Arthur resolveu comer. Foi até a geladeira, abriu a porta e já ia escolhendo umas uvas quando eu vetei.
Não. Já tinha dado o aviso dos cinco minutos para o jantar.
Ele ficou chateado, claro. Disse que estava com fome, argumentei que tinha o jantar, disse que não queria agora. Negociamos.
Expliquei que ele podia comer salada. Qualquer verdura ou legume que escolhesse. Ele quis alface.
Tentou, então, beber leite. Não antes do jantar, expliquei. Pediu água. Me senti carrasca.
Aí, me chamou para sentar ao lado dele no quarto, disse que queria conversar. Pousou o pote com alface na cadeira, a garrafa de água também e conversou. Conversamos.
No meio da conversa, ele avisa que a alface era pipoca e a água era leite com chocolate.
E eu ali, vendo meu menino comer alface e beber água, me sentindo a mãe mais carrasca do mundo.
Queria fazer todas as vontades, fazer as coisas difíceis por ele, isolar sua alminha pura de todas as coisas ruins, frustrantes, decepcionantes, amedrontadoras e doídas do mundo. Mas não posso.
É muito duro ser mãe, porque, às vezes, é preciso o algoz da pessoa que você mais ama na vida. É muito ruim fazer o bem sendo ruim. Ruim naquela hora, negadora, cerceadora, não raro apenas observadora - de quando, por exemplo, cai e se machuca depois de ter sido advertido tantas vezes. Ruim para fazer calejar, permitir nascer o bem, o controle, a auto-estima, a força, a confiança, a percepção de si e do outro. Ruim para nutrir, cuidar, proteger, mas sem alijar.
É duro. Ando dorida. Ando partida. Verduga. Continente contendo o mar bravio que se derrama da infância tempestuosa.
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quarta-feira, 27 de julho de 2016
segunda-feira, 18 de julho de 2016
Ney, Murda e outras pirações
Eu estava tensa. Acabara de descobrir que o Ney Matogrosso era o primeiro homossexual brasileiro a fazer a transformação para virar um autômato. Na tevê, ele, o Ney, se preparava, então, para fazer mais um salto sobre a trave. Fazia parte de sua apresentação, ele estava acostumado, mas ainda assim eu estava nervosa. O fato de estar dando uma entrevista para a Murda* ao mesmo tempo em que reproduzia com exatidão os movimentos de Ney não contribuía para que relaxasse. Observava a posição dos pés dele para imitar, enquanto me perguntava como seria essa transformação, já que nunca conheci um autômato que não tivesse nascido assim, e também tentava me concentrar na pergunta da entrevista. Mergulhei as mãos em uma bacia de amido de milho. Ney se preparou. O amido é suave e adstringente ao toque. Ele sobe, surpreendentemente ágil e forte para a idade. Amo o Ney! Eu subo. Murda aguarda minha resposta. Ney se prepara para atravessar a trave em uma pirueta coreografada. Eu tento, mas não consigo dar uma estrela e sinto uma dor lancinante na coluna. Acordo: com fome, toda torta na micro cama do meu filho e muito pau da vida porque não fiquei sabendo se o Ney conseguiu terminar o show sem se machucar, nem o que comentou sobre se transformar em um autômato, muito menos o que eu ia responder para a Murda. E pior: provavelmente passarei o restante da madrugada tentando me lembrar - sem sucesso - qual será que era a pergunta da Murda.
Então, leitorxs, muito cuidado na hora de escolher o livrinho que vão ler para o filhote dormir, mas mais cuidado ainda para não dormir sem perceber. A próxima vítima da Murda perguntadora ou do Ney autômato pode ser você!
*Murda é um monstro inventado por Shel Silverstein em seu Fuja do Garabuja, que foi nossa escolha para a hora de ir dormir.
Então, leitorxs, muito cuidado na hora de escolher o livrinho que vão ler para o filhote dormir, mas mais cuidado ainda para não dormir sem perceber. A próxima vítima da Murda perguntadora ou do Ney autômato pode ser você!
*Murda é um monstro inventado por Shel Silverstein em seu Fuja do Garabuja, que foi nossa escolha para a hora de ir dormir.
sexta-feira, 3 de junho de 2016
Vamos falar sobre amamentação?
Eu estava grávida, sentada no banco de carona de um carro, quando a irmã de um amigo meu, irmã que eu mal conhecia, que tinha visto de relance umas duas vezes na vida, veio correndo do outro lado do estacionamento e gritou, segurando o cachorro pela coleira:
- Olha, amamentar dói! Mas ó: não desiste, não.
Outro dia, Arthur recém-desmamado, encontrei com ela. Comentei o quanto aquela frase foi importante para mim, agradeci e segui caminho.
Realmente, amamentar pode doer no começo. Para mim, doeu muito. Doeu até Arthur ter mais de 1 ano. Doeu constantemente. Doeu de eu precisar ir ao IFF, me consultar com uma fono especializada em amamentação, de eu tomar analgésico de 8 em 8 horas. Eu, que pari sem anestesia, amamentei na base da sedação, porque eu chorava de dor.
Tem gente que não sente nada? Amiga, se tem gente que vota no Bolsonaro, por que raios não teria gente que amamenta sem dor? Tem gente que gosta de coentro. Tem gente que dá à luz sem nem sentir contração. Tem gente que não gosta de chocolate. Claro que tem gente que amamenta sem sentir nada, que dorme junto do recém-nascido enquanto ele mama, que acerta de primeira todo o processo e pronto. O mundo tá cheio de gente de todo o tipo.
Eu costumo falar isso para as grávidas que me perguntam da amamentação: que amamentar pode doer, que é melhor se informar, se preparar, que eu vou torcer para ela não sentir nada, nada, mas que se sentir, toma aqui o telefone do IFF, também pode procurar outro hospital com banco de leite, anota aí o site e o telefone da fono que me salvou, não esquece de ler este relato e o livro que vou indicar. Boa sorte, vai lá, tudo de bom, boa hora!
Nas reuniões que participei do grupo Amigas do Peito, falava-se em apojadura (descida do leite), pega correta, adaptação do terceiro mês e vida que segue depois que tudo entra nos eixos. As consultoras da La Leche League comentaram comigo sobre monília (cândida/fungo no seio) e ordenha para estocar leite quando voltando ao trabalho. O IFF me ensinou ordenha manual, pega, como lidar com um cisto doloridíssimo que tenho, como observar ganho de peso e se está havendo a ingestão correta de leite. O pediatra do meu filho me instruiu sobre a dieta que eu deveria fazer para ele parar de vomitar em jatos. E foi assim que, depois de tantas consultas e profissionais envolvidos, eu achei que aos seis meses eu estaria expert em amamentação, fazendo tudo com os pés nas costas e que, ai, mal posso esperar para amamentar enternecida de amor e achando aquilo a coisa mais divina e maravilhosa do universo inteirinho!
Acontece que havia dois erros neste raciocínio. O primeiro é totalmente imprevisível. Eu poderia ser das pessoas que não gostam de chocolate e não sentem dor para amamentar, mas sou das chocólatras e fui das que sofri MUITO para amamentar. Dores, dores, dores e mais dores. De todos os tipos, intensidades e origens. O segundo erro é sobre o que eu realmente quero falar neste post.
As pessoas costumam achar que amamentação pressupõe um desenvolvimento linear e progressivo da técnica e do prazer ligado ao ato. A grosso modo, talvez seja assim, sim. E, novamente, quem sabe para aquela sua prima do interior que não curte sorvete isso tenha sido exatamente desse jeito.
Mas o que vejo acontecer com muita frequência são mães que estão amamentando prolongadamente (acima dos seis meses) e que começam a desejar ardentemente o desmame. Ninguém fala para a gente que amamentar também enche o ovário! Que amamentar um ser que tem dentes pode ser um desafio (como ensinar para um bebê de sete meses que aquele barulho engraçadíssimo que ele provoca é, na verdade, o grito esganiçado da mãe que acabou de perder um pedaço do mamilo?). Amamentar pode ser tedioso, pode ser penoso, pode ser desgastante e até mesmo angustiante. O ato de amamentar não é um gráfico em linha reta que, conforme vão passando os meses vão aumentando o prazer e a alegria de amamentar. Não! Amamentar pode exigir que você volte ao banco de leite ou que ligue para a consultora de lactação aos nove meses do pimpolho, porque nem você, nem ele sabem o que fazer com tanto dente naquela boquinha. Amamentar pode ser tão desconfortável à noite ou quando você gostaria de estar fazendo qualquer outra coisa durante o dia que você quer desmamar agora, 1, 2, 3 e já! Amamentar pode ser desafiador e trazer doencinhas ou incômodos realmente importantes. Pode fazer você desenvolver tendinite, travar coluna, dar dor de cabeça por tensionamento dos músculos das costas e pescoço, pode levar a uma condição clínica de falta de vitaminas ou minerais. Amamentar é difícil para caraleo! E pode estar tudo bem no mês 3 e, de repente, no mês 8 dar uma vontade horrível de desmamar logo. Aí você aguenta mais um pouco porque a OMS recomenda amamentar até pelo menos 2 anos e no mês 10 tudo volta a ser delicioso. Até que entra o mês 14 e você tem vontade de jogar a toalhar de novo. E assim vamos, nessa montanha-russa de sensações, emoções, vontades e habilidades.
Mas ó: não desiste, não! Quando você achar que já chega, basta, respira fundo, pensa se é isso mesmo que você quer ou se só está cansada, frustrada e desestimulada. Se for para desmamar, que seja pelos motivos certos. E esses, você sempre sabe quais são. Caso contrário, pensa que eu sou a irmã do amigo com o cachorro na coleira: não desiste, não!
;)
- Olha, amamentar dói! Mas ó: não desiste, não.
Outro dia, Arthur recém-desmamado, encontrei com ela. Comentei o quanto aquela frase foi importante para mim, agradeci e segui caminho.
Realmente, amamentar pode doer no começo. Para mim, doeu muito. Doeu até Arthur ter mais de 1 ano. Doeu constantemente. Doeu de eu precisar ir ao IFF, me consultar com uma fono especializada em amamentação, de eu tomar analgésico de 8 em 8 horas. Eu, que pari sem anestesia, amamentei na base da sedação, porque eu chorava de dor.
Tem gente que não sente nada? Amiga, se tem gente que vota no Bolsonaro, por que raios não teria gente que amamenta sem dor? Tem gente que gosta de coentro. Tem gente que dá à luz sem nem sentir contração. Tem gente que não gosta de chocolate. Claro que tem gente que amamenta sem sentir nada, que dorme junto do recém-nascido enquanto ele mama, que acerta de primeira todo o processo e pronto. O mundo tá cheio de gente de todo o tipo.
Eu costumo falar isso para as grávidas que me perguntam da amamentação: que amamentar pode doer, que é melhor se informar, se preparar, que eu vou torcer para ela não sentir nada, nada, mas que se sentir, toma aqui o telefone do IFF, também pode procurar outro hospital com banco de leite, anota aí o site e o telefone da fono que me salvou, não esquece de ler este relato e o livro que vou indicar. Boa sorte, vai lá, tudo de bom, boa hora!
Nas reuniões que participei do grupo Amigas do Peito, falava-se em apojadura (descida do leite), pega correta, adaptação do terceiro mês e vida que segue depois que tudo entra nos eixos. As consultoras da La Leche League comentaram comigo sobre monília (cândida/fungo no seio) e ordenha para estocar leite quando voltando ao trabalho. O IFF me ensinou ordenha manual, pega, como lidar com um cisto doloridíssimo que tenho, como observar ganho de peso e se está havendo a ingestão correta de leite. O pediatra do meu filho me instruiu sobre a dieta que eu deveria fazer para ele parar de vomitar em jatos. E foi assim que, depois de tantas consultas e profissionais envolvidos, eu achei que aos seis meses eu estaria expert em amamentação, fazendo tudo com os pés nas costas e que, ai, mal posso esperar para amamentar enternecida de amor e achando aquilo a coisa mais divina e maravilhosa do universo inteirinho!
Acontece que havia dois erros neste raciocínio. O primeiro é totalmente imprevisível. Eu poderia ser das pessoas que não gostam de chocolate e não sentem dor para amamentar, mas sou das chocólatras e fui das que sofri MUITO para amamentar. Dores, dores, dores e mais dores. De todos os tipos, intensidades e origens. O segundo erro é sobre o que eu realmente quero falar neste post.
As pessoas costumam achar que amamentação pressupõe um desenvolvimento linear e progressivo da técnica e do prazer ligado ao ato. A grosso modo, talvez seja assim, sim. E, novamente, quem sabe para aquela sua prima do interior que não curte sorvete isso tenha sido exatamente desse jeito.
Mas o que vejo acontecer com muita frequência são mães que estão amamentando prolongadamente (acima dos seis meses) e que começam a desejar ardentemente o desmame. Ninguém fala para a gente que amamentar também enche o ovário! Que amamentar um ser que tem dentes pode ser um desafio (como ensinar para um bebê de sete meses que aquele barulho engraçadíssimo que ele provoca é, na verdade, o grito esganiçado da mãe que acabou de perder um pedaço do mamilo?). Amamentar pode ser tedioso, pode ser penoso, pode ser desgastante e até mesmo angustiante. O ato de amamentar não é um gráfico em linha reta que, conforme vão passando os meses vão aumentando o prazer e a alegria de amamentar. Não! Amamentar pode exigir que você volte ao banco de leite ou que ligue para a consultora de lactação aos nove meses do pimpolho, porque nem você, nem ele sabem o que fazer com tanto dente naquela boquinha. Amamentar pode ser tão desconfortável à noite ou quando você gostaria de estar fazendo qualquer outra coisa durante o dia que você quer desmamar agora, 1, 2, 3 e já! Amamentar pode ser desafiador e trazer doencinhas ou incômodos realmente importantes. Pode fazer você desenvolver tendinite, travar coluna, dar dor de cabeça por tensionamento dos músculos das costas e pescoço, pode levar a uma condição clínica de falta de vitaminas ou minerais. Amamentar é difícil para caraleo! E pode estar tudo bem no mês 3 e, de repente, no mês 8 dar uma vontade horrível de desmamar logo. Aí você aguenta mais um pouco porque a OMS recomenda amamentar até pelo menos 2 anos e no mês 10 tudo volta a ser delicioso. Até que entra o mês 14 e você tem vontade de jogar a toalhar de novo. E assim vamos, nessa montanha-russa de sensações, emoções, vontades e habilidades.
Mas ó: não desiste, não! Quando você achar que já chega, basta, respira fundo, pensa se é isso mesmo que você quer ou se só está cansada, frustrada e desestimulada. Se for para desmamar, que seja pelos motivos certos. E esses, você sempre sabe quais são. Caso contrário, pensa que eu sou a irmã do amigo com o cachorro na coleira: não desiste, não!
;)
segunda-feira, 23 de maio de 2016
Nomes bilíngues?
Hoje estava em um grupo virtual de mães lendo sobre nomes. Uma moça queria sugestões de nomes que funcionassem tanto em inglês quanto em português, e eu fiquei pensando nisso.
Na minha breve experiência aqui, os norte-americanos não costumam ser muito resistentes a nomes "diferentes". Mas vale prestar muita atenção nos equivalentes aos nomes em espanhol, porque alguns deles são bastante populares por aqui. Lembrando ainda que: 1) os mexicanos são a maioria dos imigrantes, atualmente; 2) o espanhol é uma língua MUITO falada aqui; 3) muita gente não sabe MESMO que no Brasil se fala português em vez de espanhol; 4) mesmo que saibam, muitas vezes os anglófonos podem ter dificuldades de compreender o que falamos (assim como nós a eles) e preencherem a lacuna de compreensão com algo que eles já conhecem. Arthur aqui ficou Árthur mesmo porque em espanhol Arthur é Arturo, e eu não curto. Se for para chamar de um modo diferente, que pelo menos seja um que eu não precise soletrar - um trabalho a menos, né? Outra dica importante é que eles não conseguem fazer a nasal do ÃO. Portanto, nomes como João ou Sebastião vão ser pronunciados errado para todo o sempre, amém.
Alguns nomes que surgiram na discussão eram bem furados, como Feliph (isso não funciona aqui nos EUA, precisaria ser Philipe) ou Tiago (para quem não sabe, Tiago em inglês é James, e Guilherme é William). Mas outros eram bem factíveis, como Oliver/Olivia, Sophia, Vivian e Noah.
Se você está nesse dilema, vou dar meus pitacos furados aqui embaixo para ver se ajudo.
Se você está nesse dilema, vou dar meus pitacos furados aqui embaixo para ver se ajudo.
O português e o inglês são línguas bastante diferentes. Isso porque a raiz comum entre eles data de muito tempo atrás. O indo-europeu deu origem à maioria das línguas faladas na Europa (e suas posteriores colônias), no Irã e no norte da Índia, mas, certamente, depois de mais de 5 mil anos de diferenciação linguística, as semelhanças que todas essas línguas modernas guardam entre si é pequena. Por que estou falando isso? Porque apesar de o português ter uma origem em comum com o inglês, fazemos parte de dois grupos diferentes: o inglês é uma língua germânica (assim como o alemão, por exemplo) e o português é uma língua neolatina (prima do francês, italiano, espanhol e romance). Dito isto, friso que é praticamente impossível haver um nome que seja exatamente igual, em termos de pronúncia e de grafia, em ambas as línguas. O que temos são nomes cuja grafia pode ser aceita em ambas as línguas ou nomes que não soam estranhos porque foram popularizados pela cultura .
Noah é, para mim, um dos melhores exemplos de como um nome estrangeiro pode ser bem aceito no Brasil. Noah existe em português: Noé. Mas por questões culturais, Noah passou a ser um nome "novo", inclusive muita gente nem sabe que é a tradução de Noé. Alguns outros exemplos de nomes importados que acabaram interpretados como nomes "novos", diferentes de suas traduções, são o já citado James (Tiago) e Elisabeth (Isabel).
Arthur é um bom exemplo de como a grafia estrageira pode ser bem aceita. Em português não temos o som do TH, como no inglês. Como no português o H é mudo, o que fazemos ao ver o TH (assim como acontece com outros nomes, feito Thiago, Nathalia, Martha ou Thomas) é justamente ignorar a letra e entendê-la como um "enfeite". Essa aceitação da grafia diferente acontece também com os nomes Sophia (não temos mais o PH com som de F, como tínhamos até pouco tempo atrás), Olivia (que pelas regras do português culto padrão deveria receber um acento), Thomas (que deveria, pelas regras, ser Tomaz ou Tomás) e Vivian (que deveria receber M ao final). Na verdade, os exemplos são muitos! O Brasil tende a ser bastante flexível, sobretudo se comparado a Portugal, no que diz respeito a aceitar a grafia não aportuguesada dos nomes. Contudo, alguns nomes foram estigmatizados como sendo "de pobre" por questões culturais complexas que não conseguirei explicar aqui. Quero frisar que não compactuo com este preconceito, viu? Por isso, não listarei nome algum que possa ter recebido o estigma.
A mudança da pronúncia é um caso mais complexo que a grafia, porque acontece e é praticamente impossível de ser evitada na dupla inglês-português. Temos maneiras diferentes de dar ênfase às sílabas e questões fonológicas que influenciam diretamente a ortoépia (modo como as palavras são pronunciadas). Para ficar mais claro, basta pensarmos nos nomes da vogais em inglês. São completamente diferentes do português, então será praticamente impossível termos grafia+pronúncia coincidindo.
Arthur, em casa, se chama "Artú"; já na rua, ele é "Árthur" (com o som do TH e os Rs norte-americanos, claro). O mesmo acontece com nomes já citados aqui e cuja pronúncia muda consideravelmente: Elisabeth (Elizabete X Elízabeth), Thomas (Tomás X Thômas), Philipe (Filípi X Fêlip), Julia (Júlha X Djúlia), Daniel (Daniél X Dêniel), Laura (Láura X Lóra), Benjamin (que deveria ser grafado Benjamim, segundo as regras do português: Benjámim X Bênjamin), Sarah (Sára X Sérah) etc.
Na minha breve experiência aqui, os norte-americanos não costumam ser muito resistentes a nomes "diferentes". Mas vale prestar muita atenção nos equivalentes aos nomes em espanhol, porque alguns deles são bastante populares por aqui. Lembrando ainda que: 1) os mexicanos são a maioria dos imigrantes, atualmente; 2) o espanhol é uma língua MUITO falada aqui; 3) muita gente não sabe MESMO que no Brasil se fala português em vez de espanhol; 4) mesmo que saibam, muitas vezes os anglófonos podem ter dificuldades de compreender o que falamos (assim como nós a eles) e preencherem a lacuna de compreensão com algo que eles já conhecem. Arthur aqui ficou Árthur mesmo porque em espanhol Arthur é Arturo, e eu não curto. Se for para chamar de um modo diferente, que pelo menos seja um que eu não precise soletrar - um trabalho a menos, né? Outra dica importante é que eles não conseguem fazer a nasal do ÃO. Portanto, nomes como João ou Sebastião vão ser pronunciados errado para todo o sempre, amém.
Segue abaixo uma listinha com nomes de meninos e meninas que vão funcionar minimamente nas duas línguas.
Legenda: * mudança na pronúncia
# grafia diferente em português
Nome em inglês (nome em português)
Legenda: * mudança na pronúncia
# grafia diferente em português
Nome em inglês (nome em português)
Alex*
Arthur *# (Artur)
Bruce
Daniel *
David*# (Davi)
Douglas
Erik/Erick/Eric *# (Éric)
Gabriel *
George# (Jorge)
Ian*
Jonas
Jonathan*
Kevin
Logan
Luca
Max*
Luke*# (Lucas)
Martin *# (Martim)
Nathan *# (Natan)
Nicholas *# (Nícolas)
Noel *
Oliver *
Oscar *
Philip # (Felipe)
Robin*
Roger *# (Rogério)
Samuel *
Sidney/Sydney *# (Sidnei)
Thomas *# (Tomás/Tomaz)
Victor *# (Vítor)
Abgail *
Agnes *
Alice *
Amanda *
Amanda *
Angela *
Bernadette *# (Bernadete)
Brenda
Charlotte *# (Charlote)
Chloe *# (Cloé)
Cleo *# (Cléo)
Christina *# (Cristina)
Claudia *# (Cláudia)
Daisy # (Deise)
Deborah *# (Débora)
Diana *
Denise *
Doris # (Dóris)
Elaine *
Eliza *
Elizabeth *# (Elizabete)
Erica *# (Érica)
Erin *
Eunice *
Geraldine *
Glenda
Grace *# (Greice ou Graça)
Helen *# (Helena)
Hilda *
Ingrid
Iris *# (Íris)
Isabel/Isabella # (Isabela)
Jacqueline # (Jaqueline)
E você? Como escolheu o nome dx filhote? Tem alguma sugestão para ser acrescentada aqui?
sexta-feira, 29 de abril de 2016
10 coisas que aprendi com o clima frio
- Estática é uma merda e é onipresente. Já levei choque na perna, no braço, na mão, na orelha, na barriga, no rosto e diversas vezes na boca. Dica: antes de dar aquele beijo nx companheirx ou de beber água no bebedouro, encoste a mão (nx companheirx ou no bebedouro). Dói menos.
- Neve não é só branca. Pode ser amarela, marrom, preta, cinzenta, depende de quanto tempo está ali e o que se derramou por cima. E neve brilha sob o sol como se fosse glitter.
- Frio queima e cachecóis não servem só para cobrir o pescoço, mas também para serem enrolados no rosto nos dias de frio intenso.
- Sair de casa considerando apenas o aspecto fashionista da roupa é um luxo.
- Luvas não funcionam e as pontas dos dedos vão sempre beirar a necrose por congelamento quando os termômetros marcarem abaixo de -10C.
- Orelhas doem se você sair sem chapéu quando a temperatura está negativa.
- Crianças não sentem frio. Crianças de Chicago consideram 5C uma temperatura digna de CAMISETA DE MANGA CURTA e calça de moletom.
- Capuzes existem por um (bom) motivo. No Brasil e em outros lugares tropicais, eles são apenas enfeite. Mas aqui, cumprem uma função muito importante: manter sua nuca e sua cabeça protegidas do vento.
- A escala de frio funciona assim: de 10 a 5C está fresco e você vai suar com o casaco; de 5 a 0C está agradável; de 0 a -5C é tolerável com as roupas e os acessórios certos; de -5 a -10C está frio, mas se não ventar dá para levar; de -10 a -20C está desagradável e luvas não servem para muita coisa; abaixo de -20C tem um pinguim de cachecol, gorro e casaco atravessando a rua.
- Não importa o que você use ou faça: suas pernas (e outras partes ao sul do equador) ficarão geladas.
quarta-feira, 27 de abril de 2016
O mundo está grávido e ninguém reparou
Nem parece que tem crise. Nem zica. Nem curva perigosa (perigosíssima) à direita. Todo mundo nada em dinheiro e sou a única que conta moedinha já dez dias depois do pagamento.
É que de repente todo mundo emprenhou!
Tudo começou quando voltamos do Brasil. Logo na volta às aulas descobri que uma amiguinha querida do Arthur iria ganhar umx irmxx. A mãe já estava quase parindo e a partir daí minha vida foi uma sucessão de charadas no estilo "adivinha só?" cujas respostas eu já sabia antes mesmo do fim da pergunta.
Foi gente na blogosfera. Foi gente que tinha ligado tubas uterinas. Gente que escorregou na conta da tabelinha e gente que nunca quis ser mãe, mas tá lá agora, buchuda e feliz. Tem gente que me contou antes. Tem gente que viajou e de lembrancinha trouxe uma semente germinando na pança. Tem gente que me procurou para saber onde e com quem parir. Tem gente que já pariu, de novo. Tem gente que contou para as pessoas via Facebook. Via zapzap. Via SMS. Olha, eu tenho até cogitado usar camisinha para pegar no telefone ou no computador, vai que...
Mas o que mais me impressiona nessa história é a quantidade de terceirinhxs encomendadxs. Nos últimos seis meses fiquei sabendo da gravidez e/ou do nascimento de nada mais, nada menos que cinco rebentos terceiros! Para uma geração cujxs amiguinhxs quase todxs eram filhxs únicxs, isso é um tremendo baby boom!
Eu fiz tanto sapatinho para dar de presente para as crianças que nasceram por aqui que minha família estava desconfiada, mas perceberam que só se eu estivesse prestes a parir uma centopeia é que faria sentido aquele bando de micro calçados, de todas as cores e modelos.
E vocês? Muita gente nova chegando por aí?
;)
É que de repente todo mundo emprenhou!
Tudo começou quando voltamos do Brasil. Logo na volta às aulas descobri que uma amiguinha querida do Arthur iria ganhar umx irmxx. A mãe já estava quase parindo e a partir daí minha vida foi uma sucessão de charadas no estilo "adivinha só?" cujas respostas eu já sabia antes mesmo do fim da pergunta.
Foi gente na blogosfera. Foi gente que tinha ligado tubas uterinas. Gente que escorregou na conta da tabelinha e gente que nunca quis ser mãe, mas tá lá agora, buchuda e feliz. Tem gente que me contou antes. Tem gente que viajou e de lembrancinha trouxe uma semente germinando na pança. Tem gente que me procurou para saber onde e com quem parir. Tem gente que já pariu, de novo. Tem gente que contou para as pessoas via Facebook. Via zapzap. Via SMS. Olha, eu tenho até cogitado usar camisinha para pegar no telefone ou no computador, vai que...
Mas o que mais me impressiona nessa história é a quantidade de terceirinhxs encomendadxs. Nos últimos seis meses fiquei sabendo da gravidez e/ou do nascimento de nada mais, nada menos que cinco rebentos terceiros! Para uma geração cujxs amiguinhxs quase todxs eram filhxs únicxs, isso é um tremendo baby boom!
Eu fiz tanto sapatinho para dar de presente para as crianças que nasceram por aqui que minha família estava desconfiada, mas perceberam que só se eu estivesse prestes a parir uma centopeia é que faria sentido aquele bando de micro calçados, de todas as cores e modelos.
E vocês? Muita gente nova chegando por aí?
;)
terça-feira, 29 de março de 2016
Ele é sempre assim?
É uma das frases que eu mais ouço. E eu nem sei por quê. Minhas olheiras deveriam bastar. Mas não bastam, e eu respondo pelo menos uma vez por dia: é, ele é sempre assim.
Um bólido, um dínamo, um ás, um foguete. Zuuuuuuum. Corre, pula, rola, grita, quer tudo agora, quer tudo rápido. Zuuuuuuuuuum. Já foi, não pode tirar o olho um segundo, caiu, levantou, tá lá de novo, já passou.
Ele é sempre assim?
Sempre. Mas não vai ser assim para sempre.
Vai crescer. Vai parar de correr, vai parar de rolar, vai se interessar por outras energias, outras maneiras de explorar o mundo. Pode ser que continue indômito. Pode ser que se transforme. Podem ser tantas coisas, que agora eu prefiro ficar com ele, do jeitinho que ele está, sem tirar nem pôr esses quatro anos que vêm chegando a passos largos: no rosto, no corpo, no cérebro. Quatro anos e ainda cabe no meu colo, embora pareça, cada vez mais, transbordar do meu coração.
Um bólido, um dínamo, um ás, um foguete. Zuuuuuuum. Corre, pula, rola, grita, quer tudo agora, quer tudo rápido. Zuuuuuuuuuum. Já foi, não pode tirar o olho um segundo, caiu, levantou, tá lá de novo, já passou.
Ele é sempre assim?
Sempre. Mas não vai ser assim para sempre.
Vai crescer. Vai parar de correr, vai parar de rolar, vai se interessar por outras energias, outras maneiras de explorar o mundo. Pode ser que continue indômito. Pode ser que se transforme. Podem ser tantas coisas, que agora eu prefiro ficar com ele, do jeitinho que ele está, sem tirar nem pôr esses quatro anos que vêm chegando a passos largos: no rosto, no corpo, no cérebro. Quatro anos e ainda cabe no meu colo, embora pareça, cada vez mais, transbordar do meu coração.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Língua
Olha, sem favor (e sem modéstia), duas coisas estão de parabéns: meu inglês e a burocracia estadunidense.
Que mês, minha gente!
Existem alguns processos administrativos (normais) abertos por mim. E quando eu me lembro que reclamava da burocracia brasileira, agora eu coloco em perspectiva e vejo que é um luxo discutir sobre os meandros oficiais e oficiosos que um processo pode trilhar na língua pátria. É um luxo soletrar o nome sem pensar em cada letra (por que as vogais aqui têm nomes tão diferentes?). É puro glamour discutir sem tentar se lembrar da ordem dos adjetivos ou adjuntos adnominais em uma simples frase.
Se eu fosse dona de cursinho de inglês no Brasil, faria as provas assim: por telefone, com atendentes falando bem rápido e em termos técnicos do outro lado, e você precisando anotar números e códigos enquanto conta ao interlocutor coisas bastante complexas, como o resumo do seu caso em aberto.
Números são um mistério. Uma vez uma linguista me disse que dá para ter uma boa pista da língua dominante de um falante ao pedir para ele fazer uma conta: ele vai pensar nos números na língua com a qual se sente mais confortável. Tem gente, é verdade, que não se sente confortável com números em língua nenhuma, mas ainda assim vai contar e somar ou subtrair aos trancos e barrancos da língua dominante.
Dei sorte até agora, porque as pessoas que me atenderam foram solíticas, pacientes e simpáticas. Até uma bênção eu recebi ao fim de um dos inúmeros telefonemas. Mas já lidei com atendentes modorrentos que tudo o que mais queriam era, aparentemente, fazer coro com o Trump e me mandar de volta (de preferência de bote) para meu país de origem.
Todas as vezes que passo por situações difíceis ou desafiadoras por ser imigrante, penso automaticamente em duas coisas: 1) como as pessoas que estão ilegais em países diferentes do que nasceram devem sofrer e ficar realmente à margem; 2) como as pessoas fantasiam a respeito da vida que levo aqui nos EUA.
Tem coisa boa? Claro que tem! Tem coisa linda? Óbvio que sim! Vale à pena? Bom, por enquanto está valendo e, como diria Pessoa, "tudo vale à pena quando a alma não é pequena". A alma é grande, mas a paciência e a perseverança também precisam ser imensas. Frustração é meu nome do meio, quando tento ser a mesma pessoa que sou no Brasil e não consigo. Costumo brincar que sou muito mais inteligente em português, mas é verdade: as limitações da linguagem ainda são um empecilho (será que um dia deixarão de ser? Não sei. Minha avó é imigrante, está no Brasil há mais de 40 anos, e até hoje a linguagem impõe sua cancela em certas situações). Cansaço é meu nome quando, depois de pensar em português por questões profissionais, preciso rapidamente mudar o código e me comunicar em inglês. Dá preguiça de sair de casa, dá medo de falar no guichê, dá nervoso repetir, repetir, repetir e saber que não, a pessoa do outro lado não entendeu o sotaque. E, é evidente, as dificuldades não param por aí. A língua é só a primeira de uma série de barreiras alfandegárias de uma aduana perene. A língua é o passaporte arregaçado na primeira frase, embora às vezes errem um pouco a geografia e me localizem no leste europeu. A língua é a mais óbvia e mais eficaz ferramenta de separação entre mim e eles. Entre mim e tantas coisas. Entre uma vida confortável e uma vida desafiadora.
Poderia eu dizer que só os bilíngues são felizes, mas eu tenho alma, e das grandes, então prefiro dizer que são felizes aqueles que, apesar da língua, vão contar a história. A história de se estar deslocada, em deslocamento, fora do eixo da acomodação.
Espero que um dia essa seja a minha história.
quarta-feira, 28 de outubro de 2015
A motivação e outras vacas
Eu era ~jovem~ e decidi virar budista. Acontece que eu tenho minha peculiaridade. Sou um arquivo enciclopédico, com informações descasadas sobre muitas coisas, muitas coisas mesmo. Nada muito profundo, de um modo geral. No entanto, quando eu decido que vou conhecer um tema de verdade, não consigo ler a página da Wikipedia e sair bradando que sou especialista. Ah, não. Sou chata e fico lendo, lendo, pensando, ouvindo e fazendo contrapontos. E um dia percebo que posso não saber tudo sobre determinado assunto, mas pelo menos sei bastante.
Quando decidi virar budista, então, achei que seria uma boa ler e conhecer a filosofia. Conversei com amigos budistas e pedi livros sobre o assunto. Eles me deram.
Não virei budista. Nem li todos os livros. Continuo arranhando apenas a superfície da filosofia.
Mas li um livro. Um livro que tinha uma imagem oculta. Um livro cujo autor explicava que a verdade era como aquela imagem: um borrão desconexo à princípio, coisa que não faz sentido e que nem todo mundo vai gastar um minuto sequer para tentar decifrar/organizar as manchas. Contudo, depois que você enxerga o que está ali, nunca mais consegue "desenxergar" o que viu. E, enfim, ressignifica a imagem, dando a ele uma compreensão mais profunda, um sentido a mais.
Corri para o fim do livro, onde havia as tais manchas com uma imagem oculta. Marido, ainda namorado, estava ao lado e tentou enxergar "a verdade". Ficou heróicos vinte minutos, mas achou mais interessante ir fazer outra coisa. Eu, porém, não conseguia me conformar em não ver a imagem (o livro não trazia uma "resposta" ou "dica"). Passei muito tempo vendo aqueles borrões de tinta. Muito tempo. Mesmo. E então eu vi!
Lá estava ela, olhando para mim, plácida. Uma vaca. A vaca do ativismo. A vaca da psicanálise. A vaca da compreensão de algo além do óbvio. A vaca da verdade.
Acontece, que a vaca da verdade parece plácida, talvez até amistosa, mimosa. Mas na verdade ela é ardilosa, porque o boi paternalista mora juntinho dela, e se você erra a mira, cai nele. E aí começa a olhar com o olhar bovino para as pessoas que não exergam o que você enxerga, vem aquela vontade de falar "coitadinha dela, não viu a luz, digo, a vaca". E a conexão se perde. E a pessoa vai embora, fazer outra coisa, sem querer desvendar as manchas. E você, cheia das boas intenções, não entende como alguém não enxerga ou decide não procurar enxergar o que você vê.
Durante muito tempo, principalmente com relação ao ativismo pró-parto humanizado, eu fui a chata da vaca. "Ó, tá aqui, não vê? Focinho de episiotomia, olho de GO fofinho, evidências científicas preto-no-branco!" Mas a pessoa queria, sei lá, fazer palavra cruzada ou chupar um Chicabon e seguia dizendo que não havia nada ali para ver. Eu me frustrava tanto!
Então, assim como aconteceu com a vaca do budismo, com a vaca do ativismo, eu conheci a vaca da motivação, que é a vaca mãe de todas as outras vacas. A vaca mãe da motivação me ensinou que pode-se até mostrar a figura manchada para uma pessoa, qualquer pessoa, mas precisa partir dela a motivação e a determinação para procurar novas maneiras de enxergar manchas, imagens, a vida.
E não só isso! A vaca mãe também me ensinou que enxergar a vaca do ativismo ou até mesmo a vaca do budismo faz de mim uma pessoa melhor. Não nos moldes competitivos escrotos de "sou melhor que você ou que fulana porque vi um focinho nesta foto". Mas uma pessoa melhor porque, com a motivação e a determinação, consegui ter mais liberdade e espaço dentro dos assuntos e das situações que me interessam. É como se cada assunto fosse uma casa. Você pode ficar parada onde está e conhecer bem o sofá. Mas tem gente entrando e saindo de cômodos. Quanto mais da casa você conhece, mais livre fica para perambular no espaço, ainda que, por mais esforços que faça, nunca vai dar para conhecer todos os detalhes da casa ("hum, qual a cor da maçaneta da porta do banheiro? quantas tábuas formam o piso? qual o material que recheia as almofadas da poltrona do escritório?").
Sei que a postagem pode soar para vocês uma nova sequência de manchas sem sentido. Mas é a minha vaca. Para mim, faz sentido, dentro do contexto pessoal que estou vivendo, e pode ser que alguém venha enxergar comigo umas vacas por aí: naquela postagem do #primeiroassedio em que de repente faz sentido a naturalização do machismo na nossa sociedade, naquela viagem a Paris em que você descobre ser racista ao se surpreender por ver um negro com mais dinheiro que você, depois de uma cesárea que poderia ter sido evitada, depois que aquela pessoa conta uma história da infância que ressignifica um comportamento. São tantas vacas!
E nesse exercício de tentar enxergar para além do óbvio e do difícil à primeira vista, que a gente consiga enxergar mais de nós mesmos e das pessoas, porque, se você quer saber um segredo, tem mais bicho por aí.
Quando decidi virar budista, então, achei que seria uma boa ler e conhecer a filosofia. Conversei com amigos budistas e pedi livros sobre o assunto. Eles me deram.
Não virei budista. Nem li todos os livros. Continuo arranhando apenas a superfície da filosofia.
Mas li um livro. Um livro que tinha uma imagem oculta. Um livro cujo autor explicava que a verdade era como aquela imagem: um borrão desconexo à princípio, coisa que não faz sentido e que nem todo mundo vai gastar um minuto sequer para tentar decifrar/organizar as manchas. Contudo, depois que você enxerga o que está ali, nunca mais consegue "desenxergar" o que viu. E, enfim, ressignifica a imagem, dando a ele uma compreensão mais profunda, um sentido a mais.
Corri para o fim do livro, onde havia as tais manchas com uma imagem oculta. Marido, ainda namorado, estava ao lado e tentou enxergar "a verdade". Ficou heróicos vinte minutos, mas achou mais interessante ir fazer outra coisa. Eu, porém, não conseguia me conformar em não ver a imagem (o livro não trazia uma "resposta" ou "dica"). Passei muito tempo vendo aqueles borrões de tinta. Muito tempo. Mesmo. E então eu vi!
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| Você vê o que eu vejo? |
Acontece, que a vaca da verdade parece plácida, talvez até amistosa, mimosa. Mas na verdade ela é ardilosa, porque o boi paternalista mora juntinho dela, e se você erra a mira, cai nele. E aí começa a olhar com o olhar bovino para as pessoas que não exergam o que você enxerga, vem aquela vontade de falar "coitadinha dela, não viu a luz, digo, a vaca". E a conexão se perde. E a pessoa vai embora, fazer outra coisa, sem querer desvendar as manchas. E você, cheia das boas intenções, não entende como alguém não enxerga ou decide não procurar enxergar o que você vê.
Durante muito tempo, principalmente com relação ao ativismo pró-parto humanizado, eu fui a chata da vaca. "Ó, tá aqui, não vê? Focinho de episiotomia, olho de GO fofinho, evidências científicas preto-no-branco!" Mas a pessoa queria, sei lá, fazer palavra cruzada ou chupar um Chicabon e seguia dizendo que não havia nada ali para ver. Eu me frustrava tanto!
Então, assim como aconteceu com a vaca do budismo, com a vaca do ativismo, eu conheci a vaca da motivação, que é a vaca mãe de todas as outras vacas. A vaca mãe da motivação me ensinou que pode-se até mostrar a figura manchada para uma pessoa, qualquer pessoa, mas precisa partir dela a motivação e a determinação para procurar novas maneiras de enxergar manchas, imagens, a vida.
E não só isso! A vaca mãe também me ensinou que enxergar a vaca do ativismo ou até mesmo a vaca do budismo faz de mim uma pessoa melhor. Não nos moldes competitivos escrotos de "sou melhor que você ou que fulana porque vi um focinho nesta foto". Mas uma pessoa melhor porque, com a motivação e a determinação, consegui ter mais liberdade e espaço dentro dos assuntos e das situações que me interessam. É como se cada assunto fosse uma casa. Você pode ficar parada onde está e conhecer bem o sofá. Mas tem gente entrando e saindo de cômodos. Quanto mais da casa você conhece, mais livre fica para perambular no espaço, ainda que, por mais esforços que faça, nunca vai dar para conhecer todos os detalhes da casa ("hum, qual a cor da maçaneta da porta do banheiro? quantas tábuas formam o piso? qual o material que recheia as almofadas da poltrona do escritório?").
Sei que a postagem pode soar para vocês uma nova sequência de manchas sem sentido. Mas é a minha vaca. Para mim, faz sentido, dentro do contexto pessoal que estou vivendo, e pode ser que alguém venha enxergar comigo umas vacas por aí: naquela postagem do #primeiroassedio em que de repente faz sentido a naturalização do machismo na nossa sociedade, naquela viagem a Paris em que você descobre ser racista ao se surpreender por ver um negro com mais dinheiro que você, depois de uma cesárea que poderia ter sido evitada, depois que aquela pessoa conta uma história da infância que ressignifica um comportamento. São tantas vacas!
E nesse exercício de tentar enxergar para além do óbvio e do difícil à primeira vista, que a gente consiga enxergar mais de nós mesmos e das pessoas, porque, se você quer saber um segredo, tem mais bicho por aí.
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| Vão vendo... |
domingo, 18 de outubro de 2015
Outono
O outono chegou intenso. O azul doloroso em contraste com o alaranjado ofuscante só não distraem para sempre porque sopra o vento gelado. Sopra e espalha folhas sem fim, folhas eternas, folhas que se espalham, se reúnem, são sopradas e aspiradas, colocadas dentro de latões, sacos de papel imensos.
Outro dia Arthur quis brincar. Ali, no meio de um amontoado espontâneo de folhas. Com as folhas, entre as folhas. Ele era "um caminhão de folhas, mamãe". E chutava, arrastava os pezinhos esparramando aquela montoeira de tons de laranja-acastanhado. Isso foi no meio da calçada. Os prédios criavam um corredor para o vento, que rodopiava as folhas da região e as depositava bem ali, naquele montículo que meu filho escolheu para brincar. Os prédios, no caso, eram comerciais. Os prédios, mais especificamente, tinham, naquele dia, exatamente, uma fila imensa com jovens engravatados. Era um congresso, uma feira de empregos, um evento relacionado à indústria. Não vi o nome direito. Preferi meu "caminhão de folhas, mamãe" e o cochicho de seus pezinhos. Mas vi as pessoas. Todas, sem exceção, usavam preto ou cinza. Todas, sem exceção, não tinham mais de vinte e cinco. Todas, sem exceção, usavam terno e calça. Até as mulheres.
Isso me chocou.
Ou melhor, chocaram-se ali tantas vidas. Como um céu de outubro contra as árvores combalidas e coradas, meu filho, minha força da natureza, meu tom rascante, meu patente regozijo, minha felicidade resplandecente e espontânea contrastava com a anoética e pasteurizada vida adulta recém-alcançada. Constratava ali também meu deslocamento, sem saber se pular em folhas secas é um ato social e culturalmente aceito por aqui ou se era pura rebelião bárbara.
Um taxista saltou para abrir a porta e fazer entrar algum passageiro. Riu. Alto. Ri de volta. Ainda chocada.
Eu me perguntei, mastigando bem aquele clichê, em que outono eu perdi minha criança. Não a minha criança-caminhão, minha criança-revolução bárbara, meu azougue. Mas a criança-eu, que não pensava nos engravatados e nas taillerizadas, que nã perguntava se pular em folhas era bom comportamento. Onde se ressecou, murchou e caiu a risada e a possibilidade de eu mesma ser um caminhão de folhas? Eu sei de alguns veios abertos que cessaram o fluxo da seiva. Sei de um sol mais tórrido que desidratou um ponto. Sei de algumas, mas não de todas as respostas.
E veio o vento. Soprou o cabelo comprido de um engravatado de cinza e gravata lilás, rindo com a despreocupada alegria de chutar folhas do "caminhão". Soprou também mais folhas: as espalhadas para a calçada, as reunidas em espiral. Soprou meu rosto, meu embasbaque. Soprou. Intransitivo. Como o amar.
Outro dia Arthur quis brincar. Ali, no meio de um amontoado espontâneo de folhas. Com as folhas, entre as folhas. Ele era "um caminhão de folhas, mamãe". E chutava, arrastava os pezinhos esparramando aquela montoeira de tons de laranja-acastanhado. Isso foi no meio da calçada. Os prédios criavam um corredor para o vento, que rodopiava as folhas da região e as depositava bem ali, naquele montículo que meu filho escolheu para brincar. Os prédios, no caso, eram comerciais. Os prédios, mais especificamente, tinham, naquele dia, exatamente, uma fila imensa com jovens engravatados. Era um congresso, uma feira de empregos, um evento relacionado à indústria. Não vi o nome direito. Preferi meu "caminhão de folhas, mamãe" e o cochicho de seus pezinhos. Mas vi as pessoas. Todas, sem exceção, usavam preto ou cinza. Todas, sem exceção, não tinham mais de vinte e cinco. Todas, sem exceção, usavam terno e calça. Até as mulheres.
Isso me chocou.
Ou melhor, chocaram-se ali tantas vidas. Como um céu de outubro contra as árvores combalidas e coradas, meu filho, minha força da natureza, meu tom rascante, meu patente regozijo, minha felicidade resplandecente e espontânea contrastava com a anoética e pasteurizada vida adulta recém-alcançada. Constratava ali também meu deslocamento, sem saber se pular em folhas secas é um ato social e culturalmente aceito por aqui ou se era pura rebelião bárbara.
Um taxista saltou para abrir a porta e fazer entrar algum passageiro. Riu. Alto. Ri de volta. Ainda chocada.
Eu me perguntei, mastigando bem aquele clichê, em que outono eu perdi minha criança. Não a minha criança-caminhão, minha criança-revolução bárbara, meu azougue. Mas a criança-eu, que não pensava nos engravatados e nas taillerizadas, que nã perguntava se pular em folhas era bom comportamento. Onde se ressecou, murchou e caiu a risada e a possibilidade de eu mesma ser um caminhão de folhas? Eu sei de alguns veios abertos que cessaram o fluxo da seiva. Sei de um sol mais tórrido que desidratou um ponto. Sei de algumas, mas não de todas as respostas.
E veio o vento. Soprou o cabelo comprido de um engravatado de cinza e gravata lilás, rindo com a despreocupada alegria de chutar folhas do "caminhão". Soprou também mais folhas: as espalhadas para a calçada, as reunidas em espiral. Soprou meu rosto, meu embasbaque. Soprou. Intransitivo. Como o amar.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
Sobre ser livre
Eu queria pôr a culpa na língua.
"O quê? Isso? Não, não. Não foi isso que eu disse. Vocês se confundiram."
Eu queria poder colocar a culpa na minha incapacidade de dizer não.
"Ah, eu fiquei tão sem-graça de negar, sabe? Ela disse com tanto jeitinho."
Eu queria até culpar Arthur.
"Sabe, foi ele que quis muito, quis tanto, é importante para ele."
Mas a verdade é que fui eu que quis e precisei e desejei e disse sim. Um sim consciente. Tá, de repente não tão consciente assim, porque sempre tem umas surpresas na vida que a gente não prevê nas mirabolâncias do nosso pensamento.
E se alguém pode ser considerado culpado pela presença de Lola nas nossas vidas, esse alguém sou eu!
Lola: peludinha, fofinha, meio vesga, uma porquinha-da-índia. Ela mora na sala de aula do Arthur e não tinha com quem ficar nas férias de inverno. E eu me candidatei ao cargo de guinea pig sitter. Babá de porquinha-da-índia.
Ela veio na gaiola, de carona na mala do carro de uma das mães que tem carro. Eu não tenho carro. Mas agora eu tenho Lola. Que mastiga alface, cenoura, couve, espinafre, maçã e outras gostosuras vegetais. Lola, tímida, arredia e assustada. No fundo da gaiola. Dentro da casinha. Escapando só para comer, beber e ver Arthur. Eles parecem gostar um do outro. Eu que não gostei. Não da Lola, óbvio. Eu não gostei foi do que aprendi com ela aqui.
A gaiola fica aberta quase que o tempo todo. Ela é livre dentro dessa miniprisão chamada apartamento. Pode entrar e sair, pode correr, se esconder, guinchar e até roer os pés dos móveis. Ela pode vir se aninhar no meu colo, ou no do Arthur, ou no do marido. Mas ela não: fica só lá dentro de seu mundinho conhecido, como se aprisionada pelas portas da domesticação. Portas imaginárias, portas irreais que a confinam em um espaço solitário e isolado. Vamos até ela, fazemos-lhe festinhas, no entanto ela fica ali. Recebe o que oferecemos com desconfiança, arredia e assustada. Nunca sai e fica ali, bebendo sua aguinha, comendo suas folhinhas, vendo a vida listrada através das barras da gaiola.
E eu pensei que tem muita Lola na minha vida.
Lolas humanas.
Lolas que culpam portas que não existem de fracassos ou limitações que, exatamente como a minha decisão de ficar com Lola durante as férias de inverno, são fruto das decisões tomadas livre e espontaneamente. As portas imaginárias confinam e a culpa nunca é de quem decide. O cosmos, a vida, o azar, o destino, Deus ou até mesmo outras pessoas, essas filhas da mãe que cruzam o nosso caminho. A pessoa é mero barquinho de papel no tsunami da vida: sem controle, sem arrimo, sem vela ou direção.
Mesmo no inverno, não quero ser uma Lola. Porque o mais triste de ser Lola não é ficar limitada dentro de jaulas imaginárias, nem viver a vida pacata do ócio e do tédio, mas sim não ter consciência de tudo isso. Tomar decisões conscientes, para mim, é a verdadeira liberdade. Não que dê para pensar em todas as possibilidades de fracasso que as escolhas possam acarretar, mas aceitar e não colocar a culpa em outro ou no que vai fora, ah, esse é o segredo. Trazer para si as responsabilidades e liberdades. Eu escolho, eu assumo, eu aguento, eu faço.
Enquanto isso, a portinhola da gaiola está aberta. E Lola ali dentro, os olhos olhando para a ponta do nariz, é um lembrete constante de que é preciso coragem para se viver em liberdade.
"O quê? Isso? Não, não. Não foi isso que eu disse. Vocês se confundiram."
Eu queria poder colocar a culpa na minha incapacidade de dizer não.
"Ah, eu fiquei tão sem-graça de negar, sabe? Ela disse com tanto jeitinho."
Eu queria até culpar Arthur.
"Sabe, foi ele que quis muito, quis tanto, é importante para ele."
Mas a verdade é que fui eu que quis e precisei e desejei e disse sim. Um sim consciente. Tá, de repente não tão consciente assim, porque sempre tem umas surpresas na vida que a gente não prevê nas mirabolâncias do nosso pensamento.
E se alguém pode ser considerado culpado pela presença de Lola nas nossas vidas, esse alguém sou eu!
Lola: peludinha, fofinha, meio vesga, uma porquinha-da-índia. Ela mora na sala de aula do Arthur e não tinha com quem ficar nas férias de inverno. E eu me candidatei ao cargo de guinea pig sitter. Babá de porquinha-da-índia.
Ela veio na gaiola, de carona na mala do carro de uma das mães que tem carro. Eu não tenho carro. Mas agora eu tenho Lola. Que mastiga alface, cenoura, couve, espinafre, maçã e outras gostosuras vegetais. Lola, tímida, arredia e assustada. No fundo da gaiola. Dentro da casinha. Escapando só para comer, beber e ver Arthur. Eles parecem gostar um do outro. Eu que não gostei. Não da Lola, óbvio. Eu não gostei foi do que aprendi com ela aqui.
A gaiola fica aberta quase que o tempo todo. Ela é livre dentro dessa miniprisão chamada apartamento. Pode entrar e sair, pode correr, se esconder, guinchar e até roer os pés dos móveis. Ela pode vir se aninhar no meu colo, ou no do Arthur, ou no do marido. Mas ela não: fica só lá dentro de seu mundinho conhecido, como se aprisionada pelas portas da domesticação. Portas imaginárias, portas irreais que a confinam em um espaço solitário e isolado. Vamos até ela, fazemos-lhe festinhas, no entanto ela fica ali. Recebe o que oferecemos com desconfiança, arredia e assustada. Nunca sai e fica ali, bebendo sua aguinha, comendo suas folhinhas, vendo a vida listrada através das barras da gaiola.
E eu pensei que tem muita Lola na minha vida.
Lolas humanas.
Lolas que culpam portas que não existem de fracassos ou limitações que, exatamente como a minha decisão de ficar com Lola durante as férias de inverno, são fruto das decisões tomadas livre e espontaneamente. As portas imaginárias confinam e a culpa nunca é de quem decide. O cosmos, a vida, o azar, o destino, Deus ou até mesmo outras pessoas, essas filhas da mãe que cruzam o nosso caminho. A pessoa é mero barquinho de papel no tsunami da vida: sem controle, sem arrimo, sem vela ou direção.
Mesmo no inverno, não quero ser uma Lola. Porque o mais triste de ser Lola não é ficar limitada dentro de jaulas imaginárias, nem viver a vida pacata do ócio e do tédio, mas sim não ter consciência de tudo isso. Tomar decisões conscientes, para mim, é a verdadeira liberdade. Não que dê para pensar em todas as possibilidades de fracasso que as escolhas possam acarretar, mas aceitar e não colocar a culpa em outro ou no que vai fora, ah, esse é o segredo. Trazer para si as responsabilidades e liberdades. Eu escolho, eu assumo, eu aguento, eu faço.
Enquanto isso, a portinhola da gaiola está aberta. E Lola ali dentro, os olhos olhando para a ponta do nariz, é um lembrete constante de que é preciso coragem para se viver em liberdade.
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
Mãe não é tudo igual
Nenhum discurso é neutro. Não se iluda: cada palavra proferida carrega uma ordem, uma visão de mundo, um recorte e valores. Podemos até escolher nossas frases e falas de maneira inconsciente, mas isso não quer dizer que elas sejam neutras ou descompromissadas com um viés político. Mesmo que você odeie política, seu discurso é quase uma entidade autônoma, anunciando com doze mil megafones o seu posicionamento político frente ao mundo.
Dito isto, preciso comentar os cartazes que andaram bombando na internet por esses dias.
Se você não sabe do que estou falando, não vou colocar um link, porque isso faria com que os tais cartazes tivessem ainda mais visualizações, do que, sinceramente, nosso mundo não precisa.
Pois bem, a primeira vez que vi foi quando uma amiga de Facebook postou o link, rindo-se horrores das falas sempre repetidas das mães. Depois veio outra. E mais outra. Todas com ensino superior completo, duas com mestrado até.
Depois a coisa se espalhou num crescente tedioso (todo viral é meio tedioso, já que você vê a mesma postagem umas doze vezes no dia). E todo mundo rindo, achando graça, compartilhando com as mãaes: olha aí, progenitora, o que você me falava!
Pois eu digo que eu achei terrível!
Além de feios, os cartazes servem a um propósito absolutamente apavorante e, de quebra, testemunham como as diretrizes da educação na minha realidade (classe média carioca, zona sul maravilha) não poderiam, como de fato não o fizeram, construir seres humanos mais humanos, engajados, críticos e empáticos.
O hedonismo da coisa começa na estética. O projeto é a esteticização de frases que ouvimos (sim, eu ouvi) das nossas mães. Quando você torna a coisa estética, você insere ela em outros valores. Então, além das palavras, temos nos tais cartazes o discurso reforçado pelos elementos visuais, que, em consonância com os padrões vigentes, nos dizem: olhem, tudo o que nos é dito pelas mães é uma regra, um mandamento lindo e maravilhoso de se ter como referência. Sim, porque é nisso que as tais imagens se constróem, referências. Quando se quiser, a partir de agora, reproduzir os discursos maternos ali estampados, a preferência vai ser pelos cartazes, porque além de estéticos (e afinados, como disse, com a estética vigente), eles são práticos, e se espalham com o simples clique num botão.
Aliás, o botão compartilhar do Facebook merecia um post a parte, mas vou poupar os meus parcos leitores dessa ladainha crítica e continuar com a digressão sobre os tais cartazes (ciente de que não se trata, porém, de menos ladainha crítica. Mas aqui o espaço é democrático e fica quem quer ler).
As peças são, ao mesmo tempo, chocantes, tristes e curiosos. Curiosos porque desde a essência captam valores embrenhados na nossa cultura. Poderiam ser oito, ou quinze, mas são dez, como os mandamentos da religião mais seguida (ainda é?) no Brasil. Eis, então, que isso já sacraliza o discurso, o que se confirma, ainda, com o fato de serem falas maternas, e não parentais. Ou seja, reforça-se o estereótipo da mãe como figura sagrada, indelével e perfeita. E isso, minha gente, esmaga o feminino, achatando-o numa categoria plana (mães são todas iguais), estanque (ai daquela que ousar sair do padrão!) e machista. Mãe, dez mandamentos e falas sacralizadas. A coisa está ficando feia, e você aí ainda rindo no Facebook.
Mas como eu disse, os cartazes não são apenas curiosos, também são tristes e chocantes. Tristes porque a esteticização da disciplina autoritária serve para reforçar o modelo, e para fazer deles leves e aceitáveis, do tipo que se pendurados na parede da sala não fariam feio com as visitas. E como modelos, referenciam e, pior, não questionam a ordem vigente. São, portanto, retrógrados. E são ainda chocantes, pois denunciam que tanta gente foi criada nessa disciplina opressora, arrogante, sacralizante e agressiva (engole o choro???) e, de quebra, acabaram por me mostrar como tanta gente inteligente do meu Facebook postou sem questionar a mensagem por trás da brincadeira.
Dito isto, preciso comentar os cartazes que andaram bombando na internet por esses dias.
Se você não sabe do que estou falando, não vou colocar um link, porque isso faria com que os tais cartazes tivessem ainda mais visualizações, do que, sinceramente, nosso mundo não precisa.
Pois bem, a primeira vez que vi foi quando uma amiga de Facebook postou o link, rindo-se horrores das falas sempre repetidas das mães. Depois veio outra. E mais outra. Todas com ensino superior completo, duas com mestrado até.
Depois a coisa se espalhou num crescente tedioso (todo viral é meio tedioso, já que você vê a mesma postagem umas doze vezes no dia). E todo mundo rindo, achando graça, compartilhando com as mãaes: olha aí, progenitora, o que você me falava!
Pois eu digo que eu achei terrível!
Além de feios, os cartazes servem a um propósito absolutamente apavorante e, de quebra, testemunham como as diretrizes da educação na minha realidade (classe média carioca, zona sul maravilha) não poderiam, como de fato não o fizeram, construir seres humanos mais humanos, engajados, críticos e empáticos.
O hedonismo da coisa começa na estética. O projeto é a esteticização de frases que ouvimos (sim, eu ouvi) das nossas mães. Quando você torna a coisa estética, você insere ela em outros valores. Então, além das palavras, temos nos tais cartazes o discurso reforçado pelos elementos visuais, que, em consonância com os padrões vigentes, nos dizem: olhem, tudo o que nos é dito pelas mães é uma regra, um mandamento lindo e maravilhoso de se ter como referência. Sim, porque é nisso que as tais imagens se constróem, referências. Quando se quiser, a partir de agora, reproduzir os discursos maternos ali estampados, a preferência vai ser pelos cartazes, porque além de estéticos (e afinados, como disse, com a estética vigente), eles são práticos, e se espalham com o simples clique num botão.
Aliás, o botão compartilhar do Facebook merecia um post a parte, mas vou poupar os meus parcos leitores dessa ladainha crítica e continuar com a digressão sobre os tais cartazes (ciente de que não se trata, porém, de menos ladainha crítica. Mas aqui o espaço é democrático e fica quem quer ler).
As peças são, ao mesmo tempo, chocantes, tristes e curiosos. Curiosos porque desde a essência captam valores embrenhados na nossa cultura. Poderiam ser oito, ou quinze, mas são dez, como os mandamentos da religião mais seguida (ainda é?) no Brasil. Eis, então, que isso já sacraliza o discurso, o que se confirma, ainda, com o fato de serem falas maternas, e não parentais. Ou seja, reforça-se o estereótipo da mãe como figura sagrada, indelével e perfeita. E isso, minha gente, esmaga o feminino, achatando-o numa categoria plana (mães são todas iguais), estanque (ai daquela que ousar sair do padrão!) e machista. Mãe, dez mandamentos e falas sacralizadas. A coisa está ficando feia, e você aí ainda rindo no Facebook.
Mas como eu disse, os cartazes não são apenas curiosos, também são tristes e chocantes. Tristes porque a esteticização da disciplina autoritária serve para reforçar o modelo, e para fazer deles leves e aceitáveis, do tipo que se pendurados na parede da sala não fariam feio com as visitas. E como modelos, referenciam e, pior, não questionam a ordem vigente. São, portanto, retrógrados. E são ainda chocantes, pois denunciam que tanta gente foi criada nessa disciplina opressora, arrogante, sacralizante e agressiva (engole o choro???) e, de quebra, acabaram por me mostrar como tanta gente inteligente do meu Facebook postou sem questionar a mensagem por trás da brincadeira.
quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
A rotina e Nietzsche
Eu invejo quem tem rotina certinha. Aliás, na mesma medida em que invejo a tal pessoa, dela desconfio, pois como, COMO?, é possível cumprir ritualisticamente funções e atividades todos os dias? São tantas as variáveis, em todos os níveis de tarefas, que, sinceramente, acho um milagre comermos três refeições e dois lanches diariamente.
Tudo começa na madrugada. Se Arthur dorme bem, geralmente acorda de bom humor. Pode ser que acorde bem-humorado e com a pá virada, pode ser que acorde bem-humorado e calmo, dócil e meigo. Quem sabe? Se ele dorme mal, porém, costuma acordar cansado, o que pode levar a um humor meio estranho. Ou não. Cansado, pode ou não ficar mais calmo, ou mais agitado, ou mais levado, ou irritadiço. Mas a variável da madrugada não termina aí, porque eu também entro na jogada, e o meu sono, se foi bom, ruim, suficiente (não existe muito na maternidade) ou pouco, tudo isso vai influenciar na rotina do dia seguinte, já que serei eu fazendo coisas com e para Arthur.
Complexo? Assustador? Mas nós ainda nem começamos a fazer nada. Estamos nos preâmbulos, no prólogo da história cotidiana, que, se você quer mesmo saber, não deveria se chamar rotina, mas sim caostina.
O caos se instaura quando abro os olhos. Invariavelmente, Arthur já está saindo da cama, o que me faz correr porta do quarto afora, a fim de evitar artes e peraltices. E o caos continua ao longo do dia. Cada microtarefa tem a potencialidade da tragédia. Um lápis na mão e uma folha de papel em branco sobre a mesa? Tanto pode gerar um lindo desenho de rabiscos quanto: uma mão cortada pelo papel; lápis no olho da criança; lápis no olho da mãe da criança; lápis na orelha, perfurando o tímpano; lápis na parede; papel no chão, transformando-se, segundos mais tarde, numa superfície deslizante; entre outras zilhões de possibilidades.
Realizar as tarefas enquanto cuido do pequeno é jogar com o imprevisível, que pode vir com uma surpresa incrível nas mãos, tipo uma nova palavra aprendida pelo pequeno ou um pratão comido no almoço, como também pode acenar com o caos absolutamente enlouquecedor de um pequeno ser correndo pelado pela casa enquanto eu tento, sem qualquer êxito, enfiar, pelo menos, a fraldinha naquela bundinha livre, leve e solta. Poças de xixi, carinho no bichinho de pelúcia, uma subida perigosa numa cadeira arrastada para perto do fogão, uma tentativa de entrar sozinho (de cabeça) na banheira, uma leitura pacata e compenetrada no livro favorito, a espera paciente pelo fim do processo de cortar uma cebola, batidas com um objeto pesado no vidro da janela; a cabeça de um bebê é território inescrutável.
Com isso, meus dias de caostina são nietzschenianos: o eterno retorno, a vida que se repete tim-tim por tim-tim, a vida que traz, na potencialidade de se desdobrar de infinitas maneiras, a eternidade na duração de um dia.
Sendo assim, porque todas as rotinas maternas são, essencialmente iguais, é que eu desconfio de quem diz que traz tudo sob controle.
Maternar é viver no limite do incontrolável.
Tudo começa na madrugada. Se Arthur dorme bem, geralmente acorda de bom humor. Pode ser que acorde bem-humorado e com a pá virada, pode ser que acorde bem-humorado e calmo, dócil e meigo. Quem sabe? Se ele dorme mal, porém, costuma acordar cansado, o que pode levar a um humor meio estranho. Ou não. Cansado, pode ou não ficar mais calmo, ou mais agitado, ou mais levado, ou irritadiço. Mas a variável da madrugada não termina aí, porque eu também entro na jogada, e o meu sono, se foi bom, ruim, suficiente (não existe muito na maternidade) ou pouco, tudo isso vai influenciar na rotina do dia seguinte, já que serei eu fazendo coisas com e para Arthur.
Complexo? Assustador? Mas nós ainda nem começamos a fazer nada. Estamos nos preâmbulos, no prólogo da história cotidiana, que, se você quer mesmo saber, não deveria se chamar rotina, mas sim caostina.
O caos se instaura quando abro os olhos. Invariavelmente, Arthur já está saindo da cama, o que me faz correr porta do quarto afora, a fim de evitar artes e peraltices. E o caos continua ao longo do dia. Cada microtarefa tem a potencialidade da tragédia. Um lápis na mão e uma folha de papel em branco sobre a mesa? Tanto pode gerar um lindo desenho de rabiscos quanto: uma mão cortada pelo papel; lápis no olho da criança; lápis no olho da mãe da criança; lápis na orelha, perfurando o tímpano; lápis na parede; papel no chão, transformando-se, segundos mais tarde, numa superfície deslizante; entre outras zilhões de possibilidades.
Realizar as tarefas enquanto cuido do pequeno é jogar com o imprevisível, que pode vir com uma surpresa incrível nas mãos, tipo uma nova palavra aprendida pelo pequeno ou um pratão comido no almoço, como também pode acenar com o caos absolutamente enlouquecedor de um pequeno ser correndo pelado pela casa enquanto eu tento, sem qualquer êxito, enfiar, pelo menos, a fraldinha naquela bundinha livre, leve e solta. Poças de xixi, carinho no bichinho de pelúcia, uma subida perigosa numa cadeira arrastada para perto do fogão, uma tentativa de entrar sozinho (de cabeça) na banheira, uma leitura pacata e compenetrada no livro favorito, a espera paciente pelo fim do processo de cortar uma cebola, batidas com um objeto pesado no vidro da janela; a cabeça de um bebê é território inescrutável.
Com isso, meus dias de caostina são nietzschenianos: o eterno retorno, a vida que se repete tim-tim por tim-tim, a vida que traz, na potencialidade de se desdobrar de infinitas maneiras, a eternidade na duração de um dia.
Sendo assim, porque todas as rotinas maternas são, essencialmente iguais, é que eu desconfio de quem diz que traz tudo sob controle.
Maternar é viver no limite do incontrolável.
sábado, 1 de fevereiro de 2014
Ode ao café
Arábico das mil e uma noites insones
Foste renegado por mim por anos
Mas agora trinca meus dentes
Num sorriso preciso porque vivo
Vivo com sono
Caindo pelos cantos
Cantos de ninar, cantos de embalar
Cantos de acocorar e brincar
Vivo, o grão amargo mais doce que existe
Ressoa dentro de mim
Num bailado artificialmente natural
Cheio de energia e um pouco de polca
Não polco, pois brasileira sou
Mas cafeíno-me,
Pois mãe e trabalhadora,
Estou sempre cansada.
Foste renegado por mim por anos
Mas agora trinca meus dentes
Num sorriso preciso porque vivo
Vivo com sono
Caindo pelos cantos
Cantos de ninar, cantos de embalar
Cantos de acocorar e brincar
Vivo, o grão amargo mais doce que existe
Ressoa dentro de mim
Num bailado artificialmente natural
Cheio de energia e um pouco de polca
Não polco, pois brasileira sou
Mas cafeíno-me,
Pois mãe e trabalhadora,
Estou sempre cansada.
quarta-feira, 15 de janeiro de 2014
Mimem seus filhos!
Segundo o dicionário Aulete, existem cinco acepções da palavra "mimo", e somente uma tem cunho pejorativo. Acho curioso que justamente esta acepção, que associa excesso e carinho especificamente ao mundo infantil, tenha ganhado tal força que apague as demais. Como assim vivemos numa sociedade em que ignoramos solenemente "graça, leveza, coisa encantadora, delicada ou bela"?
Bom, aí eu comecei a remoer, né?
Tudo começou... ora, sei lá bem como começou. Acho que desde que Arthur saiu daqui da pança e não ficou no bebê conforto, nem no carrinho, nem no bercinho, as pessoas começaram a ficar incomodadas com as minhas escolhas. Ora, que chatura! Gostaria de saber de onde as pessoas tiraram a ideia estapafúrdia de que carinho faz mal, sobretudo, ao caráter de uma pessoa.
Pois bem, o fato é que fiquei aqui matutando sobre o que significa mimar uma criança, e sobre por que encher o filhote de carinhos e afagos causa tanto frisson.
Ora, mimar, se tomarmos a significação pejorativa da coisa, entendendo que uma criança mimada é necessariamente algo não desejável, logo inferimos a ideia de oferecer à criança uma resposta incorreta quando ela pede amor. Incorreta porque imprecisa, porque não precisa, desnecessária.
A criança PRECISA de amor, de cuidado, de afeto, de atenção. Ou seja, ela precisa de mimos, nas outras quatro acepções dadas pelo dicionário.
Por outro lado, a criança NÃO precisa do último videogame, de ganhar presentes e mais presentes a cada efeméride, de ter zilhões de brinquedos e DVDs e, sobretudo, ela NÃO precisa (e nem deveria) ser largada sozinha com todas essas desnecessárias materialidades. Note bem que eu não estou julgando ninguém, nem pretendo analisar a conduta de nenhuma mãe. Estou pensando genericamente sobre esse rótulo do "mimado", até porque ele foi o meu rótulo durante anos, apenas porque eu sou filha única.
Eu acho que as pessoas dizem que uma criança é mimada porque não entendem que amar é mimar, porque é cuidar, é zelar, é dar afeto, é dar carinho, é agradar/ser agradável. Isso não estraga ninguém. E mais: é coisa completamente diferente de dar materialmente as coisas. Esses "agrados materiais" são, muitas vezes, uma muleta para os pais, que compensam ausências físicas e emocionais, e para os filhos, que se agarram a coisas, quando deveriam se agarrar a pessoas e emoções. Na nossa sociedade, em que ter se confunde com ser, não causa espanto a confusão na mais primordial das relações, não é de se estranhar que mães e pais queiram mostrar à sociedade o quanto amam seus filhos enchendo-os de símbolos e emblemas do ter, do bem-cuidar: carrinhos caros, eletrônicos, coisas de última geração (e aqui se incluem alimentos ditos "de ponta", como leites fortificados ou vitaminas XPTO), tudo "do bom e do melhor". Não acho que façam isso de má fé. Ao contrário, querem mesmo dar tudo de bom e do melhor. Mas a gente está numa sociedade em que as escolhas (e escolher É consumir) estão pasteurizadas, ou pré-definidas. Vemos isso quando os pais são rotulados, tipo, se o nascimento se deu através de cesárea, os pais vão dar leite artificial, chupeta, Galinha Pintadinha e festa no buffet infantil. Em contrapartida, se o nascimento se deu através de um parto domiciliar, os pais serão adeptos de sling, evacuation comunication, amamentar até fazer 18 anos e só dar presente de garrafa PET reciclada. Como se fosse um pacote, feito aqueles de quando a gente casa: dez bem-casados, vinte chocolates, dois tipos de croquete, suco e refri.
Só que não é assim, né?
As escolhas estáo aí para serem... escolhidas. E muita gente está ocupada demais para fazer isso, ou então ainda não percebeu que pode ser assim. Ou já percebeu, já escolheu algumas coisas, outras não, mas não se livra do rótulo. E o rótulo serve para quê? Para vender! Vender ideias e produtos e estilos de vida a um grupo que possa ser enquadrado num determinado público-alvo. Então, se a criança está "mimada", num estado que parece beirar a patologia, vem uma série de produtos e soluções para ela: Super Nanny, livros, filmes, produtos que vão fazer do momento de interação com o filho algo inesquecível e dinâmico.
Mas eu vou contar um segredo, aqui, ó, bem baixinho. Só entre nós: as crianças não precisam de rótulos, nem de brinquedos, nem de angústias, nem de exigências de independência e maturidade precoces. Eles precisam de amor, limites claros para que não se machuquem (física e emocionalmente) e para que se insiram socialmente de acordo com os valores da família em que vivem.
Então, por favor, mime o seu filho! Continue amando, siga o seu coração, continue se questionando, mas respire fundo. Você não está sozinha nas escolhas, medos, dúvidas e angústias. Nós todas somos você, a mãe que quer (e deve) oferecer ao filho todo amor do mundo.
Bom, aí eu comecei a remoer, né?
Tudo começou... ora, sei lá bem como começou. Acho que desde que Arthur saiu daqui da pança e não ficou no bebê conforto, nem no carrinho, nem no bercinho, as pessoas começaram a ficar incomodadas com as minhas escolhas. Ora, que chatura! Gostaria de saber de onde as pessoas tiraram a ideia estapafúrdia de que carinho faz mal, sobretudo, ao caráter de uma pessoa.
Pois bem, o fato é que fiquei aqui matutando sobre o que significa mimar uma criança, e sobre por que encher o filhote de carinhos e afagos causa tanto frisson.
Ora, mimar, se tomarmos a significação pejorativa da coisa, entendendo que uma criança mimada é necessariamente algo não desejável, logo inferimos a ideia de oferecer à criança uma resposta incorreta quando ela pede amor. Incorreta porque imprecisa, porque não precisa, desnecessária.
A criança PRECISA de amor, de cuidado, de afeto, de atenção. Ou seja, ela precisa de mimos, nas outras quatro acepções dadas pelo dicionário.
Por outro lado, a criança NÃO precisa do último videogame, de ganhar presentes e mais presentes a cada efeméride, de ter zilhões de brinquedos e DVDs e, sobretudo, ela NÃO precisa (e nem deveria) ser largada sozinha com todas essas desnecessárias materialidades. Note bem que eu não estou julgando ninguém, nem pretendo analisar a conduta de nenhuma mãe. Estou pensando genericamente sobre esse rótulo do "mimado", até porque ele foi o meu rótulo durante anos, apenas porque eu sou filha única.
Eu acho que as pessoas dizem que uma criança é mimada porque não entendem que amar é mimar, porque é cuidar, é zelar, é dar afeto, é dar carinho, é agradar/ser agradável. Isso não estraga ninguém. E mais: é coisa completamente diferente de dar materialmente as coisas. Esses "agrados materiais" são, muitas vezes, uma muleta para os pais, que compensam ausências físicas e emocionais, e para os filhos, que se agarram a coisas, quando deveriam se agarrar a pessoas e emoções. Na nossa sociedade, em que ter se confunde com ser, não causa espanto a confusão na mais primordial das relações, não é de se estranhar que mães e pais queiram mostrar à sociedade o quanto amam seus filhos enchendo-os de símbolos e emblemas do ter, do bem-cuidar: carrinhos caros, eletrônicos, coisas de última geração (e aqui se incluem alimentos ditos "de ponta", como leites fortificados ou vitaminas XPTO), tudo "do bom e do melhor". Não acho que façam isso de má fé. Ao contrário, querem mesmo dar tudo de bom e do melhor. Mas a gente está numa sociedade em que as escolhas (e escolher É consumir) estão pasteurizadas, ou pré-definidas. Vemos isso quando os pais são rotulados, tipo, se o nascimento se deu através de cesárea, os pais vão dar leite artificial, chupeta, Galinha Pintadinha e festa no buffet infantil. Em contrapartida, se o nascimento se deu através de um parto domiciliar, os pais serão adeptos de sling, evacuation comunication, amamentar até fazer 18 anos e só dar presente de garrafa PET reciclada. Como se fosse um pacote, feito aqueles de quando a gente casa: dez bem-casados, vinte chocolates, dois tipos de croquete, suco e refri.
Só que não é assim, né?
As escolhas estáo aí para serem... escolhidas. E muita gente está ocupada demais para fazer isso, ou então ainda não percebeu que pode ser assim. Ou já percebeu, já escolheu algumas coisas, outras não, mas não se livra do rótulo. E o rótulo serve para quê? Para vender! Vender ideias e produtos e estilos de vida a um grupo que possa ser enquadrado num determinado público-alvo. Então, se a criança está "mimada", num estado que parece beirar a patologia, vem uma série de produtos e soluções para ela: Super Nanny, livros, filmes, produtos que vão fazer do momento de interação com o filho algo inesquecível e dinâmico.
Mas eu vou contar um segredo, aqui, ó, bem baixinho. Só entre nós: as crianças não precisam de rótulos, nem de brinquedos, nem de angústias, nem de exigências de independência e maturidade precoces. Eles precisam de amor, limites claros para que não se machuquem (física e emocionalmente) e para que se insiram socialmente de acordo com os valores da família em que vivem.
Então, por favor, mime o seu filho! Continue amando, siga o seu coração, continue se questionando, mas respire fundo. Você não está sozinha nas escolhas, medos, dúvidas e angústias. Nós todas somos você, a mãe que quer (e deve) oferecer ao filho todo amor do mundo.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Ciúmes
Tá, tá, tá, eu confesso: sou ciumenta. Ponto. Sou ciumenta e possessiva. Sempre fui. Pessoas, objetos, lugares, ideias, quero tudo e todos para mim. Só para mim.
Mas eu não fiz filho sozinha, né? E não ter feito filho sozinha significa que, por mais que eu ame marido, Arthur não seria só meu. Quer dizer, ele até foi só meu por longas 41 semanas. Só eu curtia a vidinha dele serelepando aqui dentro 24h por dia. Porém, assim que ele saiu da minha barriga, passou a poder ser tocado, manipulado e gerido por outras pessoas. Inclusive marido.
Por termos escolhido ter um puerpério "minimalista", só eu, marido, Arthur e nosso boxer, quando eu estava grávida não me importava muito com a família "tomando posse" do Arthur, mas sim de como eu iria administrar o ciúme duplo aqui em casa: Arthur com marido; marido com Arthur.
Oh, céus! Como sofri pensando nisso, tentando arrumar uma solução para que eu conseguisse "permitir" que os dois, pai e filho, tivessem uma relação própria e autônoma, sem a intermediação da mamãe aqui (e seu ciúme, claro).
Passava muito tempo pensando (e com esse pensamento me dilacerando por dentro) em como seria quando Arthur preferisse o colo dele ao meu; como eu reagiria quando eles se divertissem sozinhos, quando saíssem sozinhos, quando trocassem beijos e carinhos sem mim. Não achei caminho. Me preocupei, respirei fundo, tentei bolar estratégias para distrair o monstro verde do ciúme.
E aí aconteceu a vida.
Marido e Arthur se amaram desde o começo. Marido e Arthur acharam um caminho de interação, eles se conectaram, eles se conheceram e se coadunaram, inventaram brincadeiras, rotinas, maneiras de se comunicar. E eu fiquei de fora de muita coisa. Surpreendentemente feliz. Realizada. Satisfeita por ver que pessoas não são divisíveis e, por não serem divisíveis, são unas, inteiras e capazes de multiplicar suas facetas. Com isso, multifacetados e ainda assim indivisíveis, meus homens elevam-me ao expoente infinitesimal do amor.
Sem ciúmes. Livres.
Feliz pelos dezoito meses mais lindos e transformadores da minha vida.
Mas eu não fiz filho sozinha, né? E não ter feito filho sozinha significa que, por mais que eu ame marido, Arthur não seria só meu. Quer dizer, ele até foi só meu por longas 41 semanas. Só eu curtia a vidinha dele serelepando aqui dentro 24h por dia. Porém, assim que ele saiu da minha barriga, passou a poder ser tocado, manipulado e gerido por outras pessoas. Inclusive marido.
Por termos escolhido ter um puerpério "minimalista", só eu, marido, Arthur e nosso boxer, quando eu estava grávida não me importava muito com a família "tomando posse" do Arthur, mas sim de como eu iria administrar o ciúme duplo aqui em casa: Arthur com marido; marido com Arthur.
Oh, céus! Como sofri pensando nisso, tentando arrumar uma solução para que eu conseguisse "permitir" que os dois, pai e filho, tivessem uma relação própria e autônoma, sem a intermediação da mamãe aqui (e seu ciúme, claro).
Passava muito tempo pensando (e com esse pensamento me dilacerando por dentro) em como seria quando Arthur preferisse o colo dele ao meu; como eu reagiria quando eles se divertissem sozinhos, quando saíssem sozinhos, quando trocassem beijos e carinhos sem mim. Não achei caminho. Me preocupei, respirei fundo, tentei bolar estratégias para distrair o monstro verde do ciúme.
E aí aconteceu a vida.
Marido e Arthur se amaram desde o começo. Marido e Arthur acharam um caminho de interação, eles se conectaram, eles se conheceram e se coadunaram, inventaram brincadeiras, rotinas, maneiras de se comunicar. E eu fiquei de fora de muita coisa. Surpreendentemente feliz. Realizada. Satisfeita por ver que pessoas não são divisíveis e, por não serem divisíveis, são unas, inteiras e capazes de multiplicar suas facetas. Com isso, multifacetados e ainda assim indivisíveis, meus homens elevam-me ao expoente infinitesimal do amor.
Sem ciúmes. Livres.
Feliz pelos dezoito meses mais lindos e transformadores da minha vida.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Só as mães são felizes
Não sabe quem dorme oito horas ininterruptas. Não sabe quem não mede a febre nos dias de vacina com a preocupação de quem tateia a própria vida. Não sabe quem dorme fora despreocupado, quem trabalha acima de qualquer coisa, quem não repete a mesmíssima palavra, ordem ou pedido à exaustão. Não sabe quem ainda é só barriga, quem cuidou dos cinco sobrinhos de irmã ou irmão vivos e participativos, não faz ideia quem fez bilu-bilu na cria dos amigos.
Quem pariu, quem operou, quem gestou e cultivou a vidinha tão rica, delicada e tenaz que traz nos braços, na pele, na alma, na lama, só essa pessoa sabe por que raios eu quero, mesmo com todo o trabalho de Sísifo da maternidade, não passar por esta vida - que até onde eu saiba é única - sem ver ainda mais, muito mais amor vingar, vencer, nascer e desabrochar.
Só as mães são felizes, em suas ignorância e sublimação intencionalmente involuntárias.
Quem pariu, quem operou, quem gestou e cultivou a vidinha tão rica, delicada e tenaz que traz nos braços, na pele, na alma, na lama, só essa pessoa sabe por que raios eu quero, mesmo com todo o trabalho de Sísifo da maternidade, não passar por esta vida - que até onde eu saiba é única - sem ver ainda mais, muito mais amor vingar, vencer, nascer e desabrochar.
Só as mães são felizes, em suas ignorância e sublimação intencionalmente involuntárias.
quinta-feira, 14 de novembro de 2013
Me lixando
Nesses tempos de Facebook a gente fica sabendo demais da vida alheia. Para além das pesquisas que dizem que redes sociais geram ansiedade e frustração, posto que há sempre uma comparação com o quintal do vizinho, existe a intimidade forçada: saber de cada passo de pessoas que, não fossem tais sites, você jamais saberia o que andam fazendo.
Pois essa semana uma conhecida terminou com o namorado. A dor de cotovelo foi pública e publicada em verso, prosa e quadrinhos. Quadrinhos? É, quadrinhos.
Ela ficou desgostosa com o cara, mas parece que com a vida também, e resgatou a coisa toda árcade: carpe diem, fugere urbem (no caso, amorem ou laborem). Hedonismos à parte, não quero falar da vida da moça, nem de latim, nem de movimentos estilísticos do passado.
Eu quero falar da lixa. Quero falar que venho me lixando.
É. Me lixando. Assim, na próclise brasileira.
Morei uns tempos em Portugal e lá aprendi umas coisitas: a fazer diminutivos com o sufixo -ita, a usar os pronomes em posição final porque tentava repetir o sotaque e que existem várias palavras que são uma coisa no Brasil, mas outra coisa lá, e também aquelas que são só no Brasil, ou só lá.
Tipo durex. Não digam isso alto em território lusitano: é marca de camisinha e virou sinônimo (metáfora, aos que assim preferirem) para preservativos. Também não peçam isopor, que é marca. Lá, ele é conhecido por esferovite, que é o nome de batismo da coisa. Se alguém disser que você gaja, é muito gira e bué da fixe, agradeça: você é moça bonita e legal.
Então, se alguém mandar esta tirinha do Calvin para você, por favor não interprete ao pé da letra, como fez minha conhecida acima citada. O lixar aí nada tem a ver com o acabamento polido dado com objeto abrasivo; significa, na coloquialidade portuguesa, deixar alguém em situação complicada ou chatear uma pobre alma.
Ri, confesso, da confusão semântica. Mas pensando bem, em português brasileiro a tirinha fica tão mais interessante!
Quando nascemos, somos unos, inteiros, indivisíveis. Os princípios básicos estão todos lá, inatos e perfeitos, cada qual ocupando um espaço equilibrado. Conforme vamos crescendo, as coisas em nós ganham novas dimensões e proporções. Desenvolvemos mais determinadas características que outras, interrompemos o crescimento de certos aspectos de nossa personalidade e/ou habilidade, nos transformamos, enfim, nos adultos que somos: irregulares, pontiagudos, repletos de arestas, dores, calos, imperfeições que, ao longo do tempo, ficam mais e mais acentuadas e visíveis.
E então nos chegam os filhos.
Seres unos, indivisíveis, inteiros, ainda sem arestas ou acentuadas maneiras. Tudo é flexível, adaptável, moldável e... NOVO. E se você experimenta pela primeira vez uma dor, pode até sentir-se surpreso e admirado, mas nunca vai resgatar sua experiência prévia, porque ela inexiste. Com isso, a vida é mais leve. As dores ainda não se imbricam e misturam: você sente o que precisa sentir e segue em frente. Sem ressentimentos, rememorações, associações intensas.
E é aí que entra a lixa.
Nossos filhos são a abrasividade polidora de nossas vidas, aparando várias de nossas arestas, tornando pontas mais rombudas e suaves, reduzindo irregularidades drásticas e, sobretudo, nos permitindo ter uma nova compreensão do ser humano. Um ser que desenvolve inúmeras habilidades ao longo da vida, mas que insiste em se frustrar e cobrar por aquilo que não tem ou faz. Arthur, meu pequeno abrasor, por exemplo, entre outras coisas, mostra para mim que o desenvolvimento de habilidades linguísticas exige tempo, que a coordenação motora se aperfeiçoa, que o importante é usar de toda sua potencialidade, diariamente, para ser feliz naquele dia que se está vivendo. Sem planos complexos, projeções imensas ou ressentimentos intensos. A pura alegria de se descobrir e se sentir o que se vive.
Lindo, né? Mas dói. Lixar, esfoliar, desgastar a superfície encruada do hábito é penoso, dolorido e exige força de vontade. Tem gente que não deixa os filhos serem abrasivos: tolhem-lhes os movimentos de lixa, e enquadram logo em modos e maneiras necessárias (?) para se viver socialmente. Não os julgo, porque às vezes não deixo que me esfreguem as feridas, que me cutuquem os calos. Ninguém se deixa ser lixado o tempo todo. Mas acho importante manter isso de lixar em mente e permitir que Arthur me mostre onde preciso suavizar e amenizar. Ele também mostra onde eu preciso deixar calejar e endurecer. Nada é inteiramente bom ou ruim: precisamos de nossas crostas assim como precisamos de nossas maciezes. E essa é coisa linda (uma das) de se ter filhos: a chance de resgatar o equilíbrio e a necessidade de se desenvolver a capacidade de ponderar o que é importante, como é importante e quando é importante.
Filhos, abrasam, lixam, esfolam, esfregam, exigem de nós superfícies mais suaves para eles, e nos deixam, afinal, mais suaves para nós mesmo.
E assim, vou me lixando. Ou melhor, Arthur vai me lixando. Não ao modo português, mas ao brasileiro, que, embora aparentemente muito mais literal, na verdade mostrou-se muito mais literário.
sábado, 26 de outubro de 2013
Da loucura
Que louco permitiu que eu saísse da maternidade com um bebê? Inepta. Iludida. Descabida.
E que louco, depois de um ano, depois de dezesseis meses, permite que eu, sistematicamente, falhe: mãe, pessoa, profissional, mulher, sã?
Este post é sobre a loucura que ronda, que espreita cada mãe. Cada mãe enlouquece silenciosamente na frustração da rotina. Da quebrada e da inteira. A inteira porque monótona e traiçoeira, vai se apoderando dos pequenos prazeres e fazendo deles pequenas tarefas. Aí, quando se vê, cuidamos por obrigação. A rotina partida, fragmentada, pulverizada frustra porque traz à tona a incapacidade de disciplina. Disciplina nossa, tão importante para que nossos pequenos também se disciplinem.
Aqui, enlouqueço pouco a pouco, engolfada por algo que nem sei bem o que é, onde mora ou como cresce. Parece lama, embrenhando-se e dificultando os passos; lembra lodo, crescendo nos cantos escuros e tornando o passo certo escorregadio.
Ninguém me disse que seria fácil, e eu, adolescente que pari - sim, adolescente, imatura, despreparada e ainda com tanto a descobrir sobre mim mesma -, achei que ser mulher bastaria. Achei que os amigos, em linhas retas, sempre heróis em tudo, davam a medida certa de todas as coisas. Os homens. E também as mulheres. Elas vieram para minha vida depois da maternidade. Todas mães de meninos, por pura coincidência, para que o processo (frustrante também) de comparação possa vir inteiro, completo. Complexo. Elas, essas mães, são fabulosas em seus erros. Uma é linda, despojada, sabe o que fazer em momentos de crise e nunca parece gritar. Deve gritar, eu sei, mas há de ser um grito carinhoso e pleno, não a histeria insana do dedo na tomada, da mão que quase se prende à porta que bate. Um grito de amor: não pode, Fulaninho. Mamãe está falando sério. Sensata essa. É assim que a vejo.
Outra, menos paciente porque sobrecarregada: faz de tudo e mais um pouco sem poder contar com muita ajuda. Essa, embora deva gritar (e até reconhece que o faz), tem a coragem. Vai lá e encara a boca escancarada, o olho esbugalhado, a boca da noite fechada.
Mais uma: essa nem tão segura quanto a primeira, nem tão sem ajuda quanto a segunda. Mas infinita na busca, na pesquisa, na alternativa, na paciência. E eu reprimo, então, minha decepção ao notar que parece que me falta a essência disso tudo que envolve a maternagem.
Pego-me repetindo velhos estribilhos que me fizeram gauche, que me fizeram em linhas tortas (sem Deus para escrever certo, pois sou ateia). Velhos estribilhos, velhas sensibilidades, que doendo em mim, vão doer no meu garoto, reflexo de minha vida.
Olho para Arthur, ansioso, irritadiço, demandando, e reconheço nisso cada falha minha, cada frustração, cada ocasião mal aproveitada e mal dirigida. Olho e me pergunto: que louco permitiu isso?
Amo-o. De um amor intenso, louco, crescente e que me preenche. Mas falho. E sofro. Porque isso não vai bastar a ele. Eu preciso ser amorosa, sim. Mas também tenho de ser inteira, única. Nas minhas linhas tortas, tenho claros problemas de coerência e coesão: porque a gramática que aprendi não fala a língua materna que tenho. Minha comunicação tropeça e se ruidifica: interferências desnecessárias. Falta de sons extremamente precisos. Pareço um megafone ninando um bebê. Um terremoto acalentando meu filho. Um furacão soprando-lhe as feridas (sobretudo as emocionais, que já se abrem diante de mim).
Ele chora, e eu tenho vontade de sumir, de sair, de fugir, de conseguir fazer, enfim, algo de certo, de coerente. Mas repito a ladainha cheia de erros que não combina com a beleza da linguagem-maternagem que sei em mim. É a gramática ruim. São os erros da fala, da mensagem, do meio, e tudo se trunca.
E se ele sorri, desabo. A confiança que vai se mostrar equivocada. Sou um equívoco, uma fraude. Respiro fundo. E pergunto, obsessivamente: quem foi o louco?
E que louco, depois de um ano, depois de dezesseis meses, permite que eu, sistematicamente, falhe: mãe, pessoa, profissional, mulher, sã?
Este post é sobre a loucura que ronda, que espreita cada mãe. Cada mãe enlouquece silenciosamente na frustração da rotina. Da quebrada e da inteira. A inteira porque monótona e traiçoeira, vai se apoderando dos pequenos prazeres e fazendo deles pequenas tarefas. Aí, quando se vê, cuidamos por obrigação. A rotina partida, fragmentada, pulverizada frustra porque traz à tona a incapacidade de disciplina. Disciplina nossa, tão importante para que nossos pequenos também se disciplinem.
Aqui, enlouqueço pouco a pouco, engolfada por algo que nem sei bem o que é, onde mora ou como cresce. Parece lama, embrenhando-se e dificultando os passos; lembra lodo, crescendo nos cantos escuros e tornando o passo certo escorregadio.
Ninguém me disse que seria fácil, e eu, adolescente que pari - sim, adolescente, imatura, despreparada e ainda com tanto a descobrir sobre mim mesma -, achei que ser mulher bastaria. Achei que os amigos, em linhas retas, sempre heróis em tudo, davam a medida certa de todas as coisas. Os homens. E também as mulheres. Elas vieram para minha vida depois da maternidade. Todas mães de meninos, por pura coincidência, para que o processo (frustrante também) de comparação possa vir inteiro, completo. Complexo. Elas, essas mães, são fabulosas em seus erros. Uma é linda, despojada, sabe o que fazer em momentos de crise e nunca parece gritar. Deve gritar, eu sei, mas há de ser um grito carinhoso e pleno, não a histeria insana do dedo na tomada, da mão que quase se prende à porta que bate. Um grito de amor: não pode, Fulaninho. Mamãe está falando sério. Sensata essa. É assim que a vejo.
Outra, menos paciente porque sobrecarregada: faz de tudo e mais um pouco sem poder contar com muita ajuda. Essa, embora deva gritar (e até reconhece que o faz), tem a coragem. Vai lá e encara a boca escancarada, o olho esbugalhado, a boca da noite fechada.
Mais uma: essa nem tão segura quanto a primeira, nem tão sem ajuda quanto a segunda. Mas infinita na busca, na pesquisa, na alternativa, na paciência. E eu reprimo, então, minha decepção ao notar que parece que me falta a essência disso tudo que envolve a maternagem.
Pego-me repetindo velhos estribilhos que me fizeram gauche, que me fizeram em linhas tortas (sem Deus para escrever certo, pois sou ateia). Velhos estribilhos, velhas sensibilidades, que doendo em mim, vão doer no meu garoto, reflexo de minha vida.
Olho para Arthur, ansioso, irritadiço, demandando, e reconheço nisso cada falha minha, cada frustração, cada ocasião mal aproveitada e mal dirigida. Olho e me pergunto: que louco permitiu isso?
Amo-o. De um amor intenso, louco, crescente e que me preenche. Mas falho. E sofro. Porque isso não vai bastar a ele. Eu preciso ser amorosa, sim. Mas também tenho de ser inteira, única. Nas minhas linhas tortas, tenho claros problemas de coerência e coesão: porque a gramática que aprendi não fala a língua materna que tenho. Minha comunicação tropeça e se ruidifica: interferências desnecessárias. Falta de sons extremamente precisos. Pareço um megafone ninando um bebê. Um terremoto acalentando meu filho. Um furacão soprando-lhe as feridas (sobretudo as emocionais, que já se abrem diante de mim).
Ele chora, e eu tenho vontade de sumir, de sair, de fugir, de conseguir fazer, enfim, algo de certo, de coerente. Mas repito a ladainha cheia de erros que não combina com a beleza da linguagem-maternagem que sei em mim. É a gramática ruim. São os erros da fala, da mensagem, do meio, e tudo se trunca.
E se ele sorri, desabo. A confiança que vai se mostrar equivocada. Sou um equívoco, uma fraude. Respiro fundo. E pergunto, obsessivamente: quem foi o louco?
segunda-feira, 7 de outubro de 2013
Sobre o segundinho (de novo)
Li com carinho e gratidão cada comentário na minha postagem/pergunta sobre o segundinho. Depois, escrevi um texto que estava intimamente relacionado ao que pensei sobre o assunto. Mas acho que ainda preciso voltar ao tema, e ouvir (vocês e o que eu realmente tenho sentido/pensado/vivido).
Mas vamos fazer isso mais teatralmente?
personagens:
ID
EGO
SUPEREGO
[tarde da noite, bebê dorme de boca aberta, marido também sonha. Ártemis mantém os dois olhões escancarados na escuridão, insone com suas angústias. Entram ID, EGO e SUPEREGO, cada qual querendo pisar mais firme na mente inquieta da moçoila.]
ID: Uhuuu, boa noite, galera! Aliás, ótima noite, noite sublime, noite selvagem, noite...
SUPEREGO: Vamos dormir. Agora! O bebê vai acordar em menos de três horas e então todo mundo vai estar um bagaço, sem forças para aguentar o tranco de dizer não cento e noventa e três vezes - sim, eu contei -, de preparar refeições que vão parar no chão ou no lixo, de insistir para que ele beba água, de enfiar o moleque no banho antes de o sono bater e acabar com qualquer possibilidade de paz e...
EGO: Tá, tá, vocês duas: boa noite, Id. Superego, se ficar listando cada tarefa do dia em suas minúcias vai ser complicado. A pauta do dia é.... que rufem os tambores... "segundinho: ter ou não ter?" Tadãããã!
ID: SIM, SIM, SIM, SIM. Ter, sim, agora, já, foi tão bom ter o Arthur, claro que ela precisa ter mais um e mais outro, e outro, e depois outro. Quem sabe gêmeos? E outro cachorro, e um gato! E quanto amor! Amor é tudo o que importa. E eles podem viver todos numa fazenda, criar as próprias galinhas, vender ovos para uma renda extra e...
SUPEREGO: Id, a gente deveria vender você. Para um circo de horrores! Imagina só! A pobre coitada mal dá conta de tomar banho! Ter um segundo filho, sem querer entrar no mérito financeiro, que é muito importante nos dias de hoje, sobretudo com a nova vida deles em país estrangeiro, enfim... ter um segundo filho implica em menos tempo para que ela se dedique a atividades de caráter pessoal, tipo tomar banho, navegar na internet, realizar passeios descompromissados, entre milhares de outras possibilidades, que servem, acima de tudo, para que ela mantenha níveis decentes de sanidade mental. E quando digo sanidade mental, quero dizer: manter a vida em equilíbrio suficiente para que o estresse ou a falta de espaço pessoal não a engolfe num turbilhão de emoções e cansaços, que fatalmente a levariam a uma recaída da depressão que ela enfrentou quando mais jovem.
ID: Ahhhhhhhh, a depressão! Foi horrível, realmente. Ai, será que ela vai afundar mais uma vez? E o que será de nós? Mas o Arthur é tão bonitinho, é tão lindinho, é tanta alegria na vida dela... eu acho que...
EGO: Calma, vocês duas! Claro que Arthur é ótimo, mas também é uma rotina muito cansativa viver em casa, no momento bastante isolada porque recém-chegada e com poucas referências ainda. Nada de depressão, por enquanto.
SUPEREGO: Não quis dizer que ela está a beira da depressão, é claro. Vocês sempre entendem errado o que eu levanto para debate. Sempre aquém do verdadeiro sentido e da linearidade do que verbalizo.
EGO: [suspiro] Ok, ok. São quase quatro da manhã, gente. Foco!
ID: Ai, quatro da manhã. Que lua L-I-N-D-A!
EGO e SUPEREGO: Foco!
ID: Ok, ok...
EGO: Como eu ia dizendo, existem basicamente três empecilhos para o segundinho. E esse três estão inter-relacionados.
SUPEREGO: [controlada, mas transparecendo leve impaciência] Três? Você realmente acha que são apenas três empecilhos?
ID: [aos berros, salivando] Três???? Não existe nenhum empecilho! Eles se amam, são jovens, ela sempre quis família grande, filho vem com o pão debaixo do braço e, para completar, ai, parir é tããããããooooo gostoso, tão selvagem, tão natural, tão intenso.
SUPEREGO: Está vendo? Mais um motivo para ela parar no primeiro filho, e olhe lá! Parir é tenebrosamente descontrolado: você não sabe aonde aquilo vai dar, não controla as variáveis.
EGO: [bufando baixinho] Posso terminar?
ID: Não!
SUPEREGO: Sim.
EGO: Os três empecilhos são: ela mora sozinha-inha nos EUA. Ou seja, são apenas eles três nas terras de Tio Sam. Existe, portanto, um fator operacional que dificulta a vinda de um segundinho. Por exemplo: com quem Arthur vai ficar na hora do parto?
ID: Com eles? Na sala de parto? De preferência dentro da banheira, brincando enquanto o irmão, ou irmã, nasce...
SUPEREGO: E se a coisa não sair conforme o esperado e ela precisar ir para a cesárea? Vão fazer o quê? Levar o menino para a sala de cirurgia? Que beleza, hein.
EGO: Sim, exato. Precisamos ponderar também que, para além do parto, existe a rotina fatigante dos primeiros dias de um recém-nascido. E ela não vai poder contar com a mesma disponibilidade de horas livres do marido que ela teve quando Arthur nasceu. Agora ele tem um trabalho que exige muito mais dele. Então, vai ser ela sozinha. Completamente.
ID: [com lágrimas nos olhos] Estou tão sozinha. Ela também. Vê? Quatro da manhã e nenhuma luz acesa lá fora, ela está sozinha com suas angústias e ansiedades. É muito triste, é terrivelmente...
SUPEREGO: NORMAL.
EGO: Sim, normal. Todo mundo passa por questões nessa vida. Ela está bem e vai continuar bem. Só precisa realmente pensar e chegar a uma conclusão. Nem que seja a de que, por enquanto, não tem conclusão nenhuma a que se chegar.
SUPEREGO: Muito bem articulado, Ego.
EGO: Obrigada. Achou mesmo?
ID: [pigarreando exageradamente] Podemos?
EGO: Ah, sim. Bom, ela está sozinha, então precisará cuidar de um bebê e de um recém-nascido ao mesmo tempo. E também da casa. Isso é muita coisa. E ela sabe que vai acabar bem estressada.
SUPEREGO: A solução ideal seria chamar a mãe. Ou a sogra. Ou as duas.
ID: Deus nos livre dessa maluquice sem tamanho!
EGO: Não vamos discutir isso agora, certo? Não contemos com outras pessoas, já que elas moram muito longe agora. Voltando, então: ela está sozinha e precisará lidar com tudo sozinha. Para não sobrecarregar o marido. Com isso, ela ficará sem tempo. Estando sem tempo, ficará bem estressada. E estressada, mal curtirá os momentos com os filhos.
ID: Mas tudo será lembranças na velhice. [chorando agora] A velhice é tão solitária, e uma família grande foi com o que ela sempre sonhou...
SUPEREGO: Do que adianta ter memórias de brigas, discussões e irritações?
EGO: Isso. Vamos por esse caminho.
ID: Você sempre ouve muito mais a Superego que a mim.
EGO: Isso não é verdade. Lembra-se do parto? Desde então, quem é que mais me dá conselhos sobre o que devo fazer com Arthur?
SUPEREGO: Se você escutasse o que eu tenho a dizer... Os outros acham que você...
ID e EGO: Danem-se os outros!
SUPEREGO: [suspiro]
EGO: Bom, voltando ao segundinho. Além do que já falei, eles também têm uma renda limitada. E um segundo bebê teria um impacto no orçamento já apertadíssimo deles.
ID: Usa tudo de segunda mão. Eles já têm uma porção de coisas que compraram para o Arthur, podem aproveitar para o outro bebê.
SUPEREGO: É, tipo plano de saúde, né?
EGO: Posso terminar? Bom, haverá impacto. Isso é fato. Some-se a tudo o que já expus e teremos pontos bem fortes contrários ao segundinho. E como se não bastassem esses motivos, ainda é preciso sermos francas: ela está com saudades de ter um tempo só dela, saudades de dormir até um pouco mais tarde, saudades de poder ler um livro. Essas coisas.
SUPEREGO: Ah, sim, e com dois filhos para cuidar, adeus leituras, tempo livre, lavar cabelo. E, cá entre nós, ela já deixa muito a desejar na criação desse menino!
ID: Lá vem você e sua mania de deixá-la culpada, Superego! Deixa a menina! Ela é marinheira de primeira viagem, ela está sozinha num país estrangeiro, ela...
SUPEREGO: E lá vem você arrumar desculpas para as falhas dela. Inadmissível!
EGO: As duas, quietas, já! Ela está se esforçando e ninguém é perfeito.
SUPEREGO: Isso porque ela não me escuta. Se escutasse, ela poderia ser perfeita, sim.
ID: Aham, claro. Senta lá, Superego mala!
EGO: Sem discussão! O bebê vai acordar a qualquer momento para mamar e precisamos ajudá-la. Coitada, olhem só: não prega os olhos, está super ansiosa, tem anseios na vida...
SUPEREGO: Exato! Ainda bem que você tocou nesse ponto! Ela tem anseios. Melhor parar nesse primeiro filho, pois vai ser mais sensato. Imagina só: ela quer seguir sua vida profissional, sente falta de ter seu espaço também em termos intelectuais, quer sentir-se desafiada por questões acadêmicas e profissionais. Como você acha que ela vai dar conta de tudo? Estudos, vida profissional, novos desafios intelectuais, casa, dois ou três filhos?
ID: Sim, mas e o sonho de ter família grande?
SUPEREGO: Nem sempre os sonhos são factíveis.
ID: Mas precisamos dos sonhos. São os sonhos e as emoções que nos mantêm vivos, que nos impulsionam! E o amor, claro!
SUPEREGO: O que nos mantém vivos é a prudência. E é prudente que ela pare no primeiro filho. Tanto em termos profissionais, quanto em termos pessoais e financeiros. Acabou-se o tempo das famílias numerosas. Hoje em dia as pessoas têm restrições orçamentárias porque têm outros anseios e necessidades. Sem contar a questão da inserção da mulher no mercado de trabalho...
ID: Ai, que teoria chaaaaataaaaaaa...
EGO: Vocês duas, quietas! Já pedi! Vamos organizar o que vocês disseram porque nessa ladainha das duas existem uns pontos importantes para esta discussão. Em primeiro lugar, a perspectiva profissional. Se por um lado existem argumentos para que ela tenha somente um filho, conforme bem alardeou nossa amiga Superego.
SUPEREGO: Alardeou, não.
EGO [pigarreando]: Conforme, hum..., sinalizou nossa cara Superego.
SUPEREGO: Obrigada.
EGO: Enfim, embora existam esses argumentos indubitavelmente contrários a um segundinho, há que se pensar também que ela está parada agora, em termos profissionais. Já que está parada, então é melhor que fique parada de uma vez, tenha o segundo, e então, depois que os dois filhos já estiverem mais independentes e na idade de frequentarem a escolinha, aí ela retoma tudo. Ainda será jovem.
ID: Eu estava concordando com você, Ego, mas aí você disse que ela ainda será jovem. Não será, não! Será velha para o mercado! Como você acha que ela vai se reinserir profissionalmente?
SUPEREGO: Finalmente uma colocação sensata desta... hum... deixa para lá.
ID: Oh, céus! Superego concordou comigo? Então retiro o que disse, porque é claro que esse é um argumento anti-segundinho, e vocês sabem que eu quero muito o segundinho, e o terceirinho, e o...
EGO: Como eu ia dizendo, a questão profissional pode ser contornada dessa maneira, e se ela realmente quer um segundo filho, que aproveite a oportunidade de ficar um tempo dedicando-se somente à maternidade para emendar uma nova gravidez, puerpério e todo o processo. Porque esperar cerca de cinco anos para ter o segundo, lembrando que essa foi um estimativa a que ela e o marido chegaram, pode impactar negativamente em termos de vida profissional. E como se não bastasse tudo isso que acabei de falar, quanto mais ela adia, mais complicada a questão se torna, pois ela vai envelhecer...
ID: Envelhecer, não. Ficar vintage.
EGO [rindo discretamente]: Ela não vai ficar mais nova, pronto, e aí temos um impasse entre o relógio biológico, que pede urgência, e o relógio social, que pede calma, pede que ela se reinsira no mercado, que aproveite oportunidades, que se dedique a seus anseios por desafios intelectuais, e só depois retome a questão da maternidade.
ID: Com isso, caríssimas senhoras, chegamos ao consenso de que é melhor ela aproveitar que o bebê está dormindo e atacar o marido agora mesmo, vai que ela está ovulando e...
SUPEREGO: Faça-me o favor!
EGO: Não briguemos! Estamos aqui para tentar chegar a uma conclusão, não a um impasse, então...
ID: Xiiiiii...
SUPEREGO: O que foi desta vez? Insuportáveis essas suas interrupções, Id.
ID: Deixa de ser chato, Superego. Interrompi porque vamos precisar adiar o veredicto.
EGO [assustado]: Por quê?
ID: Porque o bebê acordou.
E com isso, passo noites inteiras acordada, olhando o teto, pensando nos prós e contras do segundinho. E nos prós e contras de pensar e planejar um segundinho.
Mas vamos fazer isso mais teatralmente?
personagens:
ID
EGO
SUPEREGO
[tarde da noite, bebê dorme de boca aberta, marido também sonha. Ártemis mantém os dois olhões escancarados na escuridão, insone com suas angústias. Entram ID, EGO e SUPEREGO, cada qual querendo pisar mais firme na mente inquieta da moçoila.]
ID: Uhuuu, boa noite, galera! Aliás, ótima noite, noite sublime, noite selvagem, noite...
SUPEREGO: Vamos dormir. Agora! O bebê vai acordar em menos de três horas e então todo mundo vai estar um bagaço, sem forças para aguentar o tranco de dizer não cento e noventa e três vezes - sim, eu contei -, de preparar refeições que vão parar no chão ou no lixo, de insistir para que ele beba água, de enfiar o moleque no banho antes de o sono bater e acabar com qualquer possibilidade de paz e...
EGO: Tá, tá, vocês duas: boa noite, Id. Superego, se ficar listando cada tarefa do dia em suas minúcias vai ser complicado. A pauta do dia é.... que rufem os tambores... "segundinho: ter ou não ter?" Tadãããã!
ID: SIM, SIM, SIM, SIM. Ter, sim, agora, já, foi tão bom ter o Arthur, claro que ela precisa ter mais um e mais outro, e outro, e depois outro. Quem sabe gêmeos? E outro cachorro, e um gato! E quanto amor! Amor é tudo o que importa. E eles podem viver todos numa fazenda, criar as próprias galinhas, vender ovos para uma renda extra e...
SUPEREGO: Id, a gente deveria vender você. Para um circo de horrores! Imagina só! A pobre coitada mal dá conta de tomar banho! Ter um segundo filho, sem querer entrar no mérito financeiro, que é muito importante nos dias de hoje, sobretudo com a nova vida deles em país estrangeiro, enfim... ter um segundo filho implica em menos tempo para que ela se dedique a atividades de caráter pessoal, tipo tomar banho, navegar na internet, realizar passeios descompromissados, entre milhares de outras possibilidades, que servem, acima de tudo, para que ela mantenha níveis decentes de sanidade mental. E quando digo sanidade mental, quero dizer: manter a vida em equilíbrio suficiente para que o estresse ou a falta de espaço pessoal não a engolfe num turbilhão de emoções e cansaços, que fatalmente a levariam a uma recaída da depressão que ela enfrentou quando mais jovem.
ID: Ahhhhhhhh, a depressão! Foi horrível, realmente. Ai, será que ela vai afundar mais uma vez? E o que será de nós? Mas o Arthur é tão bonitinho, é tão lindinho, é tanta alegria na vida dela... eu acho que...
EGO: Calma, vocês duas! Claro que Arthur é ótimo, mas também é uma rotina muito cansativa viver em casa, no momento bastante isolada porque recém-chegada e com poucas referências ainda. Nada de depressão, por enquanto.
SUPEREGO: Não quis dizer que ela está a beira da depressão, é claro. Vocês sempre entendem errado o que eu levanto para debate. Sempre aquém do verdadeiro sentido e da linearidade do que verbalizo.
EGO: [suspiro] Ok, ok. São quase quatro da manhã, gente. Foco!
ID: Ai, quatro da manhã. Que lua L-I-N-D-A!
EGO e SUPEREGO: Foco!
ID: Ok, ok...
EGO: Como eu ia dizendo, existem basicamente três empecilhos para o segundinho. E esse três estão inter-relacionados.
SUPEREGO: [controlada, mas transparecendo leve impaciência] Três? Você realmente acha que são apenas três empecilhos?
ID: [aos berros, salivando] Três???? Não existe nenhum empecilho! Eles se amam, são jovens, ela sempre quis família grande, filho vem com o pão debaixo do braço e, para completar, ai, parir é tããããããooooo gostoso, tão selvagem, tão natural, tão intenso.
SUPEREGO: Está vendo? Mais um motivo para ela parar no primeiro filho, e olhe lá! Parir é tenebrosamente descontrolado: você não sabe aonde aquilo vai dar, não controla as variáveis.
EGO: [bufando baixinho] Posso terminar?
ID: Não!
SUPEREGO: Sim.
EGO: Os três empecilhos são: ela mora sozinha-inha nos EUA. Ou seja, são apenas eles três nas terras de Tio Sam. Existe, portanto, um fator operacional que dificulta a vinda de um segundinho. Por exemplo: com quem Arthur vai ficar na hora do parto?
ID: Com eles? Na sala de parto? De preferência dentro da banheira, brincando enquanto o irmão, ou irmã, nasce...
SUPEREGO: E se a coisa não sair conforme o esperado e ela precisar ir para a cesárea? Vão fazer o quê? Levar o menino para a sala de cirurgia? Que beleza, hein.
EGO: Sim, exato. Precisamos ponderar também que, para além do parto, existe a rotina fatigante dos primeiros dias de um recém-nascido. E ela não vai poder contar com a mesma disponibilidade de horas livres do marido que ela teve quando Arthur nasceu. Agora ele tem um trabalho que exige muito mais dele. Então, vai ser ela sozinha. Completamente.
ID: [com lágrimas nos olhos] Estou tão sozinha. Ela também. Vê? Quatro da manhã e nenhuma luz acesa lá fora, ela está sozinha com suas angústias e ansiedades. É muito triste, é terrivelmente...
SUPEREGO: NORMAL.
EGO: Sim, normal. Todo mundo passa por questões nessa vida. Ela está bem e vai continuar bem. Só precisa realmente pensar e chegar a uma conclusão. Nem que seja a de que, por enquanto, não tem conclusão nenhuma a que se chegar.
SUPEREGO: Muito bem articulado, Ego.
EGO: Obrigada. Achou mesmo?
ID: [pigarreando exageradamente] Podemos?
EGO: Ah, sim. Bom, ela está sozinha, então precisará cuidar de um bebê e de um recém-nascido ao mesmo tempo. E também da casa. Isso é muita coisa. E ela sabe que vai acabar bem estressada.
SUPEREGO: A solução ideal seria chamar a mãe. Ou a sogra. Ou as duas.
ID: Deus nos livre dessa maluquice sem tamanho!
EGO: Não vamos discutir isso agora, certo? Não contemos com outras pessoas, já que elas moram muito longe agora. Voltando, então: ela está sozinha e precisará lidar com tudo sozinha. Para não sobrecarregar o marido. Com isso, ela ficará sem tempo. Estando sem tempo, ficará bem estressada. E estressada, mal curtirá os momentos com os filhos.
ID: Mas tudo será lembranças na velhice. [chorando agora] A velhice é tão solitária, e uma família grande foi com o que ela sempre sonhou...
SUPEREGO: Do que adianta ter memórias de brigas, discussões e irritações?
EGO: Isso. Vamos por esse caminho.
ID: Você sempre ouve muito mais a Superego que a mim.
EGO: Isso não é verdade. Lembra-se do parto? Desde então, quem é que mais me dá conselhos sobre o que devo fazer com Arthur?
SUPEREGO: Se você escutasse o que eu tenho a dizer... Os outros acham que você...
ID e EGO: Danem-se os outros!
SUPEREGO: [suspiro]
EGO: Bom, voltando ao segundinho. Além do que já falei, eles também têm uma renda limitada. E um segundo bebê teria um impacto no orçamento já apertadíssimo deles.
ID: Usa tudo de segunda mão. Eles já têm uma porção de coisas que compraram para o Arthur, podem aproveitar para o outro bebê.
SUPEREGO: É, tipo plano de saúde, né?
EGO: Posso terminar? Bom, haverá impacto. Isso é fato. Some-se a tudo o que já expus e teremos pontos bem fortes contrários ao segundinho. E como se não bastassem esses motivos, ainda é preciso sermos francas: ela está com saudades de ter um tempo só dela, saudades de dormir até um pouco mais tarde, saudades de poder ler um livro. Essas coisas.
SUPEREGO: Ah, sim, e com dois filhos para cuidar, adeus leituras, tempo livre, lavar cabelo. E, cá entre nós, ela já deixa muito a desejar na criação desse menino!
ID: Lá vem você e sua mania de deixá-la culpada, Superego! Deixa a menina! Ela é marinheira de primeira viagem, ela está sozinha num país estrangeiro, ela...
SUPEREGO: E lá vem você arrumar desculpas para as falhas dela. Inadmissível!
EGO: As duas, quietas, já! Ela está se esforçando e ninguém é perfeito.
SUPEREGO: Isso porque ela não me escuta. Se escutasse, ela poderia ser perfeita, sim.
ID: Aham, claro. Senta lá, Superego mala!
EGO: Sem discussão! O bebê vai acordar a qualquer momento para mamar e precisamos ajudá-la. Coitada, olhem só: não prega os olhos, está super ansiosa, tem anseios na vida...
SUPEREGO: Exato! Ainda bem que você tocou nesse ponto! Ela tem anseios. Melhor parar nesse primeiro filho, pois vai ser mais sensato. Imagina só: ela quer seguir sua vida profissional, sente falta de ter seu espaço também em termos intelectuais, quer sentir-se desafiada por questões acadêmicas e profissionais. Como você acha que ela vai dar conta de tudo? Estudos, vida profissional, novos desafios intelectuais, casa, dois ou três filhos?
ID: Sim, mas e o sonho de ter família grande?
SUPEREGO: Nem sempre os sonhos são factíveis.
ID: Mas precisamos dos sonhos. São os sonhos e as emoções que nos mantêm vivos, que nos impulsionam! E o amor, claro!
SUPEREGO: O que nos mantém vivos é a prudência. E é prudente que ela pare no primeiro filho. Tanto em termos profissionais, quanto em termos pessoais e financeiros. Acabou-se o tempo das famílias numerosas. Hoje em dia as pessoas têm restrições orçamentárias porque têm outros anseios e necessidades. Sem contar a questão da inserção da mulher no mercado de trabalho...
ID: Ai, que teoria chaaaaataaaaaaa...
EGO: Vocês duas, quietas! Já pedi! Vamos organizar o que vocês disseram porque nessa ladainha das duas existem uns pontos importantes para esta discussão. Em primeiro lugar, a perspectiva profissional. Se por um lado existem argumentos para que ela tenha somente um filho, conforme bem alardeou nossa amiga Superego.
SUPEREGO: Alardeou, não.
EGO [pigarreando]: Conforme, hum..., sinalizou nossa cara Superego.
SUPEREGO: Obrigada.
EGO: Enfim, embora existam esses argumentos indubitavelmente contrários a um segundinho, há que se pensar também que ela está parada agora, em termos profissionais. Já que está parada, então é melhor que fique parada de uma vez, tenha o segundo, e então, depois que os dois filhos já estiverem mais independentes e na idade de frequentarem a escolinha, aí ela retoma tudo. Ainda será jovem.
ID: Eu estava concordando com você, Ego, mas aí você disse que ela ainda será jovem. Não será, não! Será velha para o mercado! Como você acha que ela vai se reinserir profissionalmente?
SUPEREGO: Finalmente uma colocação sensata desta... hum... deixa para lá.
ID: Oh, céus! Superego concordou comigo? Então retiro o que disse, porque é claro que esse é um argumento anti-segundinho, e vocês sabem que eu quero muito o segundinho, e o terceirinho, e o...
EGO: Como eu ia dizendo, a questão profissional pode ser contornada dessa maneira, e se ela realmente quer um segundo filho, que aproveite a oportunidade de ficar um tempo dedicando-se somente à maternidade para emendar uma nova gravidez, puerpério e todo o processo. Porque esperar cerca de cinco anos para ter o segundo, lembrando que essa foi um estimativa a que ela e o marido chegaram, pode impactar negativamente em termos de vida profissional. E como se não bastasse tudo isso que acabei de falar, quanto mais ela adia, mais complicada a questão se torna, pois ela vai envelhecer...
ID: Envelhecer, não. Ficar vintage.
EGO [rindo discretamente]: Ela não vai ficar mais nova, pronto, e aí temos um impasse entre o relógio biológico, que pede urgência, e o relógio social, que pede calma, pede que ela se reinsira no mercado, que aproveite oportunidades, que se dedique a seus anseios por desafios intelectuais, e só depois retome a questão da maternidade.
ID: Com isso, caríssimas senhoras, chegamos ao consenso de que é melhor ela aproveitar que o bebê está dormindo e atacar o marido agora mesmo, vai que ela está ovulando e...
SUPEREGO: Faça-me o favor!
EGO: Não briguemos! Estamos aqui para tentar chegar a uma conclusão, não a um impasse, então...
ID: Xiiiiii...
SUPEREGO: O que foi desta vez? Insuportáveis essas suas interrupções, Id.
ID: Deixa de ser chato, Superego. Interrompi porque vamos precisar adiar o veredicto.
EGO [assustado]: Por quê?
ID: Porque o bebê acordou.
E com isso, passo noites inteiras acordada, olhando o teto, pensando nos prós e contras do segundinho. E nos prós e contras de pensar e planejar um segundinho.
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