Eu invejo quem tem rotina certinha. Aliás, na mesma medida em que invejo a tal pessoa, dela desconfio, pois como, COMO?, é possível cumprir ritualisticamente funções e atividades todos os dias? São tantas as variáveis, em todos os níveis de tarefas, que, sinceramente, acho um milagre comermos três refeições e dois lanches diariamente.
Tudo começa na madrugada. Se Arthur dorme bem, geralmente acorda de bom humor. Pode ser que acorde bem-humorado e com a pá virada, pode ser que acorde bem-humorado e calmo, dócil e meigo. Quem sabe? Se ele dorme mal, porém, costuma acordar cansado, o que pode levar a um humor meio estranho. Ou não. Cansado, pode ou não ficar mais calmo, ou mais agitado, ou mais levado, ou irritadiço. Mas a variável da madrugada não termina aí, porque eu também entro na jogada, e o meu sono, se foi bom, ruim, suficiente (não existe muito na maternidade) ou pouco, tudo isso vai influenciar na rotina do dia seguinte, já que serei eu fazendo coisas com e para Arthur.
Complexo? Assustador? Mas nós ainda nem começamos a fazer nada. Estamos nos preâmbulos, no prólogo da história cotidiana, que, se você quer mesmo saber, não deveria se chamar rotina, mas sim caostina.
O caos se instaura quando abro os olhos. Invariavelmente, Arthur já está saindo da cama, o que me faz correr porta do quarto afora, a fim de evitar artes e peraltices. E o caos continua ao longo do dia. Cada microtarefa tem a potencialidade da tragédia. Um lápis na mão e uma folha de papel em branco sobre a mesa? Tanto pode gerar um lindo desenho de rabiscos quanto: uma mão cortada pelo papel; lápis no olho da criança; lápis no olho da mãe da criança; lápis na orelha, perfurando o tímpano; lápis na parede; papel no chão, transformando-se, segundos mais tarde, numa superfície deslizante; entre outras zilhões de possibilidades.
Realizar as tarefas enquanto cuido do pequeno é jogar com o imprevisível, que pode vir com uma surpresa incrível nas mãos, tipo uma nova palavra aprendida pelo pequeno ou um pratão comido no almoço, como também pode acenar com o caos absolutamente enlouquecedor de um pequeno ser correndo pelado pela casa enquanto eu tento, sem qualquer êxito, enfiar, pelo menos, a fraldinha naquela bundinha livre, leve e solta. Poças de xixi, carinho no bichinho de pelúcia, uma subida perigosa numa cadeira arrastada para perto do fogão, uma tentativa de entrar sozinho (de cabeça) na banheira, uma leitura pacata e compenetrada no livro favorito, a espera paciente pelo fim do processo de cortar uma cebola, batidas com um objeto pesado no vidro da janela; a cabeça de um bebê é território inescrutável.
Com isso, meus dias de caostina são nietzschenianos: o eterno retorno, a vida que se repete tim-tim por tim-tim, a vida que traz, na potencialidade de se desdobrar de infinitas maneiras, a eternidade na duração de um dia.
Sendo assim, porque todas as rotinas maternas são, essencialmente iguais, é que eu desconfio de quem diz que traz tudo sob controle.
Maternar é viver no limite do incontrolável.
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quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
Da chegada
Olhando de baixo, na segurança sólida do solo sob os nossos pés, nem sempre os desafios parecem ser tão intensos. A perspectiva dá uma coragem muitas vezes enganosa, quase sempre surpreendente.
"Claro que eu vou! Imagina, nem é tão alto, nem é tão difícil, tanta gente já fez isso."
A verdade é que em todas, em absolutamente todas as situações da vida, a gente nunca sabe o que realmente acontecerá até que realmente vivamos o momento. Mesmo uma grávida de milésima viagem, mesmo uma pessoa que já se mudou duzentas vezes, mesmo quem está mais do que escolado em fazer qualquer coisa na vida. A pessoa tem uma ideia do que lhe espera, mas saber, saber de verdade, não sabe.
E aí que eu não sabia. E acho que não soube até que todo o processo estivesse numa nova fase, dando por encerrada a etapa da mudança.
No Brasil, as expectativas foram até realistas, sob certo aspecto, porque repetíamos a cada passo burocrático que dávamos rumo à nova vida "vai ser difícil no começo". No entanto, a gente não fazia ideia de COMO seria difícil. Ou seja, nós sabíamos que teríamos desafios a enfrentar, alguns até já desconfiávamos que encararíamos, mas só quando vivemos o processo foi que conhecemos o rosto dos monstros contra os quais precisaríamos lutar.
Hoje, seis meses depois da mudança, sinto que finalmente vencemos a primeira etapa, a da chegada, a do estabelecimento básico. Agora, no horizonte, novos desafios, novas armadilhas, novas surpresas, alegrias, desventuras, sustos. Mas, por ora, por hoje, enfim chegamos.
"Claro que eu vou! Imagina, nem é tão alto, nem é tão difícil, tanta gente já fez isso."
A verdade é que em todas, em absolutamente todas as situações da vida, a gente nunca sabe o que realmente acontecerá até que realmente vivamos o momento. Mesmo uma grávida de milésima viagem, mesmo uma pessoa que já se mudou duzentas vezes, mesmo quem está mais do que escolado em fazer qualquer coisa na vida. A pessoa tem uma ideia do que lhe espera, mas saber, saber de verdade, não sabe.
E aí que eu não sabia. E acho que não soube até que todo o processo estivesse numa nova fase, dando por encerrada a etapa da mudança.
No Brasil, as expectativas foram até realistas, sob certo aspecto, porque repetíamos a cada passo burocrático que dávamos rumo à nova vida "vai ser difícil no começo". No entanto, a gente não fazia ideia de COMO seria difícil. Ou seja, nós sabíamos que teríamos desafios a enfrentar, alguns até já desconfiávamos que encararíamos, mas só quando vivemos o processo foi que conhecemos o rosto dos monstros contra os quais precisaríamos lutar.
Hoje, seis meses depois da mudança, sinto que finalmente vencemos a primeira etapa, a da chegada, a do estabelecimento básico. Agora, no horizonte, novos desafios, novas armadilhas, novas surpresas, alegrias, desventuras, sustos. Mas, por ora, por hoje, enfim chegamos.
domingo, 12 de janeiro de 2014
Despedidas
Tem gente que não gosta de despedidas. Esse, definitivamente, não é o caso do Arthur.
Lembram que ainda pequenininho ele aprendeu a dar tchau e me deixou de queixo caído? Pois aqui, já dominando a fina arte do balançar a mãozinha de um lado para o outro, girando-a em seu próprio eixo, Arthur nos surpreendeu de novo.
Tínhamos mais ou menos um mês de vida estadunidense e fomos a um restaurante. Ou melhor, a um "restaurante". Sabem, aquelas redes de comida nada saudável (embora não sanduíche) e cheias de sal e gordura? Então, era um lugar desses, onde fomos parar por necessidade. Arthur ainda estava na fase "vivo de luz, não preciso dessas coisas mundanas que querem me enfiar goela abaixo" e não aceitou a única opção saudável do cardápio, nem nada do que levamos para ele, nem deu a menor pelota para a nossa comida junk. Estávamos, portando, desavisados. Nada no comportamento dele anunciava qualquer mudança.
Pois bem, comemos, bebemos, pagamos e fomos em direção à porta. Na saída, uma mocinha simpática do lugar dá o "obrigada por comerem aqui" do manual de atendimento ao cliente e emenda: bye! Ao que o meu pequeno responde, em alto e bom som, com a mímica relacionada: bye!
Assim, minha gente. Na lata. Dentro do contexto! Balançando a mãozinha, que é para ninguém achar que foi uma coincidência ou algo que ouvimos errado. BYE!
Eu não estava pronta para isso e passei uns bons minutos embasbacada, repetindo para marido que ele dissera "bye" e, claro, pedindo para ele repetir a gracinha.
Agora, o bye-bye está mais do que estabelecido, e nos acompanha com frequência (nem sempre ele está a fim de fazer). Mas eis que outro dia, mais uma surpresa: Arthur termina a mamada, olha para o seio e, com a mãozinha estendida e balançante, diz: bye!
Lembram que ainda pequenininho ele aprendeu a dar tchau e me deixou de queixo caído? Pois aqui, já dominando a fina arte do balançar a mãozinha de um lado para o outro, girando-a em seu próprio eixo, Arthur nos surpreendeu de novo.
Tínhamos mais ou menos um mês de vida estadunidense e fomos a um restaurante. Ou melhor, a um "restaurante". Sabem, aquelas redes de comida nada saudável (embora não sanduíche) e cheias de sal e gordura? Então, era um lugar desses, onde fomos parar por necessidade. Arthur ainda estava na fase "vivo de luz, não preciso dessas coisas mundanas que querem me enfiar goela abaixo" e não aceitou a única opção saudável do cardápio, nem nada do que levamos para ele, nem deu a menor pelota para a nossa comida junk. Estávamos, portando, desavisados. Nada no comportamento dele anunciava qualquer mudança.
Pois bem, comemos, bebemos, pagamos e fomos em direção à porta. Na saída, uma mocinha simpática do lugar dá o "obrigada por comerem aqui" do manual de atendimento ao cliente e emenda: bye! Ao que o meu pequeno responde, em alto e bom som, com a mímica relacionada: bye!
Assim, minha gente. Na lata. Dentro do contexto! Balançando a mãozinha, que é para ninguém achar que foi uma coincidência ou algo que ouvimos errado. BYE!
Eu não estava pronta para isso e passei uns bons minutos embasbacada, repetindo para marido que ele dissera "bye" e, claro, pedindo para ele repetir a gracinha.
Agora, o bye-bye está mais do que estabelecido, e nos acompanha com frequência (nem sempre ele está a fim de fazer). Mas eis que outro dia, mais uma surpresa: Arthur termina a mamada, olha para o seio e, com a mãozinha estendida e balançante, diz: bye!
terça-feira, 7 de janeiro de 2014
Fogo!
Toda mãe é meio maluca, eu sei, você sabe, todos sabemos. No entanto, se houvesse um concurso das mais malucas, talvez eu ganhasse ao menos uma menção honrosa.
Se dependesse da ex-creche do Arthur, certamente o título de mãe maluca do ano de 2012 seria meu. Mas fora do circuito mainstream (que acha minhas práticas hipsters demais) também não faço feio, porque algumas maluquices são memoráveis.
Hoje mesmo, por exemplo. No meio do processo de colocar Arthur para dormir comecei a divagar: neve, frio, filho, frila... as associações livres sempre dão margem às minhas maluquices aflorarem (Freud, seu maroto!). Meu pensamento estava no frila, e portanto no computador, quando eu vi. Nítida, clara e efêmera: uma luminosidade amarelo-alaranjado. Fugaz. Fogaz? Fogo? Fogo! O computador, que fica ligado na tomada com dois adaptadores, num esquema pronto para o curto circuito incendiário, estava pegando fogo!
Dei um pulo, arranquei um Arthur sonolento do peito, pronta para correr para fora de casa, rumo aos -40ºC que está fazendo lá fora, o grito já se formando na minha boca aberta quando eu vi novamente: a luz amarela piscante do caminhão que limpa a neve da rua.
Votem em mim. Estou precisada de ganhar qualquer coisa que me dê títulos, status e, com isso, quiçá, algum trocado.
segunda-feira, 6 de janeiro de 2014
Compras
Assim que a porta se fecha eu me arrependo. Vejam bem, é uma necessidade. Se eu tivesse escolha, não ia. Mas se eu não vou, o que acontece? Fome. Choro. Ranger de dentes. Mãe desmaiando. Então, eu preciso ir.
A vontade é de vestir armadura e ir urrando pelo caminho, já que é papo de matar um leão. Um leão por dia. Porque não tenho carro e preciso fazer as compras de supermercado a pé, no meio da neve, com Arthur a tiracolo. Ou melhor, no carrinho. Ou melhor, no carrinho quando ele quer entrar. Ou melhor, no carrinho quando eu consigo colocá-lo lá dentro antes que ele escorregue por baixo da barra de segurança me dando vários choquinhos por causa da estática do casacão friccionando-se contra o tecido do carrinho.
No topo da escada, eu estou com Arthur no colo (ou no chão, tentando se jogar escada abaixo, já que ele ainda não sabe descer direito), o meu casaco, o casaco dele, luvas, cachecol, gorros e a chave de casa. Trancar a porta é luxo. Chegar com o coque ainda preso lá embaixo, também.
A vontade é de voltar correndo, me jogar no sofá e ler um livro a tarde toda. Mas se eu não for ao supermercado, fico com fome. Ou melhor: ficamos. E como agora não sou a única por aqui, visto a armadura (virtual) e desço quatro lances de escada, espeto filhote no carrinho e saio arrastando neve e mais neve por aí.
Invariavelmente chego no supermercado (que fica a uns quatro quarteirões daqui de casa) suada onde coberta, gelada onde exposta e meio rouca, de tanto ficar matraqueando no frio para distrair Arthur.
Lá dentro, táticas de guerrilha, pois o leão espreita: carne ou frango, arroz, feijão, frutas, verduras e legumes, suco, outro item de necessidade imediata. Não posso comprar muito porque não tenho como carregar tudo de uma só vez: se estou de carrinho de bebê não posso pegar o carrinho de compras; mas se vou sem carrinho de bebê, não posso comprar muitas coisas já que não dou conta de carregar compras + bebê + roupas minhas e do bebê. Também o carrinho é meio fuleira e anda mais para lá do que para cá. Não convém sobrecarregar.
Pago. Ensaco. Arrumo no carrinho, na mochila, e volto.
O leão ainda espreita: às vezes preciso comprar uma barrinha de cereal porque a saída é tão complexa que acabo morrendo de fome no supermercado mesmo, e para não desmaiar, vou comendo pelo caminho. Comendo e arrastando carrinho, bebê, compras, roupas e neve. Muita neve. Neve a dar com pau. Neve de se atolar, de se perder, de fazer pocinha de água suja iguaizinhas às do Rio. Neve branca, neve preta, neve cinza, até neve amarela de xixi de cachorro. Neve. Neve socada e firme. Neve fofa e soltinha. Neve que cai do céu, que voa do chão e dos telhados, neve que vem até na horizontal, sabe-se lá de onde, porque aqui nessa terra batem uns ventos muito loucos!
Coberta de neve, chego à portaria.
Não tem porteiro, então preciso abrir e fechar a mão diversas vezes, para que o sangue volte a fluir e eu consiga mover os dedos e pegar a chave. Calço sempre duas luvas, mas não bastam. Já comprei luvas de todos os tipos e formatos e elas ainda assim deixam minha mão gelada. Paciência. Vai ver um duende enfia neve dentro da luva. Vai ver sou sensível. Vai ver eu me acostumo.
Entrar na portaria às vezes é fácil, mas geralmente complica porque a porta é pesada e preciso encontrar o sutil equilíbrio entre erguer as rodas dianteiras do carrinho enquanto o puxo, e com a perna, chutar a porta (que delicadeza!) para que ela se abra. Agora tenho músculos firmes nas pernas. Mas o equilíbrio é o segredo, para que o carrinho não tombe para trás, nem eu caia de bunda ou de cara. Já virei o carrinho uma vez. Arthur, felizmente, estava do lado de fora, com o pai. Porém, geralmente estou sozinha, com Arthur dentro do carrinho, então é importante manter o equilíbrio.
Aliás, é sempre muito importante manter o equilíbrio. Dentro de casa, fora dela, ou entrando nela.
Entrar na portaria é fácil. Duro é abrir a segunda porta e estacionar o carrinho e retirar as sacolas e o pequeno e subir com tudo: compras, bebê, roupas. O carrinho fiz um acordo e fica mesmo na portaria, amém!
Geralmente respiro fundo (que é para não endoidecer logo de manhã) e faço tiros de lances, nova modalidade olímpica para 2016. Sabem como é? Você coloca o bebê no chão, pede para ele ficar quietinho e esperar, sobe correndo, pulando de 2 em 2 degraus o primeiro lance de escada com as compras todas nas mãos. Pousa as sacolas, desce correndo para evitar que o bebê suba as escadas sozinho, agarra o filhote, sobre com ele, pousando-o ao lado das compras. Daí, você fala para ele esperar um pouquinho, quietinho, passa a mão nas sacolas mais uma vez, sobe correndo, pousa as compras, volta, pega o moleque, pousa o moleque...
São quatro lances de escada. Tô craque!
Às vezes estou ousada: subo com tudo dando um foda-se à minha resistência patética. Quatro lances de escada com bebê, roupas, compras e chave na mão. Se tiver correspondência, também levo. Chego suada, esbaforida, achando que vou morrer. Mas não tem a adrenalina de ficar olhando Arthur para que, ao menor movimento em direção à escada, eu dê um triplo twist mortal para trás e segure o menino, mesmo às custas de ovos se quebrando ou compras se esparramando escadaria abaixo (sim, já aconteceu comigo. As duas coisas).
Há também os dias em que estou paciente, ou cansada, ou temerosa (a gente conhece os filhos, e quando eles acordam na vibe de fazer besteira, melhor não arriscar). Nesses dias eu costumo soltar Arthur na escada e subir escorando ele, carregando tudo, e chegando em casa cerca de meia hora depois de ter entrado na portaria.
Já tentei também deixar filhote no carrinho, subir correndo com todas as compras e voltar num pulo para buscá-lo. Mas não curti. Foi rápido, é seguro, mas tenho medo de alguém entrar (a louca, já que só quem tem chave entra) e levar meu filho, de ele chorar ou se sentir abandonado.
Já tentei dividir as compras em partes e ir subindo com elas e com Arthur no colo. Mas quase morri e achei que enquanto eu não treinar para triatlo, não vale o risco de infarte.
Também já arrisquei subir, pegar sling, colocar Arthur lá dentro e subir com as compras e com ele no sling. funcionou em termos, pois filhote ficou meio frustrado quando voltamos para casa e não demos uma nova voltinha.
Enfim, cada dia é uma técnica nova, mas sempre que chego à porta de casa rola o estresse da abertura da porta. Mesmo se não deu tempo de trancar, eu vou precisar empurrar a porta (pesada), enfiar compras e Arthur dentro de casa ao mesmo tempo em que descalço nossas botas cheias de neve e as deixo na entrada de casa. Costumo ter de interromper a missão umas duas ou três vezes para evitar que Arthur se atire lá embaixo ou que jogue nossas compras pelo corredor do prédio. Também evito subidas para o andar de cima e abertura de embalagens, sobretudo das caixas de ovos, que são incrivelmente tentadoras. Tão tentadoras que guardei uma para virar caminhão para ele brincar!
Enfim, eu sei que deveria, como a Aline sugeriu, tirar uma foto ilustrativa do caos. Mas pergunto: onde vou enfiar uma câmera no meio dessa situação?
É favor não responder.
Obrigada.
Obrigada.
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Ciúmes
Tá, tá, tá, eu confesso: sou ciumenta. Ponto. Sou ciumenta e possessiva. Sempre fui. Pessoas, objetos, lugares, ideias, quero tudo e todos para mim. Só para mim.
Mas eu não fiz filho sozinha, né? E não ter feito filho sozinha significa que, por mais que eu ame marido, Arthur não seria só meu. Quer dizer, ele até foi só meu por longas 41 semanas. Só eu curtia a vidinha dele serelepando aqui dentro 24h por dia. Porém, assim que ele saiu da minha barriga, passou a poder ser tocado, manipulado e gerido por outras pessoas. Inclusive marido.
Por termos escolhido ter um puerpério "minimalista", só eu, marido, Arthur e nosso boxer, quando eu estava grávida não me importava muito com a família "tomando posse" do Arthur, mas sim de como eu iria administrar o ciúme duplo aqui em casa: Arthur com marido; marido com Arthur.
Oh, céus! Como sofri pensando nisso, tentando arrumar uma solução para que eu conseguisse "permitir" que os dois, pai e filho, tivessem uma relação própria e autônoma, sem a intermediação da mamãe aqui (e seu ciúme, claro).
Passava muito tempo pensando (e com esse pensamento me dilacerando por dentro) em como seria quando Arthur preferisse o colo dele ao meu; como eu reagiria quando eles se divertissem sozinhos, quando saíssem sozinhos, quando trocassem beijos e carinhos sem mim. Não achei caminho. Me preocupei, respirei fundo, tentei bolar estratégias para distrair o monstro verde do ciúme.
E aí aconteceu a vida.
Marido e Arthur se amaram desde o começo. Marido e Arthur acharam um caminho de interação, eles se conectaram, eles se conheceram e se coadunaram, inventaram brincadeiras, rotinas, maneiras de se comunicar. E eu fiquei de fora de muita coisa. Surpreendentemente feliz. Realizada. Satisfeita por ver que pessoas não são divisíveis e, por não serem divisíveis, são unas, inteiras e capazes de multiplicar suas facetas. Com isso, multifacetados e ainda assim indivisíveis, meus homens elevam-me ao expoente infinitesimal do amor.
Sem ciúmes. Livres.
Feliz pelos dezoito meses mais lindos e transformadores da minha vida.
Mas eu não fiz filho sozinha, né? E não ter feito filho sozinha significa que, por mais que eu ame marido, Arthur não seria só meu. Quer dizer, ele até foi só meu por longas 41 semanas. Só eu curtia a vidinha dele serelepando aqui dentro 24h por dia. Porém, assim que ele saiu da minha barriga, passou a poder ser tocado, manipulado e gerido por outras pessoas. Inclusive marido.
Por termos escolhido ter um puerpério "minimalista", só eu, marido, Arthur e nosso boxer, quando eu estava grávida não me importava muito com a família "tomando posse" do Arthur, mas sim de como eu iria administrar o ciúme duplo aqui em casa: Arthur com marido; marido com Arthur.
Oh, céus! Como sofri pensando nisso, tentando arrumar uma solução para que eu conseguisse "permitir" que os dois, pai e filho, tivessem uma relação própria e autônoma, sem a intermediação da mamãe aqui (e seu ciúme, claro).
Passava muito tempo pensando (e com esse pensamento me dilacerando por dentro) em como seria quando Arthur preferisse o colo dele ao meu; como eu reagiria quando eles se divertissem sozinhos, quando saíssem sozinhos, quando trocassem beijos e carinhos sem mim. Não achei caminho. Me preocupei, respirei fundo, tentei bolar estratégias para distrair o monstro verde do ciúme.
E aí aconteceu a vida.
Marido e Arthur se amaram desde o começo. Marido e Arthur acharam um caminho de interação, eles se conectaram, eles se conheceram e se coadunaram, inventaram brincadeiras, rotinas, maneiras de se comunicar. E eu fiquei de fora de muita coisa. Surpreendentemente feliz. Realizada. Satisfeita por ver que pessoas não são divisíveis e, por não serem divisíveis, são unas, inteiras e capazes de multiplicar suas facetas. Com isso, multifacetados e ainda assim indivisíveis, meus homens elevam-me ao expoente infinitesimal do amor.
Sem ciúmes. Livres.
Feliz pelos dezoito meses mais lindos e transformadores da minha vida.
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