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quarta-feira, 11 de maio de 2016

Sem TV - dicas para reduzir e controlar a exposição às telas.

Já contei que adotamos aqui regras bastante rígidas quanto ao acesso à televisão/tablet. Se tem alguém se perguntando o que fazemos no nosso dia a dia e, quem sabe, o que será que é preciso fazer para também diminuir bastante a quantidade  de tempo de exposição dos pequenos às telas, eis meus palpites furados e o que funciona aqui em casa. Obviamente que minha realidade é de gente que trabalha em casa, que tem só um filho, sem necessidades especiais e tal.


  • A primeira e mais importante coisa é estar segura de sua decisão. E também que essa seja uma decisão conjunta da casa. Não adianta ser inconsistente (em uma semana não pode nada de TV, mas na outra pode) ou ter gente boicotando a ideia.

Acho que aqui em casa também ajuda bastante o fato de eu não considerar que a TV é um hobby ou bom passatempo. Eu prefiro fazer outras coisas, então meu filho não me vê assistindo à TV. E a gente já sabe que o que fazemos é mais importante do que o que falamos, certo?

  • Outra coisa importante é conhecer a personalidade de sxx filhx e entender em qual fase do desenvolvimento cognitivo elx está. Isso vai ajudar a direcionar as energias e interesses, vai permitir que você identifique sinais de cansaço, estresse ou tédio, vai lhe dar mais ferramentas para conduzir e situação como uma pessoa adulta: tendo consciência do que se está fazendo e ajudando a criança a passar pela situação se sentindo amparada e protegida.
  • Depois disso, sugiro fazer uma lista (pode ser no papel ou mesmo mental) de comportamentos que você tem observado e que pensa estarem ligados à TV. Isso é importante para que você possa comparar o antes e o depois, identificando possíveis distúrbios que possam estar surgindo e que não têm nada a ver com TV ou falta dela.
  • Como cortar a TV? Aos poucos? De uma vez? 
Isso depende da dinâmica de vocês e dos motivos que estão levando a família a se reorganizar em volta das telinhas. Aqui em casa foi de uma vez. Julgamos que assim seria mais fácil, rápido e adequado à nossa realidade e ao que esperávamos conseguir. Deu certo. Mas não havia garantias, e se tivesse dado errado, teríamos tentado mudar de estratégia. Conhecendo a personalidade de sxx filhx e a rotina da casa, com certeza você terá muitas chances de acertar em pouco tempo, mesmo que precise adaptar um pouco o plano inicial.
  • Já que falamos em lista, vale reestruturar a rotina e segui-la ao máximo possível.
Aqui em casa, a rotina é: acorda, brinca, se arruma, vai para a escola, volta da escola, brinca, almoça, descansa (raramente dormimos, mas descansamos corpo e mente), sai para passear, brinca, toma banho, janta, lê livro e dorme. Às vezes mudamos uma coisinha ou outra, tipo banho depois do jantar, ou logo que chega da escola, mas o básico está bem estruturado, com horários mais ou menos certinhos.

  • Crie opções e alternativas atraentes. Engaje sxx filhx na rotina da casa também.

Não adianta tirar a TV e deixar a criança entendiada a tarde toda. Tédio, na minha opinião, é importante e necessário. Mas não pode ficar tão grande que se transforme em outra fonte de estresse. Uma atividade que elx goste de fazer, brincadeiras diferentes e feitas a partir de brinquedos e/ou materiais diferentes dos que elx está acostumado, convites para que amiguinhos venham brincar em casa, pedir ajuda para cozinhar ou limpar a casa, dar pequenas tarefas e responsabilidades diárias, tudo isso ajuda a manter a cabeça e o corpo ocupados. Existem mil sites com sugestões de atividades, ligados à Dona Maria ou não, com materiais tão acessíveis quanto lixo (sucata) e que não demandam grandes habilidades artísticas e/ou manuais. 

  • Deixe bem claro para a criança que TV não é prêmio e sugiro não negociar bom comportamento com mais horas na frente da telinha. No meu caso, eu quero que meu pequeno entenda que TV é bacana, mas tem momento certo para ser assistida e que existem muitas outras coisas bacanas no mundo, que é grande e merece ser explorado.

Aqui em casa eu regulo bem reguladinho o que ele assiste. Dói no coração falar que ele não vai assistir ao desenho que todos os amiguinhos assistem? Dói. Mas se eu não acho que aquele desenho ou filme é próprio para a idade dele ou até mesmo para a personalidade dele, veto mesmo. Mais uma vez, a mensagem que quero passar é: tem outros desenhos e filmes que também são legais.



E vocês? Como lidam com a TV em casa? Têm estratégias ou regras para reduzir a exposição dos pequenos às telinhas? Vivem uma rotina também com isso? 

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Sem TV

Um dia eu estava descendo as escadas da escola do Arthur papeando com uma das mães da sala dele. Falávamos sobre amenidades, até que a mãe comenta que a filha está viciada em algum personagem do qual não me lembro o nome. Digamos que fosse algum do Frozen, que ainda não assisti.
Bom, eu não ia comentar nada, porque, geralmente, quando fazia comentários sobre o assunto, causava espanto e rancor. Mas ela perguntou. E eu não tinha como mentir em inglês - em português dá para raciocinar mais rápido e sair pela tangente, neam?
Arthur não assistia TV.
- Nunca?
- Nunca.
- Mas nem...?
- Nem.
- Como você faz?
- Ué, não tenho TV em casa e não mostro filmes pra ele.
- Tá, mas o que ele faz o dia todo?
- Brinca, vê as figurinhas dos livros, sai para passear...
- Nossa, você é uma ótima mãe.

Sou? Não por isso. Definitivamente, não se mede a qualidade de uma mãe assim, tão de bate-pronto, tendo apenas um item como referência.
Mas, sem sombras de dúvida, fui uma mãe pior quando liberei a TV aqui em casa.

(Pausa necessária: se você leu até aqui e, em algum momento do texto, entendeu que estou criticando quem coloca filhx para ver televisão, convido que volte ao texto e releia. Este é o meu blog, onde conto coisas que aconteceram comigo. Cada mãe sabe onde o(s) calo(s) aperta(m) e não cabe a mim julgar nada.)

Eu acho televisão um pé no ovário! Não tenho a menor paciência, não gosto do modelo, não gosto da ideia de grade, não suporto anúncios entre os blocos do programa. A TV on demand, aquela que você escolhe o que e quando assistir, fez mais minha cabeça, mas ainda assim não sou muito afeita à mídia. Prefiro internet. Prefiro outros hobbies.
Quando Arthur morava na pança, eu já não queria muito que ele assistisse TV. Mas quando ele saiu, comecei a ler, pesquisar e muitos estudos apontavam que havia mais malefícios que benefícios na exposição de pequenos às telas, tanto na parte física quanto na psicológica. Também me incomodava a questão do consumismo infantil e da propaganda direcionada às crianças. Por causa dessas convicções e prioridades, de um modo geral, posso dizer que Arthur, de zero a dois anos, teve praticamente nada de exposição a televisão, tablets ou computadores. Óbvio que às vezes ele assistia a uma coisa ou outra, pois não era proibido, mas nunca foi um hábito ou algo estimulado por nós aqui em casa.
No começo da nossa estada aqui, consegui manter a rotina telinha free. Era cansativo, sem dúvida, às vezes meio estressante por conta dos longos períodos trancada dentro de casa por conta do mau tempo. Mas sobrevivemos.
Acontece que depois dos dois anos fiquei bem cansada. As noites ainda picotadas, a rotina extenuante, um filho muito mais ativo e cheio de energia, que não se entretia mais facilmente apenas com meia dúzia de brinquedos e, é claro, o fim da soneca salvadora da tarde contribuíram para um estado de exaustão completa da minha parte. Então um dia, com a desculpa de ir lavar louça, deixei ele assistindo uma coisinha no Netflix. No outro, um vídeo no YouTube. Com a desculpa do estímulo ao português, apresentei desenhos brasileiros. Veio o Amazon Prime, com outros filmes e desenhos. O fato é que, quando eu vi, tinha sido incorporado ao nosso cotidiano muito mais telinha do que eu gostaria que tívessemos em nossas vidas. Arthur já não queria fazer coisas bacanas se elas significassem abrir mão do vídeo. Arthur já brincava com roteiros pré-concebidos das histórias que tinha visto. Arthur desligava do mundo e de mim por quanto tempo ficasse na frente da tela. Arthur começou a ficar difícil. Muito choro, agressividade, irritabilidade, falta de concentração, falta de foco e de empatia, ansiedade, até pesadelos frequentes. Eu, matando os mil leões diários. Marido, idem. Comecei a me perguntar como romper esse círculo vicioso. Até que um dia ele bateu num amigo da escola.
Foi a gota d'água para nós.
Conversamos com Arthur e explicamos que a partir daquele dia, não haveria mais vídeo.
Arthur só pode assistir vídeo nas manhãs de domingo. Fora isso, zero, nada, necas.
Houve muito choro e ranger de dentes nos dois primeiros dias. Mas depois de passado este período, meu menino voltou! Centrado, seguro, risonho, disposto a sair e brincar e explorar, carinhoso, empático. Claro que apronta umas e reage de maneira desproporcional às vezes. Ele tem 3 anos, afinal. No entanto, ele faz isso dentro da personalidade dele.

"Mas, Ártemis, aqui é impossível fazer isso porque..."
Não estou aqui para doutrinar ou julgar alguém. O que tinha em mente ao escrever este post eram duas coisas: 1) destacar a mudança de comportamento que observei tanto quando entramos no círculo vicioso quanto quando entramos no círculo virtuoso; 2) provocar uma auto-reflexão nas mães que estão incomodadas com a quantidade de televisão que x(s) filhx(s) está(estão) assistindo, perguntando se elas não estariam abrindo mão de algo importante para elas em nome de uma comodidade que de repente nem é tão cômoda assim.
"Tudo muito lindo, tudo muito maravilhoso. Mas o que eu faço com essa criança, então?"
Ah, isso é assunto para outro post.
;)

quarta-feira, 30 de março de 2016

Que syrup é esse?

Era meu dia de ficar na cama até mais tarde. Marido, portanto, acordou e foi preparar o café da manhã. Só que fiquei naquele estágio entre o sono e o despertar, ouvindo o amanhecer dos dois. Ora dormia e sonhava, ora acordava e escutava conversas e barulhinhos matutinos, feito café sendo coado e talheres batendo de leve no prato.
Até que Arthur pergunta:
- Papai, que syrup é esse?
Aquilo entrou nas profundezas dos meus devaneios sonolentos e eu sabia que havia alguma coisa se debatendo debaixo da superfície idílica, alguma coisa que queria sair, que precisava sair. Syrup? Será que meu cérebro está preocupado com troca de códigos linguísticos a esta hora da manhã? Não pode ser. Será que estou em um estado tal de estresse que preciso controlar tudo o que acontece mesmo que eu saiba que tudo está bem e todos estão em segurança? Será que estou pensando na lista de compras quando deveria estar sonhando com massagens e piña-coladas à beira-mar? Será que eu sei de alguma coisa que eles também precisam saber?
SIM!
- Ei - gritei eu das fossas abissais de meu torpor sonolento -, isso aí não é xarope de bordo! Vocês estão colocando azeite temperado com alho na panqueca!

Lição do dia: se for reciclar potinhos de vidro, escreva bem grande no rótulo qual a NOVA substância que está ali dentro.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

Chulé

Era bem cedinho. Não sei quão cedo, porque de manhã vejo o termômetro, não o relógio. Era de manhã temperatura de -20C de sensação térmica. Era de manhã "filho, deixa a mamãe dormir mais um pouquinho". De manhã pelamordedeusalguémfazumcafébemforte.
Enfiei os chinelos sabe-se como, caí meio de banda no sofá, um olho aberto e o outro dormindo enquanto meu bólido pulava, ria, brincava e me chamava.
- Vem, mamãe. Brincar de carrinho co-mi-go. Vem!
Eu de "tá bom, filho, tô indo", me rastejando quase literalmente até a mesa dos brinquedinhos, sorte a minha que ele adora brincar de engarrafamento, então é tudo bem paradinho, até que ele vira para mim e fala:
- Mamãe, sua boca está com chulé!

domingo, 23 de fevereiro de 2014

Missão dada, missão comprida

Não, eu não escorreguei na grafia. É assim mesmo aqui em casa: missão dada, missão comprida.
Supermercado, lavar roupa, sair de casa, às vezes até mesmo ir da sala para a cozinha é uma lerdeza sem tamanho. Tem a novela das roupas, em camadas, muitas, que dão calor e irritam. Tem aquele brinquedo no meio do caminho, que se torna irresistível. Tem a vontade, agora verbalizada com a palavra favorita do momento: não! Tem isso, tem aquilo, e com tantas posses, tendo tantas coisas, fica mesmo difícil caminhar. Correr, então, nem pensar!
E assim vamos, um dia de cada vez, uma hora de cada vez, um minuto de cada vez, exercitando a paciência, maravilhosa qualidade que nunca fez parte do meu pacote arrasador de maravilhas, mas que ganha novas perspectivas sempre que eu penso que estou aqui para ele e por ele.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

A rotina e Nietzsche

Eu invejo quem tem rotina certinha. Aliás, na mesma medida em que invejo a tal pessoa, dela desconfio, pois como, COMO?, é possível cumprir ritualisticamente funções e atividades todos os dias? São tantas as variáveis, em todos os níveis de tarefas, que, sinceramente, acho um milagre comermos três refeições e dois lanches diariamente.
Tudo começa na madrugada. Se Arthur dorme bem, geralmente acorda de bom humor. Pode ser que acorde bem-humorado e com a pá virada, pode ser que acorde bem-humorado e calmo, dócil e meigo. Quem sabe? Se ele dorme mal, porém, costuma acordar cansado, o que pode levar a um humor meio estranho. Ou não. Cansado, pode ou não ficar mais calmo, ou mais agitado, ou mais levado, ou irritadiço. Mas a variável da madrugada não termina aí, porque eu também entro na jogada, e o meu sono, se foi bom, ruim, suficiente (não existe muito na maternidade) ou pouco, tudo isso vai influenciar na rotina do dia seguinte, já que serei eu fazendo coisas com e para Arthur.
Complexo? Assustador? Mas nós ainda nem começamos a fazer nada. Estamos nos preâmbulos, no prólogo da história cotidiana, que, se você quer mesmo saber, não deveria se chamar rotina, mas sim caostina.
O caos se instaura quando abro os olhos. Invariavelmente, Arthur já está saindo da cama, o que me faz correr porta do quarto afora, a fim de evitar artes e peraltices. E o caos continua ao longo do dia. Cada microtarefa tem a potencialidade da tragédia. Um lápis na mão e uma folha de papel em branco sobre a mesa? Tanto pode gerar um lindo desenho de rabiscos quanto: uma mão cortada pelo papel; lápis no olho da criança; lápis no olho da mãe da criança; lápis na orelha, perfurando o tímpano; lápis na parede; papel no chão, transformando-se, segundos mais tarde, numa superfície deslizante; entre outras zilhões de possibilidades.
Realizar as tarefas enquanto cuido do pequeno é jogar com o imprevisível, que pode vir com uma surpresa incrível nas mãos, tipo uma nova palavra aprendida pelo pequeno ou um pratão comido no almoço, como também pode acenar com o caos absolutamente enlouquecedor de um pequeno ser correndo pelado pela casa enquanto eu tento, sem qualquer êxito, enfiar, pelo menos, a fraldinha naquela bundinha livre, leve e solta. Poças de xixi, carinho no bichinho de pelúcia, uma subida perigosa numa cadeira arrastada para perto do fogão, uma tentativa de entrar sozinho (de cabeça) na banheira, uma leitura pacata e compenetrada no livro favorito, a espera paciente pelo fim do processo de cortar uma cebola, batidas com um objeto pesado no vidro da janela; a cabeça de um bebê é território inescrutável.
Com isso, meus dias de caostina são nietzschenianos: o eterno retorno, a vida que se repete tim-tim por tim-tim, a vida que traz, na potencialidade de se desdobrar de infinitas maneiras, a eternidade na duração de um dia.
Sendo assim, porque todas as rotinas maternas são, essencialmente iguais, é que eu desconfio de quem diz que traz tudo sob controle.
Maternar é viver no limite do incontrolável.

quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Pequeno guia visual de lavagem de roupa

Se ir ao mercado é corrida com obstáculos, lavar roupa é pentatlo: levantamento de pesos, tiros de dez metros para buscar o guri, agachamentos e, porque estamos no inverno, também tem patinação no gelo do corredor dos fundos e, claro, patinação artística, com equilibrio de bebê, trouxas de roupas, chave, sabão e moedinhas.
Ficou curioso(a) para saber como é a aventura?
Apresentamos o primeiro guia visual do blog!

A roupa suja acumulou e você está sem coragem de enfrentar a missão? Este pequeno guia visual vai ajudá-lo(a) a ver com novos olhos essa tarefa inglória das atividades domésticas.

Comece separando o que você precisa para lavar roupa.
Por aqui, precisamos de:

  • Mãe disposta;
  • Bebê disposto, alimentado, trocado e descansado;
  • Roupas sujas;
  • Recipiente para transporte de roupas sujas e limpas;
  • Roupas limpas (ou quase) para vestir - a saber: duas calças adulto, camiseta adulto, suéter adulto, casaco corta-vento adulto, meias e sapatos, luvas e protetores de orelhas + body de manga comprida, macacão flanelado ou de fleece, casaco de inverno com corta-vento, meias, botas, luvas, gorro;
  • Canguru;
  • Chave das áreas comuns do prédio;
  • Sabão para lavar as roupas - aqui usamos um para nossas roupas, outro para as do Arthur;
  • Quinze moedinhas.
Pouparei meus leitores da chatura das camadas e mais camadas de roupas, então vamos logo para a ação.

Chaves, moedinhas e paciência. Muita paciência e disposição.

Prestes a encarar sensação térmica de -27C.

Depois dos levantamentos de pesos iniciais e dos primeiros agachamentos, eis a modalidade patinação no gelo do corredor.

Neve, neve, neve. E mais neve.


Canguru, bebê, trouxa de roupa suja e outra trouxa carregando isso tudo.

Rinque de patinação artística.
Ufa! Chegamos. Agora é hora de mais agachamentos e dos tiros livres atrás do rapaz encasacado.

Moedinhas, moedinhas, moedinhas. Um desafio completo, desde a sua coleção até evitar que filhote as engula.
São quase quatro, mas o processo começou bem mais cedo, logo depois do almoço, afinal todo mundo sabe o quão exaustivo é separar roupas com um bebê ajudando no processo.
Não se esqueça de que todas as etapas feitas até agora são feitas duas vezes, pois temos as roupas nossas e as do Arthur, e eu não tenho a compleixão física suficiente para fazer apenas uma viagem com todas as tralhas + o bebê.
Quase uma hora mais tarde, voltamos para colocar a roupa para secar.
E roupa que seca na máquina num clima seco vocês já sabem o que proporciona, né? Choques de eletricidade estática. Eu gosto de pensar que é TENS, para ajudar nas dores das costas.

Tudo lavado, seco, empacotado, pronto para ser carregado em meio ao gelo e à neve. Muques de aço!
Achei fanfarrão da parte do condomínio colocar esta placa. Singela homenagem à mãe que lava roupa.
Já é noite quando o processo termina. Aí, começam os malabarismos na cozinha.
E aí, pessoal, joinha?







sábado, 31 de agosto de 2013

Arthur, superdotado

Sei que toda mãe acha seu filho o máximo e que quando vem uma dizer que o filho é superdotado logo é vista com a desconfiança de quem exagera. Mas eu juro que, da minha parte, não se trata de distorção da realidade, apenas realidade pura, simples e brutal.
Duvida? Acompanhe então.

Ele acorda e se espreguiça. Fofura máxima, e só isso mesmo para evitar meu tradicional mau humor matutino. Espreguiçadas e sorrisos.
Salta da cama, dispara até a sala, come, brinca, verifica os brinquedos e os espalha pela casa. Agora está na fase de pisar em cima para ver o que acontece: textura, formato, grau de atrito com o chão. Tudo e testado com o pezinho gostoso e cheio de dobrinhas.
Ele pula e dança, sobe e desce de móveis, caixas, camas, degraus e carrinho. Ele usa os dedos em pinça, e quando não consegue pegar os grãos de feijão (ele detesta papinhas e só aceita sólidos realmente sólidos) com a mão, o coloca sobre a mesa e faz feito cachorro: pega com a boca. Ele corre agora. Catorze meses, vejam só! E corre. E dança, pula, sobe, desce, ri, se esconde, se espreguiça, abaixa, levanta, mãos para o alto, abre e fecha potes, gavetas e tampas, pega objetos e os empilha, guarda, espalha.
Ufa!
Come, dorme, troca fralda (às vezes com choro e protesto, às vezes feliz e entretido), toma banho, sobe, desce, se abaixa, se levanta, sobe na cama, pega os brinquedos, pede para ir na rua, para ver a vista da janela, para comer as uvas, as passas, o biscoito de coelhinho (integral e orgânico, gente, quase não bate a culpa pelo açúcar). Luta para escovar os dentes, para colocar roupa, ajuda a se despir, quase entra sozinho na banheira, mexe, espia, testa, pisa, toca, lambe. Outro dia lambeu o vidro da sala de brinquedos do prédio, e também já tentou lamber o vidro do ponto de ônibus e o metal das cadeiras do metrô. Não deixo. Aliás, porque não deixo, as mesas estão quase vazias, as tomadas todas tapadas, a porta do banheiro sempre fechada e os armários da cozinha sem produtos químicos. Ele é rápido.
Ele pula, boxa, rema, atua, ri, brinca e dança. Ele, minha gente, é superdotado de energia, e estou penando para correr no seu ritmo e não me deixar engolfar pelo cansaço. Sorte minha que pela manhã ele ri. E se espreguiça, então pula da cama e vai pegar os brinquedos na sala...

sábado, 4 de maio de 2013

O agente duplo

Arthur leva uma vida dupla.
Durante a semana, na creche, é um menino que não dorme (há dias em que ele cochila por 10 minutos, mas geralmente ele não dorme mesmo, literalmente), que não mama (há cerca de um mês vem recusando o leitinho que oferecem a ele na mamadeira) e que come com sofreguidão e grande prazer as frutinhas e sopinhas do cardápio.
Porém, durante os fins de semana, ele mama horrores em livre demanda, tira deliciosos cochilos de três ou quatro horas ininterruptas e, cereja do sundae, não come direito, dando uma ou duas colheradas nas sopinhas e três ou quatro dentadas nas frutinhas.
Eu, a Interpol, fico preocupada, pois meu agente duplo acaba exausto durante a semana, e morro de medo de estar comendo/mamando menos do que deveria. Sei que em breve ele sairá da creche, ficará 24h comigo e, portanto, teremos resolvido o problema do leitinho e das sonecas, mas como funcionará a questão dos alimentos sólidos?
Espero que meu pequeno conspirador esteja tramando uma adaptação às muitas mudanças que tivemos ultimamente, e que faça parte dos seus planos escusos crescer saudável e feliz, para aliviar o coração da mamãe aqui.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Quando Nietzsche se revirou no túmulo (ou distorcendo a filosofia)

Aqui em casa temos um rotina. Todo dia, mais ou menos nas mesmas horas, fazemos as mesmas coisas. E assim vamos vivendo um dia de cada vez, aprendendo, errando, acertando, vendo Arthur se desenvolver e também nos desenvolvendo. Porém, por mais que tenhamos uma rotininha, nenhum dia é igual ao outro (e, segundo Nietzsche, por isso mesmo todos os dias são iguais, porque são diferentes, e todos os dias tudo pode acontecer - mas vamos voltar ao planeta Terra).
Acho importante falar isso aqui porque, de vez em quando, vejo que as pessoas ficam muito impressionadas com meu relato de parto e de amamentação, e algumas chegam a dizer: espero que não seja tão dolorido/difícil assim comigo. Gente, eu também espero que toda a mulherada tenha um parto bacanudo, de preferência com dores suportáveis (e por pouco tempo), e uma amamentação espetacular, daquelas que a gente sonha: espeta o mamilo no menino e lê/assiste TV/dorme enquanto ele mama (porque, vocês sabem, no começo da amamentação, eu me retorcia tremendamente, sem conseguir me concentrar em nadica de nada, nem relaxar para dormir). Acho, então, que minha experiência não deve ser encarada como destino inexorável para quem engravida e vai um dia parir (se o médico e o sistema deixarem) e amamentar (novamente, se o médico e o sistema deixarem). Não, gente! Há um mundo cor-de-rosa na maternidade. Acreditem! Pode ser que com você, querida leitora, tudo seja absolutamente fantástico e indolor e fácil e instintivo e anatomicamente perfeito. Há mulheres que não sentem nenhuma dor no parto, há aquelas que amamentam seu filho (e o meu, o nosso e o do vizinho) como quem chupa um Chicabon (ai, Nelson Rodrigues!). Quando eu venho aqui contar que meu parto, apesar de lindo, incrível, totalmente perfeito e transformador, doeu bagarái, quero mostrar que, caso você não se sinta assim tão incrível porque sentiu contrações doloridas por 12h enquanto a vizinha da irmã do jornaleiro da esquina chegou no hospital "com uma sensação esquisita" e pariu rindo ou espirrando, tudo bem. Se você tem o mamilo invertido (ou simplesmente plano e com cistos, como o meu), você PODE e deve amamentar. Vai doer, vai ser complicado, mas tudo bem. A gente encontra na blogosfera materna todo o apoio de que precisa para ir em frente e ficar sabendo que a coisa toda é linda e blá-blá-blá, mas também tem o dark side. (Eu poderia citar Victor Hugo, mas vou mesmo é de Angélica: "a Lua também tem uma face escura".) E aí, eu venho aqui contar que comigo não foi tão simples, porque quando a gente percebe que tem alguém igualzinho a gente, que sofre, que luta, que não acha tudo tão supimpa o tempo todo, a gente se sente parte do mundo. Eu não sou filósofa (ao menos não fora de um botequim), mas acho que podemos voltar a Nietzsche e distorcer um bocadinho a coisa toda para dizer que, se encontramos pessoas que vivem experiências semelhantes às nossas, nos sentimos parte do mundo e da vida porque, assim como os dias são todos iguais porque têm sempre o potencial para qualquer acontecimento, todas as pessoas são iguais, porque sendo elas diferentes, guardam em si todas as possibilidades.

Pri, este post foi inspirado no seu comentário (e em muitos outros também), mas não é recado ou mensagem para ninguém, viu? Só que seu comentário me fez matutar sobre como trocamos experiências nessa vida ( = vida real + vida virtual).
=)
Depois volto para contar como sobrevivi até agora sem meu piercing de mamilo (ohhhh, céus!!!).

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

E o bom conselho?

Vocês já me viram dando muito ataque de pelanca por conta dos pitacos que recebi e ainda recebo sobre como criar o meu filho e tocar a minha vida. Acontece que, conversando com uma das amigas grávidas (uma que agora é ex-grávida porque o filhote lindíssimo dela nasceu!), e dando meus pitacos (quem resiste? hipocrisia com sinceridade pode?), percebi que alguns conselhos que recebi foram surpreendentemente bons!
Daí, resolvi fazer uma listinha do que funcionou aqui em casa e que pode ajudar alguma grávida ou mãe recente nesse mundão wireless e 3G de meu deus.
E se você for adepta do ditado que diz que "se conselho fosse bom não se dava: vendia-se", aceito o depósito de uns caraminguás na minha conta... heheheh

  • Sobreviva - acho que esse foi um dos melhores conselhos que recebi para o puerpério. Nossa sociedade midiática e imagética cria estereótipos tão distantes da realidade que não raro nos frustramos com a doce vida que levamos. Eu, como representante da classe média achatada e (mal-)resolvida da zona sul carioca digo, minha realidade é doce, sim, pois tenho comida no prato (chã, patinho ou lagarto do Prezunic, mas é comida!), um teto (alugado) e pequenos luxos (creche para o filhote, tv a cabo e queijo brie na geladeira de vez em quando). Mas o que vemos na mídia são supermães, que perdem todos os quilos da gravidez no primeiro mês, têm peles maravilhosas e sem estrias, espinhas ou cravos, cabelos sedosos, nada de olheiras, corpos recuperados (em termos estéticos) em poucos dias. Males da nossa sociedade (desde os tempos de Pessoa, mas talvez ainda mais distante no tempo e mais profundamente em nossa cultura, não sei) que são potencializados pela mídia, até mesmo a mídia "informal", como os blogs. Afinal, minha gente, quem nunca viu por aí, nos blogs, supermães cujos filhos são lindos, espertos, maravilhosos e irretocáveis, cujos partos foram enlouquecedoramente perfeitos e cujos puerpérios são tirados de letra, sem estresses, sem tristezas, e elas nunca, jamais, em momento algum erram (e se erram é somente para fazer algo ainda mais brilhante na sequência)? Então, minhas amigas, sobreviver é um conselho maravilhoso! Porque uma mãe de primeira viagem não sabe um monte de coisas, precisa se adaptar e adaptar a família toda a uma série de coisas novas, porque uma mãe recém-nascida está louca de hormônios e está sendo sugada literal e emocionalmente por um serzinho absolutamente desconhecido e muitas vezes idealizado (o que leva a frustrações quando, por exemplo, o bebê não dorme a noite toda desde que voltou da maternidade, como o bebê da vizinha da prima da tia do marido). Logo, sobreviver, fazer o que dá, como dá, quando dá é ótimo. Não tente ser supermãe logo de cara. Não dá. Por maior que seja o instinto materno, você vai errar ou se desesperar ou as duas coisas juntas em meio a uma crise de choro do baby blues. Sobreviva. Aos poucos monte rotina, conheça seu filho, descubra o melhor caminho para vocês.
  • Respire - quando nada parece estar sob seu controle ainda existe uma coisa que você pode controlar e que vai realmente te ajudar a ir adiante e ultrapassar a agrura da vez: respirar. Respire de maneira consciente, inspirando e expirando.
  • Durma quando o bebê dormir - dane-se que tem visita na sala. Ela provavelmente dormiu a noite toda e vai dormir essa madrugada também. Quanto a você, já não há garantias. Então, durma!
  • Faça uma cestinha - em uma cestinha com alça (ou qualquer outra coisa com alça), coloque comidinhas (frutas, barrinhas de cereais, nozes etc.), uma garrafa de água, os telefones (celular e sem-fio), um caderninho e uma caneta. Carregue com você pela casa. No começo você se sente uma idiota fazendo isso, mas depois você vai perceber quão independente se tornará.
  • Dê banho enrolando o bebê numa fralda de pano - sério, isso mudou minha vida! Arthur odiava tomar banho, até que ouvimos o sábio conselho de enrolar o bacuri na fraldinha. É assim: você tira toda a roupa da criança,tira a fralda, limpa as partes pudentas e enrola o bebê numa fralda de pano. Daí, emerge o "pacotinho" na banheirinha e, para lavar, vai desembrulhando as partes: perninhas, bracinhos, peito... Tiro e queda! Arthur hoje em dia AMA tomar banho. Ah, e tem que notar o que seu bebê prefere: água mais quentinha ou mais morninha.
  • Rotina, rotina, rotina - "lavar roupa todo diaaaaa, que agoniaaaaa...". Ninguém sabe o que é rotina de verdade, só o Bill Murray naquele filme do Dia da Marmota (aproveite a licença-maternidade para ver Sessão da Tarde!) e os pais de bebês e crianças pequenas. E realmentte é fundamental estabelecer uma rotininha para que seu bebê se sinta mais seguro e feliz, e para que você consiga se organizar para fazer outras coisas na vida além de amamentar e trocar fralda, tipo ir ao banheiro, escovar os dentes e, com sorte, até tomar banho. Aqui em casa, a rotina foi crescendo a partir da hora de dormir. Ou seja, primeiro ensinamos ao Arthur que existia dia e noite, e que de noite ele deveria dormir. Assim, às 19h começávamos a entrar no modo "hora de dormir" e falávamos mais baixo, reduzíamos a intensidade das brincadeiras, ficávamos na penumbra e vetamos visitas pós oito da noite. Às 20h preparávamos o banho, com tudo absolutamente igual e ritualizado: mesma hora, mesma música, mesmo sabonete líquido (cheiro), mesma ordem de limpeza na banheira, mesmas frases na hora do banho, tudo igualzinho. Daí, sentávamos no sofá, só com a tv ligada (no mudo), e eu amamentava até que filhote dormisse. Ele aprendeu bem rápido e em poucos dias já estava no esquema. A partir daí, conseguimos ir montando uma rotininha, que ainda não está 100% estabelecida, mas que já é uma boa estrutura com a qual operamos muito bem, obrigada. Vale a pena, portanto, investir nesse sistema depressivo de repetir tudo de maneira idêntica, pois depois tudo fica melhor e mais fácil de gerir. Como dizia Renato Russo, "disciplina é liberdade".
  • Os 5 S - esse truque aprendemos na marra mesmo! Marido e eu íamos lá pelo quinto ou sexto dia do Arthur zumbizão, chorando horrores, dormindo nada. Daí marido foi catar na internet explicações para o inexplicável e deu de cara com um artigo científico de psicologa que citava o sistema dos 5 S do pediatra norte-americano Harvey Karp. Finalmente dei bom uso aos famosos cueiros do Arthur e resolvemos 98% das choradas desesperadas com o barulhinho infernal do útero materno (o que temos salvo em todos os computadores, no dropbox e em pelo menos 3 cds). Nos deixa meio surdos, é verdade, mas Arthur adora e fica visivelmente mais calmo. Funciona que é uma maravilha com o secador de cabelos e, se seu bebê não for muito criterioso, com tv ou rádio fora de sintonia (o chiadão mesmo). Arthur é seletivo e só se acalma com o som "original" ou com o secador. Mas voltando ao método, não curto todos os S propostos pelo cara e, por mais que treinasse, nunca consegui fazer aquele suave chacoalhar de lado com meu pequeno. E como não usamos chupeta, aqui em casa os 5 S viraram 2 S mesmo: swaddle e shhh.
  • Você vive para isso - essa descoberta eu fiz sozinha, e acho que pode ajudar alguém, embora eu saiba que não funciona para todo mundo. No começo do puerpério eu ficava muito angustiada por "não ter tempo para mais nada", até que um dia me dei conta de que cuidar do Arthur era absolutamente tudo o que eu tinha para fazer na vida e parei de "brigar" com meu lado "quero fazer tudo". Passei a curtir bem mais meu filho e fiquei mais feliz por ter o privilégio de poder cuidar dele nesses primeiros meses. Então, mamãe recém-nascida e angustiada com a mesmice do púerpério, tente pensar que você, agora, vive para isso: para cuidar do seu filho.
  •  
    Ser mãe (e ser pai) é tarefa exaustiva não só porque os filhos, no começo, dependem absolutamente de nós para sobreviverem. Mas também porque existem mil caminhos, um verdadeiro jardim borgiano, em que se vai escolhendo uma das muitas possibilidades de resolução de um problema imediato (o que elimina automaticamente todas as demais possibilidades de resolução daquele problema, naquele momento) e, assim, vai-se construindo um labirinto (muito mais que caminho) por onde devemos transitar e para o qual não há qualquer garantia de resolução, pois mesmo que sigamos os passos e escolhas alheios, nossos filhos são únicos e podem ter necessidades ou podem interpretar o mundo de modo diferente de outro bebê. Ou seja, cada pai e cada mãe tem a mui árdua tarefa de buscar, por conta própria, sem garantias de sucesso e arcando com as consequências dessas escolhas, aquilo que é (ou parece ser) mais certo naquele momento para si, para seu bebê e sua família. Por isso, meu conselho final não poderia ser outro: ame e faça escolhas conscientes. A maternidade (e a paternidade) é sem garantias. E é assim para todo mundo.

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Até que o último homem tombe sobre o solo

Este texto contém palavrões.

Eu tenho um pequeno e bravo guerreiro em casa. Todas as manhãs e todas as tardes ele luta com ferocidade, geralmente sucumbindo somente diante do peitinho franco-atirador, que sua mãe saca quando mais nada parece conseguir fazê-lo parar, ou do som do útero materno, que seu pai aciona quando sua fúria parece sem fim.
As batalhas são muitas: Soneca Para Mãe Dormir Mais Cinco Minutinhos, Soninho Para os Pais Almoçarem, Cochilo Para Frear Mal-humor Vespertino (também conhecida como a Batalha do Boi da Cara-Preta) e, a mais ferrenha, Dorme Para Mamãe Tomar Banho.
Todo dia é a mesma coisa: acordamos, ele de bom-humor, eu caindo pelas tabelas depois de loooongas e doloridas mamadas no meio da madrugada, daí marido fica com ele para que eu possa dormir mais um pouquinho (geralmente entre 20 minutinhos e 1 santa horinha), e então começamos a luta, filhos da pátria! Arthur pede peitinho, eu dou. Ele dorme e solta o peitinho. E chora. Eu reacoplo o menino nas peitolas. Ele chupeita e dorme, relaxa a boquinha e solta o mamilo. Alívio para as doloridas mamas da mãe, mas terror para os ouvidos de todos na casa (e, eventualmente, vizinhança). Pai se apieda dos urros de dor da mãe, que tenta recolocá-lo no seio, e aciona o som secador de cabelo. Arthur chora. Berra. Urra. Se descabela, mesmo sendo meio careca. Mamãe saca o peito para fora da blusa, mas papai inicia o método radical de ninada: pulinhos, mão na testa, som do útero e Boi da Cara-preta cantado ad infinitum. É hora do almoço, mas mamãe nem fez o xixi da manhã ainda. Bebê dorme. Papai pergunta: no berço, na cama, no carrinho, no bebê-conforto ou no balancinho? Mamãe responde: em qualquer lugar, já que ele vai acordar assim que sair do colo ou parar de chacoalhar. O video do Youtube termina, sem que papai ou mamãe percebam. Mas bebê nota. Abre os olhinhos. Pisca. E urra. Berra. E se acopla novamente ao peito rachado e mastitizado. Papai vai comer, porque o exército não pode ter tal baixa. Esquenta a comida e engole qualquer coisa meio requentada. Aproveita e faz um arroz com ovo para a mãe. Toma o bebê dos braços da mãe, que dá uma garfada, duas e... quase! Bebê acorda e a internet caiu, não há som milagroso, somente o colinho (e peitinho) da mamãe. Todos choram, menos papai, que precisa trabalhar e se tranca no home office. Mamãe derruba arroz com ovo no bebê. Uma súbita vontade de arrotar agita o bebê, que puuuuuuxa o mamilo esquerdo, perde a pega e abocanha aquela mutilação. Cai a casquinha. Sangue. Leite. Lágrimas. Home office foi para a puta que o pariu e papai lança mão do Boi da Cara-preta, mas Tutu Marambaia mora no nosso telhado. E ali mantém seu home office. Como Tutu mora no telhado, Arthur não dorme. Mamãe consegue fazer xixi. Mas ainda tem arroz com ovo.  Bebê de novo no peito. Dorme. Papai no home office. Mamãe, no sofá, tenta alcançar o antibiótico, que mais parece uma cápsula espacial, sem fazer o bebê perder a pega ou acordá-lo. São cinco da tarde. Um mau-humor generalizado toma conta da casa. Reload de todas as técnicas e estratégias já aqui listadas. Bebê dorme, mas acorda 20 minutos depois graças ao Reflexo de Moro. TománocuMoro! Bora dar uma volta? De carro ou de sling? De sling. Arthur, meu filho, calma, com as pernas esticadas assim, fica difícil te colocar no sling. Segura a perninha, amor. A cabeça tá meio torta. O quê? A cabeça. Meio torta (e entorta a cabeça). O quê? Porra, vou colocar ele na cadeirinha. Você viu  chave do carro? O quê? Aaaaaarrrghhhhhh! Shhh, meu filhinho, a gente vai dar uma voltinha para você dormir um pouquinho. Cinto afivelado. Garagem se abre. Que dia é hoje? Terça. Sábado. Sei lá: é o Dia da Marmota. Caralho! Sexta-feira, seis da tarde. Dá dedinho para o Arthur. Já dei. Ele não quer. O quê? O quê? Dedinho, meu filho, não posso te amamentar no carro. O quê? [Este engarrafamento é um oferecimento de Eduardo Paes] Pega a próxima à esquerda, tá mais livre. Ok, ele dormiu? Não, mas tá quase. Que horas são? Sete e meia, falta pouco para o banho, graças a deus! Ele dormiu? Não, mas tá rindo para o móbile. Pelo menos não está chorando. É. Bora voltar. Oito horas. Tira roupa, tira fralda, limpa bumbum, enrola na fralda, liga música, apaga luzes da casa (sempre rola uma topada ou uma canelada em algum canto) e mergulha o menino na água morna. Bocejo. Pais também bocejam. Sai do banho, roupa e fralda limpas, enrola no dudu, dá mais peito mutilado e não mutilado, coloca para arrotar e, enfim, ele dorme.
Lutou até que o último homem tombasse sobre o solo. Neste caso, o último homem é uma mulher.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 3

Em dias sem trânsito, a distância entre minha casa e a maternidade é de aproximadamente 10 minutinhos. Era um domingo, meio-dia, não havia trânsito: tive 5 contrações entre minha casa e a maternidade. CINCO. Fui abraçando o banco de trás do carro, com bolsa de água quente na lombar e travesseiro aparando minha barriga. Nas contrações, queria que tirassem a bolsa de água quente, porque aquilo me incomodava demais e eu estava morrendo de calor!
Chegamos na porta da maternidade e a ruazinha que dá acesso ao estabelecimento tinha um carro parado. Marido buzinou e gritou que eu estava parindo. O motorista, que falava ao celular, apenas colocou a mão para fora com o polegar voltado para baixo, como quem diz "quebrou, se vira aí". Marido buzinou de novo e o cara não se mexeu. Daí, a EO virou-se para ele e falou: "vamos empurrar?" Marido mal respondeu e já foi saindo do carro, seguido por ela. Quando eles colocaram a mão no carro enguiçado o motorista saiu, na disposição de brigar, falando "o que está acontecendo? Tirem a mão daí." Marido respondeu: "você está na porta de uma maternidade e minha mulher está parindo!" Na mesma hora o motorista se desculpou e ajudou a empurrar. A cena, então, era: uma mulher descabelada, de saia, top, barrigão de fora, em pleno trabalho de parto, urrando e berrando palavrões no banco de trás do carro, marido e EO empurrando o carro de um estranho mal-educado. Acho muito curioso que eu me lembre com muitos detalhes dessa cena porque, como eu disse, as coisas ficaram um pouco embaralhadas na minha memória e algumas coisas eu não sei se aconteceram antes ou depois de determinados fatos.
Carro empurrado, chegamos na maternidade. Aqui vale uma pausa dramática.
Uma família, dou minha cara a tapa que a mulher tinha agendado a cesária, vinha saindo, com bolas, flores e malas naquele carrinho estilo hotel. Todos ficaram muito chocados com a minha pessoa, descabelada e mal-ajambrada, de chinelo, berrando palavrões e agarrada na minha EO (que é cheia de tatuagens!). Brotou na minha frente uma cadeira de rodas, que eu recusei prontamete porque não conseguia conceber me sentar. A dor triplicava quando eu não podia escolher a melhor posição para aquela contração. Subi (ou desci, sei lá) para o centro cirúrgico somente com a EO, pois marido ficou resolvendo burocracias de internação e depois ia por outro caminho se vestir para entrar no centro cirúrgico (ainda não entendo porque uma sala de parto natural fica dentro de um CC, mas tudo bem). A EO entrou na sala em que se troca de roupa, pegou uma camisola bunda de fora, uma touquinha e pantufas, e pediu que chamassem minha GO. Sei lá como me vesti (exceto pela touquinha, que nem sei onde foi parar) e fui caminhando, meio trôpega, pelos corredores até que minha GO surgiu na minha frente. "Oi! Tudo bem? Eu estava na passeata. Olha, até me pintaram..." Eu fiquei olhando para ela, como se estivesse vendo uma pessoa verde com bolinhas roxas falando em grego arcaico comigo. Bom, eu suponho que esta fosse minha expressão, já que eu não entendi uma palavra do que ela disse e fiquei pensando: "oi? tudo bem? passeata? pintada? o que ela quer dizer com isso?" Seguimos centro cirúrgico adentro e entramos, enfim, na sala de parto humanizado, que era nada mais que um quarto de hospital, com um banheiro dentro do qual havia uma banheira enchendo (eu podia escutar, mas não via nada, porque a porta do banheiro estava fechada), uma cama que virava cadeira e uma luz fraquinha, criando uma penumbra. Depois de me instalar na cama/cadeira, entendi o que a médica dissera ao me encontrar: "ah, a passeata contra a violência obstétrica..." Eu estava meio aérea.
Dentro da sala estávamos eu, minha GO e duas enfermeiras da maternidade. Depois de um tempinho, entraram também marido e a minha querida EO. Em algum momento, já dentro da sala de parto, minha GO perguntou se eu queria tomar o antibiótico para o strepto positiv que tive no fim da gravidez. Havíamos conversado previamente sobre as minhas opções e escolhi tomar. Assim, as enfermeiras da maternidade entraram em ação para colocarem o acesso intravenoso. Achei muito curioso sentir a picada do acesso, pois jurava que depois de dores tão intensas, eu mal sentiria a picada de uma agulha. Ledo engano! Senti, e senti direitinho. Esse, sem sombra de dúvidas, foi o pior momento do parto, em termos de dor. Não por conta da picada, mas porque precisei ficar reclinada na cadeira/cama, e colocaram uma barra de ferro diante de mim (era uma cadeira para parto de cócoras, depois processei a informação. Contudo, sinceramente, não faço ideia de como alguém consegue parir ali em cima. Mas devem conseguir, porque cada mulher é uma e cada parto é único também). Aquela barra de ferro, naquele momento do TP, com contrações tão doloridas e seguidinhas, era uma barreira intransponível entre dores insuportáveis e algum conforto durante as contrações. Não conseguia sair dali e, aboletada naquela cadeira, sem conseguir me libertar (contrações + barrigão + acesso = imobilidade ou maior lentidão), tive três contrações terríveis. TERRÍVEIS. Sentia cada músculo do meu corpo se contrair de dor e experienciei uma coisa que nunca tnha vivido antes: eu tremia de tanta dor. Marido percebeu e, segundo me confessou mais tarde, foi o único momento do parto em que ficou nervoso, pois viu que eu estava sofrendo muitíssimo. Em meio a esse sofrimento intenso, gritei, pedi, implorei (sei lá qual foi meu tom!) que tirassem aquela barra de ferro e que me tirassem dali. Minha GO pediu que eu aguentasse mais um pouquinho porque já estava acabando o antibiótico e eu procurei relaxar ao máximo, sabendo que o sofrimento estava com minutos contados para acabar. Assim que me liberaram para que eu me movesse, só tive forças para virar de frente para a cadeira/cama, me agachar no chão, enfiar a cara nos travesseiros que estavam por ali (alguém deve ter colocado para me dar mais conforto) e urrar a cada contração.
Neste momento a GO e a EO cochicharam alguma coisa entre si e marido logo quis saber o que estava acontecendo. Assim, saíram ele e EO para o corredor do centro cirúrgico. Eu, que estava cheia de hormônio nas ideias mas nã sou boba, fiquei paranoica: o que está acontecendo? onde eles estão? A GO me acalmou, dizendo que marido foi buscar água (e de fato ele foi) e eu aproveitei para pedir água também. Bebi um golinho mínimo e comentei: "é que não quero vomitar." E a GO respondeu: "você vai conseguir, né? Vai passar a gravidez todinha sem vomitar uma única vez." E eu ri em resposta. Marido entrou de novo na sala junto com EO e alguém começou a ajeitar o acesso intravenoso para que eu pudesse me locomover melhor, sem aquele tubo para lá e para cá. Acontece que eu entrei na paranoia ocitocínica e, desesperada, falei: "ai, meu deus, vocês vão me levar para a cesária, né? Foi isso que vocês cochicharam, que eu vou para a cesária. Eu não quero..." Todo mundo riu, porque eles realmente estavam apenas ajeitando o acesso. Porém, os cochichos foram porque eu tive um rebordo de colo e a GO estava esperando que meu corpo desse um jeito sozinho, mas avisou à EO e ao marido que se eu precisasse, ela iria intervir. Felizmente não foi necessário!
Lembro de perguntar à GO quando a coisa ia ficar legal, porque eu sempre havia lido relatos em que a mulher adorava sentir contração e que ficava feliz porque o bebê estava nascendo e eu só queria que aquele ser saísse de dentro de mim logo, e acabasse imediatamente com meus sofrimento (gente, sem romantismos: dói pacas e eu não estava nada feliz que Arthur nascia. Eu só pensava: "tá acabando, tá acabando, tá acabando..."). Fiquei tendo umas contrações agachada (e segundo marido, em um momento eu levantei a cabe;a e exclamei: "Arthur, meu filho, sai logo que sua mãe tá muito zoada") e depois de um tempo (não faço ideia de quanto) minha GO disse que eu poderia fazer força quando sentisse vontade. Eu pensei: "Ela está louca! Eu vou sentir vontade de fazer força com essas dores? De jeito nenhum!" Mas respondi apenas: "Tá bom." O fato é que alguns instantes depois dela falar isso, comecei a sentir uma vontade de fazer força. Não dá para explicar muito bem o que isso significa, era apenas uma vontade de fazer uma força. E eu fiz. Uma, duas, três... e gemi: "Estou com medo!" É que o expulsivo foi, para mim, o momento mais intenso do parto todo. Primeiro porque sempre foi meu grande medo. Eu estava OK com as contrações, mas morria de medo do expulsivo. Além disso, o expulsivo foi um momento muito, muito, muito animalesco para mim. Eu iniciava o movimento de maneira consciente, mas a tal força tomava conta de mim, jogava meu ego para escanteio, e terminava o processo só com o id. Eu começava a força e ela se concluía, sem que eu conseguisse interferir, controlar ou interrromper nada. Uma força brutal, que começava onde outrora estava a boca do meu estômago e agora estava o fundo do útero e seguia contraindo todos os músculos abdominais até o baixo ventre. Foi quando perdi completamente o controle do processo, e fiquei com muito medo. Então, gemi baixinho. E minha super GO escutou, e disse: "Ártemis, lembra quando eu disse que parir é como pular de pára-quedas? Então, você está na porta do avião e vai precisar pular, não tem mais volta!" Isso, de alguma maneira louca me deixou mais calma (eu morro de medo de avião e de pular de pára-quedas. Sabe-se lá por que a metáfora funcionou para me acalmar, né?). Fiz mais um ou duas forças e falei: "Estou sentindo arder!" E pensei: "Círcuclo de fogo. Mas não diziam que o expulsivo não era dolorido? Mentiram para mim. Tudo dói, o tempo todo!" Entre uma força e outra alguém sugeriu que eu me acomodasse melhor, porque estava agachada em frente à cadeira/cama havia muito tempo e sei lá como meus músculos da perna estavam aguentando! Eu respondi, numa frase meio sem-sentido: "Não quero perder o que já conquistei." Marido disse que riu, porque eu estava doidona de hormônios e não fazia o menor sentido essa resposta, mas depois eu expliquei que só estava cansada demais para fazer todo o raciocínio, que era: eu estou sentindo que cada força que faço chego mais perto do fim, e não quero mudar de posição para não correr o risco de perder os centímetros que já conquistei, não quero arriscar me mexer e fazer o bebê recuar no canal de parto. Vai, gente, era uma resposta muito complexa para alguém em pleno expulsivo, cheia de ocitocina na cabeça!
Depois que avisei que sentia arder, devo ter feito umas três ou quatro forças e Arthur fez POP. Foi assim que senti: POP. Um movimento nada suave, de algo desentalando (confessem: este é o relato de parto menos frufruzento que vocês já leram, né? Nada de "oh, que coisa linda, maravilhosa, divina!"). Eu estava com a cara enfiada nos travesseiros, urrando, e não via nada. E estava tão focada nos puxos e nas minhas dores e sensações, que não escutava nada, não percebia muito bem o ambiente. Sei que senti um cheiro de queimado muito forte e falei para minha GO: "Disseram que depois que a cabeça saía parava de doer, mas é mentira. Quando vai ficar bom?" Fiz mais uma força e escutei: "Uma circular de cordão, heim!" Outra força e: "Ártemis, pega o seu filho!" E vi um serzinho de braços abertos, branquelo, chorando horrores, bem embaixo de mim. Vi e pensei: "É meu filho? Eu pari? Esse chinês é meu filho? Eu devo estar com muita cara de idiota, porque não estou entendendo nada e deveria estar sorrindo, chorando, sei lá... Será que esse bebê não está com frio? Preciso aquecê-lo porque não quero ele na incubadora." Daí eu segurei o Arthur. Depois de todos esses pensamentos em um segundo. Segurei, toda atrapalhada, aquele corpinho magricelo, escorregadio, quentinho e macio. Ainda com o cordão ligado a mim. Lembrei que tinha um marido, procurei por ele e, enfim, sorri. Fiquei ainda agachada uns instantes, até que alguém teve a boa ideia de me sentar na tal cadeira/cama. Pedi uns panos para aquecer o Arthur (eu estava muito paranoica de ele perder calor e ir para a incubadora. Vocês se lembram do episódio de visita à maternidade, né? Queria evitar a todo custo a tal "luzinha") e fiquei sentada, contando dedinhos, pensando "nossa, esse bebê tem tantas rugas! E não se parece com ninguém! Nem comigo, nem com meu marido!" e sendo abraçada e beijada pelo marido. Tentei dar de mamar no seio esquerdo, mas não consegui (sempre ele me dando problemas!). Arthur continuava dando demonstrações vocacionais (será cantor de ópera, pois tem um dó de peito daqueles!) até que eu consegui espetar o seio direito em sua boquinha, e ele então mamou por cerca de vinte minutos na asala de parto! A pediatra comentou: "Nossa, como ele mama!" Pois é: tinha uma pediatra na sala de parto e eu só percebi isso quando, logo depois que Arthur nasceu, ela falou: "Esse aí já nasceu chorando. Vai ganhar APGAR 10!" Pois é, Arthur, reza a lenda, colocou a cabeça para fora do meu corpo, com o corpinho ainda dentro de mim, e BERROU. Eu não vi nem ouvi nada, porque estava constatando que o expulsivo não era nada um passeio no campo, como muitas mulheres diziam, embora em um momento bem específico do processo eu tenha sentido certo prazer, porque o bebê passou pelo meu clitóris e foi até gostosinho (mas não se enganem: gostosinho superrápido, porque depois veio uma cacetada de dor). Quando Arthur começou a mamar, alguém apareceu com um novo refletor. Pois é, o refletor da sala de parto QUEIMOU e eu não vi nada (nem ninguém na sala de parto, bem na hora em que Arthur coroou!), pois estava com a cara enfiada nos travesseiros (mas senti o cheiro de queimado, lembram?).
Esperamos o cordão parar de pulsar e marido o cortou. Então esperamos pela placenta, que saiu sem me causar qualquer dor (aliás, muito pelo contrário pois foi com sua saída que todo e qualquer incômodo passou). Aí chegou a hora da verdade. Mas a verdade não era ruim: uma laceração grau 1 (apenas pele), que exigiu uns 4 pontinhos. Tentei negociar, mas a GO disse que era necessário suturar. Ela, então, aplicou anestesia e começou. Eu falei: "Vou me dar ao luxo de reclamar, viu? Tá doendo!"
E doeu mesmo. E mesmo com anestesia o troço incomodou. A curiosidade desse momento foi que eu fiquei com a língua completamente dormente, sei lá por que cargas d'água!
Enquanto eu tomava meus pontinhos, marido desceu com o rebento, para o check-in no berçário. Arthur mediu 50cm e pesou 3,310kg. Nada mal para um bebê saído da minha pequena barriga!
Depois de dados os pontos e de a adrenalina ter baixado, comecei a sentir as pernas tremerem: só naquele momento foi que os meus músculos enfim sucumbiram. Fui ajudada pelas enfermeiras da maternidade a me limpar (eu parecia uma personagem de filme de terror: coberta de sangue dos pés à cabeça) e passei sozinha para a maca que me levaria ao quarto. Assim que cheguei no quarto telefonei para ao berçário e pedi que trouxessem meu filho: não queria ficar mais um segundo sem ele. E então, depois de uns dois minutinhos, chegou marido, empurrando aquele bercinho que tinha meu lindo bebê chinês dentro. Chinês? É. Arthur nasceu com os olhinhos tão puxados que parecia um chinezinho, mas dias mais tarde ele mostrou que não era oriental coisa nenhuma.
Em nenhum momento do meu trabalho de parto e parto eu achei que a coisa não fosse funcionar. O único instante de medo foi no começo do expulsivo. Não tive medo de parir no carro ou em casa, de o TP não engrenar, de eu chegar na maternidade e a coisa estagnar, nada. Não tive medo. Mergulhei, me entreguei. E se tiver outo filho, outro parto, pretendo fazer o mesmo, embora saiba que cada parto é único.
Entrei em TP efetivo por volta das 8 da manhã e às 13h meu filhote já havia nascido.
Não sofri intervenções desnecessárias, meu filho também não. Não ficou na "luzinha", nem foi aspirado, não teve colírio e nem banho. Eu quis a vitamina K injetável e o antibiótico que fizeram em mim.
Eu sambei na cara da sociedade médica intervencionista, pois tive um parto natural, com quadril estreito, bebê de bom tamanho, strepto positivo, circular de cordão.
Espero que da próxima vez, no meu próximo filho, eu tenha a mesma sorte que tive no primeiro: partaço empoderador e maravilhoso (apesar da dor, porque o lelê dói mesmo, porém dá para aguentar, sim!). Mas espero ainda mais que mais mulheres tenham o direito de escolher e de ter sua escolha respeitada na gravidez, parto e pós-parto.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Vamos cantar o Blues da Piedade

"Quero cantar os blues/com o pastor e o bumbo na praça/ Vamos pedir piedade/ pois há um incêndio sob a chuva rala/ Somos iguais em desgraça/ vamos cantar o blues da piedade"

Cazuza e puerpério pode ser uma boa combinação. E esse post vai com o Blues da Piedade como trilha sonora, porque você, mãe, blogueira, que já teve um recém-nascido pendurado 24h nos seus peitos esfolados enquanto assiste à toda grade televisiva (viva a tv a cabo!), da manhã, da tarde, da noite E da madrugada, você há de ter piedade dessa mãe em pleno puerpério, curtindo um blues: o baby blues.
Estamos ótimos, tudo lindo, certinho, saúde e leite por aqui. Mas também aquele desespero quando o baby chora e só os peitos (rachados e esfolados) salvam. Aquela tristeza de viver, há 16 dias, o dia da marmota que só mama e quase não dorme. E, é claro, aquela culpa de estar sentindo tudo isso, porque, oras não era o que você queria, Ártemis?, achou que um recém-nascido fizesse o quê, malabares com as chupetas?
É, eu sabia, e agora eu sei mais. Acontece que eu, ligada no 220, trabalhadora e moça muderna desse Brasil varonil, estou dependente do marido até para fazer xixi - aliás, sobretudo para fazer xixi. Hoje, pasmem, fui de sling aqui embaixo, comprar absorvente. E esse é o tipo de grande acontecimento: ir ao banco, na farmácia, no mercadinho. Em breve faremos um ousado passeio até o café do outro lado da rua, para que eu assista ao marido beber café (enquanto eu finjo, mesmo com esse calorão louco em pleno julho, que estou em Paris).

Só quem já teve um recém-nascido vai entender que, apesar do tom melodramático deste post, está tudo lindo e ótimo por aqui.
Prometo voltar assim que o pequeno dormir de novo e me deixar pelo menos um braço para que eu escreva um post meio tosco, como este.