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quinta-feira, 10 de novembro de 2016

Fernando Sabino reeditado

Estava eu em casa, de pijama, em mais um dia modorrento de pré-inverno chuvoso na Bélgica. Estamos com chuva há 5 dias e teremos tempo nublado/chuvoso até dia 23, pelo menos. Então, no panorama geral, Trump tinha sido eleito presidente do país onde devo morar até 2018, Temer deu um golpe no país onde nasci e no país onde atualmente passo uma temporada estava chovendo gordas lágrimas de decepção liberal. Nesse contexto, pijama em casa era o máximo que eu conseguia administrar.
Tudo corria bem, apesar do clima 7X1-e-os-fascistas-tão-chegando, até que Arthur grita e dá um pulo:
- Uma aranha!
Onde? Não tô vendo. Ali, correu. Vi. Era uma pernalta amarronzada e estava bem na frente do meu filho. Meu filho que não admite que matemos nenhum bicho que não seja mosquito que morde. Meu filho, também de pijama, que acompanhava o caminhar elegante da aranha pelo chão da nossa sala.
Qual saída? Distrair o menino e pá!, matar a aranha? Não, o mundo não precisa de mais gente escrota, mentirosa e hipócrita. Então, fui tocando a aranha feito gado pela sala, no intuito de expulsá-la para fora de casa, pela porta da frente, em grande estilo e sem estragos. Passamos pela mesa, conduzi o aracnídeo até o hall de entrada e ali peguei a vassoura que tinha acabado de pousar quando filhote me chamou. Acendi a luz, abri a porta, com muito cuidado ia pisando com meu chinelo de oncinha para fazer um movimento forte o bastante para levar a aranha para onde eu queria, mas suave o suficiente para não machucá-la ou assustá-la demais. A vassoura seria minha aliada para conseguir pousar a bichinha em um dos degraus da escada, o plano era perfeito. Arthur me acompanhava, intrigado com o desfecho, eu ia conduzindo tudo direitinho, todo mundo feliz, a aranha subiu espontaneamente na vassoura, o que facilitaria bastante para mim, pois agora era só colocar a vassoura na escada e esperar a aranha sair andando em suas patas compridas e...
clic
Com um clique suave e quase inaudível a porta da minha casa se fechou atrás de mim.
Quarta-feira, Trump eleito, três graus e muita chuva lá fora, eu sozinha com filhote e os dois de pijama, trancados do lado de fora de casa.
Embora estivesse de calça, chinelo e casaco, me senti o próprio Claudio Marzo em "O homem nu".

Maldita aranha! (imagem daqui, ó: http://www.papodecinema.com.br/filmes/o-homem-nu)
Eu vestia calça, casaco e chinelo, mas Arthur estava descalço. Meu celular ficara do lado de dentro, assim como carteira com dinheiro ou qualquer outra coisa que pudesse me ajudar a encontrar uma solução digna para a situação.
O prédio só tem um vizinho, que não estava em casa, e nossos senhorios moram na casa ao lado. No dia anterior, para minha vergonha completa, eu já tinha tocado na casa deles e pedido que por favor abrissem a porta porque saí e larguei a chave do lado de fora da porta de casa. Então, não foi sem constrangimento que desci (depois de calçar no menino as botas que estavam do lado de fora de casa! que sorte!) e toquei a campainha. Chuva, vento, frio. Nenhuma resposta.
Voltei para dentro do prédio, sentei na escada. O que fazer? Não conheço ninguém aqui, marido ainda demoraria pelo menos mais 3h para chegar em casa, vizinho fora de casa, senhorios idem. Eu queria chorar. Eu queria fazer xixi. Conseguia escutar o som tocando dentro de casa, ver a luz do hall acesa.
Esperei.
Desci de novo. Mais um toque na campainha. Outro. Ninguém.
Voltamos para dentro do prédio porque meus dedinhos estavam começando a ficar dormentes com o vento gelado.
Sentei na escada, vi a aranha tentar escalar a parede, ajeitei a vassoura, tentei distrair Arthur.
Desci. Toquei. Nada.
Subi, me esquentei, tive uma ideia.
Desci, abri a garagem, peguei a chave do cadeado da bicicleta. Óbvio que não funcionaria, mas pelo menos iria me distrair. Quantas horas eu ficaria ali, naquele corredor? Tinha acabado de mandar uma mensagem para marido perguntando que horas ele voltaria para casa. Vejam que coincidência escrota! E antes de ver a resposta, clique.
Subi com a chave e ela nem sequer tinha a mesma espessura do buraco da fechadura, tudo que eu podia fazer era achar um ângulo qualquer e tentar criar uma espécie de alavanca para girar o tambor da fechadura. Óbvio que não funcionou.
Desci de novo. O corredor do prédio estava ficando gelado com tanto abre e fecha de porta da rua. Toquei a campainha. Nada. De novo. Nada. Arthur correndo, pulando, achando tudo uma graça (pelo menos isso!). Subi. Peguei a chave da bicicleta de novo. Tentei mais uma vez. Desisti e achei que se McGyver conseguia consertar um jato com chiclete e um chumaço de algodão, talvez eu conseguisse abrir a porta da minha casa desfazendo o aro que ligava a chave da bicicleta ao chaveiro. Desfiz o aro. Enfiei o arame dentro do buraco da fechadura e tentei todas as combinações possíveis de posição do arame + força na porta + chave da bicicleta formando uma espécie de alavanca. Não funcionou, é claro.
Desci de novo. O vizinho do outro lado chegava em casa, perguntei as horas, quatro e dez, lascou-se, acho que talvez seja bom pensar em ir ao mercado daqui a pouco porque lá tem aquecimento e está ficando frio, mas se eu for ao mercado, marido pode voltar para casa e ter um pequeno surto ao encontrar tudo aceso, som ligado e nós desaparecidos, melhor ficar aqui, mas marido só deve chegar lá pelas seis e meia, o que faço, Arthur, desce daí, meu filho. Respira.
Toquei a campainha. Nada. Quis chorar. Pensei onde eu poderia fazer xixi nas redondezas, mas aqui não é os EUA e nenhum estabelecimento comercial tem banheiro para clientes. E eu nem seria uma cliente, já que não tinha dinheiro para consumir.
Subi. Arthur canta com a vassoura. Arthur dança com a vassoura. Arthur quer saber da aranha. Tento, insistente e inutilmente, abrir a porta com o arame e a chave que não entra na fechadura. Desisto. Sento no degrau.
Ouço um barulho.
Desço.
Serão os senhorios? Será o vizinho? Será um delírio?
Não! Era meu próprio marido, ensopado, com as mãos duras de tanto frio e o olhar atônito de quem achou, por alguns segundos, que a mulher estava saindo de casa de pijama e chinelo. Ele veio mais cedo para casa, mal posso crer!
Ficamos uma hora e seis minutos trancados do lado de fora. E, ainda assim, quando entrei em casa, o Trump ainda estava eleito.
Que tempos, minha gente. Que tempos!

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

O drama das malas (e outras histórias)

[Vai amamentar porque é textão!]

Já falei que eram cinco. E já falei que teve drama. Mas acho que ninguém imagina o nível de drama. Só de lembrar me dá vontade de chorar, de jogar todos os meus trapos numa fogueira de adoração ao minimalismo e até mesmo virar adepta ao naturalismo, quem sabe? Afinal, ainda temos no horizonte Brasil, Angola e Chicago de volta. Com as malas.
Tudo começou, óbvio, em Chicago.
A casa era pequena, mas não era minúscula, e a quantidade de tralha que a gente acumula ao longo dos anos é realmente impressionante. Como disse marido, até hoje a gente espera a ligação do guarda-móveis dizendo que a porta de aço do nosso cubículo explodiu de tão cheio que ele estava.
Mas então, ainda lá em Chicago a gente fez a triagem das coisas que seriam guardadas e das que seriam descartadas. Muita coisa foi embora, muita coisa ficou, mas a gente ainda tinha as malas a serem feitas.
Começou o drama do combo amplitudes térmicas + crescimento do Arthur + não saber como lavaremos roupa em Angola. Tentei montar uma mala enxuta, mas existem coisas que precisavam vir com a gente, para dar a Arthur um sentido de continuidade, de pertencimento à próxima casa, né? Eu entendo que vamos ficar um ano fora, que é provisório, que as coisas profundas que compõem um lar não vão dentro da mala, mas dentro da gente. Acontece que Arthur tem 4 anos e não estava curtindo nada aquele bando de "encaixota", "joga fora", "doa".
Bom, fizemos nossas sete malas. Sete? Ué, não eram cinco?
Calma! Eu chego lá.
Fizemos sete malas na véspera de levar as coisas para o guarda-móveis, em meio a um processo de "desentulhamento" nunca visto antes, em meio a uma obsessiva limpeza de cantinhos e detalhes para não pagar multa (tem uma lista de coisas que você precisa limpar antes de entregar o apartamento - coisas, inclusive, que NÃO recebemos conforme o manual). Fizemos as malas logo depois que a última visita foi embora, porque, sim, tivemos 3 visitas nas semanas finais de encaixotamento. Fizemos as sete malas até de madrugada, mesmo sabendo que no dia seguinte, bem cedinho, nosso vizinho parça viria nos ajudar a carregar o caminhão com os móveis e as caixas que iriam ser armazenadas no guarda-móveis.
Pausa técnica: não sei se todo mundo sabe, eu não sabia, então vou contar. Sabe como as pessoas se mudam nos EUA? Tem duas maneiras que eu conheço: você contrata um caminhão com gente para transportar suas tralhas e deixa um rim como forma de pagamento, ou você contrata um caminhão, que será dirigido e carregado por você, e faz tudo por conta própria mesmo. Adivinhem qual foi a nossa "opção"? Isso mesmo. Alugamos um caminhãozinho que, com a ajuda do nosso vizinho camarada-salvador-da-pátria, enchemos com nossos móveis e tralhas a serem levados para o guarda-móveis. Lá no guarda-móveis, a mesma história: você faz tudo. Era um dia quente. Eu achei que fosse ter um treco, juro! Suei como se estivesse na UERJ nos áureos tempos adolescentes, dentro daquelas salas de aula sem ar nem ventilador e que refratavam os 50 graus do Maracanã para dentro das paredes de concreto. Carreguei muito peso, levantei caixas maiores que eu, equilibrei tralhas em posições que dariam inveja ao mais flexível praticante do Kama Sutra, fiz caber em um espaço de 25 pés quadrados (seja lá quanto for isso) três anos de Chicago + lembranças imperdíveis de 30 anos no Brasil. Ou seja: coisa bagarái. Devo tudo isso aos meus anos de prática com Tetris. 
Mas voltemos às malas.
As malas, então, ficaram ali no apartamento, semi-abertas, porque não tínhamos mais cabides, nem cômodas, nem nada. Na verdade, tínhamos tudo isso, mas guardado ou esvaziado.
Pois bem, fizemos o transporte das coisas, voltamos para um apartamento cheio de eco com as malas, e só as malas, já que todos os móveis estavam guardados. Foram dois dias até irmos para o hotel onde ficamos nos dois dias anteriores à viagem. Dois dias tensos. Dois dias desconfortáveis, dormindo no chão (menos Arthur, que ficou com o sofá velho que depois jogamos fora), comendo comida congelada com talheres de plástico e muitas outras coisinhas altamente precárias.
As malas, sete, não cabiam em um táxi comum. Uber XL era caro. Táxi XL idem. Decidimos, então, aproveitar a minivan que tínhamos alugado para levar tudo até o hotel. O carro não entrava na garagem porque era mais alto que as vigas, então manobramos com a ajuda do garagista, que vendo nós três descarregar malas e mais malas (e um painel solar IMENSO), perguntou se iríamos ficar meses, ao que respondemos "dois dias". Queria ter tirado foto da cara do homem. ahahah
Bom, primeiro dia foi dedicado a deitar nas camas macias e limpas do hotel, a tomar banhos quentes e longos, comer comida quente e prearada na hora, a ir à piscina e... a resolver milhares de pepinos que surgiram de última hora, o que anulou por completo nossas tentativas de desestressar. Lista esta que incluiu sair para comprar uma mala nova, bem grandona, porque descobrimos que uma das nossas tinha se quebrado. Que beleza!
Bom, o outro dia já era a véspera da viagem, então precisaríamos terminar de resolver a pepinada (que parecia, na verdade, um bando de ratos se reproduzindo alucinadamente) e começar a focar no deslocamento em si, nos processos de saída e chegada em dois países diferentes e essas coisas que vocês devem saber. Corre daqui, corre dali, a noite chegou, Arthur dormiu e fomos passar o pente fino no quarto (para não deixar nada para trás), nos documentos (idem) e, claro, reorganizar as malas. Tudo lindo, tudo maravilhoso, tudo fluindo. Até que marido resolveu cuidar da nossa chegada em Ghent (vou escrever o nome da cidade em inglês mesmo porque acho caído Gante). Decidimos agendar um serviço de shuttle e lá no contrato vinha dizendo que eles não cobravam as malas "normais", uma por passageiro mais a de mão. Opa! Acendeu o alerta vermelho e marido foi ver no site da companhia aérea. Eu, atrás dele, afirmava, convicta: claaaaro que são duas malas de até 32kg para cada um! Óbvio!
ahahahahahahahaha (riam comigo)
Lemos e relemos diversas vezes para nos certificarmos de que, sim, pela primeiríssima vez na vida (cof! cof!) eu estava errada. As regras para viagens ao Brasil são as que falei: duas malas de até 32kg. Mas, para a Europa, é uma malinha só e o peso não pode ultrapassar 23kg.
Neste momento, um letreiro luminoso se acendeu em minha testa, piscando em neon vermelho: FODEU! FODEU! FODEU!
Eram onze da noite, véspera da nossa fucking viagem, e tínhamos acabado de descobrir que precisaríamos deixar QUATRO das malas que estavam conosco. Como fazer isso? Onde colocar as QUATRO malas que precisaríamos deixar? A que horas terminaríamos de fazer tudo?
Nessa hora eu tive vontade de deitar em posição fetal e chorar até dormir. Mas eu dormiria rápido, e era véspera da viagem, então a única possibilidade era abrir TODAS - vou repetir - T-O-D-A-S as nossas malas e ver, peça por peça, o que iria e o que ficaria.
Conseguimos, com muito suor e esforço. As malas, que eram sete (fora as de mão e o painel solar), se transformaram em três + duas de mão. Marido ainda teria a árdua missão de levar e encaixar, sabe-se lá como e onde, as quatro malas remanescentes no nosso depósito já abarrotado até o teto (literalmente)!
Eram duas e meia da manhã quando fechamos o último zíper. Exaustos, desmaiamos por algumas horas, até que fomos acordados pelo despertador e recomeçou a correria: corre para tomar café, corre para pegar um táxi e levar as malas até o guarda-móveis, corre para fazer check-out, corre para dar tchau para os bibliotecários (sim, importantíssimo para nós), corre para resolver os últimos pepinos que exigiam nossa presença física, corre, corre, corre. Corra, Ártemis, corra! No primeiro final, Ártemis e família não conseguem. No segundo final, Ártemis e família se separam, marido embarca sozinho, ela e Arthur choram porque não conseguiram completar as etapas obrigatórias da gincana e perderam os passaportes. Mas no terceiro final, que foi o que decidi viver, tudo deu certo, aos trancos e barrancos, e fomos de táxi XL, falando francês, até chegarmos ao aeroporto.
(continua...)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Pling, pling, pling

Pling. Pling. Pling.
Eu não sabia de onde vinha o barulho, e tal e qual um cão perdigueiro, saí pela casa caçando-o.
Pling. Pling. Pling.
Ia pensando que o frila estava atrasado de novo. Pensando se eu tinha comprado comida suficiente para os estimados três dias de frio intenso, durante os quais fomos recomendados a ficar em casa, sob o risco de congelar os membros expostos em apenas cinco minutos. Pensando se daria tempo, naquele dia, de pegar o computador de tardinha, quando Arthur dormisse, para frilar um pouco e tentar correr atrás do tempo perdido.
E então eu descobri!
Pling. Pling. Pling.
Uma infiltração. Uma goteira. Muitas gotas, que depois viraram um fio de água que escorria do teto. Bem em cima da mesa. Onde repousava nosso computador.
Perdemos frila, computador, manchamos a mesa e ainda ficamos com um teto estropiado. Tudo isso no meio da onda de frio glacial que varreu os EUA.

Daí, ontem, de novo: Pling. Pling. Pling.
Gelei.
Pelo menos não temos mais computador (na sala) para quebrar.
Pling. Pling. Pling.
Feito um cão perdigueiro, fui caçar de onde vinha o som.
Pling. Pling. Pling.
Vocês não imaginam a alegria que é ter uma pia mal fechada na cozinha!

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Compras

Assim que a porta se fecha eu me arrependo. Vejam bem, é uma necessidade. Se eu tivesse escolha, não ia. Mas se eu não vou, o que acontece? Fome. Choro. Ranger de dentes. Mãe desmaiando. Então, eu preciso ir.
A vontade é de vestir armadura e ir urrando pelo caminho, já que é papo de matar um leão. Um leão por dia. Porque não tenho carro e preciso fazer as compras de supermercado a pé, no meio da neve, com Arthur a tiracolo. Ou melhor, no carrinho. Ou melhor, no carrinho quando ele quer entrar. Ou melhor, no carrinho quando eu consigo colocá-lo lá dentro antes que ele escorregue por baixo da barra de segurança me dando vários choquinhos por causa da estática do casacão friccionando-se contra o tecido do carrinho.
No topo da escada, eu estou com Arthur no colo (ou no chão, tentando se jogar escada abaixo, já que ele ainda não sabe descer direito), o meu casaco, o casaco dele, luvas, cachecol, gorros e a chave de casa. Trancar a porta é luxo. Chegar com o coque ainda preso lá embaixo, também.
A vontade é de voltar correndo, me jogar no sofá e ler um livro a tarde toda. Mas se eu não for ao supermercado, fico com fome. Ou melhor: ficamos. E como agora não sou a única por aqui, visto a armadura (virtual) e desço quatro lances de escada, espeto filhote no carrinho e saio arrastando neve e mais neve por aí.
Invariavelmente chego no supermercado (que fica a uns quatro quarteirões daqui de casa) suada onde coberta, gelada onde exposta e meio rouca, de tanto ficar matraqueando no frio para distrair Arthur.
Lá dentro, táticas de guerrilha, pois o leão espreita: carne ou frango, arroz, feijão, frutas, verduras e legumes, suco, outro item de necessidade imediata. Não posso comprar muito porque não tenho como carregar tudo de uma só vez: se estou de carrinho de bebê não posso pegar o carrinho de compras; mas se vou sem carrinho de bebê, não posso comprar muitas coisas já que não dou conta de carregar compras + bebê + roupas minhas e do bebê. Também o carrinho é meio fuleira e anda mais para lá do que para cá. Não convém sobrecarregar.
Pago. Ensaco. Arrumo no carrinho, na mochila, e volto.
O leão ainda espreita: às vezes preciso comprar uma barrinha de cereal porque a saída é tão complexa que acabo morrendo de fome no supermercado mesmo, e para não desmaiar, vou comendo pelo caminho. Comendo e arrastando carrinho, bebê, compras, roupas e neve. Muita neve. Neve a dar com pau. Neve de se atolar, de se perder, de fazer pocinha de água suja iguaizinhas às do Rio. Neve branca, neve preta, neve cinza, até neve amarela de xixi de cachorro. Neve. Neve socada e firme. Neve fofa e soltinha. Neve que cai do céu, que voa do chão e dos telhados, neve que vem até na horizontal, sabe-se lá de onde, porque aqui nessa terra batem uns ventos muito loucos!
Coberta de neve, chego à portaria.
Não tem porteiro, então preciso abrir e fechar a mão diversas vezes, para que o sangue volte a fluir e eu consiga mover os dedos e pegar a chave. Calço sempre duas luvas, mas não bastam. Já comprei luvas de todos os tipos e formatos e elas ainda assim deixam minha mão gelada. Paciência. Vai ver um duende enfia neve dentro da luva. Vai ver sou sensível. Vai ver eu me acostumo.
Entrar na portaria às vezes é fácil, mas geralmente complica porque a porta é pesada e preciso encontrar o sutil equilíbrio entre erguer as rodas dianteiras do carrinho enquanto o puxo, e com a perna, chutar a porta (que delicadeza!) para que ela se abra. Agora tenho músculos firmes nas pernas. Mas o equilíbrio é o segredo, para que o carrinho não tombe para trás, nem eu caia de bunda ou de cara. Já virei o carrinho uma vez. Arthur, felizmente, estava do lado de fora, com o pai. Porém, geralmente estou sozinha, com Arthur dentro do carrinho, então é importante manter o equilíbrio.
Aliás, é sempre muito importante manter o equilíbrio. Dentro de casa, fora dela, ou entrando nela.
Entrar na portaria é fácil. Duro é abrir a segunda porta e estacionar o carrinho e retirar as sacolas e o pequeno e subir com tudo: compras, bebê, roupas. O carrinho fiz um acordo e fica mesmo na portaria, amém!
Geralmente respiro fundo (que é para não endoidecer logo de manhã) e faço tiros de lances, nova modalidade olímpica para 2016. Sabem como é? Você coloca o bebê no chão, pede para ele ficar quietinho e esperar, sobe correndo, pulando de 2 em 2 degraus o primeiro lance de escada com as compras todas nas mãos. Pousa as sacolas, desce correndo para evitar que o bebê suba as escadas sozinho, agarra o filhote, sobre com ele, pousando-o ao lado das compras. Daí, você fala para ele esperar um pouquinho, quietinho, passa a mão nas sacolas mais uma vez, sobe correndo, pousa as compras, volta, pega o moleque, pousa o moleque...
São quatro lances de escada. Tô craque!
Às vezes estou ousada: subo com tudo dando um foda-se à minha resistência patética. Quatro lances de escada com bebê, roupas, compras e chave na mão. Se tiver correspondência, também levo. Chego suada, esbaforida, achando que vou morrer. Mas não tem a adrenalina de ficar olhando Arthur para que, ao menor movimento em direção à escada, eu dê um triplo twist mortal para trás e segure o menino, mesmo às custas de ovos se quebrando ou compras se esparramando escadaria abaixo (sim, já aconteceu comigo. As duas coisas).
Há também os dias em que estou paciente, ou cansada, ou temerosa (a gente conhece os filhos, e quando eles acordam na vibe de fazer besteira, melhor não arriscar). Nesses dias eu costumo soltar Arthur na escada e subir escorando ele, carregando tudo, e chegando em casa cerca de meia hora depois de ter entrado na portaria.
Já tentei também deixar filhote no carrinho, subir correndo com todas as compras e voltar num pulo para buscá-lo. Mas não curti. Foi rápido, é seguro, mas tenho medo de alguém entrar (a louca, já que só quem tem chave entra) e levar meu filho, de ele chorar ou se sentir abandonado.
Já tentei dividir as compras em partes e ir subindo com elas e com Arthur no colo. Mas quase morri e achei que enquanto eu não treinar para triatlo, não vale o risco de infarte.
Também já arrisquei subir, pegar sling, colocar Arthur lá dentro e subir com as compras e com ele no sling. funcionou em termos, pois filhote ficou meio frustrado quando voltamos para casa e não demos uma nova voltinha.
Enfim, cada dia é uma técnica nova, mas sempre que chego à porta de casa rola o estresse da abertura da porta. Mesmo se não deu tempo de trancar, eu vou precisar empurrar a porta (pesada), enfiar compras e Arthur dentro de casa ao mesmo tempo em que descalço nossas botas cheias de neve e as deixo na entrada de casa. Costumo ter de interromper a missão umas duas ou três vezes para evitar que Arthur se atire lá embaixo ou que jogue nossas compras pelo corredor do prédio. Também evito subidas para o andar de cima e abertura de embalagens, sobretudo das caixas de ovos, que são incrivelmente tentadoras. Tão tentadoras que guardei uma para virar caminhão para ele brincar!
Enfim, eu sei que deveria, como a Aline sugeriu, tirar uma foto ilustrativa do caos. Mas pergunto: onde vou enfiar uma câmera no meio dessa situação?
É favor não responder.
Obrigada.

domingo, 28 de julho de 2013

A viagem

O que é caos para você?
Para mim, a concepção de caos foi refeita após nossa viagem de mudança, e nada parecerá tão ruim que possa ser comparado a ela: a viagem.

O dia amanheceu simples e lindo: Arthur acordando cedíssimo, eu e marido tomando café da manhã e nos arrumando para sairmos, céu azul e passarinhos gorjeando. Ó, vida linda, ó, vida boa!
Fomos ao pediatra e não era catapora (só mosquito mesmo). Saímos do pediatra e não havia trânsito. Chegamos em casa e havia pouco mais que arrumar: umas roupinhas aqui, umas latinhas de leite condensado acolá, risos, alegria, leveza e fantasia. Consegui até cochilar de tarde, vejam vocês! Não havia pistas.
Às quatro da tarde tudo estava quase pronto e começamos a nos arrumar para partir.
Malas nos carros, todos vestidos e despedidos, passaportes, documentos, passagens.
Apesar do engarrafamento quilométrico, a vida era bela. Arthur, jururu no carro, brigava contra o tédio de um acelera-freia-não-passa-da-primeira de quase uma hora.
Chegamos, enfim, ao aeroporto a tempo até de ver minha prima, que embarcava no mesmo dia para outro destino. Tudo perfeito e agradável.
Tola eu, acreditei que nosso começo seria com o pé direito, e que este post viria deliciosamente recheado de histórias invejáveis.
Rá!
Já no embarque as coisas começaram a ficar estranhas. Minha restrição por conta da APLV gerou um estresse, porque eu levei minha própria comida para o avião (já que não havia meios de se garantir que a comida oferecida seria isenta de leite e/ou derivados) e ninguém sabia responder se eu de fato poderia embarcar com ela. Fui orientada a solicitar comida Kosher, que não pode misturar leite e derivados com carne, mas não havia um rabino para benzer a refeição, então ela não poderia ser servida. Como eu já estava no erro, comendo comida sagrada sem seguir a religião, achei melhor respeitar a não benção como um empecilho sério.
Assim, fomos comer alguma coisinha ainda no aeroporto (no meu caso, para garantir).
Chegando à praça de alimentação, achei melhor garantir mesmo: pela quantidade de gente ali, era o holocausto nuclear! Tinha gente de todas as cores, de várias idades, de muitos amores, e não foi fácil abrir espaço para nos sentarmos e comermos. Dividimos a mesa com um recifense indo para Brasília e aproveitamos para conversar (já que tinha gente para correr atrás do Arthur, que se esgueirava por entre pernas, mesas e cadeiras, numa destra demonstração de suas habilidades andarilhas).
Chegou a hora de embarcar e houve muito choro e ranger de dentes, aquela coisa da família se despedindo, como se eu fosse morar em Marte e só com bilhete de ida!
Embarcamos (inclusive com a comida congelada!).
No começo, só alegria: Arthur explorando as novidades da cadeira (que se resumiam àqueles botõezinhos de controlar rádios e volumes, porque o avião era tão velho que nem tela individual tinha: era aquela coletivona mesmo), do bolso (saco de vômito, cartilha para o caso de queda da aeronave, essas coisas positivas e que trazem boas perspectivas que eles colocam à nossa disposição, não é mesmo, minha gente?!) e dos passageiros (mandando bye-bye para todos os gringos a bordo. Ê beleza!).
Mas eram quase 21h. E Arthur costuma dormir entre 19 e 20h. Visualizem, portanto, o tamanho do sono que se avultava no horizonte: dois dias de empacotar coisas, com duas avós querendo tirar o atraso de mais de um ano (papo para outra postagem, gente), um dia com sonecas irregulares, hora habitual do soninho já vencida, ambiente novo, pais ansiosos e animados...
Pois ele veio com tudo, e Arthur se atracou no peito, como se não houvesse amanhã, e CAPOTOU.
Que ótimo! Tudo com que sonhei!
Fiquei aconchegadinha a ele, namorando meu bebê, curtindo a viagem (tá bom, tá bom: com um medo do cacete do voo. É, eu tenho medo de voar, mas confesso que ele melhorou bastante depois do parto. Coisas que só Freud explica.), feliz da vida.
Serviram a refeição e eu, claro, não podia nada. Mas nada iria acabar com meu bom humor e euforia. Conversei com o aeromoço, expliquei e ele anunciou: Claro que podemos preparar sua refeição, mas não temos micro-ondas na aeronave, então só se for uma comida congelada que pode ir no forno normal.
TAQUIOPA! Não basta você ter que achar uma comida INDUSTRIALIZADA congelada, é preciso que ela possa ser esquentada em forno convencional! É claro que não era. Eu, no supermercado, estava muito ocupada, escolhendo a cachaça que iria levar e catando paçoquinha para malocar na bagagem. Nunca que ia passar pela minha cabeça que, obviamente, não tinha micro-ondas no avião. O rapaz, então, apiedando-se da minha situação, até tentou descolar um recipiente onde eu pudesse descongelar a sopa (tudo isso por uma sopa!!!), mas não se esforçou muito, é verdade: prometeu encontrar um recipiente para descongelar a comida, mas nunca mais passou na minha poltrona oferecendo-se para ajudar. Com isso, a sopa ficou na bolsa térmica a viagem toda. E eu, bem, eu fiquei com fome mesmo.
Enquanto isso, em paralelo ao drama da comida, houve o drama do avião.
Lembram que pequeno capotou logo no começo, e que tudo era amor e ternura e alegria e entusiasmo? Vocês também se lembram que na minha vida nada é simples e calmo? Tudo vem cheio de aventuras e confusões?
Bom, primeiro de tudo, o voo foi terrível. Além de o avião ser velho e pequeno, além de eu ter viajado de classe econômica, além de eu não ter comido, ainda por cima pegamos MUITA turbulência. Eu sei que acabei de falar que meu medo de avião foi drasticamente reduzido depois do parto, mas também não tenho sangue de barata, né? Ninguém passa, de um dia para o outro, de uma pessoa que treme e sua frio o voo inteiro para uma pessoa que dorme enquanto o avião chacoalha e cai em vácuos. Então, eu, apesar de ter me mantido bem calma durante a maior parte do voo, foi chato e cansativo ficar sobressaltada durante muitos minutos (quiçá horas, se somarmos todo o tempo).
Mas, o que realmente nos quebrou não foi essa desgraceira que acabei de contar. Não. O que nos quebrou de verdade foi Arthur não conseguindo mais dormir depois da primeira hora de voo!
Se até a primeira hora tudo estava indo muito bem, apesar da turbulência, da falta de comida e do desconforto, as outras 13 horas (que se transformaram em 16) de viagem foram tenebrosas! Arthur não conseguia dormir no meu colo, nem no colo do marido, nem no colo da madrinha (que viajou com a gente!). Não conseguia dormir na poltrona, nem no sling. Cogitei colocar o moleque no chão, mas bom senso mandou lembranças e desisti da maluquice. O resultado disso foi um bebê irritado, cansado e estressado, pais e madrinha exaustos, insones e moídos. Tentamos nos revesar, e eu até consegui dormir umas três ou quatro horinhas, se juntarmos todas as cochiladas que dei (o que não difere muito das horas que durmo numa cama, mas que, por terem sido passadas em uma cadeira apertada, que reclina dois graus apenas, me deixaram arrasada e repleta de dores e incômodos). Marido, coitado, ficou hoooras com Arthur no colo, no corredor do avião, dormindo em pé, praticamente. A madrinha do pequeno, coitada, dormiu sentada na cadeira, espremida, nas acrobacias que tentávamos para conseguir fazer Arthur dormir.
Para completar essa viagem infernal (o que me fez suspeitar ainda mais que estávamos a beira do fim do mundo, como eu previra no aeroporto), um senhor passou mal durante o voo (e as televisões solicitaram que passageiros médicos se voluntariassem para atendê-lo) e precisou de cuidados e oxigênio, causando comoção geral, e, ao chegarmos em Dallas, onde faríamos a conexão, devido ao tráfego do Galeão e à toda burocracia de embarque e desembarque nos EUA, nos atrasamos e perdemos a conexão. O próximo voo (que seria às 9h) também atrasou horrores, e acabamos esperando dentro do avião por quase duas horas. Assim, quando finalmente chegamos a Chicago, éramos três adultos e um bebê exaustos, famintos, doídos e irritadiços.

Se eu havia suspeitado que se mudar de país era parecido com parir, agora eu tenho certeza!
Só espero imensamente que o pós-mudança, assim como o pós-parto, seja cada vez melhor. E que não tenhamos baby blues.

domingo, 7 de julho de 2013

Como enlouquecer sua mãe em 20 passos

1.       Durma na viagem de ida ao aeroporto, mesmo que esteja na cadeirinha, lugar de intenso sofrimento nos dias comuns. Isso a deixará ansiosa, pensando que você ficará acordado durante toda a viagem de avião.
2.       Durma logo no começo do voo. Quando sua mãe se ajeitar naquela micropoltrona para também tirar uma soneca, acorde e reclame, reclame, reclame. Recuse água, papinha, frutinha, mas tente desesperadamente comer a batata frita industrializada que ela comprará para não desmaiar de fome (única opção sem leite entre os snacks da companhia).
3.       Ao chegar ao destino, que é um lugar de praia, finja ter nojinho da areia, mas apenas por tempo suficiente para que sua mãe o coloque sentadinho na praia e relaxe. Coma nacos generosos de areia então.
4.       No terceiro dia da viagem, tenha 40 graus de febre. Sua mãe não conhecerá nada da cidade e ficará maluca atrás de um pronto-socorro infantil, depois se perderá até chegar ao hospital e irá o caminho todo rezando para que o atendimento seja razoável.
5.       Toque o terror no hospital. Primeiro berrando, urrando, gritando e esperneando [justo]. Depois, andando, correndo, subindo e descendo escadas, tentando lamber paredes e cadeiras.
6.       Recuse-se a tomar os remédios.
7.       A caminho da fazenda, durma ainda na rua da casa na praia, mas acorde assim que entrarem na BR. E chore a plenos pulmões. Uma hora e meia dessa maravilhosa sinfonia (com bônus se a viagem for na companhia de uma senhora de 90 anos que está completamente surda, o que garantirá a gritaria generalizada e o estresse absoluto quando o  GMaps sair do ar e seu pai precisar consultar a senhora sobre o trajeto a ser seguido).
8.       Quando chegarem à fazenda, vá ao galinheiro e, em meio a vinte pintinhos fofos e lerdos, escolha o cocô deles para brincar.
9.       Pegue esterco. Pegue formigas. Pegue areia. Pegue cocô de tudo quanto é tipo de animal. Pegue também tantos animais quanto puder. E então, com as unhas pretas e a mão bem nojenta, tente enfiar os cinco dedinhos na boca, esfregue bem os olhinhos e o nariz, enfie um dedinho na orelha. De preferência a mesma orelha cujo ouvido, segundo a médica do PS, estava “vermelhinho”. Isso deixará sua mãe maluca, lavando sua mão a cada saída da casa e pensando se você está com otite, mesmo que não tenha mais febre.
10.   Recuse a sopinha que sua mãe preparou, mas acabe-se na sopinha que outras pessoas fizerem para você. Sua mãe se sentirá um lixo e será, certamente, julgada pelas pessoas ao redor – além do bônus: escutará piadinhas sobre sua inabilidade culinária.
11.   Durma, literalmente, com as galinhas. Se elas entraram no galinheiro às 5 da tarde, dê seu show e durma a essa hora. A promessa de acordar com as galinhas fará da noite de sua mãe algo memorável.
12.   Empelote-se todo, no meio do nada, depois de ter visitado o hospital e de ter tentado comer as coisas mais bizarras na fazenda (sua mãe não pode ter certeza sobre o que você comeu ou não). Será alergia? Virose? Cocô de pintinho? Mordida de mosquito, aranha, percevejo, besouro (gente, nem sabia que besouro mordia!), marimbondo? Brotoeja? Um mundo de possibilidades para entreter sua progenitora!
13.   Corra atrás de TODOS os cachorros da fazenda. E enfie a mão em suas bocas.
14.   Fale somente “papá”, para que todos pensem que você só fala papai.
15.   Se chover, como choveu durante 75% da viagem, entedie-se e fique querendo colo o tempo todo. Nos restaurantes e ambientes indoor, opções para fugir da tempestade que assola a cidade, irrite-se e tente ficar de pé no cadeirão. Bônus: se vocês estiverem indo para um lugar com invernos rigorosos e neve, esta será uma linda prévia do desespero que sua mãe enfrentará muito em breve.
16. Na parte final da viagem, recuse-se solenemente a comer sólidos. Se antes você comia sopinha de outras pessoas, agora você deve rejeitar todo e qualquer alimento, cuspindo-o na hora e tentando enfiá-lo (babado) na boca de sua progenitora.
17. Recuse-se a dormir de tarde. Então, entedie-se, exija colo, chore de sono enquanto esfrega os olhos, e jamais sucumba a Morfeu!
18. Aprenda a falar "dá", e use o imperativo com uma voz tenebrosa, rouca, grave e em hipótese alguma diga "dá" apenas uma vez. Repita pelo menos cinco vezes, com a voz tenebrosa: dá-dá-dá-dá-dá.
19. Ao acordar de madrugada, estranhe o ambiente: sente-se na cama, olhe bem ao redor, franza o cenho, olhe para sua mãe como se não a reconhecesse e perguntasse WTF?
20. Nos últimos três dias, havendo uma chuva intensa e constante, acumule toda a energia possível para que o voo de volta, que acontecerá justamente na hora em que você costuma ir dormir, acene com a deliciosa possibilidade de choro e ranger de dentes.

Rezem por mim!

sábado, 15 de dezembro de 2012

Pé de pato, mangalô, três vezes!

O dia começou com uma dorzinha incômoda. Ali, na direita, doía quando eu caminhava ou fazia movimentos bruscos. Continuei, vida normal.
Mas de tarde comecei a ficar enjoada, a sentir mais e mais o incômodo e comentei com alguém (eu estava numa festa cheia de gente da área de saúde), que logo sugeriu uma apendicite.
Claro! Eu estava com todos os sintomas clássicos! Se não fosse pelo mero detalhe que eu já retirei o apêndice (e senti exatamente o que estava sentindo quando a crise estourou), certamente eu correria para o hospital mais próximo.
Assim, na falta de apêndice para ser retirado, fui mesmo foi para a casa mais próxima, que era a da minha sogra. Tomei um banho, almocei (o enjoo poderia ser fome), me deitei no ar-condicionado e fiquei brincando com Arthur, esperando a ziquezira passar. Como a casa da sogra não é baby friendly, o brinquedo disponível era o controle remoto, que, sem as pilhas, foi parar na mãozinha do meu filhinho tão lindo e pequenininho.
Tudo ia bem, exceto pelo fato de que eu continuava com a dorzinha chata, incomodada com aquele enjoo e cogitando seriamente em me mandar para um hospital.
- Eu chamo minha mãe para ficar com Arthur, que tal?
Marido pensando junto, até que...
POF!
(Assim mesmo!)
Meu filhinho tão pequenininho e delicadinho enfiou o controle remoto no meu olho!
Lágrimas involuntárias rolaram, mas eu ri do ridículo enquanto corri para buscar gelo e minimizar a tragédia.
Fui ágil o suficiente para não ficar cega, mas lerda demais para me desviar, e agora estou com um inchadinho no olho esquerdo, que ficou ligeiramente arroxeado e dói quando encosto.
Daí, marido, depois que o susto passou, quis saber:
- Você melhorou da dorzinha chata do lado direito?
- Não.
- Quer, então, ir mesmo para o hospital?
- Acho melhor não. Se eu chego no hospital com uma dor estranha e o olho roxo, a primeira pessoa que vai me atender será a assistente social, querendo saber se você vai ser enquadrado na Maria da Penha. Por via das dúvidas, melhor ficar em casa e ver se melhora tudo.

Melhorei.

E por via das dúvidas, melhor colocar aqui um galhinho de arruda, porque é peito, é barriga, é olho... Credo!

Xô uruca!

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

Só por amor

Uma palavra: mastite.
Duas palavras: de novo!
Três palavras: só por amor.

Entrei de novo no antibiótico, antifúngico e antitérmico. Mas vamos em frente, porque pela saúde do meu pequeno, todo sacrifício é nada.

domingo, 9 de dezembro de 2012

ahahahah (mas só por dentro)

Estávamos passeando aqui por perto: eu, marido e pequeno. Como chuviscava, filhote ia dentro do carrinho, com a capota protetora toda arriada, deixando só o pezinho gordo do lado de fora. (Puro amor!)
Numa esquina, aponta um rapaz que, pelo sorriso, logo vi que conhecia marido. Não deu outra: oi, oi, quanto tempo, pois é, ih, que novidade é essa? virou papai? pois é... há seis meses, blá-blá-blá.
Abrimos capota (chuviscava mais brandamente) e Arthur se derreteu para o amigo do papai. Riu, fez charminho, chutou o brinquedinho. Achei até que o amigo ia tentar levar meu molequinho embora de tanto que se entreteu com e amou as gracinhas.
E aí, ele se vira e anuncia, em regozijo indisfarçável:
- Também vou ser papai. Fulana já está de três meses.
- Ah, que lindo. Oh, parabéns. Vixi, que beleza, que maravilha! Oba, oba, oba!
- Pois é... estamos animados.
- Poxa, vamos marcar uma cervejinha dia desses? Te passo umas dicas.
- Claro, claro! Vou precisar.
- Ah, é. Sempre bom ouvir histórias e experiências porque o primeiro mês é MUITO difícil.
- Já ouvi falar. Mas acho que nem vou sentir tanto o impacto.
[Não precisei olhar para marido. Eu sabia a cara que ele estava fazendo e praticamente escutei seus pensamentos. E seus pensamentos eram mais ou menos assim: "hã...? ele disse que não vai sentir o impac...AHUAHAUHAUAHUAHUAHAAU {risada histérica} AHUHAUHUAHUAHUAHUAHUA"]
Placidamente, com um sorriso apenas amistoso nos lábios, marido perguntou:
- Ah, é? Mas por quê?
- Ah, eu tenho trabalhado muito, sabe? Tenho dormido tarde, acordado cedo.
- Bom, nesse caso... ["AHUAHUAHUHAUAHUAHUAHU"]
- É... - olhando agora para mim, que também oferecia um amistoso sorriso - Fulana vai até ter um descanso, vai se dar bem: vou ficar trabalhando até tarde e vou aproveitar para olhar o bebê para ela dormir.
["AHUAHAUHAUAHUAHAUAHUAHAUAHAUHAUAHAUHAUAHAUAHUAHAUHAUAHU"]
- Ah, que maravilha! Sua mulher é uma sortuda! ["AHUAHUAHAUHAUAHUAHAU"]
- Pois é. Estou animado. Vai ser moleza.
- Vai, vai, sim, rapaz. Parabéns! ["AHUAHUAHUAHAUHAUAHU"]
- A gente se vê.
- Valeu! Bora marcar o chope, heim...

E estamos rindo até agora.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

(Quase) sem pé, (totalmente) sem cabeça (para outra coisa)

Eu sou a rainha das coisas mais estaparfúdias acontecíveis. Sério. Se existir algo bem improvável e digno de roteiro de comédia pastelão, isso vai acontecer comigo!
E a maternidade não mudou isso.

Encosta aí na cadeira, afofa o travesseiro nas costas e vem comigo, para o fantástico mundo de Ártemis, onde tudo vai acontecer e a louca serei eu.

Acordei bem. O dia prometia uma rotina bacana. Me arrumei, vesti um vestido dos tempos de grávida, uma sandália dos tempos de não grávida e a mala dos tempos presentes, tempos de amamentação exclusiva, tempos de bombinha, potinhos, bolsas térmicas e muita disciplina.
Fui caminhando calma e atentamente. Com calma porque não consigo correr com a mochila imensa que carrego todos os dias. Atenta porque tem tido uma onda de assaltos aqui perto de casa, um horror!
Então tomei o ônibus, quase não peguei trânsito e cheguei cedo no trabalho. Até pensei que seria um dia insosso, como muitas vezes eu merecia ter. Mas não! Óbvio que não! Murphy deve ter vindo no ônibus atrás do meu e logo estava nos meus calcanhares.
No trabalho, tudo correndo bem, apesar de uma dorzinha no pé. Trabalhei, lanchei e bateu, enfim, a fominha da hora do almoço. Desci, comi, ri e... a dor no pé.
Como eu disse, o sapato que escolhi era pré-gravidez, e devido aos hormônios, encolheu. (Ou meu pé cresceu um pouquinho, como custo a crer.) E as tiras (era uma sandália com padrão de pele de cobra. Uau!) começaram a estrangular meus pobres dedinhos, que pareciam reféns amarrados no fundo de um quarto escuro (acho que eles começaram a ficar roxos).
Pensei: droga! Vou comprar um sapato novo, mas jamais uma Havaianna (porque mamãe me ensinou a não andar de chinelo na rua e porque estou no trabalho, e com esse vestido tão lindo e tão pouco Havaianna friendly). E fui.
A primeira sapataria era de um ex-interno do Pinel. A sapatilha Moleca estava a 129,90. Você não leu errado! Três dígitos para uma Moleca. Os meus dedinhos pediam clemência, mas ainda respiravam e estavam conscientes. Arrisquei negociar com o sequestrador e atravessei para ir ao shopping. A Mr. Cat era a primeira loja de sapatos. Ponderei que sequestrador por sequestrador, melhor manter o que estava no meu pé, que além de não me custar nada, já era familiar e poderia até me render uma Síndrome de Estocolmo (como geralmente sapatos-meliantes bem-apessoados costumam fazer; ou vai me dizer que você tem coragem de jogar fora aquele sapato DI-VI-NO, mas que trucida seu pé?!), e fui para outro piso. Duas lojas surtadas, cobrando duzentinhos em pisantes que não valiam sequer cinquentinha. Até que achei uma sapataria bacaninha, com uma sandália delicinha, por cem reais. Pensei: tô sem sandália, verão taí, décimo terceiro tava aí até ontem, cem reais é um frila, tem meu número. Por que não? Experimentei, gostei, separei e fui pagar. Abri minha carteira e... cadê o cartão? Pausa dramática. Atendentes me olham, lágrimas se equilibram em meus olhos, mãos vasculham nervosamente o fundo da bolsa até que o cérebro relembra: em cima da mesa da sala! Mão no telefone e marido confirma a tristeza. Ok, sem dramas, sem pânico: bora usar o outro cartão, da outra conta. Bip-bip-bip. Sua senha, senhora. Senha inválida. Bom, vou ali tirar dinheiro, então, e já volto. Separa aí. Desço ao térreo, entro no banco, pego a fila (sem o Arthur não sou preferencial, droga!) e chego ao caixa: oi, vim sacar um dinheiro da minha conta, mas estou sem o cartão. Sem problemas, senhora, sua identidade, por favor. Ok, um momento. Revira, remexe, rebola: ficou na mochila! Droga, droga, droga!!!
Ok, respirei fundo e fui ao outro banco, do outro lado da rua. Desse eu tinha o cartão, só precisava sacar o dinheiro na boca do caixa porque estava sem função débito. Entrei. Uma fila caracolesca para os caixas eletrônicos. Ainda bem que vou ao caixa normal. Porta giratória e testa no vidro. Lá de longe vem um guardinha (moço, aqui embaixo!, gritavam meus dedinhos reféns) meio esbaforido e pergunta: objetos de metal? chave, guarda-chuva, moeda, celular? (eles devem ser treinados pelo pessoal do Spoletto). Não tenho nada disso. Mas o guardinha desconfia e pede para ver dentro da minha bolsa: vazia, um papel solitário rola. Entro e a fila dos caixas é gigantesca. Saio e penso: o que faço? Meus dedos gritam por socorro, resolvo comprar uma bala de hortelã e voltar ao escritório. Sentada, sem usar os pés, hei de raciocinar melhor.
Entro na sala mancando. Minha dor agora irradia perna acima, me causando arrepios involuntários. Sinto que se tirar a sandália, nunca mais conseguirei calçar nada com tiras, tamanho o inchaço dos dedos e adjacências. Eles continuam arroxeados. Olho para um lado, olho para o outro e... minha colega está almoçando! Vou telefonar e pedir ajuda.
Telefone toca e ela atende rápido. Conto brevemente minha saga e peço, adivinhem?, uma Havaianna. Qualquer cor, qualquer modelo, tamanho 35 porque preciso dar folga para meus pés (calço 34). Ela me informa que o banco da fila gigante tinha a fila quilométrica e o guardinha mau-humorado porque foi assaltado. Acabou de ser assaltado e por pouco não fico refém junto com meus dedinhos do pé (que agora agonizam e já não se mexem). Meus peitos doem, estou descalça no trabalho e louca de vontade de fazer xixi. Vou até o banheiro arrastando correntes, digo, sandálias não calçadas, faço xixi e volto para ordenhar. Ordenho. Na minha cadeira, quando volto, tem um embrulho da Havaiannas. Dentro, uma sandália roxa e rosa, que eu jamais compraria porque detesto esta combinação Barbie.
Penso: ok, tudo já aconteceu! Sapato machucando, cartão esquecido, banco assaltado, Havaianna no pé e o expediente está acabando. Falta pouco e tudo vai terminar bem!
De fato, o dia de trabalho termina e eu, minha mochila de viajante, meu chinelo roxo e rosa e minha  urucubaca vamos pegar o ônibus rumo à creche.
Claro que o ônibus quebrou! Mas cheguei na creche a tempo, voltei para casa, encontrei meu cartão (corremos pela praia até nos abraçarmos ao som de Endless Love) e, claro, resolvi assuntar na internet. Cartão a mão, cem reais "mais rica" (ahahahah... Ah, a lógica feminina!), claro que vou consumir. Decido comprar um mimo para o Arthur, outro para o marido e, claro, um para mim.
Arthur ganhou um bichinho de pelúcia com chocalho. Marido, uma furadeira de alto impacto. E eu, bem....eu ganhei mesmo foi um massageador de pés. Acho que traumatizei.

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Entre memes e mimimis (senta que lá vêm as histórias!)

Passei o feriado todo meio borocoxô, mesmo tendo viajado com o pequeno. Acho que tem a ver com os momentos todos da vida: creche, volta ao trabalho, falta de grana, urucubacas da vida cotidiana, leite que preciso estocar etc. etc. etc. (e bote quantos mais etc. você quiser).
Aí, nessa coisa meio finados na cachola, cadê parar com o mimimi? Mimimizei quinta, sexta, sábado e domingo. Nem eu me aguentava mais! Mas como "ali onde eu chorei qualquer um chorava", resolvi ir em frente na música e levantei, sacodi a poeira e dei a volta por cima. Hoje, segundona chuvosa pós-feriado, voltei para casa e pensei: que beleza! Vai ser tudo lindo, bora para o primeiro dia de adaptação na creche, pessoal da blogosfera gostou do novo layout (uhuuu!!), bora viver essa vida linda que tem aí na minha frente e...
Cara, sério: senta aqui do meu lado, no fundo do poço rotinístico, e chora comigo!

[Sentou? Então aproveita a proximidade e tasca um abraço aí que a coisa tá feia - mas daqui a pouco acaba o mimimi, prometo!]

Resolvemos voltar da viagem do feriadão hoje de manhã, para não pegar muito trânsito. Só não contávamos com a astúcia do Arthur, que chorou a noite toda, talvez boladão com a tempestade que caiu na madrugada. A viagem começaria 10 da manhã. Onze e meia eu e Arthur ainda cochilávamos, esgotados pela noite de ontem. Pegamos a estrada (vazia, o que me parecia um sinal auspicioso. Tola eu!) um pouco atrasados no cronograma: 13h. Arthur, nessa hora, costuma dormir um soninho gostosinho. Exceto quando anda de carro, né? Então, ele sentadinho, na cadeira da tortura, berrou por exata uma hora e sete minutos cheios. Depois de esgotar minha garganta e meu repertório de musiquinhas infantis, capotou. Que ótimo, não? Seria, se não estivéssemos na porta de casa. Então, tendo dormido cerca de 15 minutos, Arthur foi despertado. Abrindo as malas e guardando as coisas,  descobri que meu xampu vazou na bolsa (todinho!) e meus 9 potinhos de leite ordenhado e congelado DESCONGELARAM durante a viagem. [Por favor: chore comigo!] Pensei em fazer um bolo com meu próprio leite, já que tinha para mais de meio litrão ali prestes a ir para o lixo e Arthur não pode leite de vaca-bicho, só da vaca-profana aqui. Desisti da ideia ante à ansia de vômito que meu comentário causou no marido. Daí, lágrimas enxutas e tetas para fora (ordenha de novo, Ártemis! Quem faz meio, faz um litro!), constatei que, com a misericórdia do senhor dos leitinhos congelados, apenas dois potes haviam de fato descongelado. Emocinei-me, leitores. E me enchi de novas esperanças nesse dia tão fatigado.
Arthur começava na creche 14h e já eram 14h32 quando resolvemos almoçar. Vestimos o moleque, enfiamos seu corpinho cheiroso e arrumado no sling, arrumamos a malinha do primeiro dia e tocou o interfone. Fiquei felizona: estou esperando uma encomenda de mamadeira para o pequeno e achei, de verdade, que era o porteiro avisando que era o correio. Ahahahahahhahahah
Era a Light (companhia de energia elétrica aqui do Rio), avisando que estavam aqui para cortar a energia. Oi, moço? É, senhora, atraso da fatura de setembro, na última conta veio o aviso de corte, a senhora não pagou, vamos cortar. [Por favor: se desespere comigo! E me mande um dinheirinho, porque tá rodis aqui, viu?]
Bom, não teve argumento, pagamento ou choro que resolvesse a situação: cortaram a luz! Agora, você visualiza a cena: casa sem luz, bebê no sling, marido com a bolsa da creche, eu, com menos duzentão de leite materno no estoque do filhote (e o restante perigosamente num congelador sem energia), conta atrasada, atrasada no horário, menstruação atrasada (ops, isso não!), precisando ainda ir almoçar e adaptar o filho, que agora reclamava de sono, calor e pasmaceira (experimenta colocá-lo no sling e ficar parado para ver o que te acontece!).
Bom, pior que isso não podia ficar. Podia?

[Pausa para uma importante lição que recebi na faculdade: um professor meu, logo no primeiro período, ensinou-me que para a felicidade ou sorte sempre existe um limite; para o azar ou a tristeza, porém, sempre se pode cavar mais um pouquinho no poço e chafurdar mais e mais na lama das mazelas.]

Claro que podia!
Pagamos a conta atrasada numa fila quilométrica de banco popular (depois passo o número da agência e da CC para depósitos caridosos) em pleno dia 5. Todos os velhinhos do meu bairro, que tem muito velhinhos, estavam recebendo suas aposentadorias, ali, naquela hora. E todos os velhinhos do mundo AMAM bebês e sempre comentam do sling. Respirei fundo ante pitacos e comentário sem noção ("não machuca a perninha?", "coitadinho, todo encolhido/enrolado/apertado/espremido!", "vai dar problema no/na _______ [complete aqui, que estou sem paciência, mas pode ser qualquer parte do corpo ou aspecto da psiquê humana]"), e sorri e fui simpática com os comentários fofos (afinal, velhinho nenhum tem culpa da minha urucubaca, né?). Conta paga, bora almoçar voando e levar filhote para creche.
Tudo deu certo nessa parte do dia e achei que, enfim, minha maré de azar estava mudando.
Já dava uma banana mental para aquele meu professor quando entrei na salinha do berçário. Beleza: apenas dois bebês, menos estímulo e novidade para um Arthur sonado e meio mal-humorado com o dia so boring que eu estava lhe proporcionando. Meu sorriso se abriu, mas logo foi dispersado pelas tosses encatarradas dos dois bebês. Sim, amigos e amigas, os bebês estavam doentinhos e fizeram questão de partilhar TO-DOS os brinquedinhos que enfiavam em suas boquinhas virulentas com meu filhote saudável e tratado a leitinho da mamãe (Arthur ficando resfriadinho em 5, 4, 3...).
Respirei fundo, pensei que meu filho tinha imunidade por conta do meu leitinho, que era inevitável, vitamina S, bora pra frente que o dia tá tipo na metade. De repente, na janelinha do berçário surge marido: trouxe o cheque, porque a creche vence hoje. Passei meu cheque-voador e pensei: na saída da creche transfiro a rapa do tacho da poupança para cobrir o cheque, e vamos frilar o resto da vida para dar conta de tudo (alguém querendo me oferecer um emprego que pague mais?).
Arthur gostou dos amiguinhos, se acabou de rir para as professoras da creche, colocou todos os brinquedinhos melecados pelos amiguinhos ranhentos na boca e até dormiu, para mostrar que delícia ele é e como vai ficar ótimo sem a mamãe.
[E afinal me senti melhor, porque se vou sofrer de qualquer jeito, então que pelo menos eu sofra com meu filho ficando bem na creche, né?]
Decidimos, na saída da creche, antes de ir ao banco, que dormiríamos na casa da sogra, porque sem luz e com um bebê de 4 meses cheio das rotinas de sono não ia rolar (e toda mãe sabe que romantismo é só até antes dos filhos nascerem e depois que eles saírem de casa, logo, nada de "luz de velas, que coisa bacana"). No banco, errei minha senha por 3 vezes e, tal e qual Pedro negando Cristo, fui jubilada da alegria de fazer transações no caixa eletrônico (que é o equivalente moderno de ser estigmatizado como herege, dos tempos de Pedro). Banco fechado, senha bloqueada, cheque-voador planando como um Zepelin na praça, filho ainda com sono, sem luz e a caminho de uma noite na casa da sogra. O que mais poderia acontecer?
Acreditem: muita coisa! Mas o que aconteceu mesmo foi um amigo meu telefonar e dizer que a pessoa que estava com uma encomenda para o Arthur em SP (e que ele feria o imenso favor de trazer ao Rio) saiu de casa e o deixou do lado de fora da casa, tocando a campainha. Resultado: no donuts for me. Neither for Arthur. Ou, em outras palavras, adiós amigo!
Já na casa da sogra (com direito a novo transporte de potinhos de leite congelado e tensão absoluta no engarrafamento por conta disso), Arthur de banho tomado, ritual sonístico realizado, dormindo feliz (enfim!) na caminha... Claro que ia babar, né? Sogra chegou em casa brigando no celular, aos berros, causando frisson, agitando cachorro, que latiu muito, sobretudo depois que ela tocou a campainha freneticamente, como se não houvesse amanhã.
Resultado? Falta apenas uma hora e dez minutos para acabar este dia terrível, e as duas únicas coisas que o salvaram de entrar para o rol dos dias mais terríveis do universo foram o meme da Lilian (que postarei amanhã, querida, adorei a lembrança!) e a suuuuupergargalhada que meu filho deu para o papai.

PS: Minha sogra, apiedada da minha situação, pediu um japa especial, para aquecer meu coraçãozinho sofrido. Mas Arthur, claro, acordou, quis que eu ficasse grudadinho nele e não me deixou jantar. Para que eu não ficasse com fome, ela e marido deixaram umas peças para que eu comesse depois. Deliciosos rolls de hot filadélfia, cheinhos de cream cheese, que eu NÃO POSSO comer por conta da dieta de APLV. Diz aí: urucubaca feelings total, não?