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quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Primeira consulta médica

Um lado meu bem safado queria omitir a referência a Fernando Sabino e sua crônica do nariz entupido em Bruxelas. Mas meu lado honesto e certinho ocupa mais espaço. Droga! Porque o conto é sensacional e até hoje me faz rir. Daí, o que resta a mim e meus companheiros de viagem? Militar na conversa com a médica.
Querem ver?

A clínica é bonita. Novíssima. Cheguei no dia da inauguração (sorte minha, vocês já vão ver por quê). Fui resolver um pepino, mas aproveitei para solicitar uma consulta médica para o pequeno, já que desde que saímos do Brasil ele não passava por um exame. O dia estava frio, nublado, clínica recém-inaugurada, muita gente ainda pregando espelho na parede, encerando chão, aplicando revestimento na laminação da madeira, essas coisas que o destino nos dá de presente de vez em quando e que permitem que a gente receba a pergunta: "quer ser atendida hoje, agora?"
Opa! Claro!
Sentei-me, respondi um formulário gigantesco, que de tão grande, completo e complexo, não acharia estranho se perguntassem para qual time a gente torce, qual era a cor da minha calcinha ou com quantos paus se faz uma canoa. Bom, eu disse que eu me sentei para responder a esse interrogatório? Sentei-me nada! Fiquei correndo atrás do Arthur, prancheta em riste: casos de reumatismo na família? Hum, aquele tio-avó da minha prima era reumatismo ou... Arthur, desce daí! Diabetes tipo 2? Acho que sim, mas... Arthur, volta aqui, não corre para o estacionamento.
Coisa delícia, coisa simples, coisa que acontece diariamente.
Daí que essa coisa de corre-escreve-pensa-traduz-lembra-fala-para-o-moleque-descer-da-cadeira-mostra-passaporte levou uns bons quarenta minutos. E eu já estava por ali, na clínica, resolvendo a tal pendência anterior, há mais de duas horas. Então, a manhã já se encaminhava para seu fim quando terminei a avaliação prévia e fui chamada para ser atendida.
A enfermeira mediu temperatura, pesou, mediu e aumentou o aquecimento da sala, já que Arthur estava só de fraldinha, esperando a médica.
Que veio logo atrás de sua barriga: 39 semanas. Mas parecia bem, sabem? Eu fui uma grávida de 39 semanas digna de piedade, com minha falta de ar e barriga imensamente pesada. Mal me aguentava de pé. Mas a Dra. Rebecca estava graciosa em seu vestido vermelho de cintura imperial, jaqueta jeans e fita domando o cabelo cacheado. Bonita. Sem falta de ar.
Sorriu e perguntou: o que lhe traz aqui?
Assim, na lata.
Em inglês.
Por ter apenas obedecido às ordens da enfermeira que veio primeiro, e por ter passado uns cinco minutos na sala de exames tentando domar a ferinha só de fralda que tentava apertar todos os botões ali existentes, nem me lembrava mais de que teria que expor, em inglês, o que me afligia em relação a meu filho. Sem contar a anamnese feita na língua de Shakespeare! Como responder até mesmo o trivial, tipo peso? Sei lá a conversão entre quilos e libras de cabeça! Deveria ter me preparado.
Mas não me preparei. Fiquei correndo atrás do filhote de prancheta na mão, bolsa no ombro e passaporte no bolso. E, além disso, quem poderia imaginar ir resolver pendência burocrática e acabar de frente com uma médica grávida que lhe pergunta sem preâmbulos: o que lhe traz aqui?
Eu, que li o conto sabinesco trocentas vezes, me aferrei ao fato de que, na área biomédica, muitos termos são equivalentes em português e inglês porque, afinal, vêm do latim. Puxei na memória o latim tosco que tenho (cof, cof, cof!), caprichei no sotaque e fui. Até porque já estava na hora do almoço, Arthur e eu ficando com fome, e eu queria ir para casa logo.
Deixei a coisa fluir. Vacina. Peso. Altura. Angústias. Sonhos. Necessidades. Desejos. Até que me saí bem, sobretudo se considerarmos o meu nível de latim (amor, amore, amoribus).
Mas então aconteceu.
A médica, grávida de 39 semanas, perguntou se eu ainda amamentava. E se eu fazia cama compartilhada.
Sugeriu o desmame noturno. Questionei. Ela perguntou se eu estava feliz assim, acordando até 4 vezes na madrugada boladona. Sim, estou. Cansada, mas feliz. Ela disse, ok, então continue, e emendou, em algum momento da consulta, que mamar a toda hora parecia um "estilo de vida para ele" e que ele claramente me fazia de chupeta. Que faça! É assim que estamos felizes, principalmente em meio a todas as grandes mudanças por que passamos.
Veio então a cama compartilhada. Ela veio com o discurso ensaiado e eu só respondi: conheço os riscos. Ela foi bacana, não insistiu muito, apenas sugeriu graciosamente que colocássemos o colchão no chão. Já está, respondi. Está no chão porque perdemos uma trave de metal que sustenta o estrado, pensei. E nossa cama do colchão vagabundo está aqui, no chão, semi-montada, compartilhada por toda a família.
Ela também quis saber dos dentes, da alimentação, das vacinas (quis muito saber das vacinas) e do desenvolvimento. Respondi, crente que estava abafando. Até que a consulta, longa, minuciosa, já entrando tarde adentro, encaminhou-se para o fim. Arthur já dormindo atrelado ao peito, só de fraldinha (e lá fora fazendo 7 graus). Perguntou se eu tinha mais alguma dúvida. Tinha. Como explicar que tenho medo de Arthur fazer fimose? Bom, usei o método confuso de explicação, com gestos, palavras que não eram exatas para a situação, mas que funcionavam lindamente na metáfora e arrisquei: segurei na mão de Fernando Sabino e mandei o meu "limpar o esmegma". O rosto dela se iluminou: sim, sim, sim! Esmegma. Ela conhecia a palavra, entendeu toda minha encenação anterior e falou uma porção de coisas sobre o assunto. Compreendi metade, a outra metade começou a ficar confusa, perdida entre apitos e estrelinhas brilhantes e, por fim, eu compreendi. Não o que ela disse, mas que eu não estava entendendo patavinas do esmegma e da fimose porque eu estava... tchanã... desmaiando de fome.
Pausa dramática.
EU. ESTAVA. DESMAIANDO. DE. FOME.
Fazer o quê? A única coisa que me restava: olha, Dra. Rebecca, negócio é o seguinte. Quando fico muito tempo sem comer, e eu não esperava ter esta consulta, ser atendida tão rapidamente, eu desmaio. E é o que estou fazendo bem agora. Por acaso, assim, de repente, vocês teriam uma cafeteria, lanchonete ou mesmo máquina de refrigerante por aqui? Não, não tinha. Mas era meu dia de sorte, lembram? Inauguração da clínica. Havia um convescote na sala de reuniões. Bagels, batatinhas fritas, bolinhos, muffins. Um mundo de leite e manteiga para arruinar minha dieta APLV. Mas que remédio? Desmaiar a dez quadras de casa com um bebê de dezesseis meses no colo? Ganhei, feito mendiga, um bagel de alho, um muffin de mirtilo e um saco de batatinhas fritas. Arthur dormiu, tasquei no carrinho, e fui arrastando tudo: carrinho, Arthur, minha dignidade ferida e o bagel, que rolou no meio do estacionamento quando eu fui segurar a receita médica que o vento tentou levar.
Segurei a receita. Lamentei o bagel agora esmigalhado por uma roda. E li.
Phimosis.
Fimosis, minha gente!
É Fernando Sabino, mirei no esmegma, acertei na fimose, e voltei para casa com a certeza de que, na literatura, nada se perde, e muito me diverte.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Carta para minha GO (Feliz dia do obstetra!)

Sabe quando você lê uma coisa e pensa "que ideia genial, queria ter tido essa sacada!"? Então, Anne Rammi, essa moça com nome que rima, e que boxa, rema, pinta e milita (e mora no meu coração, embora nem saiba quem sou!), essa moça fez assim comigo hoje.
Eu aqui, quietinha, vivendo meu mundinho de aniversários de relacionamento, idas para Chicago, bebê-delícia me deliciando, e ela veio e PAF! Levou embora meu rebolado num post lindo, que só não me fez realmente querer ter sido a autora porque não se trata de um nascimento bonito, e isso exclusivamente porque ELA foi desrespeitada no momento mais sublime de sua vida. (Desperta uma fúria solidária em mim saber que outra mulher, com outra história, não teve a alegria que eu pude ter.)
Solapada e desnorteada (sim, eu tinha preparado um post bobinho mesmo, todo água com açúcar, tipo beste-seller de aeroporto, sabem? Foi para o lixo. Deu vergoinha.), achei que eu queria ter tido essa ideia genial de escrever uma carta para minha GO no dia do obstetra, e assim militar um bocadinho, coisa que, de uns tempos para cá, foi eclipsada pelo meu umbigo e suas mudanças (Chicago) e permanências (marido).
Então, inspirada pela moça que eu tanto admiro, também fiz minha cartinha. Homenagem a minha querida obstetra.

Querida Dra. F.,

Não vou expor seu nome porque seria injusto ficar no mocó e sair bradando aos quatro ventos sua identidade. Na verdade, porém, eu deveria. Eu deveria para que todas as mulheres cariocas que realmente querem um parto digno, um parto seguro, um parto saudável, um parto fisiológico, sem intervenções e terrorismo, sem traumas, com respeito e muito, muito amor encontrassem a grande parceira que você foi para minha família.
Nossa relação foi de construção e parceria. Sempre. Eu cheguei colocando as cartas na mesa (timidamente): três exames de BHCG, um medo danado (e infundado) de abortar, 40kg, um histórico de "nãos" (não vai engravidar naturalmente, não vai ter passagem, não vai ter saúde para nutrir seu bebê, não vai conseguir parto normal sendo tão pequena etc.) e toda minha ansiedade. E você devolveu o que não deveria ser gestado ali, entre mim e você, bem em cima do meu bebê. Meu bebê, você já sabia, não merecia sobre ele o peso que às vezes lhe atribuía. Às vezes eu era os 40kg mais pesados que existiam. E você soube mostrar o caminho. E me receitou todos os anti-histamínicos permitidos para me ajudar a lidar com a fobia que tenho de vômito. Não vomitei nem uma vezinha. Parece bobagem, um detalhe, mas aí é que está toda a diferença: nos detalhes, nas "bobagens" - aliás, você nunca fez pouco das minhas perguntas, angústias ou reclamações; ao contrário, sempre me incentivava a falar e perguntar sobre qualquer coisa que me afligisse ou inquietasse. E era isso que eu queria: respeito, paciência, compreensão de que sou um ser vivo, pensante, pulsante e temente.

Aliás, bota ser temente, pensante e pulsante nisso!

Cheguei até você com ideias prontas e com você aprendi a não tentar encaixá-la nas minhas pré-concepções. Antes de você, querida Dra. F., eu vivia às turras com os obstetras, porque eles radicalizavam e fincavam pé em bobagens e absurdos, e minha resposta óbvia era fincar pé do outro lado, radicalizar também, e assim começar um infrutífero cabo de guerra (que era muito mais bonito antes do novo acordo, quando ainda tinha os hífens como que desenhando o puxa-puxa). Quando você disse para mim, com todas as letras "pode parar de lutar porque você já conseguiu o que queria", isso foi como soltar a corda do cabo de guerra, me deixando estatelada do chão de minhas convicções, tendo que catar ao redor aquilo que era realmente importante e o que me pertencia de verdade. Ou seja, precisei entender que eu não encontrara uma boa adversária, mas sim a melhor parceira! Caí de bunda no chão, sim. Mas você foi lá, me deu a mão e perguntou por que eu tinha puxado a corda tão forte. Bastava conversarmos.

E conversamos.

Eu sei que você sabe disso, Dra. F., mas ainda assim eu quero muito explicitar: eu tinha muito medo do parto. Não só pela mítica imagem que a sociedade contemporânea criou em torno dos nascimentos, não só por desconhecer o que me esperava, não só por saber que doía, não só por conhecer, inclusive, muitos dos riscos que existiam (eu já discutia sobre partos, nascimentos e gravidez havia muitos e muitos anos, tipo um terço da minha vida tinha sido assim, catando e memorizando esse tipo de informação). Eu tinha muito, muito, muito mais medo do parto porque eu sabia que era minha única chance de parir.
Aliás, isso é assombrosa e paralisantemente aterrorizante: saber que o primeiro filho é sua única chance. Claro que existem VBACs, VBA2Cs, 3Cs, mas, a verdade é que o primeiro parto é a única vez que você pode viver o parto. Se você cair numa cesária logo de cara (seja ela necessária ou não), seu próximo parto será, na verdade, o espelho do seu primeiro não parto.

(Sabe, Dra. F., eu vou publicar este texto no meu blog, e espero imensamente que ninguém se ofenda com essa minha ideia, porque incomoda pensar que o que temos de mais precioso - e aqui eu tiro meu chapéu em uma respeitosíssima reverência, pois VBA(1,2,3)Cs são para aquelas fortes, guerreiras, determinadas e poderosas! - possa não ser bom por si só, mas porque tem um lado bem ruim para criar o contraponto. Mas eu realmente acho isso. Uma vez uma amiga, paciente sua também, vinda de um VBAC maravilhoso, me disse que o parto normal depois de uma cesária tinha um gostinho até melhor, porque a pessoa conseguia o que vinha querendo desde há muito. Concordo que o VBAC deve ter um gostinho especial, e que, assim como uma experiência ruim torna as conquistas boas ainda mais especiais, enfim parir depois de ter tido seu direito usurpado deve ser realmente redentor. No entanto, eu só conheço a pureza do arrebatamento do parto natural. E acho, de verdade, que meu parto existiu por ele mesmo, em termos absolutos, sem comparações dolorosas, sem traumas prévios, sem parâmetros. E isso, só as primíparas podem ter!)

Retomando o fio da meada: eu tinha muito medo de fracassar no meu parto. Quando aqui digo fracassar, quero deixar bem claro duas coisas: 1) vivam as cesarianas salvadoras de vidas, bem indicadas e feitas para garantir saúde para mãe e bebês!; 2) eu, apenas eu, posso dizer como eu me sentiria se eu passasse pela cesária depois de tanta luta por um parto natural. Isso porque eu (e você) sabia (sabíamos) que eu tinha absolutamente tudo para ter um parto natural. Ou seja, no fundo do meu coração eu sabia que meu corpo estava ali para mim, que ele seria a primeira morada e o primeiro desafio do meu filho, que ele responderia e  corresponderia às necessidades. Eu acreditava no meu parto. E isso dava um medo danado! Medo porque eu sabia (e você também!) que meu parto aconteceria 1% na minha vagina, 3% no colo do meu útero, 6% no meu útero e 90% na minha cabeça. Era da cabeça que eu tinha medo. Aliás, medo duplo, e das duas cabeças: da minha falhar e travar meu processo, empacar minha dilatação, medrar minha fisiologia e interromper o curso natural; e da cabeça do meu filho passando pela minha vagina (e, confesso, mesmo tendo parido, até hoje tenho um nervosinho medroso de pensar que a CABEÇA de um BEBÊ passa pela nossa VAGINA!). Se eu contraísse, dilatasse e travasse, minasse, roubasse de mim a possibilidade de parir, me sentiria uma frustrada.

Quero destacar uma coisa bem importante (e por isso abro este parágrafo meio sem propósito): se EU roubasse de mim mesma a possibilidade de parir. Porque eu sabia, depois das consultas sempre incentivadoras e esclarecedoras, que você não roubaria de mim a possibilidade de parir. Eu sabia que se eu fosse para a faca, não seria por conveniência de agendas e horários (ou honorários), mas por segurança. E por isso o grande medo de fracassar: porque a responsabilidade era dividida (você monitorava e via se o processo fisiológico caminhava conforme deveria; e eu encaminhava e deixava acontecer o processo), mas ao mesmo dependia apenas de mim não me roubar o direito de parir. Em outras palavras: se eu não resistisse e medrasse e travasse, não por inexplicáveis desígnios que às vezes surgem nas nossas vidas - e vias -, mas se resistisse e medrasse e travasse por não me entregar ao processo, por desconfiar de mim, por ansiar e querer mudar o compasso do tempo, aí eu fracassaria: não pela cesária somente, veja bem, porque cesária não é sinônimo de fracasso. Mas eu fracassaria em lidar com a situação. E me frustraria se eu aceitasse desculpas para não enfrentar de peito aberto o que surgisse diante de mim.

Mas eu consegui. E você me respeitou. Aliás, eu consegui também porque você me respeitou.

Cada escolha, cada decisão, cada ideia, tudo que envolveu o nascimento do ser mais amado do (meu) mundo foi conversado, respeitado e pautado no amor. No meu amor, no fruto do amor entre mim e marido, no amor que você tem pela sua profissão e pelas suas pacientes. Porque eu realmente acredito que você me ame. De verdade. As consultas não eram vazias e sépticas: elas traziam histórias minhas e suas, partilhamos momentos, eu escolhi você para estar no momento mais íntimo e importante da minha vida, e todas as vezes eu que conversamos eu sinto que você, em algum nível, me ama e se identifica comigo. Se não fosse assim, não teria funcionado, porque ambas, eu e você, só funcionamos de verdade com a verdade: não fingimos. Nem fugimos. Enfrentamos, mas sempre em parceria, porque não nos enfrentamos, mas sim aos problemas, medos e dificuldades. E isso é uma forma de amar.

Hoje, no dia do obstetra, quero dar os parabéns não só pela mera convenção das efemérides, mas porque você honra a profissão que escolheu, porque orgulha aos seus pares por respeitar e tratar ética e medicamente suas pacientes. As Marias, as Joanas, as Silvias, Lauras, Renatas, Lúcias, Mauras, Cíntias e até as mais diferentes, como as Luzitânias e Petruskas. Todas com suas histórias, seus medos, suas limitações, seus amores e vivências.

Espero que seu modelo de atendimento se espalhe. Espero que outros profissionais se inspirem em sua competência e na excelência de seu ofício. Espero que outras mulheres tenham, como eu, a chance de parir, a chance de não desperdiçarem a chance de parir, a chance de terem, nesses tempos de violência obstétrica, a experiência do amor obstétrico. Um amor de obstetra.
Um beijo meu e outro do Arthur!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Só por amor

Uma palavra: mastite.
Duas palavras: de novo!
Três palavras: só por amor.

Entrei de novo no antibiótico, antifúngico e antitérmico. Mas vamos em frente, porque pela saúde do meu pequeno, todo sacrifício é nada.

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

IFF, eu te amo mais que quiabo!

Mantendo os níveis de excentricidade do blog, afirmo que eu amo quiabo. Com frango, com carne moída, puro, em qualquer formato e até o babado, amo, amo, amo! Mas preciso dizer que, como na vida tudo é relativo, apareceu outro amor, que me faria abrir mão de todo o quiabo do mundo: o Instituto Fernandes Figueira.
Desde antes de engravidar já ouvia muitos elogios a respeito da qualidade dessa instituição pública, mas viver a experiência do ótimo atendimento superou as expectativas que eu nutria.
Como todo mundo aqui está careca de saber, tive (e ainda estou tendo) muitos problemas com a amamentação, e só não desisto porque, além de mão de vaca, tenho minhas convicções. Aliás, não desisto porque sou mão de vaca, tenho minhas convicções e o IFF para me ajudar a seguir adiante.
Logo na minha primeira visita, já depois do fim do horário de expediente, fui muito bem-recebida e, embora não tenha podido ser atendida, fui orientada com muita calma, educação e clareza. Com isso, minha pega no seio esquerdo se resolveu. Na segunda visita, dessa vez no horário certinho, fui novamente bem-atendida: ouviram meu relato e minhas queixas com paciência, sanaram minhas muitas dúvidas, deram dicas e esclarecimentos e diagnosticaram minha monília (lembram que amamentei sem dor? Que beleza!). Saí com as esperanças em uma amamentação bacana e prazerosa renovadas.
E de fato fiquei boa, me tratei da monília, da mastite e do medo de amamentar com dor. No entanto, essa semana, notei que meus sintomas de monília haviam voltado. Fiquei apreensiva e combinei com marido de visitar mais uma vez o IFF. Acontece que Arthur vacinou e reagiu, então meus peitos fcaram para depois, já que sair com um bebê com febre não é uma opção para mim. Hoje, porém, senti bastante dor e me dei conta de que estávamos na sexta-feira, que teria um fim de semana pela frente e precisava de uma orientação. Catei no site o telefone do Insitituto, liguei, pedi para falar no Banco de Leite Humano, expliquei minha situação e acabei com a seguinte resposta: todas as atendentes estavam ocupadas e meu nome e telefone seriam anotados para que, quando liberada uma profissional, ela entrasse em contato comigo. Meio incrédula, forneci os dados e, confesso, me esqueci completamente do telefonema e da promessa. Então, cerca de vinte minutos depois, toca meu telefone, chamam meu nome e, para minha total surpresa, era uma médica pediatra do Fernandes Figueira, que escutou com paciência e muita educação minha exposição e explicou tim-tim por tim-tim o que eu deveria fazer, sugerindo alternativas muito pertinentes para meu caso.
Gente, hospital público! Eles telefonaram para minha casa, me escutaram e resolveram meu problema com educação, boa-vontade e competência. Se não fosse por isso, teria sofrido por mais três dias desnecessariamente e, se eu não estivesse tão determinada a prosseguir na amamentação exclusiva, quem sabe, essa seria a diferença entre desistir ou não de amamentar. Exemplo de que é possível um atendimento público de qualidade, o Instituto Fernandes Figueira merece meu mais terno agradecimento por tornar viável e menos sofrido o sonho de oferecer o que há de melhor a meu filho: amor.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - considerações finais

Parir é um ato íntimo e solitário, mas quando um nascimento derruba pré-conceitos e lança a fagulha para que outras mulheres conquistem partos dignos, respeitosos e seguros, trata-se de um ato social. E se estou aqui, relatando o momento mais lindo e íntimo da minha vida, é porque acredito no feminino e tenho a imensa pretensão de plantar a sementinha da dúvida ou da vontade de parir em pelo menos uma mulher que leia meu blog.
Depois de contar a melhor história da minha vida, preciso deixar BEM claro que este é um post político e que eu acredito no parto normal. Acho que é a melhor maneira de nascer e estou mais do que convencida de que o parto normal é para a grande maioria das mulheres, embora estejamos sendo convencidas do contrário. No que eu não acredito é que o tipo de parto determine que uma mulher é melhor ou pior mãe que outra. Obviamente eu sou uma mulher muito realizada por ter planejado e conquistado o parto que considero o melhor para mim e meu bebê, e acho que minha conquista de um parto natural respeitoso, digno e seguro é uma vitória feminina, pois prova que o corpo humano é perfeito para gerar e parir, a despeito das inúmeras (e cada vez mais estaparfúdias) desculpas que médicos e pacientes encontram para cesárias desnecessárias. (Mais sobre as desculpas neste maravilhoso artigo!)
Não me crucifiquem antes de ler este parágrafo até o fim, ok? Considero dever da mulher se informar sobre o que vai acontecer durante gravidez, parto e puerpério, e acho que faz parte da boa e saudável preparação feminina para a maternidade buscar esse tipo de informação. Então, conseguir um parto normal seguro e bacana é responsabilidade, sim, da mulher. No entanto, reconheço que nem todo mundo tem interesse ou facilidade em acessar informações sobre o que acontece durante a gravidez e o parto. Também sei que não é fácil bancar determinadas decisões e escolhas porque há pressão familiar, social e, claro, maternal, porque nasce uma mãe, nasce uma culpada, e por mais que a escolha acalente seu coração, muitas vezes gera uma culpa danada por peitar pessoas em que se confia (familiares, médicos, amigos etc.). Acho, por isso, um absurdo inenarrável que profissionais de saúde se valham de seu lugar privilegiado de "especialistas" para convencer, induzir ou até mesmo enganar uma gestante saudável a respeito da necessidade de uma cirurgia de médio porte em lugar de uma via de nascimento natural e mais segura. Acho inadmissível que médicos e enfermeiros enganem ou induzam seus pacientes a acreditar na necessidade de uma cesária. Se é responsabilidade da mulher se informar sobre gravidez e parto, é obrigação dos profissionais de saúde que a atendem e assistem informar a essa gestante sobre suas condições, opções, riscos e alternativas. A escolha é SEMPRE da mulher. O corpo é dela, o filho é dela e a decisão não pode ser pautada jamais em conveniências do profissional que a atende.
Deveria ser realidade, no Brasil e no mundo, que as mulheres tivessem acesso a informação, para que suas escolhas fossem seguras e pautadas em evidências. Ainda não é assim que funciona, e minha briga política é por que cada vez mais mulheres possam se apossar de seus corpos e decisões, contando com os profissionais de saúde relacionados ao nascimento para auxiliá-la em suas escolhas e decisões, o que torna o parto mais seguro, tanto do ponto de vista emocional quanto do ponto de vista prático. Bons profissionais nunca sonegam ou manipulam informações, eles a partilham e estimulam o conhecimento e o crescimento pessoal. Isso em qualquer área, inclusive na médica.
Esta é minha opinião e espero que ninguém se sinta julgada ou menosprezada por ter sido submetida a uma cesária, desnecessária ou não. Os motivos, as vivências e as escolhas são pessoais e intransferíveis. Minha briga é para que mais mulheres escolham um parto normal e de fato conquistem um parto normal, e que não vivam com a frustração de terem sido induzidas a fazer algo que não queriam (ou que temiam) por mera conveniência alheia (seja em relação a uma agenda pré-organizada e que não pode ser mudada, seja por não querer repensar conceitos e crenças já estabelecidos e comodamente reproduzidos).
Dito isto, fico muito feliz em contar que sou uma mulher realizada porque tive o parto perfeito para mim. Sonhado, planejado e executado com muito amor e entrega, como acontece com todas as coisas boas da vida.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 3

Em dias sem trânsito, a distância entre minha casa e a maternidade é de aproximadamente 10 minutinhos. Era um domingo, meio-dia, não havia trânsito: tive 5 contrações entre minha casa e a maternidade. CINCO. Fui abraçando o banco de trás do carro, com bolsa de água quente na lombar e travesseiro aparando minha barriga. Nas contrações, queria que tirassem a bolsa de água quente, porque aquilo me incomodava demais e eu estava morrendo de calor!
Chegamos na porta da maternidade e a ruazinha que dá acesso ao estabelecimento tinha um carro parado. Marido buzinou e gritou que eu estava parindo. O motorista, que falava ao celular, apenas colocou a mão para fora com o polegar voltado para baixo, como quem diz "quebrou, se vira aí". Marido buzinou de novo e o cara não se mexeu. Daí, a EO virou-se para ele e falou: "vamos empurrar?" Marido mal respondeu e já foi saindo do carro, seguido por ela. Quando eles colocaram a mão no carro enguiçado o motorista saiu, na disposição de brigar, falando "o que está acontecendo? Tirem a mão daí." Marido respondeu: "você está na porta de uma maternidade e minha mulher está parindo!" Na mesma hora o motorista se desculpou e ajudou a empurrar. A cena, então, era: uma mulher descabelada, de saia, top, barrigão de fora, em pleno trabalho de parto, urrando e berrando palavrões no banco de trás do carro, marido e EO empurrando o carro de um estranho mal-educado. Acho muito curioso que eu me lembre com muitos detalhes dessa cena porque, como eu disse, as coisas ficaram um pouco embaralhadas na minha memória e algumas coisas eu não sei se aconteceram antes ou depois de determinados fatos.
Carro empurrado, chegamos na maternidade. Aqui vale uma pausa dramática.
Uma família, dou minha cara a tapa que a mulher tinha agendado a cesária, vinha saindo, com bolas, flores e malas naquele carrinho estilo hotel. Todos ficaram muito chocados com a minha pessoa, descabelada e mal-ajambrada, de chinelo, berrando palavrões e agarrada na minha EO (que é cheia de tatuagens!). Brotou na minha frente uma cadeira de rodas, que eu recusei prontamete porque não conseguia conceber me sentar. A dor triplicava quando eu não podia escolher a melhor posição para aquela contração. Subi (ou desci, sei lá) para o centro cirúrgico somente com a EO, pois marido ficou resolvendo burocracias de internação e depois ia por outro caminho se vestir para entrar no centro cirúrgico (ainda não entendo porque uma sala de parto natural fica dentro de um CC, mas tudo bem). A EO entrou na sala em que se troca de roupa, pegou uma camisola bunda de fora, uma touquinha e pantufas, e pediu que chamassem minha GO. Sei lá como me vesti (exceto pela touquinha, que nem sei onde foi parar) e fui caminhando, meio trôpega, pelos corredores até que minha GO surgiu na minha frente. "Oi! Tudo bem? Eu estava na passeata. Olha, até me pintaram..." Eu fiquei olhando para ela, como se estivesse vendo uma pessoa verde com bolinhas roxas falando em grego arcaico comigo. Bom, eu suponho que esta fosse minha expressão, já que eu não entendi uma palavra do que ela disse e fiquei pensando: "oi? tudo bem? passeata? pintada? o que ela quer dizer com isso?" Seguimos centro cirúrgico adentro e entramos, enfim, na sala de parto humanizado, que era nada mais que um quarto de hospital, com um banheiro dentro do qual havia uma banheira enchendo (eu podia escutar, mas não via nada, porque a porta do banheiro estava fechada), uma cama que virava cadeira e uma luz fraquinha, criando uma penumbra. Depois de me instalar na cama/cadeira, entendi o que a médica dissera ao me encontrar: "ah, a passeata contra a violência obstétrica..." Eu estava meio aérea.
Dentro da sala estávamos eu, minha GO e duas enfermeiras da maternidade. Depois de um tempinho, entraram também marido e a minha querida EO. Em algum momento, já dentro da sala de parto, minha GO perguntou se eu queria tomar o antibiótico para o strepto positiv que tive no fim da gravidez. Havíamos conversado previamente sobre as minhas opções e escolhi tomar. Assim, as enfermeiras da maternidade entraram em ação para colocarem o acesso intravenoso. Achei muito curioso sentir a picada do acesso, pois jurava que depois de dores tão intensas, eu mal sentiria a picada de uma agulha. Ledo engano! Senti, e senti direitinho. Esse, sem sombra de dúvidas, foi o pior momento do parto, em termos de dor. Não por conta da picada, mas porque precisei ficar reclinada na cadeira/cama, e colocaram uma barra de ferro diante de mim (era uma cadeira para parto de cócoras, depois processei a informação. Contudo, sinceramente, não faço ideia de como alguém consegue parir ali em cima. Mas devem conseguir, porque cada mulher é uma e cada parto é único também). Aquela barra de ferro, naquele momento do TP, com contrações tão doloridas e seguidinhas, era uma barreira intransponível entre dores insuportáveis e algum conforto durante as contrações. Não conseguia sair dali e, aboletada naquela cadeira, sem conseguir me libertar (contrações + barrigão + acesso = imobilidade ou maior lentidão), tive três contrações terríveis. TERRÍVEIS. Sentia cada músculo do meu corpo se contrair de dor e experienciei uma coisa que nunca tnha vivido antes: eu tremia de tanta dor. Marido percebeu e, segundo me confessou mais tarde, foi o único momento do parto em que ficou nervoso, pois viu que eu estava sofrendo muitíssimo. Em meio a esse sofrimento intenso, gritei, pedi, implorei (sei lá qual foi meu tom!) que tirassem aquela barra de ferro e que me tirassem dali. Minha GO pediu que eu aguentasse mais um pouquinho porque já estava acabando o antibiótico e eu procurei relaxar ao máximo, sabendo que o sofrimento estava com minutos contados para acabar. Assim que me liberaram para que eu me movesse, só tive forças para virar de frente para a cadeira/cama, me agachar no chão, enfiar a cara nos travesseiros que estavam por ali (alguém deve ter colocado para me dar mais conforto) e urrar a cada contração.
Neste momento a GO e a EO cochicharam alguma coisa entre si e marido logo quis saber o que estava acontecendo. Assim, saíram ele e EO para o corredor do centro cirúrgico. Eu, que estava cheia de hormônio nas ideias mas nã sou boba, fiquei paranoica: o que está acontecendo? onde eles estão? A GO me acalmou, dizendo que marido foi buscar água (e de fato ele foi) e eu aproveitei para pedir água também. Bebi um golinho mínimo e comentei: "é que não quero vomitar." E a GO respondeu: "você vai conseguir, né? Vai passar a gravidez todinha sem vomitar uma única vez." E eu ri em resposta. Marido entrou de novo na sala junto com EO e alguém começou a ajeitar o acesso intravenoso para que eu pudesse me locomover melhor, sem aquele tubo para lá e para cá. Acontece que eu entrei na paranoia ocitocínica e, desesperada, falei: "ai, meu deus, vocês vão me levar para a cesária, né? Foi isso que vocês cochicharam, que eu vou para a cesária. Eu não quero..." Todo mundo riu, porque eles realmente estavam apenas ajeitando o acesso. Porém, os cochichos foram porque eu tive um rebordo de colo e a GO estava esperando que meu corpo desse um jeito sozinho, mas avisou à EO e ao marido que se eu precisasse, ela iria intervir. Felizmente não foi necessário!
Lembro de perguntar à GO quando a coisa ia ficar legal, porque eu sempre havia lido relatos em que a mulher adorava sentir contração e que ficava feliz porque o bebê estava nascendo e eu só queria que aquele ser saísse de dentro de mim logo, e acabasse imediatamente com meus sofrimento (gente, sem romantismos: dói pacas e eu não estava nada feliz que Arthur nascia. Eu só pensava: "tá acabando, tá acabando, tá acabando..."). Fiquei tendo umas contrações agachada (e segundo marido, em um momento eu levantei a cabe;a e exclamei: "Arthur, meu filho, sai logo que sua mãe tá muito zoada") e depois de um tempo (não faço ideia de quanto) minha GO disse que eu poderia fazer força quando sentisse vontade. Eu pensei: "Ela está louca! Eu vou sentir vontade de fazer força com essas dores? De jeito nenhum!" Mas respondi apenas: "Tá bom." O fato é que alguns instantes depois dela falar isso, comecei a sentir uma vontade de fazer força. Não dá para explicar muito bem o que isso significa, era apenas uma vontade de fazer uma força. E eu fiz. Uma, duas, três... e gemi: "Estou com medo!" É que o expulsivo foi, para mim, o momento mais intenso do parto todo. Primeiro porque sempre foi meu grande medo. Eu estava OK com as contrações, mas morria de medo do expulsivo. Além disso, o expulsivo foi um momento muito, muito, muito animalesco para mim. Eu iniciava o movimento de maneira consciente, mas a tal força tomava conta de mim, jogava meu ego para escanteio, e terminava o processo só com o id. Eu começava a força e ela se concluía, sem que eu conseguisse interferir, controlar ou interrromper nada. Uma força brutal, que começava onde outrora estava a boca do meu estômago e agora estava o fundo do útero e seguia contraindo todos os músculos abdominais até o baixo ventre. Foi quando perdi completamente o controle do processo, e fiquei com muito medo. Então, gemi baixinho. E minha super GO escutou, e disse: "Ártemis, lembra quando eu disse que parir é como pular de pára-quedas? Então, você está na porta do avião e vai precisar pular, não tem mais volta!" Isso, de alguma maneira louca me deixou mais calma (eu morro de medo de avião e de pular de pára-quedas. Sabe-se lá por que a metáfora funcionou para me acalmar, né?). Fiz mais um ou duas forças e falei: "Estou sentindo arder!" E pensei: "Círcuclo de fogo. Mas não diziam que o expulsivo não era dolorido? Mentiram para mim. Tudo dói, o tempo todo!" Entre uma força e outra alguém sugeriu que eu me acomodasse melhor, porque estava agachada em frente à cadeira/cama havia muito tempo e sei lá como meus músculos da perna estavam aguentando! Eu respondi, numa frase meio sem-sentido: "Não quero perder o que já conquistei." Marido disse que riu, porque eu estava doidona de hormônios e não fazia o menor sentido essa resposta, mas depois eu expliquei que só estava cansada demais para fazer todo o raciocínio, que era: eu estou sentindo que cada força que faço chego mais perto do fim, e não quero mudar de posição para não correr o risco de perder os centímetros que já conquistei, não quero arriscar me mexer e fazer o bebê recuar no canal de parto. Vai, gente, era uma resposta muito complexa para alguém em pleno expulsivo, cheia de ocitocina na cabeça!
Depois que avisei que sentia arder, devo ter feito umas três ou quatro forças e Arthur fez POP. Foi assim que senti: POP. Um movimento nada suave, de algo desentalando (confessem: este é o relato de parto menos frufruzento que vocês já leram, né? Nada de "oh, que coisa linda, maravilhosa, divina!"). Eu estava com a cara enfiada nos travesseiros, urrando, e não via nada. E estava tão focada nos puxos e nas minhas dores e sensações, que não escutava nada, não percebia muito bem o ambiente. Sei que senti um cheiro de queimado muito forte e falei para minha GO: "Disseram que depois que a cabeça saía parava de doer, mas é mentira. Quando vai ficar bom?" Fiz mais uma força e escutei: "Uma circular de cordão, heim!" Outra força e: "Ártemis, pega o seu filho!" E vi um serzinho de braços abertos, branquelo, chorando horrores, bem embaixo de mim. Vi e pensei: "É meu filho? Eu pari? Esse chinês é meu filho? Eu devo estar com muita cara de idiota, porque não estou entendendo nada e deveria estar sorrindo, chorando, sei lá... Será que esse bebê não está com frio? Preciso aquecê-lo porque não quero ele na incubadora." Daí eu segurei o Arthur. Depois de todos esses pensamentos em um segundo. Segurei, toda atrapalhada, aquele corpinho magricelo, escorregadio, quentinho e macio. Ainda com o cordão ligado a mim. Lembrei que tinha um marido, procurei por ele e, enfim, sorri. Fiquei ainda agachada uns instantes, até que alguém teve a boa ideia de me sentar na tal cadeira/cama. Pedi uns panos para aquecer o Arthur (eu estava muito paranoica de ele perder calor e ir para a incubadora. Vocês se lembram do episódio de visita à maternidade, né? Queria evitar a todo custo a tal "luzinha") e fiquei sentada, contando dedinhos, pensando "nossa, esse bebê tem tantas rugas! E não se parece com ninguém! Nem comigo, nem com meu marido!" e sendo abraçada e beijada pelo marido. Tentei dar de mamar no seio esquerdo, mas não consegui (sempre ele me dando problemas!). Arthur continuava dando demonstrações vocacionais (será cantor de ópera, pois tem um dó de peito daqueles!) até que eu consegui espetar o seio direito em sua boquinha, e ele então mamou por cerca de vinte minutos na asala de parto! A pediatra comentou: "Nossa, como ele mama!" Pois é: tinha uma pediatra na sala de parto e eu só percebi isso quando, logo depois que Arthur nasceu, ela falou: "Esse aí já nasceu chorando. Vai ganhar APGAR 10!" Pois é, Arthur, reza a lenda, colocou a cabeça para fora do meu corpo, com o corpinho ainda dentro de mim, e BERROU. Eu não vi nem ouvi nada, porque estava constatando que o expulsivo não era nada um passeio no campo, como muitas mulheres diziam, embora em um momento bem específico do processo eu tenha sentido certo prazer, porque o bebê passou pelo meu clitóris e foi até gostosinho (mas não se enganem: gostosinho superrápido, porque depois veio uma cacetada de dor). Quando Arthur começou a mamar, alguém apareceu com um novo refletor. Pois é, o refletor da sala de parto QUEIMOU e eu não vi nada (nem ninguém na sala de parto, bem na hora em que Arthur coroou!), pois estava com a cara enfiada nos travesseiros (mas senti o cheiro de queimado, lembram?).
Esperamos o cordão parar de pulsar e marido o cortou. Então esperamos pela placenta, que saiu sem me causar qualquer dor (aliás, muito pelo contrário pois foi com sua saída que todo e qualquer incômodo passou). Aí chegou a hora da verdade. Mas a verdade não era ruim: uma laceração grau 1 (apenas pele), que exigiu uns 4 pontinhos. Tentei negociar, mas a GO disse que era necessário suturar. Ela, então, aplicou anestesia e começou. Eu falei: "Vou me dar ao luxo de reclamar, viu? Tá doendo!"
E doeu mesmo. E mesmo com anestesia o troço incomodou. A curiosidade desse momento foi que eu fiquei com a língua completamente dormente, sei lá por que cargas d'água!
Enquanto eu tomava meus pontinhos, marido desceu com o rebento, para o check-in no berçário. Arthur mediu 50cm e pesou 3,310kg. Nada mal para um bebê saído da minha pequena barriga!
Depois de dados os pontos e de a adrenalina ter baixado, comecei a sentir as pernas tremerem: só naquele momento foi que os meus músculos enfim sucumbiram. Fui ajudada pelas enfermeiras da maternidade a me limpar (eu parecia uma personagem de filme de terror: coberta de sangue dos pés à cabeça) e passei sozinha para a maca que me levaria ao quarto. Assim que cheguei no quarto telefonei para ao berçário e pedi que trouxessem meu filho: não queria ficar mais um segundo sem ele. E então, depois de uns dois minutinhos, chegou marido, empurrando aquele bercinho que tinha meu lindo bebê chinês dentro. Chinês? É. Arthur nasceu com os olhinhos tão puxados que parecia um chinezinho, mas dias mais tarde ele mostrou que não era oriental coisa nenhuma.
Em nenhum momento do meu trabalho de parto e parto eu achei que a coisa não fosse funcionar. O único instante de medo foi no começo do expulsivo. Não tive medo de parir no carro ou em casa, de o TP não engrenar, de eu chegar na maternidade e a coisa estagnar, nada. Não tive medo. Mergulhei, me entreguei. E se tiver outo filho, outro parto, pretendo fazer o mesmo, embora saiba que cada parto é único.
Entrei em TP efetivo por volta das 8 da manhã e às 13h meu filhote já havia nascido.
Não sofri intervenções desnecessárias, meu filho também não. Não ficou na "luzinha", nem foi aspirado, não teve colírio e nem banho. Eu quis a vitamina K injetável e o antibiótico que fizeram em mim.
Eu sambei na cara da sociedade médica intervencionista, pois tive um parto natural, com quadril estreito, bebê de bom tamanho, strepto positivo, circular de cordão.
Espero que da próxima vez, no meu próximo filho, eu tenha a mesma sorte que tive no primeiro: partaço empoderador e maravilhoso (apesar da dor, porque o lelê dói mesmo, porém dá para aguentar, sim!). Mas espero ainda mais que mais mulheres tenham o direito de escolher e de ter sua escolha respeitada na gravidez, parto e pós-parto.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 2

O processo do parto vocês acompanharam de pertinho aqui: teve gincana, estresse, cansaço, introspecção catártica e recolhimento ao ninho. No dia 16, portanto, sentia, mais uma vez, umas contrações que poderiam sinalizar ou não o início do trabalho de parto. Para tentar dar uma mãozinha para a mãe-natureza, fui caminhar. Escolhi um lugar muito significativo (onde dei o primeiro beijo no homem que hoje é meu marido) e fui com minha família passear: marido, cachorro e filhote na barriga. Eram contrações doloridas, mas espaçadas. Liguei para a enfermeira que me acompanharia e avisei: "Pode engrenar ou não, mas estou avisando que é para deixá-la de sobreaviso."
Cheguei em casa e nada mais aconteceu... até que às duas da manhã, já no dia 17, comecei a sentir contrações suaves, porém ritmadas. Estava na internet, insone (como vinha acontecendo com frequência no fim da gravidez), quando senti umas dores parecidas com cólicas menstruais. Procurei me distrair, mas fiquei de olho na frequência, se estavam vindo com algum ritmo. Não me precupei neste momento em marcar os minutos certinho, apenas via se a cada 10 ou 15 minutos eu tinha tido contrações. Por volta das 4 da manhã, as contrações ficaram mais poderosas e eu não conseguia me concentrar em outra coisa quando elas apareciam: se eu estivesse lendo algo, não conseguia entender muito bem o trecho, se estivesse escutando uma música, não prestava atenção na letra. Meu marido dormia, e confesso que a tentação de acordá-lo foi grande, mas pensei que ele precisaria dirigir e, por isso, não poderia estar muito cansado e eu ainda teria muitas horas de trabaho de parto pela frente. Eu sabia que estava começando o trabalho de parto e passei a contar os intervalos das contrações. Então, às 6 da manhã, eu não conseguia mais cronometrar nada, e acordei meu marido para me ajudar a contar a contrações. Ele, sonado, não levou muito a sério meu pedido porque achou que as contrações fossem estar espaçadas ainda. Quando, às 6h30, ele notou que a cada 3 minutos eu contraía, levantou e passou a anotar tudinho. Perguntou, então, se eu queria entrar em contato com a minha equipe, mas eu ainda achava que era cedo demais (ninguém merece ser acordado num domingo, às 6h30 da matina, para um trabalho de parto ainda no comecinho, né?). A cada contração eu agachava na beirada da cama e soltava uns gritinhos. Também ia muito ao banheiro, porque a impressão que eu tinha era de que eu faria xixi durante as contrações e a última coisa que eu queria era limpar chão em pleno trabalho de parto. Fui levando, com ajuda do maridão, até às 8 da manhã, quando contatei a equipe e comecei a mergulhar mais fundo no processo. As contrações ainda vinham de 3 em 3 minutos, mas estavam mais fortes. Lembro que entre uma contração e outra eu não sentia nada, exceto por uma dor bastante forte e incômoda (mais incômoda que a própria contração) no músculo adutor da perna esquerda assim que a contração passava. Na hora, pelo telefone, comentei o fato com a enfermeira que me acompanharia e não me lembro o que ela disse, mas era normal. Hoje, pensando sobre o assunto, faz todo sentido que eu estivesse estirando/dilatando o meu músculo mais resistente e atrofiado.
Também liguei para minha GO para avisar do progresso (eu já havia telefonado no dia anterior e minha enfermeira tinha contatado ela) e, mais tade, depois de Arthur nascer, fiquei sabendo que minha GO ligou para a minha EO e avisou: "ela está em trabalho de parto, sim, porque está gritando. Você já viu a Ártemis gritar por alguma coisa?"
O combinado era minha enfermeira vir me acompanhar em casa, pelo máximo de tempo que eu aguentasse, até que eu quisesse ir para o hospital. Minha GO seguiria diretamente para a maternidade.
Por volta das 9h30 a enfermeira, então, chegou aqui em casa e foi devidamente recepcionada por meus gritos (que agora já não eram baixinhos como antes, mas mais fortes, intensos e poderosos) e por meu boxer. Não lembro a sequência certinha, mas sei que logo que chegou a enfermeira obstétrica pediu para auscultar o bebê e para verificar a dilatação. Aceitei tudo, mas disse que não queria, de jeito nenhum, saber a quantas andava minha dilatação. Primeiro porque eu estava com dores havia bastante tempo, e elas não estavam fraquinhas, não. Assim, se eu descobrisse que estava com 1cm apenas, depois de tanta dor e de tanto tempo, eu ficaria louca. Disse isso para ela, de maneira um pouco mais dramática ("Se eu estiver com 1cm, me jogo da varanda"). Outra razão para não querer saber da dilatação devia-se ao fato de eu ser muito controladora, e fiquei realmente com medo de saber da dilatação e ficar fazendo contas e previsões sobre quando Arthur nasceria. Eu queria e precisava mergulhar cada vez mais fundo no processo, me entregar às contrações, ao parto e deixar tudo acontecer, sem tentar controlar ou prever qualquer coisa. A EO, então, auscultou o bebê (tudo certo! Tudo lindo!) e verificou a dilatação (já estava com 5cm!). Vendo que as contrações estavam intensas, a EO sugeriu que eu entrasse no banho,o que recusei porque nãoqueria ficar de cabelo molhado, o que me incomoda muito (e, confesso, também pensava que eu teria que pentear cabelo, fiquei com preguiça e com medo de ficar descabelada e parecer muito maluca quando chegasse a hora de ir para a maternidade). Marido aproveitou a chegada dela para levar o cachorro para passear e eu fiquei curtindo minhas dores. Lembro de conversar bastante com a enfermeira (que é uma fofa, uma doçura, super divertida e carinhosa) e também de estar bem contente. Marido aproveitou a saída e, a meu pedido, comprou chocolate e água de côco. Eu sabia que precisava me manter hidratada e, como tenho pânico de vômito, não quis comer nada em grande quantidade, para não correr o risco de vomitar (sim, ocitocina é um hormônio que dá náusea e é bem comum vomitar durante o trabalho de parto). Fiquei mordiscando o chocolate e bebericando a água de côco, mas, para falar a verdade, comi e bebi muito pouco: meu medo falou mais alto.
Em algum momeno entre 10 e 11 da manhã a EO sugeriu que eu trocasse as bolsas de água quente (que eu vinha usando desde cerca das 8h) por um banho quente e eu aceitei. Mas não sem antes vestir uma blusa e justificar para a enfermeira: "não quero ficar com os peitos ao léu, balançando." Eu, heim! Lá fui eu, então, seminua, para o banho. De repente surgiu, sei lá de onde, minha bola de pilates (que eu nem sei onde estava guardada), uma toalha e um chuveiro ligado. Entrei no meu boxe minúsculo com bola e toalha (para sentar em cima e para, caso a bolsa estourasse, a gente pudesse ver a cor do líquido amniótico e contorlar se havia mecônio) e fiquei lá, gemendo alto, gritando, relaxando com a água quente. Para quem se lembra, já falei aqui que meu banheiro dá para o vão central do prédio, então todo mundo ouve todo mundo no banheiro, e se não fecharmos a porta do banheiro, nossa privacidade pode ficar um pouco afetada. No começo do TP, me preocupava em fechar a porta do banheiro cada vezque ia fazer xixi, para que meus gritinhos (e depois gritos e gemidos) não assustassem a vizinhança. Nesse momento, dentro do banho, lembro de ter pensado: os vizinhos vão me escutar, mas que se dane. Tá doendo e ninguém tem nada com a minha vida.
Saí do banho porque senti falta de ar. Não sei como é com vocês, mas eu, às vezes, me sinto meio sufocada em um banho quente. E aquele era um banho beeeeem quente. Me sequei e me vesti (já a roupa que eu havia separado para ir para a maternidade) com a ajuda da enfermeira, que também sugeriu que eu colocasse um absorvente pós-parto (que é IMENSO, quase uma fralda!) para relaxar durante as contrações (lembram que eu ficava com a sensação de que faria xixi?) e para evitar que eu molhasse tudo caso a bolsa estourasse (e, novamente, para garantir que veríamos a cor do líquido). Foi realmente ótimo, porque relaxei bem. Lembro que nesse momento eu notei que as contrações deram uma espaçada e comentei com a enfermeira, que disse ser algo normal, já que eu havia relaxado. Em uma das primeiras contrações pós-banho, ainda sem absorvente, senti uma água escorrer e falei: "acho que minha bolsa estourou." Ela verificou e viu que o líquido estava claro. Isso, confesso, é um grande mistério no meu TP, porque eu jurava que minha bolsa havia estourado ali, naquele momento, e o absorvente serviria para evitar que o líquido, que fatalmente sairia, molhasse tudo. Mas, mais tarde, minha GO, dentro da sala de parto, disse: "Sua bolsa acabou de estourar!" Então, confesso, não faço ideia de quando a bolsa estourou.
Depois do banho a EO perguntou se poderia fazer novo toque e eu permiti, desde que, novamente, ela não me revelasse a dilatação. Assim foi feito e a EO telefonou para a GO. Ao desligar, veio falar comigo: "você decide se quer ir para a maternidade agora ou se prefere esperar mais um pouco." Eu quis ir. E ri: "passei nove meses falando que não queria parir ao meio-dia, e vou parir o meio-dia." A EO disse que eu não iria parir ao meio-dia e começamos a organizar minha ida. Eu queria chegar rápido ao hospital porque as contrações estavam muito fortes e eu não imaginava entrar num carro, ficar restringida em minha liberdade de locomoção e fadada a manter a mesma posição dentro do carro, com dores ainda mais intensas e, quem sabe, até mesmo menos espaçadas. Falei isso com a EO e ela entrou em contato com a GO, que partiu para a maternidade, onde nos encontraríamos. Nosso plano inicial era ir para uma maternidade aqui no Rio que tem sala de parto humanizado, com banheira e ambiente menos "frio" (embora fique dentro de um centro cirúrgico). Só que existem duas dessas maternidades aqui, uma mais perto da minha casa, mas que só tem uma sala de parto humanizado, e outra mais distante, que conta com mais salas desse tipo. Isso significa que nossa ideia inicial era tentar chegar na maternidade com mais salas de parto humanizado, mas eu estava com muitas dores e 9cm de dilatação (embora eu ainda não soubesse disso) e resolvemos ir para a maternidade mais próxima.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Nasceu!

É, pessoal, Arthur estava só esperando que seu cueiro e seu enfeite de porta ficassem prontos!
Entrei em trabalho de parto às quatro da manhã do dia 17 e uma da tarde pari, de cócoras, meu filhotinho lindo.
Ai ironia foi que o enfeite de porta acabou esquecido e o cueiro nem chegou a ser usado.
Depois venho relatar o parto.

Anna, não fui à passeata, claro. Mas tirei minha médica de lá, serve?

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Reflexões muito loucas sobre a gestação do elefante

*Para ler ao som de "Chacal Blues".

Antes de embarcar no carrinho que vai te levar para o meio da selva hormonal da minha cachola, aviso: este post não terá o menor compromisso com a lógica ou com a coerência. Além do que, informo que um amigo, "grávido", com bebê previsto para JULHO, se tornou papai hoje e furou a fila. E que também hoje, ao telefonar para o consultório da minha médica, ouvi a secretária perguntar "nasceu?", e eu fui obrigada a dizer que não, e a secretária informou: "é que a dra. teve um parto no meio da madrugada e eu achei que tivesse sido o seu". Na última consulta a médica me garantiu que eu era a próxima, e que ninguém furaria essa fila. #todaschoraesedescabela Dito isso, embarque por sua conta e risco. Obrigada.

Nasci de uma desnecesária. Quer dizer, a cirurgia era, como sempre é nesses casos, desnecessária para mim e para minha mãe, mas absolutamente fundaental para o médico, que queria viajar e curtir os jogos da Copa do Mundo numa boa. Então, aos 8 meses de gravidez minha mãe se vestiu, tirou fotos no jardim interno do hospital, deitou-se numa maca e ganhou, além de horríveis feridas porque a enfermeira não leu que ela era alérgica a iodo e a besuntou com a substância, um bebê minúsculo, porém saudável. Nasci com 45cm e 2,750kg. Incrivelmente não tive grandes problemas por conta da evidente prematuridade (mas convém ressaltar que tive sapinho e minha mãe não teve leite - ou pelo menos orientação adequada para conseguir me amamentar). O médico, claro, viajou tranquilo, e minha mãe descobriu quando foi tirar os pontos porque eu "estava morrendo, meu deus, que perigo horrível esse cordão enrolado no pescocinho dela!".
Não sei se por conta disso, tenho meu próprio tempo. Nunca fui maria-vai-com-as-outras em nada nessa vida, e enquanto as meninas da escola falavam de beijos e meninos, eu brincava de boneca e fazia as minhas coisas no meu tempo. Precisei amadurecer muito cedo por conta das porradas que a vida nos dá, e o resultado disso foi que, aos 12 anos eu já cozinhava minha comida, aos 15 tive meu primeiro emprego e nunca mais pedi aquilo que eu poderia conquistar. Então, as coisas em minha vida tinham um ritmo muito peculiar, afinal, se eu era "atrasadinha" por um lado, por outro era precoce e até responsável demais.
Por conta desse meu traço característico, foi aos 20 anos, muito tempo antes de engravidar, portanto, que eu decidi o que eu queria para o meu parto: dignidade, cuidado real e respeito ao meu espaço, ao meu tempo, a mim.
E aí eu engravidei. No meu tempo. Foi rápido.
E aí enjoei, e não parei por um longo tempo (fiquei mal até cerca de 20 semanas!). Foi demorado (e chato).
E aí trabalhei bagarái e entrei no segundo trimestre. E foi demoraaaaado.
E aí comecei com as contrações de Braxton Hicks. Foi rápido.
E aí os dias começaram a voar, um atrás do outro, de enfiada, tão ligeiros que fiz 38 semanas e só então fui arrumar mala de maternidade, quartinho, cueiro, cadeirinha e todas as fanfarronices que vocês já estão carecas de saber que inventei. Foi superrápido.
E aí completei 40 semanas.
E 40 semanas e 1 dia.
E 40 semanas e 2 dias.
E 3 dias, 4 dias, 5 dias.
E nada de trabalho de parto. Nada de contração efetiva (as de Braxton Hicks continuam firmes, fortes e indolores por aqui), nada de tampão, nada de cólicas leves ou fortes, nada de nada.
Sei que as coisas na vida sempre têm um motivo, e eu acredito de verdade que aquilo por que passamos e que nos incomoda merece uma atenção especial por se tratar, na maioria das vezes, de uma oportunidade espetacular para nos conhecermos melhor ou aprendermos uma importante lição. Aquela bordoada que a vida te dá pode ser uma oportunidade. Aquela chatura na vida cor-de-rosa que todos levamos pode ser ótima para descobrirmos novas facetas e maneiras de lidar com a vida.
Mas às vezes é difícil. Tipo agora, para mim.
Já fui muito aniosa nessa vida, de tomar bolinha e tudo porque sozinha não estava dando, mas aí aprendi a relaxar, a entrar em contato com o meu eu profundo, aprendi a viver um momento de cada vez, a ser menos controladora e mais easy going, aprendi até mesmo a respirar (técnica zazen) quando mais nada é possível, permitido ou controlável. Sente-se e respire, Ártemis.
E assim faço e assim vivo. Sem remédios há mais de 12 anos.
E então hoje, depois de ler que meu amigo, cujo filhote estava previsto para julho, se tornou papai antes  que eu me tornasse mamãe, me permiti dar aquela surtadinha básica de "oh, céus, por que comigo? Por que eu?", mesmo sabendo que era puro drama (e hormônios e ansiedade), e nada sério de verdade estava acontecendo. Mas eu me permiti, sabem? Fiquei chateada, só faltei fazer beicinho e bater o pé no chão, de birra. E vou dizer que deu vontade de fazer os hots, de faxinar a casa, de subir escada, comer abacaxi, beber chá de canela, marcar acupuntura e homeopata. E fazer promessa, e colocar roupa de cama e camisola novinhas, só para ver se Murphy está ligado. Até mesmo ligar para as pessoas que fazem meu pré-natal deu vontade, só para dizer: tô miserável nessa ansiedade, e nessa ansiedade que é quase toda minha porque já não estou trabalhando mais, porque menti a DPP para todos ao meu redor, porque não atendo mais telefonemas e respondo às cobranças com evasivas, porque minha equipe de apoio ao parto está suuuuuuuuperzen. Logo, a ansiedade é minha, me pertence. Não posso culpar outra pessoa pelas madrugadas em claro, pelas manhãs de sono entrecortado, pelas inúmeras listas de horários com as (três ou quatro) contrações irregulares que venho sentindo já há bastante tempo.
Escrevi e reescrevi e desisti de inúmeros e-mails, mensagens e posts.
Então pensei que talvez essa demora tenha a ver com o tempo que preciso para processar tudo, e me organizar emocionalmente para receber meu filhote. É minha sombra se avultando no horizonte, indicando para mim um parto assustadoramente cru, nu, visceral. Não sei o que esperar do processo por que passarei em breve: se entrarei em TP naturalmente, se precisarei ser induzida, se acabarei numa cirurgi. Não sei se vai doer da maneira como penso que vai, se vai minar minhas forças, se vai me levar às raias da sanidade, se vai me transformar. Mas tenho certeza de que essa longa espera ansiosa faz parte dos MEUS pródomos, da minha maneira de lidar com situação no meu tempo, do meu jeito. E, em certo sentido, até fico feliz de ter um filho maravilhoso vindo por aí, um filho que está respeitando esse momento em que preciso encarar e enfrentar o fantasma da ansiedade novamente. E também fiquei contente de perceber o momento antes que ele passasse, e acho que realmente preciso me desligar do "trabalho de parto" e encarar o "processo do parto", buscar meus caminhos para relaxar, ou pelo menos aceitar o incômodo, e respirar. Poucas coisas fizeram tanto sentido em minha vida quanto a frase "tudo o que você pode fazer em alguns momentos é respirar".
Desculpem o post longuíssimo, absolutamente descompromissado com começo-meio-e-fim ou com historinhas interessantes e engraçadinhas. Faz parte do meu processo de introspecção e, por incrível que pareça, vir aqui no meu cantinho, onde eu sou quem sou, livre de amarras sociais, ajuda. Aqui eu me sento e observo os pensamentos e sentimentos passando, um a um, enquanto eu faço tudo o que posso fazer: respirar.

E que mais ninguém passe a minha frente.
=P

terça-feira, 12 de junho de 2012

Tensa

Você começa a se preocupar com seu grau de fanfarronice quando sua médica, na consulta, se despede dizendo: "Nossa, estou muito animada com seu parto. Vai ser muito divertido!"

Ártemis, entretendo a galera, mesmo nos momentos de dor, desde 1982.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Drama queen, mas quem não seria?

Ai, gente, vocês desculpam o último post? Tem um Wando dentro de mim, que aflora quando eu sofro. Daí escrevo aqueles textos malucos, cheios de rococós e metáforas pieguinhas. Drama queen. Credo! Meu superego, que edita minhas postagens normais, tem tremeliques nervosos quando releio aquele melodrama barato, mas deixo ali porque, gostando eu (e vocês) ou não, faz parte do processo, faz parte de mim (e eu nunca prometi textos refinados e espetaculres, né? Pode ler aqui do lado, ó ---> só prometi loucurinhas hormonais - e venho cumprindo, tá?).

Dito isto, vou contar direitinho o que houve.

A médica Iemanjá, além de me receitar água, passou uma ultrassonografia para fazer. Saí do consultório, marquei o exame (minha gente, um parêntese: as pessoas andam muito emprenhadeiras, porque era um tal de "senhora, só temos vaga para final de outubro", que francamente! Haja grávida para ultrassonografar!) e fiquei quietinha, esperando para ver a linda formação "colar de pérolas" dos meus ovários. Os dias foram passando e meu corpo parecia se modificar: coliquinhas, mamas sensíveis, pontadinhas no abdômen e até mesmo um gostinho diferente na boca. Eu juro que tentei não me apegar, tentei dar uma de blasé.

Aham. Vai ser blasé querendo engravidar, vai.

Óbvio que eu pensei: TPM ou gravidez? Gravidez ou TPM? E decidi poupar meu rico dinheirinho e aproveitar a ultra para ver se surgia alguma resposta às minhas dúvidas existenciais. Deitei naquela sala gelada, no escurinho (perguntei a mim mesma onde estaria o cobertor para dar aquela cochilada maravilhosa) e veio o médico. Gente, eu sou chegada num médico humanizado. Aliás, eu sou chegada em profissionais humanizados. Mas acho que há uma grande confusão com o conceito, e as pessoas confundem humanização com intimidade. E esse médico que fez minha ultra era um dos confusos. Melhor: ele era uma mistura daquelas pessoas que querem puxar papo no ponto de ônibus com nossos avós tentando mexer no Facebook: lento, catador de milho no teclado e melhor amigo instantâneo. Sabem como é? E, amigo, quando se tem uma mulher, que não sabe se está grávida ou prestes a menstruar, deitada pelada, numa sala gelada e escura e sem a menor possibilidade de você fazer sexo com essa mulher, é melhor não ser lento, catador de milho no teclado ou melhor amigo instantâneo.

Mas o médico não sabia disso. E ele, coitado, foi paciente (e eu também! As máquinas daquela sala são testemunhas!), me explicou onde estava meu útero, meu endométrio e onde deveria estar o saco gestacional. (Amigo, pensei, você pode me dizer que está enxergando o santo sudário aí dentro que eu vou acreditar; para mim são borrões monocromáticos, e nada mais.) Até esse momento do exame eu estava tranquila e verdadeiramente interessada naquele método de ultrassonografia para dummies, afinal a qualquer momento eu poderia ver o que viria ser meu filhote. Mas ele fez uma pausa na movimentação do transdutor, concentrou-se na imagem e falou:

- Está vendo esse pontinho branco?
Ao que eu respondi, ansiosa:
- Sim. (Claro que eu só via um borrão cinzento.)
E ele:
- Se você estivesse grávida, seria aí que encontraríamos o saco gestacional.

Gente, sofri. Eu não alimentava muitas esperanças, mas ainda sobrava alguma expectativa de que eu estivesse grávida. A gente sempre tem esperança, não é mesmo? E aí, aquele médico paciente, metódico e atencioso que iria ver meu saco gestacional e mostrar e explicar cada pedacinho do meu filhote wannabe se transformou em um médico prolixo, lento e perguntador demais que passou a torrar o meu saco nada gestacional e a mostrar e explicar detalhadamente toda a minha anatomia falha:

- Está vendo esse pontinho aqui? Isso é um cisto no seu ovário. E aquele ponto maior ali? É um folículo. Ih, mas olha só, você produziu o óvulo e ele não saiu do folículo...

Oi, moço, queria dizer que eu não posso parir, dar de mamar, apertar e amar um cisto ou um folículo. A gente pode agilizar o processo que eu preciso ir ali no banheiro dar uma choradinha antes de voltar para o trabalho? (Isso eu só pensei, claro.)

E ele continuou ali, explicando, catando milho para escrever C-O-L-O--D-O--Ú-T-E-R-O e outros nomes anatômicos em cima de uma massaroca de cinzas. Enquanto isso, eu só queria terminar tudo, limpar aquele gel nojentinho e ir lamber minhas feridas quietinha - sim, quietinha, porque quase ninguém sabe que estou tentando engravidar.

Bom, para finalizar o meu dia ma-ra-vi-lho-so, à noite, voltando para casa exaurida pelo trabalho e pela desilusão do exame, recebo uma linda cusparada no casaco. É isso mesmo, querido(a) leitor(a), você não leu errado: uma CUSPARADA. Ostra. Escarro. Cuspida. Salivada. No casaco!!! (menos mal, eu acho.) O porcalhão estava no ponto, não me viu passar, virou-se para o lado e: SLAPT. No meu casaco.

Agora, querido(a) leitor(a), me responda: se seu dia tivesse sido tão glamoroso quanto esse meu, você também não escreveria um post drama queen daqueles? Eu escrevi.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Eu vou dedicar este post àquela primeira garota sentada ali na fila (para ler ouvindo Raul Seixas)

Gentes, voltei.
E fiquei esse tempo todo de convalescência delirando de febre pensando em vários assuntos bacanas. Mentira. Fiquei foi sofrendo sozinha, abandonada porque marido estava viajando, e pirando nas canções non sense de que eu costumo gostar.
Então, aviso: este post vai ser longo. Quer pegar um cafezinho?
...
E vai meio free style. Quer pegar algo que te ajude a transcender a barreira da lógica?
...
Não gosto de generalizar, mas aqui vou arriscar: todas as mulheres que decidem engravidar esperam (torcem, sonham, supõem) conseguir de primeira, ou, quando muito, em pouquíssimos meses. Daí, a gente, que tem ovários policísticos diagnosticados há trocentos anos, embarca nessa esperança delirante e... PIMBA! Claro que se frustra quando descobre que a concepção pode demorar um pouquinho mais ou, no meu caso, precisar ser induzida.
Não é o fim do mundo, eu sei. Muito menos um decreto de infertilidade. Mas dá aquele medinho de quando a gente está prestes a realizar um sonho enorme, imenso. Para algumas pessoas isso é o casamento com pompa e circunstância. Para mim é (e sempre foi) a questão da maternidade.
Tenho e tive muitas expectativas sobre gravidez, parto, nascimento, amamentação e maternagem. Eu sei, raciocinando como manda o figurino, que não devo esperar muitas coisas porque quanto mais completo é o planejamento maiores são as chances de decepção, afinal a vida é cheia de reviravoltas e não podemos controlar tudo, e blá, blá, blá. Juro que vou ninar meus filhos com essa ladainha (ou tentar educá-los assim, sei lá). Mas o que seria desse mundão cheio de psicólogos se não fossem as neuroses, não é mesmo? E mais ainda: o que seria dos lacanianos, junguianos, freudianos e kleinianos se não houvesse a linda, famosa e infalível neurose materna? Nada.
Assim, para manter o emprego de tão importantes profissionais, vou dar asas à minha loucurinha. Mas para vocês não pirarem comigo (ou me fazerem pirar indo bundear em outros portos, me abandonando), vou dividir tudo, achar o MDC da minha vida (ah, vai: toca Raul!), e colocar vocês para sofrer em pedacinhos (por favor não quebrem minha coleção do Pink Floyd).
Ou seja: vou fazer vários posts, tá? Bem maluquinhos. Bem cheios de frases à la Raul, o Seixas. Me amem? Me dão a mão? Deixem a luz acesa?