Mostrando postagens com marcador mudança. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador mudança. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Voltei

 Em junho.

A mudança foi a coisa mais difícil que já fiz até agora. Não o dia em que entregamos o apartamento. Não quando entramos no avião. O processo completo.

Começou em março, com a pandemia. Eu tinha um trabalho, marido também. Arthur na escola, Gael com a gente em casa e, BUM, veio o caos. As passagens estavam compradas, já sabíamos da mudança, já era um plano. Mas a pandemia elevou tudo a novas potências.

Eu atrasei a entrega do trabalho. Marido idem. Arthur e Gael e eu e marido e o peixe trancados dentro de um apartamento de quarto e sala, longe da família, vendo as notícias das mortes, assistindo os colapsos, nos perguntando tantas coisas (e se pegarmos? e se não conseguirmos sair? será que no Brasil também veremos caixões pelas ruas? quem perto de nós vai morrer?). O trabalho nos pesava muito, porque não dávamos conta e sentíamos culpa, medo, ansiedade.

Chorei incontáveis vezes. Eu jurei que entraria em colapso. E acho que entrei. Fui diagnosticada com transtorno do estresse pós-traumático, embora eu ache que tenha sido a mistura bombástica de estresse e ansiedade.

Eu empacotei minhas coisas aos prantos. Joguei fora móveis, papéis, brinquedos, livros, roupas. Me despedi de sete anos em Chicago. Mas não uma despedida adequada: não foi possível visitar os lugares que gostaríamos, não conseguimos ver as pessoas, falar adeus para nossa rotina.

Chorei muito. Muito mesmo. De exaustão, medo, ansiedade e sofrimento por ir embora assim, meio fugida. Fugindo do vírus.

O processo durou de março até junho e nunca briguei tanto com as pessoas ao meu redor. Doía tudo: corpo e alma. Sozinha. Só nós 4 e o peixe, que foi doado porque não dava para trazer conosco. Sei lá se morreu. Não tive coragem de perguntar à nova dona. O aquário foi para outra pessoa, uma brasileira que morava perto. A bicicleta foi para o lixo, o sofá a gente vendeu para os garotos que estavam se mudando para o apartamento do lado, onde antes morava um jogador de futebol americado com mais de 2m de altura e que se desmanchava em sorrisos quando via Gael. 

Foram 11 malas despachadas, 4 malas de mão, um carrinho, uma cadeirinha de carro e duas crianças. Era muita responsabilidade para só dois adultos.

No aeroporto foi tenso. O voo foi um pesadelo, com gente sem máscara espirrando e tossindo perto de nós. A mulher na cadeira ao lado pediu para comprar uma passagem de primeira classe ali, na hora, já dentro do avião. Não tinha como. Tudo lotado, disse o comissário de bordo. Lotado. Dormi mal, arrastei todas as malas, carreguei as crianças, coloquei as crianças para dormir, alimentei. Assisti "O diabo veste Prada" - já tinha visto antes. E acho que mais um filme. Não me lembro.

Chegamos e viajamos mais, porque não ficaríamos no Rio.

Ah, que eu não me esqueça que antes disso tivemos passagem cancelada à revelia, compramos briga no guichê do aeroporto porque nos venderam as malas extras erradas e queriam que pagássemos pelo erro deles. E teve correria para fazer passaporte. E trouxemos livros da biblioteca por engano, estou devendo uma fortuna de multa porque ainda não tive tempo de parar e resolver nada. Aliás, eu estava no mercado, na vila com menos de mil habitantes onde estamos, quando tocou o telefone e era a secretária da escola, da ex-escola do Arthur perguntando se eu já sabia para onde iríamos, porque saí de lá sem saber muito bem para onde transferir meu filho. Avisei que estava no Brasil, pedi os documentos. Foi o que consegui resolver até agora.

A mudança, repito, foi muito difícil. Uma mudança internacional, com 15 malas, um carrinho, uma cadeirinha de carro, 2 crianças, no meio de uma pandemia.

Voltei. Daqui a pouco eu chego.

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Sobre estar aqui

Quase todas as pessoas para quem eu conto que estou passando um tempo na Bélgica comentam comigos coisas do tipo "nossa, quem me dera!" ou "ah, que máximo!" ou "um sonho! uma maravilha!". E emendam com um "aproveite!".
Não chega a me irritar, mas acho curioso como as pessoas têm uma ideia completamente equivocada do que significa, na vida real, morar fora, sobretudo em um lugar temporário.
Se eu tivesse grana, a história toda seria diferente, porque eu poderia viajar e passear e curtir a ideia de "morar na Europa" que as pessoas têm. Mas como não tenho grana e a pouca que tenho está comprometida com coisas supérfluas, tipo pagar um teto e comer, então morar fora significa mesmo é passar perrengue em outras línguas e com as quatro estações do ano bem marcadas.
Também não estou reclamando. Nem posso. Mesmo com os perrengues é uma coisa incrível estar aqui, ver e viver coisas que eu nunca veria ou viveria no Brasil (para o bem e para o mal), perceber que estou começando a pescar uma ou outra palavra em holandês (palavras escritas, que fique bem claro, porque para as faladas eu precisaria de mais uns cinco anos aqui), comer chocolate bom todos os dias e beber cerveja famosa pagando bem menos.
Acho que estou desabafando, aqui, no meu cantinho, porque quando as pessoas me respondem, com os olhinhos brilhando, noooooooossa, que beleza morar na Bélgica, eu não posso e nem quero falar que é muito chato e deprimente ficar em um lugar onde só chove, ou que me sinto frustrada por ver meu filho sem conseguir se comunicar com as outras crianças porque as línguas não são compatíveis, ou que tem dias que me cansa pedalar e trepidar nos paralelepípedos das ruas centenárias da cidade só para ir até o centro ver gente e não deprimir, ou que a rotina avança nos dias mesmo falando holandês, ou que cuidar do pequeno 24h por dia não me deixa espaço (interno) para organizar outras coisas da minha vida, ou que estar com as malas já lotadas e não poder comprar materiais e brinquedos para distrair uma criança que não consegue brincar com outras crianças e que passa muitos dias enfiada dentro de casa porque lá fora está chovendo e fazendo 5 graus é mais do que frustrante, é exasperante!
Às vezes sinto como se eu subaproveitasse a oportunidade, mas não vejo muitas soluções, sinceramente. Ao menos, não vejo soluções que caibam no meu orçamento ou na gincana na qual parece que entramos em 2011 e da qual nunca saímos. Viajar não é uma possibilidade. Passear, comer fora, conhecer restaurantes e museus, tudo isso custa dinheiro (euros, não se esqueçam) e não é exatamente recebido com gritinhos de alegria pelo meu bólido.
Estar aqui é ótimo, mas muitas vezes se parece com estar em qualquer outro lugar do mundo. Sou grata pela oportunidade, mas não é raro que eu precise dar um sorriso amarelo ou uma resposta educada para as pessoas que vibram com a minha estada aqui, como se morar na Bélgica de repente sanasse todos os problemas do mundo e solucionasse boa parte das angústias medíocres que vivo. Estar aqui não é passear aqui, não é estar de férias aqui, não é apreciar tudo o que a Bélgica tem de melhor a nos oferecer. Estar aqui é ser estrangeira, e continuar sem grana, e ter rotina (sobretudo com e por causa do pequeno), e fazer supermercado com meia dúzia de frutas disponíveis, e lavar roupa (na máquina dentro de casa. LUXO!), cozinhar (blergh!), lavar privada, varrer chão, arrumar entretenimento, arrumar tempo para não deixar a peteca cair, se lembrar de que acabou o guardanapo e o café, é saber que em poucos dias estaremos empacotando tudo de novo, entrando num avião de novo, indo de novo para mais uma temporada temporária em outro país.
Estar aqui é fazer o estar aqui fazer sentido, enquanto estamos aqui. Faz sentido nossos passeios bestas para não pirar, faz sentido nossas tradições recém-inventadas, faz sentido abrirmos as exceções que abrimos e mantermos o que mantivemos. Estar aqui é, de verdade, estar aqui. A cada segundo. Sem espaço para idealizações. E isso é legal na mesma medida que é difícil. Estar.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O drama das malas (e outras histórias) - parte 2

[Clica aqui para ver a parte 1]
Chegamos ao aeroporto com cinco malas: duas grandes, uma imensa (lembra que compramos uma mala? Pois é, escolhemos a maior da loja!) e duas malas de mão. E mochilinha do Arthur e carrinho, claro.
Sair do táxi foi uma prévia do que viria pela frente, mas resolvi viver um minuto de cada vez, caso contrário eu surtaria ali mesmo, no embarque.
Bom, chegamos com algum esforço e muito suor ao balcão de atendimento da companhia aérea. Ali, havia duas balanças, onde pesamos todas as nossas malas (e também nosso filho, já que não consegui marcar consulta com a pediatra antes de virmos embora) e constatamos, não sem um desespero profundo e intenso se apossar de nós, que havia sobrepeso.
Sobrepeso é um nome bem bonito para taxa extra, né? Para um "estão fodidos e vão ficar ainda mais duros antes de embarcar".
Abrimos as malas no aeroporto (por favor, visualizem a cena) e ponderamos como poderíamos passar uns quilos para as malas de mão. Bichinhos de pelúcia foram realocados, cogitamos jogar fora o tapete de brincadeiras do Arthur (também conhecido como Arthurópolis), retiramos um casacão pesadão do maridão e... tchanã! Todas as malas dentro do peso ideal, menos a gigante recém-comprada, que continuava com sobrepeso. Não tinha jeito, não iríamos conseguir redistribuir mais de dez quilos de tralha, então decidimos ficar dentro da primeira faixa de excesso de peso da bagagem. Paciência (tô aceitando frila, viu? se alguém do meu círculo profissional estiver lendo isto, por favor, mande mensagem e trabalho). Aí, fomos fazer o check-in e gerar os bilhetes de embarque. O que poderia acontecer de errado? Nada, certo? O mais difícil tinha passado.
ahahaha (riam comigo)
(mais um pouco)
Já falei aqui que Arthur tem um nome bem comprido e que isso, nos EUA, é uma coisa tipo bizarramente louca e esquisita. Pois bem: a máquina digitalizadora não conseguia ler os sobrenomes do menino e ficamos muuuuuuuuitos minutos tentando gerar os bilhetes. No fim, não conseguimos, e fomos advertidos pelo moço da companhia que poderíamos ter problemas no embarque por conta da fiscalização, que o atendente que fizesse a checagem dos bilhetes precisaria ser compreensivo, já que o nome do Arthur saiu errado/cortado. Ok. Tem outro jeito? Então vamos.
Vocês escolheram uma fila com um atendente paciente e compreensivo? Nem a gente. Precisamos chamar o rapaz da companhia aérea, que veio explicar por que o nome estava diferente do passaporte e tal e, finalmente, passamos.
Ufa! Sem mala, com check-in feito, de posse dos bilhetes de embarque... já sonhava com os sonhos lindos que teria dentro da aeronave. Com as horas que passaria relaxando, sentada, sem carregar mala, sem correr. Com as horas que passaria...
Ah, sim, onde eu estava? Estava, enfim, embarcando. Mas não sem antes ter um filho que se enturmou com duas crianças no saguão do aeroporto e tocou o terror, correndo e passando por baixo das fitas que formavam o serpear das filas de embarque em frente aos guichês. Passageiros sorriam, passageiros faziam caras de reprovação, passageiros eram empurrados e atropelados por aquelas crianças desgovernadas, mas eu deixei. E deixei conscientemente. Porque, pensei eu, é muito melhor que ele queira correr FORA do avião do que DENTRO. E bem melhor que ele gaste energia, que se canse e extravaze para que façamos uma viagem com uma criança cansada. E vocês sabem: criança cansada é criança feliz.
Bom, não posso dizer que foi um voo perfeito, mas também não foi um desastre. Tirando o fato de que eu morro de medo de avião e qualquer balancinho me faz estremecer, tirando o fato de que não sobrou comida para o Arthur (não a que ele queria, pelo menos), tirando o fato de que nos sentamos na última poltrona da aeronave e, acima de tudo, tirando o fato de que eu não consegui pregar os olhos durante absolutamente todas as horas de voo por causa do fuso e do estresse acumulado, o voo não foi terrível.
Terrível mesmo foi a chegada. Primeiro porque não dormi. Segundo porque a companhia aérea perdeu nosso carrinho e Arthur, cansado, sonolento e, óbvio, irritadiço, não encarou isso numa boa (nem eu). Terceiro porque depois da imigração, recuperamos as malas, que eram apenas três, mas ainda assim davam muito trabalho.
Vou resumir aqui as mais de DUAS horas que gastamos entre pegar as malas e ir reclamar da perda do carrinho: foi FODA.
Minha pressão deu chilique, Arthur deu chilique, marido deu chilique, eu dei chilique. Estávamos todos exauridos, esgotados. Acho que marido era o pior de todos, embora tenha conseguido dormir, porque parte da correria final ficou nas costas dele, incluindo reclamar o carrinho, já que Arthur só queria ficar comigo e ele precisou ir sozinho.
Vocês acham que acabou, só porque chegamos em solo belga?
Nã-nã-ni-nã-não!
Chegamos em Bruxelas. Moramos em Ghent. Ou seja: precisávamos pegar um fucking trem até a cidade e, de lá, sabe-se lá o quê mais.
Amigxs, deem aqui um abraço, deem. Eu não sei o que eu fiz na encarnação passada, mas deve ter sido pesado. Porque esse karma de viagem zicada não passa! Ártemis, viajando com caos since 1982.
Descobrir como pegava o trem, arrastando duas malas grandes, uma imensa, duas de mão e uma criança mau humorada de cansaço pelo aeroporto e pela estação de trem foi uma prova de resiliência e determinação incríveis. E, enfim, quando conseguimos comprar as passagens, ir para a plataforma de embarque correta (obrigada, Bélgica, pelos elevadores na estação de trem!), sentarmo-nos em um dos bancos duros do saguão... Arthur quer fazer xixi. O trem chegava em cinco minutos, não havia tempo para ir procurar um banheiro, não havia alguém para perguntar se tinha banheiro dentro do trem, não havia mais fralda que evitasse um acidente desastroso, mas existia a minha garrafinha de água, rapidamente transformada em banheiro.
Finalmente embarcamos no trem certo rumo ao destino certo!
E ele tinha banheiro (fica a dica).
Entre cochilos e "ohhhhs" por causa da paisagem, chegamos a Ghent.
Lembram que agradeci aos elevadores em estações de trem da Bélgica? Esqueçam!
Em Ghent não tem isso. A cidade é medieval e o que tinha eram uns portugueses solidários que nos ajudaram (obrigada! obrigada! obrigada) a descer com as malas por aquelas infinitas escadas da estação.
Cereja do sundae de cocô da nossa chegada foi tentarmos sacar dinheiro no caixa eletrônico para pegarmos um táxi e irmos para a cama, digo, para a casa que (assim esperávamos) tínhamos alugado pela internet, e o cartão ser BLOQUEADO porque nos esquecemos (não sabíamos que precisava) de desbloqueá-lo para ser usado fora dos EUA.
Acho que ficamos uma boa hora na estação de Ghent, ligando para o banco dos EUA, tentando resolver a pendenga.
Resolvemos, entramos no táxi, chegamos no endereço e... era uma casa de verdade! Ufa! O senhorio era um fofo, falou várias coisas, respondi como dava, mas lá pelas tantas me desculpei e expliquei que, para mim, eram quatro da manhã e ele, enfim, nos deu a chave da cama, digo, da casa.
O fuso me castigou, vocês já sabem, mas hoje eu vejo que o que não nos mata, nos fortalece: tinha uma celulite na minha coxa direita que foi extirpada com essa maratona de sobe-desce-puxa-empurra de malas. Quero dizer, foi extirpada no primeiro dia, porque aqui tem cerveja e chocolate, e a celulite está aqui de volta, firme e forte. Mas prometo que vou chegar o ao Rio sem ela: ainda temos três malas mais duas de mão para arrastarmos de volta, todo este trajeto de novo. E depois de novo. E de novo. E de novo...

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O drama das malas (e outras histórias)

[Vai amamentar porque é textão!]

Já falei que eram cinco. E já falei que teve drama. Mas acho que ninguém imagina o nível de drama. Só de lembrar me dá vontade de chorar, de jogar todos os meus trapos numa fogueira de adoração ao minimalismo e até mesmo virar adepta ao naturalismo, quem sabe? Afinal, ainda temos no horizonte Brasil, Angola e Chicago de volta. Com as malas.
Tudo começou, óbvio, em Chicago.
A casa era pequena, mas não era minúscula, e a quantidade de tralha que a gente acumula ao longo dos anos é realmente impressionante. Como disse marido, até hoje a gente espera a ligação do guarda-móveis dizendo que a porta de aço do nosso cubículo explodiu de tão cheio que ele estava.
Mas então, ainda lá em Chicago a gente fez a triagem das coisas que seriam guardadas e das que seriam descartadas. Muita coisa foi embora, muita coisa ficou, mas a gente ainda tinha as malas a serem feitas.
Começou o drama do combo amplitudes térmicas + crescimento do Arthur + não saber como lavaremos roupa em Angola. Tentei montar uma mala enxuta, mas existem coisas que precisavam vir com a gente, para dar a Arthur um sentido de continuidade, de pertencimento à próxima casa, né? Eu entendo que vamos ficar um ano fora, que é provisório, que as coisas profundas que compõem um lar não vão dentro da mala, mas dentro da gente. Acontece que Arthur tem 4 anos e não estava curtindo nada aquele bando de "encaixota", "joga fora", "doa".
Bom, fizemos nossas sete malas. Sete? Ué, não eram cinco?
Calma! Eu chego lá.
Fizemos sete malas na véspera de levar as coisas para o guarda-móveis, em meio a um processo de "desentulhamento" nunca visto antes, em meio a uma obsessiva limpeza de cantinhos e detalhes para não pagar multa (tem uma lista de coisas que você precisa limpar antes de entregar o apartamento - coisas, inclusive, que NÃO recebemos conforme o manual). Fizemos as malas logo depois que a última visita foi embora, porque, sim, tivemos 3 visitas nas semanas finais de encaixotamento. Fizemos as sete malas até de madrugada, mesmo sabendo que no dia seguinte, bem cedinho, nosso vizinho parça viria nos ajudar a carregar o caminhão com os móveis e as caixas que iriam ser armazenadas no guarda-móveis.
Pausa técnica: não sei se todo mundo sabe, eu não sabia, então vou contar. Sabe como as pessoas se mudam nos EUA? Tem duas maneiras que eu conheço: você contrata um caminhão com gente para transportar suas tralhas e deixa um rim como forma de pagamento, ou você contrata um caminhão, que será dirigido e carregado por você, e faz tudo por conta própria mesmo. Adivinhem qual foi a nossa "opção"? Isso mesmo. Alugamos um caminhãozinho que, com a ajuda do nosso vizinho camarada-salvador-da-pátria, enchemos com nossos móveis e tralhas a serem levados para o guarda-móveis. Lá no guarda-móveis, a mesma história: você faz tudo. Era um dia quente. Eu achei que fosse ter um treco, juro! Suei como se estivesse na UERJ nos áureos tempos adolescentes, dentro daquelas salas de aula sem ar nem ventilador e que refratavam os 50 graus do Maracanã para dentro das paredes de concreto. Carreguei muito peso, levantei caixas maiores que eu, equilibrei tralhas em posições que dariam inveja ao mais flexível praticante do Kama Sutra, fiz caber em um espaço de 25 pés quadrados (seja lá quanto for isso) três anos de Chicago + lembranças imperdíveis de 30 anos no Brasil. Ou seja: coisa bagarái. Devo tudo isso aos meus anos de prática com Tetris. 
Mas voltemos às malas.
As malas, então, ficaram ali no apartamento, semi-abertas, porque não tínhamos mais cabides, nem cômodas, nem nada. Na verdade, tínhamos tudo isso, mas guardado ou esvaziado.
Pois bem, fizemos o transporte das coisas, voltamos para um apartamento cheio de eco com as malas, e só as malas, já que todos os móveis estavam guardados. Foram dois dias até irmos para o hotel onde ficamos nos dois dias anteriores à viagem. Dois dias tensos. Dois dias desconfortáveis, dormindo no chão (menos Arthur, que ficou com o sofá velho que depois jogamos fora), comendo comida congelada com talheres de plástico e muitas outras coisinhas altamente precárias.
As malas, sete, não cabiam em um táxi comum. Uber XL era caro. Táxi XL idem. Decidimos, então, aproveitar a minivan que tínhamos alugado para levar tudo até o hotel. O carro não entrava na garagem porque era mais alto que as vigas, então manobramos com a ajuda do garagista, que vendo nós três descarregar malas e mais malas (e um painel solar IMENSO), perguntou se iríamos ficar meses, ao que respondemos "dois dias". Queria ter tirado foto da cara do homem. ahahah
Bom, primeiro dia foi dedicado a deitar nas camas macias e limpas do hotel, a tomar banhos quentes e longos, comer comida quente e prearada na hora, a ir à piscina e... a resolver milhares de pepinos que surgiram de última hora, o que anulou por completo nossas tentativas de desestressar. Lista esta que incluiu sair para comprar uma mala nova, bem grandona, porque descobrimos que uma das nossas tinha se quebrado. Que beleza!
Bom, o outro dia já era a véspera da viagem, então precisaríamos terminar de resolver a pepinada (que parecia, na verdade, um bando de ratos se reproduzindo alucinadamente) e começar a focar no deslocamento em si, nos processos de saída e chegada em dois países diferentes e essas coisas que vocês devem saber. Corre daqui, corre dali, a noite chegou, Arthur dormiu e fomos passar o pente fino no quarto (para não deixar nada para trás), nos documentos (idem) e, claro, reorganizar as malas. Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo fluindo. Até que marido resolveu cuidar da nossa chegada em Ghent (vou escrever o nome da cidade em inglês mesmo porque acho caído Gante). Decidimos agendar um serviço de shuttle e lá no contrato vinha dizendo que eles não cobravam as malas "normais", uma por passageiro mais a de mão. Opa! Acendeu o alerta vermelho e marido foi ver no site da companhia aérea. Eu, atrás dele, afirmava, convicta: claaaaro que são duas malas de até 32kg para cada um! Óbvio!
ahahahahahahahaha (riam comigo)
Lemos e relemos diversas vezes para nos certificarmos de que, sim, pela primeiríssima vez na vida (cof! cof!) eu estava errada. As regras para viagens ao Brasil são as que falei: duas malas de até 32kg. Mas, para a Europa, é uma malinha só e o peso não pode ultrapassar 23kg.
Neste momento, um letreiro luminoso se acendeu em minha testa, piscando em neon vermelho: FODEU! FODEU! FODEU!
Eram onze da noite, véspera da nossa fucking viagem, e tínhamos acabado de descobrir que precisaríamos deixar QUATRO das malas que estavam conosco. Como fazer isso? Onde colocar as QUATRO malas que precisaríamos deixar? A que horas terminaríamos de fazer tudo?
Nessa hora eu tive vontade de deitar em posição fetal e chorar até dormir. Mas eu dormiria rápido, e era véspera da viagem, então a única possibilidade era abrir TODAS - vou repetir - T-O-D-A-S as nossas malas e ver, peça por peça, o que iria e o que ficaria.
Conseguimos, com muito suor e esforço. As malas, que eram sete (fora as de mão e o painel solar), se transformaram em três + duas de mão. Marido ainda teria a árdua missão de levar e encaixar, sabe-se lá como e onde, as quatro malas remanescentes no nosso depósito já abarrotado até o teto (literalmente)!
Eram duas e meia da manhã quando fechamos o último zíper. Exaustos, desmaiamos por algumas horas, até que fomos acordados pelo despertador e recomeçou a correria: corre para tomar café, corre para pegar um táxi e levar as malas até o guarda-móveis, corre para fazer check-out, corre para dar tchau para os bibliotecários (sim, importantíssimo para nós), corre para resolver os últimos pepinos que exigiam nossa presença física, corre, corre, corre. Corra, Ártemis, corra! No primeiro final, Ártemis e família não conseguem. No segundo final, Ártemis e família se separam, marido embarca sozinho, ela e Arthur choram porque não conseguiram completar as etapas obrigatórias da gincana e perderam os passaportes. Mas no terceiro final, que foi o que decidi viver, tudo deu certo, aos trancos e barrancos, e fomos de táxi XL, falando francês, até chegarmos ao aeroporto.
(continua...)

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

O segundinho virou segundinha

Pois é, meu povo. Meu segundinho virou segundinha. Aliás, segundinha e terceirinha, logo de uma vez!

Pode me xingar porque fiz mau uso do título e não tem nada na minha pança além das pelancas que coleciono com rigor.
É que em vez de parir um rebento, farei uma segundinha mudança. Vamos para logo ali, na Europa, e depois para um bocadinho mais adiante, na África. Onde tudo começou, inclusive este blog, esta loucura selvagem.
Com isso, óbvio que meus planos de engravidar de novo foram adiados, sem previsão de volta.
#todaschora

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

Da chegada - voo

Olha, longe de mim querer traumatizar as pessoas, por isso faço questão de lembrar-vos de que Murphy me ama. Aliás, Murphy deve ter uma paixão enrustida por mim, daquelas que deixam cheia de recalque o apaixonado não-correspondido, que a qualquer pretexto ou oportunidade dá aquela espezinhada safada. Sabem como é? Tipo o Pedrinho, da terceira série, que puxava o seu cabelo no recreio, e que no primeiro ano do ensino médio veio declarar o seu amor no meio do primeiro porre na festinha do Gutão.
Então. É assim comigo.
Murphy me ama, me idolatra e se ressente de eu já ser casada.
Tendo isso em mente e a passagem na mão, vamos embacar comigo nesse voo.
"Atenção, senhores passageiros, com destino a Chicago. Embarque no portão 666. O inferno os aguarda."
Ignorei a voz sensual no microfone e, de passaportes e passagens em riste, fui dar tchau para a família, que foi em peso ao aeroporto. Só faltou a Genoveva, a galinha do sítio da minha tia. Aliás, era só ela mesmo que estava faltando naquele aeroporto ABARROTADO! Das duas uma: ou o Brasil vai muito bem e está todo mundo podre de rico, viajando horrores, queimando dólares para aquecer lareira e euros para acender charutos, ou o país vai mal e todo mundo está fugindo!
Bom, eu não estava nem fugindo, muito menos nadando em dinheiro. Estava apenas tentando embarcar para minha nova vida. Embarcar com marido, filhote e a madrinha do filhote, devidamente convocada para ser um par extra de mãos (a.k.a. mão de obra para trabalhos domésticos e babazísticos. Faz parte. Por isso, sugiro que a madrinha do filho de vocês seja jovem. Se não jovem, disposta e cheia de energia. Se nada disso, pelo menos rica. Optei pela madrinha jovem.). Então estávamos nós e nossas infindáveis malas, malinhas, maletas, sacolinhas e bolsinhas, sling, objetos de uso pessoal, passaportes, apretrechos e casacos, nos despedindo da família inteira. Choro, gente se jogando no chão e gritando "nããããoooo", correria, desespero. Tá, mentira, não teve nada disso, mas a minha mãe chorou.
Entregamos as passagens para a moça da entrada, ela fez "PIP" com aquele leitor a laser, e nos encaminhamos para a área de segurança. Nós e a penca de penduricalhos, aí incluído Arthur, que arrastávamos conosco.
Eu não sei vocês, mas sempre fico tensa em revistas. Mesmo que eu não deva, eu tremo. Acontece que dessa vez eu achava que devia, porque entrei num fight com o pessoal da companhia aérea e estava contrabandeando para os EUA duas perigosíssimas sopas congeladas sem leite ou derivados. É que a bodega da American Airlines não tem dieta especial sem leite e derivados, só uma refeição vegetariana safada (cheia de queijo e abobrinha, provavelmente. Odeio abobrinha), e a solução que me deram para o meu caso foi que eu levasse a minha própria comida. Mas precisava ser industrializada. Lá fui eu na véspera do embarque catar uma comida congelada sem leite ou derivados. E lá fui eu, no dia do embarque, para a área de segurança cheia de medo de me interrogarem por conta das sopas.
Passamos. Nós, as tranqueiras e as sopas.
Eu deveria ter desconfiado de que, se uma coisa funciona maravilhosamente bem na minha vida é porque Murphy está preparando algo mais grandioso em meu futuro. Eu, porém, devia estar ocupada demais correndo atrás do Arthur para notar tal fato. E segui em frente.
O avião foi um caso a parte. Não digo NO avião, mas sim O avião, que devia ser velho, recauchutado e obsoleto, já que teco-tecoou do início ao fim, nos brindando com narizes e gargantas secos, barulhos altos e incômodos, sacolejos e nheque-nheques mil. Se viajar com um bebê já é uma aventura, na classe econômica, num avião caindo aos pedaços e sem jantar pode ser considerado um inferno.
Opa! Pera lá! Sem jantar? Mas e as sopas? Bem, em meio a mil e uma ligações para a companhia aérea, ninguém nunca, jamais, em nenhum momento mencionou que a comida congelada deveria vir numa embalagem que permitisse o descongelamento e aquecimento em forno convencional. E eu, preocupada com mil outras coisas, nem me lembrei de que microondas e instrumentos de navegação aérea não devem combinar, né? Enfim, minhas sopas só poderiam ser descongeladas e aquecidas em microondas, que não tinha no avião, e então eu passei a viagem toda comendo Oreo, que não tem leite.
Ao chegarmos, enfim, em solo americano, a viagem parecia mais ou menos encaminhada para um desfecho tranquilo, pois o voo seguinte seria feito a partir do mesmo aeroporto em que fizemos a imigração e tinha uma folguinha no horário. Depois de cerca de onze horas sem dormir, com pele e mucosas faciais ressecadas pelo ar tenebroso da cabine, as costas massacradas pelas "poltronas" e por carregar Arthur para cima e para baixo, o voo de cerca de duas horas parecia, ao mesmo tempo, a redenção e o que sugaria nossas últimas energias.
Tudo parecia bem, até que os computadores da imigração norte-americana travaram. E nós ficamos por ali, na fila, esperando, uma pá de tempo. E quando saímos, para pegar o segundo voo, já estávamos atrasados. Marido e madrinha não queriam perder tempo, e fizeram cara feia quando eu parei para perguntar a um funcionário do aeroporto para que lado ficava o nosso portão de embarque. O tal funcionário pilotava uma geringonça que parecia a limusine dos carrinhos de golfe motorizados. Um trenzinho "conversível" comprido mesmo, com os símbolos de portadores de necessidades especiais na lateral. O moço, apiedado da nossa situação, falou "entrem!", e nós entramos. Entramos e saímos em grande velocidade, com um vento gelado batendo no nosso rosto, pelo JFK! Foi divertido, Arthur adorou, eu adorei, todo mundo se divertiu. E chegamos ao guichê/portão de embarque bem na hora... de ver, através daquele janelão, o nosso avião levantar voo sem nós!
Emitimos novas passagens e esperamos. Uma hora até o próximo voo. Depois, outra hora dentro do avião, nem me lembro mais do motivo, confesso. Aliás, depois do passeio de trenzinho pelo aeroporto, não me lembro de mais nada. Tudo não passa de um borrão de exaustão, choro, fome, dores musculares e ansiedade. Acho que chegamos bem. Acho que comemos. Acho até que fomos ao supermercado comprar itens de necessidade básica.
Depois me perguntam se eu não quero voltar para o Brasil. Minha gente, se eu pudesse, e se a saudade deixasse, nunca mais que eu entrava num avião, que é para não correr o risco de pegar, mais uma vez, Murphy na cabine de comando.

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Da chegada

Olhando de baixo, na segurança sólida do solo sob os nossos pés, nem sempre os desafios parecem ser tão intensos. A perspectiva dá uma coragem muitas vezes enganosa, quase sempre surpreendente.
"Claro que eu vou! Imagina, nem é tão alto, nem é tão difícil, tanta gente já fez isso."
A verdade é que em todas, em absolutamente todas as situações da vida, a gente nunca sabe o que realmente acontecerá até que realmente vivamos o momento. Mesmo uma grávida de milésima viagem, mesmo uma pessoa que já se mudou duzentas vezes, mesmo quem está mais do que escolado em fazer qualquer coisa na vida. A pessoa tem uma ideia do que lhe espera, mas saber, saber de verdade, não sabe.
E aí que eu não sabia. E acho que não soube até que todo o processo estivesse numa nova fase, dando por encerrada a etapa da mudança.
No Brasil, as expectativas foram até realistas, sob certo aspecto, porque repetíamos a cada passo burocrático que dávamos rumo à nova vida "vai ser difícil no começo". No entanto, a gente não fazia ideia de COMO seria difícil. Ou seja, nós sabíamos que teríamos desafios a enfrentar, alguns até já desconfiávamos que encararíamos, mas só quando vivemos o processo foi que conhecemos o rosto dos monstros contra os quais precisaríamos lutar.
Hoje, seis meses depois da mudança, sinto que finalmente vencemos a primeira etapa, a da chegada, a do estabelecimento básico. Agora, no horizonte, novos desafios, novas armadilhas, novas surpresas, alegrias, desventuras, sustos. Mas, por ora, por hoje, enfim chegamos.

sábado, 2 de novembro de 2013

Primeiro Halloween

Vocês, que me acompanham, sabem que eu não faço muito o estilo "querido diário", né? Geralmente faço um texto gaiato ou drama queen das coisas que me acontecem e vamos que vamos. Mas hoje eu vou fazer diferente. É que meu pequeno teve seu primeiro Halloween, e isso foi tão importante que merece nota.
Mas, já que vamos fazer, que façamos direito: deixem-me começar de novo o post.


Querido diário,

ontem foi Halloween aqui nos Estados Unidos. Nunca curti muito a data, non creo en las brujas (pero que las hay, las hay) e achava essa coisa toda meio estranha, porque carnaval era tão mais interessante em termos de fantasia, e logo depois vinha finados, que no Brasil é uma data tristonha, melancólica, então achava a coisa meio fora do eixo, meio desesperada. Mas eu não estou mais no Brasil, né, Di? Tô aqui, no Tio Sam halloweenesco, cheia dos frios e dos R retroflexos para tentar me comunicar, cheia do espírito de imigrante-vamos-nos-integrar-à-comunidade, essas coisas todas. E cheia dos hormônios de amamentação também. Porque, né, a ocitocina ajuda. O quê, Di? Não entendeu a conexão entre ocitocina e Halloween? Pô, Di, eu comprei um raio de uma fantasia de raposa para o Arthur! RAPOSA! Laranjinha, com rabo e enchimento na barriga! E Arthur, que já é a coisa mais fofa e deliciosa do universo todinho, ficou dolorosamente divino! Tudo bem que ele não curtiu muito o capuz que fazia a cara da raposa, mas durante o passeio, incomodado pelo frio e pela chuva (sim, choveu, como sempre acontece no dia dos mortos... uma tradição brasileira que talvez tenhamos importado), ele deixou ficar aquela cara de raposa, e não houve uma única pessoa que não tivesse elogiado a criatura!
Bom, mas deixa eu voltar aqui pro começo, antes de contar como foi.
Eu comprei a fantasia, espetei a criança lá dentro e, culpa da ocitocina, fiquei louca! Tirei 312 fotos (literalmente), suspirei, pirei e... broxei. Olhei para fora e a garoa fina da manhã virara chuva de verdade. Aqui, Di, o Halloween é tipo Carnaval no Brasil: tem anúncio de início e término (mas não dura uma semana; e se durasse, acho que eu infartava com tanta fofura!), e ao contrário do que mostram os filmes, não acontece de noitão. Porque é uma festa principalmente das crianças, é preciso se pensar na segurança, e a cidade onde moro decretou o horário oficial das 16 às 19h. E às 16h30, chovia canivete (ou gatos e cachorros, para gracejar com o idioma que agora speakamos). Deprimi. Mas aí comecei a ver a criançada nas ruas, todo mundo fantasiado, e pensei: "pô, primeiro Halloween do pequeno, e eu aqui no maior bode. Vou colocar isso no livrinho dele? 'Filhinho, no seu primeiro Halloween você e sua mãe ficaram dentro de casa, vendo a chuva, assistindo as crianças brincarem. Mas, ó, tirei baciada de fotos!' Eu não! Sapequei o moleque dentro do carregador de bebês (achei que seria mais prático, apesar de o carrinho ter capa de chuva), atochei o capuz de raposa, máquina de um lado, bolsa do outro, e bora enfiar a cara nessa de mergulhar na cultura. Ou melhor, bora pular de bomba nesse mergulho.
Nossa rua é bem residencial. Aliás, nossa vizinhança toda. E por isso fomos dar uma volta no quarteirão. Arthur ficou todo feliz, porque rua é com ele mesmo! E quando viu as primeiras crianças fantasiadas começou a apontar e fazer "ãhn-ãhn-ãhn", como quem diz: "caceta, mãe, olha essa cambada fantasiada! Que porra é essa?" (Porque ele é meu filho, e vai aprender logo umas palavras pesadas, não tem jeito.) Eram princesas, ladrões, roqueiros, pêras, coelhos, jilós e outras coisas que não fui capaz de identificar (o povo é criativo e crafter por aqui). E Arthur ficou embasbacado. Acompanhou-as com olhar e... logo descobriu que elas iam até as casas das pessoas. Casas essas que estavam decoradas e repleta de brinquedos (ou que pelo menos assim pareciam ser). Pronto!
Di, o menino enlouqueceu! Foi "ãhn-ãhn-ãhn" e dedinho em riste o tempo todo. E quando eu perguntava: "Meu filho, você quer entrar nesta casa?", ele sacolejava as duas cabeças (a dele e da raposa) e ficava com os olhinhos vidrados. Liguei pro marido aos prantos, tocada pela comoção que o evento causa: crianças fofas e felizes brincando nas ruas, todo poder ao povo! Ah, chorei mesmo. E fiz marido largar trabalho e vir ficar com a gente, afinal era uma festividade familiar.
O que era para ser uma voltinha no quarteirão virou uma peregrinação pela vizinhança. Vimos casas com decorações simples, casas que pareciam saídas de filmes de terror, casas com pessoas simpáticas, casas com pessoas ultra-simpáticas, casas com cachorros, com gatos, com outras crianças. Pegamos mais de trinta guloseimas (noventa porcento chocolate, uma pena!) e uma mini-tangerina com carinha de abóbora! Fiz questão de visitar minha casa favorita (aqui perto, em frente à igreja, Di. Espetáculo de casa!) e dar uma bisoiada em quem mora, como vive, o que come gente que tem casas lindas como aquela.
Era um cara de uns 40 anos, com cara de rico, roupa de rico (e três carrões na garagem), um cachorro (que pelo latido era grande), bebendo vinho e ouvindo The Doors enquanto distribuía chocolates em meio a uma bomba de fumaça (Arthur ficou fascinado). Ele nos mandou assistir este vídeo, que, segundo ele, já era viral (a filha dele, na faculdade, mandou para ele porque todo mundo estava assistindo). Bom, eu sei lá como é que a raposa faz, mas a minha raposa fazia "ãhn-ãhn-ãhn" a cada casa, e no fim da noite já estava enfiando a mãozinha gorda nas tigelas cheias de doces e enfiando um pirulito verde-euforia na boca. Claro que eu não tirei o papel. Claro que duzentas e doze pessoas vieram me avisar que o pirulito estava embrulhado.
Enfim, foi um dia muito especial, porque além de gostoso fez com que eu me sentisse parte de algo, fez com que eu conhecesse alguns vizinhos e que eu visse que crianças são crianças, e são felizes com pouco.
Agora, Di, o Halloween fez sentido para mim: encheu de esperança e renovou minhas energias para enfrentar o inverno que vem chegando impiedosamente. Mas eu, marido e minha pequena raposa enfrentamos o tempo ruim e, juntos, unidos, nos divertimos.

Beijo, Di. Volto outro dia.

Criançada aqui na rua. <3
OBS: Valeu pela dicas, Helen!

domingo, 8 de setembro de 2013

Como estamos?

Surpreendentemente com calor. Muito calor.
Estamos também, finalmente, no apartamento definitivo. Digo, definitivo por um ano, pelo menos. Ainda sem muitos móveis, mas já com colchão de verdade!
Também já estamos nos acostumando ao inglês e a algumas particularidades norte-americanas.
Ainda peno no supermercado, com um bebê cheio de energia e andarilho e muitas coisas (marcas, produtos e necessidades) que ainda não conheço. Ainda sofro para entender pessoas que falam rápido, ou usam gírias, ou têm dicção ruim. Ainda me perco nas ruas.
Estamos sem grana, diria que completamente falidos. E aqui, vejam que coisa, estamos abaixo da linha da pobreza.
Eu estou com frilas até as orelhas, sem tempo para nada, já que preciso limpar uma casa imunda (os antigos moradores não eram chegados num trato, ao que tudo indica), cuidar de um bebê cheio de energia e vontades (tá fácil, não!), frilar e terminar de me adaptar.
Estamos, porém, caminhando aos poucos. Bem aos poucos.

E vocês, como estão? Tem gente quase parindo, tem gente com filhas quase adolescente, tem gente que me deixou com o coração apertado e mandando todos os pensamentos de amor, tem gente que está na luta, gente que engravidou de novo, gente que sumiu, gente que chegou e agora mora no meu coração, gente que voltou a trabalhar, gente que faz falta na vida offline...
Mas tem mais gente que me visita e que eu visito também. O que mais vocês me contam?

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

Trem bao, so!

Sem acento. Nao me julguem, me interpretem.

Arthur esta numa fase em que ama trens, caminhoes, onibus, passarinhos, coelhinhos, esquilinhos e cachorros. Fica louco e se sacode todo ao ver qualquer uma dessas coisas.
Ponto.
Nos nos mudamos. Nossa casa tem um colchao inflavel coletivo (ou seja, familia toda nele) e fica de frente para uma estacao de trem. De frente mesmo: ouvimos os anuncios de portas se fechando e damos tchauzinho para os passageiros (e eles nos veem!).
Arthur acha que esta no paraiso, com um pula-pula e trens de dez em dez minutos.
Teremos uma longa estada.

domingo, 28 de julho de 2013

A viagem

O que é caos para você?
Para mim, a concepção de caos foi refeita após nossa viagem de mudança, e nada parecerá tão ruim que possa ser comparado a ela: a viagem.

O dia amanheceu simples e lindo: Arthur acordando cedíssimo, eu e marido tomando café da manhã e nos arrumando para sairmos, céu azul e passarinhos gorjeando. Ó, vida linda, ó, vida boa!
Fomos ao pediatra e não era catapora (só mosquito mesmo). Saímos do pediatra e não havia trânsito. Chegamos em casa e havia pouco mais que arrumar: umas roupinhas aqui, umas latinhas de leite condensado acolá, risos, alegria, leveza e fantasia. Consegui até cochilar de tarde, vejam vocês! Não havia pistas.
Às quatro da tarde tudo estava quase pronto e começamos a nos arrumar para partir.
Malas nos carros, todos vestidos e despedidos, passaportes, documentos, passagens.
Apesar do engarrafamento quilométrico, a vida era bela. Arthur, jururu no carro, brigava contra o tédio de um acelera-freia-não-passa-da-primeira de quase uma hora.
Chegamos, enfim, ao aeroporto a tempo até de ver minha prima, que embarcava no mesmo dia para outro destino. Tudo perfeito e agradável.
Tola eu, acreditei que nosso começo seria com o pé direito, e que este post viria deliciosamente recheado de histórias invejáveis.
Rá!
Já no embarque as coisas começaram a ficar estranhas. Minha restrição por conta da APLV gerou um estresse, porque eu levei minha própria comida para o avião (já que não havia meios de se garantir que a comida oferecida seria isenta de leite e/ou derivados) e ninguém sabia responder se eu de fato poderia embarcar com ela. Fui orientada a solicitar comida Kosher, que não pode misturar leite e derivados com carne, mas não havia um rabino para benzer a refeição, então ela não poderia ser servida. Como eu já estava no erro, comendo comida sagrada sem seguir a religião, achei melhor respeitar a não benção como um empecilho sério.
Assim, fomos comer alguma coisinha ainda no aeroporto (no meu caso, para garantir).
Chegando à praça de alimentação, achei melhor garantir mesmo: pela quantidade de gente ali, era o holocausto nuclear! Tinha gente de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, e não foi fácil abrir espaço para nos sentarmos e comermos. Dividimos a mesa com um recifense indo para Brasília e aproveitamos para conversar (já que tinha gente para correr atrás do Arthur, que se esgueirava por entre pernas, mesas e cadeiras, numa destra demonstração de suas habilidades andarilhas).
Chegou a hora de embarcar e houve muito choro e ranger de dentes, aquela coisa da família se despedindo, como se eu fosse morar em Marte e só com bilhete de ida!
Embarcamos (inclusive com a comida congelada!).
No começo, só alegria: Arthur explorando as novidades da cadeira (que se resumiam àqueles botõezinhos de controlar rádios e volumes, porque o avião era tão velho que nem tela individual tinha: era aquela coletivona mesmo), do bolso (saco de vômito, cartilha para o caso de queda da aeronave, essas coisas positivas e que trazem boas perspectivas que eles colocam à nossa disposição, não é mesmo, minha gente?!) e dos passageiros (mandando bye-bye para todos os gringos a bordo. Ê beleza!).
Mas eram quase 21h. E Arthur costuma dormir entre 19 e 20h. Visualizem, portanto, o tamanho do sono que se avultava no horizonte: dois dias de empacotar coisas, com duas avós querendo tirar o atraso de mais de um ano (papo para outra postagem, gente), um dia com sonecas irregulares, hora habitual do soninho já vencida, ambiente novo, pais ansiosos e animados...
Pois ele veio com tudo, e Arthur se atracou no peito, como se não houvesse amanhã, e CAPOTOU.
Que ótimo! Tudo com que sonhei!
Fiquei aconchegadinha a ele, namorando meu bebê, curtindo a viagem (tá bom, tá bom: com um medo do cacete do voo. É, eu tenho medo de voar, mas confesso que ele melhorou bastante depois do parto. Coisas que só Freud explica.), feliz da vida.
Serviram a refeição e eu, claro, não podia nada. Mas nada iria acabar com meu bom humor e euforia. Conversei com o aeromoço, expliquei e ele anunciou: Claro que podemos preparar sua refeição, mas não temos micro-ondas na aeronave, então só se for uma comida congelada que pode ir no forno normal.
TAQUIOPA! Não basta você ter que achar uma comida INDUSTRIALIZADA congelada, é preciso que ela possa ser esquentada em forno convencional! É claro que não era. Eu, no supermercado, estava muito ocupada, escolhendo a cachaça que iria levar e catando paçoquinha para malocar na bagagem. Nunca que ia passar pela minha cabeça que, obviamente, não tinha micro-ondas no avião. O rapaz, então, apiedando-se da minha situação, até tentou descolar um recipiente onde eu pudesse descongelar a sopa (tudo isso por uma sopa!!!), mas não se esforçou muito, é verdade: prometeu encontrar um recipiente para descongelar a comida, mas nunca mais passou na minha poltrona oferecendo-se para ajudar. Com isso, a sopa ficou na bolsa térmica a viagem toda. E eu, bem, eu fiquei com fome mesmo.
Enquanto isso, em paralelo ao drama da comida, houve o drama do avião.
Lembram que pequeno capotou logo no começo, e que tudo era amor e ternura e alegria e entusiasmo? Vocês também se lembram que na minha vida nada é simples e calmo? Tudo vem cheio de aventuras e confusões?
Bom, primeiro de tudo, o voo foi terrível. Além de o avião ser velho e pequeno, além de eu ter viajado de classe econômica, além de eu não ter comido, ainda por cima pegamos MUITA turbulência. Eu sei que acabei de falar que meu medo de avião foi drasticamente reduzido depois do parto, mas também não tenho sangue de barata, né? Ninguém passa, de um dia para o outro, de uma pessoa que treme e sua frio o voo inteiro para uma pessoa que dorme enquanto o avião chacoalha e cai em vácuos. Então, eu, apesar de ter me mantido bem calma durante a maior parte do voo, foi chato e cansativo ficar sobressaltada durante muitos minutos (quiçá horas, se somarmos todo o tempo).
Mas, o que realmente nos quebrou não foi essa desgraceira que acabei de contar. Não. O que nos quebrou de verdade foi Arthur não conseguindo mais dormir depois da primeira hora de voo!
Se até a primeira hora tudo estava indo muito bem, apesar da turbulência, da falta de comida e do desconforto, as outras 13 horas (que se transformaram em 16) de viagem foram tenebrosas! Arthur não conseguia dormir no meu colo, nem no colo do marido, nem no colo da madrinha (que viajou com a gente!). Não conseguia dormir na poltrona, nem no sling. Cogitei colocar o moleque no chão, mas bom senso mandou lembranças e desisti da maluquice. O resultado disso foi um bebê irritado, cansado e estressado, pais e madrinha exaustos, insones e moídos. Tentamos nos revesar, e eu até consegui dormir umas três ou quatro horinhas, se juntarmos todas as cochiladas que dei (o que não difere muito das horas que durmo numa cama, mas que, por terem sido passadas em uma cadeira apertada, que reclina dois graus apenas, me deixaram arrasada e repleta de dores e incômodos). Marido, coitado, ficou hoooras com Arthur no colo, no corredor do avião, dormindo em pé, praticamente. A madrinha do pequeno, coitada, dormiu sentada na cadeira, espremida, nas acrobacias que tentávamos para conseguir fazer Arthur dormir.
Para completar essa viagem infernal (o que me fez suspeitar ainda mais que estávamos a beira do fim do mundo, como eu previra no aeroporto), um senhor passou mal durante o voo (e as televisões solicitaram que passageiros médicos se voluntariassem para atendê-lo) e precisou de cuidados e oxigênio, causando comoção geral, e, ao chegarmos em Dallas, onde faríamos a conexão, devido ao tráfego do Galeão e à toda burocracia de embarque e desembarque nos EUA, nos atrasamos e perdemos a conexão. O próximo voo (que seria às 9h) também atrasou horrores, e acabamos esperando dentro do avião por quase duas horas. Assim, quando finalmente chegamos a Chicago, éramos três adultos e um bebê exaustos, famintos, doídos e irritadiços.

Se eu havia suspeitado que se mudar de país era parecido com parir, agora eu tenho certeza!
Só espero imensamente que o pós-mudança, assim como o pós-parto, seja cada vez melhor. E que não tenhamos baby blues.

sábado, 4 de maio de 2013

O agente duplo

Arthur leva uma vida dupla.
Durante a semana, na creche, é um menino que não dorme (há dias em que ele cochila por 10 minutos, mas geralmente ele não dorme mesmo, literalmente), que não mama (há cerca de um mês vem recusando o leitinho que oferecem a ele na mamadeira) e que come com sofreguidão e grande prazer as frutinhas e sopinhas do cardápio.
Porém, durante os fins de semana, ele mama horrores em livre demanda, tira deliciosos cochilos de três ou quatro horas ininterruptas e, cereja do sundae, não come direito, dando uma ou duas colheradas nas sopinhas e três ou quatro dentadas nas frutinhas.
Eu, a Interpol, fico preocupada, pois meu agente duplo acaba exausto durante a semana, e morro de medo de estar comendo/mamando menos do que deveria. Sei que em breve ele sairá da creche, ficará 24h comigo e, portanto, teremos resolvido o problema do leitinho e das sonecas, mas como funcionará a questão dos alimentos sólidos?
Espero que meu pequeno conspirador esteja tramando uma adaptação às muitas mudanças que tivemos ultimamente, e que faça parte dos seus planos escusos crescer saudável e feliz, para aliviar o coração da mamãe aqui.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A vida dá voltas (e nós também vamos passear)

Engraçado como as coisas acontecem nessa vida, né?
Eu sempre disse que queria ser mãe antes dos 30, mas, conforme a famosa idade vinha se aproximando, mais eu pensava que lá se ia mais uma meta, mais um sonho pelo ralo. Assim, decidi focar em outra coisa enquanto tentava engravidar. Daí, em 2011 eu escrevi que talvez tivesse novidades, mas que não seria um bebê. Que ironia! Porque no mesmo ano eu vim aqui contar que estava grávida, gravidíssima, mas nada da outra novidade, né? Ninguém notou porque o que é uma novidade em potencial diante de uma gravidez "cinética", em pleno curso rumo ao Big Bang do parto? Nada! Então ninguém se lembrou, nem perguntou e eu quis deixar a novidade em potencial queitinha, sendo alimentada das matérias mais preciosas que existem no mundo: amor, sonho e planejamento.
Então, em 2013, dois anos e um bebê depois, venho aqui contar a novidade que plantamos (eu e marido) com tanto carinho na época em que éramos apenas dois: vamos nos mudar!
Não compramos a sonhada casa própria, mas demos uma guinada profissional em nossas vidas e as malas para Chicago estão quase prontas!
Estamos ansiosos, cansados (se mudar já é o caos, para outro país e com um bebê a tiracolo é ainda mais insano!) e animados. Cada dia que passa o frio na barriga aumenta - e é bom nos acostumarmos com frio, já que Chicago não é Rio de Janeiro, e adeus aos verões escaldantes seguidos de invernos amenos: agora é pauleira de neve, vento e temperaturas negativas! Que tudo dê certo! - e, é claro, as saudades também.
Deixaremos 30 anos de vida para trás: trinta anos de amizades, trinta anos de lugares especiais, histórias, cantinhos e casas. Trinta anos de pessoas, ruas, paisagens e pores do sol. Mas, em compensação, teremos pela frente um país novinho, cheio de novas pessoas para conhecermos e nos tornarmos amigas, repleto de paisagens e lugares que, aos poucos, serão nossos também. E o melhor e mais importante de tudo: Arthur crescerá bilíngue, um desejo meu que se realiza!
Assim, aviso que no começo teremos muitas novidades e pouco tempo, mas prometo que venho aqui contar como andam as coisas e nossas vidas. Afinal, este meu cantinho selvagem é universal e me acompanha onde quer que eu vá.
Torçam por nós!