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quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Precisamos falar sobre Rozebroeken

Precisamos falar sobre Rozebroeken. Quer dizer, eu preciso falar sobre Rozebroeken, seja lá o que isso signifique em holandês. Mas, Ártemis, como é que você vai falar de uma coisa que não sabe o que é? Ah, eu posso não falar holandês, mas além de ter o google translator a meu lado, eu sei o que Rozebroeken significa em português, e ousaria até dizer em todas as línguas do mundo: o paraíso das águas cloradas!
Rozebroeken é, simplesmente, um complexo indoor de piscinas de águas deliciosamente aquecidas e brinquedos, e tobogãs, e escorregas, e uma piscina de ondas, e spa, e área com hidromassagem, e restaurante onde toda a família pode ir se divertir.
Fica a uma hora de caminhada daqui de casa (15 minutos de bike, se um dia eu perder o medo de me estabacar debaixo de um trole ou de beijar os paralelepípedos históricos) e foi a melhor coisa que fizemos aqui.
Dirão os eruditos: mas e o castelo de 1080? e os passeios de barco pelos canais? e a história, os monumentos e prédios históricos, a cultura flamenga?
Bróder, eruditos podem até ter filhos, mas eles com certeza não tem a voltagem do meu pequeno! Arthur passou uma semana falando do raio do castelo, levamos ele lá para dentro e o menino percebeu que era um museu, onde não poderia correr, gritar, pular, lamber o vidro e nem comer pedra (sim, ele tentou fazer tudo isso). Então passamos da etapa 1 para a etapa 14 da visitação, que por sinal era a última e terminava no pátio de areia entre o muro e o castelo, e ali ficamos até sermos expulsos pelo velhinho rabugento que tomava conta da portaria.
Dito isso, reafirmo: que mané essas coisinhas turísticas e históricas. Bom mesmo foi o Rozebroeken e seus milhares de litros cúbicos de água. Bom mesmo foi ir no tobogã com Arthur e ter um micro-enfarto quando ele, por três longos segundos, escapoliu do meu colo e tomou um senhor caldo no meio da correnteza. Bom mesmo foi levar um apitaço dos guarda-vidas porque Arthur estava ESCALANDO as estatuetas cuspidoras de água e gritando "olha, mamãe! tô aqui no alto!", e marido, míope em um grau ensurdecedor - quem é míope ou convive com um sabe que ocorre um fenômeno sinestésico e assim que umx míope tira os óculos, elx fica automaticamente surdx - gritando do outro lado "vai lá você, Ártemis!", embora ele estivesse a poucos passos do lugar  enquanto eu, tentando não desmaiar de fome, esperava com o dinheiro do troco na mão pelo sanduíche que pedi no restaurante. Bom mesmo foi entrar correndo, então, na piscininha infantil e levar aquele estabaco patético, em que só um lado da cara mergulha, bagunçando o cabelo parcialmente, mas arrasando por completo com a dignidade, só porque você fez um malabarismo inacreditável e salvou os cinco euros que estavam em sua mão. Vejam bem: entre a minha dignidade e cinco euros eu ando escolhendo a bufunfa!
Bom foi Arthur chegar em casa, pedir para comer, comer, pedir sobremesa, comer a sobremesa, pedir para escovar os dentes e passar fio dental (!!!) e, finalmente, colocar o pijama e dizer "mamãe, eu te amo e quero dormir". Como não amar Rozebroeken, esse lugar que acabei de conhecer, mas que já considero pacaraleo? Como não amar seu tobogã onde um gringo (local, na verdade) pinguço me canta? Como não amar seus guarda-vidas se escangalhando de rir do meu tombo?
Olha, se alguém que está lendo meu blog vier passear nestas bandas daqui, com ou sem criança, recomendo muito que vá visitar Rozebroeken e suas águas maravilhosas. Como é indoor, é programa também para inverno, viu?
E para completar minha paixão o lugar tem: 1) cercadinho/bercinho ao lado do restaurante para colocar o bebê molhado enquanto você come, sem precisar sair correndo atrás do engatinhante ou caminhante kamikase; 2) chuveirão coletivo e escaldante (ótimo para relaxar os pequenos depois da piscinada); 3) atividades para todas as idades (tem uma piscina IMENSA com estrutura para diversos esportes aquáticos e, pelo que entendi, eles têm aulas de hidro, natação e cia.); 4) passe familiar; 5) gente disposta a ajudar você com o braceletes high-tech que eles nos dão na entrada e que servem para acionar de um tudo ali dentro, inclusive as travas dos armários no vestiário).


Site oficial aqui.


Tobogã ou "rio selvagem".

Piscinhinha da perda da dignidade. No meio dá para ver a lagarta que Arthur escalou.

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

O drama das malas (e outras histórias) - parte 2

[Clica aqui para ver a parte 1]
Chegamos ao aeroporto com cinco malas: duas grandes, uma imensa (lembra que compramos uma mala? Pois é, escolhemos a maior da loja!) e duas malas de mão. E mochilinha do Arthur e carrinho, claro.
Sair do táxi foi uma prévia do que viria pela frente, mas resolvi viver um minuto de cada vez, caso contrário eu surtaria ali mesmo, no embarque.
Bom, chegamos com algum esforço e muito suor ao balcão de atendimento da companhia aérea. Ali, havia duas balanças, onde pesamos todas as nossas malas (e também nosso filho, já que não consegui marcar consulta com a pediatra antes de virmos embora) e constatamos, não sem um desespero profundo e intenso se apossar de nós, que havia sobrepeso.
Sobrepeso é um nome bem bonito para taxa extra, né? Para um "estão fodidos e vão ficar ainda mais duros antes de embarcar".
Abrimos as malas no aeroporto (por favor, visualizem a cena) e ponderamos como poderíamos passar uns quilos para as malas de mão. Bichinhos de pelúcia foram realocados, cogitamos jogar fora o tapete de brincadeiras do Arthur (também conhecido como Arthurópolis), retiramos um casacão pesadão do maridão e... tchanã! Todas as malas dentro do peso ideal, menos a gigante recém-comprada, que continuava com sobrepeso. Não tinha jeito, não iríamos conseguir redistribuir mais de dez quilos de tralha, então decidimos ficar dentro da primeira faixa de excesso de peso da bagagem. Paciência (tô aceitando frila, viu? se alguém do meu círculo profissional estiver lendo isto, por favor, mande mensagem e trabalho). Aí, fomos fazer o check-in e gerar os bilhetes de embarque. O que poderia acontecer de errado? Nada, certo? O mais difícil tinha passado.
ahahaha (riam comigo)
(mais um pouco)
Já falei aqui que Arthur tem um nome bem comprido e que isso, nos EUA, é uma coisa tipo bizarramente louca e esquisita. Pois bem: a máquina digitalizadora não conseguia ler os sobrenomes do menino e ficamos muuuuuuuuitos minutos tentando gerar os bilhetes. No fim, não conseguimos, e fomos advertidos pelo moço da companhia que poderíamos ter problemas no embarque por conta da fiscalização, que o atendente que fizesse a checagem dos bilhetes precisaria ser compreensivo, já que o nome do Arthur saiu errado/cortado. Ok. Tem outro jeito? Então vamos.
Vocês escolheram uma fila com um atendente paciente e compreensivo? Nem a gente. Precisamos chamar o rapaz da companhia aérea, que veio explicar por que o nome estava diferente do passaporte e tal e, finalmente, passamos.
Ufa! Sem mala, com check-in feito, de posse dos bilhetes de embarque... já sonhava com os sonhos lindos que teria dentro da aeronave. Com as horas que passaria relaxando, sentada, sem carregar mala, sem correr. Com as horas que passaria...
Ah, sim, onde eu estava? Estava, enfim, embarcando. Mas não sem antes ter um filho que se enturmou com duas crianças no saguão do aeroporto e tocou o terror, correndo e passando por baixo das fitas que formavam o serpear das filas de embarque em frente aos guichês. Passageiros sorriam, passageiros faziam caras de reprovação, passageiros eram empurrados e atropelados por aquelas crianças desgovernadas, mas eu deixei. E deixei conscientemente. Porque, pensei eu, é muito melhor que ele queira correr FORA do avião do que DENTRO. E bem melhor que ele gaste energia, que se canse e extravaze para que façamos uma viagem com uma criança cansada. E vocês sabem: criança cansada é criança feliz.
Bom, não posso dizer que foi um voo perfeito, mas também não foi um desastre. Tirando o fato de que eu morro de medo de avião e qualquer balancinho me faz estremecer, tirando o fato de que não sobrou comida para o Arthur (não a que ele queria, pelo menos), tirando o fato de que nos sentamos na última poltrona da aeronave e, acima de tudo, tirando o fato de que eu não consegui pregar os olhos durante absolutamente todas as horas de voo por causa do fuso e do estresse acumulado, o voo não foi terrível.
Terrível mesmo foi a chegada. Primeiro porque não dormi. Segundo porque a companhia aérea perdeu nosso carrinho e Arthur, cansado, sonolento e, óbvio, irritadiço, não encarou isso numa boa (nem eu). Terceiro porque depois da imigração, recuperamos as malas, que eram apenas três, mas ainda assim davam muito trabalho.
Vou resumir aqui as mais de DUAS horas que gastamos entre pegar as malas e ir reclamar da perda do carrinho: foi FODA.
Minha pressão deu chilique, Arthur deu chilique, marido deu chilique, eu dei chilique. Estávamos todos exauridos, esgotados. Acho que marido era o pior de todos, embora tenha conseguido dormir, porque parte da correria final ficou nas costas dele, incluindo reclamar o carrinho, já que Arthur só queria ficar comigo e ele precisou ir sozinho.
Vocês acham que acabou, só porque chegamos em solo belga?
Nã-nã-ni-nã-não!
Chegamos em Bruxelas. Moramos em Ghent. Ou seja: precisávamos pegar um fucking trem até a cidade e, de lá, sabe-se lá o quê mais.
Amigxs, deem aqui um abraço, deem. Eu não sei o que eu fiz na encarnação passada, mas deve ter sido pesado. Porque esse karma de viagem zicada não passa! Ártemis, viajando com caos since 1982.
Descobrir como pegava o trem, arrastando duas malas grandes, uma imensa, duas de mão e uma criança mau humorada de cansaço pelo aeroporto e pela estação de trem foi uma prova de resiliência e determinação incríveis. E, enfim, quando conseguimos comprar as passagens, ir para a plataforma de embarque correta (obrigada, Bélgica, pelos elevadores na estação de trem!), sentarmo-nos em um dos bancos duros do saguão... Arthur quer fazer xixi. O trem chegava em cinco minutos, não havia tempo para ir procurar um banheiro, não havia alguém para perguntar se tinha banheiro dentro do trem, não havia mais fralda que evitasse um acidente desastroso, mas existia a minha garrafinha de água, rapidamente transformada em banheiro.
Finalmente embarcamos no trem certo rumo ao destino certo!
E ele tinha banheiro (fica a dica).
Entre cochilos e "ohhhhs" por causa da paisagem, chegamos a Ghent.
Lembram que agradeci aos elevadores em estações de trem da Bélgica? Esqueçam!
Em Ghent não tem isso. A cidade é medieval e o que tinha eram uns portugueses solidários que nos ajudaram (obrigada! obrigada! obrigada) a descer com as malas por aquelas infinitas escadas da estação.
Cereja do sundae de cocô da nossa chegada foi tentarmos sacar dinheiro no caixa eletrônico para pegarmos um táxi e irmos para a cama, digo, para a casa que (assim esperávamos) tínhamos alugado pela internet, e o cartão ser BLOQUEADO porque nos esquecemos (não sabíamos que precisava) de desbloqueá-lo para ser usado fora dos EUA.
Acho que ficamos uma boa hora na estação de Ghent, ligando para o banco dos EUA, tentando resolver a pendenga.
Resolvemos, entramos no táxi, chegamos no endereço e... era uma casa de verdade! Ufa! O senhorio era um fofo, falou várias coisas, respondi como dava, mas lá pelas tantas me desculpei e expliquei que, para mim, eram quatro da manhã e ele, enfim, nos deu a chave da cama, digo, da casa.
O fuso me castigou, vocês já sabem, mas hoje eu vejo que o que não nos mata, nos fortalece: tinha uma celulite na minha coxa direita que foi extirpada com essa maratona de sobe-desce-puxa-empurra de malas. Quero dizer, foi extirpada no primeiro dia, porque aqui tem cerveja e chocolate, e a celulite está aqui de volta, firme e forte. Mas prometo que vou chegar o ao Rio sem ela: ainda temos três malas mais duas de mão para arrastarmos de volta, todo este trajeto de novo. E depois de novo. E de novo. E de novo...

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O drama das malas (e outras histórias)

[Vai amamentar porque é textão!]

Já falei que eram cinco. E já falei que teve drama. Mas acho que ninguém imagina o nível de drama. Só de lembrar me dá vontade de chorar, de jogar todos os meus trapos numa fogueira de adoração ao minimalismo e até mesmo virar adepta ao naturalismo, quem sabe? Afinal, ainda temos no horizonte Brasil, Angola e Chicago de volta. Com as malas.
Tudo começou, óbvio, em Chicago.
A casa era pequena, mas não era minúscula, e a quantidade de tralha que a gente acumula ao longo dos anos é realmente impressionante. Como disse marido, até hoje a gente espera a ligação do guarda-móveis dizendo que a porta de aço do nosso cubículo explodiu de tão cheio que ele estava.
Mas então, ainda lá em Chicago a gente fez a triagem das coisas que seriam guardadas e das que seriam descartadas. Muita coisa foi embora, muita coisa ficou, mas a gente ainda tinha as malas a serem feitas.
Começou o drama do combo amplitudes térmicas + crescimento do Arthur + não saber como lavaremos roupa em Angola. Tentei montar uma mala enxuta, mas existem coisas que precisavam vir com a gente, para dar a Arthur um sentido de continuidade, de pertencimento à próxima casa, né? Eu entendo que vamos ficar um ano fora, que é provisório, que as coisas profundas que compõem um lar não vão dentro da mala, mas dentro da gente. Acontece que Arthur tem 4 anos e não estava curtindo nada aquele bando de "encaixota", "joga fora", "doa".
Bom, fizemos nossas sete malas. Sete? Ué, não eram cinco?
Calma! Eu chego lá.
Fizemos sete malas na véspera de levar as coisas para o guarda-móveis, em meio a um processo de "desentulhamento" nunca visto antes, em meio a uma obsessiva limpeza de cantinhos e detalhes para não pagar multa (tem uma lista de coisas que você precisa limpar antes de entregar o apartamento - coisas, inclusive, que NÃO recebemos conforme o manual). Fizemos as malas logo depois que a última visita foi embora, porque, sim, tivemos 3 visitas nas semanas finais de encaixotamento. Fizemos as sete malas até de madrugada, mesmo sabendo que no dia seguinte, bem cedinho, nosso vizinho parça viria nos ajudar a carregar o caminhão com os móveis e as caixas que iriam ser armazenadas no guarda-móveis.
Pausa técnica: não sei se todo mundo sabe, eu não sabia, então vou contar. Sabe como as pessoas se mudam nos EUA? Tem duas maneiras que eu conheço: você contrata um caminhão com gente para transportar suas tralhas e deixa um rim como forma de pagamento, ou você contrata um caminhão, que será dirigido e carregado por você, e faz tudo por conta própria mesmo. Adivinhem qual foi a nossa "opção"? Isso mesmo. Alugamos um caminhãozinho que, com a ajuda do nosso vizinho camarada-salvador-da-pátria, enchemos com nossos móveis e tralhas a serem levados para o guarda-móveis. Lá no guarda-móveis, a mesma história: você faz tudo. Era um dia quente. Eu achei que fosse ter um treco, juro! Suei como se estivesse na UERJ nos áureos tempos adolescentes, dentro daquelas salas de aula sem ar nem ventilador e que refratavam os 50 graus do Maracanã para dentro das paredes de concreto. Carreguei muito peso, levantei caixas maiores que eu, equilibrei tralhas em posições que dariam inveja ao mais flexível praticante do Kama Sutra, fiz caber em um espaço de 25 pés quadrados (seja lá quanto for isso) três anos de Chicago + lembranças imperdíveis de 30 anos no Brasil. Ou seja: coisa bagarái. Devo tudo isso aos meus anos de prática com Tetris. 
Mas voltemos às malas.
As malas, então, ficaram ali no apartamento, semi-abertas, porque não tínhamos mais cabides, nem cômodas, nem nada. Na verdade, tínhamos tudo isso, mas guardado ou esvaziado.
Pois bem, fizemos o transporte das coisas, voltamos para um apartamento cheio de eco com as malas, e só as malas, já que todos os móveis estavam guardados. Foram dois dias até irmos para o hotel onde ficamos nos dois dias anteriores à viagem. Dois dias tensos. Dois dias desconfortáveis, dormindo no chão (menos Arthur, que ficou com o sofá velho que depois jogamos fora), comendo comida congelada com talheres de plástico e muitas outras coisinhas altamente precárias.
As malas, sete, não cabiam em um táxi comum. Uber XL era caro. Táxi XL idem. Decidimos, então, aproveitar a minivan que tínhamos alugado para levar tudo até o hotel. O carro não entrava na garagem porque era mais alto que as vigas, então manobramos com a ajuda do garagista, que vendo nós três descarregar malas e mais malas (e um painel solar IMENSO), perguntou se iríamos ficar meses, ao que respondemos "dois dias". Queria ter tirado foto da cara do homem. ahahah
Bom, primeiro dia foi dedicado a deitar nas camas macias e limpas do hotel, a tomar banhos quentes e longos, comer comida quente e prearada na hora, a ir à piscina e... a resolver milhares de pepinos que surgiram de última hora, o que anulou por completo nossas tentativas de desestressar. Lista esta que incluiu sair para comprar uma mala nova, bem grandona, porque descobrimos que uma das nossas tinha se quebrado. Que beleza!
Bom, o outro dia já era a véspera da viagem, então precisaríamos terminar de resolver a pepinada (que parecia, na verdade, um bando de ratos se reproduzindo alucinadamente) e começar a focar no deslocamento em si, nos processos de saída e chegada em dois países diferentes e essas coisas que vocês devem saber. Corre daqui, corre dali, a noite chegou, Arthur dormiu e fomos passar o pente fino no quarto (para não deixar nada para trás), nos documentos (idem) e, claro, reorganizar as malas. Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo fluindo. Até que marido resolveu cuidar da nossa chegada em Ghent (vou escrever o nome da cidade em inglês mesmo porque acho caído Gante). Decidimos agendar um serviço de shuttle e lá no contrato vinha dizendo que eles não cobravam as malas "normais", uma por passageiro mais a de mão. Opa! Acendeu o alerta vermelho e marido foi ver no site da companhia aérea. Eu, atrás dele, afirmava, convicta: claaaaro que são duas malas de até 32kg para cada um! Óbvio!
ahahahahahahahaha (riam comigo)
Lemos e relemos diversas vezes para nos certificarmos de que, sim, pela primeiríssima vez na vida (cof! cof!) eu estava errada. As regras para viagens ao Brasil são as que falei: duas malas de até 32kg. Mas, para a Europa, é uma malinha só e o peso não pode ultrapassar 23kg.
Neste momento, um letreiro luminoso se acendeu em minha testa, piscando em neon vermelho: FODEU! FODEU! FODEU!
Eram onze da noite, véspera da nossa fucking viagem, e tínhamos acabado de descobrir que precisaríamos deixar QUATRO das malas que estavam conosco. Como fazer isso? Onde colocar as QUATRO malas que precisaríamos deixar? A que horas terminaríamos de fazer tudo?
Nessa hora eu tive vontade de deitar em posição fetal e chorar até dormir. Mas eu dormiria rápido, e era véspera da viagem, então a única possibilidade era abrir TODAS - vou repetir - T-O-D-A-S as nossas malas e ver, peça por peça, o que iria e o que ficaria.
Conseguimos, com muito suor e esforço. As malas, que eram sete (fora as de mão e o painel solar), se transformaram em três + duas de mão. Marido ainda teria a árdua missão de levar e encaixar, sabe-se lá como e onde, as quatro malas remanescentes no nosso depósito já abarrotado até o teto (literalmente)!
Eram duas e meia da manhã quando fechamos o último zíper. Exaustos, desmaiamos por algumas horas, até que fomos acordados pelo despertador e recomeçou a correria: corre para tomar café, corre para pegar um táxi e levar as malas até o guarda-móveis, corre para fazer check-out, corre para dar tchau para os bibliotecários (sim, importantíssimo para nós), corre para resolver os últimos pepinos que exigiam nossa presença física, corre, corre, corre. Corra, Ártemis, corra! No primeiro final, Ártemis e família não conseguem. No segundo final, Ártemis e família se separam, marido embarca sozinho, ela e Arthur choram porque não conseguiram completar as etapas obrigatórias da gincana e perderam os passaportes. Mas no terceiro final, que foi o que decidi viver, tudo deu certo, aos trancos e barrancos, e fomos de táxi XL, falando francês, até chegarmos ao aeroporto.
(continua...)

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Belgicando

Entonces, esta (assim como as duas anteriores) é uma postagem programada. Porque, afinal, pensa só na loucura que é/foi fazer uma mudança internacional com filhote a tiracolo?
Pensou? Então multiplica essa conta ae porque também teve fechar e entregar apartamento nos EUA, alugar apartamento na Bélgica, empacotar, guardar, lavar, doar, jogar fora o apartamento inteiro dos EUA e, de brinde, mais 5 malas para fazer. Mas não quaisquer malas, não! Não, senhoras e senhores! Malas com roupas para: Bélgica (amplitude térmica de -4 a 30 graus), Brasil verão-Rio-40-graus (ok, essa aqui é moleza: biquíni, sunga e uns panos leves pra jogar por cima) e Angola (amplitude térmica de 13 a 30 graus). Mas não para por aí, lógico! Porque Arthur sai dos EUA com 4 anos e pouquinho e volta com 5 anos completos. Nesse meio tempo a gente espera que ele cresça, né? Comprar roupa na Bélgica pode ser em conta para os Belgas, mas pagando em Euro não fica em conta para a minha pessoa, e roupas no Brasil e em Angola (comparando com os preços dos EUA) não valem à pena. Então, tive de separar as roupas que ainda davam um gasto e comprar peças-chave que durassem um tempinho sem parecer que filhote estava usando as roupas do pai. Se consegui é um mistério que apenas o tempo dirá.
Mas essa postagem aqui é para dizer que tenho muitas coisas para contar. Coisas engraçadas, coisas bacanas, coisas loucas e surreais, como só acontecem na minha vida.
Pega aí seu waffle, sua cervejinha, seu chocolate e vem belgicar comigo, vem!

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Nosso lindo balão azul 2

Há pouco tempo, estivemos novamente na casa de uns amigos queridos. Aqueles mesmos que nos receberam no dia do balão azul. A tal festa do balão azul tinha acontecido algumas boas semanas atrás e eu mal me lembrava do episódio, sobretudo com Arthur correndo para cima e para baixo, brincando horrores com o amigo aniversariante, querendo roubar os brigadeiros da mesa e todos os pães de queijo da bandeja - sim, festas com brigadeiros e pães de queijo! <3
Ou seja, eu nem me lembrei de toda aquela choradeira do balão e passei horas muito divertidas com o filhote.
Na hora de ir embora, Arthur cisma com o quê? O quê? Isso mesmo: um balão azul!
Como gato escaldado tem medo de água fria, peço autorização para a anfitriã, retiro o balão escolhido por Arthur e vou embora com o brinquedo, me certificando de que o dito cujo está bem seguro e não será, sob hipótese alguma, esquecido.
Faço isso, mas acho que Arthur nem se lembra do ocorrido, afinal ele estava sonolento, depois daquela noite/madrugada ele nunca mais tocou no assunto e tudo isso aconteceu há algum tempo já.
Ledo engano: assim que entramos no uber filhote se vira para mim e exclama, todo feliz: "que bom que dessa vez você não esqueceu o meu balão azul!"
Segura esse cometa!

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

O resgate oriental

Domingo de sol e todos no parque. Um festival de artes movimenta a cidade e parece que todo mundo está ali, na beira daquele laguinho artificial com patinhos nadadores.
Encontramos Lola, a menina fofa que corria com Arthur na aula de música. Conversamos um pouco, as crianças correm, tudo bem.
Lola vai embora e Arthur decide que quer ir ver os patinhos.
Lá na beira do laguinho tem pato e passarinho, e a brincadeira é correr na beirada, sobre o calçamento de pedras, para espantar as aves. O calçamento é estreito e de pedra, por isso, fico em pânico e vou junto. Falo 237854 vezes para ele parar de correr porque pode cair na água ou se estropiar nas pedras. Por 237854 vezes ele me ignora. E corre. E ri. E acha um barato arriscar cair na água cheia de cocô de pato.
Decido falar mais uma vez, porque sou mãe e recebi treinamento ainda na maternidade para efetuar repetições no nível "batendo recorde do Guiness Book".
Assim que termino de proferir o último fonema da advertência acontece aquilo!
Um oriental, que estava correndo junto a Arthur, brincando com ele de um pique-pega apavorante, usando uma mochila maior que seu corpinho de 3 anos, este menino resolve cuspir no laguinho artificial. Com os dois bracinhos jogados para trás em busca de equilíbrio, ele inclina o corpinho para a frente, vê o reflexo de seus lábios cuspindo na superfície do lago e, antes que até mesmo um pato consiga dizer "quém", cai de cara na água. Arthur continua correndo e pulando. A mãe da criança está em outro mundo, de costas para a cena, assistindo ao show de jazz que acontecia. Então, vendo o oriental ainda submerso naquela poça de concreto com pouco mais de dois palmos de profundidade, consigo me certificar de que Arthur não será o próximo a beber um drinque de cocô de pato e resgato o pequeno rapaz. Nos segundos que levei até alcançar o lugar onde ele caiu de cara na água, o menino conseguiu, sabe-se lá como, dar uma espécie de cambalhota e ficar de pé no lago. Por isso, quando chego, tudo o que faço é içar o garoto, ensopado e coberto de excrementos de pato, colocando-o de novo no calçamento de pedras. A mãe ainda está assistindo ao show, então fico com ele, olho para ter certeza de que está bem, sem cortes, machucados ou qualquer outro problema evidente. Ele parece bem. E só quando a mãe olha, finalmente, é quando ele começa a chorar. Assustado, provavelmente com frio. A mãe o conforta, o leva embora.
Sou parabenizada pela pequena multidão que estava acompanhando o show e viu tudo o que aconteceu.
Pego Arthur pela mão. Ele gargalha. Ri muito do oriental que mergulhou no laguinho. Se diverte de verdade. Eu sei que empatia não é o forte de crianças novinhas, mas como é de pequeno que se torce o pepino, tento falar que o menino chorou, que a gente não pode rir, mas não consigo, porque estou gargalhando junto com meu filho. Recebendo parabéns pelo resgate de pessoas que também gargalham. Indo contar, com o riso frouxo, a história para outros que assistiam de longe, e que também gargalham.
E assim, queridxs leitorxs, resgatei o oriental às gargalhadas - espero que uma ação neutralize a outra e eu fique com o karma zerado - e agora tenho um filho que não pode ouvir falar em cocô de pato sem ter um acesso de riso incontrolável.

segunda-feira, 1 de agosto de 2016

O nosso lindo balão azul

Rio de Janeiro. Fim dos anos 1980.
Dentro do carro lotado, crianças amontoadas nos colos dos adultos - época em que cinto de segurança servia para a gente tropeçar quando entrava no banco de trás por uma das duas únicas portas existentes (carro de 4 portas era luxo! Eu me lembro que meu carro favorito era um Monza 4 portas. Achava lindo, achava chique, achava moderno) -, meu primo, que devia ter uns 3 ou 4 anos, chorava. E reclamava. E dizia, incessantemente "eu quero o meu nariiiiiiz".
O nariz em questão era uma lembrancinha da festa de onde acabáramos de sair. Um nariz de palhaço, daqueles de plástico. E ele, exausto, cheio de sono, inconformado porque o nariz estava guardado, passou o trajeto inteiro lamentando sua tristeza.

Chicago. 2016.
Entramos no Uber 4 portas e Arthur, depois de dar boa-noite ao motorista, pergunta "cadê o meu balão azul?".
O balão azul em questão era, de fato, um balão azul. Tínhamos acabado de sair de um aniversário na casa de uns amigos e o balão, no meio do processo não-quero-ir-para-casa-buáááá, ficou para trás. Entramos no carro com mochila, saco de papel recheado de gostosuras e Arthur. Nada de balão. Arthur, quase trinta anos depois do meu primo, foi fazendo uma nova edição do "eu quero o meu nariz" ao longo de toooooodo o trajeto. Cochilava, acordava, pedia o balão. Chorava, se acalmava, dormia. Acordava, chorava, queria o balão azul. Soluçava, relaxava e dormia. Trinta quilômetros e um engarrafamento do Lollapalooza depois, chegamos em casa com ele, enfim, sem som e sem imagem.
Colocamos o rapaz na cama, certos de que, depois de um dia imenso e exaustivo, Arthur dormiria pesado até meio-dia do dia seguinte e fomos nos deitar também.
Uma da manhã ele acorda chorando. Eu quero o balão azul.
Negociamos, conversamos, ponderamos e fazemos um acordo: quando o sol chegar, vamos comprar um lindo balão azul. Ele dorme, nós dormimos, até que, duas e meia da manhã, ouço um choro sentido e a indefectível frase "eu quero o meu balão azul!". Olha, cuidado mesmo com o que vocês fazem com a filharada por aí, porque essa coisa de inconsciente é real e incansável. Das profundezas do império do sono vem o desejo sublimado e, aí, salve-se quem puder, meu povo!
A essa altura, mais nada adiantava: nem conversa, nem promessa, nem abraço. Nada!
Até que marido (já disse que ele é gênio?) pega o telefone no meio da madrugada e anuncia: vou ligar para a Letícia! Arthur para de chorar, pisca os olhinhos molhados, dá três soluços para recuperar o fôlego e para, enfim, de repetir seu mote das últimas três horas e meia. Presta atenção. Marido faz o teatro completo, digno de Oscar: disca, coloca o celular na orelha, conversa, com direito a pausas dramáticas e muita função fática. Combina com Letícia que ela vai guardar o balão e que amanhã iremos todos buscá-lo. Claro, obrigada, beijos, até amanhã.
Arthur pisca os olhinhos sonados, suspira e, então, aceita. Dormimos todos, pegando carona nessa cauda de cometa que, a julgar pela reedição dos anos 1980, deve ser o Halley.

sexta-feira, 1 de julho de 2016

Entrevista com Arthur

Está rolando na internet uma brincadeira muito fofinha, que consiste em uma série de perguntas feitas às crianças e suas respostas espontâneas e muitas vezes engraçadas. Entrevistas são maneiras dinâmicas e divertidas de fazer um registro do momento de vida e podem render muitas surpresas. É bacana também repetir a entrevista algum tempo depois, para ver o que mudou, o que permaneceu e como sxx filhx vê o mundo.
Não resisti e fiz com Arthur.

Qual seu nome?
Começa com A. Arthur.

Quantos anos você tem?
4.

Quando é o seu aniversário?
Foi outro dia.

Quantos anos tem o papai?
Não sei.

Quantos anos tem a mamãe?
Não sei.

Qual sua cor favorita?
Azul.

Qual sua comida favorita?
Macarrão.

Quem é o seu melhor amigo?
Foster!

Qual seu programa favorito?
Todos.

Qual sua música favorita?
Arca [de Noé, do Vinicius de Moraes].

Qual seu animal favorito?
Cachorro.

Onde você mais gosta de ir?
Children's Museum [tipo um parque indoor aqui em Chicago].

O que você quer ser quando crescer?
Um papai.

O que a mamãe mais gosta de fazer?
Me abraçar.

O que o papai mais gosta de fazer?
Brincar.

Do que você mais gosta de brincar?
Star Wars.


E vocês, já fizeram com os filhos de vocês? Que outras perguntas fariam?

sexta-feira, 17 de junho de 2016

4 anos

Há quatro anos que este é o dia mais maravilhoso do ano!
Que haja sempre saúde, respeito, paz e harmonia para comemorarmos muitas e muitas vezes esta felicidade!