Mantendo os níveis de excentricidade do blog, afirmo que eu amo quiabo. Com frango, com carne moída, puro, em qualquer formato e até o babado, amo, amo, amo! Mas preciso dizer que, como na vida tudo é relativo, apareceu outro amor, que me faria abrir mão de todo o quiabo do mundo: o Instituto Fernandes Figueira.
Desde antes de engravidar já ouvia muitos elogios a respeito da qualidade dessa instituição pública, mas viver a experiência do ótimo atendimento superou as expectativas que eu nutria.
Como todo mundo aqui está careca de saber, tive (e ainda estou tendo) muitos problemas com a amamentação, e só não desisto porque, além de mão de vaca, tenho minhas convicções. Aliás, não desisto porque sou mão de vaca, tenho minhas convicções e o IFF para me ajudar a seguir adiante.
Logo na minha primeira visita, já depois do fim do horário de expediente, fui muito bem-recebida e, embora não tenha podido ser atendida, fui orientada com muita calma, educação e clareza. Com isso, minha pega no seio esquerdo se resolveu. Na segunda visita, dessa vez no horário certinho, fui novamente bem-atendida: ouviram meu relato e minhas queixas com paciência, sanaram minhas muitas dúvidas, deram dicas e esclarecimentos e diagnosticaram minha monília (lembram que amamentei sem dor? Que beleza!). Saí com as esperanças em uma amamentação bacana e prazerosa renovadas.
E de fato fiquei boa, me tratei da monília, da mastite e do medo de amamentar com dor. No entanto, essa semana, notei que meus sintomas de monília haviam voltado. Fiquei apreensiva e combinei com marido de visitar mais uma vez o IFF. Acontece que Arthur vacinou e reagiu, então meus peitos fcaram para depois, já que sair com um bebê com febre não é uma opção para mim. Hoje, porém, senti bastante dor e me dei conta de que estávamos na sexta-feira, que teria um fim de semana pela frente e precisava de uma orientação. Catei no site o telefone do Insitituto, liguei, pedi para falar no Banco de Leite Humano, expliquei minha situação e acabei com a seguinte resposta: todas as atendentes estavam ocupadas e meu nome e telefone seriam anotados para que, quando liberada uma profissional, ela entrasse em contato comigo. Meio incrédula, forneci os dados e, confesso, me esqueci completamente do telefonema e da promessa. Então, cerca de vinte minutos depois, toca meu telefone, chamam meu nome e, para minha total surpresa, era uma médica pediatra do Fernandes Figueira, que escutou com paciência e muita educação minha exposição e explicou tim-tim por tim-tim o que eu deveria fazer, sugerindo alternativas muito pertinentes para meu caso.
Gente, hospital público! Eles telefonaram para minha casa, me escutaram e resolveram meu problema com educação, boa-vontade e competência. Se não fosse por isso, teria sofrido por mais três dias desnecessariamente e, se eu não estivesse tão determinada a prosseguir na amamentação exclusiva, quem sabe, essa seria a diferença entre desistir ou não de amamentar. Exemplo de que é possível um atendimento público de qualidade, o Instituto Fernandes Figueira merece meu mais terno agradecimento por tornar viável e menos sofrido o sonho de oferecer o que há de melhor a meu filho: amor.
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sexta-feira, 24 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Passaporte para o hospício
[Este posté um oferecimento do combo antifúngico+antibiótico]
Então que esta semana temos um hóspede em casa. O amigo do marido também tem um filho. Mas do alto de seus 1 ano e 5 meses, o filho do amigo já fala, anda e faz zilhões de gracinhas. Como 99% das pessoas com filhos já "crescidos", quando viu Arthur e seus 2 meses incompletos, ficou naquela nostalgia louca, sabem? Ah, que gracinha, que saudade (oi??) dessa fase, que época maravilhosa (esse deve ter tido um filho que dormia de madrugada ou uma mulher que não o acordava para ajudar) etc. Acontece que sempre que o rapaz via Arthur ele estava, para variar, acoplado ao peito, e não dava para interagir. Até hoje.
Arthur teve uma noite difícil. Quero dizer, eu tive uma noite difícil e Arthur teve uma noite de muitas mamadas. Resultado: fiquei acordada das 3 às 6 da manhã. E, claro, fiquei num mau-humor fenomenal. Marido, coitado, e sugeriu: por que você não tenta amamentar deitada, para descansar?
Aceitei, deitei, acoplei rebento e amamentei!
Daí, marido veio me avisar que ia sair. Nesse exato momento Arthur espirrou e eu olhei para baixo, para onde deveria estar um bebê e nada vi! Marido riu e explicou: você dormiu e eu deixei o filhote com meu amigo, pois precisava tomar banho e ele estava doido para pegar Arthur no colo.
Meu povo, vou repetir porque vale a gagazice: eu dormi! E não foram 5 minutinhos, não. Dormi quase uma hora inteira! Sabem quando eu pensei que fosse conseguir isso? Nunquinha. Mas eu consegui: amamentei deitadona e dormi durante a mamada. Que beleza!
E o passaporte para o hospício é procurar bebê nas peitolas mesmo escutando um espirro vindo da sala.
Então que esta semana temos um hóspede em casa. O amigo do marido também tem um filho. Mas do alto de seus 1 ano e 5 meses, o filho do amigo já fala, anda e faz zilhões de gracinhas. Como 99% das pessoas com filhos já "crescidos", quando viu Arthur e seus 2 meses incompletos, ficou naquela nostalgia louca, sabem? Ah, que gracinha, que saudade (oi??) dessa fase, que época maravilhosa (esse deve ter tido um filho que dormia de madrugada ou uma mulher que não o acordava para ajudar) etc. Acontece que sempre que o rapaz via Arthur ele estava, para variar, acoplado ao peito, e não dava para interagir. Até hoje.
Arthur teve uma noite difícil. Quero dizer, eu tive uma noite difícil e Arthur teve uma noite de muitas mamadas. Resultado: fiquei acordada das 3 às 6 da manhã. E, claro, fiquei num mau-humor fenomenal. Marido, coitado, e sugeriu: por que você não tenta amamentar deitada, para descansar?
Aceitei, deitei, acoplei rebento e amamentei!
Daí, marido veio me avisar que ia sair. Nesse exato momento Arthur espirrou e eu olhei para baixo, para onde deveria estar um bebê e nada vi! Marido riu e explicou: você dormiu e eu deixei o filhote com meu amigo, pois precisava tomar banho e ele estava doido para pegar Arthur no colo.
Meu povo, vou repetir porque vale a gagazice: eu dormi! E não foram 5 minutinhos, não. Dormi quase uma hora inteira! Sabem quando eu pensei que fosse conseguir isso? Nunquinha. Mas eu consegui: amamentei deitadona e dormi durante a mamada. Que beleza!
E o passaporte para o hospício é procurar bebê nas peitolas mesmo escutando um espirro vindo da sala.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Parem as máquinas e suspendam a água!
PAREM AS MÁQUINAS!
É preciso publicar em todos os jornais a notícia mais importante do semestre! Nada de Mensalão, cavaleiros que sugerem cavalos em lugar de cachorros, disputas acirradas pelas eleições que se aproximam. Não, nada disso. O fato mais importante do segundo semestre é: pela primeira vez em minha vida e na vida do Arthur, amamentei um dia inteiro sem sentir uma dorzinha sequer! Mesmo no mamilo mutilado e com Arthur terminando a mamada com um pedacinho do meu seio na boca (achei que fosse uma afta e meti o mãozão: era um pedaço da minha pele). Notem bem: SEM DOR!
Foi ontem. Sem dor, sem traumas, até queria que Arthur pedisse peito. E ele não se fez de rogado: mamou loucamente, dormia de 2 a 3 horas na sequência (e passou a madrugada acordadão, damn it!) e, então, queria mais peitinho. Ô beleza! Até acho que tem mais bochechinha naquele rostinho lindo (mas só saberemos da verdade verdadeira na outra semana, depois da pesagem no pediatra, e não vou criar expectativas novamente).
Além disso, dessa novidade incrível, tenho outra. Aliás, outras. E preciso que suspendam a distribuição de água aqui no Rio, porque ao meu redor tenho QUATRO grávidas. Isso mesmo: quatro grávidas pertinho de mim. A primeira já está na reta final e também será mãe de um menininho. A segunda está com 12 semanas e acabou de descobrir que também será mãe de um rapaz. A terceira está com 9 semanas e ainda não sabe o sexo, e a última acabou de tomar aquele susto do beta. Sabem qual? Aquele em que você abre o exame e lê no resultado uma vírgula no lugar do ponto e acha que 3 mil é 3 vírgula qualquer coisa, e que "deu negativo, droga, bora seguir com a vida... mas peraí, isso é um ponto e estou MUITO grávida". O mais legal é que todas as 4 grávidas querem um parto normal (e duas delas querem um parto normal natural).
Se por um lado eu fico feliz, por outro fico preocupada, pois por mais que esteja amamentando exclusivamente e tenha, então, meus níveis de prolactina na estratosfera, não pretendo engravidar novamente antes de o Arthur completar um aninho. Por isso que passei a beber só água mineral e a evitar banhos prolongados. Vocês já sabem do poder que a água tem quando o assunto é gravidez, né? Eu, então, por via das dúvidas, tô suspendendo toda água que considero suspeita.
É preciso publicar em todos os jornais a notícia mais importante do semestre! Nada de Mensalão, cavaleiros que sugerem cavalos em lugar de cachorros, disputas acirradas pelas eleições que se aproximam. Não, nada disso. O fato mais importante do segundo semestre é: pela primeira vez em minha vida e na vida do Arthur, amamentei um dia inteiro sem sentir uma dorzinha sequer! Mesmo no mamilo mutilado e com Arthur terminando a mamada com um pedacinho do meu seio na boca (achei que fosse uma afta e meti o mãozão: era um pedaço da minha pele). Notem bem: SEM DOR!
Foi ontem. Sem dor, sem traumas, até queria que Arthur pedisse peito. E ele não se fez de rogado: mamou loucamente, dormia de 2 a 3 horas na sequência (e passou a madrugada acordadão, damn it!) e, então, queria mais peitinho. Ô beleza! Até acho que tem mais bochechinha naquele rostinho lindo (mas só saberemos da verdade verdadeira na outra semana, depois da pesagem no pediatra, e não vou criar expectativas novamente).
Além disso, dessa novidade incrível, tenho outra. Aliás, outras. E preciso que suspendam a distribuição de água aqui no Rio, porque ao meu redor tenho QUATRO grávidas. Isso mesmo: quatro grávidas pertinho de mim. A primeira já está na reta final e também será mãe de um menininho. A segunda está com 12 semanas e acabou de descobrir que também será mãe de um rapaz. A terceira está com 9 semanas e ainda não sabe o sexo, e a última acabou de tomar aquele susto do beta. Sabem qual? Aquele em que você abre o exame e lê no resultado uma vírgula no lugar do ponto e acha que 3 mil é 3 vírgula qualquer coisa, e que "deu negativo, droga, bora seguir com a vida... mas peraí, isso é um ponto e estou MUITO grávida". O mais legal é que todas as 4 grávidas querem um parto normal (e duas delas querem um parto normal natural).
Se por um lado eu fico feliz, por outro fico preocupada, pois por mais que esteja amamentando exclusivamente e tenha, então, meus níveis de prolactina na estratosfera, não pretendo engravidar novamente antes de o Arthur completar um aninho. Por isso que passei a beber só água mineral e a evitar banhos prolongados. Vocês já sabem do poder que a água tem quando o assunto é gravidez, né? Eu, então, por via das dúvidas, tô suspendendo toda água que considero suspeita.
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sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Até que o último homem tombe sobre o solo
Este texto contém palavrões.
Eu tenho um pequeno e bravo guerreiro em casa. Todas as manhãs e todas as tardes ele luta com ferocidade, geralmente sucumbindo somente diante do peitinho franco-atirador, que sua mãe saca quando mais nada parece conseguir fazê-lo parar, ou do som do útero materno, que seu pai aciona quando sua fúria parece sem fim.
As batalhas são muitas: Soneca Para Mãe Dormir Mais Cinco Minutinhos, Soninho Para os Pais Almoçarem, Cochilo Para Frear Mal-humor Vespertino (também conhecida como a Batalha do Boi da Cara-Preta) e, a mais ferrenha, Dorme Para Mamãe Tomar Banho.
Todo dia é a mesma coisa: acordamos, ele de bom-humor, eu caindo pelas tabelas depois de loooongas e doloridas mamadas no meio da madrugada, daí marido fica com ele para que eu possa dormir mais um pouquinho (geralmente entre 20 minutinhos e 1 santa horinha), e então começamos a luta, filhos da pátria! Arthur pede peitinho, eu dou. Ele dorme e solta o peitinho. E chora. Eu reacoplo o menino nas peitolas. Ele chupeita e dorme, relaxa a boquinha e solta o mamilo. Alívio para as doloridas mamas da mãe, mas terror para os ouvidos de todos na casa (e, eventualmente, vizinhança). Pai se apieda dos urros de dor da mãe, que tenta recolocá-lo no seio, e aciona o som secador de cabelo. Arthur chora. Berra. Urra. Se descabela, mesmo sendo meio careca. Mamãe saca o peito para fora da blusa, mas papai inicia o método radical de ninada: pulinhos, mão na testa, som do útero e Boi da Cara-preta cantado ad infinitum. É hora do almoço, mas mamãe nem fez o xixi da manhã ainda. Bebê dorme. Papai pergunta: no berço, na cama, no carrinho, no bebê-conforto ou no balancinho? Mamãe responde: em qualquer lugar, já que ele vai acordar assim que sair do colo ou parar de chacoalhar. O video do Youtube termina, sem que papai ou mamãe percebam. Mas bebê nota. Abre os olhinhos. Pisca. E urra. Berra. E se acopla novamente ao peito rachado e mastitizado. Papai vai comer, porque o exército não pode ter tal baixa. Esquenta a comida e engole qualquer coisa meio requentada. Aproveita e faz um arroz com ovo para a mãe. Toma o bebê dos braços da mãe, que dá uma garfada, duas e... quase! Bebê acorda e a internet caiu, não há som milagroso, somente o colinho (e peitinho) da mamãe. Todos choram, menos papai, que precisa trabalhar e se tranca no home office. Mamãe derruba arroz com ovo no bebê. Uma súbita vontade de arrotar agita o bebê, que puuuuuuxa o mamilo esquerdo, perde a pega e abocanha aquela mutilação. Cai a casquinha. Sangue. Leite. Lágrimas. Home office foi para a puta que o pariu e papai lança mão do Boi da Cara-preta, mas Tutu Marambaia mora no nosso telhado. E ali mantém seu home office. Como Tutu mora no telhado, Arthur não dorme. Mamãe consegue fazer xixi. Mas ainda tem arroz com ovo. Bebê de novo no peito. Dorme. Papai no home office. Mamãe, no sofá, tenta alcançar o antibiótico, que mais parece uma cápsula espacial, sem fazer o bebê perder a pega ou acordá-lo. São cinco da tarde. Um mau-humor generalizado toma conta da casa. Reload de todas as técnicas e estratégias já aqui listadas. Bebê dorme, mas acorda 20 minutos depois graças ao Reflexo de Moro. TománocuMoro! Bora dar uma volta? De carro ou de sling? De sling. Arthur, meu filho, calma, com as pernas esticadas assim, fica difícil te colocar no sling. Segura a perninha, amor. A cabeça tá meio torta. O quê? A cabeça. Meio torta (e entorta a cabeça). O quê? Porra, vou colocar ele na cadeirinha. Você viu chave do carro? O quê? Aaaaaarrrghhhhhh! Shhh, meu filhinho, a gente vai dar uma voltinha para você dormir um pouquinho. Cinto afivelado. Garagem se abre. Que dia é hoje? Terça. Sábado. Sei lá: é o Dia da Marmota. Caralho! Sexta-feira, seis da tarde. Dá dedinho para o Arthur. Já dei. Ele não quer. O quê? O quê? Dedinho, meu filho, não posso te amamentar no carro. O quê? [Este engarrafamento é um oferecimento de Eduardo Paes] Pega a próxima à esquerda, tá mais livre. Ok, ele dormiu? Não, mas tá quase. Que horas são? Sete e meia, falta pouco para o banho, graças a deus! Ele dormiu? Não, mas tá rindo para o móbile. Pelo menos não está chorando. É. Bora voltar. Oito horas. Tira roupa, tira fralda, limpa bumbum, enrola na fralda, liga música, apaga luzes da casa (sempre rola uma topada ou uma canelada em algum canto) e mergulha o menino na água morna. Bocejo. Pais também bocejam. Sai do banho, roupa e fralda limpas, enrola no dudu, dá mais peito mutilado e não mutilado, coloca para arrotar e, enfim, ele dorme.
Lutou até que o último homem tombasse sobre o solo. Neste caso, o último homem é uma mulher.
Eu tenho um pequeno e bravo guerreiro em casa. Todas as manhãs e todas as tardes ele luta com ferocidade, geralmente sucumbindo somente diante do peitinho franco-atirador, que sua mãe saca quando mais nada parece conseguir fazê-lo parar, ou do som do útero materno, que seu pai aciona quando sua fúria parece sem fim.
As batalhas são muitas: Soneca Para Mãe Dormir Mais Cinco Minutinhos, Soninho Para os Pais Almoçarem, Cochilo Para Frear Mal-humor Vespertino (também conhecida como a Batalha do Boi da Cara-Preta) e, a mais ferrenha, Dorme Para Mamãe Tomar Banho.
Todo dia é a mesma coisa: acordamos, ele de bom-humor, eu caindo pelas tabelas depois de loooongas e doloridas mamadas no meio da madrugada, daí marido fica com ele para que eu possa dormir mais um pouquinho (geralmente entre 20 minutinhos e 1 santa horinha), e então começamos a luta, filhos da pátria! Arthur pede peitinho, eu dou. Ele dorme e solta o peitinho. E chora. Eu reacoplo o menino nas peitolas. Ele chupeita e dorme, relaxa a boquinha e solta o mamilo. Alívio para as doloridas mamas da mãe, mas terror para os ouvidos de todos na casa (e, eventualmente, vizinhança). Pai se apieda dos urros de dor da mãe, que tenta recolocá-lo no seio, e aciona o som secador de cabelo. Arthur chora. Berra. Urra. Se descabela, mesmo sendo meio careca. Mamãe saca o peito para fora da blusa, mas papai inicia o método radical de ninada: pulinhos, mão na testa, som do útero e Boi da Cara-preta cantado ad infinitum. É hora do almoço, mas mamãe nem fez o xixi da manhã ainda. Bebê dorme. Papai pergunta: no berço, na cama, no carrinho, no bebê-conforto ou no balancinho? Mamãe responde: em qualquer lugar, já que ele vai acordar assim que sair do colo ou parar de chacoalhar. O video do Youtube termina, sem que papai ou mamãe percebam. Mas bebê nota. Abre os olhinhos. Pisca. E urra. Berra. E se acopla novamente ao peito rachado e mastitizado. Papai vai comer, porque o exército não pode ter tal baixa. Esquenta a comida e engole qualquer coisa meio requentada. Aproveita e faz um arroz com ovo para a mãe. Toma o bebê dos braços da mãe, que dá uma garfada, duas e... quase! Bebê acorda e a internet caiu, não há som milagroso, somente o colinho (e peitinho) da mamãe. Todos choram, menos papai, que precisa trabalhar e se tranca no home office. Mamãe derruba arroz com ovo no bebê. Uma súbita vontade de arrotar agita o bebê, que puuuuuuxa o mamilo esquerdo, perde a pega e abocanha aquela mutilação. Cai a casquinha. Sangue. Leite. Lágrimas. Home office foi para a puta que o pariu e papai lança mão do Boi da Cara-preta, mas Tutu Marambaia mora no nosso telhado. E ali mantém seu home office. Como Tutu mora no telhado, Arthur não dorme. Mamãe consegue fazer xixi. Mas ainda tem arroz com ovo. Bebê de novo no peito. Dorme. Papai no home office. Mamãe, no sofá, tenta alcançar o antibiótico, que mais parece uma cápsula espacial, sem fazer o bebê perder a pega ou acordá-lo. São cinco da tarde. Um mau-humor generalizado toma conta da casa. Reload de todas as técnicas e estratégias já aqui listadas. Bebê dorme, mas acorda 20 minutos depois graças ao Reflexo de Moro. TománocuMoro! Bora dar uma volta? De carro ou de sling? De sling. Arthur, meu filho, calma, com as pernas esticadas assim, fica difícil te colocar no sling. Segura a perninha, amor. A cabeça tá meio torta. O quê? A cabeça. Meio torta (e entorta a cabeça). O quê? Porra, vou colocar ele na cadeirinha. Você viu chave do carro? O quê? Aaaaaarrrghhhhhh! Shhh, meu filhinho, a gente vai dar uma voltinha para você dormir um pouquinho. Cinto afivelado. Garagem se abre. Que dia é hoje? Terça. Sábado. Sei lá: é o Dia da Marmota. Caralho! Sexta-feira, seis da tarde. Dá dedinho para o Arthur. Já dei. Ele não quer. O quê? O quê? Dedinho, meu filho, não posso te amamentar no carro. O quê? [Este engarrafamento é um oferecimento de Eduardo Paes] Pega a próxima à esquerda, tá mais livre. Ok, ele dormiu? Não, mas tá quase. Que horas são? Sete e meia, falta pouco para o banho, graças a deus! Ele dormiu? Não, mas tá rindo para o móbile. Pelo menos não está chorando. É. Bora voltar. Oito horas. Tira roupa, tira fralda, limpa bumbum, enrola na fralda, liga música, apaga luzes da casa (sempre rola uma topada ou uma canelada em algum canto) e mergulha o menino na água morna. Bocejo. Pais também bocejam. Sai do banho, roupa e fralda limpas, enrola no dudu, dá mais peito mutilado e não mutilado, coloca para arrotar e, enfim, ele dorme.
Lutou até que o último homem tombasse sobre o solo. Neste caso, o último homem é uma mulher.
Cândida, ou o pessimismo
Voltaire deve ter dado um duplo twist carpado no túmulo com essa minha apropriação infame do título de seu livro. Mas é um trocadilho (eu já disse que amo trocadilhos?) tão pertinente (embora, ainda assim, nada bom) para a ocasião, que não pude me furtar de fazê-lo.
Explico: no meio das publicações sobre o parto, comecei a sentir uns calafrios e uma moleza no corpo. A princípio achei que fosse a emoção de partilhar aquele momento lindo (e dolorido) com vocês, que meu corpo estivesse tendo um flashback das dores e mal-estares, mas era febre mesmo. Febrão, aliás: 38,5. Achei estranho e resolvi observar, porque meus seios estavam beeem doloridos já desde o dia anterior e a peitola direita, que estava sendo um paraíso da amamentação, voltou a doer bastante quando Arthur mamava.
Não quis esperar muito e dei um pulinho no Instituto Fernandes Figueira (IFF). Resultado: mastite para mim e monilíase para mim e Arthur (também conhecida como sapinho, causada pela velha conhecida das mulheres, a Sra. Candida albicans). Entramos no antifúngico e tudo parecia melhorar até que ontem acordei novamente nas trevas: dores, dores, muitas dores. Liguei para minha médica de confiança e, após exame, entrei foi no antibiótico também. Fui proibida de usar conchas (embora os sintomas da monilíase já estivessem presentes beeeem antes de eu começar a usá-las), pomadas e sutiãs com aro. Com isso, meu seio esquerdo novamente se tornou um martírio tenebroso. Essa madrugada foi fogo! Amamentei apenas 20 minutinhos antes de sucumbir e pedir que marido botasse o filhote pelamordedeus para arrotar e ninar. Muita dor mesmo!
Confesso, pensei: "que amamentação mais cheia das urucubacas, senhor! Primeiro bicos rachados e sangrando, depois monilíase, culminando com uma mastite." Tudo para desistir, né?
Mas nãããããooooo! Bora tratar essa bodega porque acho que já cheguei no fundo do poço da amamentação dolorida e cheia de urucubacas e, embora saiba que sempre dá para cavar mais um pouquinho no poço das mazelas dessa vida, acredito que não haja mais nada que possa acontecer com meus seios (já que a pega está coreta, né?). Quero muito acreditar, apesar de estar sendo bem difícil, que a tendência é só melhorar, porque sem fungos, infecções e pega incorreta, amamentar pode ser que se torne um prazer, enfim, para mim. Ou não.
Explico: no meio das publicações sobre o parto, comecei a sentir uns calafrios e uma moleza no corpo. A princípio achei que fosse a emoção de partilhar aquele momento lindo (e dolorido) com vocês, que meu corpo estivesse tendo um flashback das dores e mal-estares, mas era febre mesmo. Febrão, aliás: 38,5. Achei estranho e resolvi observar, porque meus seios estavam beeem doloridos já desde o dia anterior e a peitola direita, que estava sendo um paraíso da amamentação, voltou a doer bastante quando Arthur mamava.
Não quis esperar muito e dei um pulinho no Instituto Fernandes Figueira (IFF). Resultado: mastite para mim e monilíase para mim e Arthur (também conhecida como sapinho, causada pela velha conhecida das mulheres, a Sra. Candida albicans). Entramos no antifúngico e tudo parecia melhorar até que ontem acordei novamente nas trevas: dores, dores, muitas dores. Liguei para minha médica de confiança e, após exame, entrei foi no antibiótico também. Fui proibida de usar conchas (embora os sintomas da monilíase já estivessem presentes beeeem antes de eu começar a usá-las), pomadas e sutiãs com aro. Com isso, meu seio esquerdo novamente se tornou um martírio tenebroso. Essa madrugada foi fogo! Amamentei apenas 20 minutinhos antes de sucumbir e pedir que marido botasse o filhote pelamordedeus para arrotar e ninar. Muita dor mesmo!
Confesso, pensei: "que amamentação mais cheia das urucubacas, senhor! Primeiro bicos rachados e sangrando, depois monilíase, culminando com uma mastite." Tudo para desistir, né?
Mas nãããããooooo! Bora tratar essa bodega porque acho que já cheguei no fundo do poço da amamentação dolorida e cheia de urucubacas e, embora saiba que sempre dá para cavar mais um pouquinho no poço das mazelas dessa vida, acredito que não haja mais nada que possa acontecer com meus seios (já que a pega está coreta, né?). Quero muito acreditar, apesar de estar sendo bem difícil, que a tendência é só melhorar, porque sem fungos, infecções e pega incorreta, amamentar pode ser que se torne um prazer, enfim, para mim. Ou não.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 2
O processo do parto vocês acompanharam de pertinho aqui: teve
gincana, estresse, cansaço, introspecção catártica e recolhimento ao
ninho. No dia 16, portanto, sentia, mais uma vez, umas contrações que
poderiam sinalizar ou não o início do trabalho de parto. Para tentar dar
uma mãozinha para a mãe-natureza, fui caminhar. Escolhi um lugar muito
significativo (onde dei o primeiro beijo no homem que hoje é meu marido)
e fui com minha família passear: marido, cachorro e filhote na barriga.
Eram contrações doloridas, mas espaçadas. Liguei para a enfermeira que
me acompanharia e avisei: "Pode engrenar ou não, mas estou avisando que é
para deixá-la de sobreaviso."
Cheguei em casa e nada mais aconteceu... até que às duas da manhã, já no dia 17, comecei a sentir contrações suaves, porém ritmadas. Estava na internet, insone (como vinha acontecendo com frequência no fim da gravidez), quando senti umas dores parecidas com cólicas menstruais. Procurei me distrair, mas fiquei de olho na frequência, se estavam vindo com algum ritmo. Não me precupei neste momento em marcar os minutos certinho, apenas via se a cada 10 ou 15 minutos eu tinha tido contrações. Por volta das 4 da manhã, as contrações ficaram mais poderosas e eu não conseguia me concentrar em outra coisa quando elas apareciam: se eu estivesse lendo algo, não conseguia entender muito bem o trecho, se estivesse escutando uma música, não prestava atenção na letra. Meu marido dormia, e confesso que a tentação de acordá-lo foi grande, mas pensei que ele precisaria dirigir e, por isso, não poderia estar muito cansado e eu ainda teria muitas horas de trabaho de parto pela frente. Eu sabia que estava começando o trabalho de parto e passei a contar os intervalos das contrações. Então, às 6 da manhã, eu não conseguia mais cronometrar nada, e acordei meu marido para me ajudar a contar a contrações. Ele, sonado, não levou muito a sério meu pedido porque achou que as contrações fossem estar espaçadas ainda. Quando, às 6h30, ele notou que a cada 3 minutos eu contraía, levantou e passou a anotar tudinho. Perguntou, então, se eu queria entrar em contato com a minha equipe, mas eu ainda achava que era cedo demais (ninguém merece ser acordado num domingo, às 6h30 da matina, para um trabalho de parto ainda no comecinho, né?). A cada contração eu agachava na beirada da cama e soltava uns gritinhos. Também ia muito ao banheiro, porque a impressão que eu tinha era de que eu faria xixi durante as contrações e a última coisa que eu queria era limpar chão em pleno trabalho de parto. Fui levando, com ajuda do maridão, até às 8 da manhã, quando contatei a equipe e comecei a mergulhar mais fundo no processo. As contrações ainda vinham de 3 em 3 minutos, mas estavam mais fortes. Lembro que entre uma contração e outra eu não sentia nada, exceto por uma dor bastante forte e incômoda (mais incômoda que a própria contração) no músculo adutor da perna esquerda assim que a contração passava. Na hora, pelo telefone, comentei o fato com a enfermeira que me acompanharia e não me lembro o que ela disse, mas era normal. Hoje, pensando sobre o assunto, faz todo sentido que eu estivesse estirando/dilatando o meu músculo mais resistente e atrofiado.
Também liguei para minha GO para avisar do progresso (eu já havia telefonado no dia anterior e minha enfermeira tinha contatado ela) e, mais tade, depois de Arthur nascer, fiquei sabendo que minha GO ligou para a minha EO e avisou: "ela está em trabalho de parto, sim, porque está gritando. Você já viu a Ártemis gritar por alguma coisa?"
O combinado era minha enfermeira vir me acompanhar em casa, pelo máximo de tempo que eu aguentasse, até que eu quisesse ir para o hospital. Minha GO seguiria diretamente para a maternidade.
Por volta das 9h30 a enfermeira, então, chegou aqui em casa e foi devidamente recepcionada por meus gritos (que agora já não eram baixinhos como antes, mas mais fortes, intensos e poderosos) e por meu boxer. Não lembro a sequência certinha, mas sei que logo que chegou a enfermeira obstétrica pediu para auscultar o bebê e para verificar a dilatação. Aceitei tudo, mas disse que não queria, de jeito nenhum, saber a quantas andava minha dilatação. Primeiro porque eu estava com dores havia bastante tempo, e elas não estavam fraquinhas, não. Assim, se eu descobrisse que estava com 1cm apenas, depois de tanta dor e de tanto tempo, eu ficaria louca. Disse isso para ela, de maneira um pouco mais dramática ("Se eu estiver com 1cm, me jogo da varanda"). Outra razão para não querer saber da dilatação devia-se ao fato de eu ser muito controladora, e fiquei realmente com medo de saber da dilatação e ficar fazendo contas e previsões sobre quando Arthur nasceria. Eu queria e precisava mergulhar cada vez mais fundo no processo, me entregar às contrações, ao parto e deixar tudo acontecer, sem tentar controlar ou prever qualquer coisa. A EO, então, auscultou o bebê (tudo certo! Tudo lindo!) e verificou a dilatação (já estava com 5cm!). Vendo que as contrações estavam intensas, a EO sugeriu que eu entrasse no banho,o que recusei porque nãoqueria ficar de cabelo molhado, o que me incomoda muito (e, confesso, também pensava que eu teria que pentear cabelo, fiquei com preguiça e com medo de ficar descabelada e parecer muito maluca quando chegasse a hora de ir para a maternidade). Marido aproveitou a chegada dela para levar o cachorro para passear e eu fiquei curtindo minhas dores. Lembro de conversar bastante com a enfermeira (que é uma fofa, uma doçura, super divertida e carinhosa) e também de estar bem contente. Marido aproveitou a saída e, a meu pedido, comprou chocolate e água de côco. Eu sabia que precisava me manter hidratada e, como tenho pânico de vômito, não quis comer nada em grande quantidade, para não correr o risco de vomitar (sim, ocitocina é um hormônio que dá náusea e é bem comum vomitar durante o trabalho de parto). Fiquei mordiscando o chocolate e bebericando a água de côco, mas, para falar a verdade, comi e bebi muito pouco: meu medo falou mais alto.
Em algum momeno entre 10 e 11 da manhã a EO sugeriu que eu trocasse as bolsas de água quente (que eu vinha usando desde cerca das 8h) por um banho quente e eu aceitei. Mas não sem antes vestir uma blusa e justificar para a enfermeira: "não quero ficar com os peitos ao léu, balançando." Eu, heim! Lá fui eu, então, seminua, para o banho. De repente surgiu, sei lá de onde, minha bola de pilates (que eu nem sei onde estava guardada), uma toalha e um chuveiro ligado. Entrei no meu boxe minúsculo com bola e toalha (para sentar em cima e para, caso a bolsa estourasse, a gente pudesse ver a cor do líquido amniótico e contorlar se havia mecônio) e fiquei lá, gemendo alto, gritando, relaxando com a água quente. Para quem se lembra, já falei aqui que meu banheiro dá para o vão central do prédio, então todo mundo ouve todo mundo no banheiro, e se não fecharmos a porta do banheiro, nossa privacidade pode ficar um pouco afetada. No começo do TP, me preocupava em fechar a porta do banheiro cada vezque ia fazer xixi, para que meus gritinhos (e depois gritos e gemidos) não assustassem a vizinhança. Nesse momento, dentro do banho, lembro de ter pensado: os vizinhos vão me escutar, mas que se dane. Tá doendo e ninguém tem nada com a minha vida.
Saí do banho porque senti falta de ar. Não sei como é com vocês, mas eu, às vezes, me sinto meio sufocada em um banho quente. E aquele era um banho beeeeem quente. Me sequei e me vesti (já a roupa que eu havia separado para ir para a maternidade) com a ajuda da enfermeira, que também sugeriu que eu colocasse um absorvente pós-parto (que é IMENSO, quase uma fralda!) para relaxar durante as contrações (lembram que eu ficava com a sensação de que faria xixi?) e para evitar que eu molhasse tudo caso a bolsa estourasse (e, novamente, para garantir que veríamos a cor do líquido). Foi realmente ótimo, porque relaxei bem. Lembro que nesse momento eu notei que as contrações deram uma espaçada e comentei com a enfermeira, que disse ser algo normal, já que eu havia relaxado. Em uma das primeiras contrações pós-banho, ainda sem absorvente, senti uma água escorrer e falei: "acho que minha bolsa estourou." Ela verificou e viu que o líquido estava claro. Isso, confesso, é um grande mistério no meu TP, porque eu jurava que minha bolsa havia estourado ali, naquele momento, e o absorvente serviria para evitar que o líquido, que fatalmente sairia, molhasse tudo. Mas, mais tarde, minha GO, dentro da sala de parto, disse: "Sua bolsa acabou de estourar!" Então, confesso, não faço ideia de quando a bolsa estourou.
Depois do banho a EO perguntou se poderia fazer novo toque e eu permiti, desde que, novamente, ela não me revelasse a dilatação. Assim foi feito e a EO telefonou para a GO. Ao desligar, veio falar comigo: "você decide se quer ir para a maternidade agora ou se prefere esperar mais um pouco." Eu quis ir. E ri: "passei nove meses falando que não queria parir ao meio-dia, e vou parir o meio-dia." A EO disse que eu não iria parir ao meio-dia e começamos a organizar minha ida. Eu queria chegar rápido ao hospital porque as contrações estavam muito fortes e eu não imaginava entrar num carro, ficar restringida em minha liberdade de locomoção e fadada a manter a mesma posição dentro do carro, com dores ainda mais intensas e, quem sabe, até mesmo menos espaçadas. Falei isso com a EO e ela entrou em contato com a GO, que partiu para a maternidade, onde nos encontraríamos. Nosso plano inicial era ir para uma maternidade aqui no Rio que tem sala de parto humanizado, com banheira e ambiente menos "frio" (embora fique dentro de um centro cirúrgico). Só que existem duas dessas maternidades aqui, uma mais perto da minha casa, mas que só tem uma sala de parto humanizado, e outra mais distante, que conta com mais salas desse tipo. Isso significa que nossa ideia inicial era tentar chegar na maternidade com mais salas de parto humanizado, mas eu estava com muitas dores e 9cm de dilatação (embora eu ainda não soubesse disso) e resolvemos ir para a maternidade mais próxima.
Cheguei em casa e nada mais aconteceu... até que às duas da manhã, já no dia 17, comecei a sentir contrações suaves, porém ritmadas. Estava na internet, insone (como vinha acontecendo com frequência no fim da gravidez), quando senti umas dores parecidas com cólicas menstruais. Procurei me distrair, mas fiquei de olho na frequência, se estavam vindo com algum ritmo. Não me precupei neste momento em marcar os minutos certinho, apenas via se a cada 10 ou 15 minutos eu tinha tido contrações. Por volta das 4 da manhã, as contrações ficaram mais poderosas e eu não conseguia me concentrar em outra coisa quando elas apareciam: se eu estivesse lendo algo, não conseguia entender muito bem o trecho, se estivesse escutando uma música, não prestava atenção na letra. Meu marido dormia, e confesso que a tentação de acordá-lo foi grande, mas pensei que ele precisaria dirigir e, por isso, não poderia estar muito cansado e eu ainda teria muitas horas de trabaho de parto pela frente. Eu sabia que estava começando o trabalho de parto e passei a contar os intervalos das contrações. Então, às 6 da manhã, eu não conseguia mais cronometrar nada, e acordei meu marido para me ajudar a contar a contrações. Ele, sonado, não levou muito a sério meu pedido porque achou que as contrações fossem estar espaçadas ainda. Quando, às 6h30, ele notou que a cada 3 minutos eu contraía, levantou e passou a anotar tudinho. Perguntou, então, se eu queria entrar em contato com a minha equipe, mas eu ainda achava que era cedo demais (ninguém merece ser acordado num domingo, às 6h30 da matina, para um trabalho de parto ainda no comecinho, né?). A cada contração eu agachava na beirada da cama e soltava uns gritinhos. Também ia muito ao banheiro, porque a impressão que eu tinha era de que eu faria xixi durante as contrações e a última coisa que eu queria era limpar chão em pleno trabalho de parto. Fui levando, com ajuda do maridão, até às 8 da manhã, quando contatei a equipe e comecei a mergulhar mais fundo no processo. As contrações ainda vinham de 3 em 3 minutos, mas estavam mais fortes. Lembro que entre uma contração e outra eu não sentia nada, exceto por uma dor bastante forte e incômoda (mais incômoda que a própria contração) no músculo adutor da perna esquerda assim que a contração passava. Na hora, pelo telefone, comentei o fato com a enfermeira que me acompanharia e não me lembro o que ela disse, mas era normal. Hoje, pensando sobre o assunto, faz todo sentido que eu estivesse estirando/dilatando o meu músculo mais resistente e atrofiado.
Também liguei para minha GO para avisar do progresso (eu já havia telefonado no dia anterior e minha enfermeira tinha contatado ela) e, mais tade, depois de Arthur nascer, fiquei sabendo que minha GO ligou para a minha EO e avisou: "ela está em trabalho de parto, sim, porque está gritando. Você já viu a Ártemis gritar por alguma coisa?"
O combinado era minha enfermeira vir me acompanhar em casa, pelo máximo de tempo que eu aguentasse, até que eu quisesse ir para o hospital. Minha GO seguiria diretamente para a maternidade.
Por volta das 9h30 a enfermeira, então, chegou aqui em casa e foi devidamente recepcionada por meus gritos (que agora já não eram baixinhos como antes, mas mais fortes, intensos e poderosos) e por meu boxer. Não lembro a sequência certinha, mas sei que logo que chegou a enfermeira obstétrica pediu para auscultar o bebê e para verificar a dilatação. Aceitei tudo, mas disse que não queria, de jeito nenhum, saber a quantas andava minha dilatação. Primeiro porque eu estava com dores havia bastante tempo, e elas não estavam fraquinhas, não. Assim, se eu descobrisse que estava com 1cm apenas, depois de tanta dor e de tanto tempo, eu ficaria louca. Disse isso para ela, de maneira um pouco mais dramática ("Se eu estiver com 1cm, me jogo da varanda"). Outra razão para não querer saber da dilatação devia-se ao fato de eu ser muito controladora, e fiquei realmente com medo de saber da dilatação e ficar fazendo contas e previsões sobre quando Arthur nasceria. Eu queria e precisava mergulhar cada vez mais fundo no processo, me entregar às contrações, ao parto e deixar tudo acontecer, sem tentar controlar ou prever qualquer coisa. A EO, então, auscultou o bebê (tudo certo! Tudo lindo!) e verificou a dilatação (já estava com 5cm!). Vendo que as contrações estavam intensas, a EO sugeriu que eu entrasse no banho,o que recusei porque nãoqueria ficar de cabelo molhado, o que me incomoda muito (e, confesso, também pensava que eu teria que pentear cabelo, fiquei com preguiça e com medo de ficar descabelada e parecer muito maluca quando chegasse a hora de ir para a maternidade). Marido aproveitou a chegada dela para levar o cachorro para passear e eu fiquei curtindo minhas dores. Lembro de conversar bastante com a enfermeira (que é uma fofa, uma doçura, super divertida e carinhosa) e também de estar bem contente. Marido aproveitou a saída e, a meu pedido, comprou chocolate e água de côco. Eu sabia que precisava me manter hidratada e, como tenho pânico de vômito, não quis comer nada em grande quantidade, para não correr o risco de vomitar (sim, ocitocina é um hormônio que dá náusea e é bem comum vomitar durante o trabalho de parto). Fiquei mordiscando o chocolate e bebericando a água de côco, mas, para falar a verdade, comi e bebi muito pouco: meu medo falou mais alto.
Em algum momeno entre 10 e 11 da manhã a EO sugeriu que eu trocasse as bolsas de água quente (que eu vinha usando desde cerca das 8h) por um banho quente e eu aceitei. Mas não sem antes vestir uma blusa e justificar para a enfermeira: "não quero ficar com os peitos ao léu, balançando." Eu, heim! Lá fui eu, então, seminua, para o banho. De repente surgiu, sei lá de onde, minha bola de pilates (que eu nem sei onde estava guardada), uma toalha e um chuveiro ligado. Entrei no meu boxe minúsculo com bola e toalha (para sentar em cima e para, caso a bolsa estourasse, a gente pudesse ver a cor do líquido amniótico e contorlar se havia mecônio) e fiquei lá, gemendo alto, gritando, relaxando com a água quente. Para quem se lembra, já falei aqui que meu banheiro dá para o vão central do prédio, então todo mundo ouve todo mundo no banheiro, e se não fecharmos a porta do banheiro, nossa privacidade pode ficar um pouco afetada. No começo do TP, me preocupava em fechar a porta do banheiro cada vezque ia fazer xixi, para que meus gritinhos (e depois gritos e gemidos) não assustassem a vizinhança. Nesse momento, dentro do banho, lembro de ter pensado: os vizinhos vão me escutar, mas que se dane. Tá doendo e ninguém tem nada com a minha vida.
Saí do banho porque senti falta de ar. Não sei como é com vocês, mas eu, às vezes, me sinto meio sufocada em um banho quente. E aquele era um banho beeeeem quente. Me sequei e me vesti (já a roupa que eu havia separado para ir para a maternidade) com a ajuda da enfermeira, que também sugeriu que eu colocasse um absorvente pós-parto (que é IMENSO, quase uma fralda!) para relaxar durante as contrações (lembram que eu ficava com a sensação de que faria xixi?) e para evitar que eu molhasse tudo caso a bolsa estourasse (e, novamente, para garantir que veríamos a cor do líquido). Foi realmente ótimo, porque relaxei bem. Lembro que nesse momento eu notei que as contrações deram uma espaçada e comentei com a enfermeira, que disse ser algo normal, já que eu havia relaxado. Em uma das primeiras contrações pós-banho, ainda sem absorvente, senti uma água escorrer e falei: "acho que minha bolsa estourou." Ela verificou e viu que o líquido estava claro. Isso, confesso, é um grande mistério no meu TP, porque eu jurava que minha bolsa havia estourado ali, naquele momento, e o absorvente serviria para evitar que o líquido, que fatalmente sairia, molhasse tudo. Mas, mais tarde, minha GO, dentro da sala de parto, disse: "Sua bolsa acabou de estourar!" Então, confesso, não faço ideia de quando a bolsa estourou.
Depois do banho a EO perguntou se poderia fazer novo toque e eu permiti, desde que, novamente, ela não me revelasse a dilatação. Assim foi feito e a EO telefonou para a GO. Ao desligar, veio falar comigo: "você decide se quer ir para a maternidade agora ou se prefere esperar mais um pouco." Eu quis ir. E ri: "passei nove meses falando que não queria parir ao meio-dia, e vou parir o meio-dia." A EO disse que eu não iria parir ao meio-dia e começamos a organizar minha ida. Eu queria chegar rápido ao hospital porque as contrações estavam muito fortes e eu não imaginava entrar num carro, ficar restringida em minha liberdade de locomoção e fadada a manter a mesma posição dentro do carro, com dores ainda mais intensas e, quem sabe, até mesmo menos espaçadas. Falei isso com a EO e ela entrou em contato com a GO, que partiu para a maternidade, onde nos encontraríamos. Nosso plano inicial era ir para uma maternidade aqui no Rio que tem sala de parto humanizado, com banheira e ambiente menos "frio" (embora fique dentro de um centro cirúrgico). Só que existem duas dessas maternidades aqui, uma mais perto da minha casa, mas que só tem uma sala de parto humanizado, e outra mais distante, que conta com mais salas desse tipo. Isso significa que nossa ideia inicial era tentar chegar na maternidade com mais salas de parto humanizado, mas eu estava com muitas dores e 9cm de dilatação (embora eu ainda não soubesse disso) e resolvemos ir para a maternidade mais próxima.
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quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Ainda sobre amamentação, maternidade e amor
Meu filho mama como se fosse uma coisa preciosa. É lindo demais: ele se aconchega no meu colo, procura o seio, abocanha revirando os olhinhos e suspirando fundo, como quem diz "era disso que eu precisava", coloca as mãozinhas sobre meu seio, assegurando-se de que nada lhe escapará, nem o alimento, nem o amor, e mama com vontade. Cada hora, uma vontade: dormir, sonhar, se acalmar, receber o carinho da mãe, passar soluço, aliviar a necessidade de sucção e até se alimentar. No fim, ele sorri, ainda com meu seio na boca, e sejoga para trás, demonstrando a confiança cega que deposita em mim. Justo em mim! Mulher falha, cheia de defeitos, inseguranças e não-sabismos. Por mais que eu leia, me informe e me empenhe em melhorar, sinto que estou ainda muito distante da perfeição que é meu filho. Porém, numa das muitas contradições da maternidade, e sem qualquer modéstia, me acho uma ótima mãe para Arthur. Não pelos sacrifícios que fiz, faço e farei por ele, mas pelo imenso prazer que encontro em ser sua mãe. É bom, muito bom, acordar de madrugada e saber que tenho o poder de aliviar sua angústia, sua fome ou se desconforto. É muito poderoso saber que minha voz o acalma, meu colo o embala e meu seio o sacia. E hoje entendo porque, mesmo com tanto sofrimento (e ainda me dói muito o seio esquerdo), insisti na amamentação, mesmo sem ter um motivo muito claro: percebi que o contato íntimo e visceral promovido pela amamentação é o que tenho de mais parecido com a intimidade da gravidez e com a força do parto que tivemos. É, portanto, através da amamentação que mergulho mais e mais fundo na relação com meu filho. É assim que me nutro da força que preciso (e quero) ter para fazer crescer meu filho, meu amor, minha alegria.
PS: Arthur está com apenas 4kg. Torçam comigo para que não precisemos complementar sua alimentação.
PS: Arthur está com apenas 4kg. Torçam comigo para que não precisemos complementar sua alimentação.
terça-feira, 10 de julho de 2012
A mão de vaca não é amor de vaca
Joguem pedras. Ou melhor, joguem suas tetas empedradas sobre mim e o leite mau na cara dos caretas.
É que a dona das divinas tetas aqui está numa luta árdua, doloridíssima, regada a sangue e analgésico contra o inferno que é amamentar.
Meu mamilo esquerdo está literalmente pela metade, já que Arthur deve ter sugado em suas ávidas mamadas na madrugada micropedaços e amolecido com sua saliva biônica outros micropedaços, que grudaram em camisas, casacos, sutiãs e tops. As conchas de amamentação me fizeram derramar lágrimas demais para que eu as usasse mais que duas vezes. O lado bom da mama esquerda é que depois do minuto inicial de dor suprema, quando aquela boquinha tão delicada e pequenininha do meu filho reabre a enorme ferida no meu bico, tudo fica praticamente indolor (exceto por pontadas, mordiscadas fora do prumo ou perdas de pega ao longo da mamada).
Meu mamilo direito já sangrou, rachou e cicatrizou, e tem, desde a sala de parto, a pega mais fácil para mim. Some-se isso ao fato de que meu seio esquerdo está mutilado e teremos o seio da chupeitação, aquela prática de tortura milenar, praticada por todos os bebês humanos, desde priscas eras. Bebês das cavernas, que não faziam ideia do que era uma chupeta, já chupeitavam suas mães (aliás, quem será que teve a péssima ideia de colocar um delicado e sensível mamilo na boca surrealmente potente e massacrante de um recém-nascido?! Nem argumentar é possível com um ser tão pequeno! Porque quando maridos, namorados e afins passam dos limites com nossos mamilos, podemos gritar e argumentar, né? Mas vai explicar para um bebê de 23 dias que dói como a morte essas mordiscadas na beirinha do bico, a chupeitação toda...). E aqui em casa, essa chupeitação teve como consequência uma dor constante e intensa, durante toda a mamada.
Então, todos os dias, a cada chorada do meu pequeno, preciso escolher entre uma dor lancinante e enlouquecedora por cerca de um minuto, ou uma dor tolerável por toda a mamada.
Além disso, carrego nos peitos outras dores, mais subjetivas, é verdade. A primeira delas diz respeito ao ritmo do Arthur. De manhã ele passa o dia INTEIRO pendurado no peito. E não dorme fora do peito (nem no meu colo). E chora quando está fora do peito, e chora até quando está mamando. E puuuuuxa meus bicos com a boquinha dermo-abrasiva com vacuosucção e belisca e aperta meus seios e mamilos com suas unhas-alfinete, numa bastante evidente demonstração de que fisicamente ele é todinho o meu marido, mas em termos de gênio puxou mesmo à mamãe. Eu limpo nariz, visto, dispo, seguro, converso, choro e não sei mais o que fazer. Dói muito não conseguir entender o que o deixa tão irritado. Já até pensei que poderia ser falta de leite na peitola, mas não é, não.
Outra dor que sinto mora nos peitos (que doem cheios, vazios, se enchendo e se esvaziando), nos braços, ombros, costas, pernas e pés, e vem da imensa tensão que sinto ao dar de mamar. A qualquer momento posso perder a pega, levar uma mordida, um beliscão, uma puxada nos mamilos ou posso sentir gengivas potentes morderem com vontade um bico pela metade. Impossível relaxar.
E a última dor deste post atende pelo nome de chupeta. Comprei, usei e estou sofrendo a cada sugada que meu filho dá no objeto endemonizado por mães-modelo e por mim (porque usei chupeta quando era criança e foi um trauma terrível e até hoje lembrado por mim quando resolveram que era hora de eu parar com o hábito. Logo, não queria que meu filhote corresse o risco de passar por essa experiência horrorosa). Sofro porque me sinto péssima e morro de medo de que Arthur largue o peito, comece a pegar errado de novo, tenha problemas de fala, de superação da fase oral, problemas de dentição. Enfim. Medo, culpa e frustração, teu nome é chupeta!
Diante de tudo isto, às vezes me pergunto por que raios eu ainda insisto em amamentar, se tudo anda tão sacrificante e dolorido, e minha resposta é óbvia (para mim): se eu fiz o melhor que pude no parto do meu filho, também vou tentar oferecer a ele o melhor alimento. Mas sempre tem aquela pessoa absolutamente irritante, que desdenha das suas posições e opções e dá conselhos, pitacos e dicas não solicitadas. Para essas pessoas eu uso o melhor argumento-paisagem que pude arrumar: não quero abrir mão da amamentação porque sou mão de vaca e não quero gastar rios de dinheiro com leites artificiais, mamadeiras, bicos e esterelizadores.
E assim, sigo amamentando (e chorando e sofrendo horrores com essa coisa pavorosa que é ter o mamilo despedaçado), mentalizando que estou doando amor a meu filhote, um amor quase de vaca. E vocês, que nasceram na década de 1980 e viram o surgimento do Casseta e Planeta, sabem que mãe é mãe, paca é paca e mulher é tudo vaca. Ou, se preferirem algo menos machista e mais erudito, vamos de Caetano: dona das divinas tetas, derramarei o leite mau na cara dos caretas!
É que a dona das divinas tetas aqui está numa luta árdua, doloridíssima, regada a sangue e analgésico contra o inferno que é amamentar.
Meu mamilo esquerdo está literalmente pela metade, já que Arthur deve ter sugado em suas ávidas mamadas na madrugada micropedaços e amolecido com sua saliva biônica outros micropedaços, que grudaram em camisas, casacos, sutiãs e tops. As conchas de amamentação me fizeram derramar lágrimas demais para que eu as usasse mais que duas vezes. O lado bom da mama esquerda é que depois do minuto inicial de dor suprema, quando aquela boquinha tão delicada e pequenininha do meu filho reabre a enorme ferida no meu bico, tudo fica praticamente indolor (exceto por pontadas, mordiscadas fora do prumo ou perdas de pega ao longo da mamada).
Meu mamilo direito já sangrou, rachou e cicatrizou, e tem, desde a sala de parto, a pega mais fácil para mim. Some-se isso ao fato de que meu seio esquerdo está mutilado e teremos o seio da chupeitação, aquela prática de tortura milenar, praticada por todos os bebês humanos, desde priscas eras. Bebês das cavernas, que não faziam ideia do que era uma chupeta, já chupeitavam suas mães (aliás, quem será que teve a péssima ideia de colocar um delicado e sensível mamilo na boca surrealmente potente e massacrante de um recém-nascido?! Nem argumentar é possível com um ser tão pequeno! Porque quando maridos, namorados e afins passam dos limites com nossos mamilos, podemos gritar e argumentar, né? Mas vai explicar para um bebê de 23 dias que dói como a morte essas mordiscadas na beirinha do bico, a chupeitação toda...). E aqui em casa, essa chupeitação teve como consequência uma dor constante e intensa, durante toda a mamada.
Então, todos os dias, a cada chorada do meu pequeno, preciso escolher entre uma dor lancinante e enlouquecedora por cerca de um minuto, ou uma dor tolerável por toda a mamada.
Além disso, carrego nos peitos outras dores, mais subjetivas, é verdade. A primeira delas diz respeito ao ritmo do Arthur. De manhã ele passa o dia INTEIRO pendurado no peito. E não dorme fora do peito (nem no meu colo). E chora quando está fora do peito, e chora até quando está mamando. E puuuuuxa meus bicos com a boquinha dermo-abrasiva com vacuosucção e belisca e aperta meus seios e mamilos com suas unhas-alfinete, numa bastante evidente demonstração de que fisicamente ele é todinho o meu marido, mas em termos de gênio puxou mesmo à mamãe. Eu limpo nariz, visto, dispo, seguro, converso, choro e não sei mais o que fazer. Dói muito não conseguir entender o que o deixa tão irritado. Já até pensei que poderia ser falta de leite na peitola, mas não é, não.
Outra dor que sinto mora nos peitos (que doem cheios, vazios, se enchendo e se esvaziando), nos braços, ombros, costas, pernas e pés, e vem da imensa tensão que sinto ao dar de mamar. A qualquer momento posso perder a pega, levar uma mordida, um beliscão, uma puxada nos mamilos ou posso sentir gengivas potentes morderem com vontade um bico pela metade. Impossível relaxar.
E a última dor deste post atende pelo nome de chupeta. Comprei, usei e estou sofrendo a cada sugada que meu filho dá no objeto endemonizado por mães-modelo e por mim (porque usei chupeta quando era criança e foi um trauma terrível e até hoje lembrado por mim quando resolveram que era hora de eu parar com o hábito. Logo, não queria que meu filhote corresse o risco de passar por essa experiência horrorosa). Sofro porque me sinto péssima e morro de medo de que Arthur largue o peito, comece a pegar errado de novo, tenha problemas de fala, de superação da fase oral, problemas de dentição. Enfim. Medo, culpa e frustração, teu nome é chupeta!
Diante de tudo isto, às vezes me pergunto por que raios eu ainda insisto em amamentar, se tudo anda tão sacrificante e dolorido, e minha resposta é óbvia (para mim): se eu fiz o melhor que pude no parto do meu filho, também vou tentar oferecer a ele o melhor alimento. Mas sempre tem aquela pessoa absolutamente irritante, que desdenha das suas posições e opções e dá conselhos, pitacos e dicas não solicitadas. Para essas pessoas eu uso o melhor argumento-paisagem que pude arrumar: não quero abrir mão da amamentação porque sou mão de vaca e não quero gastar rios de dinheiro com leites artificiais, mamadeiras, bicos e esterelizadores.
E assim, sigo amamentando (e chorando e sofrendo horrores com essa coisa pavorosa que é ter o mamilo despedaçado), mentalizando que estou doando amor a meu filhote, um amor quase de vaca. E vocês, que nasceram na década de 1980 e viram o surgimento do Casseta e Planeta, sabem que mãe é mãe, paca é paca e mulher é tudo vaca. Ou, se preferirem algo menos machista e mais erudito, vamos de Caetano: dona das divinas tetas, derramarei o leite mau na cara dos caretas!
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