Mostrando postagens com marcador lar selvagem lar. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador lar selvagem lar. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 27 de agosto de 2019

O dia em que eu perdi uma batata

Estou tentando escrever este texto já tem uma semana.
Minha vida está caótica.
Administro uma criança de 7 anos de férias (3 meses), um bebê de 8 meses que coloca tudo na boca e já começou a se deslocar (não engatinha, mas quase), um apartamento com todas as suas necessidades (limpar, cozinhar, guardar, lavar, abastecer...), um casamento, uma carreira a distância (muito mais difícil, já que manter contato de longe é complicado), projetos pessoais e profissionais e, no topo disso, minha sanidade. Minha sanidade precisa de: livros, hobbies, banho, exercício físico e meditação. Minha sanidade precisa de muito, porque além de ser muito exigida, já sei que retomar o prumo é infinitamente pior que manter o eixo.
Pois bem, no meio disso tudo meu bebê começou a comer sólidos. E agora, quando vou ao mercado ou cozinho, preciso ter em mente este novo fato.
Semana passada abri a geladeira e tomei um golpe de ar: não havia nada dentro. Comecei a saga "ida ao mercado".
Lembram que há muito tempo contei como era ir ao mercado com Arthur? (Cata lá nos arquivos, que eu vou ser realista: não vou conseguir colocar o link.) Pois ir ao mercado com Arthur + Gael não ficou exatamente mais fácil.
Primeiro preciso fazer uma lista (de compras), depois outra lista (de coisas que vão na mochila comigo), depois outra lista (roupas que preciso separar para todos aqui se vestirem) e, quando já estou exausta de arrumar tudo e de tentar convencer Arthur a sair de casa, é hora de sair.
Eu saio de carrinho, mas levo o ergobaby porque geralmente Gael chora na volta e eu preciso carregá-lo. Eu saio fazendo mil papagaiadas para distrair Arthur. Eu saio já doida para voltar. E é por isso que, ao pisar no mercado, minha mente está focada em uma e apenas uma coisa :pegar tudo rápido e ir embora o mais rápido possível.
Outro dia marido ficou chocado comigo. Fomos juntos fazer as compras e, enquanto ele pegava uma dúzia de ovos e um potinho de morangos, eu já estava na boca do caixa com absolutamente todos os outros itens da lista + uma barra de chocolate extra. Acho que levei 2 minutos para resolver tudo.
Bom, então semana passada fui ao mercado, determinada a sofrer, digo, passar o menor tempo possível na missão compras. Em poucos minutos tinha resolvido tudo, pegado todos os itens, inclusive uma batata, que viraria um purê para dar para Gael.
Geralmente não compro batata porque 1) Arthur não gosta; 2) dá um trabalho do cão esfregar a casca para limpar a terra (batata aqui vem suja, você que limpe). Mas nesse dia estava determinada a fazer o tal purê.
Cheguei em casa, ainda na vibração purê, comecei a guardar tudo, organizar a cozinha para preparar o jantar e dar sequência à rotina de todos os dias.
Eu não sei vocês, mas eu cozinho assim: corre na sala para ver o bebê, briga com o mais velho porque está apertando o bebê, volta e liga o fogo, vai ver o mais velho pulando do lado do bebê, quebra dois ovos, quase joga os ovos no mais velho ou no bebê, corre para diminuir o fogo e mexer, vai pegar o bebê no colo porque chorou, desliga o fogo para não ter acidente com o bebê no colo e vai lavar louça com uma mão só, briga com o mais velho que não é hora de comer nada antes do jantar, aceita o argumento de que pepino antes do jantar pode, coloca o bebê em frente à porta da cozinha, liga o fogo, grita "outro pepino não!" e se pergunta quando virou essa adulta que grita essas frases sem sentido, tira o livro que estava lendo da boca do bebê, queima o omelete, faz o prato, pega o bebê que chorou, diz "não, chega de pepino" para o mais velho, que também chora, coloca o ergo, coloca o bebê no ergo, consola o mais velho, pede ajuda, descobre que o mais velho pegou os talheres mas parou no meio do caminho para ler revistinha e os talheres estão no chão, pega os talheres, lava os talheres, coloca o prato no micro-ondas, esquece os talheres, grita três vezes antes de ser ouvida pelo mais velho, que largou a revistinha e espalhou 457 cartas de Pokémon no chão, pisa em três cartas e num macarrão velho que não sabe de onde veio, senta, esqueceu o copo de água, volta e o mais velho tá comendo com a mão e o bebê jogou o brócolis no chão... E por aí vai.
Acho que vocês captaram a ideia.
Pois bem, nesse dia eu peguei o raio da batata e comecei a esfregar quando o caos se restabeleceu (não vou falar que ele se instaurou porque pode dar a vocês a ideia errada de que o caos não é o padrão, e sabemos que isso não é verdade). Fui acudir alguma urgência e larguei a batata lá. Que rolou quando peguei o prato para lavar e preparar o jantar. Que rolou de novo quando decidi dar outra coisa para Gael naquele dia porque já estava tarde para preparar o purê. Que se escondeu entre a louça por lavar e, finalmente, se escafedeu.
Não temos triturador de lixo acoplado ao ralo. Marido não se lembra de ter jogado a batata fora. Arthur não mexeu na pia. Eu não guardei batata alguma. Para falar a verdade, só me lembrei dela no dia seguinte, perto do almoço, quando a ideia do purê voltou a me atiçar. Mas aí já era tarde, a batata já se tinha perdido. E, como até hoje eu não sei que fim levou a batata, só posso concluir que, não, ainda não venci! Seguirei na luta diária.

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Começo do segundo trimestre

Semana passada, pela primeira vez, minha gravidez foi notada sem que eu precisasse contar. Fui levar Arthur para o espaço infantil do clube que frequentamos e a moça que o recebeu logo notou minha barriga e perguntou "tem novidade aí, é?". E eu, toda orgulhosa, mostrei a mini pança, contei da data prevista para o parto, dos enjoos e tudo mais.
Hoje estou completando 19 semanas e depois de amanhã faço a ultra morfológica do segundo trimestre. Descobriremos, se o bebê cooperar, se vem outro menino (o que acho que sim) ou uma menina.
Os enjoos não foram embora. Sobretudo a partir do fim da tarde me sinto bastante enjoada, com um mal estar que mistura arrotos constantes, enjoo, sensação de estômago cheio seguida logo a seguir por aquele enjoo característico de estômago vazio. Sinto bastantes fisgadas no pé da barriga e tem uns 3 ou 4 dias que eu tive contrações doloridas (mas foi depois de segurar o xixi enquanto o banheiro estava ocupado). Além do mais, comecei tem uns 2 ou 3 dias com uma novidade nada legal: dores no lado esquerdo do corpo, sobretudo ombro e punho. Suspeito que isso esteja acontecendo por causa dos hormônios da gravidez, mas também porque comecei a sentir falta de ar e, geralmente, só consigo dormir deitada sobre o lado esquerdo.
O bebê hoje teve soluços. A coisa mais lindinha do mundo! <3
E ele ou ela se mexe muito, muito, muito de noite.
No sábado, comecei a frequentar um grupo sobre administração do estresse durante a gravidez. É interessante e estou adorando praticar o espanhol. O grupo é em espanhol. Eu entendo absolutamente tudo que elas falam, mas ainda sofro para falar. Na minha cabeça se misturam o inglês, o espanhol e o francês, e tem horas que eu solto umas frases bem loucas, com todas essas línguas misturadas.
Tenho me sentido muito cansada também. E a rotina aqui em casa está puxada.
Marido viajou e, embora minha mãe esteja aqui, tudo da casa e do Arthur sobra para mim. Minha mãe está doente, então além de cuidar dela, me vejo sem grande ajuda efetiva, já que sua contribuição tem sido brincar com Arthur (isso é realmente ótimo para mim) e lavar a louça. Mas nem posso reclamar. Sem ela, estaria tudo muito mais difícil, porque quando preciso ir ao mercado ou outro lugar, deixo Arthur com ela e resolvo tudo rapidinho na rua.
Ansiosa pela ultra. Animada com esse bebê pulante.
Que as próximas semanas venham suaves e saudáveis.

(esse foi de julho. vamos conseguir sincronizar!)

sábado, 10 de março de 2018

Porque a vida está fácil...

Marido foi viajar a trabalho. Nem foi para longe, mas foi. Com isso, na quinta, véspera da viagem, ele foi buscar o pequeno na escola (geralmente eu que busco). Chegaram em casa quarenta minutos depois, o que é normal, porque sempre rola aquela brincadeira no parquinho, aquela caminhada devagar, catando pedrinhas e gravetos. Chegaram com uma sacola e Arthur com cara de safado, falando frases tipo: "a gente não comprou nada, tá?" (e "baixinho" para o pai: "não conta pra ela!"). Entrei na brincadeira, olhando de soslaio a sacola plástica na mão do marido. "Ah, não compraram? Tudo bem."
Era a mesma sacola do restaurante japonês, então meu estômago já dava pulinhos de alegria.
Marido, então, pede: "Ártemis, olha a mochila do Arthur."
A mochila pesa mais de 2kg, o que é surreal, pois ele saiu de casa só com o tênis lá dentro.
Abro.
Em uma fração de segundos processo tudo que está ali dentro. Não é sushi. Nem sashimi. Um saco. Cheio de pedrinhas. Pedrinhas cor-de-rosa e lilás. Pedrinhas que eu conheço bem.
Porque a vida está bem fácil, comigo trabalhando com três clientes ao mesmo tempo, marido na fase mais difícil do trabalho dele, com viagens, compromissos e palestras, Arthur demandando aquela atenção que um menino esperto de 5 anos demanda, a casa, as coisas da casa, a vida no Brasil e as pessoas no Brasil, porque tudo isso estava fácil demais, marido comprou um peixe!
Agora temos um peixe no quarto do Arthur. Ele nada em um aquário de pedrinhas cor-de-rosa e lilás e em meio a uma planta de plástico cafona nas mesmas cores das pedrinhas. Ele é vermelho e se chama Pinky. A nova cor favorita do Arthur é rosa, acho que já deu para notar, né?
Arthur está encantado.
No dia que o peixe chegou, notamos que a loja esqueceu de colocar a comida no kit do aquário. Por isso, precisamos sair de novo para estrearmos a vida a quatro em grande estilo (ou seja, sem matar o peixe e traumatizar a criança para sempre). Arthur começou a chorar, sentido.
"Mamãe, o peixe vai ficar sozinho? Ele acabou de chegar aqui, não conhece a casa, não sabe quem somos, não sabe que a gente vai cuidar dele. Ele vai achar que está sozinho, abandonado!"
"Meu filho, não vai. Ele sabe que chegou aqui, ele vai ficar bem. Vamos lá antes que a loja feche."
"Não! Ele vai ficar sozinho, tadinho!"
E chorou. E chorou.
Aí chamei filhote para o colo, abracei e sugeri:
"Por que você não vai lá e explica para ele? Assim ele vai saber que a gente vai e a gente volta, vai saber que fomos só buscar comidinha para ele!"
Ele foi. E falou, contou tudo. Quando achei que, enfim, ele sairia comigo, Arthur deu meia-volta e, por sobre o ombro, explicou:
"Ele não vai entender! Eu falei em português com ele!"
E repetiu tudo, tintim por tintim, em inglês.

O peixe está aqui e, brincadeiras à parte, não dá muito trabalho, não. É só dar comida diariamente e trocar a água a cada 1 ou 2 semanas. Quero dizer. Isso e, é claro, todas as noites precisamos dar beijinhos de boa noite no vidro, todas as vezes que vamos sair temos de explicar onde vamos, quando voltamos, quanto tempo ele vai ficar sozinho... Mas pelo menos agora, ao que parece, o peixe já aprendeu o português.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O cano - episódio final

Então, no dia seguinte àquela postagem, o bombeiro hidráulico veio aqui. Simpático, trabalhou por TRÊS horas na minha cozinha e não conseguiu desentupir!
Saí de casa para buscar Arthur na escola com a recomendação de que não abrisse a pia, pois ele também tinha colocado um "dissolve tudo" do capeta no cano e precisava esperar algumas horas antes de ver se a coisa tinha funcionado. Quis sugerir que ele calçasse luvas, mas achei que ele já sabia dessa manha e fui embora. O plano era: de duas a três horas sem abrir a pia, depois abrir a pia. Se a água corresse, vida que segue, tudo deu certo. Se não, ele subiria para ver se o vizinho do outro andar também estava sofrendo com o entupimento. Se estivesse, a coisa era mesmo na coluna, se não, era aqui em casa.
Bom, três horas depois o rapaz veio, ligou a água: tudo na mesma. Subiu: não era coluna. E como já era supertarde, ele disse que voltaria no dia seguinte para QUEBRAR MINHA PAREDE e furar o cano.
Chorem comigo.
Obra na gringa.

Mas o dia seguinte veio e levou consigo o que quer que estivesse entupindo o cano, porque o rapaz não quebrou foi nada (eu estava na rua dessa vez, não vi como ele resolveu) e agora tenho uma pia que não vaza, nem alaga. E o mais importante: a máquina de lavar louça está funcionando a pleno vapor! <3

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Entrando pelo cano

Eu vou contar aqui porque minhas amigas não deram muita bola e eu preciso exorcizar esse dia.

Eu acho que esse dia começou há um ano, quando ainda estávamos na Bélgica, e todos comemos um hambúrguer maravilhoso que depois colocou todo mundo para vomitar as tripas. Então, hoje, quando o telefone tocou às quatro da manhã com uma notícia preocupante do Brasil, fui graciosamente lembrada do "hambúrguer do mal", apelido carinhoso que demos ao lachinho belga. Fui lembrada porque tiramos foto no restaurante, inclusive do hambúrguer, que estava muito gostoso (até colocar todo mundo passando muito mal). E eu tenho um aplicativo que às vezes volta no tempo e traz fotos de um, dois, três anos atrás.
O telefone tocou, marido atendeu, conversou o suficiente para eu saber qual era o assunto e seu grau de importância, e então fui checar o celular, para ver as horas e tinha lá "há um ano" com a foto do hambúrguer do mal.
Depois disso, o dia seguiu como todos os outros. Até de tarde.
Cheguei na escola e fiquei tentada a perguntar para a professora se deram um expresso no lanche para Arthur. O menino estava numa energia tamanha que era capaz de acender uma lâmpada se eu encostasse na ponta do nariz dele! Voltamos correndo para casa porque a pia entupiu.

[pausa dramática]

Vasos, pias, banheiras. Domino a arte do desentupimento depois de tantos perrengues (se não leu ou não se lembra, cata aqui nos arquivos a história do vaso entupido). Por isso, antes de ir buscar Arthur dei uma passadinha na loja de ferragens do bairro e comprei o equivalente ao Diabo Verde na gringa. Eu já conhecia o produto e sua velocidade em resolver entupimentos chatinhos, então fiz o primeiro procedimento antes de ir buscar filhote e depois voltei correndo para casa a fim de fazer tudo de novo e, enfim, resolver o problema na pia da cozinha.

[eu queria mandar um beijo para o meu amigo Murphy. Fiel e leal, nunca me abandona]

Às vezes eu acho que o universo sabe que eu tenho um blogue e que eu gosto de escrever, então torna as coisas, de propósito, mais atraentes para uma romanceada. Nada parece ser simples, nada parece se resolver em poucas etapas na minha humilde vida. Passo perrengue na neve, no calor, no sol, em inglês, em holandês. É só escolher: tá lá, feito um aplicativo da vida real, uma memória das situações complexas dessa vida simples que levo.
Uma pessoa, não eu, desentupiria a pia e seria feliz. A minha pessoa não desentope a pia, porque se tivesse desentupido não dava história.
Bom, cheguei em casa, refiz o procedimento com o químico e a coisa piorou. Trancou de vez o ralo, a água que antes escorria com vagar agora poderia ser criadouro do mosquito da dengue se aqui tivesse mosquito da dengue e se eu não tivesse jogado química braba naquela água (guardem esta informação).
Arthur quicava dentro de casa, animado na mesma medida que estava irritado/entediado (eu estava tentando resolver a pia, lembram? sem mamãe para brincar com ele, portanto). Marido fora, resolvendo pendengas (ele também é rei!). Eu, além de resolvendo a pia, estava olhando de cinco em cinco segundos para o celular, esperando uma ligação importante que deve acontecer por esses dias a respeito de um pepino burocrático que precisamos resolver (de novo, para sempre). Marido chega, trouxe comida congelada, brinca com Arthur, salva a mulher do endoidecimento, vamos todos para a cozinha esquentar as coisas no micro-ondas.
Marido ouve um barulho debaixo da pia e descobre que o cano está vazando! Gotas gordas caem em cima das coisas que armazenamos ali embaixo. Retiramos tudo apressados, colocamos um balde, o estrago foi pouco, mas em poucos minutos as gotas se transformam em um filete, que logo passa a um fluxo considerável. Aguardamos com o balde ali.
No armário debaixo da pia, o sifão me dá uma piscadinha:
- Ei, Ártemis, vem cá. Se você me abrir, pode ser que encontre o entupimento e resolva o problema.
Ele só faz isso porque leu o e-mail do faz-tudo que chamei dizendo que só poderá vir aqui amanhã, boa noite, madame, tenha bons sonhos. Ele só faz isso porque sabe que eu sou dessas, que tenta resolver, que aparafusa, serra, martela. Ele só faz isso porque sabe que eu tenho um blogue.
Vou até lá, marido saca o flerte e chega junto.
- Vamos abrir o sifão, Ártemis.
- Vamos!
Balde a postos, Arthur curiosíssimo, rosqueia daqui, rosqueia de lá e... chuáááááá! Uma cachoeira de água nojenta nos encharca (Arthur salvo, felizmente). Desentupiu? Sim, não, talvez? E de repente...
- AAAAAHHHHHHHHHHHH!
Lembram do químico que joguei na pia? Então, ele queima a pele, tá? Fica a dica, caso vocês morem aqui. Não abram o sifão sem luvas se tiverem jogado químico cano abaixo. Nós fizemos isso e corremos com as mãos em brasas para debaixo do chuveiro. Um pânico!
Neste momento, neste exato e preciso momento, o que acontece? Hein, hein, hein? Isso aí: toca meu telefone com aquela ligação importante! Vocês atenderam? Nem eu. Mas tudo bem, pensei, acabou de pular o ícone da caixa postal, a pessoa deve ter deixado recado. Fui ver e a mensagem (3 minutos) era um lindo apito de estática gravado e reproduzido no meu ouvido.
Bom, resumo do dia: marido comeu algo que não lhe fez bem (não foi hambúrguer, mas foi igualmente do mal), nosso entupimento não é no apartamento, mas sim na COLUNA do edifício, não sei o que a pessoa que me ligou queria dizer e amanhã já tenho tarefas burocráticas de novo e aqui estou passando cremes e mais cremes nas mãos para amenizar a aspereza pós-produto químico do capeta.
Amanhã a saga continua com o faz-tudo, a ligação, limpar e arrumar a cozinha toda ensopada de água nojenta (limpamos quase tudo hoje, mas com certeza amanhã teremos nova edição, já que o homem que vem aqui deve também fazer certa bagunça para desentupir o cano).

Universo, só queria dizer que eu também sei fazer postagens fofinhas, tá?

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

Como é a cidade?

Moramos no interior da Bélgica, em uma cidadezinha medieval que uma gracinha e que, como muitas cidades da Europa, tem castelo, tem igreja, tem ponte. Mas a coisa mais linda, mais perfeita, mais divina e maravilhosa que temos por aqui é:

A máquina de lavar que fica DENTRO do meu apartamento.

Eu fiquei tão feliz de ver o aparelho que tive vontade de abraçar meu senhorio, chorando copiosamente em seu colo belga. Me segurei porque fiquei com medo de ele cancelar o contrato, mas depois que ele saiu e me deixou a sós com essa belezura, devo ter ficado uma meia hora admirando seus botões. Metade por encantamento, claro. Mas a outra metade foi mesmo tentando entender o holandês, essa língua do capeta. Achei um "Sporten" na máquina e agora ela deve estar lá, no canto dela, tendo certeza de que sou uma maratonista. Aliás, todos aqui em casa. É que eu lavo roupa duas vezes por semana. E a verdade é que, se eu pudesse, me lavava usando a máquina! Ou fazia um álbum de fotos inteiro só com a máquina de lavar. Toda minha. Toda pronta para lavar minhas roupas, a qualquer hora do dia, sem que eu precise catar moedas ou levar cartão de crédito, sem que eu precise sair do quentinho do meu lar, sem que eu precise levar comigo Arthur, sem que eu precise me organizar com antecedência ou arrastar uma saca IMENSA de roupas sujas escada abaixo, depois escada acima, limpas. Agora eu posso comprar o sabão que eu quiser, não precisa ser mais só em pods. Agora, ninguém tira as minhas roupas lavadas, minhas calcinhas limpinhas e deixa ali, em cima do tampo da máquina, até que eu possa vestir Arthur, me vestir, pegar cartão, chave e paciência para ir até a lavanderia colocar as roupas para secar. Agora, eu posso até ser mais Montessori e delegar a função "lavar roupa" para meu pequeno.

Tem gente que vem aqui para a Bélgica e pira nos chocolates, nas batatas fritas (que eles juram que inventaram - numa briga com a França meio no estilo Santos Dumont X irmãos Wright), nos waffles com sorvete e caldas mil, nas cervejas. Tá, tá, tudo isso é uma delícia, tudo isso é maravilhoso, mas me deixa. Tô surtada de paixão na minha máquina de lavar própria, que só lava roupa na função "Sporten", mas que fez com que o drama da mala fosse atenuado.

O quê? Que drama da mala? Xiii... vou contar em outro post.

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O segundinho virou segundinha

Pois é, meu povo. Meu segundinho virou segundinha. Aliás, segundinha e terceirinha, logo de uma vez!

Pode me xingar porque fiz mau uso do título e não tem nada na minha pança além das pelancas que coleciono com rigor.
É que em vez de parir um rebento, farei uma segundinha mudança. Vamos para logo ali, na Europa, e depois para um bocadinho mais adiante, na África. Onde tudo começou, inclusive este blog, esta loucura selvagem.
Com isso, óbvio que meus planos de engravidar de novo foram adiados, sem previsão de volta.
#todaschora

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Surpresa!

A vida anda pacata?
Tá tudo uma tremenda pasmaceira?
Todo mundo fazendo tudo igual?
Sem emoções?

Então, vem com a gente que nós temos novidade!

Uma grande surpresa, que vai virar nosso mundo de cabeça para baixo. De novo!

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Quase um cachorro

Poizé, povo.
Nem só de desmaios vive esta pessoa aqui.
Também vivo de limpar gaiola pelo menos três vezes por dia. Também vivo de dar alface, feno e ração e também de soltar a pobre bichinha pela casa (e depois sair limpando xixis e cocôs infinitos).
Coelho é um bicho muito fofo, mas que faz tanto cocô quanto um RN em livre demanda. Só que sem fralda. Faz EC com ela, Ártemis, dirão as pessoas mais fanfarronas. Rá rá rá. A verdade é que coelhos são fofos e lindos, mas, sinceramente, prefiro cachorro. Cachorro abana rabo quando você chega, obriga você a passear e ver o mundo todos os dias, dorme enroscado com você sem fazer xixi e cocô na cama e ainda atende quando você chama. Porque Jessie não atende. Já tentei os mais variados sons e gestos, até mesmo um suborno com suculentas folhas de alface, sem efeito. Agora, fiquei muito surpresa com outras duas coisas (além do cocô abundante e onipresente): coelhos fazem barulho e coelhos lambem você!
Jessie, especialmente, é muito carinhosa e outro dia veio ficar no meu pé enquanto eu embalava Arthur no colo. Uma fofura! Sempre que eu a solto, ela me procura e tenta ficar perto. Não é raro ela se deitar rente a meu pé ou perna e ficar ali. Aceita carinho e é infinitamente menos arredia que Lola, a porquinha-da-índia que hospedamos ano passado.
Ontem estava limpando a gaiola (pela terceira vez no dia), meio de saco cheio, confesso, pensando que puta saco é isso de ficar limpando bolinhas de fezes e jornal xixizado, espargindo grama seca e enchendo potinho de ração quando me lembrei de uma coisa que mudou a maneira como passei a encarar tudo isso. Na escola do Arthur, cada sala tem bichinhos diferentes. Na dele são Jessie, Blue (um beta) e a tartaruga (esqueci o nome). Mas na sala da amiguinha dele, tem um sapo. Um sapo! Que com certeza está na casa de um voluntário, sendo alimentado e cuidado sabe-se lá como. Um sapo que fez Jessie parecer ainda mais fofa e interativa. Quase um cachorro.
Acho que estamos indo bem, portanto.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

O rolo do rolo

Arthur me pediu leite. Aqui, ele vem em galão, pesado, difícil de manobrar e jarro com leite na geladeira dá aquele gostinho, né? Então dona Maria que me desculpe, mas nada de Montessori para pegar leite aqui em casa. Fui lá eu.
Arthur resolveu fazer xixi. Fez. Deu descarga. E de novo.
Opa! Duas descargas?
O alerta "deu ruim" começou a tocar e perguntei, com a voz doce, tentando administrar o leite e a calma ao mesmo tempo:
- Filhinho, tudo bem? O que aconteceu?
- Nada, mamãe. Caiu um papel no vaso e eu dei a descarga.
- Ah, tá bom. Então lava a mão e vem buscar seu leite.
Alguns minutos depois derrubei um pouco de café no chão e limpei com papel toalha. Cansada, pensei: ah, vou jogar no vaso mesmo, tá tão mais perto que a lixeira. Joguei.
Noé deve ter sentido a mesma angústia que senti vendo aquela enchente de água de privada se aproximando da borda do vaso. A diferença era que Noé sabia o que estava acontecendo porque deus avisou e quando tudo passou, ele não precisou pegar pano nenhum para limpar água de privada. Portanto, pensando bem, talvez eu tenha ficado mais nervosa e angustiada que Noé.
Felizmente, não transbordou, mas não restava qualquer dúvida de que o vaso estava entupido.
Ora, por mais que a tubulação aqui seja velha, uns pedaços de papel toalha não causam este estrago todo. Foi quando me lembrei das duas descargas que ouvi.
- Filho, lembra quando caiu o papel no vaso?
- Lembro.
- Que papel era esse?
Ele pega um dos milhares rolos vazios de papel higiênico que guardo para fazer brinquedinho reciclado.
- Aqui, ó.
Cogitei chorar. Cogitei fugir. Amaldiçoei minha vocação crafter.
Mas a água ainda fluía, por isso apenas pensei que papel se dissolve na água, né? Era, portanto, tudo uma questão de tempo.
Só que dois dias depois as coisas não iam mais bem. O papelão do rolo não se dissolvia e as muitas descargas que dei na esperança de fazer descer o cilindro, na verdade, devem tê-lo girado, e a água passou a não mais descer. Ou melhor, descia a proporções nanométricas. E paciência tem limite, sobretudo quando estamos falando do único vaso da casa.
Fui a uma loja de ferramentas e utilidades domésticas. O vendedor da loja acabou com as minhas esperanças de comprar uma coisa tipo o bom e velho diabo verde. Mas this is USA, minha gente, e não há problema, real ou inventado, crônico ou agudo que não tenha uma invenção revolucionária para exterminá-lo. O moço, então, me puxou para outro corredor da loja, apontou uma parafernalha estranha e me jurou de pés juntos que uma geringonça que parecia a mistura de uma vara de pescar com manivela para desenrolar cortina de estabelecimento comercial era o que eu precisava. Não tinha muita alternativa a não ser acreditar naquilo.
Voltei com o trambolho na mão, depois de um dia intenso, com direito a compras de supermercado e devolução de livros na biblioteca. Tudo que eu não queria era labutar no vaso. Mas fui eu lá, labutar, lá botar a geringonça no vaso.
Olhei descrente para a vareta. Arthur fez o mesmo. Perguntei:
- Será que vai funcionar, filho?
- Quero ajudar mamãe!
O troço tem uma mola meio brocha que sai de um tubo ligado a uma manivela que não entendi para o que servia. Um mistério que nem a tarja com instruções resolveu. Evoquei a lembrança do vendedor me explicando como deveria usar o aparelho e decidi arriscar. Primeira tentativa e eu achei que nada aconteceu. Nível de água nojenta preservado. Empurrei o cabo e dei uma girada discreta na manivela. Nada. Mais força, Arthur tentando me ajudar, eu tentando preservar meu filho da queda que parecia inevitável naquela água radioativa, mais força, filhinho chega mais para cá, até que... POFT! Funcionou. A água escoou. Puxei a descarga e, sim, o rolo desceu, que alegria! que júbilo!
Virei para Arthur:
- Ah, meu filho, olha, funcionou - dizia eu, visivelmente emocionada, como se o vaso tivesse cantado lindas músicas na festinha de dia das mães para mim.
Ao que meu rebento, igualmente animado, responde:
- Oba, mamãe! Agora eu posso jogar outro rolo lá dentro, porque o aparelho funciona!

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

O que você está fazendo?

Estávamos todos na sala, conversando. Sim, porque agora falamos os três. Alguns mais ladinos, é verdade, mas ainda assim falamos.
Marido e eu proseávamos e discutíamos os rumos e planos da semana. Arthur, no cantinho atrás do sofá, balbuciava suas conversas ininteligíveis, provavelmente opinando também sobre o que viria a fazer.
Conversa vai, conversa vem, o e-mail do marido apitou, sinalizando nova mensagem recebida. Trabalhando demais, ele foi rapidamente até o computador para ver do que se tratava, se era importante, se era bobagem. Eu continuei tagarelando. Arthur, porém, ficou quietinho.
Blá-blá-blá... vou passar no supermercado. Tititi... precisamos telefonar para o Fernando. Patati... quero visitar a Helen. E marido lá, no computador. Desconfiei que ele não estivesse mais lendo e-mail de trabalho porcaria nenhuma, mas sim que tivesse passado à máquina do tempo conhecida como Facebook, uma ferramenta incrível de transporte para o futuro em questão de segundos.
Virei-me para ele e perguntei:
- O que você está fazendo?
Ao que Arthur, de trás do sofá, responde:
- Cocô.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pequeno guia visual de lavagem de roupa

Se ir ao mercado é corrida com obstáculos, lavar roupa é pentatlo: levantamento de pesos, tiros de dez metros para buscar o guri, agachamentos e, porque estamos no inverno, também tem patinação no gelo do corredor dos fundos e, claro, patinação artística, com equilibrio de bebê, trouxas de roupas, chave, sabão e moedinhas.
Ficou curioso(a) para saber como é a aventura?
Apresentamos o primeiro guia visual do blog!

A roupa suja acumulou e você está sem coragem de enfrentar a missão? Este pequeno guia visual vai ajudá-lo(a) a ver com novos olhos essa tarefa inglória das atividades domésticas.

Comece separando o que você precisa para lavar roupa.
Por aqui, precisamos de:

  • Mãe disposta;
  • Bebê disposto, alimentado, trocado e descansado;
  • Roupas sujas;
  • Recipiente para transporte de roupas sujas e limpas;
  • Roupas limpas (ou quase) para vestir - a saber: duas calças adulto, camiseta adulto, suéter adulto, casaco corta-vento adulto, meias e sapatos, luvas e protetores de orelhas + body de manga comprida, macacão flanelado ou de fleece, casaco de inverno com corta-vento, meias, botas, luvas, gorro;
  • Canguru;
  • Chave das áreas comuns do prédio;
  • Sabão para lavar as roupas - aqui usamos um para nossas roupas, outro para as do Arthur;
  • Quinze moedinhas.
Pouparei meus leitores da chatura das camadas e mais camadas de roupas, então vamos logo para a ação.

Chaves, moedinhas e paciência. Muita paciência e disposição.

Prestes a encarar sensação térmica de -27C.

Depois dos levantamentos de pesos iniciais e dos primeiros agachamentos, eis a modalidade patinação no gelo do corredor.

Neve, neve, neve. E mais neve.


Canguru, bebê, trouxa de roupa suja e outra trouxa carregando isso tudo.

Rinque de patinação artística.
Ufa! Chegamos. Agora é hora de mais agachamentos e dos tiros livres atrás do rapaz encasacado.

Moedinhas, moedinhas, moedinhas. Um desafio completo, desde a sua coleção até evitar que filhote as engula.
São quase quatro, mas o processo começou bem mais cedo, logo depois do almoço, afinal todo mundo sabe o quão exaustivo é separar roupas com um bebê ajudando no processo.
Não se esqueça de que todas as etapas feitas até agora são feitas duas vezes, pois temos as roupas nossas e as do Arthur, e eu não tenho a compleixão física suficiente para fazer apenas uma viagem com todas as tralhas + o bebê.
Quase uma hora mais tarde, voltamos para colocar a roupa para secar.
E roupa que seca na máquina num clima seco vocês já sabem o que proporciona, né? Choques de eletricidade estática. Eu gosto de pensar que é TENS, para ajudar nas dores das costas.

Tudo lavado, seco, empacotado, pronto para ser carregado em meio ao gelo e à neve. Muques de aço!
Achei fanfarrão da parte do condomínio colocar esta placa. Singela homenagem à mãe que lava roupa.
Já é noite quando o processo termina. Aí, começam os malabarismos na cozinha.
E aí, pessoal, joinha?







quarta-feira, 22 de janeiro de 2014

Duende

Tem um duende aqui em casa. Ele mora em algum buraco que ainda não descobri onde fica, e no meio da noite sai para passear.
Quando eu morava com os meus pais, também tínhamos um duende, e eu, quando cheguei aqui, preferia o duende tupiniquim, que enquanto eu saía para trabalhar, arrumava a sala, lavava e estendia a roupa, fazia comida, varria a casa, lavava a louça. E eu preferia o duende brasileiro porque o daqui faz justamente o contrário!
E, por culpa desse maroto, embora eu seja agora uma dona de casa, as coisas não andam arrumadíssimas por aqui. 
É que  como agora eu passo muito mais tempo em casa, o tal duende, quando sai, não tem tempo de bagunçar e depois arrumar, como é da natureza desses seres.
Mas querem saber? Bagunceiro ou não, o duende já faz parte da família, e embora me deixe bem cansada, pois há momentos em que não é possível simplesmente deixar para lá a confusão de louça na pia ou a pilha de roupas por lavar, ele trouxe consigo um presente incrível: permitir que eu assista, todos os dias, o dia inteiro, meu filho descobrir o mundo e a si mesmo.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Receita de frango ao molho de laranja com gengibre

Olá, queridos leitores. Na postagem de hoje vamos fazer um delicioso peito de frango grelhado com molho de laranja e gengibre!
Todos prontos?
Lápis e papel na mão que eu vou começar.

Primeiro, antes de mais nada, você deve ir ao supermercado.
Se conseguir voltar com: todos os ingredientes, o bebê sem escoriações ou choros descontrolados, tempo hábil para fazer o almoço e, sobretudo, uma paciência de Jó, já podemos dar início ao prato.
Esta é um refeição leve, muito gostosa e prática.
Quero dizer, é uma refeição muito leve e gostosa.

Ingredientes:
Peito de frango cortado em finas fatias (para nenhuma parte ficar crua, porque é perigoso consumir frango cru)
Laranja
Açúcar mascavo
Manteiga ou margarina
Shoyo
Amido de milho
Gengibre
Um ralador
Uma panela
Uma frigideira

Modo de fazer:
Chegue do mercado esbaforida e pouse no chão da sala todas as sacolas e o seu bebê. Enquanto ele se entretém espalhando todos os itens pelo chão, vá despindo as muitas camadas de roupas, casacos e acessórios invernais. Reserve.
Cate todos os produtos, não se esquecendo de ir buscar no chão do banheiro a caixa de morangos, e dentro da gaveta de calcinhas a bandeja de frango. Guarde o que for de geladeira, deixe o bebê brincando com o que não necessitar de regrigeração e nem representar perigo imediato, tipo o frasco de água sanitária.
Lave as mãos.
Abra a embalagem de frango e repita pelo menos três vezes "não, amorzinho, não mexe no franguinho. Toma aqui este pacote de fraldas, que isso pode". Reserve.
Corra na sala para ver se o silêncio que impera no seu lar significa que o seu bebê McGyver está fazendo fogo somente com um pacote de fraldas e um chocalho babado. Volte correndo para a cozinha e tempere os peitos de frango somente com sal (pouco) e, se quiser, algumas ervas. Afague o cabelo do bebê que está agarrado nas suas pernas, resmungando. Cuidado para não temperar a criança. A não ser que seja dia do marido dar banho.
Lave as mãos, ligue o fogo e coloque a frigideira para aquecer.
Corra no quarto e descubra o que o bebê está arrastando. Volte se for um brinquedinho, corrija se for o iPad do pai.
Volte. Lave as mãos, corte a laranja ao meio e esprema na mão o suco de uma das metades. Pare, vá verificar se o som de batida foi a cabeça da criança no chão ou a estante da sala sendo derrubada. Grite. Arrependa-se. Volte, lave as mãos, continue a espremer a metade da laranja na panela.
Lave as mãos, pegue o seu filho no colo. Com muito cuidado, para não queimar ninguém, coloque os frangos para grelhar. Lave as mãos, não molhe o bebê, esprema a outra metade da laranja. Coloque um pouco de açúcar mascavo no suco de laranja. Desvie das mãozinhas curiosas e derrame uma porção involuntária e generosa de mais açúcar mascavo. Pense "dane-se!" e continue. Segure o bebê, não deixando que ele caia ao se jogar do seu colo rumo ao pedaço de gengibre. Tudo bem se ele mascar a raiz. Dizem que faz bem para a garganta.
Pegue um biscoito. Entregue o biscoito na mão do bebê, tentando, ao mesmo tempo, recuperar o gengibre. Negocie. Regateie. Chantageie. Arrependa-se.
Pegue o gengibre (de preferência distraindo o bebê com outras coisas), passe no ralador. Não muito. Para uma laranja grande eu usei cerca de uma colher de café.
Vire o frango na frigideira. Cuidado com a perna da criança.
Ligue o fogo sob a panela com o suco de laranja "temperado". Você deve fazer uma redução. Ou esquentar um pouquinho, o que seu bebê permitir que você faça.
Pouse a criança no chão, explicando que agora você vai precisar das duas mãos um pouquinho.
Vete a tentativa de mexer nos botões do fogão. Vete a tentativa de puxar o fio da cafeteira. Repita "não, amorzinho, não mexe no franguinho. Toma aqui este pacote de fraldas, que isso pode". Mais uma vez. Mexa a panela com a redução.
Ignore a receita e passe a misturar os ingredientes conforme você "sente" que funciona.
Corra na sala, não deixe que o bebê pegue o copo de água que você esqueceu em cima da escrivaninha. Console seu choro. Volte para a cozinha, mexa a panela, desligue o frango, chame o bebê e apresente a ele uma maravilhosa escumadeira. Repita "não, amorzinho, não mexe no franguinho. Toma aqui a escumadeira, que isso pode". Guarde (finalmente!) o frango. Pegue o bebê no colo. Coloque a manteiga (uma colher de sopa) e dissolva. Retire a mão do bebê de dentro do pote de manteiga e lave-a copiosamente, para minimizar a gordura. Pouse a criança no chão. Acrescente um pouco de shoyo. No molho, não no bebê. Cuidado, pois o ideal é o equivalente a uma colher e meia de sopa, mas se você for olhar para o lado porque o menino está prestes a prender o dedo na gaveta, você pode derramar mais do que o necessário. Se isso acontecer, console-se pensando que o açúcar mascavo em excesso vai cortar o sal do shoyo em excesso.
Lave as mãos, abra o armário, retire a faca da mão do bebê (era sem serra e sem ponta, ok, mas nunca se sabe). Coloque uma colher de sopa de amido de milho na panela. Assista ao empelotamento do molho enquanto você dá colo ao bebê. Mexa até engrossar. Acalme o bebê, coloque-o na cadeira de refeições. Sirva-o.
Sirva-se de arroz, um peito de frango e regue com o molho, tomando o cuidado para não pescar as bolotas de amido e nem o biscoito ou o pedaço de cenoura (!!) que seu filho conseguiu jogar dentro da panela.

Bom apetite!

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pling, pling, pling

Pling. Pling. Pling.
Eu não sabia de onde vinha o barulho, e tal e qual um cão perdigueiro, saí pela casa caçando-o.
Pling. Pling. Pling.
Ia pensando que o frila estava atrasado de novo. Pensando se eu tinha comprado comida suficiente para os estimados três dias de frio intenso, durante os quais fomos recomendados a ficar em casa, sob o risco de congelar os membros expostos em apenas cinco minutos. Pensando se daria tempo, naquele dia, de pegar o computador de tardinha, quando Arthur dormisse, para frilar um pouco e tentar correr atrás do tempo perdido.
E então eu descobri!
Pling. Pling. Pling.
Uma infiltração. Uma goteira. Muitas gotas, que depois viraram um fio de água que escorria do teto. Bem em cima da mesa. Onde repousava nosso computador.
Perdemos frila, computador, manchamos a mesa e ainda ficamos com um teto estropiado. Tudo isso no meio da onda de frio glacial que varreu os EUA.

Daí, ontem, de novo: Pling. Pling. Pling.
Gelei.
Pelo menos não temos mais computador (na sala) para quebrar.
Pling. Pling. Pling.
Feito um cão perdigueiro, fui caçar de onde vinha o som.
Pling. Pling. Pling.
Vocês não imaginam a alegria que é ter uma pia mal fechada na cozinha!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Compras

Assim que a porta se fecha eu me arrependo. Vejam bem, é uma necessidade. Se eu tivesse escolha, não ia. Mas se eu não vou, o que acontece? Fome. Choro. Ranger de dentes. Mãe desmaiando. Então, eu preciso ir.
A vontade é de vestir armadura e ir urrando pelo caminho, já que é papo de matar um leão. Um leão por dia. Porque não tenho carro e preciso fazer as compras de supermercado a pé, no meio da neve, com Arthur a tiracolo. Ou melhor, no carrinho. Ou melhor, no carrinho quando ele quer entrar. Ou melhor, no carrinho quando eu consigo colocá-lo lá dentro antes que ele escorregue por baixo da barra de segurança me dando vários choquinhos por causa da estática do casacão friccionando-se contra o tecido do carrinho.
No topo da escada, eu estou com Arthur no colo (ou no chão, tentando se jogar escada abaixo, já que ele ainda não sabe descer direito), o meu casaco, o casaco dele, luvas, cachecol, gorros e a chave de casa. Trancar a porta é luxo. Chegar com o coque ainda preso lá embaixo, também.
A vontade é de voltar correndo, me jogar no sofá e ler um livro a tarde toda. Mas se eu não for ao supermercado, fico com fome. Ou melhor: ficamos. E como agora não sou a única por aqui, visto a armadura (virtual) e desço quatro lances de escada, espeto filhote no carrinho e saio arrastando neve e mais neve por aí.
Invariavelmente chego no supermercado (que fica a uns quatro quarteirões daqui de casa) suada onde coberta, gelada onde exposta e meio rouca, de tanto ficar matraqueando no frio para distrair Arthur.
Lá dentro, táticas de guerrilha, pois o leão espreita: carne ou frango, arroz, feijão, frutas, verduras e legumes, suco, outro item de necessidade imediata. Não posso comprar muito porque não tenho como carregar tudo de uma só vez: se estou de carrinho de bebê não posso pegar o carrinho de compras; mas se vou sem carrinho de bebê, não posso comprar muitas coisas já que não dou conta de carregar compras + bebê + roupas minhas e do bebê. Também o carrinho é meio fuleira e anda mais para lá do que para cá. Não convém sobrecarregar.
Pago. Ensaco. Arrumo no carrinho, na mochila, e volto.
O leão ainda espreita: às vezes preciso comprar uma barrinha de cereal porque a saída é tão complexa que acabo morrendo de fome no supermercado mesmo, e para não desmaiar, vou comendo pelo caminho. Comendo e arrastando carrinho, bebê, compras, roupas e neve. Muita neve. Neve a dar com pau. Neve de se atolar, de se perder, de fazer pocinha de água suja iguaizinhas às do Rio. Neve branca, neve preta, neve cinza, até neve amarela de xixi de cachorro. Neve. Neve socada e firme. Neve fofa e soltinha. Neve que cai do céu, que voa do chão e dos telhados, neve que vem até na horizontal, sabe-se lá de onde, porque aqui nessa terra batem uns ventos muito loucos!
Coberta de neve, chego à portaria.
Não tem porteiro, então preciso abrir e fechar a mão diversas vezes, para que o sangue volte a fluir e eu consiga mover os dedos e pegar a chave. Calço sempre duas luvas, mas não bastam. Já comprei luvas de todos os tipos e formatos e elas ainda assim deixam minha mão gelada. Paciência. Vai ver um duende enfia neve dentro da luva. Vai ver sou sensível. Vai ver eu me acostumo.
Entrar na portaria às vezes é fácil, mas geralmente complica porque a porta é pesada e preciso encontrar o sutil equilíbrio entre erguer as rodas dianteiras do carrinho enquanto o puxo, e com a perna, chutar a porta (que delicadeza!) para que ela se abra. Agora tenho músculos firmes nas pernas. Mas o equilíbrio é o segredo, para que o carrinho não tombe para trás, nem eu caia de bunda ou de cara. Já virei o carrinho uma vez. Arthur, felizmente, estava do lado de fora, com o pai. Porém, geralmente estou sozinha, com Arthur dentro do carrinho, então é importante manter o equilíbrio.
Aliás, é sempre muito importante manter o equilíbrio. Dentro de casa, fora dela, ou entrando nela.
Entrar na portaria é fácil. Duro é abrir a segunda porta e estacionar o carrinho e retirar as sacolas e o pequeno e subir com tudo: compras, bebê, roupas. O carrinho fiz um acordo e fica mesmo na portaria, amém!
Geralmente respiro fundo (que é para não endoidecer logo de manhã) e faço tiros de lances, nova modalidade olímpica para 2016. Sabem como é? Você coloca o bebê no chão, pede para ele ficar quietinho e esperar, sobe correndo, pulando de 2 em 2 degraus o primeiro lance de escada com as compras todas nas mãos. Pousa as sacolas, desce correndo para evitar que o bebê suba as escadas sozinho, agarra o filhote, sobre com ele, pousando-o ao lado das compras. Daí, você fala para ele esperar um pouquinho, quietinho, passa a mão nas sacolas mais uma vez, sobe correndo, pousa as compras, volta, pega o moleque, pousa o moleque...
São quatro lances de escada. Tô craque!
Às vezes estou ousada: subo com tudo dando um foda-se à minha resistência patética. Quatro lances de escada com bebê, roupas, compras e chave na mão. Se tiver correspondência, também levo. Chego suada, esbaforida, achando que vou morrer. Mas não tem a adrenalina de ficar olhando Arthur para que, ao menor movimento em direção à escada, eu dê um triplo twist mortal para trás e segure o menino, mesmo às custas de ovos se quebrando ou compras se esparramando escadaria abaixo (sim, já aconteceu comigo. As duas coisas).
Há também os dias em que estou paciente, ou cansada, ou temerosa (a gente conhece os filhos, e quando eles acordam na vibe de fazer besteira, melhor não arriscar). Nesses dias eu costumo soltar Arthur na escada e subir escorando ele, carregando tudo, e chegando em casa cerca de meia hora depois de ter entrado na portaria.
Já tentei também deixar filhote no carrinho, subir correndo com todas as compras e voltar num pulo para buscá-lo. Mas não curti. Foi rápido, é seguro, mas tenho medo de alguém entrar (a louca, já que só quem tem chave entra) e levar meu filho, de ele chorar ou se sentir abandonado.
Já tentei dividir as compras em partes e ir subindo com elas e com Arthur no colo. Mas quase morri e achei que enquanto eu não treinar para triatlo, não vale o risco de infarte.
Também já arrisquei subir, pegar sling, colocar Arthur lá dentro e subir com as compras e com ele no sling. funcionou em termos, pois filhote ficou meio frustrado quando voltamos para casa e não demos uma nova voltinha.
Enfim, cada dia é uma técnica nova, mas sempre que chego à porta de casa rola o estresse da abertura da porta. Mesmo se não deu tempo de trancar, eu vou precisar empurrar a porta (pesada), enfiar compras e Arthur dentro de casa ao mesmo tempo em que descalço nossas botas cheias de neve e as deixo na entrada de casa. Costumo ter de interromper a missão umas duas ou três vezes para evitar que Arthur se atire lá embaixo ou que jogue nossas compras pelo corredor do prédio. Também evito subidas para o andar de cima e abertura de embalagens, sobretudo das caixas de ovos, que são incrivelmente tentadoras. Tão tentadoras que guardei uma para virar caminhão para ele brincar!
Enfim, eu sei que deveria, como a Aline sugeriu, tirar uma foto ilustrativa do caos. Mas pergunto: onde vou enfiar uma câmera no meio dessa situação?
É favor não responder.
Obrigada.

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

Sobre o segundinho (de novo)

Li com carinho e gratidão cada comentário na minha postagem/pergunta sobre o segundinho. Depois, escrevi um texto que estava intimamente relacionado ao que pensei sobre o assunto. Mas acho que ainda preciso voltar ao tema, e ouvir (vocês e o que eu realmente tenho sentido/pensado/vivido).
Mas vamos fazer isso mais teatralmente?

personagens:
ID
EGO
SUPEREGO

[tarde da noite, bebê dorme de boca aberta, marido também sonha. Ártemis mantém os dois olhões escancarados na escuridão, insone com suas angústias. Entram ID, EGO e SUPEREGO, cada qual querendo pisar mais firme na mente inquieta da moçoila.]

ID: Uhuuu, boa noite, galera! Aliás, ótima noite, noite sublime, noite selvagem, noite...
SUPEREGO: Vamos dormir. Agora! O bebê vai acordar em menos de três horas e então todo mundo vai estar um bagaço, sem forças para aguentar o tranco de dizer não cento e noventa e três vezes - sim, eu contei -, de preparar refeições que vão parar no chão ou no lixo, de insistir para que ele beba água, de enfiar o moleque no banho antes de o sono bater e acabar com qualquer possibilidade de paz e...
EGO: Tá, tá, vocês duas: boa noite, Id. Superego, se ficar listando cada tarefa do dia em suas minúcias vai ser complicado. A pauta do dia é.... que rufem os tambores... "segundinho: ter ou não ter?" Tadãããã!
ID: SIM, SIM, SIM, SIM. Ter, sim, agora, já, foi tão bom ter o Arthur, claro que ela precisa ter mais um e mais outro, e outro, e depois outro. Quem sabe gêmeos? E outro cachorro, e um gato! E quanto amor! Amor é tudo o que importa. E eles podem viver todos numa fazenda, criar as próprias galinhas, vender ovos para uma renda extra e...
SUPEREGO: Id, a gente deveria vender você. Para um circo de horrores! Imagina só! A pobre coitada mal dá conta de tomar banho! Ter um segundo filho, sem querer entrar no mérito financeiro, que é muito importante nos dias de hoje, sobretudo com a nova vida deles em país estrangeiro, enfim... ter um segundo filho implica em menos tempo para que ela se dedique a atividades de caráter pessoal, tipo tomar banho, navegar na internet, realizar passeios descompromissados, entre milhares de outras possibilidades, que servem, acima de tudo, para que ela mantenha níveis decentes de sanidade mental. E quando digo sanidade mental, quero dizer: manter a vida em equilíbrio suficiente para que o estresse ou a falta de espaço pessoal não a engolfe num turbilhão de emoções e cansaços, que fatalmente a levariam a uma recaída da depressão que ela enfrentou quando mais jovem.
ID: Ahhhhhhhh, a depressão! Foi horrível, realmente. Ai, será que ela vai afundar mais uma vez? E o que será de nós? Mas o Arthur é tão bonitinho, é tão lindinho, é tanta alegria na vida dela... eu acho que...
EGO: Calma, vocês duas! Claro que Arthur é ótimo, mas também é uma rotina muito cansativa viver em casa, no momento bastante isolada porque recém-chegada e com poucas referências ainda. Nada de depressão, por enquanto.
SUPEREGO: Não quis dizer que ela está a beira da depressão, é claro. Vocês sempre entendem errado o que eu levanto para debate. Sempre aquém do verdadeiro sentido e da linearidade do que verbalizo.
EGO: [suspiro] Ok, ok. São quase quatro da manhã, gente. Foco!
ID: Ai, quatro da manhã. Que lua L-I-N-D-A!
EGO e SUPEREGO: Foco!
ID: Ok, ok...
EGO: Como eu ia dizendo, existem basicamente três empecilhos para o segundinho. E esse três estão inter-relacionados.
SUPEREGO: [controlada, mas transparecendo leve impaciência] Três? Você realmente acha que são apenas três empecilhos?
ID: [aos berros, salivando] Três???? Não existe nenhum empecilho! Eles se amam, são jovens, ela sempre quis família grande, filho vem com o pão debaixo do braço e, para completar, ai, parir é tããããããooooo gostoso, tão selvagem, tão natural, tão intenso.
SUPEREGO: Está vendo? Mais um motivo para ela parar no primeiro filho, e olhe lá! Parir é tenebrosamente descontrolado: você não sabe aonde aquilo vai dar, não controla as variáveis.
EGO: [bufando baixinho] Posso terminar?
ID: Não!
SUPEREGO: Sim.
EGO: Os três empecilhos são: ela mora sozinha-inha nos EUA. Ou seja, são apenas eles três nas terras de Tio Sam. Existe, portanto, um fator operacional que dificulta a vinda de um segundinho. Por exemplo: com quem Arthur vai ficar na hora do parto?
ID: Com eles? Na sala de parto? De preferência dentro da banheira, brincando enquanto o irmão, ou irmã, nasce...
SUPEREGO: E se a coisa não sair conforme o esperado e ela precisar ir para a cesárea? Vão fazer o quê? Levar o menino para a sala de cirurgia? Que beleza, hein.
EGO: Sim, exato. Precisamos ponderar também que, para além do parto, existe a rotina fatigante dos primeiros dias de um recém-nascido. E ela não vai poder contar com a mesma disponibilidade de horas livres do marido que ela teve quando Arthur nasceu. Agora ele tem um trabalho que exige muito mais dele. Então, vai ser ela sozinha. Completamente.
ID: [com lágrimas nos olhos] Estou tão sozinha. Ela também. Vê? Quatro da manhã e nenhuma luz acesa lá fora, ela está sozinha com suas angústias e ansiedades. É muito triste, é terrivelmente...
SUPEREGO: NORMAL.
EGO: Sim, normal. Todo mundo passa por questões nessa vida. Ela está bem e vai continuar bem. Só precisa realmente pensar e chegar a uma conclusão. Nem que seja a de que, por enquanto, não tem conclusão nenhuma a que se chegar.
SUPEREGO: Muito bem articulado, Ego.
EGO: Obrigada. Achou mesmo?
ID: [pigarreando exageradamente] Podemos?
EGO: Ah, sim. Bom, ela está sozinha, então precisará cuidar de um bebê e de um recém-nascido ao mesmo tempo. E também da casa. Isso é muita coisa. E ela sabe que vai acabar bem estressada.
SUPEREGO: A solução ideal seria chamar a mãe. Ou a sogra. Ou as duas.
ID: Deus nos livre dessa maluquice sem tamanho!
EGO: Não vamos discutir isso agora, certo? Não contemos com outras pessoas, já que elas moram muito longe agora. Voltando, então: ela está sozinha e precisará lidar com tudo sozinha. Para não sobrecarregar o marido. Com isso, ela ficará sem tempo. Estando sem tempo, ficará bem estressada. E estressada, mal curtirá os momentos com os filhos.
ID: Mas tudo será lembranças na velhice. [chorando agora] A velhice é tão solitária, e uma família grande foi com o que ela sempre sonhou...
SUPEREGO: Do que adianta ter memórias de brigas, discussões e irritações?
EGO: Isso. Vamos por esse caminho.
ID: Você sempre ouve muito mais a Superego que a mim.
EGO: Isso não é verdade. Lembra-se do parto? Desde então, quem é que mais me dá conselhos sobre o que devo fazer com Arthur?
SUPEREGO: Se você escutasse o que eu tenho a dizer... Os outros acham que você...
ID e EGO: Danem-se os outros!
SUPEREGO: [suspiro]
EGO: Bom, voltando ao segundinho. Além do que já falei, eles também têm uma renda limitada. E um segundo bebê teria um impacto no orçamento já apertadíssimo deles.
ID: Usa tudo de segunda mão. Eles já têm uma porção de coisas que compraram para o Arthur, podem aproveitar para o outro bebê.
SUPEREGO: É, tipo plano de saúde, né?
EGO: Posso terminar? Bom, haverá impacto. Isso é fato. Some-se a tudo o que já expus e teremos pontos bem fortes contrários ao segundinho. E como se não bastassem esses motivos, ainda é preciso sermos francas: ela está com saudades de ter um tempo só dela, saudades de dormir até um pouco mais tarde, saudades de poder ler um livro. Essas coisas.
SUPEREGO: Ah, sim, e com dois filhos para cuidar, adeus leituras, tempo livre, lavar cabelo. E, cá entre nós, ela já deixa muito a desejar na criação desse menino!
ID: Lá vem você e sua mania de deixá-la culpada, Superego! Deixa a menina! Ela é marinheira de primeira viagem, ela está sozinha num país estrangeiro, ela...
SUPEREGO: E lá vem você arrumar desculpas para as falhas dela. Inadmissível!
EGO: As duas, quietas, já! Ela está se esforçando e ninguém é perfeito.
SUPEREGO: Isso porque ela não me escuta. Se escutasse, ela poderia ser perfeita, sim.
ID: Aham, claro. Senta lá, Superego mala!
EGO: Sem discussão! O bebê vai acordar a qualquer momento para mamar e precisamos ajudá-la. Coitada, olhem só: não prega os olhos, está super ansiosa, tem anseios na vida...
SUPEREGO: Exato! Ainda bem que você tocou nesse ponto! Ela tem anseios. Melhor parar nesse primeiro filho, pois vai ser mais sensato. Imagina só: ela quer seguir sua vida profissional, sente falta de ter seu espaço também em termos intelectuais, quer sentir-se desafiada por questões acadêmicas e profissionais. Como você acha que ela vai dar conta de tudo? Estudos, vida profissional, novos desafios intelectuais, casa, dois ou três filhos?
ID: Sim, mas e o sonho de ter família grande?
SUPEREGO: Nem sempre os sonhos são factíveis.
ID: Mas precisamos dos sonhos. São os sonhos e as emoções que nos mantêm vivos, que nos impulsionam! E o amor, claro!
SUPEREGO: O que nos mantém vivos é a prudência. E é prudente que ela pare no primeiro filho. Tanto em termos profissionais, quanto em termos pessoais e financeiros. Acabou-se o tempo das famílias numerosas. Hoje em dia as pessoas têm restrições orçamentárias porque têm outros anseios e necessidades. Sem contar a questão da inserção da mulher no mercado de trabalho...
ID: Ai, que teoria chaaaaataaaaaaa...
EGO: Vocês duas, quietas! Já pedi! Vamos organizar o que vocês disseram porque nessa ladainha das duas existem uns pontos importantes para esta discussão. Em primeiro lugar, a perspectiva profissional. Se por um lado existem argumentos para que ela tenha somente um filho, conforme bem alardeou nossa amiga Superego.
SUPEREGO: Alardeou, não.
EGO [pigarreando]: Conforme, hum..., sinalizou nossa cara Superego.
SUPEREGO: Obrigada.
EGO: Enfim, embora existam esses argumentos indubitavelmente contrários a um segundinho, há que se pensar também que ela está parada agora, em termos profissionais. Já que está parada, então é melhor que fique parada de uma vez, tenha o segundo, e então, depois que os dois filhos já estiverem mais independentes e na idade de frequentarem a escolinha, aí ela retoma tudo. Ainda será jovem.
ID: Eu estava concordando com você, Ego, mas aí você disse que ela ainda será jovem. Não será, não! Será velha para o mercado! Como você acha que ela vai se reinserir profissionalmente?
SUPEREGO: Finalmente uma colocação sensata desta... hum... deixa para lá.
ID: Oh, céus! Superego concordou comigo? Então retiro o que disse, porque é claro que esse é um argumento anti-segundinho, e vocês sabem que eu quero muito o segundinho, e o terceirinho, e o...
EGO: Como eu ia dizendo, a questão profissional pode ser contornada dessa maneira, e se ela realmente quer um segundo filho, que aproveite a oportunidade de ficar um tempo dedicando-se somente à maternidade para emendar uma nova gravidez, puerpério e todo o processo. Porque esperar cerca de cinco anos para ter o segundo, lembrando que essa foi um estimativa a que ela e o marido chegaram, pode impactar negativamente em termos de vida profissional. E como se não bastasse tudo isso que acabei de falar, quanto mais ela adia, mais complicada a questão se torna, pois ela vai envelhecer...
ID: Envelhecer, não. Ficar vintage.
EGO [rindo discretamente]: Ela não vai ficar mais nova, pronto, e aí temos um impasse entre o relógio biológico, que pede urgência, e o relógio social, que pede calma, pede que ela se reinsira no mercado, que aproveite oportunidades, que se dedique a seus anseios por desafios intelectuais, e só depois retome a questão da maternidade.
ID: Com isso, caríssimas senhoras, chegamos ao consenso de que é melhor ela aproveitar que o bebê está dormindo e atacar o marido agora mesmo, vai que ela está ovulando e...
SUPEREGO: Faça-me o favor!
EGO: Não briguemos! Estamos aqui para tentar chegar a uma conclusão, não a um impasse, então...
ID: Xiiiiii...
SUPEREGO: O que foi desta vez? Insuportáveis essas suas interrupções, Id.
ID: Deixa de ser chato, Superego. Interrompi porque vamos precisar adiar o veredicto.
EGO [assustado]: Por quê?
ID: Porque o bebê acordou.

E com isso, passo noites inteiras acordada, olhando o teto, pensando nos prós e contras do segundinho. E nos prós e contras de pensar e planejar um segundinho.

quinta-feira, 12 de setembro de 2013

tictictic

tictictic

tictictic

São duas da manhã.

tictictic

tictictic

- Amor, está ouvindo esse barulho?
- ÃHnnnn?
- Barulho, amor.Assim: tictictic. Está ouvindo?
- Não.
- Ó... agora. Ouviu?
- Ouvi. O que tem?
- O que é isso? É o Vosko regando a grama?
- Ártemis, são duas da manhã! Como ele estaria regando planta a essa hora? E por quê?
- Sei lá, ele é tão obsessivo com o gramado, e os sprinklers são automáticos, você pode programar para quando quiser...
- Ártemis, vai dormir.
- Mas e o barulho?
- É um bichinho. Boa noite!
- Bichinho? Fazendo tictictic assim? Ritmadinho? Nunca ouvi. Por que ele faz esse barulho assim, igual a um sprinkler?
- É o destino dele.
- Destino?
- É... aposto que esse bichinho tem uma mulher, e que a mulher do bichinho acorda todos os dias às duas da tarde perguntando "amor, que barulho é esse? ArthurnãoArthurnãoArthurnão?".

É, cada um tem o destino (e o marido) que merece.

sábado, 17 de agosto de 2013

A ajuda está a caminho!*

Uma voz metalizada, que não sei se gravada ou se apenas mecanicamente anunciante, repetia pelos buraquinhos: A ajuda está a caminho! A ajuda está a caminho! Mantenha a calma. E eu e marido nos entreolhávamos enquanto Arthur, ciente de que apertara o botão errado, fazia cara de "mas o que raios está acontecendo aqui?".
Bom, se você também esta se fazendo essa pergunta, deixe-me voltar umas horas nesse mesmo dia, para que as coisas fiquem mais claras (e dramáticas).

Eu ando sobrecarregada. Literal e metaforicamente: carrinho, bolsas, Arthur, casacos, cuidar da casa, do menino, dos frilas e da vida. Não sou a única: marido também anda na correria e na intensa agitação de seu novo ambiente de trabalho, de sua nova realidade de interação e das muitas descobertas. O único que parece em paz é Arthur. Por um lado, ótimo, pois um bebê estressado no contexto que vivemos atualmente seria muito complicado. No entanto, por outro lado, haja energia e disposição! E quem fica em casa a maioria das horas segurando o rojão é a mamãe aqui!
Bom, dito isso, um belo dia, quando eu estava prestes a me jogar da janela e quebrar o tornozelo (estamos hospedados num apartamento que fica no segundo andar), prestes a zunir com o prato de papinha e em vias de destruir a marteladas (do martelo de amaciar carne – Olá, vida doméstica!) os brinquedinhos sonoros que Arthur brinca de remixar num looping insistente, marido achou que, para o bem da saúde familiar, deveríamos dar uma voltinha para espairecer.
Eu, precisada de relaxar e curtir a vida de solteira, fui para a noitada... não, não... isso foi um sonho. O que aconteceu mesmo foi: saímos em família, rumo a um parque aqui perto.
Arthur até pareceu animado no carrinho (aqui, adotamos o carrinho, pois mesmo em libras, Arthur está pesado), apontando para a porta da rua, dando carinhosos tapinhas em sua girafa companheira e gritinhos estridentes de excitação. Eu deveria saber que gritinhos de excitação significavam, dããã, excitação. Mas o estresse embotou minha mente e eu saí. Gente: eu saí!
No elevador, as coisas pareciam bem, e assim foram até atravessarmos a primeira rua. Arthur então esticou os bracinhos, semicerrou os olhinhos e pediu colo. Marido entrou em ação, mas não valia: tinha de ser o meu, porque no meu colinho ele tem peitinho. E então, a menos de dez metros de casa, o menino abaixou minha blusa, afastou meu sutiã e se acoplou a mim. No exato momento em que isso acontecia, vinha vindo uma família muçulmana, com todas as mulheres cobertas dos pés a cabeça em panos, lenços e vestes. Arthur, claro, soltou o peitinho na mesma hora, que ficou ali, tomando uma brisa fresca, para escandalizar a todos os religiosos diante de nós. Ali estava a cidade de contrastes: uma desenxabida latina, peito nu, cabelo ao vento (a essa altura, depois de tentar conter as ânsias e desejos do filhote, meu tradicional coque tinha ido para o beleléu e mechas nada charmosas voavam ao sabor da "brisa" nada suave que varre a cidade); do outro lado uma penca de mulheres sem qualquer trecho de pele aparente. Inclusive a que carregava um bebê um pouco mais velho que Arthur.
Céus! Eu deveria ter parado. Era um aviso divino: volte para casa, entoque-se. Mas o que eu fiz? O quê? Puxei a blusa, usando Arthur para encobrir a peitola assanhada, e apontei: olha, filho, um ônibus! E assim distraí o moleque por um quarteirão inteirinho: olha o carro, olha o trem, olha o ônibus, a bicicleta, o pedestre, o passarinho, o pombo, o coelho (sim, aqui temos coelhos nas ruas! Vomitem arco-íris de fofura!), a menina...
Acontece que chega uma hora em que acaba a brincadeira, pois ou já não temos mais tantas coisas novas para mostrar e elas se repetem, ou a paciência do rebento já foi para as cucuias e você precisa encontrar outra coisa para ele se entreter.
Mas foi tipo amor: eterno enquanto durou. Eterno por um minuto e treze segundos.
Ainda nos faltavam uns quarteirões.
O que fazer?
E do oriente veio a resposta: uma família fofa de orientais vinha na direção contrária, e Arthur se engraçou com os pequenos. Um casal de irmãos (ou primos, essa coisa de olho puxado às vezes me confunde) tão bonitinhos! Arthur parou, sorriu, dançou, bateu palminha, deu tchau. Todos riram, bateram palminhas, deram tchau, fizeram "aahhhhs" e "oohhhhhs" e "uuuhhhhs" para todas as gracinhas perfeitamente executadas de meu filho. Enternecida, pensei: que molequinho fofo eu pari! Mas então compreendi: ali, na mão de cada um dos mini-orientais, repousava uma bolinha macia e colorida. Os olhinhos nada puxados de meu filho se abriram ainda mais diante daquela visão, e suas gracinhas tinham objetivo bem definido: conquistar a Ásia, destruir o exército azul e tomar ao menos uma bolinha macia e colorida. A estratégia dele parecia boa, pois a criança mais velha, o desavisado menininho, num arroubo de ternura graças às investidas de meu filho, cedeu-lhe o objeto redondo.
Arthur provou sua maciez, analisou suas cores vibrantes, experimentou com cada um dos sentidos seu objeto de desejo. Rimos, achamos fofo, engraçadinho, até que a família mandou o "hora de dizer tchau para o amiguinho" e o menininho fofo (não meu filho, como vocês verão a seguir) quis a bola de volta. Meu filho, nada fofo, abraçou a bolinha, fez que não com a cabeça e começou a andar para longe da família. Eu fui tentar pegar a bola, mas não consegui. Arthur chorou, esperneou, segurou a bola como se ali estivesse depositada sua vida (ou suas melhores lembranças, tipo Harry Potter). Marido também tentou, mas Arthur anda rápido, sagaz e continua bem menor que a gente, então escapuliu por entre as pernas do pai, praticamente dando um drible no progenitor. A essa altura, a família oriental fofa já estava de sacos orientais cheios e, não sei se por conta da disciplina rígida com que educava seus filhos, se por piedade de nós ou ainda se por mera falta de saco para esperar o desfecho de nossas investidas, falaram numa língua incompreensível, e nos deram tchau. Na base do choro, conseguimos reaver a bola do menininho, que já se afastava com o olhar dos espoliados, e recebemos um não veemente quando fomos entregar o objeto. O pai disse que poderíamos ficar com a bola, enquanto o restante da família já ia longe. Ficamos sem ação, com  a bola (Arthur, notando nosso embasbaque, rapidamente se reapropriou da pelota), nos entreolhando feito babacas. A família oriental fofa se afastando (agora, rememorando, seria isso uma fuga dos bárbaros? Eu já tinha meu peitinho guardado na roupa, mas certamente nossas atitudes para com Arthur pareciam as de pais a beira de um colapso: risos nervosos, demora para agir e antecipar problemas... enfim, como eu disse, às vezes fico confusa e não consigo interpretar muito bem pessoas de olhos puxados). A bola da discórdia ali, entre nós, a vergonha nos engolfando, diferenças culturais rodopiando em nossa mente, a barreira das línguas... marido veio com a solução num rápido "olha, filho, é um esquilo ali?" (sim, vomitem mais arco-íris: aqui temos esquilinhos fofos correndo pelos gramados bem-aparados). Arthur afrouxou o aperto na bolinha, tomei-a de sua mão, o choro nem se formou, pois um esquilo (santo esquilo!) saltou de uma árvore para o chão, arrancando de meu filho um "iiihhhhhhh", com o dedinho em riste e uma carinha de surpresa.
Bola macia e colorida na mão, corri para onde havia visto a família desaparecer alguns minutos antes: ninguém. Coitado do orientalzinho fofo e bem-educado. Tive vontade de chorar: um pouco pela descompensação causada pelo estresse, outro tanto porque realmente é de cortar o coração ver uma criança abrindo mão na base da disciplina de alguma coisa de que não precisava abrir mão (ao menos não a meu ver). Dei uma corridinha de barata, ou melhor, de esquilo assustado, e... BINGO! O pai da família estava sozinho dentro de uma loja, vendo (que clichê!) câmeras fotográficas. Entrei esbaforida, mal me lembrando das palavras em inglês que deveria usar, e mandei num balbuciante "the book is on the table" meu "muito obrigada, meu filho não quer mais a bolinha". Porra, não era isso que eu deveria dizer! Mas saiu assim e consertar, àquela altura, com o oriental-pai já meio assustado (eu estava descabelada, esbaforida e falando feito uma bárbara), poderia ser um desastre que nem o Itamaraty consertaria. Paguei de latina mal-educada, maluca e boçal, cujo filho só devolve a bolinha porque "enjoou". Foda-se. Fiz uma mesura japonesa, abaixando-me até mais ou menos a linha da cintura, pensei que o japonesinho ia ficar feliz e voltei para perto do marido, que já tinha encontrado uns cachorros (um deles chamado Tequila!) para distrair o moleque. Marido perguntou " e aí?", contei o que fiz, o que pensei e que fui embora e... "Ártemis, é sério que você fez um cumprimento japonês?!!". Sim, era sério. Marido quis saber como eu sabia que eles eram japoneses em vez de, sei lá, chineses, coreanos, vietnamitas. Eu não sabia. E fiquei passada, pensando que eu realmente fico confusa com olhos puxados.
Bom, a essa altura da narrativa você já deve estar cansada(o). Eu estava. E ainda não chegáramos ao parque!
Vamos em frente, então. Arthur estava passando a mão na Tequila, feliz da vida, sem bolinha, sem mamar, as coisas pareciam fluir. Retomamos o fôlego e reassumimos a missão.
Chegamos ao parque, enfim.
Coelhinhos, esquilinhos, passarinhos... ah, a vida é bela. Oh, a vida é linda! Ei, onde está o Arthur? Não sei...
Ele estava bem: sentado em frente a uma família loira, dando tchauzinho para o caçula.
Pensei: oh, céus, de novo, não! Eles, obviamente, não são americanos (falavam em uma língua desconhecida para mim). O que será que Arthur viu e quer?
A princípio, não era nada. Estava mesmo só sendo fofo e gracioso. Danou a dar tchauzinho, ia e voltava na família, explorava o parque e mandava tchau, corria um pouco e sorria para eles. Fofo. Até que o pai da família resolveu fazer uma boquinha. Pensei: ótimo, Arthur tá fazendo greve de fome, não vai comer nada, e eu trouxe frutas frescas, frutas secas, leitinho de amêndoa, biscoitinho de arroz integral, frango... ele não vai querer comer. Rá!
Pois é: ele se convidou para o piquenique e, depois de eu contar que ele estava numa greve de fome por conta do processo de adaptação (a família era polonesa e entendia bem dessas coisas, pois também era imigrante), ele comeu: dois morangos de Itu (sério: GIGANTES), três framboesas, duas blueberries, torrada e ainda quis lamber a rolha do champanhe (imigrantes chiques! Vocês tinham de ver o piquenique deles! Alta produção.). Ficamos sem graça. sobretudo com o grand finale do champanhe, e achamos que era hora de partir. Demos tchau, obrigada por alimentarem meu pequeno flagelado, nos vemos um dia e, então, o pai da família nos alcança um cartão de visitas: caso precisem um dia, explicou.
Ele era advogado. Especializado em processos de imigração.
Genial!
O caminho de volta foi no mesmo estilo da ida: peitinho exposto, estresse, "olha lá, vai pegar a guimba de cigarro do chão", "não, Arthur, não lambe o poste", "cadê o ônibus?", "vai no carrinho/no chão/no colo do papai um pouquinho, meu amor". E enfim chegamos no prédio!
Ufa!
Que aventura, tô exausta, eu também, vamos comer o quê?, não sei, amor, cuidado: ele vai apertar o botão de emergênciaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa...
Pois é, foi assim que terminamos dentro de um elevador, com uma voz metalizada nos mandando ficar calmos que a ajuda estava a caminho, um olhando para a cara do outro, pensando: e agora?
Poderia dizer que marido precisou me arrastar para fora do elevador, pois a promessa de receber ajuda era tentadora, mas a verdade era que Arthur, a essa altura, já estava dentro de casa, tentando enfiar o dedinho gorducho na tomada, se empenhando em entrar sozinho na banheira (de cabeça), querendo fazer da sola do meu sapato seu mordedor. Então, não tive outra escolha se não abandonar a oferta de ajuda e ir fechar bem a janela para não cair em tentação, porque fazer tudo isso com o tornozelo enfaixado seria a morte de qualquer vestígio de sanidade.

Um beijo, Brasil!


* Esta postagem é um oferecimento do Pret-à-Manger, um café orgânico que prepara deliciosos cappuccinos de leite de soja para que eu possa aguentar o rojão diário. E também é uma compilação de todas as peraltices que filhote já aprontou por aqui.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Então você...

Então você tem um bebê de 11 meses e meio que resolveu acordar e ficar de pé na cama, quando antes ele apenas se sentava.
Então você faz cama compartilhada com ele, mas não na sua cama, porque você está se mudando de país e morando de favor na casa de outra pessoa, cuja cama é embutida.
Então que a cama fica no mesmo lugar e não dá para colocar o colchão no chão. E nem cabe berço ou carrinho no quarto emprestado.
Então você está sozinha em casa quando o bebê se descabela porque quer dormir.
Então você não vê outra opção, dá peitinho até o garoto botar leite pelo ladrão e capotar.
Então você tem um bebê de 11 meses e meio, que fica de pé quando acorda, dormindo numa cama alta e está sozinha em casa.
Então você tem um corpo que amamenta, que morre de fome e sede, e que desmaia se não se alimenta a cada 3 horas.
Então, com o bebê dormindo e a fome estrangulando onde você calcula ser seu estômago, porque já não raciocina direito e escuta o apito inicial do desfalecimento. É hora de comer. Agora. Vai!
Então você pensa: bebê que fica de pé + cama alta + ausência da mãe do quarto = tragédia anunciada.
Se você, como eu, teve a sorte de ganhar uma babá eletrônica com câmera, pensa, como eu pensei, que está tudo certo e tranquilo: você vai, liga a câmera, liga o transmissor do outro lado e, ao menor sinal do moleque acordar, volta para o quarto num átimo. Zááááázzzzzz...
Então você tem um marido.
Então você tem um marido que escondeu o carregador da babá eletrônica com câmera, que agora é um enfeite bem feio em cima da mesa no quarto emprestado.
Então seu marido perdeu o celular (de novo!) e está incomunicável, você crê, em Niterói. Outra cidade. Pertinho do Rio, eu sei, mas ainda sim longe o bastante para que ele não ouça seus gritos.
Sorte a dele.
Você tem vontade de chorar, mas está seca, sem água, não brotam mais lágrimas.
Você quer gritar, mas é um dispêndio de energia que está além de suas capacidades caloríficas do momento. Você começa a delirar, vendo um frango assado de padaria dançar cancan na sua frente, em cima da mesa do quarto emprestado. Ele está sensualizando com a babá eletrônica sem bateria. Ele está rindo da sua cara (pálida).
O apito fica mais forte. Você PRECISA comer.
Então você decide arriscar: forra a cama e arredores com todos os travesseiros que encontra, sacode o menino, para verificar que ele está mesmo ferrado no sono e é pouco provável que ele acorde, e vai.
Corre para cozinha, pega prato, talheres e...
Volta correndo para o quarto emprestado. Bebê plácido.
De volta à cozinha, serve-se: arroz, feijão, o que é isso? dane-se, vai assim mesmo para o prato e purê de batata com leite de coco (porque você faz dieta, lembra?). E corre de volta para o quarto: bebê na mesma posição.
Dispara mais uma vez para a cozinha: 1 minutinho....quarto, bebê em paz. Cozinha: Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Claro que o purê está frio. É um fenômeno da culinário microondística: purês NUNCA esquentam adequadamente no centro. Dane-se.
Então você leva seu prato para o quarto, engole nacos e bocados sofregamente, torcendo para que não desmaie em cima daquilo que você está comendo e não faz a menor ideia do que seja.
Então acaba a comida no prato. E você ainda está faminta. E sem ter qualquer ideia do porquê, sente vontade de fazer xixi. Sim, porque você está trancafiada no quarto emprestado com o bebê de 11 meses e meio que dorme na cama alta e não bebe água há pelo menos três horas e meia, mas ainda assim sente vontade de fazer xixi. Mistérios da fisiologia.
Bebê acorda.
Pânico.
Seu e do bebê.
Você o acalma, mas ele quer peito. Você dá. E sente todos os nutrientes e as calorias recém-deglutidos serem imediatamente transformados em leite. Fome. Sede.
Então você desiste, deita-se em posição fetal e reza para que alguém lhe salve. Decide escrever no blog, tipo como um registro de seus últimos momentos de consciência.
Então você pensa: será muito degradante usar a fralda do seu filho? Será que bala de hortelã pode ser considerado jantar? Será que aquele frango assado sensual ainda está por aqui? Que gosto terão esses travesseiros?
Então marido chega.
E lhe salva? Não, não: diz que está com fome e pergunta se pode ir comer rapidinho, antes de lhe ajudar.
Então você...