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quarta-feira, 12 de junho de 2013

Asas

Numa noite, há algumas noites, ela surgiu no quarto. Arthur não poderia deixar de notá-la. Nunca. Uma borboleta branca, com as asas tão diáfanas que me fazem crer que, ao longo de tantos dias, ela tem se alimentado de sonhos. Dos nossos sonhos. Ali, naquelas asas transparentes.
Flapeando noite adentro, durante o dia ela me alenta, ao rememorar meu filho, com seu dedinho em riste, minihumano, apontando para ela.
Arthur não tem consciência, nem a borboleta, mas eles formam o que hoje há de mais poético no meu dia. E com ternura, nas madrugadas de trabalho incessante, cuido da borboleta, que passeia entre meus livros e papeis, e de Arthur, que mora todinho em mim.
Um dia a borboleta vai-se embora, eu sei, e um dia Arthur vai ter sua própria vida, longe (espero que não muito) de mim. E aí, tenho certeza, quem se alimentará de sonhos serei eu: de ter de volta as noites diáfanas de Arthur e borboleta, lado a lado, sob meus cuidados.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Então você...

Então você tem um bebê de 11 meses e meio que resolveu acordar e ficar de pé na cama, quando antes ele apenas se sentava.
Então você faz cama compartilhada com ele, mas não na sua cama, porque você está se mudando de país e morando de favor na casa de outra pessoa, cuja cama é embutida.
Então que a cama fica no mesmo lugar e não dá para colocar o colchão no chão. E nem cabe berço ou carrinho no quarto emprestado.
Então você está sozinha em casa quando o bebê se descabela porque quer dormir.
Então você não vê outra opção, dá peitinho até o garoto botar leite pelo ladrão e capotar.
Então você tem um bebê de 11 meses e meio, que fica de pé quando acorda, dormindo numa cama alta e está sozinha em casa.
Então você tem um corpo que amamenta, que morre de fome e sede, e que desmaia se não se alimenta a cada 3 horas.
Então, com o bebê dormindo e a fome estrangulando onde você calcula ser seu estômago, porque já não raciocina direito e escuta o apito inicial do desfalecimento. É hora de comer. Agora. Vai!
Então você pensa: bebê que fica de pé + cama alta + ausência da mãe do quarto = tragédia anunciada.
Se você, como eu, teve a sorte de ganhar uma babá eletrônica com câmera, pensa, como eu pensei, que está tudo certo e tranquilo: você vai, liga a câmera, liga o transmissor do outro lado e, ao menor sinal do moleque acordar, volta para o quarto num átimo. Zááááázzzzzz...
Então você tem um marido.
Então você tem um marido que escondeu o carregador da babá eletrônica com câmera, que agora é um enfeite bem feio em cima da mesa no quarto emprestado.
Então seu marido perdeu o celular (de novo!) e está incomunicável, você crê, em Niterói. Outra cidade. Pertinho do Rio, eu sei, mas ainda sim longe o bastante para que ele não ouça seus gritos.
Sorte a dele.
Você tem vontade de chorar, mas está seca, sem água, não brotam mais lágrimas.
Você quer gritar, mas é um dispêndio de energia que está além de suas capacidades caloríficas do momento. Você começa a delirar, vendo um frango assado de padaria dançar cancan na sua frente, em cima da mesa do quarto emprestado. Ele está sensualizando com a babá eletrônica sem bateria. Ele está rindo da sua cara (pálida).
O apito fica mais forte. Você PRECISA comer.
Então você decide arriscar: forra a cama e arredores com todos os travesseiros que encontra, sacode o menino, para verificar que ele está mesmo ferrado no sono e é pouco provável que ele acorde, e vai.
Corre para cozinha, pega prato, talheres e...
Volta correndo para o quarto emprestado. Bebê plácido.
De volta à cozinha, serve-se: arroz, feijão, o que é isso? dane-se, vai assim mesmo para o prato e purê de batata com leite de coco (porque você faz dieta, lembra?). E corre de volta para o quarto: bebê na mesma posição.
Dispara mais uma vez para a cozinha: 1 minutinho....quarto, bebê em paz. Cozinha: Piiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Claro que o purê está frio. É um fenômeno da culinário microondística: purês NUNCA esquentam adequadamente no centro. Dane-se.
Então você leva seu prato para o quarto, engole nacos e bocados sofregamente, torcendo para que não desmaie em cima daquilo que você está comendo e não faz a menor ideia do que seja.
Então acaba a comida no prato. E você ainda está faminta. E sem ter qualquer ideia do porquê, sente vontade de fazer xixi. Sim, porque você está trancafiada no quarto emprestado com o bebê de 11 meses e meio que dorme na cama alta e não bebe água há pelo menos três horas e meia, mas ainda assim sente vontade de fazer xixi. Mistérios da fisiologia.
Bebê acorda.
Pânico.
Seu e do bebê.
Você o acalma, mas ele quer peito. Você dá. E sente todos os nutrientes e as calorias recém-deglutidos serem imediatamente transformados em leite. Fome. Sede.
Então você desiste, deita-se em posição fetal e reza para que alguém lhe salve. Decide escrever no blog, tipo como um registro de seus últimos momentos de consciência.
Então você pensa: será muito degradante usar a fralda do seu filho? Será que bala de hortelã pode ser considerado jantar? Será que aquele frango assado sensual ainda está por aqui? Que gosto terão esses travesseiros?
Então marido chega.
E lhe salva? Não, não: diz que está com fome e pergunta se pode ir comer rapidinho, antes de lhe ajudar.
Então você...

quarta-feira, 5 de junho de 2013

A maluca da cachaça

Seis da tarde, cacetada! Seis da tarde e eu ainda estou aqui! Preciso sair para buscar Arthur na creche! Mas, antes, é fundamental comer alguma coisa, qualquer coisa, porque tenho o péssimo hábito de desmaiar quando fico mais de 3 horas sem comer, e não será nada legal desmaiar com o filho no colo. Mesmo que ele esteja no sling. Droga! O sling está na corda! Tomara que tenha secado... BIIIIIIIIIPE. Tomara que tenha esquentado a comida. Seis e três. Vai dar tempo. Vai dar tempo? Ai, preciso levar aquele papel.
HIC-HIC-HIC
Cara, que péssima hora para se ter uma crise de soluços, não? Atrasada, prestes a sair, no meio de um lanche/jantar. Desagradável. Mas vamos que vamos!
Xiii, está chovendo. Não posso me esquecer de pegar o guarda-chuva.
HIC-HIC-HIC
Seis e doze. Não posso mais esperar. Preciso sair agora! Vou guardar o prato inacabado na geladeira (já não vou desmaiar na rua) e sair correndo. Não vai dar tempo de escovar os dentes, melhor bochechar com o antisséptico bucal para disfarçar.
HIC-HIC-HIC
Térreo. Seis e dezesseis.
MERDA! Esqueci o guarda-chuva! Mas pelo menos o sling está seco. Vou embrulhar o moleque aqui e correr para dentro do táxi, paciência! Isso se eu chegar a tempo.
HIC-HIC-HIC
Maldito soluço!
HIC-HIC-HIC
Vou enrolar o sling aqui no pescoço, para ter as mãos livres, e dentro do ônibus eu faço a amarração. Tomara que eu chegue a tempo!

Então, eis que eu entro no ônibus, descabelada, ligeiramente molhada da chuvinha fina, com o sling de argolas enrolado no pescoço, soluçando e recedendo a álcool, já que o enxaguante bucal tem álcool na fórmula.
Eis aí a maluca da cachaça que, coitada, estava apenas atrasada para ir buscar, completamente sóbria, o filho na creche.

Um beijo, minha gente!

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Corram!

Eu estava dormindo. Bom, na verdade, eu estava fazendo o que faço todas as noites, há quase um ano, e que as pessoas chamam de dormir, mas que eu sei que, sinceramente, estaria mais para um descansinho na horizontal. Sobretudo porque dormir pressupõe diferentes estágios de atividade cerebral e alternância entre sono e vigília. E, meus caros, aqui, nesse corpo que habito, de noite só há vigília.
Mas como o sono da mãe costuma ser um detalhe, passemos ao acontecido.
Estava eu em meu repouso noturno diário, fritando para lá e para cá, à mercê das mamadas do rebento e escorando as roladas que ele costuma dar depois de satisfeito, cobrindo pezinhos, aconchegando mãozinhas e beijando cabecinhas suadas quando noto uma movimentação pré-despertar.
Todas sabem o desespero que aqueles corpinhos se remexendo num padrão já conhecido de "oba! Já é dia! Vou tocar o terror!" infligem em nós, pais, seres sonolentos, alertas, vigilantes e, principalmente, assalariados (ok, não sou mais assalariada, sou autônoma agora, mas é dramático mesmo assim).
Então o pavor matutino se avizinhava na mesma proporção em que o despertar do meu filho se aproximava: perninhas jogadas sobre as minhas, mãozinha esparramada sobre meu rosto, rostinho virando para um lado e para o outro, dedinhos coçando olhinhos remelentos. Eu vi tudo isso, mas fingi que não era comigo, pensando marotamente que, assim, conseguiria convencer (ou chantagear, chamem como quiserem) meu filho a ficar ali no quentinho mais uns dez ou quinze minutinhos. Rá! (Riam comigo.)
Ele acordou, olhou para o lado e viu a mamãe dormindo, o papai sonhando e, mesmo diante da oferta generosa de um peitinho cheio de leite (sim, eu sou vil e lanço mão de todos os artifícios ao meu alcance para conseguir míseros minutinhos a mais na cama: julguem-me!), Arthur decidiu que estava OK de soninho, que já se sentia revigorado.
Então, como ser independente que se pretende, virou-se de bruços (como sempre faz), assumiu uma posição como quem vai se sentar na cama (como sempre faz) e foi dando marcha a ré até a beirada da cama, de onde tentou (devidamente impedido por mim, é claro) descer (como nunca tinha feito!).
Agora, meu povo, digam se não dá vontade de sair correndo?! Meu filho, esse ser petitico que ainda mama e nem fez um ano, acorda, levanta-se sozinho e quer descer da cama totalmente independente para ir curtir seus passinhos pela casa. Se ele já soubesse preparar o café da manhã, eu até arriscava, mas como, por enquanto, tudo o que ele faz é correr, subir nas coisas, enfiar o dedo em buraquinhos (inclusive tomadas) e aloprar com os cachorros, eu vou atrás mesmo: correndo.

sábado, 1 de junho de 2013

Coisas que meu filho faz

Coisas fofas que meu filho faz:

  • Estende os bracinhos quando quer colo.
  • Dá tchauzinho para tudo e todos.
  • Fala mamã e papá.
  • Aponta as coisas de que gosta ou quer com aquele dedinho gordo e pequenino.
  • Dança quando ouve música animada (ainda estamos trabalhando no quesito qualidade).
  • Faz que não com a cabeça.
  • Brinca de "Cadê o Arthur? Achou!" sozinho.
  • Fica tímido.
  • Sente cócegas.
  • Mama com a mãozinha aconchegada entre meus seios, segurando a blusa ou o sutiã.
  • Quando termina de mamar, solta o peito e vira para o outro lado, tipo "ahhhhhh, tô satisfeito!".
  • Abre o sorriso mais lindo do mundo quando me vê.
  • Imita índio.
  • Fica louco com cachorros, de todas as raças, cores e tamanhos.
  • Fala "essiiii" quando quer algo.
  • Senta cruzando as perninhas!
  • Aperta o botão do elevador.
  • Sorri muito.

Coisas irritantes que meu filho faz:
  • Aperta meu nariz, enfiando as unhas lááá dentro e fazendo brotar em meus olhos lágrimas involuntárias.
  • Mama num peito e belisca o mamilo do outro.
  • Morde enquanto mama.
  • Morde enquanto abraça.
  • Enfia tudo na boca, e quando eu digo não, enfia sorrindo, em desafio.
  • Testa os limites.

Coisas surpreendentes que meu filho faz:
  • Ajuda a vestir ou tirar a roupa.
  • Tira a fralda sozinho.
  • Tiras as meias sozinho.
  • Anda.
  • Sabe o nome de todos que o cercam.
  • Sabe o nome de muitas partes do corpo.
  • Come coisas inteiras, tipo pão, banana, uva.
  • Sobe degraus.
  • Sobe em mesinhas baixas, móveis, sofá e "escala" pessoas.
  • Fica quietinho para passar soro no nariz.
  • Confia cegamente em mim e no marido. Tudo bem, somos relativamente confiáveis (pois se erramos é com amor e tentando acertar), mas sua inocência e fé na humanidade não deixam de me surpreender.
E vocês?Também têm pequenos prodígios em casa? Que faz grandes fofuras e, ao mesmo tempo, deixa todo mundo pela bola sete?

quinta-feira, 30 de maio de 2013

O sono do vizinho é sempre mais tranquilinho

Eu estava feliz.
Arthur dorme bem. Tem uma rotininha bem estabelecida, indo para a cama entre 19 e 20h, todos os dias, e adormece relativamente fácil. Só dorme no peito. Comigo. Acorda 21h, 23h, 00h, 03h e 05h. Às vezes pula uma acordada dessas, às vezes tem o soninho inicial mais agitado, acordando de hora em hora até meia-noite. Mas eu achava tudo isso digno e bem tranquilo.
Sem contar que ele tira sonecas comigo na parte da manhã ou de tardinha, então eu durmo picadinho, mas durmo.
Daí, hoje, fui passear com pessoas queridas que também têm filho. O bebê é dois meses mais novo que Arthur. Lindo! Fofo! Doce!
Daí, lá pelas 11h os dois começaram a esfregar olhinhos, dar aquela reclamadinha e a pedir colinho. Sono. Eu lasquei Arthur no peito e me levantei para ver se o balancinho ajudava a embalá-lo (ele não precisa desse recurso, mas achei que ali seria válido, já que ele estava excitadíssimo com as novidades todas). Do outro lado, o pai do outro bebê colocou ele no colo, deu umas chacoalhadas e finalizou o moleque. Pá! Dormindo.
E Arthur nada. Queria ver o mundo e as folhas do jardim que balançavam ao vento (♥).
Então o pai do menino ficou cansado de segurá-lo no colo: sentou-se no tapetinho de atividades, estendeu uma manta e pousou o bebê. Que acordou. Abriu os olhos, se remexeu, virou-se e revirou-se e olhou bem onde estava. Daí o pai foi lá, colocou a chupeta na boca do filho, fez um carinho e saiu de perto. O bebê amigo do Arthur se ajeitou, fechou os olhinhos e... DORMIU.
Sozinho.
Vou repetir: dormiu SOZINHO.
Mais uma vez: dormiu sozinho. Fechou os olhos e PLUFT. Capotou.

E Arthur nada.
Sabe como eu me senti depois disso? Feliz.
Ué, e aquele verbo no passado ali no começo?
Estratégia narrativa, confesso.
;-)

Ainda estou feliz porque, depois de pensar um pouquinho sobre a situação, concluí que o sono do Arthur, embora tenha um padrão beeeeem diferente do do amigo, nunca foi uma questão para mim. Então, por que agora deveria passar a ser? Não faz sentido, faz? Então desencanei e fui para casa, ninar Arthur fora do frenesi das novidades e estímulos, e ele dormiu por três horas seguidas, depois, às 19h20 capotou para seu sono revigorante até amanhã de manhã. Já acordou, claro, duas vezes (e são apenas 20h50). Mas tô aqui, blogando, flanando no Facebook, procrastinando o frila que preciso entregar na segunda. Ou seja, tudo lindo!

Daí, como eu estou aqui flanando, com tempo, vida ganha, nada para fazer (cof! cof! cof!), pensei mais um pouco sobre essa questão toda de comparações entre bebês e pessoas.
Senta que lá vem a verborragia!

Nunca gostei de comparar Arthur com ninguém. Acho que sobretudo porque sempre me comparei muito às demais pessoas do mundo, e como sempre fui bastante diferente (quem não é, na verdade?), me sentia muitas vezes "perdedora". Perdedora de uma competição que eu mesma tinha inventado e cujas regras eram criadas por quem? Por quem? Por mim mesma! Pô, que coisa mais dura é criar um jogo em que você só pode perder. E só pode perder porque suas regras sempre são pautadas em duas coisas muito importantes (e também bastante imparciais): 1) aquilo que lhe incomoda; 2) o conhecimento profundo de como você realmente pensa/age/sente. Cara, na boa, olha que bodega! Você se sente incomodada porque tem um defeito. Tipo celulite. Quem aí tem celulite e se incomoda com elas? Ok. Aí você começa a se comparar com outras mulheres, na rua, na fazenda, na Caras, e claro que acaba quase sempre perdendo. Por quê? Porque as outras mulheres ou não se importam (ou fingem não se importar, o que dá no mesmo nesse caso) com os furinhos, ou elas "não têm" (na verdade, elas não mostram porque escolhem bem as roupas, ou não vão à praia de biquíni micro, ou as fotos estão cheias de Photoshop). E aí, você, que conhece seu corpo do avesso, que se incomoda horrores com a porcaria da celulite, perdeu no próprio jogo.
Cruel, né?
Mas quem nunca?
Eu, o tempo todo.
Daí que quando Arthur surgiu na minha vida eu decidi que não seria mais assim, porque eu queria curtir: a vida, minha gravidez, minha família, o nascimento dele, o parto, o puerpério, meu filho, minhas descobertas, nossas alegrias e tristezas, que, afinal, são nossas.
Claro que escorrego de vez em quando. Tipo hoje, com relação ao padrão de sono, ou mesmo em relação ao tamanho/peso dos amigos (Arthur é dois meses mais velho, mas é mais de 1kg mais leve que o amigo, e alguns centímetros menor).
Eu, porém, tento ficar alerta, porque não quero ser injusta com meu filho lindo, tão esperto, tão esperado, tão amado e tão ÚNICO.
E aí, voltando para casa, com marido, filho e pensamentos ao meu redor, percebi que Arthur tem 11 meses e já anda. Mas esse mesmo Arthur tem os mesmos 11 meses e não come direito. E que assim como ele vai ter habilidades e aptidões desenvolvidas e rapidamente conquistadas, também vai ter dificuldades e conquistas mais demoradas. E sabem? Eu vou amar meu filho igualzinho. E vou lutar para fazê-lo feliz do mesmo jeito. Então, mais importante, para mim, do que comparar, é observar: meu filho tem tantas características carismáticas e deliciosas, que fico encantada por ter parido um serzinho delícia como ele é. E tenho certeza de que todas as mães vão concordar comigo, porque se pararmos de parear "feitos" e tamanhos, iremos descobrir pessoinhas tão lindas, pessoinhas em franco desenvolvimento e, mais ainda, pessoinhas em nos permitem entrar também em franco desenvolvimento.
Com isso, desejo um ótimo feriadão para todo mundo. Vão à praia, com ou sem celulite! Curtam seus filhos, acordando a madrugada toda ou com bebês auto-ninantes. Amem! Vivam! Porque só vale a pena de verdade quando nos entregamos profundamente.

(Ih, acordou de novo!)

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Mãe maluca, filho sem palhaçada

Vocês sabem que toda creche tem uma mãe maluca, né? Então, eu tenho certeza de que sou a mãe maluca da creche do Arthur.
Eu chego de sling (e tenho sling de tudo quanto é jeito: wrap, argola, tipoia, só me falta a mochilinha), mando todo santo dia meu potinho de LM congelado, a mamadeira do Arthur é cheia de nove horas para ele não desmamar, quando pediram para mandar copinho de treinamento eu mandei, mas sem tampa (de propósito, óbvio!) e assim sigo lutando contra o sistema na instituição social de poder por excelência: a escola que normatiza e socializa o indivíduo.
Daí, na semana passada, veio um panfleto colado na agenda. Papel couché, muitas cores, um texto de vendedor pittbull tentando me convencer que o evento que se anunciava ali era bacana. Eu li, reli e não acreditando no que meus olhos viam, mostrei para marido, que também bestificou. (É, ele é o pai maluco da creche!)
O evento que anunciava-se como a grande maravilha das maravilhas era o show de uma dupla de palhaços, que aconteceria das 13 às 15h, na creche-escola, sem custos para os pais, pois a contrapartida seria a divulgação do kit com DVD + miniaturas dos palhaços, à disposição para compra nas dependências da escola até uma semana depois do evento.
Gonguei na hora. E marido endossou.
Por vários motivos.
Em primeiríssimo lugar, não gosto da ideia de que as pessoas encarem meu filho como um consumidor em potencial. Eu me preocupo muitíssimo com o consumismo infantil (sobretudo agora, indo morar em um dos países que mais incentiva o consumo) e sei que meu papel de mãe é, entre outras coisas, proteger meu filho. E, sim, as crianças precisam ser protegidas das campanhas e estratégias de vendas agressivamente apelativas, que se valem da vulnerabilidade infantil para multiplicar cifras e oferecem produtos de qualidade duvidosa e criam hábitos nem sempre saudáveis. Achei ardiloso que se ofereça um show "gratuito" em troca da divulgação de um produto diretamente ligado a esse show, pois as crianças, vulneráveis, se tornam consumidores quase certos do tal kit. Além disso, a estratégia parece ardilosa também para com os pais, que confiam na escola e em seu ambiente para a educação de seus filhos e, portanto, sob o guarda-chuva da instituição que valida e credita o evento, creem de boa-fé que aquilo será benéfico a seus filhos. Afinal, que mal há em um espetáculo musical com uma dupla de palhaços?
Bom, para mim e meu marido, além de haver a ideia de que meu filhote, de apenas 11 meses, é um consumidor em potencial, também houve a possibilidade de expor meu filho a uma atração que poderia causar nele estímulos que considero excessivamente precoces: associação de músicas a marcas (a tal dupla de palhaços, afinal, é uma marca, com diversos produtos licenciados em seu nome!), associação de prazer e alegria a produtos e consumo e, por fim, a compreensão de que a diversão precisa ser barulhenta e altamente produzida. Além disso, me causa pavor a ideia de que pudesse estranhar as pinturas, os gestos, o barulho e as fantasias e se sentisse desnecessariamente desamparado, tendo de lidar com medo, ansiedade e angústia sem o conforto da mamãe por perto (claro que sei que Arthur, em algum momento da vida dele passará por situações desse nível sem ter a mamãe por perto; claro que eu sei que ele já pode, inclusive, ter experimentado isso na creche, tendo se assustado com qualquer coisa ou se sentido sozinho e desamparado; mas a questão toda é: se posso evitar, por que vou expô-lo espontaneamente a isso?).
E por fim, como se não bastasse tudo isso que acabei de apresentar, o tal evento trazia o patrocínio de um refresco em pó (corante + açúcar + aroma artificial? Não, obrigada. Nesses refrescos, a única coisa saudável é justamente a parte que não vem neles e que precisa ser acrescentada: a água) - e eu me recuso a frequentar ou consumir produtos, eventos e marcas com patrocínios com os quais não concordo ou que ferem minha filosofia de vida -, e, cereja do sundae, vinha com uma frasezinha no panfleto: "Deus é fiel!"
Sou ateia e respeito absolutamente todas as escolhas religiosas. Não concordo com algumas práticas em determinadas religiões, mas acho que cada ser humano na face da terra é livre para escolher no que quer acreditar ou no que não quer acreditar. Cada pessoa é senhora de si, e nada nem ninguém deve forçar que crenças ou valores sejam impostos ou reprimidos.
Assim, como eu poderia achar bacana que um evento, numa só tacada, trouxesse para o meu filho a possibilidade de: incentivar nele o consumo; atrelar momentos de prazer a marcas e produtos; apresentar a ele outros produtos que se vendem como inócuos, mas que induzem a uma alimentação desequilibrada e vazia de nutrientes; impor a ele qualquer prática religiosa, sendo que é minha escolha mantê-lo livre, porém informado, a respeito de vivências religiosas e/ou espirituais.
Preciso dizer que foi um alívio muito grande saber que em breve Arthur não precisará mais ficar na creche, pois esta me parece ser a ponta do iceberg das frustrações em relação a esta instituição. Outras práticas, claro, já haviam me deixado incomodada, mas foi realmente decepcionante ver que a escola autorizou o evento, que as outras mães não acharam nada demais nisso e, sobretudo, que eu tenha ido reclamar na diretoria e tenha escutado que "as crianças mais velhas vão ficar malucas".
Bom, se o objetivo da creche era deixar as pessoas malucas, comigo funcionou direitinho!
E lá fui eu hoje, de sling, com meus potinhos de LM congelado e mamadeira anti-desmame, copo de treinamento sem tampa, escova de dentes sem pasta e colar de âmbar para a dentição explicar que estava buscando o menino mais cedo por um posicionamento político, que me fazia discordar da exposição precoce ao consumismo e blá-blá-blá. As cuidadoras riram um pouco, porque, afinal, eu sou a mãe maluca. Mas acho que no fim das contas elas entenderam direitinho quando eu disse, para completar tudo, que, na minha humilde opinião, muito melhor e mais bacana do que ter palhaços vendedores de DVD fazendo um show altamente produzido, era mesmo o carinho que elas têm com meu pequeno, entretendo-o e estimulando-o todos os dias. Aí, elas riram diferente. E acho que nem me acharam tão maluca assim.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Carinho de marido: cada uma tem o que merece!

Ontem foi um dia difícil. Arthur e seus seis dentes ficaram doentes, com febre, enjoo, dores, muito catarro e chororô. All day long. All night long. Em poucas palavras: do peito pro colo, do colo pro peito, e só servia a mamãe.
No fim da jornada (e estamos assim desde segunda, minha gente!), eu estava em frangalhos. Daí deitei-me, sorri para marido, pedi um carinho. Ele sorriu de volta, abriu os braços para me receber e, assim que minha cabeça pousou no travesseiro, ele disse, com todo seu amor:
- A barata diz que tem sete saias de filó...

É, povo, cada um tem o marido e o carinho que merece!

segunda-feira, 20 de maio de 2013

11 verdades sobre meu bebê de 11 meses


Cansada dos pitacos alheios na sua vida, na vida do seu bebê e no que mais possa ser pitacado? Bora desopilar comigo nessas onze verdades bem verdadeiras que eu tenho vontade de falar para uma penca de gente (mas que em 99% das vezes noblesse oblige engolir com cara de feliz):

1) O leite materno continua a ser o principal alimento. Sopinha, frutinha, suquinho, qualquerzinha coisinha que vocêzinha oferecinha a ele será COMPLEMENTAR. Meu filho não está e nem ficará desnutrido porque não quer a porcaria da papinha.
2) Ainda é bacana lavar a sua mão antes de tocar o meu bebê. Nem sempre é possível ou necessário, ok. Mas ainda é bacana e delicado oferecer ou fazer.
3) Não, não pode dar NADA de comer sem minha expressa autorização.
4) Não, não pode se meter na nossa educação. Afinal, quem acorda de madrugada para amamentar SOMOS NÓS (a saber: eu e marido). Quem cuida quando está doentinho SOMOS NÓS. Quem paga a creche, as roupas, as fraldas e tudo mais SOMOS NÓS.
5) Ele ainda precisa de silêncio para dormir de noite.
6) Ele dorme cedo. Então para de achar que o mundo gira em volta da porcaria do seu umbigo e NÃO TELEFONE DEPOIS DAS 19h!
7) Banho de perfume continua incomodando. Não é uma questão de idade, mas de nariz (se você não tem olfato, deve ser fumante, então é favor duplo ficar a pelo menos um quilômetro do meu filho).
8) Ele não se parece com fulaninho, primo torto do marido, nem com a beltraninha, irmã de criação da minha tia-avó. É favor não rotular, sobretudo atitudes universalmente bebezísticas, como puxar cabelos, gostar de colares ou chorar no colo de estranhos.
9) Ele não é robô, então se não quiser dar tchauzinho, mandar beijinho, fazer dancinha ou qualquer outra gracinha linda que ele já sabe fazer, não insista.
10) Eu vou "mal" acostumá-lo com todo colo, amor, carinho, respeito e dedicação integral que eu puder oferecer. Quando você tiver os seus filhos, você faz do jeito que melhor lhe aprouver.
11) NÃO FUME PERTO DO MEU FILHO!

Um beijo, galera sem-noção dos meus círculos sociais!

(Obviamente não estou dando nenhuma indireta para quem lê meu blog e, além disso, o que me irrita é o comportamento repetidamente sem-noção e combinado. Ou seja, a pessoa repete, repete, repete, repete e, quase sempre, mais de 3 dos tópicos acima listados. E, exceto pelo cigarro, às vezes todas nós, mães ou não, damos aquela escorregada e acabamos enchendo a paciência da amiga, da vizinha, da prima, né? Mas valeu para desabafar. Tô mais leve!)

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Onze meses

As mãos gorduchas não prendem mais no reflexo: acertam, manipulam, refinam a coordenação e arrastam meu olhar para os detalhes que passam correndo nesta vida: a poeira, o grão, o mínimo. Como tão pequena semente engolfa minha vida desse jeito? Como tão minúscula musculatura provoca espasmos tão intensos, instiga, belisca, bate e aperta bem forte meu peito, meu corpo, minhas emoções?
Onze meses, meu filho. Onze meses parece a crise dos trinta anos: uma nostalgia de uma vida distante, uma saudade daquelas vivências loucas e intensas do tempo de recém-nascido e certo medo do que vem pela frente, não pelo que viverei, mas medo de deixar de viver porque tendemos a esquecer os detalhes.
Filho, mamãe é terrível com datas e marcos, não se lembra de anotar quase nada. Por um lado porque estou vivendo os momentos e não catalogando-os em coleções de números e letras; por outro lado porque as transformações são sutis: levanta-se num dia, no outro fica mais meio segundo de pé, até que dá um passo, depois outro: quando começou a andar? Com dez meses é certo, mas sem dia definido e definitivo (talvez porque dentro do andar está o devir). Quando começou a sorrir? Quando engatinhou? Sentou-se? Comeu? É bom, sob certo aspecto, que se um dia vier um irmãozinho teu, não haverá comparações desonestas (desonestas porque impossíveis! Como comparar pessoas diferentes e com habilidades e interesses diferentes?). Mas fica o medo de tudo ser estrangulado pela linha do tempo que torna tudo grande (gente grande, tarefas grandes, fases) e deixa fugir o detalhe.
E você, com as mãozinhas gorduchas, futucando o chão em busca de migalhas do cotidiano, me dá uma dor e uma lição: que eu saiba selecionar, conter e dedicar-me minuciosamente ao pequeno, que das pequenas migalhas cotidianas é que é feita a vida.
Meu filho, onze meses, quase um ano: meu melhor.