Quase todas as pessoas para quem eu conto que estou passando um tempo na Bélgica comentam comigos coisas do tipo "nossa, quem me dera!" ou "ah, que máximo!" ou "um sonho! uma maravilha!". E emendam com um "aproveite!".
Não chega a me irritar, mas acho curioso como as pessoas têm uma ideia completamente equivocada do que significa, na vida real, morar fora, sobretudo em um lugar temporário.
Se eu tivesse grana, a história toda seria diferente, porque eu poderia viajar e passear e curtir a ideia de "morar na Europa" que as pessoas têm. Mas como não tenho grana e a pouca que tenho está comprometida com coisas supérfluas, tipo pagar um teto e comer, então morar fora significa mesmo é passar perrengue em outras línguas e com as quatro estações do ano bem marcadas.
Também não estou reclamando. Nem posso. Mesmo com os perrengues é uma coisa incrível estar aqui, ver e viver coisas que eu nunca veria ou viveria no Brasil (para o bem e para o mal), perceber que estou começando a pescar uma ou outra palavra em holandês (palavras escritas, que fique bem claro, porque para as faladas eu precisaria de mais uns cinco anos aqui), comer chocolate bom todos os dias e beber cerveja famosa pagando bem menos.
Acho que estou desabafando, aqui, no meu cantinho, porque quando as pessoas me respondem, com os olhinhos brilhando, noooooooossa, que beleza morar na Bélgica, eu não posso e nem quero falar que é muito chato e deprimente ficar em um lugar onde só chove, ou que me sinto frustrada por ver meu filho sem conseguir se comunicar com as outras crianças porque as línguas não são compatíveis, ou que tem dias que me cansa pedalar e trepidar nos paralelepípedos das ruas centenárias da cidade só para ir até o centro ver gente e não deprimir, ou que a rotina avança nos dias mesmo falando holandês, ou que cuidar do pequeno 24h por dia não me deixa espaço (interno) para organizar outras coisas da minha vida, ou que estar com as malas já lotadas e não poder comprar materiais e brinquedos para distrair uma criança que não consegue brincar com outras crianças e que passa muitos dias enfiada dentro de casa porque lá fora está chovendo e fazendo 5 graus é mais do que frustrante, é exasperante!
Às vezes sinto como se eu subaproveitasse a oportunidade, mas não vejo muitas soluções, sinceramente. Ao menos, não vejo soluções que caibam no meu orçamento ou na gincana na qual parece que entramos em 2011 e da qual nunca saímos. Viajar não é uma possibilidade. Passear, comer fora, conhecer restaurantes e museus, tudo isso custa dinheiro (euros, não se esqueçam) e não é exatamente recebido com gritinhos de alegria pelo meu bólido.
Estar aqui é ótimo, mas muitas vezes se parece com estar em qualquer outro lugar do mundo. Sou grata pela oportunidade, mas não é raro que eu precise dar um sorriso amarelo ou uma resposta educada para as pessoas que vibram com a minha estada aqui, como se morar na Bélgica de repente sanasse todos os problemas do mundo e solucionasse boa parte das angústias medíocres que vivo. Estar aqui não é passear aqui, não é estar de férias aqui, não é apreciar tudo o que a Bélgica tem de melhor a nos oferecer. Estar aqui é ser estrangeira, e continuar sem grana, e ter rotina (sobretudo com e por causa do pequeno), e fazer supermercado com meia dúzia de frutas disponíveis, e lavar roupa (na máquina dentro de casa. LUXO!), cozinhar (blergh!), lavar privada, varrer chão, arrumar entretenimento, arrumar tempo para não deixar a peteca cair, se lembrar de que acabou o guardanapo e o café, é saber que em poucos dias estaremos empacotando tudo de novo, entrando num avião de novo, indo de novo para mais uma temporada temporária em outro país.
Estar aqui é fazer o estar aqui fazer sentido, enquanto estamos aqui. Faz sentido nossos passeios bestas para não pirar, faz sentido nossas tradições recém-inventadas, faz sentido abrirmos as exceções que abrimos e mantermos o que mantivemos. Estar aqui é, de verdade, estar aqui. A cada segundo. Sem espaço para idealizações. E isso é legal na mesma medida que é difícil. Estar.
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segunda-feira, 7 de novembro de 2016
segunda-feira, 25 de julho de 2016
Vivendo na base do monkey payment
Toda vez que eu recebo um convite para socializar com os locais já sei: vai rolar pagação de mico. Ou melhor, vou realizar um lindo monkey payment.
E minha vida é assim, monkey payment atrás de monkey payment.
Começou logo numa das primeiras festas, sendo apresentada a um colega de trabalho do marido com grande prestígio e reputação. Arthur, na época, tinha um ano de pura corrida desequilibrada e a festa era em um salão com um lindo terraço de concreto. Arthur para lá, para cá, quase se esborrachando no concreto, ainda sem plano de saúde para cobrir os remendos que fatalmente seriam necessários em caso de queda. Nisso, marido resolve me apresentar ao figurão do trabalho, e emenda (em inglês, of course): ele é da Holanda. Eu, um olho no gato e outro na missa, tentando ser multitarefa em duas línguas, duas realidades, com duas pessoas, em duas velocidades (moço importante parado, me olhando; Arthur correndo e cambaleando), não entendi Netherlands. Fiquei só com o fim da palavra e concluí que era London. E lasquei um "Eu amo Londres" para o moço de Amsterdã.
Foi aquele climão, sabe?
Eu nem me liguei porque quando entendi o que tinha acontecido já estava do outro lado do terraço, com Arthur catando do chão um bolinho amassado.
Rio até hoje disso e faço questão de contar para as pessoas, afinal, quem não ri de si mesmo não é feliz.
Pois bem, as demais interações sociais com locais e em língua em inglesa, confesso, não melhoraram tanto assim de lá para cá. Estou sempre parcialmente na conversa, seja porque me perdi naquela expressão idiomática que desconheço, ou porque achei super interessante a maneira como a pessoa pronunciou uma palavra que eu só conhecia escrita, ou ainda porque Arthur está tentando escalar um muro ou lambe o vidro da janela com gosto.
Por isso, quando recebemos o último convite, já coloquei na bolsa o cheque com o qual pagaria o mico da vez.
Tudo corria bem. Fiz piada engraçada, ri na hora certa, acompanhei até fofoca! A dona da festa falava na velocidade 5 da dança do créu, mas eu ia no ritmo, acompanhando bonito, toda orgulhosa.
=)
Até que... (sempre tem, né?) bateu aquela vontadinha de fazer xixi. Fui ao lavabo da casa, que àquela altura da festa se encontrava bezuntado de sorvete de chocolate derretido e cobertura de marshmallow do bolo recém-cortado. Preocupada em não babar a camisa querida que escolhi usar, fui fechando a porta cuidando tentando não esbarrar nos restos de comida espalhados por ali, na pia, na parede, até mesmo na tábua do vaso. Fechei a porta e procurei, então, a tranca. Não havia. Hum, pensei, melhor fazer um xixizinho bem rápido que é para ninguém abrir a porta e me pegar em flagrante. E assim fiz.
Tudo certo, até agora uma festa mico free.
Até que... (sempre, sempre, sempre!) olha, que curioso! A porta não tem tranca, mas fecha bem fechada! Vou girar a maçaneta e puxar que ela vai se abrir com um clique e... não. Não abriu. Vou tentar o outro lado, sentido horário agora. Nada. Oquéi. Vou puxar apenas. Nem um milímetro.
Por obra do acaso, entrei com o celular no banheiro! E não titubiei em ligar para o marido, que atendeu descrente e um tanto amedrontado.
- Alô?
- Marido, tô aqui no banheiro. Presa. Me ajuda?
- Claro, peraí.
A maçaneta gira em falso também pelo lado de fora.
Ligo novamente, já que o barulho da festa não o deixa me escutar através da porta:
- Marido, empurra a porta, para ver se ela abre!
CREK!
- Ártemis, vai quebrar a porta!
- Deixa. Melhor avisar ao dono da festa. Eu posso sair pela janela, mas não quero deixar o banheiro trancado, né?
- Tá. Pera.
Marido foi, mobilizou: dono da festa, dona da festa, mãe da dona da festa, uns três convidados adultos e dois convidados infantis curiosos com aquele aglomerado de gente grande em torno de uma porta.
Eis, então, que resolvi puxar a porta, uma última vez, vai que...
POC
A porta se abriu e me senti, de repente, no programa Silvio Santos, abrindo a porta da esperança e dando de cara com ela bem cheia: todo mundo ali, resgatando a brasileira presa no banheiro que não tem tranca. Senti o alívio dos anfitriões por não precisarem chamar alguém para desmontar a porta. Senti o alívio do convidado que aguardava, pacientemente, que eu saísse para usar o banheiro. Mas, acima de tudo, senti uma vontade quase incontrolável de gritar para o marido "Eu amo Londres!".
Mas resisti bravamente, sorri, acenei, agradeci e assinei o cheque.
Monkey payment do evento: ✓
E minha vida é assim, monkey payment atrás de monkey payment.
Começou logo numa das primeiras festas, sendo apresentada a um colega de trabalho do marido com grande prestígio e reputação. Arthur, na época, tinha um ano de pura corrida desequilibrada e a festa era em um salão com um lindo terraço de concreto. Arthur para lá, para cá, quase se esborrachando no concreto, ainda sem plano de saúde para cobrir os remendos que fatalmente seriam necessários em caso de queda. Nisso, marido resolve me apresentar ao figurão do trabalho, e emenda (em inglês, of course): ele é da Holanda. Eu, um olho no gato e outro na missa, tentando ser multitarefa em duas línguas, duas realidades, com duas pessoas, em duas velocidades (moço importante parado, me olhando; Arthur correndo e cambaleando), não entendi Netherlands. Fiquei só com o fim da palavra e concluí que era London. E lasquei um "Eu amo Londres" para o moço de Amsterdã.
Foi aquele climão, sabe?
Eu nem me liguei porque quando entendi o que tinha acontecido já estava do outro lado do terraço, com Arthur catando do chão um bolinho amassado.
Rio até hoje disso e faço questão de contar para as pessoas, afinal, quem não ri de si mesmo não é feliz.
Pois bem, as demais interações sociais com locais e em língua em inglesa, confesso, não melhoraram tanto assim de lá para cá. Estou sempre parcialmente na conversa, seja porque me perdi naquela expressão idiomática que desconheço, ou porque achei super interessante a maneira como a pessoa pronunciou uma palavra que eu só conhecia escrita, ou ainda porque Arthur está tentando escalar um muro ou lambe o vidro da janela com gosto.
Por isso, quando recebemos o último convite, já coloquei na bolsa o cheque com o qual pagaria o mico da vez.
Tudo corria bem. Fiz piada engraçada, ri na hora certa, acompanhei até fofoca! A dona da festa falava na velocidade 5 da dança do créu, mas eu ia no ritmo, acompanhando bonito, toda orgulhosa.
=)
Até que... (sempre tem, né?) bateu aquela vontadinha de fazer xixi. Fui ao lavabo da casa, que àquela altura da festa se encontrava bezuntado de sorvete de chocolate derretido e cobertura de marshmallow do bolo recém-cortado. Preocupada em não babar a camisa querida que escolhi usar, fui fechando a porta cuidando tentando não esbarrar nos restos de comida espalhados por ali, na pia, na parede, até mesmo na tábua do vaso. Fechei a porta e procurei, então, a tranca. Não havia. Hum, pensei, melhor fazer um xixizinho bem rápido que é para ninguém abrir a porta e me pegar em flagrante. E assim fiz.
Tudo certo, até agora uma festa mico free.
Até que... (sempre, sempre, sempre!) olha, que curioso! A porta não tem tranca, mas fecha bem fechada! Vou girar a maçaneta e puxar que ela vai se abrir com um clique e... não. Não abriu. Vou tentar o outro lado, sentido horário agora. Nada. Oquéi. Vou puxar apenas. Nem um milímetro.
Por obra do acaso, entrei com o celular no banheiro! E não titubiei em ligar para o marido, que atendeu descrente e um tanto amedrontado.
- Alô?
- Marido, tô aqui no banheiro. Presa. Me ajuda?
- Claro, peraí.
A maçaneta gira em falso também pelo lado de fora.
Ligo novamente, já que o barulho da festa não o deixa me escutar através da porta:
- Marido, empurra a porta, para ver se ela abre!
CREK!
- Ártemis, vai quebrar a porta!
- Deixa. Melhor avisar ao dono da festa. Eu posso sair pela janela, mas não quero deixar o banheiro trancado, né?
- Tá. Pera.
Marido foi, mobilizou: dono da festa, dona da festa, mãe da dona da festa, uns três convidados adultos e dois convidados infantis curiosos com aquele aglomerado de gente grande em torno de uma porta.
Eis, então, que resolvi puxar a porta, uma última vez, vai que...
POC
A porta se abriu e me senti, de repente, no programa Silvio Santos, abrindo a porta da esperança e dando de cara com ela bem cheia: todo mundo ali, resgatando a brasileira presa no banheiro que não tem tranca. Senti o alívio dos anfitriões por não precisarem chamar alguém para desmontar a porta. Senti o alívio do convidado que aguardava, pacientemente, que eu saísse para usar o banheiro. Mas, acima de tudo, senti uma vontade quase incontrolável de gritar para o marido "Eu amo Londres!".
Mas resisti bravamente, sorri, acenei, agradeci e assinei o cheque.
Monkey payment do evento: ✓
sexta-feira, 29 de abril de 2016
10 coisas que aprendi com o clima frio
- Estática é uma merda e é onipresente. Já levei choque na perna, no braço, na mão, na orelha, na barriga, no rosto e diversas vezes na boca. Dica: antes de dar aquele beijo nx companheirx ou de beber água no bebedouro, encoste a mão (nx companheirx ou no bebedouro). Dói menos.
- Neve não é só branca. Pode ser amarela, marrom, preta, cinzenta, depende de quanto tempo está ali e o que se derramou por cima. E neve brilha sob o sol como se fosse glitter.
- Frio queima e cachecóis não servem só para cobrir o pescoço, mas também para serem enrolados no rosto nos dias de frio intenso.
- Sair de casa considerando apenas o aspecto fashionista da roupa é um luxo.
- Luvas não funcionam e as pontas dos dedos vão sempre beirar a necrose por congelamento quando os termômetros marcarem abaixo de -10C.
- Orelhas doem se você sair sem chapéu quando a temperatura está negativa.
- Crianças não sentem frio. Crianças de Chicago consideram 5C uma temperatura digna de CAMISETA DE MANGA CURTA e calça de moletom.
- Capuzes existem por um (bom) motivo. No Brasil e em outros lugares tropicais, eles são apenas enfeite. Mas aqui, cumprem uma função muito importante: manter sua nuca e sua cabeça protegidas do vento.
- A escala de frio funciona assim: de 10 a 5C está fresco e você vai suar com o casaco; de 5 a 0C está agradável; de 0 a -5C é tolerável com as roupas e os acessórios certos; de -5 a -10C está frio, mas se não ventar dá para levar; de -10 a -20C está desagradável e luvas não servem para muita coisa; abaixo de -20C tem um pinguim de cachecol, gorro e casaco atravessando a rua.
- Não importa o que você use ou faça: suas pernas (e outras partes ao sul do equador) ficarão geladas.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Língua
Olha, sem favor (e sem modéstia), duas coisas estão de parabéns: meu inglês e a burocracia estadunidense.
Que mês, minha gente!
Existem alguns processos administrativos (normais) abertos por mim. E quando eu me lembro que reclamava da burocracia brasileira, agora eu coloco em perspectiva e vejo que é um luxo discutir sobre os meandros oficiais e oficiosos que um processo pode trilhar na língua pátria. É um luxo soletrar o nome sem pensar em cada letra (por que as vogais aqui têm nomes tão diferentes?). É puro glamour discutir sem tentar se lembrar da ordem dos adjetivos ou adjuntos adnominais em uma simples frase.
Se eu fosse dona de cursinho de inglês no Brasil, faria as provas assim: por telefone, com atendentes falando bem rápido e em termos técnicos do outro lado, e você precisando anotar números e códigos enquanto conta ao interlocutor coisas bastante complexas, como o resumo do seu caso em aberto.
Números são um mistério. Uma vez uma linguista me disse que dá para ter uma boa pista da língua dominante de um falante ao pedir para ele fazer uma conta: ele vai pensar nos números na língua com a qual se sente mais confortável. Tem gente, é verdade, que não se sente confortável com números em língua nenhuma, mas ainda assim vai contar e somar ou subtrair aos trancos e barrancos da língua dominante.
Dei sorte até agora, porque as pessoas que me atenderam foram solíticas, pacientes e simpáticas. Até uma bênção eu recebi ao fim de um dos inúmeros telefonemas. Mas já lidei com atendentes modorrentos que tudo o que mais queriam era, aparentemente, fazer coro com o Trump e me mandar de volta (de preferência de bote) para meu país de origem.
Todas as vezes que passo por situações difíceis ou desafiadoras por ser imigrante, penso automaticamente em duas coisas: 1) como as pessoas que estão ilegais em países diferentes do que nasceram devem sofrer e ficar realmente à margem; 2) como as pessoas fantasiam a respeito da vida que levo aqui nos EUA.
Tem coisa boa? Claro que tem! Tem coisa linda? Óbvio que sim! Vale à pena? Bom, por enquanto está valendo e, como diria Pessoa, "tudo vale à pena quando a alma não é pequena". A alma é grande, mas a paciência e a perseverança também precisam ser imensas. Frustração é meu nome do meio, quando tento ser a mesma pessoa que sou no Brasil e não consigo. Costumo brincar que sou muito mais inteligente em português, mas é verdade: as limitações da linguagem ainda são um empecilho (será que um dia deixarão de ser? Não sei. Minha avó é imigrante, está no Brasil há mais de 40 anos, e até hoje a linguagem impõe sua cancela em certas situações). Cansaço é meu nome quando, depois de pensar em português por questões profissionais, preciso rapidamente mudar o código e me comunicar em inglês. Dá preguiça de sair de casa, dá medo de falar no guichê, dá nervoso repetir, repetir, repetir e saber que não, a pessoa do outro lado não entendeu o sotaque. E, é evidente, as dificuldades não param por aí. A língua é só a primeira de uma série de barreiras alfandegárias de uma aduana perene. A língua é o passaporte arregaçado na primeira frase, embora às vezes errem um pouco a geografia e me localizem no leste europeu. A língua é a mais óbvia e mais eficaz ferramenta de separação entre mim e eles. Entre mim e tantas coisas. Entre uma vida confortável e uma vida desafiadora.
Poderia eu dizer que só os bilíngues são felizes, mas eu tenho alma, e das grandes, então prefiro dizer que são felizes aqueles que, apesar da língua, vão contar a história. A história de se estar deslocada, em deslocamento, fora do eixo da acomodação.
Espero que um dia essa seja a minha história.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Chegamos!
A biblioteca pública daqui é ótima. Especialmente durante o inverno, quando as opções de lazer passar a ficar mais restritas devido ao clima. É, portanto, um dos nossos passeios favoritos e vamos lá pelo menos duas vezes na semana.
Ontem fomos.
Logo na entrada eu ouvi uma moça falar "Ali na máquina, filha", em português. Era a minha xará, brasileira, que conheci lá mesmo, na biblioteca. Uma fofa. As filhas (são duas) também. Conversamos um pouco, mas Arthur quis brincar de alguma coisa. Ele mesmo, sozinho, deu boa tarde aos bibliotecários que estavam ali, explicou o que queria e escolheu o brinquedo. Aqui, a gente "aluga" uns jogos e brinquedos para usar dentro da biblioteca. Conversei um pouco com os funcionários, todos muito simpáticos, e perguntamos uns aos outros sobre coisas do dia a dia: "melhorou da gripe?" ou "e esse frio?!" ou "planos para o fim de semana?". Conversas comezinhas. Nada especial. Mas Arthur quis ir logo jogar o jogo que escolheu.
Era Monopólio. A gente joga free style, porque ele é muito novo para aquele tanto de regra. Isso significa que a gente escolhe os bonequinhos, roda o dado e fica andando no tabuleiro, pega o quanto quiser de dinheiro (que escolhemos pela cor, não pelo valor), coloca casinhas quando e onde quer, vaipara a cadeira a cada rodada (Arthur acha muito engraçado, embora não entenda por que tem uma cadeia se é um jogo de casinha. "Mamãe, mas quem é o ladrão? O que ele fez?", pergunta ele todas as vezes). Basicamente, a gente faz o que quer, quando quer.
Então estávamos no meio do jogo quando chegaram Finn e Colin. O Finn tem pouco mais de um ano e é filho do Colin, marido de uma colega de trabalho do marido. São ótimos, os três, e papeamos um pouco, marcamos um play date para os meninos e logo o pequeno Finn ficou com fome, fazendo gestos (ele usa a linguagem de sinais para bebês para se comunicar. Um fofo!), e eles se foram.
Guardamos o jogo e quando nos levantamos para devolvê-lo à mesa dos bibliotecários, onde ele fica, encontramos no caminho nosso ex-vizinho. Antes de se mudar para cá aquele meu vizinho que morreu, vivia uma família aqui embaixo. O menino é bem mais velho que Arthur, deve ter uns 8 anos, então eles não interagem muito. Mas os pais são muito simpáticos e o ex-vizinho veio perguntar do zica e conversamos longamente sobre zica, dengue e malária.
Arthur, entediado, saiu correndo e eu fui atrás, pedindo desculpas, toda enrolada.
Encontrei meu filhote sentado em um dos computadores. A seu lado, Vidhya, uma amiguinha fofa da sala dele. Eles ficaram quietinhos, interagindo com um joguinho de palavras/histórias que ela estava vendo/brincando, e eu conversei com a babá. O irmãozinho da Vidhya é um bebê redondo e sorridente e foi bem difícil me concentrar na conversa com aquele ser todo simpático para cima de mim.
Já tinha enfiado gorro, luvas e casaco no Arthur quando chegou meu próprio marido.
Então eu me dei conta de que, enfim, chegamos aqui. Chegamos na comunidade. Chegamos na nossa vida. Chegamos a um ponto em que conversamos, conhecemos e reconhecemos as pessoas, sabemos coisas sobre suas vidas e nos preocupamos com elas e elas conosco. Chegamos ao momento em que o coração se divide: amigos aqui, amigos lá. E vocês sabem, em coração dividido cabe mais amor. Então eu acho que está bom. Muito bom.
Ontem fomos.
Logo na entrada eu ouvi uma moça falar "Ali na máquina, filha", em português. Era a minha xará, brasileira, que conheci lá mesmo, na biblioteca. Uma fofa. As filhas (são duas) também. Conversamos um pouco, mas Arthur quis brincar de alguma coisa. Ele mesmo, sozinho, deu boa tarde aos bibliotecários que estavam ali, explicou o que queria e escolheu o brinquedo. Aqui, a gente "aluga" uns jogos e brinquedos para usar dentro da biblioteca. Conversei um pouco com os funcionários, todos muito simpáticos, e perguntamos uns aos outros sobre coisas do dia a dia: "melhorou da gripe?" ou "e esse frio?!" ou "planos para o fim de semana?". Conversas comezinhas. Nada especial. Mas Arthur quis ir logo jogar o jogo que escolheu.
Era Monopólio. A gente joga free style, porque ele é muito novo para aquele tanto de regra. Isso significa que a gente escolhe os bonequinhos, roda o dado e fica andando no tabuleiro, pega o quanto quiser de dinheiro (que escolhemos pela cor, não pelo valor), coloca casinhas quando e onde quer, vaipara a cadeira a cada rodada (Arthur acha muito engraçado, embora não entenda por que tem uma cadeia se é um jogo de casinha. "Mamãe, mas quem é o ladrão? O que ele fez?", pergunta ele todas as vezes). Basicamente, a gente faz o que quer, quando quer.
Então estávamos no meio do jogo quando chegaram Finn e Colin. O Finn tem pouco mais de um ano e é filho do Colin, marido de uma colega de trabalho do marido. São ótimos, os três, e papeamos um pouco, marcamos um play date para os meninos e logo o pequeno Finn ficou com fome, fazendo gestos (ele usa a linguagem de sinais para bebês para se comunicar. Um fofo!), e eles se foram.
Guardamos o jogo e quando nos levantamos para devolvê-lo à mesa dos bibliotecários, onde ele fica, encontramos no caminho nosso ex-vizinho. Antes de se mudar para cá aquele meu vizinho que morreu, vivia uma família aqui embaixo. O menino é bem mais velho que Arthur, deve ter uns 8 anos, então eles não interagem muito. Mas os pais são muito simpáticos e o ex-vizinho veio perguntar do zica e conversamos longamente sobre zica, dengue e malária.
Arthur, entediado, saiu correndo e eu fui atrás, pedindo desculpas, toda enrolada.
Encontrei meu filhote sentado em um dos computadores. A seu lado, Vidhya, uma amiguinha fofa da sala dele. Eles ficaram quietinhos, interagindo com um joguinho de palavras/histórias que ela estava vendo/brincando, e eu conversei com a babá. O irmãozinho da Vidhya é um bebê redondo e sorridente e foi bem difícil me concentrar na conversa com aquele ser todo simpático para cima de mim.
Já tinha enfiado gorro, luvas e casaco no Arthur quando chegou meu próprio marido.
Então eu me dei conta de que, enfim, chegamos aqui. Chegamos na comunidade. Chegamos na nossa vida. Chegamos a um ponto em que conversamos, conhecemos e reconhecemos as pessoas, sabemos coisas sobre suas vidas e nos preocupamos com elas e elas conosco. Chegamos ao momento em que o coração se divide: amigos aqui, amigos lá. E vocês sabem, em coração dividido cabe mais amor. Então eu acho que está bom. Muito bom.
sábado, 6 de dezembro de 2014
Aqui!
Cheguei na escolinha (Arthur está na escolinha agora) e uma das professoras estava agachada, como sempre, se despedindo dos alunos. Mas meus ouvidos tupiniquins dispararam o alarme, porque o que ela dizia não parecia nada com um "bye, see you tomorrow". Nem mesmo soava como o "tchau" que ela aprendeu a falar logo na primeira semana. Nem como o "oi", nem como o "tudo bem", todos ensinamentos do meu filho a ela.
Cheguei mais perto. Mais perto. Ela, baixinho, repetia: aqui, aqui, aqui, treinando pronúncia e entonação, repetindo o que Arthur dizia para uma coleguinha mais adiante, tentando devolver à menininha o papel que ela deixara cair no chão.
Nos despedimos com o "tchau, see you tomorrow" de todo dia e eu fui pensando pelo caminho. Não sei se filhote está aprendendo inglês na escola, mas que está ensinando o português, ah, isso ele está!
Cheguei mais perto. Mais perto. Ela, baixinho, repetia: aqui, aqui, aqui, treinando pronúncia e entonação, repetindo o que Arthur dizia para uma coleguinha mais adiante, tentando devolver à menininha o papel que ela deixara cair no chão.
Nos despedimos com o "tchau, see you tomorrow" de todo dia e eu fui pensando pelo caminho. Não sei se filhote está aprendendo inglês na escola, mas que está ensinando o português, ah, isso ele está!
terça-feira, 19 de agosto de 2014
Volver
Estou no Brasil.
É estranho.
Voltar sempre trouxe desafios. O olhar estranha prédios novos e velhas histórias, as coisas parecem fora de lugar mesmo quando são exatamente iguais, os lugares parecem sempre estáticos, o que nos faz extáticos.
Essa volta, temporária e necessária, veio bem a calhar. Veio fora de hora. Veio, enfim, assim, contraditória e confusa, me engolfando nas diferenças entre a vida que deixei e a vida que ficou.
Arthur abraçou a língua portuguesa como se fosse o último de seus afetos. Ama as palavras e repete "no, no, no" se puxo papo em inglês. Arthur desatou a língua, que, solta, conta histórias e mais histórias, protesta, diverte, comunica num tagarelar impressionante. Meu filho conjuga verbos - até os irregulares - numa prodigiosa parlação cheio de idas e vindas do passado e ao futuro.
Menino esperto, esse meu. Sabe ir e voltar, partir e regressar, trazer e levar: eu fui, farei, amo e tantos outros tempos e verbos.
E a mãe dele aqui, perplexa na estranheza de estar outra, mesmo que há mais de trinta anos eu esteja outra e outra e outra.
É estranho.
Voltar sempre trouxe desafios. O olhar estranha prédios novos e velhas histórias, as coisas parecem fora de lugar mesmo quando são exatamente iguais, os lugares parecem sempre estáticos, o que nos faz extáticos.
Essa volta, temporária e necessária, veio bem a calhar. Veio fora de hora. Veio, enfim, assim, contraditória e confusa, me engolfando nas diferenças entre a vida que deixei e a vida que ficou.
Arthur abraçou a língua portuguesa como se fosse o último de seus afetos. Ama as palavras e repete "no, no, no" se puxo papo em inglês. Arthur desatou a língua, que, solta, conta histórias e mais histórias, protesta, diverte, comunica num tagarelar impressionante. Meu filho conjuga verbos - até os irregulares - numa prodigiosa parlação cheio de idas e vindas do passado e ao futuro.
Menino esperto, esse meu. Sabe ir e voltar, partir e regressar, trazer e levar: eu fui, farei, amo e tantos outros tempos e verbos.
E a mãe dele aqui, perplexa na estranheza de estar outra, mesmo que há mais de trinta anos eu esteja outra e outra e outra.
quarta-feira, 29 de janeiro de 2014
Pequeno guia visual de lavagem de roupa
Se ir ao mercado é corrida com obstáculos, lavar roupa é pentatlo: levantamento de pesos, tiros de dez metros para buscar o guri, agachamentos e, porque estamos no inverno, também tem patinação no gelo do corredor dos fundos e, claro, patinação artística, com equilibrio de bebê, trouxas de roupas, chave, sabão e moedinhas.
Ficou curioso(a) para saber como é a aventura?
Apresentamos o primeiro guia visual do blog!
A roupa suja acumulou e você está sem coragem de enfrentar a missão? Este pequeno guia visual vai ajudá-lo(a) a ver com novos olhos essa tarefa inglória das atividades domésticas.
Comece separando o que você precisa para lavar roupa.
Por aqui, precisamos de:
Ficou curioso(a) para saber como é a aventura?
Apresentamos o primeiro guia visual do blog!
A roupa suja acumulou e você está sem coragem de enfrentar a missão? Este pequeno guia visual vai ajudá-lo(a) a ver com novos olhos essa tarefa inglória das atividades domésticas.
Comece separando o que você precisa para lavar roupa.
Por aqui, precisamos de:
- Mãe disposta;
- Bebê disposto, alimentado, trocado e descansado;
- Roupas sujas;
- Recipiente para transporte de roupas sujas e limpas;
- Roupas limpas (ou quase) para vestir - a saber: duas calças adulto, camiseta adulto, suéter adulto, casaco corta-vento adulto, meias e sapatos, luvas e protetores de orelhas + body de manga comprida, macacão flanelado ou de fleece, casaco de inverno com corta-vento, meias, botas, luvas, gorro;
- Canguru;
- Chave das áreas comuns do prédio;
- Sabão para lavar as roupas - aqui usamos um para nossas roupas, outro para as do Arthur;
- Quinze moedinhas.
Pouparei meus leitores da chatura das camadas e mais camadas de roupas, então vamos logo para a ação.
![]() |
| Chaves, moedinhas e paciência. Muita paciência e disposição. |
![]() |
| Prestes a encarar sensação térmica de -27C. |
![]() |
| Depois dos levantamentos de pesos iniciais e dos primeiros agachamentos, eis a modalidade patinação no gelo do corredor. |
![]() |
| Neve, neve, neve. E mais neve. |
![]() |
| Canguru, bebê, trouxa de roupa suja e outra trouxa carregando isso tudo. |
![]() |
| Rinque de patinação artística. |
![]() |
| Ufa! Chegamos. Agora é hora de mais agachamentos e dos tiros livres atrás do rapaz encasacado. |
![]() |
| Moedinhas, moedinhas, moedinhas. Um desafio completo, desde a sua coleção até evitar que filhote as engula. |
![]() |
| Quase uma hora mais tarde, voltamos para colocar a roupa para secar. |
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| E roupa que seca na máquina num clima seco vocês já sabem o que proporciona, né? Choques de eletricidade estática. Eu gosto de pensar que é TENS, para ajudar nas dores das costas. |
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| Tudo lavado, seco, empacotado, pronto para ser carregado em meio ao gelo e à neve. Muques de aço! |
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| Achei fanfarrão da parte do condomínio colocar esta placa. Singela homenagem à mãe que lava roupa. |
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| Já é noite quando o processo termina. Aí, começam os malabarismos na cozinha. |
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| E aí, pessoal, joinha? |
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Duende
Tem um duende aqui em casa. Ele mora em algum buraco que ainda não descobri onde fica, e no meio da noite sai para passear.
Quando eu morava com os meus pais, também tínhamos um duende, e eu, quando cheguei aqui, preferia o duende tupiniquim, que enquanto eu saía para trabalhar, arrumava a sala, lavava e estendia a roupa, fazia comida, varria a casa, lavava a louça. E eu preferia o duende brasileiro porque o daqui faz justamente o contrário!
E, por culpa desse maroto, embora eu seja agora uma dona de casa, as coisas não andam arrumadíssimas por aqui.
É que como agora eu passo muito mais tempo em casa, o tal duende, quando sai, não tem tempo de bagunçar e depois arrumar, como é da natureza desses seres.
Mas querem saber? Bagunceiro ou não, o duende já faz parte da família, e embora me deixe bem cansada, pois há momentos em que não é possível simplesmente deixar para lá a confusão de louça na pia ou a pilha de roupas por lavar, ele trouxe consigo um presente incrível: permitir que eu assista, todos os dias, o dia inteiro, meu filho descobrir o mundo e a si mesmo.
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Da chegada
Olhando de baixo, na segurança sólida do solo sob os nossos pés, nem sempre os desafios parecem ser tão intensos. A perspectiva dá uma coragem muitas vezes enganosa, quase sempre surpreendente.
"Claro que eu vou! Imagina, nem é tão alto, nem é tão difícil, tanta gente já fez isso."
A verdade é que em todas, em absolutamente todas as situações da vida, a gente nunca sabe o que realmente acontecerá até que realmente vivamos o momento. Mesmo uma grávida de milésima viagem, mesmo uma pessoa que já se mudou duzentas vezes, mesmo quem está mais do que escolado em fazer qualquer coisa na vida. A pessoa tem uma ideia do que lhe espera, mas saber, saber de verdade, não sabe.
E aí que eu não sabia. E acho que não soube até que todo o processo estivesse numa nova fase, dando por encerrada a etapa da mudança.
No Brasil, as expectativas foram até realistas, sob certo aspecto, porque repetíamos a cada passo burocrático que dávamos rumo à nova vida "vai ser difícil no começo". No entanto, a gente não fazia ideia de COMO seria difícil. Ou seja, nós sabíamos que teríamos desafios a enfrentar, alguns até já desconfiávamos que encararíamos, mas só quando vivemos o processo foi que conhecemos o rosto dos monstros contra os quais precisaríamos lutar.
Hoje, seis meses depois da mudança, sinto que finalmente vencemos a primeira etapa, a da chegada, a do estabelecimento básico. Agora, no horizonte, novos desafios, novas armadilhas, novas surpresas, alegrias, desventuras, sustos. Mas, por ora, por hoje, enfim chegamos.
"Claro que eu vou! Imagina, nem é tão alto, nem é tão difícil, tanta gente já fez isso."
A verdade é que em todas, em absolutamente todas as situações da vida, a gente nunca sabe o que realmente acontecerá até que realmente vivamos o momento. Mesmo uma grávida de milésima viagem, mesmo uma pessoa que já se mudou duzentas vezes, mesmo quem está mais do que escolado em fazer qualquer coisa na vida. A pessoa tem uma ideia do que lhe espera, mas saber, saber de verdade, não sabe.
E aí que eu não sabia. E acho que não soube até que todo o processo estivesse numa nova fase, dando por encerrada a etapa da mudança.
No Brasil, as expectativas foram até realistas, sob certo aspecto, porque repetíamos a cada passo burocrático que dávamos rumo à nova vida "vai ser difícil no começo". No entanto, a gente não fazia ideia de COMO seria difícil. Ou seja, nós sabíamos que teríamos desafios a enfrentar, alguns até já desconfiávamos que encararíamos, mas só quando vivemos o processo foi que conhecemos o rosto dos monstros contra os quais precisaríamos lutar.
Hoje, seis meses depois da mudança, sinto que finalmente vencemos a primeira etapa, a da chegada, a do estabelecimento básico. Agora, no horizonte, novos desafios, novas armadilhas, novas surpresas, alegrias, desventuras, sustos. Mas, por ora, por hoje, enfim chegamos.
quinta-feira, 7 de novembro de 2013
Primeira consulta médica
Um lado meu bem safado queria omitir a referência a Fernando Sabino e sua crônica do nariz entupido em Bruxelas. Mas meu lado honesto e certinho ocupa mais espaço. Droga! Porque o conto é sensacional e até hoje me faz rir. Daí, o que resta a mim e meus companheiros de viagem? Militar na conversa com a médica.
Querem ver?
A clínica é bonita. Novíssima. Cheguei no dia da inauguração (sorte minha, vocês já vão ver por quê). Fui resolver um pepino, mas aproveitei para solicitar uma consulta médica para o pequeno, já que desde que saímos do Brasil ele não passava por um exame. O dia estava frio, nublado, clínica recém-inaugurada, muita gente ainda pregando espelho na parede, encerando chão, aplicando revestimento na laminação da madeira, essas coisas que o destino nos dá de presente de vez em quando e que permitem que a gente receba a pergunta: "quer ser atendida hoje, agora?"
Opa! Claro!
Sentei-me, respondi um formulário gigantesco, que de tão grande, completo e complexo, não acharia estranho se perguntassem para qual time a gente torce, qual era a cor da minha calcinha ou com quantos paus se faz uma canoa. Bom, eu disse que eu me sentei para responder a esse interrogatório? Sentei-me nada! Fiquei correndo atrás do Arthur, prancheta em riste: casos de reumatismo na família? Hum, aquele tio-avó da minha prima era reumatismo ou... Arthur, desce daí! Diabetes tipo 2? Acho que sim, mas... Arthur, volta aqui, não corre para o estacionamento.
Coisa delícia, coisa simples, coisa que acontece diariamente.
Daí que essa coisa de corre-escreve-pensa-traduz-lembra-fala-para-o-moleque-descer-da-cadeira-mostra-passaporte levou uns bons quarenta minutos. E eu já estava por ali, na clínica, resolvendo a tal pendência anterior, há mais de duas horas. Então, a manhã já se encaminhava para seu fim quando terminei a avaliação prévia e fui chamada para ser atendida.
A enfermeira mediu temperatura, pesou, mediu e aumentou o aquecimento da sala, já que Arthur estava só de fraldinha, esperando a médica.
Que veio logo atrás de sua barriga: 39 semanas. Mas parecia bem, sabem? Eu fui uma grávida de 39 semanas digna de piedade, com minha falta de ar e barriga imensamente pesada. Mal me aguentava de pé. Mas a Dra. Rebecca estava graciosa em seu vestido vermelho de cintura imperial, jaqueta jeans e fita domando o cabelo cacheado. Bonita. Sem falta de ar.
Sorriu e perguntou: o que lhe traz aqui?
Assim, na lata.
Em inglês.
Por ter apenas obedecido às ordens da enfermeira que veio primeiro, e por ter passado uns cinco minutos na sala de exames tentando domar a ferinha só de fralda que tentava apertar todos os botões ali existentes, nem me lembrava mais de que teria que expor, em inglês, o que me afligia em relação a meu filho. Sem contar a anamnese feita na língua de Shakespeare! Como responder até mesmo o trivial, tipo peso? Sei lá a conversão entre quilos e libras de cabeça! Deveria ter me preparado.
Mas não me preparei. Fiquei correndo atrás do filhote de prancheta na mão, bolsa no ombro e passaporte no bolso. E, além disso, quem poderia imaginar ir resolver pendência burocrática e acabar de frente com uma médica grávida que lhe pergunta sem preâmbulos: o que lhe traz aqui?
Eu, que li o conto sabinesco trocentas vezes, me aferrei ao fato de que, na área biomédica, muitos termos são equivalentes em português e inglês porque, afinal, vêm do latim. Puxei na memória o latim tosco que tenho (cof, cof, cof!), caprichei no sotaque e fui. Até porque já estava na hora do almoço, Arthur e eu ficando com fome, e eu queria ir para casa logo.
Deixei a coisa fluir. Vacina. Peso. Altura. Angústias. Sonhos. Necessidades. Desejos. Até que me saí bem, sobretudo se considerarmos o meu nível de latim (amor, amore, amoribus).
Mas então aconteceu.
A médica, grávida de 39 semanas, perguntou se eu ainda amamentava. E se eu fazia cama compartilhada.
Sugeriu o desmame noturno. Questionei. Ela perguntou se eu estava feliz assim, acordando até 4 vezes na madrugada boladona. Sim, estou. Cansada, mas feliz. Ela disse, ok, então continue, e emendou, em algum momento da consulta, que mamar a toda hora parecia um "estilo de vida para ele" e que ele claramente me fazia de chupeta. Que faça! É assim que estamos felizes, principalmente em meio a todas as grandes mudanças por que passamos.
Veio então a cama compartilhada. Ela veio com o discurso ensaiado e eu só respondi: conheço os riscos. Ela foi bacana, não insistiu muito, apenas sugeriu graciosamente que colocássemos o colchão no chão. Já está, respondi. Está no chão porque perdemos uma trave de metal que sustenta o estrado, pensei. E nossa cama do colchão vagabundo está aqui, no chão, semi-montada, compartilhada por toda a família.
Ela também quis saber dos dentes, da alimentação, das vacinas (quis muito saber das vacinas) e do desenvolvimento. Respondi, crente que estava abafando. Até que a consulta, longa, minuciosa, já entrando tarde adentro, encaminhou-se para o fim. Arthur já dormindo atrelado ao peito, só de fraldinha (e lá fora fazendo 7 graus). Perguntou se eu tinha mais alguma dúvida. Tinha. Como explicar que tenho medo de Arthur fazer fimose? Bom, usei o método confuso de explicação, com gestos, palavras que não eram exatas para a situação, mas que funcionavam lindamente na metáfora e arrisquei: segurei na mão de Fernando Sabino e mandei o meu "limpar o esmegma". O rosto dela se iluminou: sim, sim, sim! Esmegma. Ela conhecia a palavra, entendeu toda minha encenação anterior e falou uma porção de coisas sobre o assunto. Compreendi metade, a outra metade começou a ficar confusa, perdida entre apitos e estrelinhas brilhantes e, por fim, eu compreendi. Não o que ela disse, mas que eu não estava entendendo patavinas do esmegma e da fimose porque eu estava... tchanã... desmaiando de fome.
Pausa dramática.
EU. ESTAVA. DESMAIANDO. DE. FOME.
Fazer o quê? A única coisa que me restava: olha, Dra. Rebecca, negócio é o seguinte. Quando fico muito tempo sem comer, e eu não esperava ter esta consulta, ser atendida tão rapidamente, eu desmaio. E é o que estou fazendo bem agora. Por acaso, assim, de repente, vocês teriam uma cafeteria, lanchonete ou mesmo máquina de refrigerante por aqui? Não, não tinha. Mas era meu dia de sorte, lembram? Inauguração da clínica. Havia um convescote na sala de reuniões. Bagels, batatinhas fritas, bolinhos, muffins. Um mundo de leite e manteiga para arruinar minha dieta APLV. Mas que remédio? Desmaiar a dez quadras de casa com um bebê de dezesseis meses no colo? Ganhei, feito mendiga, um bagel de alho, um muffin de mirtilo e um saco de batatinhas fritas. Arthur dormiu, tasquei no carrinho, e fui arrastando tudo: carrinho, Arthur, minha dignidade ferida e o bagel, que rolou no meio do estacionamento quando eu fui segurar a receita médica que o vento tentou levar.
Segurei a receita. Lamentei o bagel agora esmigalhado por uma roda. E li.
Phimosis.
Fimosis, minha gente!
É Fernando Sabino, mirei no esmegma, acertei na fimose, e voltei para casa com a certeza de que, na literatura, nada se perde, e muito me diverte.
sábado, 2 de novembro de 2013
Primeiro Halloween
Vocês, que me acompanham, sabem que eu não faço muito o estilo "querido diário", né? Geralmente faço um texto gaiato ou drama queen das coisas que me acontecem e vamos que vamos. Mas hoje eu vou fazer diferente. É que meu pequeno teve seu primeiro Halloween, e isso foi tão importante que merece nota.
Mas, já que vamos fazer, que façamos direito: deixem-me começar de novo o post.
Querido diário,
ontem foi Halloween aqui nos Estados Unidos. Nunca curti muito a data, non creo en las brujas (pero que las hay, las hay) e achava essa coisa toda meio estranha, porque carnaval era tão mais interessante em termos de fantasia, e logo depois vinha finados, que no Brasil é uma data tristonha, melancólica, então achava a coisa meio fora do eixo, meio desesperada. Mas eu não estou mais no Brasil, né, Di? Tô aqui, no Tio Sam halloweenesco, cheia dos frios e dos R retroflexos para tentar me comunicar, cheia do espírito de imigrante-vamos-nos-integrar-à-comunidade, essas coisas todas. E cheia dos hormônios de amamentação também. Porque, né, a ocitocina ajuda. O quê, Di? Não entendeu a conexão entre ocitocina e Halloween? Pô, Di, eu comprei um raio de uma fantasia de raposa para o Arthur! RAPOSA! Laranjinha, com rabo e enchimento na barriga! E Arthur, que já é a coisa mais fofa e deliciosa do universo todinho, ficou dolorosamente divino! Tudo bem que ele não curtiu muito o capuz que fazia a cara da raposa, mas durante o passeio, incomodado pelo frio e pela chuva (sim, choveu, como sempre acontece no dia dos mortos... uma tradição brasileira que talvez tenhamos importado), ele deixou ficar aquela cara de raposa, e não houve uma única pessoa que não tivesse elogiado a criatura!
Bom, mas deixa eu voltar aqui pro começo, antes de contar como foi.
Eu comprei a fantasia, espetei a criança lá dentro e, culpa da ocitocina, fiquei louca! Tirei 312 fotos (literalmente), suspirei, pirei e... broxei. Olhei para fora e a garoa fina da manhã virara chuva de verdade. Aqui, Di, o Halloween é tipo Carnaval no Brasil: tem anúncio de início e término (mas não dura uma semana; e se durasse, acho que eu infartava com tanta fofura!), e ao contrário do que mostram os filmes, não acontece de noitão. Porque é uma festa principalmente das crianças, é preciso se pensar na segurança, e a cidade onde moro decretou o horário oficial das 16 às 19h. E às 16h30, chovia canivete (ou gatos e cachorros, para gracejar com o idioma que agora speakamos). Deprimi. Mas aí comecei a ver a criançada nas ruas, todo mundo fantasiado, e pensei: "pô, primeiro Halloween do pequeno, e eu aqui no maior bode. Vou colocar isso no livrinho dele? 'Filhinho, no seu primeiro Halloween você e sua mãe ficaram dentro de casa, vendo a chuva, assistindo as crianças brincarem. Mas, ó, tirei baciada de fotos!' Eu não! Sapequei o moleque dentro do carregador de bebês (achei que seria mais prático, apesar de o carrinho ter capa de chuva), atochei o capuz de raposa, máquina de um lado, bolsa do outro, e bora enfiar a cara nessa de mergulhar na cultura. Ou melhor, bora pular de bomba nesse mergulho.
Nossa rua é bem residencial. Aliás, nossa vizinhança toda. E por isso fomos dar uma volta no quarteirão. Arthur ficou todo feliz, porque rua é com ele mesmo! E quando viu as primeiras crianças fantasiadas começou a apontar e fazer "ãhn-ãhn-ãhn", como quem diz: "caceta, mãe, olha essa cambada fantasiada! Que porra é essa?" (Porque ele é meu filho, e vai aprender logo umas palavras pesadas, não tem jeito.) Eram princesas, ladrões, roqueiros, pêras, coelhos, jilós e outras coisas que não fui capaz de identificar (o povo é criativo e crafter por aqui). E Arthur ficou embasbacado. Acompanhou-as com olhar e... logo descobriu que elas iam até as casas das pessoas. Casas essas que estavam decoradas e repleta de brinquedos (ou que pelo menos assim pareciam ser). Pronto!
Di, o menino enlouqueceu! Foi "ãhn-ãhn-ãhn" e dedinho em riste o tempo todo. E quando eu perguntava: "Meu filho, você quer entrar nesta casa?", ele sacolejava as duas cabeças (a dele e da raposa) e ficava com os olhinhos vidrados. Liguei pro marido aos prantos, tocada pela comoção que o evento causa: crianças fofas e felizes brincando nas ruas, todo poder ao povo! Ah, chorei mesmo. E fiz marido largar trabalho e vir ficar com a gente, afinal era uma festividade familiar.
O que era para ser uma voltinha no quarteirão virou uma peregrinação pela vizinhança. Vimos casas com decorações simples, casas que pareciam saídas de filmes de terror, casas com pessoas simpáticas, casas com pessoas ultra-simpáticas, casas com cachorros, com gatos, com outras crianças. Pegamos mais de trinta guloseimas (noventa porcento chocolate, uma pena!) e uma mini-tangerina com carinha de abóbora! Fiz questão de visitar minha casa favorita (aqui perto, em frente à igreja, Di. Espetáculo de casa!) e dar uma bisoiada em quem mora, como vive, o que come gente que tem casas lindas como aquela.
Era um cara de uns 40 anos, com cara de rico, roupa de rico (e três carrões na garagem), um cachorro (que pelo latido era grande), bebendo vinho e ouvindo The Doors enquanto distribuía chocolates em meio a uma bomba de fumaça (Arthur ficou fascinado). Ele nos mandou assistir este vídeo, que, segundo ele, já era viral (a filha dele, na faculdade, mandou para ele porque todo mundo estava assistindo). Bom, eu sei lá como é que a raposa faz, mas a minha raposa fazia "ãhn-ãhn-ãhn" a cada casa, e no fim da noite já estava enfiando a mãozinha gorda nas tigelas cheias de doces e enfiando um pirulito verde-euforia na boca. Claro que eu não tirei o papel. Claro que duzentas e doze pessoas vieram me avisar que o pirulito estava embrulhado.
Enfim, foi um dia muito especial, porque além de gostoso fez com que eu me sentisse parte de algo, fez com que eu conhecesse alguns vizinhos e que eu visse que crianças são crianças, e são felizes com pouco.
Agora, Di, o Halloween fez sentido para mim: encheu de esperança e renovou minhas energias para enfrentar o inverno que vem chegando impiedosamente. Mas eu, marido e minha pequena raposa enfrentamos o tempo ruim e, juntos, unidos, nos divertimos.
Beijo, Di. Volto outro dia.
OBS: Valeu pela dicas, Helen!
Mas, já que vamos fazer, que façamos direito: deixem-me começar de novo o post.
Querido diário,
ontem foi Halloween aqui nos Estados Unidos. Nunca curti muito a data, non creo en las brujas (pero que las hay, las hay) e achava essa coisa toda meio estranha, porque carnaval era tão mais interessante em termos de fantasia, e logo depois vinha finados, que no Brasil é uma data tristonha, melancólica, então achava a coisa meio fora do eixo, meio desesperada. Mas eu não estou mais no Brasil, né, Di? Tô aqui, no Tio Sam halloweenesco, cheia dos frios e dos R retroflexos para tentar me comunicar, cheia do espírito de imigrante-vamos-nos-integrar-à-comunidade, essas coisas todas. E cheia dos hormônios de amamentação também. Porque, né, a ocitocina ajuda. O quê, Di? Não entendeu a conexão entre ocitocina e Halloween? Pô, Di, eu comprei um raio de uma fantasia de raposa para o Arthur! RAPOSA! Laranjinha, com rabo e enchimento na barriga! E Arthur, que já é a coisa mais fofa e deliciosa do universo todinho, ficou dolorosamente divino! Tudo bem que ele não curtiu muito o capuz que fazia a cara da raposa, mas durante o passeio, incomodado pelo frio e pela chuva (sim, choveu, como sempre acontece no dia dos mortos... uma tradição brasileira que talvez tenhamos importado), ele deixou ficar aquela cara de raposa, e não houve uma única pessoa que não tivesse elogiado a criatura!
Bom, mas deixa eu voltar aqui pro começo, antes de contar como foi.
Eu comprei a fantasia, espetei a criança lá dentro e, culpa da ocitocina, fiquei louca! Tirei 312 fotos (literalmente), suspirei, pirei e... broxei. Olhei para fora e a garoa fina da manhã virara chuva de verdade. Aqui, Di, o Halloween é tipo Carnaval no Brasil: tem anúncio de início e término (mas não dura uma semana; e se durasse, acho que eu infartava com tanta fofura!), e ao contrário do que mostram os filmes, não acontece de noitão. Porque é uma festa principalmente das crianças, é preciso se pensar na segurança, e a cidade onde moro decretou o horário oficial das 16 às 19h. E às 16h30, chovia canivete (ou gatos e cachorros, para gracejar com o idioma que agora speakamos). Deprimi. Mas aí comecei a ver a criançada nas ruas, todo mundo fantasiado, e pensei: "pô, primeiro Halloween do pequeno, e eu aqui no maior bode. Vou colocar isso no livrinho dele? 'Filhinho, no seu primeiro Halloween você e sua mãe ficaram dentro de casa, vendo a chuva, assistindo as crianças brincarem. Mas, ó, tirei baciada de fotos!' Eu não! Sapequei o moleque dentro do carregador de bebês (achei que seria mais prático, apesar de o carrinho ter capa de chuva), atochei o capuz de raposa, máquina de um lado, bolsa do outro, e bora enfiar a cara nessa de mergulhar na cultura. Ou melhor, bora pular de bomba nesse mergulho.
Nossa rua é bem residencial. Aliás, nossa vizinhança toda. E por isso fomos dar uma volta no quarteirão. Arthur ficou todo feliz, porque rua é com ele mesmo! E quando viu as primeiras crianças fantasiadas começou a apontar e fazer "ãhn-ãhn-ãhn", como quem diz: "caceta, mãe, olha essa cambada fantasiada! Que porra é essa?" (Porque ele é meu filho, e vai aprender logo umas palavras pesadas, não tem jeito.) Eram princesas, ladrões, roqueiros, pêras, coelhos, jilós e outras coisas que não fui capaz de identificar (o povo é criativo e crafter por aqui). E Arthur ficou embasbacado. Acompanhou-as com olhar e... logo descobriu que elas iam até as casas das pessoas. Casas essas que estavam decoradas e repleta de brinquedos (ou que pelo menos assim pareciam ser). Pronto!
Di, o menino enlouqueceu! Foi "ãhn-ãhn-ãhn" e dedinho em riste o tempo todo. E quando eu perguntava: "Meu filho, você quer entrar nesta casa?", ele sacolejava as duas cabeças (a dele e da raposa) e ficava com os olhinhos vidrados. Liguei pro marido aos prantos, tocada pela comoção que o evento causa: crianças fofas e felizes brincando nas ruas, todo poder ao povo! Ah, chorei mesmo. E fiz marido largar trabalho e vir ficar com a gente, afinal era uma festividade familiar.
O que era para ser uma voltinha no quarteirão virou uma peregrinação pela vizinhança. Vimos casas com decorações simples, casas que pareciam saídas de filmes de terror, casas com pessoas simpáticas, casas com pessoas ultra-simpáticas, casas com cachorros, com gatos, com outras crianças. Pegamos mais de trinta guloseimas (noventa porcento chocolate, uma pena!) e uma mini-tangerina com carinha de abóbora! Fiz questão de visitar minha casa favorita (aqui perto, em frente à igreja, Di. Espetáculo de casa!) e dar uma bisoiada em quem mora, como vive, o que come gente que tem casas lindas como aquela.
Era um cara de uns 40 anos, com cara de rico, roupa de rico (e três carrões na garagem), um cachorro (que pelo latido era grande), bebendo vinho e ouvindo The Doors enquanto distribuía chocolates em meio a uma bomba de fumaça (Arthur ficou fascinado). Ele nos mandou assistir este vídeo, que, segundo ele, já era viral (a filha dele, na faculdade, mandou para ele porque todo mundo estava assistindo). Bom, eu sei lá como é que a raposa faz, mas a minha raposa fazia "ãhn-ãhn-ãhn" a cada casa, e no fim da noite já estava enfiando a mãozinha gorda nas tigelas cheias de doces e enfiando um pirulito verde-euforia na boca. Claro que eu não tirei o papel. Claro que duzentas e doze pessoas vieram me avisar que o pirulito estava embrulhado.
Enfim, foi um dia muito especial, porque além de gostoso fez com que eu me sentisse parte de algo, fez com que eu conhecesse alguns vizinhos e que eu visse que crianças são crianças, e são felizes com pouco.
Agora, Di, o Halloween fez sentido para mim: encheu de esperança e renovou minhas energias para enfrentar o inverno que vem chegando impiedosamente. Mas eu, marido e minha pequena raposa enfrentamos o tempo ruim e, juntos, unidos, nos divertimos.
Beijo, Di. Volto outro dia.
| Criançada aqui na rua. <3 |
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sábado, 26 de outubro de 2013
Da loucura
Que louco permitiu que eu saísse da maternidade com um bebê? Inepta. Iludida. Descabida.
E que louco, depois de um ano, depois de dezesseis meses, permite que eu, sistematicamente, falhe: mãe, pessoa, profissional, mulher, sã?
Este post é sobre a loucura que ronda, que espreita cada mãe. Cada mãe enlouquece silenciosamente na frustração da rotina. Da quebrada e da inteira. A inteira porque monótona e traiçoeira, vai se apoderando dos pequenos prazeres e fazendo deles pequenas tarefas. Aí, quando se vê, cuidamos por obrigação. A rotina partida, fragmentada, pulverizada frustra porque traz à tona a incapacidade de disciplina. Disciplina nossa, tão importante para que nossos pequenos também se disciplinem.
Aqui, enlouqueço pouco a pouco, engolfada por algo que nem sei bem o que é, onde mora ou como cresce. Parece lama, embrenhando-se e dificultando os passos; lembra lodo, crescendo nos cantos escuros e tornando o passo certo escorregadio.
Ninguém me disse que seria fácil, e eu, adolescente que pari - sim, adolescente, imatura, despreparada e ainda com tanto a descobrir sobre mim mesma -, achei que ser mulher bastaria. Achei que os amigos, em linhas retas, sempre heróis em tudo, davam a medida certa de todas as coisas. Os homens. E também as mulheres. Elas vieram para minha vida depois da maternidade. Todas mães de meninos, por pura coincidência, para que o processo (frustrante também) de comparação possa vir inteiro, completo. Complexo. Elas, essas mães, são fabulosas em seus erros. Uma é linda, despojada, sabe o que fazer em momentos de crise e nunca parece gritar. Deve gritar, eu sei, mas há de ser um grito carinhoso e pleno, não a histeria insana do dedo na tomada, da mão que quase se prende à porta que bate. Um grito de amor: não pode, Fulaninho. Mamãe está falando sério. Sensata essa. É assim que a vejo.
Outra, menos paciente porque sobrecarregada: faz de tudo e mais um pouco sem poder contar com muita ajuda. Essa, embora deva gritar (e até reconhece que o faz), tem a coragem. Vai lá e encara a boca escancarada, o olho esbugalhado, a boca da noite fechada.
Mais uma: essa nem tão segura quanto a primeira, nem tão sem ajuda quanto a segunda. Mas infinita na busca, na pesquisa, na alternativa, na paciência. E eu reprimo, então, minha decepção ao notar que parece que me falta a essência disso tudo que envolve a maternagem.
Pego-me repetindo velhos estribilhos que me fizeram gauche, que me fizeram em linhas tortas (sem Deus para escrever certo, pois sou ateia). Velhos estribilhos, velhas sensibilidades, que doendo em mim, vão doer no meu garoto, reflexo de minha vida.
Olho para Arthur, ansioso, irritadiço, demandando, e reconheço nisso cada falha minha, cada frustração, cada ocasião mal aproveitada e mal dirigida. Olho e me pergunto: que louco permitiu isso?
Amo-o. De um amor intenso, louco, crescente e que me preenche. Mas falho. E sofro. Porque isso não vai bastar a ele. Eu preciso ser amorosa, sim. Mas também tenho de ser inteira, única. Nas minhas linhas tortas, tenho claros problemas de coerência e coesão: porque a gramática que aprendi não fala a língua materna que tenho. Minha comunicação tropeça e se ruidifica: interferências desnecessárias. Falta de sons extremamente precisos. Pareço um megafone ninando um bebê. Um terremoto acalentando meu filho. Um furacão soprando-lhe as feridas (sobretudo as emocionais, que já se abrem diante de mim).
Ele chora, e eu tenho vontade de sumir, de sair, de fugir, de conseguir fazer, enfim, algo de certo, de coerente. Mas repito a ladainha cheia de erros que não combina com a beleza da linguagem-maternagem que sei em mim. É a gramática ruim. São os erros da fala, da mensagem, do meio, e tudo se trunca.
E se ele sorri, desabo. A confiança que vai se mostrar equivocada. Sou um equívoco, uma fraude. Respiro fundo. E pergunto, obsessivamente: quem foi o louco?
E que louco, depois de um ano, depois de dezesseis meses, permite que eu, sistematicamente, falhe: mãe, pessoa, profissional, mulher, sã?
Este post é sobre a loucura que ronda, que espreita cada mãe. Cada mãe enlouquece silenciosamente na frustração da rotina. Da quebrada e da inteira. A inteira porque monótona e traiçoeira, vai se apoderando dos pequenos prazeres e fazendo deles pequenas tarefas. Aí, quando se vê, cuidamos por obrigação. A rotina partida, fragmentada, pulverizada frustra porque traz à tona a incapacidade de disciplina. Disciplina nossa, tão importante para que nossos pequenos também se disciplinem.
Aqui, enlouqueço pouco a pouco, engolfada por algo que nem sei bem o que é, onde mora ou como cresce. Parece lama, embrenhando-se e dificultando os passos; lembra lodo, crescendo nos cantos escuros e tornando o passo certo escorregadio.
Ninguém me disse que seria fácil, e eu, adolescente que pari - sim, adolescente, imatura, despreparada e ainda com tanto a descobrir sobre mim mesma -, achei que ser mulher bastaria. Achei que os amigos, em linhas retas, sempre heróis em tudo, davam a medida certa de todas as coisas. Os homens. E também as mulheres. Elas vieram para minha vida depois da maternidade. Todas mães de meninos, por pura coincidência, para que o processo (frustrante também) de comparação possa vir inteiro, completo. Complexo. Elas, essas mães, são fabulosas em seus erros. Uma é linda, despojada, sabe o que fazer em momentos de crise e nunca parece gritar. Deve gritar, eu sei, mas há de ser um grito carinhoso e pleno, não a histeria insana do dedo na tomada, da mão que quase se prende à porta que bate. Um grito de amor: não pode, Fulaninho. Mamãe está falando sério. Sensata essa. É assim que a vejo.
Outra, menos paciente porque sobrecarregada: faz de tudo e mais um pouco sem poder contar com muita ajuda. Essa, embora deva gritar (e até reconhece que o faz), tem a coragem. Vai lá e encara a boca escancarada, o olho esbugalhado, a boca da noite fechada.
Mais uma: essa nem tão segura quanto a primeira, nem tão sem ajuda quanto a segunda. Mas infinita na busca, na pesquisa, na alternativa, na paciência. E eu reprimo, então, minha decepção ao notar que parece que me falta a essência disso tudo que envolve a maternagem.
Pego-me repetindo velhos estribilhos que me fizeram gauche, que me fizeram em linhas tortas (sem Deus para escrever certo, pois sou ateia). Velhos estribilhos, velhas sensibilidades, que doendo em mim, vão doer no meu garoto, reflexo de minha vida.
Olho para Arthur, ansioso, irritadiço, demandando, e reconheço nisso cada falha minha, cada frustração, cada ocasião mal aproveitada e mal dirigida. Olho e me pergunto: que louco permitiu isso?
Amo-o. De um amor intenso, louco, crescente e que me preenche. Mas falho. E sofro. Porque isso não vai bastar a ele. Eu preciso ser amorosa, sim. Mas também tenho de ser inteira, única. Nas minhas linhas tortas, tenho claros problemas de coerência e coesão: porque a gramática que aprendi não fala a língua materna que tenho. Minha comunicação tropeça e se ruidifica: interferências desnecessárias. Falta de sons extremamente precisos. Pareço um megafone ninando um bebê. Um terremoto acalentando meu filho. Um furacão soprando-lhe as feridas (sobretudo as emocionais, que já se abrem diante de mim).
Ele chora, e eu tenho vontade de sumir, de sair, de fugir, de conseguir fazer, enfim, algo de certo, de coerente. Mas repito a ladainha cheia de erros que não combina com a beleza da linguagem-maternagem que sei em mim. É a gramática ruim. São os erros da fala, da mensagem, do meio, e tudo se trunca.
E se ele sorri, desabo. A confiança que vai se mostrar equivocada. Sou um equívoco, uma fraude. Respiro fundo. E pergunto, obsessivamente: quem foi o louco?
sábado, 21 de setembro de 2013
Nossos filhos, esses estranhos
Eu me lembro até hoje: veio na agenda da creche "Arthur disse a palavra 'bola' diversas vezes hoje." E foi assim que eu fiquei sabendo da primeira palavra do meu bebê. Muito triste, achei.
Essa coisa de deixar em creche sempre me deixou deprimida. Ainda grávida, sofria antecipadamente ao pensar que chegaria o dia em que deixaria meu filhotinho, gestado e parido com tanto amor, acalentado com tantas mamadas e atenções, na creche, aos cuidados de pessoas estranhas, que certamente não teriam o mesmo amor que eu tenho por ele. Sofria. Sofri. Muito.
Daí, tive a oportunidade de ouro de largar carreira, dinheiro e canudo, e ir cuidar do meu molecote, sozinha, no conforto do meu lar, 24h por dia, sete dias na semana, inclusive sábados, domingos, feriados e dias de doença e convalescença. Oportunidade de ouro, eu sei, tenho consciência dela a cada diazinho que acordo e não preciso me arrumar para ir ao trabalho, só ao parquinho; a cada tarde que curto meu bebezinho grudado a mim, aprendendo as coisas do mundo, da vida e sobre mim bem diante dos meus olhos. Eu sei. Mas não é porque eu sei da minha sorte que eu não sinta cansaço, que eu não fique estressada e até mesmo frustrada de vez em quando. Quem cuida de um bebê em tempo integral sabe do que estou falando, e é óbvio que essa foi minha escolha consciente, livre e deliberada: aceitei seus bônus e seus ônus, e acho que, sim, fiz muito bem a mim, a ele, à família.
Então, hoje, quero falar um pouco sobre o cansaço e a frustração de ser mãe integral, sobretudo depois de ter sido mãe proletária com CLT.
Quando eu trabalhava nove horas num escritório, sentada numa mesa toda minha, com prazos e projetos que dependiam de mim e somente de mim para irem adiante, eu me sentia frustrada e estressada. Cansei de sonhar acordada no meio do expediente, pensando no programa de fim de semana que iria fazer, antecipando o momento em que meu filho deitaria os olhos em mim, jogaria os bracinhos para o alto e viria diretamente ser acarinhado em meu seio. No mundo cor-de-rosa dos que estão infelizes com a realidade em que vivem (eu amava meu trabalho, claro, mas havia uma confluência de fatores intra e extra-empresariais que me despertavam outras ambições), mudar a realidade significa viver em um paraíso cristão: sem dores, sem sofrimento, com alguma culpa. Acontece, minha gente, que aqui na Terra, ao menos até onde me conste, tal paraíso não existe, e é por isso que o nosso livre-arbítrio é tão fundamental para sermos felizes. Não vou me alongar muito nesse quesito porque todo mundo sabe disso e eu não estou aqui para escrever um post de auto-ajuda alheia (auto-ajuda própria, sim, certamente!). Vamos então só passar adiante, e eu conto para vocês que, mesmo sabendo que eu estava idealizando a maternagem em tempo integral, eu achava que não haveria frustrações e estresses do mesmo nível de intensidade que eu vivia na panela de pressão social chamada "dupla jornada feminina": mãe-e-proletária-CLT.
Mais uma cuspidela para o alto, né? O que me faz questionar o gênero de Murphy: será mesmo um homem? Porque está com cara mesmo é de mulher, que entende do babado de se lascar na vida, então, por isso, cumpre seu papel com maestria.
Digressei, eu sei. Volto.
Bom, então, estava eu, com meu filho que dizia "bola", agora vivendo o Eldorado das attached mommies, em casa em tempo integral, levando ao parquinho, à biblioteca, ao ginásio de atividades, vendo de perto ele enfiar mãos cheias de areia nojenta na boca, assistindo ele descer às gargalhadas o escorrega, ficando apavorada quando ele se estabacava de cara no concreto (abriu o lábio duas vezes, o safado!), quase até adivinhando qual brinquedinho babado que ele enfiara na boca havia causado a gripe que ele pegou, quando eu me dei conta de uma coisa muito, mas muito, muito, muito importante. Meu filho, naquele momento, era quase um estranho para mim.
Quando ele saiu de dentro de mim, berrando, escorregadio, macio e quente, ele era um estranho completo. Não reconheci nele nada: suas feições eram novas, seu choro nunca fora ouvido, suas expressões, manias ou seus trejeitos eram todos inéditos. Até mesmo espirros e bocejos eram surpreendentemente ímpares. Quem pariu sabe (e quem teve o bebê por cirurgia ou adotou, também, é claro!). É uma delícia ir descobrindo e conhecendo nosso bebê, e talvez porque você está ali, num processo íntimo, delicado e sensível, de mútuo conhecimento (no caso do bebê, muita coisa de reconhecimento acontece), é que irritem tantos os pitacos: mexe com a nossa insegurança normal de mães recém-nascidas, que não sabe NADA sobre o próprio filho. E não sabe nada, mesmo que tenha feito mil cursos, quinze ultras 4D por mês, mesmo que tenha dezenove filhos mais velhos. Esse bebê que acabou de sair da sua barriga é inteiramente novo e uma incógnita absoluta.
Bom, daí você fica no chamego ocitocínico dos primeiros dias, depois se apaixona por cada pedacinho daquela pessoinha nova (até pedacinhos fedorentinhos), curte, ama, se doa, se dói, se entrega e, enfim, depois de uns três meses, você finalmente está apta a dizer que conhece seu filhote. Se chora assim, é sono; se come a mão assado, é fome; cocô mole, dente; risada de banda, fez xixi; agitou as mãozinhas, chega de balanço; os pezinhos não param, está ansioso. E por aí vai. O processo às vezes vai mais rápido, às vezes, mais devagar, mas, geralmente, quando terminam os três primeiros meses a mulher que nasceu mãe já sabe alguma coisa do bebê que nasceu...bem, bebê.
Porém, no injusto mundo das mãe-proletárias-CLT, é logo depois desse período e desse processo tão importantes e complexos que elas são obrigadas a delegarem os cuidados dos pequenos seres a pessoas que, tendo laços de sangue, de amizade ou monetários, passarão a anotar ou informar sobre o que acontece com seus pequenos durante o período em que mãe e filho(s) estão afastados. É cruel. Há quem não ache e goste de voltar ao mercado de trabalho, quem sinta até certo alívio por ter interações sociais que não versem sobre filhos e maternidade. Essas mulheres estão felizes com sua escolha. Mas eu não estava, lembram? Então esse post vai um pouco enviesado: sob o ângulo da frustração de um dia, em casa, ao abrir a agenda da creche, ler que meu filho falou "bola". (E frustração enorme, para mim: ele chegava em casa dormindo já, então nem dava para pedir que ele repetisse a gracinha!)
Frustrada, criei um mundo idealmente maravilhoso, em que eu acordava, dava bom dia para marido, filho e flores do jardim, ia preparar café da manhã, comia, brincava com o pequeno, dava até logo para marido, passeava pela cidade, comprava morangos frescos, sentia a brisa bater nos cabelos, ensinava para filhote os nomes de todas as coisas do mundo, sorria, vivia leve como uma pluma. Claro que eu precisaria fazer xixi com ele no colo, comer rapidinho, de repente interromper um programa bacana porque Arthur não estaria muito contente naquele momento, com sono, fome ou algum outro incômodo. E com essa visão foi que eu me demiti.
E foi com essa mesma visão que, ao chegar aqui, nos EUA, eu notei uma coisa muito importante: Arthur, depois de tanto tempo na creche, era um estranho para mim. De novo. Eu não sabia suas músicas favoritas, não conseguia criar uma rotina para nós, não sabia muito bem o que ele comia, o que não comia, o que gostava de fazer, como ele brincava. E isso foi um baque, porque com um bebê de 1 ano você acha que já sabe alguma coisa, né?
Pois é, mas eu tinha muitas coisas para reaprender: horários, ritmos, sinais, hábitos, choros e necessidades.
E eu sofri. Fiquei estressada, com um bebê super-ativo em casa, que tinha energia para dar e vender, energia essa que eu não sabia para onde canalizar. Também tinha um bebê com gostos e paladares que eu precisava descobrir e perceber. E, muitas vezes, ele me fazia gestos que não compreendi: devia ser alguma coisa da creche que vinha à tona e que lá ele se fazia entender. Precisei lidar com essa frustração de ter um pequeno estranho em meus braços, que muitas vezes se frustrava em mim, com minha ignorância sobre sua vida, rotina e preferências. (E olha que, modéstia a parte, eu era uma mãe interessada e dedicada quando não estava no trabalho.)
Enfim, além de tudo isso, acho que é importantíssimo também falar de uma frustração imensa e sobre a qual não pensei muito bem quando fantasiei sobre maternagem 24h por dia: a frustração do tempo. Nos meus delírios pré-demissionais eu faria xixi com Arthur no colo e teria algumas restrições em termos temporais, claro. Mas o impacto foi muito profundo para mim.
Quando Arthur era pequenininho, um recém-nascido, eu não tinha tempo para nada: xixi, comer, tomar banho, escovar dentes. NADA. Passava o dia em função do meu bebê e das novas funções que ele havia criado: mais roupas para lavar e arrumar, comidinhas para mim, organização da casa e do espaço habitável etc. Então, depois de quatro meses e meio de licença-maternidade, voltei a trabalhar, e passei a ter uma hora inteirinha de almoço, o que me dava espaço na agenda para atividades como bater perna no shopping, fazer unhas, depilação, ir ao supermercado, sentar-me sozinha e pensar na vida, ler um livro... As possibilidades eram muitas e eu as aproveitei bastante! Curti ter um tempinho para mim novamente. Daí, quando voltei a ser mamãe em tempo integral, afundei na falta de rotina, desesperei no infindável mundo de atividades inadiáveis, fui soterrada por 40 unhas a mais para cortar, dois pés a mais para calçar, dez dentes a mais para escovar, um estômago para alimentar, uma cabeça para lavar, entretenimento, cuidados pessoais, necessidades básicas e imediatas (fome, sono, frio, calor), tudo dele primeiro, muitas vezes tudo dele exclusivamente, porque não havia (não há) tempo para mim. Fico dias sem lavar o cabelo, horas sem escovar os dentes, durmo mal, sempre tenho algo a fazer e nunca consigo realmente relaxar ou descansar, pois Arthur está realmente encantado por ter a mamãe em tempo integral e absoluto com ele, e me quer praticamente de sol a sol. E com isso, confesso, me frustrei, porque meu tempo não é mais meu. Por isso, demorei para encontrar o prazer de ser mãe integral - admito, sem orgulho. Demorei para sorrir com a alma em paz, sem a angústia da necessária (é claro) frivolidade apertando minha garganta num sufoco de minutos contados: preciso tomar banho; estou com fome; preciso dormir; queria ficar quieta agora; puxa, que livro bacana; nossa, minha perna está cabeluda!
Demorei para chegar a conclusão de que meu estresse e minhas frustrações de mãe em tempo integral podem até ter um grau intenso, como os estresses e frustrações de mãe-proletária-CLT que fui. Mas, por serem de naturezas diferentes, essas coisas precisam ter um impacto diferente. E, sobretudo, porque eu ESCOLHI estar onde estou hoje, o lado B da maternagem intensa deve ser encarado como desafio e oportunidade, e não como castigo e pesar.
Então, agora, mesmo com perna cabeluda (outro dia, no meio da ioga, a professora veio ajeitar minha postura e quase morri de vergonha porque quase dava para fazer trancinhas nos cabelos da minha perna!), mesmo estressada quando estou sozinha em casa, querendo comer e Arthur cisma em subir na mesa ou escalar a estante, quando ele chora, se joga, quando o cocô vaza na última roupa limpa e eu preciso descer com bebê, roupa, sabão em pó, moedinhas e paciência até a lavanderia, mesmo assim eu ainda sorrio ao ver meu filho, na minha frente, aprender a imitar um cavalinho (é a coisa mais LINDA DO MUNDO!).
E aí, no meio dessa confusão intensa e louca, no meio de todos esses pensamentos, dessas novas sensações, eu fiz uma descoberta incrível, talvez o grande segredo da maternagem para mim. Por mais perto que estejamos, por mais que acompanhemos cada crescimento, cada aprendizado, por mais que estejamos presentes em cada descoberta, nossos filhos são e sempre serão aqueles estranhos que parimos, porque nossos filhos vivem e experimentam e aprendem e vivem na individualidade. São, portanto, seres únicos, que apreenderão o mundo de maneira única. E a cada vivência e novidade, mudarão, se transformarão. Nosso papel, então, é estar presente, como quisermos ou pudermos, para, com todos esses aprendizados e transformações, sermos a constância de que eles precisam para poderem voltar, sempre que quiserem, à segurança imutável do amor materno. Só a solidez do amor permanece quando o assunto é filhos, esses estranhos.
(Pode não parecer, mas este post é fruto de muitas reflexões em relação ao post anterior. Obrigada a todas que me responderam! De coração. Gente que nunca tinha comentado, gente que sempre comenta, gente que voltou a comentar. Obrigadíssima por partilharem opiniões e sentimentos. Isso é o que realmente importa nas redes maternas: trocas e acolhimento. Prometo voltar para falar sobre minhas ideias a respeito de segundar.)
terça-feira, 10 de setembro de 2013
Apresentando Mike (mas também pode chamá-lo de Alfredo)
Engravidei e já sabia os nomes que iriam para a lista dos favoritos. Havia outros, mas Arthur era o favorito. Forte, tradicional, curto e, o mais importante, praticamente universal no mundinho ocidental que frequentamos. Já sabíamos que marido teria uma oportunidade profissional no exterior quando veio o positivo, então um nome que valesse no Brasil, na Europa ou nos EUA seria muito bem-vindo. E assim (e por outros motivos), escolhemos Arthur, com TH que era para facilitar a vida anglófona que acreditávamos que teríamos.
ahhahahahahahahahahahahahahhahhahahah
[risos histéricos]
Assim que botamos o pé na terra do Tio Sam descobrimos uma verdade que dançava na boquinha da garrafa diante de nós, mas que ignorávamos por... pura distração. Arthur era um nome tão lindo, tão perfeitamente perfeito para nossos planos e ideias, que nem ligamos que, enquanto os americanos não conseguem pronunciar bem as vogais nasais (não, pão, chão, Copacabana etc.), nós, tupiniquins, temos dificuldades com o TH.
Bom, o TH do Arthur segurou o tchan logo que o primeiro local perguntou o nome do menino.
O diálogo foi mais ou menos assim:
- Oh, que gracinha! Qual o nome?
- Arthur [caprichando no R retroflexo ARRRRR, e também no TH línguo-dental].
- Como?
- Arrrrrrthfffuuur.
- Ah, tá. Oi, Alfred. Tudo bem?
Alfred, minha gente! ALFREDO!
A gente escolhe o nome com tanto carinho, tanto cuidado, e é trollada por si mesma e pelo sangue latino e a alma cativa da última flor do Lácio. Ê, beleza!
Confesso que a cada ida ao parquinho ou saída para fazer supermercado, com meu pequeno populista acenando e dando sorrisos para todos, eu queria me enterrar na caixa de areia ou me esconder atrás das gôndolas. Também cogitei seriamente apresentá-lo simplesmente como Alfred e tudo bem. Alfredo é um nome bonito, afinal.
Mas então, marido, em toda sua genialidade, veio com a solução perfeita.
Certo dia, no parquinho, veio uma americana estereotipada, cheia de olhos azuis para cima do meu filhinho simpático e risonho, perguntando:
- Qual é o nome deeeeele?
- Mike - respondeu marido. E a vida continuou* bem mais simples, com um nome curto, simples e pronunciável.
* Apesar da tentação, minha gente, nossa solução foi treinar e treinar e treinar até conseguirmos pronunciar satisfatoriamente o nome do Arthur. E ele nunca mais foi Mike ou Alfred.
;-)
ahhahahahahahahahahahahahahhahhahahah
[risos histéricos]
Assim que botamos o pé na terra do Tio Sam descobrimos uma verdade que dançava na boquinha da garrafa diante de nós, mas que ignorávamos por... pura distração. Arthur era um nome tão lindo, tão perfeitamente perfeito para nossos planos e ideias, que nem ligamos que, enquanto os americanos não conseguem pronunciar bem as vogais nasais (não, pão, chão, Copacabana etc.), nós, tupiniquins, temos dificuldades com o TH.
Bom, o TH do Arthur segurou o tchan logo que o primeiro local perguntou o nome do menino.
O diálogo foi mais ou menos assim:
- Oh, que gracinha! Qual o nome?
- Arthur [caprichando no R retroflexo ARRRRR, e também no TH línguo-dental].
- Como?
- Arrrrrrthfffuuur.
- Ah, tá. Oi, Alfred. Tudo bem?
Alfred, minha gente! ALFREDO!
A gente escolhe o nome com tanto carinho, tanto cuidado, e é trollada por si mesma e pelo sangue latino e a alma cativa da última flor do Lácio. Ê, beleza!
Confesso que a cada ida ao parquinho ou saída para fazer supermercado, com meu pequeno populista acenando e dando sorrisos para todos, eu queria me enterrar na caixa de areia ou me esconder atrás das gôndolas. Também cogitei seriamente apresentá-lo simplesmente como Alfred e tudo bem. Alfredo é um nome bonito, afinal.
Mas então, marido, em toda sua genialidade, veio com a solução perfeita.
Certo dia, no parquinho, veio uma americana estereotipada, cheia de olhos azuis para cima do meu filhinho simpático e risonho, perguntando:
- Qual é o nome deeeeele?
- Mike - respondeu marido. E a vida continuou* bem mais simples, com um nome curto, simples e pronunciável.
* Apesar da tentação, minha gente, nossa solução foi treinar e treinar e treinar até conseguirmos pronunciar satisfatoriamente o nome do Arthur. E ele nunca mais foi Mike ou Alfred.
;-)
domingo, 8 de setembro de 2013
Como estamos?
Surpreendentemente com calor. Muito calor.
Estamos também, finalmente, no apartamento definitivo. Digo, definitivo por um ano, pelo menos. Ainda sem muitos móveis, mas já com colchão de verdade!
Também já estamos nos acostumando ao inglês e a algumas particularidades norte-americanas.
Ainda peno no supermercado, com um bebê cheio de energia e andarilho e muitas coisas (marcas, produtos e necessidades) que ainda não conheço. Ainda sofro para entender pessoas que falam rápido, ou usam gírias, ou têm dicção ruim. Ainda me perco nas ruas.
Estamos sem grana, diria que completamente falidos. E aqui, vejam que coisa, estamos abaixo da linha da pobreza.
Eu estou com frilas até as orelhas, sem tempo para nada, já que preciso limpar uma casa imunda (os antigos moradores não eram chegados num trato, ao que tudo indica), cuidar de um bebê cheio de energia e vontades (tá fácil, não!), frilar e terminar de me adaptar.
Estamos, porém, caminhando aos poucos. Bem aos poucos.
E vocês, como estão? Tem gente quase parindo, tem gente com filhas quase adolescente, tem gente que me deixou com o coração apertado e mandando todos os pensamentos de amor, tem gente que está na luta, gente que engravidou de novo, gente que sumiu, gente que chegou e agora mora no meu coração, gente que voltou a trabalhar, gente que faz falta na vida offline...
Mas tem mais gente que me visita e que eu visito também. O que mais vocês me contam?
Estamos também, finalmente, no apartamento definitivo. Digo, definitivo por um ano, pelo menos. Ainda sem muitos móveis, mas já com colchão de verdade!
Também já estamos nos acostumando ao inglês e a algumas particularidades norte-americanas.
Ainda peno no supermercado, com um bebê cheio de energia e andarilho e muitas coisas (marcas, produtos e necessidades) que ainda não conheço. Ainda sofro para entender pessoas que falam rápido, ou usam gírias, ou têm dicção ruim. Ainda me perco nas ruas.
Estamos sem grana, diria que completamente falidos. E aqui, vejam que coisa, estamos abaixo da linha da pobreza.
Eu estou com frilas até as orelhas, sem tempo para nada, já que preciso limpar uma casa imunda (os antigos moradores não eram chegados num trato, ao que tudo indica), cuidar de um bebê cheio de energia e vontades (tá fácil, não!), frilar e terminar de me adaptar.
Estamos, porém, caminhando aos poucos. Bem aos poucos.
E vocês, como estão? Tem gente quase parindo, tem gente com filhas quase adolescente, tem gente que me deixou com o coração apertado e mandando todos os pensamentos de amor, tem gente que está na luta, gente que engravidou de novo, gente que sumiu, gente que chegou e agora mora no meu coração, gente que voltou a trabalhar, gente que faz falta na vida offline...
Mas tem mais gente que me visita e que eu visito também. O que mais vocês me contam?
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