Amanhã haverá uma tempestade. Serão raios, trovões e ventos muito fortes. Temos risco de haver tornados. A recomendação é sempre exagerada, como se estivéssemos a beira de um cataclisma sem precedentes na história da humanidade. Foi assim no vórtex polar de 2013 e será assim em todos os anos, para todos os eventos naturais. E eu sou cria do Twistter, o filme, não o jogo. Então, planejo ficar em casa, segura, quentinha e bem longe de vacas.
Mas, Ártemis, não tô acompanhando.
É, é que essa história me fez lembrar de um causo que eu nunca contei por aqui, e agora me parece a hora perfeita.
Então, pega lá a pipoca, senta confortável e vem comigo, de volta a 2015.
Era junho. Eu já morava aqui tinha um tempinho e nunca soube que Illinois (o estado onde fica Chicago) fazia parte da rota dos furacões. Ficou chocadx? Pois é, eu também fiquei em 2015. E sabem como eu descobri isso? No olho de um tornado.
Era junho e, como vocês sabem (e se não sabem deem uma olhada no meu relato de parto), Arthur nasceu neste lindo mês. Então, estava eu prestes a ir passar umas férias no Brasil, com o aniversário do rebento a poucos dias de acontecer e eu resolvi fazer o quê, o quê? Isso: comprar as lembrancinhas da festinha que teríamos no Brasil numa loja daqui. Ia sair baratinho e com certeza faria sucesso (como de fato fez). Estávamos com um amigo hospedado aqui em casa e ele queria comprar umas coisas para o casamento dele, então decidimos ir juntos.
Eu nunca, nunca, nunca saio de casa sem olhar o aplicativo de previsão do tempo. Nunca. Isso e tirar as luvas da mochila são duas coisas que eu nunca faço aqui. Uma maluquice está ligada a outra: o clima doido da região pode trazer um frio de lascar em pleno verão ou outras gracinhas climáticas altamente insuspeitas para uma carioca como eu. Na minha terra, o clima funciona assim: temos duas estações, o verão e o eutono (eu tô no inferno). De manhã a temperatura é sempre mais baixa e geralmente ela vai aumentando ao longo do dia até se tornar insuportável por volta de meio-dia, uma da tarde, então ela vai baixando de novo - às vezes não muito, é verdade - até que de madrugada/de manhãzinha ela está mais baixa. Outro funcionamento climático bastante preciso e regrado: se o tempo tá com aquele bafo quente, lá vem chuva. E no verão vai ser chuvona rápida e pesada. Fim. Mas aqui, amigos e amigas, é tudo louco e imprevisível. Tem bafão sem chuva, tem calor de madrugada e um frio de rachar ao meio-dia do mesmo dia, tem chuva e cinco minutos depois um céu tão azul que faz a Galinha Pintadinha parecer verde. É doido assim. Por isso as luvas e por isso sempre aquela conferida no aplicativo de previsão de tempo - que, felizmente, funciona com uma precisão bastante impressionante, dando os MINUTOS do horário da chuva e geralmente acertando.
Pois bem, era junho e eu vi no aplicativo que choveria. Bastante. Raios e trovões previstos. Pensei: vou estar no trem, depois na loja, só tenho hoje para compras as lembrancinhas porque viajamos amanhã, então decidi encarar. Nosso amigo embarcou na maluquice comigo e lá fomos nós, sacolejando dentro do trem e chegando na loja com ajuda do GPS.
Entramos, vimos muitas coisas, separamos algumas, desistimos de outras e fomos pagar. Pagamos. Deu fome. Pensei: é rapidinho até em casa, ainda não tá chovendo, não sei onde comer por aqui por perto, vou entrar logo no trem e como em casa.
Bom, depois desse dia, existem TRÊS coisas que eu nunca faço aqui: sair de casa sem luvas, sair de casa sem checar o tempo e sair de onde quer que eu esteja sem comer, porque eu tenho o péssimo hábito de desmaiar quando fico mais de três horas sem comer.
Entramos na estação cheios de sacolas e, de repente, em questão de três, quatro minutos, o céu virou noite. Ainda era cedo, mas precisaram acender as luzes da plataforma. Tinha muita gente ali esperando o trem. E o lugar foi enchendo cada vez mais. E mais. E o céu foi escurecendo mais e mais e mais e... ZÁÁÁSSS. Cabrum.
O primeiro raio caiu relativamente perto de nós e iluminou meu rosto abobado diante daquela tempestade monumental. Eu entendi ali o sentido da expressão "brewing a storm". A coisa estava meio que em ebulição na minha frente, com as nuvens escuras se movendo em alta velocidade e com os raios caindo cada vez mais perto e a intervalos mais curtos. De repente, um raio cai no segundo prédio depois da estação. E nada de o trem chegar. E nada da minha fome melhorar (óbvio). E eu não sabia se minhas mãos estavam frias de nervoso, frio ou fome. Depois do último raio a cidade entrou em alerta. As sirenes dispararam, algumas luzes se apagaram e ficamos ali, na plataforma apinhada de chicagoanos entediados, ouvindo as sirenes entrecortadas por trovões. Minha pressão começou a cair e eu fiquei apavorada com a possibilidade de desmaiar em meio a um tornado, pois meu celular começou a vibrar loucamente com alertas vermelhos piscando e avisando dos tornados que vinham chegando. Paniquei. Liguei pro marido. Dei mini chilique com o amigo. Pensei, com o pouco de energia que me restava, em estratégias de sobrevivência: voltar correndo para a loja de onde viemos e me entupir de chocolates? Descer e pegar um táxi? Agarrar o primeiro transeunte pela gola da camisa e gritar "stop this train"? Ops, essa última ideia eu já tinha usado outra vez, em outra história e não tinha dado muito certo.
Enfim, meu estado de nervos era tal que quando chegou o trem eu nem me lembro como consegui um lugar sentada. Talvez eu tenha pedido ajuda, talvez o amigo tenha sido cavalheiramente sagaz e tenha guardado um banco para mim. Não me lembro, porque eu só conseguia pensar em vacas voando, em desmaios cinematográficos em meio à multidão, nos noticiários que contariam a história da mãe que foi levada pelo tornado quando saiu para comprar lembrancinhas para a festa do filho.
Chegamos em casa antes da chuva, antes do tornado que afinal nunca veio e antes do meu desmaio. Hoje virou história engraçada para entreter os amigos, mas sendo história, também me serve de lembrança e aviso para o futuro. Amanhã temos previsão de tempestades fortes e possibilidade de tornado. Estou em casa, com comida na geladeira e luvas na bolsa. Ainda bem que é novembro, um mês sem aniversários por aqui.
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domingo, 5 de novembro de 2017
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Precisamos falar sobre Rozebroeken
Precisamos falar sobre Rozebroeken. Quer dizer, eu preciso falar sobre Rozebroeken, seja lá o que isso signifique em holandês. Mas, Ártemis, como é que você vai falar de uma coisa que não sabe o que é? Ah, eu posso não falar holandês, mas além de ter o google translator a meu lado, eu sei o que Rozebroeken significa em português, e ousaria até dizer em todas as línguas do mundo: o paraíso das águas cloradas!
Rozebroeken é, simplesmente, um complexo indoor de piscinas de águas deliciosamente aquecidas e brinquedos, e tobogãs, e escorregas, e uma piscina de ondas, e spa, e área com hidromassagem, e restaurante onde toda a família pode ir se divertir.
Fica a uma hora de caminhada daqui de casa (15 minutos de bike, se um dia eu perder o medo de me estabacar debaixo de um trole ou de beijar os paralelepípedos históricos) e foi a melhor coisa que fizemos aqui.
Dirão os eruditos: mas e o castelo de 1080? e os passeios de barco pelos canais? e a história, os monumentos e prédios históricos, a cultura flamenga?
Bróder, eruditos podem até ter filhos, mas eles com certeza não tem a voltagem do meu pequeno! Arthur passou uma semana falando do raio do castelo, levamos ele lá para dentro e o menino percebeu que era um museu, onde não poderia correr, gritar, pular, lamber o vidro e nem comer pedra (sim, ele tentou fazer tudo isso). Então passamos da etapa 1 para a etapa 14 da visitação, que por sinal era a última e terminava no pátio de areia entre o muro e o castelo, e ali ficamos até sermos expulsos pelo velhinho rabugento que tomava conta da portaria.
Dito isso, reafirmo: que mané essas coisinhas turísticas e históricas. Bom mesmo foi o Rozebroeken e seus milhares de litros cúbicos de água. Bom mesmo foi ir no tobogã com Arthur e ter um micro-enfarto quando ele, por três longos segundos, escapoliu do meu colo e tomou um senhor caldo no meio da correnteza. Bom mesmo foi levar um apitaço dos guarda-vidas porque Arthur estava ESCALANDO as estatuetas cuspidoras de água e gritando "olha, mamãe! tô aqui no alto!", e marido, míope em um grau ensurdecedor - quem é míope ou convive com um sabe que ocorre um fenômeno sinestésico e assim que umx míope tira os óculos, elx fica automaticamente surdx - gritando do outro lado "vai lá você, Ártemis!", embora ele estivesse a poucos passos do lugar enquanto eu, tentando não desmaiar de fome, esperava com o dinheiro do troco na mão pelo sanduíche que pedi no restaurante. Bom mesmo foi entrar correndo, então, na piscininha infantil e levar aquele estabaco patético, em que só um lado da cara mergulha, bagunçando o cabelo parcialmente, mas arrasando por completo com a dignidade, só porque você fez um malabarismo inacreditável e salvou os cinco euros que estavam em sua mão. Vejam bem: entre a minha dignidade e cinco euros eu ando escolhendo a bufunfa!
Bom foi Arthur chegar em casa, pedir para comer, comer, pedir sobremesa, comer a sobremesa, pedir para escovar os dentes e passar fio dental (!!!) e, finalmente, colocar o pijama e dizer "mamãe, eu te amo e quero dormir". Como não amar Rozebroeken, esse lugar que acabei de conhecer, mas que já considero pacaraleo? Como não amar seu tobogã onde um gringo (local, na verdade) pinguço me canta? Como não amar seus guarda-vidas se escangalhando de rir do meu tombo?
Olha, se alguém que está lendo meu blog vier passear nestas bandas daqui, com ou sem criança, recomendo muito que vá visitar Rozebroeken e suas águas maravilhosas. Como é indoor, é programa também para inverno, viu?
E para completar minha paixão o lugar tem: 1) cercadinho/bercinho ao lado do restaurante para colocar o bebê molhado enquanto você come, sem precisar sair correndo atrás do engatinhante ou caminhante kamikase; 2) chuveirão coletivo e escaldante (ótimo para relaxar os pequenos depois da piscinada); 3) atividades para todas as idades (tem uma piscina IMENSA com estrutura para diversos esportes aquáticos e, pelo que entendi, eles têm aulas de hidro, natação e cia.); 4) passe familiar; 5) gente disposta a ajudar você com o braceletes high-tech que eles nos dão na entrada e que servem para acionar de um tudo ali dentro, inclusive as travas dos armários no vestiário).
Site oficial aqui.
Rozebroeken é, simplesmente, um complexo indoor de piscinas de águas deliciosamente aquecidas e brinquedos, e tobogãs, e escorregas, e uma piscina de ondas, e spa, e área com hidromassagem, e restaurante onde toda a família pode ir se divertir.
Fica a uma hora de caminhada daqui de casa (15 minutos de bike, se um dia eu perder o medo de me estabacar debaixo de um trole ou de beijar os paralelepípedos históricos) e foi a melhor coisa que fizemos aqui.
Dirão os eruditos: mas e o castelo de 1080? e os passeios de barco pelos canais? e a história, os monumentos e prédios históricos, a cultura flamenga?
Bróder, eruditos podem até ter filhos, mas eles com certeza não tem a voltagem do meu pequeno! Arthur passou uma semana falando do raio do castelo, levamos ele lá para dentro e o menino percebeu que era um museu, onde não poderia correr, gritar, pular, lamber o vidro e nem comer pedra (sim, ele tentou fazer tudo isso). Então passamos da etapa 1 para a etapa 14 da visitação, que por sinal era a última e terminava no pátio de areia entre o muro e o castelo, e ali ficamos até sermos expulsos pelo velhinho rabugento que tomava conta da portaria.
Dito isso, reafirmo: que mané essas coisinhas turísticas e históricas. Bom mesmo foi o Rozebroeken e seus milhares de litros cúbicos de água. Bom mesmo foi ir no tobogã com Arthur e ter um micro-enfarto quando ele, por três longos segundos, escapoliu do meu colo e tomou um senhor caldo no meio da correnteza. Bom mesmo foi levar um apitaço dos guarda-vidas porque Arthur estava ESCALANDO as estatuetas cuspidoras de água e gritando "olha, mamãe! tô aqui no alto!", e marido, míope em um grau ensurdecedor - quem é míope ou convive com um sabe que ocorre um fenômeno sinestésico e assim que umx míope tira os óculos, elx fica automaticamente surdx - gritando do outro lado "vai lá você, Ártemis!", embora ele estivesse a poucos passos do lugar enquanto eu, tentando não desmaiar de fome, esperava com o dinheiro do troco na mão pelo sanduíche que pedi no restaurante. Bom mesmo foi entrar correndo, então, na piscininha infantil e levar aquele estabaco patético, em que só um lado da cara mergulha, bagunçando o cabelo parcialmente, mas arrasando por completo com a dignidade, só porque você fez um malabarismo inacreditável e salvou os cinco euros que estavam em sua mão. Vejam bem: entre a minha dignidade e cinco euros eu ando escolhendo a bufunfa!
Bom foi Arthur chegar em casa, pedir para comer, comer, pedir sobremesa, comer a sobremesa, pedir para escovar os dentes e passar fio dental (!!!) e, finalmente, colocar o pijama e dizer "mamãe, eu te amo e quero dormir". Como não amar Rozebroeken, esse lugar que acabei de conhecer, mas que já considero pacaraleo? Como não amar seu tobogã onde um gringo (local, na verdade) pinguço me canta? Como não amar seus guarda-vidas se escangalhando de rir do meu tombo?
Olha, se alguém que está lendo meu blog vier passear nestas bandas daqui, com ou sem criança, recomendo muito que vá visitar Rozebroeken e suas águas maravilhosas. Como é indoor, é programa também para inverno, viu?
E para completar minha paixão o lugar tem: 1) cercadinho/bercinho ao lado do restaurante para colocar o bebê molhado enquanto você come, sem precisar sair correndo atrás do engatinhante ou caminhante kamikase; 2) chuveirão coletivo e escaldante (ótimo para relaxar os pequenos depois da piscinada); 3) atividades para todas as idades (tem uma piscina IMENSA com estrutura para diversos esportes aquáticos e, pelo que entendi, eles têm aulas de hidro, natação e cia.); 4) passe familiar; 5) gente disposta a ajudar você com o braceletes high-tech que eles nos dão na entrada e que servem para acionar de um tudo ali dentro, inclusive as travas dos armários no vestiário).
Site oficial aqui.
![]() |
| Tobogã ou "rio selvagem". |
![]() |
| Piscinhinha da perda da dignidade. No meio dá para ver a lagarta que Arthur escalou. |
sexta-feira, 30 de setembro de 2016
O drama das malas (e outras histórias)
[Vai amamentar porque é textão!]
Já falei que eram cinco. E já falei que teve drama. Mas acho que ninguém imagina o nível de drama. Só de lembrar me dá vontade de chorar, de jogar todos os meus trapos numa fogueira de adoração ao minimalismo e até mesmo virar adepta ao naturalismo, quem sabe? Afinal, ainda temos no horizonte Brasil, Angola e Chicago de volta. Com as malas.
Tudo começou, óbvio, em Chicago.
A casa era pequena, mas não era minúscula, e a quantidade de tralha que a gente acumula ao longo dos anos é realmente impressionante. Como disse marido, até hoje a gente espera a ligação do guarda-móveis dizendo que a porta de aço do nosso cubículo explodiu de tão cheio que ele estava.
Mas então, ainda lá em Chicago a gente fez a triagem das coisas que seriam guardadas e das que seriam descartadas. Muita coisa foi embora, muita coisa ficou, mas a gente ainda tinha as malas a serem feitas.
Começou o drama do combo amplitudes térmicas + crescimento do Arthur + não saber como lavaremos roupa em Angola. Tentei montar uma mala enxuta, mas existem coisas que precisavam vir com a gente, para dar a Arthur um sentido de continuidade, de pertencimento à próxima casa, né? Eu entendo que vamos ficar um ano fora, que é provisório, que as coisas profundas que compõem um lar não vão dentro da mala, mas dentro da gente. Acontece que Arthur tem 4 anos e não estava curtindo nada aquele bando de "encaixota", "joga fora", "doa".
Bom, fizemos nossas sete malas. Sete? Ué, não eram cinco?
Calma! Eu chego lá.
Fizemos sete malas na véspera de levar as coisas para o guarda-móveis, em meio a um processo de "desentulhamento" nunca visto antes, em meio a uma obsessiva limpeza de cantinhos e detalhes para não pagar multa (tem uma lista de coisas que você precisa limpar antes de entregar o apartamento - coisas, inclusive, que NÃO recebemos conforme o manual). Fizemos as malas logo depois que a última visita foi embora, porque, sim, tivemos 3 visitas nas semanas finais de encaixotamento. Fizemos as sete malas até de madrugada, mesmo sabendo que no dia seguinte, bem cedinho, nosso vizinho parça viria nos ajudar a carregar o caminhão com os móveis e as caixas que iriam ser armazenadas no guarda-móveis.
Pausa técnica: não sei se todo mundo sabe, eu não sabia, então vou contar. Sabe como as pessoas se mudam nos EUA? Tem duas maneiras que eu conheço: você contrata um caminhão com gente para transportar suas tralhas e deixa um rim como forma de pagamento, ou você contrata um caminhão, que será dirigido e carregado por você, e faz tudo por conta própria mesmo. Adivinhem qual foi a nossa "opção"? Isso mesmo. Alugamos um caminhãozinho que, com a ajuda do nosso vizinho camarada-salvador-da-pátria, enchemos com nossos móveis e tralhas a serem levados para o guarda-móveis. Lá no guarda-móveis, a mesma história: você faz tudo. Era um dia quente. Eu achei que fosse ter um treco, juro! Suei como se estivesse na UERJ nos áureos tempos adolescentes, dentro daquelas salas de aula sem ar nem ventilador e que refratavam os 50 graus do Maracanã para dentro das paredes de concreto. Carreguei muito peso, levantei caixas maiores que eu, equilibrei tralhas em posições que dariam inveja ao mais flexível praticante do Kama Sutra, fiz caber em um espaço de 25 pés quadrados (seja lá quanto for isso) três anos de Chicago + lembranças imperdíveis de 30 anos no Brasil. Ou seja: coisa bagarái. Devo tudo isso aos meus anos de prática com Tetris. ❤
Mas voltemos às malas.
As malas, então, ficaram ali no apartamento, semi-abertas, porque não tínhamos mais cabides, nem cômodas, nem nada. Na verdade, tínhamos tudo isso, mas guardado ou esvaziado.
Pois bem, fizemos o transporte das coisas, voltamos para um apartamento cheio de eco com as malas, e só as malas, já que todos os móveis estavam guardados. Foram dois dias até irmos para o hotel onde ficamos nos dois dias anteriores à viagem. Dois dias tensos. Dois dias desconfortáveis, dormindo no chão (menos Arthur, que ficou com o sofá velho que depois jogamos fora), comendo comida congelada com talheres de plástico e muitas outras coisinhas altamente precárias.
As malas, sete, não cabiam em um táxi comum. Uber XL era caro. Táxi XL idem. Decidimos, então, aproveitar a minivan que tínhamos alugado para levar tudo até o hotel. O carro não entrava na garagem porque era mais alto que as vigas, então manobramos com a ajuda do garagista, que vendo nós três descarregar malas e mais malas (e um painel solar IMENSO), perguntou se iríamos ficar meses, ao que respondemos "dois dias". Queria ter tirado foto da cara do homem. ahahah
Bom, primeiro dia foi dedicado a deitar nas camas macias e limpas do hotel, a tomar banhos quentes e longos, comer comida quente e prearada na hora, a ir à piscina e... a resolver milhares de pepinos que surgiram de última hora, o que anulou por completo nossas tentativas de desestressar. Lista esta que incluiu sair para comprar uma mala nova, bem grandona, porque descobrimos que uma das nossas tinha se quebrado. Que beleza!
Bom, o outro dia já era a véspera da viagem, então precisaríamos terminar de resolver a pepinada (que parecia, na verdade, um bando de ratos se reproduzindo alucinadamente) e começar a focar no deslocamento em si, nos processos de saída e chegada em dois países diferentes e essas coisas que vocês devem saber. Corre daqui, corre dali, a noite chegou, Arthur dormiu e fomos passar o pente fino no quarto (para não deixar nada para trás), nos documentos (idem) e, claro, reorganizar as malas. Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo fluindo. Até que marido resolveu cuidar da nossa chegada em Ghent (vou escrever o nome da cidade em inglês mesmo porque acho caído Gante). Decidimos agendar um serviço de shuttle e lá no contrato vinha dizendo que eles não cobravam as malas "normais", uma por passageiro mais a de mão. Opa! Acendeu o alerta vermelho e marido foi ver no site da companhia aérea. Eu, atrás dele, afirmava, convicta: claaaaro que são duas malas de até 32kg para cada um! Óbvio!
ahahahahahahahaha (riam comigo)
Lemos e relemos diversas vezes para nos certificarmos de que, sim, pela primeiríssima vez na vida (cof! cof!) eu estava errada. As regras para viagens ao Brasil são as que falei: duas malas de até 32kg. Mas, para a Europa, é uma malinha só e o peso não pode ultrapassar 23kg.
Neste momento, um letreiro luminoso se acendeu em minha testa, piscando em neon vermelho: FODEU! FODEU! FODEU!
Eram onze da noite, véspera da nossa fucking viagem, e tínhamos acabado de descobrir que precisaríamos deixar QUATRO das malas que estavam conosco. Como fazer isso? Onde colocar as QUATRO malas que precisaríamos deixar? A que horas terminaríamos de fazer tudo?
Nessa hora eu tive vontade de deitar em posição fetal e chorar até dormir. Mas eu dormiria rápido, e era véspera da viagem, então a única possibilidade era abrir TODAS - vou repetir - T-O-D-A-S as nossas malas e ver, peça por peça, o que iria e o que ficaria.
Conseguimos, com muito suor e esforço. As malas, que eram sete (fora as de mão e o painel solar), se transformaram em três + duas de mão. Marido ainda teria a árdua missão de levar e encaixar, sabe-se lá como e onde, as quatro malas remanescentes no nosso depósito já abarrotado até o teto (literalmente)!
Eram duas e meia da manhã quando fechamos o último zíper. Exaustos, desmaiamos por algumas horas, até que fomos acordados pelo despertador e recomeçou a correria: corre para tomar café, corre para pegar um táxi e levar as malas até o guarda-móveis, corre para fazer check-out, corre para dar tchau para os bibliotecários (sim, importantíssimo para nós), corre para resolver os últimos pepinos que exigiam nossa presença física, corre, corre, corre. Corra, Ártemis, corra! No primeiro final, Ártemis e família não conseguem. No segundo final, Ártemis e família se separam, marido embarca sozinho, ela e Arthur choram porque não conseguiram completar as etapas obrigatórias da gincana e perderam os passaportes. Mas no terceiro final, que foi o que decidi viver, tudo deu certo, aos trancos e barrancos, e fomos de táxi XL, falando francês, até chegarmos ao aeroporto.
(continua...)
Já falei que eram cinco. E já falei que teve drama. Mas acho que ninguém imagina o nível de drama. Só de lembrar me dá vontade de chorar, de jogar todos os meus trapos numa fogueira de adoração ao minimalismo e até mesmo virar adepta ao naturalismo, quem sabe? Afinal, ainda temos no horizonte Brasil, Angola e Chicago de volta. Com as malas.
Tudo começou, óbvio, em Chicago.
A casa era pequena, mas não era minúscula, e a quantidade de tralha que a gente acumula ao longo dos anos é realmente impressionante. Como disse marido, até hoje a gente espera a ligação do guarda-móveis dizendo que a porta de aço do nosso cubículo explodiu de tão cheio que ele estava.
Mas então, ainda lá em Chicago a gente fez a triagem das coisas que seriam guardadas e das que seriam descartadas. Muita coisa foi embora, muita coisa ficou, mas a gente ainda tinha as malas a serem feitas.
Começou o drama do combo amplitudes térmicas + crescimento do Arthur + não saber como lavaremos roupa em Angola. Tentei montar uma mala enxuta, mas existem coisas que precisavam vir com a gente, para dar a Arthur um sentido de continuidade, de pertencimento à próxima casa, né? Eu entendo que vamos ficar um ano fora, que é provisório, que as coisas profundas que compõem um lar não vão dentro da mala, mas dentro da gente. Acontece que Arthur tem 4 anos e não estava curtindo nada aquele bando de "encaixota", "joga fora", "doa".
Bom, fizemos nossas sete malas. Sete? Ué, não eram cinco?
Calma! Eu chego lá.
Fizemos sete malas na véspera de levar as coisas para o guarda-móveis, em meio a um processo de "desentulhamento" nunca visto antes, em meio a uma obsessiva limpeza de cantinhos e detalhes para não pagar multa (tem uma lista de coisas que você precisa limpar antes de entregar o apartamento - coisas, inclusive, que NÃO recebemos conforme o manual). Fizemos as malas logo depois que a última visita foi embora, porque, sim, tivemos 3 visitas nas semanas finais de encaixotamento. Fizemos as sete malas até de madrugada, mesmo sabendo que no dia seguinte, bem cedinho, nosso vizinho parça viria nos ajudar a carregar o caminhão com os móveis e as caixas que iriam ser armazenadas no guarda-móveis.
Pausa técnica: não sei se todo mundo sabe, eu não sabia, então vou contar. Sabe como as pessoas se mudam nos EUA? Tem duas maneiras que eu conheço: você contrata um caminhão com gente para transportar suas tralhas e deixa um rim como forma de pagamento, ou você contrata um caminhão, que será dirigido e carregado por você, e faz tudo por conta própria mesmo. Adivinhem qual foi a nossa "opção"? Isso mesmo. Alugamos um caminhãozinho que, com a ajuda do nosso vizinho camarada-salvador-da-pátria, enchemos com nossos móveis e tralhas a serem levados para o guarda-móveis. Lá no guarda-móveis, a mesma história: você faz tudo. Era um dia quente. Eu achei que fosse ter um treco, juro! Suei como se estivesse na UERJ nos áureos tempos adolescentes, dentro daquelas salas de aula sem ar nem ventilador e que refratavam os 50 graus do Maracanã para dentro das paredes de concreto. Carreguei muito peso, levantei caixas maiores que eu, equilibrei tralhas em posições que dariam inveja ao mais flexível praticante do Kama Sutra, fiz caber em um espaço de 25 pés quadrados (seja lá quanto for isso) três anos de Chicago + lembranças imperdíveis de 30 anos no Brasil. Ou seja: coisa bagarái. Devo tudo isso aos meus anos de prática com Tetris. ❤
Mas voltemos às malas.
As malas, então, ficaram ali no apartamento, semi-abertas, porque não tínhamos mais cabides, nem cômodas, nem nada. Na verdade, tínhamos tudo isso, mas guardado ou esvaziado.
Pois bem, fizemos o transporte das coisas, voltamos para um apartamento cheio de eco com as malas, e só as malas, já que todos os móveis estavam guardados. Foram dois dias até irmos para o hotel onde ficamos nos dois dias anteriores à viagem. Dois dias tensos. Dois dias desconfortáveis, dormindo no chão (menos Arthur, que ficou com o sofá velho que depois jogamos fora), comendo comida congelada com talheres de plástico e muitas outras coisinhas altamente precárias.
As malas, sete, não cabiam em um táxi comum. Uber XL era caro. Táxi XL idem. Decidimos, então, aproveitar a minivan que tínhamos alugado para levar tudo até o hotel. O carro não entrava na garagem porque era mais alto que as vigas, então manobramos com a ajuda do garagista, que vendo nós três descarregar malas e mais malas (e um painel solar IMENSO), perguntou se iríamos ficar meses, ao que respondemos "dois dias". Queria ter tirado foto da cara do homem. ahahah
Bom, primeiro dia foi dedicado a deitar nas camas macias e limpas do hotel, a tomar banhos quentes e longos, comer comida quente e prearada na hora, a ir à piscina e... a resolver milhares de pepinos que surgiram de última hora, o que anulou por completo nossas tentativas de desestressar. Lista esta que incluiu sair para comprar uma mala nova, bem grandona, porque descobrimos que uma das nossas tinha se quebrado. Que beleza!
Bom, o outro dia já era a véspera da viagem, então precisaríamos terminar de resolver a pepinada (que parecia, na verdade, um bando de ratos se reproduzindo alucinadamente) e começar a focar no deslocamento em si, nos processos de saída e chegada em dois países diferentes e essas coisas que vocês devem saber. Corre daqui, corre dali, a noite chegou, Arthur dormiu e fomos passar o pente fino no quarto (para não deixar nada para trás), nos documentos (idem) e, claro, reorganizar as malas. Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo fluindo. Até que marido resolveu cuidar da nossa chegada em Ghent (vou escrever o nome da cidade em inglês mesmo porque acho caído Gante). Decidimos agendar um serviço de shuttle e lá no contrato vinha dizendo que eles não cobravam as malas "normais", uma por passageiro mais a de mão. Opa! Acendeu o alerta vermelho e marido foi ver no site da companhia aérea. Eu, atrás dele, afirmava, convicta: claaaaro que são duas malas de até 32kg para cada um! Óbvio!
ahahahahahahahaha (riam comigo)
Lemos e relemos diversas vezes para nos certificarmos de que, sim, pela primeiríssima vez na vida (cof! cof!) eu estava errada. As regras para viagens ao Brasil são as que falei: duas malas de até 32kg. Mas, para a Europa, é uma malinha só e o peso não pode ultrapassar 23kg.
Neste momento, um letreiro luminoso se acendeu em minha testa, piscando em neon vermelho: FODEU! FODEU! FODEU!
Eram onze da noite, véspera da nossa fucking viagem, e tínhamos acabado de descobrir que precisaríamos deixar QUATRO das malas que estavam conosco. Como fazer isso? Onde colocar as QUATRO malas que precisaríamos deixar? A que horas terminaríamos de fazer tudo?
Nessa hora eu tive vontade de deitar em posição fetal e chorar até dormir. Mas eu dormiria rápido, e era véspera da viagem, então a única possibilidade era abrir TODAS - vou repetir - T-O-D-A-S as nossas malas e ver, peça por peça, o que iria e o que ficaria.
Conseguimos, com muito suor e esforço. As malas, que eram sete (fora as de mão e o painel solar), se transformaram em três + duas de mão. Marido ainda teria a árdua missão de levar e encaixar, sabe-se lá como e onde, as quatro malas remanescentes no nosso depósito já abarrotado até o teto (literalmente)!
Eram duas e meia da manhã quando fechamos o último zíper. Exaustos, desmaiamos por algumas horas, até que fomos acordados pelo despertador e recomeçou a correria: corre para tomar café, corre para pegar um táxi e levar as malas até o guarda-móveis, corre para fazer check-out, corre para dar tchau para os bibliotecários (sim, importantíssimo para nós), corre para resolver os últimos pepinos que exigiam nossa presença física, corre, corre, corre. Corra, Ártemis, corra! No primeiro final, Ártemis e família não conseguem. No segundo final, Ártemis e família se separam, marido embarca sozinho, ela e Arthur choram porque não conseguiram completar as etapas obrigatórias da gincana e perderam os passaportes. Mas no terceiro final, que foi o que decidi viver, tudo deu certo, aos trancos e barrancos, e fomos de táxi XL, falando francês, até chegarmos ao aeroporto.
(continua...)
terça-feira, 23 de agosto de 2016
Café de lúpulo
Domingão de sol e depois daquele almoço lauto que dá vontade de hibernar por uns cinco dias tudo o que os adultos precisavam era de um café. Starbucks é como maria-sem-vergonha aqui, mas estamos cansados do café de lá (que nem achamos bom, apenas conveniente) e decidimos ir em um lugar aqui perto, um onde nunca tínhamos ido, um que foi avistado pela minha própria pessoa quando passava de táxi nas redondezas.
Desenho, é o nome, jurei. Que nome engraçado, responderam.
Ficava a umas três quadras de onde estávamos, avisei. Tudo bem, o dia está lindo, vâmu.
Fumo.
Passamos os mercados, a estação de trem, uma obra, encontramos uma conhecida, contamos para ela onde íamos, nos despedimos da moça e, enfim, chegamos.
Uma graça o lugar: mesas coletivas, clima descontraído, balcão alto de frente para a rua, pessoas sentadas ali, vendo a vida passar.
Sorrio, abro a porta e... uma lufada do aroma in-con-fun-dí-vel de cerveja, muita cerveja me atinge. E foi assim que descobri, em um domingão ensolarado, que o café lindinho pertinho da minha casa é, na verdade, uma cervejaria com bebidas de fabricação própria. Minha sorte é que errei o nome na hora de contar sobre o "novo lugar incrível" para a conhecida. O nome é Caderno de Desenho, e café ali, só se fosse feito de malte, lúpulo e água.
Desenho, é o nome, jurei. Que nome engraçado, responderam.
Ficava a umas três quadras de onde estávamos, avisei. Tudo bem, o dia está lindo, vâmu.
Fumo.
Passamos os mercados, a estação de trem, uma obra, encontramos uma conhecida, contamos para ela onde íamos, nos despedimos da moça e, enfim, chegamos.
Uma graça o lugar: mesas coletivas, clima descontraído, balcão alto de frente para a rua, pessoas sentadas ali, vendo a vida passar.
Sorrio, abro a porta e... uma lufada do aroma in-con-fun-dí-vel de cerveja, muita cerveja me atinge. E foi assim que descobri, em um domingão ensolarado, que o café lindinho pertinho da minha casa é, na verdade, uma cervejaria com bebidas de fabricação própria. Minha sorte é que errei o nome na hora de contar sobre o "novo lugar incrível" para a conhecida. O nome é Caderno de Desenho, e café ali, só se fosse feito de malte, lúpulo e água.
segunda-feira, 8 de agosto de 2016
O resgate oriental
Domingo de sol e todos no parque. Um festival de artes movimenta a cidade e parece que todo mundo está ali, na beira daquele laguinho artificial com patinhos nadadores.
Encontramos Lola, a menina fofa que corria com Arthur na aula de música. Conversamos um pouco, as crianças correm, tudo bem.
Lola vai embora e Arthur decide que quer ir ver os patinhos.
Lá na beira do laguinho tem pato e passarinho, e a brincadeira é correr na beirada, sobre o calçamento de pedras, para espantar as aves. O calçamento é estreito e de pedra, por isso, fico em pânico e vou junto. Falo 237854 vezes para ele parar de correr porque pode cair na água ou se estropiar nas pedras. Por 237854 vezes ele me ignora. E corre. E ri. E acha um barato arriscar cair na água cheia de cocô de pato.
Decido falar mais uma vez, porque sou mãe e recebi treinamento ainda na maternidade para efetuar repetições no nível "batendo recorde do Guiness Book".
Assim que termino de proferir o último fonema da advertência acontece aquilo!
Um oriental, que estava correndo junto a Arthur, brincando com ele de um pique-pega apavorante, usando uma mochila maior que seu corpinho de 3 anos, este menino resolve cuspir no laguinho artificial. Com os dois bracinhos jogados para trás em busca de equilíbrio, ele inclina o corpinho para a frente, vê o reflexo de seus lábios cuspindo na superfície do lago e, antes que até mesmo um pato consiga dizer "quém", cai de cara na água. Arthur continua correndo e pulando. A mãe da criança está em outro mundo, de costas para a cena, assistindo ao show de jazz que acontecia. Então, vendo o oriental ainda submerso naquela poça de concreto com pouco mais de dois palmos de profundidade, consigo me certificar de que Arthur não será o próximo a beber um drinque de cocô de pato e resgato o pequeno rapaz. Nos segundos que levei até alcançar o lugar onde ele caiu de cara na água, o menino conseguiu, sabe-se lá como, dar uma espécie de cambalhota e ficar de pé no lago. Por isso, quando chego, tudo o que faço é içar o garoto, ensopado e coberto de excrementos de pato, colocando-o de novo no calçamento de pedras. A mãe ainda está assistindo ao show, então fico com ele, olho para ter certeza de que está bem, sem cortes, machucados ou qualquer outro problema evidente. Ele parece bem. E só quando a mãe olha, finalmente, é quando ele começa a chorar. Assustado, provavelmente com frio. A mãe o conforta, o leva embora.
Sou parabenizada pela pequena multidão que estava acompanhando o show e viu tudo o que aconteceu.
Pego Arthur pela mão. Ele gargalha. Ri muito do oriental que mergulhou no laguinho. Se diverte de verdade. Eu sei que empatia não é o forte de crianças novinhas, mas como é de pequeno que se torce o pepino, tento falar que o menino chorou, que a gente não pode rir, mas não consigo, porque estou gargalhando junto com meu filho. Recebendo parabéns pelo resgate de pessoas que também gargalham. Indo contar, com o riso frouxo, a história para outros que assistiam de longe, e que também gargalham.
E assim, queridxs leitorxs, resgatei o oriental às gargalhadas - espero que uma ação neutralize a outra e eu fique com o karma zerado - e agora tenho um filho que não pode ouvir falar em cocô de pato sem ter um acesso de riso incontrolável.
Encontramos Lola, a menina fofa que corria com Arthur na aula de música. Conversamos um pouco, as crianças correm, tudo bem.
Lola vai embora e Arthur decide que quer ir ver os patinhos.
Lá na beira do laguinho tem pato e passarinho, e a brincadeira é correr na beirada, sobre o calçamento de pedras, para espantar as aves. O calçamento é estreito e de pedra, por isso, fico em pânico e vou junto. Falo 237854 vezes para ele parar de correr porque pode cair na água ou se estropiar nas pedras. Por 237854 vezes ele me ignora. E corre. E ri. E acha um barato arriscar cair na água cheia de cocô de pato.
Decido falar mais uma vez, porque sou mãe e recebi treinamento ainda na maternidade para efetuar repetições no nível "batendo recorde do Guiness Book".
Assim que termino de proferir o último fonema da advertência acontece aquilo!
Um oriental, que estava correndo junto a Arthur, brincando com ele de um pique-pega apavorante, usando uma mochila maior que seu corpinho de 3 anos, este menino resolve cuspir no laguinho artificial. Com os dois bracinhos jogados para trás em busca de equilíbrio, ele inclina o corpinho para a frente, vê o reflexo de seus lábios cuspindo na superfície do lago e, antes que até mesmo um pato consiga dizer "quém", cai de cara na água. Arthur continua correndo e pulando. A mãe da criança está em outro mundo, de costas para a cena, assistindo ao show de jazz que acontecia. Então, vendo o oriental ainda submerso naquela poça de concreto com pouco mais de dois palmos de profundidade, consigo me certificar de que Arthur não será o próximo a beber um drinque de cocô de pato e resgato o pequeno rapaz. Nos segundos que levei até alcançar o lugar onde ele caiu de cara na água, o menino conseguiu, sabe-se lá como, dar uma espécie de cambalhota e ficar de pé no lago. Por isso, quando chego, tudo o que faço é içar o garoto, ensopado e coberto de excrementos de pato, colocando-o de novo no calçamento de pedras. A mãe ainda está assistindo ao show, então fico com ele, olho para ter certeza de que está bem, sem cortes, machucados ou qualquer outro problema evidente. Ele parece bem. E só quando a mãe olha, finalmente, é quando ele começa a chorar. Assustado, provavelmente com frio. A mãe o conforta, o leva embora.
Sou parabenizada pela pequena multidão que estava acompanhando o show e viu tudo o que aconteceu.
Pego Arthur pela mão. Ele gargalha. Ri muito do oriental que mergulhou no laguinho. Se diverte de verdade. Eu sei que empatia não é o forte de crianças novinhas, mas como é de pequeno que se torce o pepino, tento falar que o menino chorou, que a gente não pode rir, mas não consigo, porque estou gargalhando junto com meu filho. Recebendo parabéns pelo resgate de pessoas que também gargalham. Indo contar, com o riso frouxo, a história para outros que assistiam de longe, e que também gargalham.
E assim, queridxs leitorxs, resgatei o oriental às gargalhadas - espero que uma ação neutralize a outra e eu fique com o karma zerado - e agora tenho um filho que não pode ouvir falar em cocô de pato sem ter um acesso de riso incontrolável.
quarta-feira, 6 de julho de 2016
Nosso primeiro 4 de julho
Três anos aqui e nunca calhou de estarmos nos EUA naquele que, talvez junto com o Thanksgiving e o Halloween, seja O feriado deles.
Mas este ano resolvemos fazer algo diferente e, como não temos piscina mas temos um pimpolho (não dá para beber muitos bons drinques, portanto), fomos ver a programação da cidade para o dia da independência norte-americana.
Mas este ano resolvemos fazer algo diferente e, como não temos piscina mas temos um pimpolho (não dá para beber muitos bons drinques, portanto), fomos ver a programação da cidade para o dia da independência norte-americana.
Felizmente, pude constatar com bastante alívio, não havia invasões alienígenas programadas, então achei que poderia ser bacana fazer passeios ao ar livre, já que a previsão era de mormaço e tempo nublado, mas sem chuva.
A ideia era acordar, ir ao parque, onde haveria muitas brincadeiras e diversão, depois voltar para casa, almoçar, tirar uma sonequinha, assistir à parada, voltar para casa, jantar e ir para a beira do lago assistir à banda e à queima de fogos.
Acontece que that's my life, neam? E qual é a principal lei de Murphy? Se uma coisa puder dar errado, dará.
Então, pega aí seu cachorro quente, seu refresco Tampico, seu Pop Tart e senta no gramado para acompanhar a saga.
E clica aqui, ó, para entrar no clima:
Acordamos todos felizes (depois da dose cavalar e diária de cafeína para os adultos) e iniciamos os trabalhos diários, a saber, brincar de Lego até você querer jogar todas aquelas porras daquelas pecinhas microscópicas no lixo ou o almoço ficar pronto, o que acontecer primeiro.
Nove horas tocou o telefone aqui em casa. Odeio telefone. Nunca é notícia boa. E, de fato, não era. Na verdade, era uma notícia bem triste. Bom, faz parte da vida adulta com filhos seguir em frente, apesar das más notícias, fingindo que tudo está melhor do que realmente está.
Com isso, nossa ida ao parque parecia fadada ao fracasso antes mesmo de conseguirmos tirar os pijamas. Mas a gente não desiste e, com muita lábia e jogo de cintura, consegui arrastar Arthur para fora de casa (e para longe dos Legos).
As atividades começavam 9h30. Eram 10h41 quando chegamos ao parque. Conseguimos ver as duas últimas duplas de pais e filhos jogando ovos uns para os outros e o coordenador do evento agradecendo a presença de todos, até o ano que vem. Pelo menos ainda tinham umas fatias de melancia e torta de cereja. Arthur comeu as duas coisas e quis ir brincar.
Estava eu testando minha musculatura femural em um eterno para-cima-para-baixo na gangorra com Arthur quando me lembrei que: Putz1) acabou o arroz lá em casa! e Putz2) esqueci a carteira em cima da mesa! Qual a solução? Isso mesmo: catar moedinhas no fundo da bolsa e ir rezando para o mercado.
Assim fomos. Achei umas merrecas em moedas soltas pela bolsa. O arroz custava menos que as merrecas e, felizmente, consegui comprar o arroz sem precisar passar pelo constrangimento de cancelar a compra por falta de verba.
Em casa, tudo parecia prestes a entrar nos eixos, então fui fazer arroz, almoço pronto porque cozinhei um pratão ontem, que teve sobras. Arroz pronto, abri a geladeira e cadê a comida? Marido, como se avisasse que viu um balão no céu, informa que comeu a comida toda ontem mesmo.
E agora?
Improvisei.
Almoçamos. A ideia, lembrem-se, era tirar uma sonequinha e depois ir à parada, voltar, jantar e ir, enfim, para o lago.
Acontece que as sonecas aqui são recebidas como um convite para a amputação de um membro sem anestesia: dor, sofrimento, negação solene e veemente. Pior coisa. Seguida logo de perto por: cortar unhas, cortar cabelo, escovar dente, colocar roupa para sair, tomar banho, sair do banho, almoçar, arrumar o quarto, jantar, colocar pijama, ir ao mercado, ir ao clube, ir ao parquinho, ir ao médico, ir ao dentista, ir ao trabalho do pai etc. E não necessariamente nesta ordem.
Depois de muito choro e ranger de dentes, dormiu! Ufa! Deitei ao lado dele, para aproveitar a sonequinha e... acordei com um puta susto quando marido me informa (e também o céu lá fora) que já eram perto das seis da tarde. SEIS da tarde. Uma singela sonequinha de quatro horas!
Lembram da parada? Esqueçam, então. Não será desta vez que farei um relato dela. Lembram do jantar? Esqueçam também.
O jeito foi juntar uns cacarecos aqui e partir para o lago. A ideia era fazer um piquenique frugal e esperar pela queima de fogos, programada para nove e meia da noite. Arthur sugeriu: vamos levar minha barraca! (A barraca dele é uma tenda tamanho criança de 2 anos, dentro da qual ele não cabe mais em pé.)
A barraca dobra, é festa, qualquer coisa é só não abrir a dita cuja e fingir que nada aconteceu: OK. Pega a barraca. Pega o piquenique frugal. Pega manta para sentar em cima. Pega casaco, porque, afinal, isso aqui é Chicago.
A barraca dobra, é festa, qualquer coisa é só não abrir a dita cuja e fingir que nada aconteceu: OK. Pega a barraca. Pega o piquenique frugal. Pega manta para sentar em cima. Pega casaco, porque, afinal, isso aqui é Chicago.
Já era a hora do crepúsculo e encontramos diversas famílias indo para a mesma direção que nós. Adoro esse clima de coletividade que existem em algumas festas aqui! Me emociona mesmo ver as pessoas cumprimentando umas às outras, sendo simpáticas e colaborativas.
Quando finalmente chegamos ao lago...
![]() |
| Skol latão um é três, dois é cinco. |
Bróder! Quanta ingenuidade e amadorismo da nossa parte!
As pessoas vieram com mesas, cadeiras, carrinhos abarrotados de comida e geladeiras portáteis recheadas com refrigerantes, cervejas, águas, vinhos e até mesmo cafés gelados. E não só! Ao nosso lado tinha uma senhorinha muito fofa e simpática que montou uma mesa com toalha, vasinhos com flores e velas! Me senti num piquenique na Lagoa, fiquei esperando o tio do Skol latão passar, até porque mais adiante tinha uma galera fazendo um churrasquinho e havia um bando de camelôs vendendo sabres de luz de todas as cores e formatos ( (!) juro! tinha um com uma estrela na ponta). E nós ali, singelamente, abrindo uma tenda tamanho 2 anos, com um colar luminoso (que comprei por um dólar no mercado, crente que estava abafando), uma manta e dois potinhos, um com pretzel e outro com framboesa para o nosso lanche frugal.
Marido se empolgou ao ver que os velhinhos à nossa direita estavam bebericando vinho gelado e resolveu: vou sair e comprar uma bebida para nós.
Assim que eu gosto! Foi com esse homem que me casei!
Ele foi.
Arthur ficou matando a população do entorno de fofura e eu fiquei esperando. Beliscando minhas framboesas.
Foi quando me dei conta de que framboesas pelas próximas duas horas + euzinha que sou chegada num desmaio por hipoglicemia não seriam uma boa combinação. Mandei, então, um torpedo (alguém ainda manda torpedo?) para marido e pedi um alimento.
Vinho, comida e um gramado para o meu bólido correr e pular sem incomodar o vizinho. Isso é que é vida, pensei. Ainda tem uns camaradas ali adiante, com uns instrumentos, tocando altas músicas maravilhosas. Ah, que beleza. E foi mesmo uma beleza por vinte minutos. Depois meia hora. Quarenta minutos. UMA HORA E VINTE.
Começou a tocar a marcha imperial. Arthur pirou. Incorporou o Darth Vader e achei que fosse fazer a senhorinha simpática do nosso lado infartar de ternura. Ele marchava para um lado, e para o outro. Parava, fazia caras e bocas.
E marido nada!
Os músicos continuaram no tema Star Wars (não entendo nada, então só acredito no que foi dito antes de começarem a música, posto que não reconheci nem um acorde sequer daquilo). E nada de marido.
Foi quando ele voltou, já no fim da apresentação da banda/orquestra, com uma sacolinha mixuruca da farmácia na mão. Opa! Na farmácia não tem birita.
Pois é: tudo fechou e a única coisa aberta nas redondezas era a farmácia. Marido voltou com dois sanduíches pré-embalados estilo posto da Dutra ou lanchonete da faculdade, uma mini garrafa de suco de laranja (sem vodka dentro, que fique claro) e um iogurte sem colher.
Mas, para não dizer que não houve ostentação em nosso feriado, voltou também com um sabre de luz para o nosso pequeno Jedi, que correu, pulou, marchou, lutou e quase acertou a cabeça de umas 798 pessoas.
Ficamos ali, esparramados na grama, até a hora da queima de fogos.
![]() |
| Pou! Pou! Pou! |
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| POU! |
Eu, garota carioca suíngue sangue bom, já vi Copacabana, né? Então nada no mundo deve ser impressionante para mim no quesito concentração populacional + queima de fogos. Mas foi legal. Tinha uma caixa de som tocando umas músicas variadas (de Frank Sinatra a Bon Jovi, de Van Halen a Tchaikovsky) e que os fogos tentavam acompanhar.
Chegamos em casa perto das onze da noite e ainda precisei esfregar estes pés.
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| Cruzes! |
Daí, que depois de tudo isso, depois, inclusive, de lavar a criança, Arthur me olha nos olhos, onze da madrugada, e diz: mamãe, quero comer macarrão!
Ainda bem que é só uma vez por ano!
terça-feira, 5 de julho de 2016
Arte de fogo
- Mamãe, a gente vai poder fazer arte de fogo?
- Ih, filho, não sei o que é isso, mas me parece meio perigoso, né? Não quer brincar de massinha?
- Ah...
Marido intervém.
- Ártemis, acho que ele quer dizer outra coisa.
- É? O quê?
- Mamãe, arte de fogo, aquilo que brilha.
- Que brilha?
- Ahhh - marido é, então, iluminado. - Fogos de artifício, Arthur?
- É! Isso!
Amanhã volto para contar como foi nosso primeiro 4 de julho em terras norte-americanas cheio de arte de fogo.
;)
- Ih, filho, não sei o que é isso, mas me parece meio perigoso, né? Não quer brincar de massinha?
- Ah...
Marido intervém.
- Ártemis, acho que ele quer dizer outra coisa.
- É? O quê?
- Mamãe, arte de fogo, aquilo que brilha.
- Que brilha?
- Ahhh - marido é, então, iluminado. - Fogos de artifício, Arthur?
- É! Isso!
Amanhã volto para contar como foi nosso primeiro 4 de julho em terras norte-americanas cheio de arte de fogo.
;)
domingo, 8 de setembro de 2013
Como estamos?
Surpreendentemente com calor. Muito calor.
Estamos também, finalmente, no apartamento definitivo. Digo, definitivo por um ano, pelo menos. Ainda sem muitos móveis, mas já com colchão de verdade!
Também já estamos nos acostumando ao inglês e a algumas particularidades norte-americanas.
Ainda peno no supermercado, com um bebê cheio de energia e andarilho e muitas coisas (marcas, produtos e necessidades) que ainda não conheço. Ainda sofro para entender pessoas que falam rápido, ou usam gírias, ou têm dicção ruim. Ainda me perco nas ruas.
Estamos sem grana, diria que completamente falidos. E aqui, vejam que coisa, estamos abaixo da linha da pobreza.
Eu estou com frilas até as orelhas, sem tempo para nada, já que preciso limpar uma casa imunda (os antigos moradores não eram chegados num trato, ao que tudo indica), cuidar de um bebê cheio de energia e vontades (tá fácil, não!), frilar e terminar de me adaptar.
Estamos, porém, caminhando aos poucos. Bem aos poucos.
E vocês, como estão? Tem gente quase parindo, tem gente com filhas quase adolescente, tem gente que me deixou com o coração apertado e mandando todos os pensamentos de amor, tem gente que está na luta, gente que engravidou de novo, gente que sumiu, gente que chegou e agora mora no meu coração, gente que voltou a trabalhar, gente que faz falta na vida offline...
Mas tem mais gente que me visita e que eu visito também. O que mais vocês me contam?
Estamos também, finalmente, no apartamento definitivo. Digo, definitivo por um ano, pelo menos. Ainda sem muitos móveis, mas já com colchão de verdade!
Também já estamos nos acostumando ao inglês e a algumas particularidades norte-americanas.
Ainda peno no supermercado, com um bebê cheio de energia e andarilho e muitas coisas (marcas, produtos e necessidades) que ainda não conheço. Ainda sofro para entender pessoas que falam rápido, ou usam gírias, ou têm dicção ruim. Ainda me perco nas ruas.
Estamos sem grana, diria que completamente falidos. E aqui, vejam que coisa, estamos abaixo da linha da pobreza.
Eu estou com frilas até as orelhas, sem tempo para nada, já que preciso limpar uma casa imunda (os antigos moradores não eram chegados num trato, ao que tudo indica), cuidar de um bebê cheio de energia e vontades (tá fácil, não!), frilar e terminar de me adaptar.
Estamos, porém, caminhando aos poucos. Bem aos poucos.
E vocês, como estão? Tem gente quase parindo, tem gente com filhas quase adolescente, tem gente que me deixou com o coração apertado e mandando todos os pensamentos de amor, tem gente que está na luta, gente que engravidou de novo, gente que sumiu, gente que chegou e agora mora no meu coração, gente que voltou a trabalhar, gente que faz falta na vida offline...
Mas tem mais gente que me visita e que eu visito também. O que mais vocês me contam?
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