Sentadinho no formigueiro, Arthur berrava. Arqueava o corpinho, ficava com o rostinho vermelho, urrava. O formigueiro, é claro, é imaginário, e eu chamo de cadeirinha do carro. Não há calçamento de paralelepípedo, buraco no asfalto ou pista livre de sinais que o faça relaxar e dormir, como 99,9% dos bebês fazem.
Isso é frustrante para mim, que além de adorar dar uma voltinha, de amar viajar para a casa de campo e de curtir muito conhecer novos lugares, também estava aprendendo a dirigir (já tenho carteira, mas nunca tive coragem de usar o carro... shame on me!). Já tentou dirigir enquanto seu filho é atacado por formigas carnívoras sedentas por sangue humano? És fueda! Não há espelho retrovisor que garanta uma boa direção e nem rádio que minore o som ensurdecedor.
Minha solução Tabajara foi colocar o cd com o afamado barulhinho do útero também no som do carro. E seguimos, meio surdos, completamente incomunicáveis: eu e marido (no banco do carona), e filhote e suas formigas imaginárias.
Alguém aí tem uma luz? Uma palavra de apoio? Um relato parecido? Um Baygon?
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
100 dias com ele
Cem dias e parece que nunca vivi sem ele. O que de certo modo é verdade porque esperei por ele anos e anos. Tá certo que achava que seria mãe de uma menininha. Mas só porque minha família só gera mulheres e, antes do Arthur, o último homem que havia nascido fora em 1959. Então, exceto por esse detalhe (não insignificante, é claro, mas ainda assim um detalhe), eu passei toda a minha vida adulta com Arthur, gestando a ideia de concebê-lo, pari-lo e criá-lo.
Quando me descobri grávida, estive grávida da ponta do cabelo à unha do pé: enjoei, dei piti hormonal, comi coisas loucas (não bebi coisas loucas), fiz xixi no palito, exame de sangue, ri sozinha, chorei acompanhada das malditas estrias, tive medo, esperança, confiei cegamente e me abandonei na aventura. (Outro dia até me peguei pensando, muito surpresa, que confiava tanto em que eu conseguiria parir que nunca passou pela minha cabeça que eu poderia precisar de uma cirurgia e que eu não tinha dinheiro para pagar equipe cirúrgica particular! Olha que doideira!) Vivi para e com Arthur por muito mais que os 9 meses de gravidez.
Quando ele nasceu, saí derrubando mitos meus e alheios. Sambei na cara da sociedade cesarista, como vocês já sabem, e também desmistifquei dentro de mim muita coisa da maternidade. Coisas boas, como o mito do amor instantâneo pelo recém-nascido, e coisas ruins, como dificuldades de relacionamento entre pais e filhos ou a minha incapacidade de criar e sustentar um filho (um dia, quem sabe, falo um pouco mais sobre isso por aqui). Renasci em mim mesma e no pequeno ser que acabava de trazer ao mundo.
Agora, cem dias depois, ainda estou trabalhando arduamente na reconstrução da minha identidade, agora partida no binômio mãe-bebê e na multifacetada mulher do século XXI. Também me empenho em usar o tempo de licença-maternidade para conhecer meu pequeno filhote, para criar e estreitar laços, para ir fundo no verbo maternar. E é difícil, viu, gente? Não pelo Arthur, docinho de menino, bebê delícia, mas por mim. Saber construir a mãe que quero e posso ser é tarefa exaustiva, e que jamais se esgota. É se questionar e rever conceitos, ideias e possibilidades todos os dias. É buscar se encaixar em uma realidade cambiante, e muito mais cambiante que a vida sem filhos porque há, além das variáveis da vida cotidiana normal, uma vida absolutamente dependente de mim. Agora, cem dias depois de parir Arthur, sei que estou cansada, mas profundamente feliz e realizada. Cem dias com ele são muito mais que cem dias com ele: é toda a nossa vida como mãe e filho. E como é bom viver essa nossa toda vida!
Quando me descobri grávida, estive grávida da ponta do cabelo à unha do pé: enjoei, dei piti hormonal, comi coisas loucas (não bebi coisas loucas), fiz xixi no palito, exame de sangue, ri sozinha, chorei acompanhada das malditas estrias, tive medo, esperança, confiei cegamente e me abandonei na aventura. (Outro dia até me peguei pensando, muito surpresa, que confiava tanto em que eu conseguiria parir que nunca passou pela minha cabeça que eu poderia precisar de uma cirurgia e que eu não tinha dinheiro para pagar equipe cirúrgica particular! Olha que doideira!) Vivi para e com Arthur por muito mais que os 9 meses de gravidez.
Quando ele nasceu, saí derrubando mitos meus e alheios. Sambei na cara da sociedade cesarista, como vocês já sabem, e também desmistifquei dentro de mim muita coisa da maternidade. Coisas boas, como o mito do amor instantâneo pelo recém-nascido, e coisas ruins, como dificuldades de relacionamento entre pais e filhos ou a minha incapacidade de criar e sustentar um filho (um dia, quem sabe, falo um pouco mais sobre isso por aqui). Renasci em mim mesma e no pequeno ser que acabava de trazer ao mundo.
Agora, cem dias depois, ainda estou trabalhando arduamente na reconstrução da minha identidade, agora partida no binômio mãe-bebê e na multifacetada mulher do século XXI. Também me empenho em usar o tempo de licença-maternidade para conhecer meu pequeno filhote, para criar e estreitar laços, para ir fundo no verbo maternar. E é difícil, viu, gente? Não pelo Arthur, docinho de menino, bebê delícia, mas por mim. Saber construir a mãe que quero e posso ser é tarefa exaustiva, e que jamais se esgota. É se questionar e rever conceitos, ideias e possibilidades todos os dias. É buscar se encaixar em uma realidade cambiante, e muito mais cambiante que a vida sem filhos porque há, além das variáveis da vida cotidiana normal, uma vida absolutamente dependente de mim. Agora, cem dias depois de parir Arthur, sei que estou cansada, mas profundamente feliz e realizada. Cem dias com ele são muito mais que cem dias com ele: é toda a nossa vida como mãe e filho. E como é bom viver essa nossa toda vida!
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