contrárias e dizer que era seu "snow plow". Não joga fora de jeito nenhum e agora eu carrego, carrinho, criança e um pedaço considerável de árvore. Às vezes ele arrasta o galho na frente do corpo, segurando-o pela forquilha, e vai limpando toda a neve pela frente. Ao menos toda a que o galho consegue arrastar. Depois se cansa e entrega a madeira a mim, que preciso guardá-la, ai de mim se jogo fora!
E assim, caros leitorxs, concluo que pari Arthur, um golden retriever.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Tutorial para fazer seu filho comer o que tem à mesa

1. More em um lugar frio. Bem frio. Beeeeeem frio.
2. Saia com ele de tarde, enfrentando temperaturas próximas a -25C, com ventos fortes e rascantes que entram pela única parte desnuda do corpo (a saber, os olhos).
3. Chegue em casa e ofereça o jantar de sempre, o qual ele prontamente irá recusar com esgares e comentários mil.
4. Acate. Diga "ok, não precisa comer _____ [insira aqui o alimento ou prato disponível]. Vamos, então, nos vestir para ir ao supermercado comprar o que você quiser."
5. Sente-se à mesa com seu filho de apetite revigorado e assista a ele raspar o prato feliz.

Fim

sábado, 16 de janeiro de 2016

Maioridade?

- Arthur, meu filho, amanhã você vai fazer 3 anos e 7 meses!
- Obaaaaa, e eu vou poder sair sozinho!

o.O

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Gracinhas bilíngues

No meio da noite, Arthur acorda.
- Mamãe, cadê os policiais?
- Não tem policial nenhum aqui, filho. Só o papai e a mamãe.
- Ah, então foi só um dream?

*

- Mamãe, vamos brincar?
- Vamos.
[brinca, brinca, brinca, até que lá pelas tantas]
- Oba! We did it! Ele está sound and safe!

(de onde esse menino tirou uma expressão idiomática dessas?)

*

Na volta da escola, conversamos:
- Arthur, como foi seu dia?
- Bom.
-Você brincou com quem?
- Com o Ethan.
- Ah, o Ethan.
- Não, mamãe. Não é íítan. É Ethan.
- Tá. Íííthan.
- Não. Ethan.
- Ííítaaaaan.
- Não. Ethan.

(E assim fomos por dois quarteirões inteiros.)

domingo, 11 de outubro de 2015

Eva!

Era hora do jantar e marido foi para a cozinha preparar seu prato enquanto eu e Arthur ficávamos na sala, já comendo. E então...

PLOFT, PLEM! [bem alto]

E marido:

– MERDA! [bem alto também]

E Arthur, que nunca ouve palavrão porque aqui em casa decidimos não falar na frente dele, vira-se, perplexo:

– Mamãe, quem é Eva?

Eis a corrupção original, só que desta vez protagonizada pelo homem.

quarta-feira, 30 de setembro de 2015

A árvore de Paulos

Pela rua outonal, conversávamos.
Arthur perguntou quem era o meu tio e, ali, no meio da rua, vi nascer o rizoma de uma árvore nova. A árvore dos Paulos. A árvore genealógica do meu filho.

- Meu tio, filho, é o Paulinho.
- O papai do meu papai?
- Não, filho. O papai do seu papai é seu avô. Ele também se chama Paulo, mas não é o meu tio. Meu tio é o Paulo, irmão da sua vovó.
- E o papai do meu papai?
- É Paulo, você tem razão. Mas é outro Paulo.

Fui explicar melhor. Tola, eu.

- Filho, assim como existem outros meninos chamados Arthur no mundo, existem muitas pessoas com nomes iguais. Tipo Paulo. Por exemplo, meu tio e seu avô se chamam Paulo. Assim como o meu avô e o avô do papai.
- O seu avô é o papai do meu papai?
- Não, meu amor. Eles se chamam Paulo, mas o meu avô não é o papai do papai. O papai do papai é o seu avô. E ele se chama Paulo, assim como o meu avô e o avô do papai.
- O avô do meu avô se chama Paulo?
- Não. Calma, vou explicar. O avô e o tio da mamãe se chamam Paulo. Que é o mesmo nome do avô, do pai e do irmão do seu papai.
- Ah, não, o irmão do meu papai não é Paulo, é Zé!
- É, filho, você tem razão. Mas é porque o nome dele é Paulo José, então a gente chama ele de Zé. Acontece que o nome dele é Paulo também.
- Paulo?
- É, meu querido, Paulo. Seu avô, o meu avô, o avô do papai, o tio da mamãe, o seu tio, todo mundo se chama Paulo e... ih, olha lá um esquilinho.

O esquilinho também estava muito espantado com aquela imensa árvore de Paulos.

quinta-feira, 30 de abril de 2015

Nunca sozinho

No fim de tarde de um dia de primavera, passeávamos em um jardim. Todo mundo com frio, mas feliz. Até que Arthur decide colocar em prática toda sua independência de toddler e desvia-se do caminho que percorríamos. Ele queria ir para o outro lado, pelo simples prazer de fazer diferente, de desafiar os pais.
Deixamos.
Ele ia para um lado e nós para o outro. Dando tchauzinho, lá ia meu pequeno, seguindo a distância um moço de ushanka marrom e sobretudo escuro. Nós, marido e eu, do outro lado.
De repente, Arthur percebeu que não iríamos atrás dele, como costumamos fazer. Claro. O parque era seguro, os caminhos se encontrariam obrigatoriamente mais à frente, não havia por que seguir ele. Então, filhote parou. Gritou "não". E veio correndo na nossa direção. Marido foi quem o encontrou no meio do trajeto entre lá e cá e o abraçou.
Então, abraçadinho ao pai, Arthur fala:
- Não quero ficar sem a minha família. Nunca, nunca, nunca quero ficar sozinho.