Eu estava tensa. Acabara de descobrir que o Ney Matogrosso era o primeiro homossexual brasileiro a fazer a transformação para virar um autômato. Na tevê, ele, o Ney, se preparava, então, para fazer mais um salto sobre a trave. Fazia parte de sua apresentação, ele estava acostumado, mas ainda assim eu estava nervosa. O fato de estar dando uma entrevista para a Murda* ao mesmo tempo em que reproduzia com exatidão os movimentos de Ney não contribuía para que relaxasse. Observava a posição dos pés dele para imitar, enquanto me perguntava como seria essa transformação, já que nunca conheci um autômato que não tivesse nascido assim, e também tentava me concentrar na pergunta da entrevista. Mergulhei as mãos em uma bacia de amido de milho. Ney se preparou. O amido é suave e adstringente ao toque. Ele sobe, surpreendentemente ágil e forte para a idade. Amo o Ney! Eu subo. Murda aguarda minha resposta. Ney se prepara para atravessar a trave em uma pirueta coreografada. Eu tento, mas não consigo dar uma estrela e sinto uma dor lancinante na coluna. Acordo: com fome, toda torta na micro cama do meu filho e muito pau da vida porque não fiquei sabendo se o Ney conseguiu terminar o show sem se machucar, nem o que comentou sobre se transformar em um autômato, muito menos o que eu ia responder para a Murda. E pior: provavelmente passarei o restante da madrugada tentando me lembrar - sem sucesso - qual será que era a pergunta da Murda.
Então, leitorxs, muito cuidado na hora de escolher o livrinho que vão ler para o filhote dormir, mas mais cuidado ainda para não dormir sem perceber. A próxima vítima da Murda perguntadora ou do Ney autômato pode ser você!
*Murda é um monstro inventado por Shel Silverstein em seu Fuja do Garabuja, que foi nossa escolha para a hora de ir dormir.
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segunda-feira, 18 de julho de 2016
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Asas
Numa noite, há algumas noites, ela surgiu no quarto. Arthur não poderia deixar de notá-la. Nunca. Uma borboleta branca, com as asas tão diáfanas que me fazem crer que, ao longo de tantos dias, ela tem se alimentado de sonhos. Dos nossos sonhos. Ali, naquelas asas transparentes.
Flapeando noite adentro, durante o dia ela me alenta, ao rememorar meu filho, com seu dedinho em riste, minihumano, apontando para ela.
Arthur não tem consciência, nem a borboleta, mas eles formam o que hoje há de mais poético no meu dia. E com ternura, nas madrugadas de trabalho incessante, cuido da borboleta, que passeia entre meus livros e papeis, e de Arthur, que mora todinho em mim.
Um dia a borboleta vai-se embora, eu sei, e um dia Arthur vai ter sua própria vida, longe (espero que não muito) de mim. E aí, tenho certeza, quem se alimentará de sonhos serei eu: de ter de volta as noites diáfanas de Arthur e borboleta, lado a lado, sob meus cuidados.
Flapeando noite adentro, durante o dia ela me alenta, ao rememorar meu filho, com seu dedinho em riste, minihumano, apontando para ela.
Arthur não tem consciência, nem a borboleta, mas eles formam o que hoje há de mais poético no meu dia. E com ternura, nas madrugadas de trabalho incessante, cuido da borboleta, que passeia entre meus livros e papeis, e de Arthur, que mora todinho em mim.
Um dia a borboleta vai-se embora, eu sei, e um dia Arthur vai ter sua própria vida, longe (espero que não muito) de mim. E aí, tenho certeza, quem se alimentará de sonhos serei eu: de ter de volta as noites diáfanas de Arthur e borboleta, lado a lado, sob meus cuidados.
quinta-feira, 9 de maio de 2013
Zzzz
Entre minhas curvas se aconchega um mistério. Tépido e macio, meu filho desliza suavemente para dentro de um mundo que não é meu, nem dele. Às vezes, sorri, resmunga, mama, mas o que me fascina e intriga são as tarântulas de seus olhos ciliados (quantos milhares de cílios cabem ali?) movendo-se preguiçosamente para lá, para cá. Dizem que sonha, dizem que processa assim o que viveu e aprendeu no dia. Acho graça do sorriso de canto, do beicinho do choro que não se completa, das poses elásticas e dubitavelmente confortáveis (pés em ângulos estranhos, braços pendidos etc.), porém o grande mistério se sustenta na linha movente dos olhos cerrados. Na tênue linha que une as pálpebras do meu menino desfilam insondáveis momentos: serão aventuras? serão novidades? serão rememorações do que ele viveu ao longo do dia? Não sei. Ele tampouco.
De noite, deitados, enroscados no desenho curvilíneo do aconchego, uma tarântula me espreita e pergunta: o que sonha seu maior sonho?
De noite, deitados, enroscados no desenho curvilíneo do aconchego, uma tarântula me espreita e pergunta: o que sonha seu maior sonho?
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Para onde vão os sonhos depois que parimos? - parte 2
Parir. Gosto tanto dessa palavra! Começa com uma consoante plosiva bilabial absolutamente familiar: a mesma letra de papai, papá, pé. Depois, se abre por completo, em um A que vai no topo da pirâmide fonética das vogais, lindo, vivo, amplo. E aí termina com a multiplicidade de erres, termina-se rindo: RIR. Pode falar: lindão parir, né?
Pois é, mas como fazer para sonhar depois de fazer nascer uma pessoa?
Essa pergunta anda me apoquetando (e inspirando textos como o de ontem) porque se por um lado é muito fácil querer, desejar e planejar muitas coisas, é inquietante saber que todas as possibilidades incluirão o Arthur. Para o bem (fazer parte de seu crescimento, ajudá-lo a viver seus sonhos e desejos, tê-lo por perto e fazer da minha vida, da vida dele e da vida do marido a nossa vida) e para o mal (projetar, tolhir, supor, sufocar de amor). Hoje, se planejo uma viagem, Arthur e marido vêm antes do destino, da mala ou do dinheiro. É lindo, mas dá medo, porque parece que meus sonhos não são mais meus, embora tenha sido exatamente com isso que sempre sonhei.
Não quero que vocês leiam este texto como se fosse um desabafo desesperado, por favor. Leiam com leveza. Pensem no sol através da bolha de sabão e leiam, pois assim é a pergunta na minha cabeça: leve, furtacor, cambiante.
Se sonho, incluo minha família, e o sonho é nosso. Mas como manter o direito que nós três temos de sonhar? Como planejar novos rumos e evitar saltos no vazio, tombos coletivos e rastejar na mesmice em nome da segurança?
Tenho muito medo de que minha vida se torne pouca para mim. Notem bem: para mim. Não quero optar pelo trabalho em casa e achar que merecia mais valia, décimo terceiro e competitividade. Não quero escolher pelo trabalho CLT e pensar que deveria estar em casa, cuidando de perto do que me faz feliz, tendo a chance de vivenciar todas as experiências da maternagem. Não quero embarcar no sonho do marido e supor, mais tarde, que me faria melhor tentar do meu jeito.
Acho que embutida nessa pergunta dos sonhos está meu questionamento infindável pela identidade: onde estou? quem sou? como viver plenamente este desafio que sou eu?
Enfim, para onde vão os nossos sonhos depois que os filhos nascem? Às vezes eu acho que os meus foram todos inspirados com sofreguidão pelo Arthur na hora do parto, e que ele os vai liberando delicadamente, para sempre, a cada suspiro ou sorriso.
Pois é, mas como fazer para sonhar depois de fazer nascer uma pessoa?
Essa pergunta anda me apoquetando (e inspirando textos como o de ontem) porque se por um lado é muito fácil querer, desejar e planejar muitas coisas, é inquietante saber que todas as possibilidades incluirão o Arthur. Para o bem (fazer parte de seu crescimento, ajudá-lo a viver seus sonhos e desejos, tê-lo por perto e fazer da minha vida, da vida dele e da vida do marido a nossa vida) e para o mal (projetar, tolhir, supor, sufocar de amor). Hoje, se planejo uma viagem, Arthur e marido vêm antes do destino, da mala ou do dinheiro. É lindo, mas dá medo, porque parece que meus sonhos não são mais meus, embora tenha sido exatamente com isso que sempre sonhei.
Não quero que vocês leiam este texto como se fosse um desabafo desesperado, por favor. Leiam com leveza. Pensem no sol através da bolha de sabão e leiam, pois assim é a pergunta na minha cabeça: leve, furtacor, cambiante.
Se sonho, incluo minha família, e o sonho é nosso. Mas como manter o direito que nós três temos de sonhar? Como planejar novos rumos e evitar saltos no vazio, tombos coletivos e rastejar na mesmice em nome da segurança?
Tenho muito medo de que minha vida se torne pouca para mim. Notem bem: para mim. Não quero optar pelo trabalho em casa e achar que merecia mais valia, décimo terceiro e competitividade. Não quero escolher pelo trabalho CLT e pensar que deveria estar em casa, cuidando de perto do que me faz feliz, tendo a chance de vivenciar todas as experiências da maternagem. Não quero embarcar no sonho do marido e supor, mais tarde, que me faria melhor tentar do meu jeito.
Acho que embutida nessa pergunta dos sonhos está meu questionamento infindável pela identidade: onde estou? quem sou? como viver plenamente este desafio que sou eu?
Enfim, para onde vão os nossos sonhos depois que os filhos nascem? Às vezes eu acho que os meus foram todos inspirados com sofreguidão pelo Arthur na hora do parto, e que ele os vai liberando delicadamente, para sempre, a cada suspiro ou sorriso.
quinta-feira, 6 de outubro de 2011
Só para atualizar
Meninas, muito obrigada pelo carinho, pelas mensagens carinhosas e por partilharem comigo a felicidade do positivo!
Ando meio enrolada no trabalho e por isso estou devendo um relato minucioso das coisas, mas em breve virei contar tudinho.
Só para tirar as teias de aranha venho aqui contar que hoje tive meu primeiro sonho, grávida, com o meu bebê. Sonhei que fazia uma ultra e era um menino.
Será?
PS: Leila, não recebi seu e-mail, não. Manda de novo: vida.selvagem@yahoo.com.br
Ando meio enrolada no trabalho e por isso estou devendo um relato minucioso das coisas, mas em breve virei contar tudinho.
Só para tirar as teias de aranha venho aqui contar que hoje tive meu primeiro sonho, grávida, com o meu bebê. Sonhei que fazia uma ultra e era um menino.
Será?
PS: Leila, não recebi seu e-mail, não. Manda de novo: vida.selvagem@yahoo.com.br
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