Vieram todos escada abaixo. Eu ia reconhecendo os rostos, procurando o do meu filho. Vieram todos. Menos ele.
Mais de cinco minutos depois, vem ele, ao lado da professora, que me vê e revira os olhos, embora o sorriso denuncie que é um revirar de olhos brincalhão.
Eu pergunto: "Aconteceu alguma coisa?"
E ela responde: "Não. Ele só ficou fazendo gracinhas para os amigos, que riam muito, então não se arrumou a tempo para descer."
"Sei bem como é", disse eu.
E saí feliz por ter um filho que se atrasa porque se distraiu com as brincadeiras.
<3
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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
sexta-feira, 20 de dezembro de 2013
Ciúmes
Tá, tá, tá, eu confesso: sou ciumenta. Ponto. Sou ciumenta e possessiva. Sempre fui. Pessoas, objetos, lugares, ideias, quero tudo e todos para mim. Só para mim.
Mas eu não fiz filho sozinha, né? E não ter feito filho sozinha significa que, por mais que eu ame marido, Arthur não seria só meu. Quer dizer, ele até foi só meu por longas 41 semanas. Só eu curtia a vidinha dele serelepando aqui dentro 24h por dia. Porém, assim que ele saiu da minha barriga, passou a poder ser tocado, manipulado e gerido por outras pessoas. Inclusive marido.
Por termos escolhido ter um puerpério "minimalista", só eu, marido, Arthur e nosso boxer, quando eu estava grávida não me importava muito com a família "tomando posse" do Arthur, mas sim de como eu iria administrar o ciúme duplo aqui em casa: Arthur com marido; marido com Arthur.
Oh, céus! Como sofri pensando nisso, tentando arrumar uma solução para que eu conseguisse "permitir" que os dois, pai e filho, tivessem uma relação própria e autônoma, sem a intermediação da mamãe aqui (e seu ciúme, claro).
Passava muito tempo pensando (e com esse pensamento me dilacerando por dentro) em como seria quando Arthur preferisse o colo dele ao meu; como eu reagiria quando eles se divertissem sozinhos, quando saíssem sozinhos, quando trocassem beijos e carinhos sem mim. Não achei caminho. Me preocupei, respirei fundo, tentei bolar estratégias para distrair o monstro verde do ciúme.
E aí aconteceu a vida.
Marido e Arthur se amaram desde o começo. Marido e Arthur acharam um caminho de interação, eles se conectaram, eles se conheceram e se coadunaram, inventaram brincadeiras, rotinas, maneiras de se comunicar. E eu fiquei de fora de muita coisa. Surpreendentemente feliz. Realizada. Satisfeita por ver que pessoas não são divisíveis e, por não serem divisíveis, são unas, inteiras e capazes de multiplicar suas facetas. Com isso, multifacetados e ainda assim indivisíveis, meus homens elevam-me ao expoente infinitesimal do amor.
Sem ciúmes. Livres.
Feliz pelos dezoito meses mais lindos e transformadores da minha vida.
Mas eu não fiz filho sozinha, né? E não ter feito filho sozinha significa que, por mais que eu ame marido, Arthur não seria só meu. Quer dizer, ele até foi só meu por longas 41 semanas. Só eu curtia a vidinha dele serelepando aqui dentro 24h por dia. Porém, assim que ele saiu da minha barriga, passou a poder ser tocado, manipulado e gerido por outras pessoas. Inclusive marido.
Por termos escolhido ter um puerpério "minimalista", só eu, marido, Arthur e nosso boxer, quando eu estava grávida não me importava muito com a família "tomando posse" do Arthur, mas sim de como eu iria administrar o ciúme duplo aqui em casa: Arthur com marido; marido com Arthur.
Oh, céus! Como sofri pensando nisso, tentando arrumar uma solução para que eu conseguisse "permitir" que os dois, pai e filho, tivessem uma relação própria e autônoma, sem a intermediação da mamãe aqui (e seu ciúme, claro).
Passava muito tempo pensando (e com esse pensamento me dilacerando por dentro) em como seria quando Arthur preferisse o colo dele ao meu; como eu reagiria quando eles se divertissem sozinhos, quando saíssem sozinhos, quando trocassem beijos e carinhos sem mim. Não achei caminho. Me preocupei, respirei fundo, tentei bolar estratégias para distrair o monstro verde do ciúme.
E aí aconteceu a vida.
Marido e Arthur se amaram desde o começo. Marido e Arthur acharam um caminho de interação, eles se conectaram, eles se conheceram e se coadunaram, inventaram brincadeiras, rotinas, maneiras de se comunicar. E eu fiquei de fora de muita coisa. Surpreendentemente feliz. Realizada. Satisfeita por ver que pessoas não são divisíveis e, por não serem divisíveis, são unas, inteiras e capazes de multiplicar suas facetas. Com isso, multifacetados e ainda assim indivisíveis, meus homens elevam-me ao expoente infinitesimal do amor.
Sem ciúmes. Livres.
Feliz pelos dezoito meses mais lindos e transformadores da minha vida.
sábado, 2 de novembro de 2013
Primeiro Halloween
Vocês, que me acompanham, sabem que eu não faço muito o estilo "querido diário", né? Geralmente faço um texto gaiato ou drama queen das coisas que me acontecem e vamos que vamos. Mas hoje eu vou fazer diferente. É que meu pequeno teve seu primeiro Halloween, e isso foi tão importante que merece nota.
Mas, já que vamos fazer, que façamos direito: deixem-me começar de novo o post.
Querido diário,
ontem foi Halloween aqui nos Estados Unidos. Nunca curti muito a data, non creo en las brujas (pero que las hay, las hay) e achava essa coisa toda meio estranha, porque carnaval era tão mais interessante em termos de fantasia, e logo depois vinha finados, que no Brasil é uma data tristonha, melancólica, então achava a coisa meio fora do eixo, meio desesperada. Mas eu não estou mais no Brasil, né, Di? Tô aqui, no Tio Sam halloweenesco, cheia dos frios e dos R retroflexos para tentar me comunicar, cheia do espírito de imigrante-vamos-nos-integrar-à-comunidade, essas coisas todas. E cheia dos hormônios de amamentação também. Porque, né, a ocitocina ajuda. O quê, Di? Não entendeu a conexão entre ocitocina e Halloween? Pô, Di, eu comprei um raio de uma fantasia de raposa para o Arthur! RAPOSA! Laranjinha, com rabo e enchimento na barriga! E Arthur, que já é a coisa mais fofa e deliciosa do universo todinho, ficou dolorosamente divino! Tudo bem que ele não curtiu muito o capuz que fazia a cara da raposa, mas durante o passeio, incomodado pelo frio e pela chuva (sim, choveu, como sempre acontece no dia dos mortos... uma tradição brasileira que talvez tenhamos importado), ele deixou ficar aquela cara de raposa, e não houve uma única pessoa que não tivesse elogiado a criatura!
Bom, mas deixa eu voltar aqui pro começo, antes de contar como foi.
Eu comprei a fantasia, espetei a criança lá dentro e, culpa da ocitocina, fiquei louca! Tirei 312 fotos (literalmente), suspirei, pirei e... broxei. Olhei para fora e a garoa fina da manhã virara chuva de verdade. Aqui, Di, o Halloween é tipo Carnaval no Brasil: tem anúncio de início e término (mas não dura uma semana; e se durasse, acho que eu infartava com tanta fofura!), e ao contrário do que mostram os filmes, não acontece de noitão. Porque é uma festa principalmente das crianças, é preciso se pensar na segurança, e a cidade onde moro decretou o horário oficial das 16 às 19h. E às 16h30, chovia canivete (ou gatos e cachorros, para gracejar com o idioma que agora speakamos). Deprimi. Mas aí comecei a ver a criançada nas ruas, todo mundo fantasiado, e pensei: "pô, primeiro Halloween do pequeno, e eu aqui no maior bode. Vou colocar isso no livrinho dele? 'Filhinho, no seu primeiro Halloween você e sua mãe ficaram dentro de casa, vendo a chuva, assistindo as crianças brincarem. Mas, ó, tirei baciada de fotos!' Eu não! Sapequei o moleque dentro do carregador de bebês (achei que seria mais prático, apesar de o carrinho ter capa de chuva), atochei o capuz de raposa, máquina de um lado, bolsa do outro, e bora enfiar a cara nessa de mergulhar na cultura. Ou melhor, bora pular de bomba nesse mergulho.
Nossa rua é bem residencial. Aliás, nossa vizinhança toda. E por isso fomos dar uma volta no quarteirão. Arthur ficou todo feliz, porque rua é com ele mesmo! E quando viu as primeiras crianças fantasiadas começou a apontar e fazer "ãhn-ãhn-ãhn", como quem diz: "caceta, mãe, olha essa cambada fantasiada! Que porra é essa?" (Porque ele é meu filho, e vai aprender logo umas palavras pesadas, não tem jeito.) Eram princesas, ladrões, roqueiros, pêras, coelhos, jilós e outras coisas que não fui capaz de identificar (o povo é criativo e crafter por aqui). E Arthur ficou embasbacado. Acompanhou-as com olhar e... logo descobriu que elas iam até as casas das pessoas. Casas essas que estavam decoradas e repleta de brinquedos (ou que pelo menos assim pareciam ser). Pronto!
Di, o menino enlouqueceu! Foi "ãhn-ãhn-ãhn" e dedinho em riste o tempo todo. E quando eu perguntava: "Meu filho, você quer entrar nesta casa?", ele sacolejava as duas cabeças (a dele e da raposa) e ficava com os olhinhos vidrados. Liguei pro marido aos prantos, tocada pela comoção que o evento causa: crianças fofas e felizes brincando nas ruas, todo poder ao povo! Ah, chorei mesmo. E fiz marido largar trabalho e vir ficar com a gente, afinal era uma festividade familiar.
O que era para ser uma voltinha no quarteirão virou uma peregrinação pela vizinhança. Vimos casas com decorações simples, casas que pareciam saídas de filmes de terror, casas com pessoas simpáticas, casas com pessoas ultra-simpáticas, casas com cachorros, com gatos, com outras crianças. Pegamos mais de trinta guloseimas (noventa porcento chocolate, uma pena!) e uma mini-tangerina com carinha de abóbora! Fiz questão de visitar minha casa favorita (aqui perto, em frente à igreja, Di. Espetáculo de casa!) e dar uma bisoiada em quem mora, como vive, o que come gente que tem casas lindas como aquela.
Era um cara de uns 40 anos, com cara de rico, roupa de rico (e três carrões na garagem), um cachorro (que pelo latido era grande), bebendo vinho e ouvindo The Doors enquanto distribuía chocolates em meio a uma bomba de fumaça (Arthur ficou fascinado). Ele nos mandou assistir este vídeo, que, segundo ele, já era viral (a filha dele, na faculdade, mandou para ele porque todo mundo estava assistindo). Bom, eu sei lá como é que a raposa faz, mas a minha raposa fazia "ãhn-ãhn-ãhn" a cada casa, e no fim da noite já estava enfiando a mãozinha gorda nas tigelas cheias de doces e enfiando um pirulito verde-euforia na boca. Claro que eu não tirei o papel. Claro que duzentas e doze pessoas vieram me avisar que o pirulito estava embrulhado.
Enfim, foi um dia muito especial, porque além de gostoso fez com que eu me sentisse parte de algo, fez com que eu conhecesse alguns vizinhos e que eu visse que crianças são crianças, e são felizes com pouco.
Agora, Di, o Halloween fez sentido para mim: encheu de esperança e renovou minhas energias para enfrentar o inverno que vem chegando impiedosamente. Mas eu, marido e minha pequena raposa enfrentamos o tempo ruim e, juntos, unidos, nos divertimos.
Beijo, Di. Volto outro dia.
OBS: Valeu pela dicas, Helen!
Mas, já que vamos fazer, que façamos direito: deixem-me começar de novo o post.
Querido diário,
ontem foi Halloween aqui nos Estados Unidos. Nunca curti muito a data, non creo en las brujas (pero que las hay, las hay) e achava essa coisa toda meio estranha, porque carnaval era tão mais interessante em termos de fantasia, e logo depois vinha finados, que no Brasil é uma data tristonha, melancólica, então achava a coisa meio fora do eixo, meio desesperada. Mas eu não estou mais no Brasil, né, Di? Tô aqui, no Tio Sam halloweenesco, cheia dos frios e dos R retroflexos para tentar me comunicar, cheia do espírito de imigrante-vamos-nos-integrar-à-comunidade, essas coisas todas. E cheia dos hormônios de amamentação também. Porque, né, a ocitocina ajuda. O quê, Di? Não entendeu a conexão entre ocitocina e Halloween? Pô, Di, eu comprei um raio de uma fantasia de raposa para o Arthur! RAPOSA! Laranjinha, com rabo e enchimento na barriga! E Arthur, que já é a coisa mais fofa e deliciosa do universo todinho, ficou dolorosamente divino! Tudo bem que ele não curtiu muito o capuz que fazia a cara da raposa, mas durante o passeio, incomodado pelo frio e pela chuva (sim, choveu, como sempre acontece no dia dos mortos... uma tradição brasileira que talvez tenhamos importado), ele deixou ficar aquela cara de raposa, e não houve uma única pessoa que não tivesse elogiado a criatura!
Bom, mas deixa eu voltar aqui pro começo, antes de contar como foi.
Eu comprei a fantasia, espetei a criança lá dentro e, culpa da ocitocina, fiquei louca! Tirei 312 fotos (literalmente), suspirei, pirei e... broxei. Olhei para fora e a garoa fina da manhã virara chuva de verdade. Aqui, Di, o Halloween é tipo Carnaval no Brasil: tem anúncio de início e término (mas não dura uma semana; e se durasse, acho que eu infartava com tanta fofura!), e ao contrário do que mostram os filmes, não acontece de noitão. Porque é uma festa principalmente das crianças, é preciso se pensar na segurança, e a cidade onde moro decretou o horário oficial das 16 às 19h. E às 16h30, chovia canivete (ou gatos e cachorros, para gracejar com o idioma que agora speakamos). Deprimi. Mas aí comecei a ver a criançada nas ruas, todo mundo fantasiado, e pensei: "pô, primeiro Halloween do pequeno, e eu aqui no maior bode. Vou colocar isso no livrinho dele? 'Filhinho, no seu primeiro Halloween você e sua mãe ficaram dentro de casa, vendo a chuva, assistindo as crianças brincarem. Mas, ó, tirei baciada de fotos!' Eu não! Sapequei o moleque dentro do carregador de bebês (achei que seria mais prático, apesar de o carrinho ter capa de chuva), atochei o capuz de raposa, máquina de um lado, bolsa do outro, e bora enfiar a cara nessa de mergulhar na cultura. Ou melhor, bora pular de bomba nesse mergulho.
Nossa rua é bem residencial. Aliás, nossa vizinhança toda. E por isso fomos dar uma volta no quarteirão. Arthur ficou todo feliz, porque rua é com ele mesmo! E quando viu as primeiras crianças fantasiadas começou a apontar e fazer "ãhn-ãhn-ãhn", como quem diz: "caceta, mãe, olha essa cambada fantasiada! Que porra é essa?" (Porque ele é meu filho, e vai aprender logo umas palavras pesadas, não tem jeito.) Eram princesas, ladrões, roqueiros, pêras, coelhos, jilós e outras coisas que não fui capaz de identificar (o povo é criativo e crafter por aqui). E Arthur ficou embasbacado. Acompanhou-as com olhar e... logo descobriu que elas iam até as casas das pessoas. Casas essas que estavam decoradas e repleta de brinquedos (ou que pelo menos assim pareciam ser). Pronto!
Di, o menino enlouqueceu! Foi "ãhn-ãhn-ãhn" e dedinho em riste o tempo todo. E quando eu perguntava: "Meu filho, você quer entrar nesta casa?", ele sacolejava as duas cabeças (a dele e da raposa) e ficava com os olhinhos vidrados. Liguei pro marido aos prantos, tocada pela comoção que o evento causa: crianças fofas e felizes brincando nas ruas, todo poder ao povo! Ah, chorei mesmo. E fiz marido largar trabalho e vir ficar com a gente, afinal era uma festividade familiar.
O que era para ser uma voltinha no quarteirão virou uma peregrinação pela vizinhança. Vimos casas com decorações simples, casas que pareciam saídas de filmes de terror, casas com pessoas simpáticas, casas com pessoas ultra-simpáticas, casas com cachorros, com gatos, com outras crianças. Pegamos mais de trinta guloseimas (noventa porcento chocolate, uma pena!) e uma mini-tangerina com carinha de abóbora! Fiz questão de visitar minha casa favorita (aqui perto, em frente à igreja, Di. Espetáculo de casa!) e dar uma bisoiada em quem mora, como vive, o que come gente que tem casas lindas como aquela.
Era um cara de uns 40 anos, com cara de rico, roupa de rico (e três carrões na garagem), um cachorro (que pelo latido era grande), bebendo vinho e ouvindo The Doors enquanto distribuía chocolates em meio a uma bomba de fumaça (Arthur ficou fascinado). Ele nos mandou assistir este vídeo, que, segundo ele, já era viral (a filha dele, na faculdade, mandou para ele porque todo mundo estava assistindo). Bom, eu sei lá como é que a raposa faz, mas a minha raposa fazia "ãhn-ãhn-ãhn" a cada casa, e no fim da noite já estava enfiando a mãozinha gorda nas tigelas cheias de doces e enfiando um pirulito verde-euforia na boca. Claro que eu não tirei o papel. Claro que duzentas e doze pessoas vieram me avisar que o pirulito estava embrulhado.
Enfim, foi um dia muito especial, porque além de gostoso fez com que eu me sentisse parte de algo, fez com que eu conhecesse alguns vizinhos e que eu visse que crianças são crianças, e são felizes com pouco.
Agora, Di, o Halloween fez sentido para mim: encheu de esperança e renovou minhas energias para enfrentar o inverno que vem chegando impiedosamente. Mas eu, marido e minha pequena raposa enfrentamos o tempo ruim e, juntos, unidos, nos divertimos.
Beijo, Di. Volto outro dia.
| Criançada aqui na rua. <3 |
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terça-feira, 1 de outubro de 2013
Aprendizagens
Há muito tempo eu vinha pensando em como determinadas coisas que descobri/aprendi/resgatei com a maternidade pareciam muito próximas de vivências e experiências que tive enquanto praticante de atividades físicas.
Sabem, eu fui sedentária por muitos anos. Vinte e seis, para ser mais exata. Eu era a criança que preferia pique-alto porque tinha tempo de descanso, era a adolescente que matava todas as aulas de educação física e fui a jovem adulta que fugia da academia porque, sendo magra, para quê, né?
Um dia, porém, eu acordei e percebi que tinha perdido o movimento do pescoço. Não era torcicolo. Era perda de movimento. E eu sabia que a coisa estava feia, porque nos meses anteriores eu havia, pouco a pouco, sido limitada por meu próprio corpo. Começou com o movimento de torção do quadril, depois eu perdi a capacidade de mover adequadamente os braços, até que um dia, aos vinte e seis anos, eu perdi todos esses movimentos mais a capacidade de virar o pescoço. Fora a dor, que já me acompanhava desde meus 11 anos.
Resolvi procurar ajuda, claro. Fui a diversos ortopedistas e iniciei um longo processo de recuperação com fisioterapia. Eu era a única jovem da minha "turma" de pilates fisioterápico. Ao meu lado, senhoras e senhores que conseguiam levantar mais peso e ter mais mobilidade que eu, que estava no auge da juventude. Na minha avaliação, constatou-se que eu havia perdido quase toda minha massa muscular (não sei o termo técnico) de determinada parte das costas, estava fraquíssima e, pior, com a coluna seriamente comprometida, pois não havia sustentação e uma hérnia se anunciava como a próxima etapa da deterioração de minha saúde óssea/postural. Fora a pelanca na barriga, mesmo sendo magra, as enxaquecas quase diárias e, claro, a lordose horrível, que me dava um ar de derrotada mesmo nos dias mais felizes da minha vida.
Decidi mudar. Era uma escolha: ser saudável e enfrentar meus preconceitos (já que eu nunca havia feito atividades físicas de forma sistemática antes) ou continuar na minha zona de (des)conforto.
Dediquei-me à fisioterapia e, mesmo sem receber alta (fisioterapeutas, não me matem; e leitores, não repitam isso em casa!), me matriculei numa atividade física. Escolhi uma que eu sempre quis fazer: balé! E aos vinte e seis, quase vinte e sete, comprei minha primeira sapatilha.
A turma, assim como no pilates, era composta de pessoas mais velhas que eu. E, claro, pessoas com muito mais experiência no balé. Então, eu era a mais jovem, a mais flácida, a mais descoordenada e a que menos tinha conhecimento das posições e fundamentos da dança.
Insisti. Fui em frente. Chovesse ou fizesse sol, ia eu lá para o balé, para a fisioterapia, e um ano depois já não tinha enxaquecas, havia recuperado meus movimentos e a hérnia voltara a ser apenas uma sombra no horizonte (embora eu tenha até hoje espondilolistese).
Depois do balé, fiz ioga, alongamento e pilates de chão e com bolas, hidroginástica, musculação...
Mas o que eu quero contar aconteceu mesmo no balé.
Cheguei com as sapatilhas novas, o collant, a calça, e logo na primeira aula veio a frustração, o desafio incompleto de executar com perfeição o movimento.
Se você nunca entrou em um studio de balé, informo: é cruel. Só os fortes sobrevivem. E não digo isso só porque bailarinos clássicos (ou outros, mas como eu fiz balé clássico, vou falar sobre ele) são fortalezas musculares. Não, não! A crueldade está na parede INTEIRAMENTE espelhada. É um espelho IMENSO, GIGANTESCO, do qual você não pode escapar e que a cada movimento coloca em perspectiva o seu movimento e o da professora, a sua execução e a dos seus colegas. É cruel!
Meu conselho: não desista, mesmo que você veja o quão limitada é sua musculatura e o quão precária é a sua coordenação motora.
Então, eu estava no meio dessa crueldade toda, lutando muito para coordenar membros superiores, inferiores e respiração (convém não desmaiar nas aulas, né?), quando tive um clique. Sabem aqueles cliques que depois você até conta para as pessoas e elas fazem cara de "e daí essa coisa óbvia?", mas que é uma coisa tão óbvia, tão evidente, mas que você nunquinha tinha notado antes, e que depois que você percebe essa coisa coloca toda sua vida em perspectiva? Pois é. Tive um desses.
Entre um demi plié e um pas de bourrée (meu terror!) eu vi: minha limitação. Bem ali. Na minha frente. Posta ao lado das limitações alheias. E também lado a lado com os êxitos alheios. E eu vi que se eu me enrolava toda no pas de bourrée (causando comoção na aula quando enfim acertava o passo), minha incrível flexibilidade nata me colocava no mesmíssimo patamar da professora, quando o assunto era alongar as pernas (arrasava nos jettés!).
Isso, meu deus!, revolucionou minha vida.
Daí eu saí do balé, fui para a ioga, para outras práticas, outras maneiras de me conectar com meu corpo, sempre tendo em mente esse aprendizado do balé: limites. Os meus.
E aí eu engravidei. E pari (cheia de limitações, rompendo algumas barreiras, ficando em outras). E fui, fui, fui. E depois que Arthur chegou, fiquei matutando sobre essa coisa de aprender e de perceber o corpo material e de como ter um filho oferece a genial oportunidade de revisitarmos determinadas vivências.
E então, hoje, eu assisti a este vídeo (clique na imagem):
E, finalmente, eu entendi: ter um bebê é ter a incrível e única oportunidade de resgatar em si aprendizagens há muito esquecidas. É a grande dádiva que a natureza nos dá para que observemos mais uma vez o prosaico, aquilo que a repetição dos experts fez embotar: que para seguir adiante, precisamos dos pequenos movimentos executados com a máxima consciência e perfeição de que formos capazes. Porque só assim, plenamente conscientes do lugar em que estamos e do corpo que habitamos, somos capazes de escolher, aprender e conquistar.
Não desistam, tentem outra vez.
Sabem, eu fui sedentária por muitos anos. Vinte e seis, para ser mais exata. Eu era a criança que preferia pique-alto porque tinha tempo de descanso, era a adolescente que matava todas as aulas de educação física e fui a jovem adulta que fugia da academia porque, sendo magra, para quê, né?
Um dia, porém, eu acordei e percebi que tinha perdido o movimento do pescoço. Não era torcicolo. Era perda de movimento. E eu sabia que a coisa estava feia, porque nos meses anteriores eu havia, pouco a pouco, sido limitada por meu próprio corpo. Começou com o movimento de torção do quadril, depois eu perdi a capacidade de mover adequadamente os braços, até que um dia, aos vinte e seis anos, eu perdi todos esses movimentos mais a capacidade de virar o pescoço. Fora a dor, que já me acompanhava desde meus 11 anos.
Resolvi procurar ajuda, claro. Fui a diversos ortopedistas e iniciei um longo processo de recuperação com fisioterapia. Eu era a única jovem da minha "turma" de pilates fisioterápico. Ao meu lado, senhoras e senhores que conseguiam levantar mais peso e ter mais mobilidade que eu, que estava no auge da juventude. Na minha avaliação, constatou-se que eu havia perdido quase toda minha massa muscular (não sei o termo técnico) de determinada parte das costas, estava fraquíssima e, pior, com a coluna seriamente comprometida, pois não havia sustentação e uma hérnia se anunciava como a próxima etapa da deterioração de minha saúde óssea/postural. Fora a pelanca na barriga, mesmo sendo magra, as enxaquecas quase diárias e, claro, a lordose horrível, que me dava um ar de derrotada mesmo nos dias mais felizes da minha vida.
Decidi mudar. Era uma escolha: ser saudável e enfrentar meus preconceitos (já que eu nunca havia feito atividades físicas de forma sistemática antes) ou continuar na minha zona de (des)conforto.
Dediquei-me à fisioterapia e, mesmo sem receber alta (fisioterapeutas, não me matem; e leitores, não repitam isso em casa!), me matriculei numa atividade física. Escolhi uma que eu sempre quis fazer: balé! E aos vinte e seis, quase vinte e sete, comprei minha primeira sapatilha.
A turma, assim como no pilates, era composta de pessoas mais velhas que eu. E, claro, pessoas com muito mais experiência no balé. Então, eu era a mais jovem, a mais flácida, a mais descoordenada e a que menos tinha conhecimento das posições e fundamentos da dança.
Insisti. Fui em frente. Chovesse ou fizesse sol, ia eu lá para o balé, para a fisioterapia, e um ano depois já não tinha enxaquecas, havia recuperado meus movimentos e a hérnia voltara a ser apenas uma sombra no horizonte (embora eu tenha até hoje espondilolistese).
Depois do balé, fiz ioga, alongamento e pilates de chão e com bolas, hidroginástica, musculação...
Mas o que eu quero contar aconteceu mesmo no balé.
Cheguei com as sapatilhas novas, o collant, a calça, e logo na primeira aula veio a frustração, o desafio incompleto de executar com perfeição o movimento.
Se você nunca entrou em um studio de balé, informo: é cruel. Só os fortes sobrevivem. E não digo isso só porque bailarinos clássicos (ou outros, mas como eu fiz balé clássico, vou falar sobre ele) são fortalezas musculares. Não, não! A crueldade está na parede INTEIRAMENTE espelhada. É um espelho IMENSO, GIGANTESCO, do qual você não pode escapar e que a cada movimento coloca em perspectiva o seu movimento e o da professora, a sua execução e a dos seus colegas. É cruel!
Meu conselho: não desista, mesmo que você veja o quão limitada é sua musculatura e o quão precária é a sua coordenação motora.
Então, eu estava no meio dessa crueldade toda, lutando muito para coordenar membros superiores, inferiores e respiração (convém não desmaiar nas aulas, né?), quando tive um clique. Sabem aqueles cliques que depois você até conta para as pessoas e elas fazem cara de "e daí essa coisa óbvia?", mas que é uma coisa tão óbvia, tão evidente, mas que você nunquinha tinha notado antes, e que depois que você percebe essa coisa coloca toda sua vida em perspectiva? Pois é. Tive um desses.
Entre um demi plié e um pas de bourrée (meu terror!) eu vi: minha limitação. Bem ali. Na minha frente. Posta ao lado das limitações alheias. E também lado a lado com os êxitos alheios. E eu vi que se eu me enrolava toda no pas de bourrée (causando comoção na aula quando enfim acertava o passo), minha incrível flexibilidade nata me colocava no mesmíssimo patamar da professora, quando o assunto era alongar as pernas (arrasava nos jettés!).
Isso, meu deus!, revolucionou minha vida.
Daí eu saí do balé, fui para a ioga, para outras práticas, outras maneiras de me conectar com meu corpo, sempre tendo em mente esse aprendizado do balé: limites. Os meus.
E aí eu engravidei. E pari (cheia de limitações, rompendo algumas barreiras, ficando em outras). E fui, fui, fui. E depois que Arthur chegou, fiquei matutando sobre essa coisa de aprender e de perceber o corpo material e de como ter um filho oferece a genial oportunidade de revisitarmos determinadas vivências.
E então, hoje, eu assisti a este vídeo (clique na imagem):
E, finalmente, eu entendi: ter um bebê é ter a incrível e única oportunidade de resgatar em si aprendizagens há muito esquecidas. É a grande dádiva que a natureza nos dá para que observemos mais uma vez o prosaico, aquilo que a repetição dos experts fez embotar: que para seguir adiante, precisamos dos pequenos movimentos executados com a máxima consciência e perfeição de que formos capazes. Porque só assim, plenamente conscientes do lugar em que estamos e do corpo que habitamos, somos capazes de escolher, aprender e conquistar.
Não desistam, tentem outra vez.
sábado, 21 de setembro de 2013
Nossos filhos, esses estranhos
Eu me lembro até hoje: veio na agenda da creche "Arthur disse a palavra 'bola' diversas vezes hoje." E foi assim que eu fiquei sabendo da primeira palavra do meu bebê. Muito triste, achei.
Essa coisa de deixar em creche sempre me deixou deprimida. Ainda grávida, sofria antecipadamente ao pensar que chegaria o dia em que deixaria meu filhotinho, gestado e parido com tanto amor, acalentado com tantas mamadas e atenções, na creche, aos cuidados de pessoas estranhas, que certamente não teriam o mesmo amor que eu tenho por ele. Sofria. Sofri. Muito.
Daí, tive a oportunidade de ouro de largar carreira, dinheiro e canudo, e ir cuidar do meu molecote, sozinha, no conforto do meu lar, 24h por dia, sete dias na semana, inclusive sábados, domingos, feriados e dias de doença e convalescença. Oportunidade de ouro, eu sei, tenho consciência dela a cada diazinho que acordo e não preciso me arrumar para ir ao trabalho, só ao parquinho; a cada tarde que curto meu bebezinho grudado a mim, aprendendo as coisas do mundo, da vida e sobre mim bem diante dos meus olhos. Eu sei. Mas não é porque eu sei da minha sorte que eu não sinta cansaço, que eu não fique estressada e até mesmo frustrada de vez em quando. Quem cuida de um bebê em tempo integral sabe do que estou falando, e é óbvio que essa foi minha escolha consciente, livre e deliberada: aceitei seus bônus e seus ônus, e acho que, sim, fiz muito bem a mim, a ele, à família.
Então, hoje, quero falar um pouco sobre o cansaço e a frustração de ser mãe integral, sobretudo depois de ter sido mãe proletária com CLT.
Quando eu trabalhava nove horas num escritório, sentada numa mesa toda minha, com prazos e projetos que dependiam de mim e somente de mim para irem adiante, eu me sentia frustrada e estressada. Cansei de sonhar acordada no meio do expediente, pensando no programa de fim de semana que iria fazer, antecipando o momento em que meu filho deitaria os olhos em mim, jogaria os bracinhos para o alto e viria diretamente ser acarinhado em meu seio. No mundo cor-de-rosa dos que estão infelizes com a realidade em que vivem (eu amava meu trabalho, claro, mas havia uma confluência de fatores intra e extra-empresariais que me despertavam outras ambições), mudar a realidade significa viver em um paraíso cristão: sem dores, sem sofrimento, com alguma culpa. Acontece, minha gente, que aqui na Terra, ao menos até onde me conste, tal paraíso não existe, e é por isso que o nosso livre-arbítrio é tão fundamental para sermos felizes. Não vou me alongar muito nesse quesito porque todo mundo sabe disso e eu não estou aqui para escrever um post de auto-ajuda alheia (auto-ajuda própria, sim, certamente!). Vamos então só passar adiante, e eu conto para vocês que, mesmo sabendo que eu estava idealizando a maternagem em tempo integral, eu achava que não haveria frustrações e estresses do mesmo nível de intensidade que eu vivia na panela de pressão social chamada "dupla jornada feminina": mãe-e-proletária-CLT.
Mais uma cuspidela para o alto, né? O que me faz questionar o gênero de Murphy: será mesmo um homem? Porque está com cara mesmo é de mulher, que entende do babado de se lascar na vida, então, por isso, cumpre seu papel com maestria.
Digressei, eu sei. Volto.
Bom, então, estava eu, com meu filho que dizia "bola", agora vivendo o Eldorado das attached mommies, em casa em tempo integral, levando ao parquinho, à biblioteca, ao ginásio de atividades, vendo de perto ele enfiar mãos cheias de areia nojenta na boca, assistindo ele descer às gargalhadas o escorrega, ficando apavorada quando ele se estabacava de cara no concreto (abriu o lábio duas vezes, o safado!), quase até adivinhando qual brinquedinho babado que ele enfiara na boca havia causado a gripe que ele pegou, quando eu me dei conta de uma coisa muito, mas muito, muito, muito importante. Meu filho, naquele momento, era quase um estranho para mim.
Quando ele saiu de dentro de mim, berrando, escorregadio, macio e quente, ele era um estranho completo. Não reconheci nele nada: suas feições eram novas, seu choro nunca fora ouvido, suas expressões, manias ou seus trejeitos eram todos inéditos. Até mesmo espirros e bocejos eram surpreendentemente ímpares. Quem pariu sabe (e quem teve o bebê por cirurgia ou adotou, também, é claro!). É uma delícia ir descobrindo e conhecendo nosso bebê, e talvez porque você está ali, num processo íntimo, delicado e sensível, de mútuo conhecimento (no caso do bebê, muita coisa de reconhecimento acontece), é que irritem tantos os pitacos: mexe com a nossa insegurança normal de mães recém-nascidas, que não sabe NADA sobre o próprio filho. E não sabe nada, mesmo que tenha feito mil cursos, quinze ultras 4D por mês, mesmo que tenha dezenove filhos mais velhos. Esse bebê que acabou de sair da sua barriga é inteiramente novo e uma incógnita absoluta.
Bom, daí você fica no chamego ocitocínico dos primeiros dias, depois se apaixona por cada pedacinho daquela pessoinha nova (até pedacinhos fedorentinhos), curte, ama, se doa, se dói, se entrega e, enfim, depois de uns três meses, você finalmente está apta a dizer que conhece seu filhote. Se chora assim, é sono; se come a mão assado, é fome; cocô mole, dente; risada de banda, fez xixi; agitou as mãozinhas, chega de balanço; os pezinhos não param, está ansioso. E por aí vai. O processo às vezes vai mais rápido, às vezes, mais devagar, mas, geralmente, quando terminam os três primeiros meses a mulher que nasceu mãe já sabe alguma coisa do bebê que nasceu...bem, bebê.
Porém, no injusto mundo das mãe-proletárias-CLT, é logo depois desse período e desse processo tão importantes e complexos que elas são obrigadas a delegarem os cuidados dos pequenos seres a pessoas que, tendo laços de sangue, de amizade ou monetários, passarão a anotar ou informar sobre o que acontece com seus pequenos durante o período em que mãe e filho(s) estão afastados. É cruel. Há quem não ache e goste de voltar ao mercado de trabalho, quem sinta até certo alívio por ter interações sociais que não versem sobre filhos e maternidade. Essas mulheres estão felizes com sua escolha. Mas eu não estava, lembram? Então esse post vai um pouco enviesado: sob o ângulo da frustração de um dia, em casa, ao abrir a agenda da creche, ler que meu filho falou "bola". (E frustração enorme, para mim: ele chegava em casa dormindo já, então nem dava para pedir que ele repetisse a gracinha!)
Frustrada, criei um mundo idealmente maravilhoso, em que eu acordava, dava bom dia para marido, filho e flores do jardim, ia preparar café da manhã, comia, brincava com o pequeno, dava até logo para marido, passeava pela cidade, comprava morangos frescos, sentia a brisa bater nos cabelos, ensinava para filhote os nomes de todas as coisas do mundo, sorria, vivia leve como uma pluma. Claro que eu precisaria fazer xixi com ele no colo, comer rapidinho, de repente interromper um programa bacana porque Arthur não estaria muito contente naquele momento, com sono, fome ou algum outro incômodo. E com essa visão foi que eu me demiti.
E foi com essa mesma visão que, ao chegar aqui, nos EUA, eu notei uma coisa muito importante: Arthur, depois de tanto tempo na creche, era um estranho para mim. De novo. Eu não sabia suas músicas favoritas, não conseguia criar uma rotina para nós, não sabia muito bem o que ele comia, o que não comia, o que gostava de fazer, como ele brincava. E isso foi um baque, porque com um bebê de 1 ano você acha que já sabe alguma coisa, né?
Pois é, mas eu tinha muitas coisas para reaprender: horários, ritmos, sinais, hábitos, choros e necessidades.
E eu sofri. Fiquei estressada, com um bebê super-ativo em casa, que tinha energia para dar e vender, energia essa que eu não sabia para onde canalizar. Também tinha um bebê com gostos e paladares que eu precisava descobrir e perceber. E, muitas vezes, ele me fazia gestos que não compreendi: devia ser alguma coisa da creche que vinha à tona e que lá ele se fazia entender. Precisei lidar com essa frustração de ter um pequeno estranho em meus braços, que muitas vezes se frustrava em mim, com minha ignorância sobre sua vida, rotina e preferências. (E olha que, modéstia a parte, eu era uma mãe interessada e dedicada quando não estava no trabalho.)
Enfim, além de tudo isso, acho que é importantíssimo também falar de uma frustração imensa e sobre a qual não pensei muito bem quando fantasiei sobre maternagem 24h por dia: a frustração do tempo. Nos meus delírios pré-demissionais eu faria xixi com Arthur no colo e teria algumas restrições em termos temporais, claro. Mas o impacto foi muito profundo para mim.
Quando Arthur era pequenininho, um recém-nascido, eu não tinha tempo para nada: xixi, comer, tomar banho, escovar dentes. NADA. Passava o dia em função do meu bebê e das novas funções que ele havia criado: mais roupas para lavar e arrumar, comidinhas para mim, organização da casa e do espaço habitável etc. Então, depois de quatro meses e meio de licença-maternidade, voltei a trabalhar, e passei a ter uma hora inteirinha de almoço, o que me dava espaço na agenda para atividades como bater perna no shopping, fazer unhas, depilação, ir ao supermercado, sentar-me sozinha e pensar na vida, ler um livro... As possibilidades eram muitas e eu as aproveitei bastante! Curti ter um tempinho para mim novamente. Daí, quando voltei a ser mamãe em tempo integral, afundei na falta de rotina, desesperei no infindável mundo de atividades inadiáveis, fui soterrada por 40 unhas a mais para cortar, dois pés a mais para calçar, dez dentes a mais para escovar, um estômago para alimentar, uma cabeça para lavar, entretenimento, cuidados pessoais, necessidades básicas e imediatas (fome, sono, frio, calor), tudo dele primeiro, muitas vezes tudo dele exclusivamente, porque não havia (não há) tempo para mim. Fico dias sem lavar o cabelo, horas sem escovar os dentes, durmo mal, sempre tenho algo a fazer e nunca consigo realmente relaxar ou descansar, pois Arthur está realmente encantado por ter a mamãe em tempo integral e absoluto com ele, e me quer praticamente de sol a sol. E com isso, confesso, me frustrei, porque meu tempo não é mais meu. Por isso, demorei para encontrar o prazer de ser mãe integral - admito, sem orgulho. Demorei para sorrir com a alma em paz, sem a angústia da necessária (é claro) frivolidade apertando minha garganta num sufoco de minutos contados: preciso tomar banho; estou com fome; preciso dormir; queria ficar quieta agora; puxa, que livro bacana; nossa, minha perna está cabeluda!
Demorei para chegar a conclusão de que meu estresse e minhas frustrações de mãe em tempo integral podem até ter um grau intenso, como os estresses e frustrações de mãe-proletária-CLT que fui. Mas, por serem de naturezas diferentes, essas coisas precisam ter um impacto diferente. E, sobretudo, porque eu ESCOLHI estar onde estou hoje, o lado B da maternagem intensa deve ser encarado como desafio e oportunidade, e não como castigo e pesar.
Então, agora, mesmo com perna cabeluda (outro dia, no meio da ioga, a professora veio ajeitar minha postura e quase morri de vergonha porque quase dava para fazer trancinhas nos cabelos da minha perna!), mesmo estressada quando estou sozinha em casa, querendo comer e Arthur cisma em subir na mesa ou escalar a estante, quando ele chora, se joga, quando o cocô vaza na última roupa limpa e eu preciso descer com bebê, roupa, sabão em pó, moedinhas e paciência até a lavanderia, mesmo assim eu ainda sorrio ao ver meu filho, na minha frente, aprender a imitar um cavalinho (é a coisa mais LINDA DO MUNDO!).
E aí, no meio dessa confusão intensa e louca, no meio de todos esses pensamentos, dessas novas sensações, eu fiz uma descoberta incrível, talvez o grande segredo da maternagem para mim. Por mais perto que estejamos, por mais que acompanhemos cada crescimento, cada aprendizado, por mais que estejamos presentes em cada descoberta, nossos filhos são e sempre serão aqueles estranhos que parimos, porque nossos filhos vivem e experimentam e aprendem e vivem na individualidade. São, portanto, seres únicos, que apreenderão o mundo de maneira única. E a cada vivência e novidade, mudarão, se transformarão. Nosso papel, então, é estar presente, como quisermos ou pudermos, para, com todos esses aprendizados e transformações, sermos a constância de que eles precisam para poderem voltar, sempre que quiserem, à segurança imutável do amor materno. Só a solidez do amor permanece quando o assunto é filhos, esses estranhos.
(Pode não parecer, mas este post é fruto de muitas reflexões em relação ao post anterior. Obrigada a todas que me responderam! De coração. Gente que nunca tinha comentado, gente que sempre comenta, gente que voltou a comentar. Obrigadíssima por partilharem opiniões e sentimentos. Isso é o que realmente importa nas redes maternas: trocas e acolhimento. Prometo voltar para falar sobre minhas ideias a respeito de segundar.)
domingo, 15 de setembro de 2013
Segundinho: ter ou não ter, eis a questão!
Sou filha única. Marido não. Odeio ser filha única. Marido não tem problemas em ter só um filhote.
E aí Arthur é praticamente homem feito, fala português, inglês e bebezês. Poliglota, o rapaz. Hoje, no parquinho, ganhou o primeiro beijo na boca da vida. Dirige um carro, na verdade, um tratorzinho de madeira. Cheio das vontades, come rabanete. Gente, alguém que come rabanete, raiz que arde na boca, já está grande e crescido, né?
Então que eu tenho pensado: segundaremos ou não?
Meu sonho de menina (e adolescente e burra velha) era ter uma mesa cheia de gente no Natal: filhos, filhas, noras, genros, netos, netas, cachorro, papagaio e marido. Também queria ter um filho em cada braço, outro na barriga e um mais velho em pezinho enquanto eu abria a porta para o Correio, sorrindo, e recebia um telegrama de amor do marido.
[pausa para vocês gargalharem]
Bom, daí eu engravidei do Arthur.
A gravidez foi exemplar, em termos médicos, mas me sentia muito cansada, com falta de ar e sem energia. Na verdade, eu me sentia EXAUSTA como nunca me senti. Nem antes, nem depois. E eu tive estrias. Então acabei dando uma desanimada da minha surtação inicial de querer cinco filhos.
Na sequência, Arthur foi um bebezico. E eu pirei no puerpério, com hormônios doidos dando festa na minha corrente sanguínea, com peito rachado, monília, fome, dieta APLV, sovaco cabeludo e sei lá quantos dias sem tomar banho.
Daí, ele aprendeu a se sentar, acabou licença-maternidade, voltei a trabalhar feito mula de carga manca, e ele aprendeu a engatinhar, e depois a andar, e agora corre, fala duas línguas e um dialeto, beija na boca no parquinho e dirige! E eu surtei, pirei, me descabelei em cada uma das fases com ele.
Meu pequenininho já não é mais tão pequenininho assim.
E, então, os hormônios doidos entraram numa discussão aparentemente infindável com minha conta bancária, meu lado racional, com meus sonhos de menina, meu relógio biológico,com meu relógio social, e eu tô surtadinha, perguntando a mim mesma: é justo passar por esta vida tendo essa alegria imensamente exaustiva e enlouquecedora que é ter filhos apenas uma única vez?
Sinceramente, ainda não tenho resposta para esses questionamentos, e nem ovulação para tentativas, mas sigo aqui, matutando, curtindo filhote, dando minhas surtadinhas diárias, tanto de amor e fofura (sério, Arthur ainda vai infartar as pessoas na rua de tanta fofura que espalha nesse mundo!), quanto de desespero e estresse!
E vocês? Segundaram? Não segundaram? Por que sim ou não? Ajudem a amiga aqui a pensar na vida!
E aí Arthur é praticamente homem feito, fala português, inglês e bebezês. Poliglota, o rapaz. Hoje, no parquinho, ganhou o primeiro beijo na boca da vida. Dirige um carro, na verdade, um tratorzinho de madeira. Cheio das vontades, come rabanete. Gente, alguém que come rabanete, raiz que arde na boca, já está grande e crescido, né?
Então que eu tenho pensado: segundaremos ou não?
Meu sonho de menina (e adolescente e burra velha) era ter uma mesa cheia de gente no Natal: filhos, filhas, noras, genros, netos, netas, cachorro, papagaio e marido. Também queria ter um filho em cada braço, outro na barriga e um mais velho em pezinho enquanto eu abria a porta para o Correio, sorrindo, e recebia um telegrama de amor do marido.
[pausa para vocês gargalharem]
Bom, daí eu engravidei do Arthur.
A gravidez foi exemplar, em termos médicos, mas me sentia muito cansada, com falta de ar e sem energia. Na verdade, eu me sentia EXAUSTA como nunca me senti. Nem antes, nem depois. E eu tive estrias. Então acabei dando uma desanimada da minha surtação inicial de querer cinco filhos.
Na sequência, Arthur foi um bebezico. E eu pirei no puerpério, com hormônios doidos dando festa na minha corrente sanguínea, com peito rachado, monília, fome, dieta APLV, sovaco cabeludo e sei lá quantos dias sem tomar banho.
Daí, ele aprendeu a se sentar, acabou licença-maternidade, voltei a trabalhar feito mula de carga manca, e ele aprendeu a engatinhar, e depois a andar, e agora corre, fala duas línguas e um dialeto, beija na boca no parquinho e dirige! E eu surtei, pirei, me descabelei em cada uma das fases com ele.
Meu pequenininho já não é mais tão pequenininho assim.
E, então, os hormônios doidos entraram numa discussão aparentemente infindável com minha conta bancária, meu lado racional, com meus sonhos de menina, meu relógio biológico,com meu relógio social, e eu tô surtadinha, perguntando a mim mesma: é justo passar por esta vida tendo essa alegria imensamente exaustiva e enlouquecedora que é ter filhos apenas uma única vez?
Sinceramente, ainda não tenho resposta para esses questionamentos, e nem ovulação para tentativas, mas sigo aqui, matutando, curtindo filhote, dando minhas surtadinhas diárias, tanto de amor e fofura (sério, Arthur ainda vai infartar as pessoas na rua de tanta fofura que espalha nesse mundo!), quanto de desespero e estresse!
E vocês? Segundaram? Não segundaram? Por que sim ou não? Ajudem a amiga aqui a pensar na vida!
segunda-feira, 17 de junho de 2013
Um ano!
Arthur nasceu no dia da marcha pela humanização do nascimento e faz seu primeiro aniversário no dia em que diversos protestos pelo direito de protestar (entre outras coisas) acontecem no Brasil.
Meu filho, meu amor, hoje é seu aniversário.
Mamãe vinha pensando num texto bacanudo, cheio de flashbacks, mas aí aconteceu o mundo, e eu achei melhor falar disso: de que você, agora, está aqui no mundo. E por isso, muitas vezes, vai precisar adaptar-se às novas conjunturas, vai ter de rever ideias, reorganizar pensamentos e, além disso, aliás, eu diria que sobretudo, vai ser obrigado a lutar.
Papai e eu temos uns versos muito importantes nas nossas vidas, filho, e eu espero que eles um dia também façam sentido (e lhe arrebatem o coração) como acontece com seus pais.
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer.
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
Não tenho mais nada a te desejar.
Meu filho, meu amor, hoje é seu aniversário.
Mamãe vinha pensando num texto bacanudo, cheio de flashbacks, mas aí aconteceu o mundo, e eu achei melhor falar disso: de que você, agora, está aqui no mundo. E por isso, muitas vezes, vai precisar adaptar-se às novas conjunturas, vai ter de rever ideias, reorganizar pensamentos e, além disso, aliás, eu diria que sobretudo, vai ser obrigado a lutar.
Papai e eu temos uns versos muito importantes nas nossas vidas, filho, e eu espero que eles um dia também façam sentido (e lhe arrebatem o coração) como acontece com seus pais.
[...] a vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos Só pode exaltar.
Cortei de propósito a parte do "Não chores, meu filho" porque, assim fora do contexto, como citação, seria só uma bobajada machista. Então, Arthur, se quiser chorar, chore! Mas lembre-se de que viver é lutar. E ser forte não significa ser sempre vitorioso ou estar sempre invencivelmente duro, firme e inatingível. Ser forte é entender que há sempre algo a ser conquistado ou defendido, e que tudo bem se arrepender, mudar de ideia, chorar, correr, ter medo, sangrar. Tudo bem tudo isso, desde que você esteja sempre sendo fiel a você, seus sonhos e convicções (mesmo que tais convicções depois mudem).
Meu filho, desejo que sua vida seja de muita luta, com vitórias muito mais numerosas que as derrotas, mas que você também sinta o travor amargo da frustração, para aprender e entender que o que temos e o que vivemos muda. Desejo que você aprenda, que cresça com muita hombridade e determinação. Que leia muitos poetas, contemple muitas obras de arte e entenda rapidamente que às vezes só a arte consegue exprimir com mais fidelidade o que sentimos. Desejo que você tenha uma vida longa, próspera, realizada e saudável. E desejo que nessa vida você reproduza, a cada ano, o que fez neste primeiro ano tão magistralmente: que respeite seu tempo para nascer e realizar cada etapa de desenvolvimento, que cative as pessoas, que queira descobrir, seja curioso, destemido, simpático (simpatia abre portas, meu filho), observador, determinado, persistente, dedicado, carinhoso, amoroso e que nunca abra mãos do que for importante para você.
Crescer é difícil, mamãe e papai sabem. Mas a gente sempre estará por perto, o mais perto que pudermos e que você permitir, para ajudar com muito amor e alguma experiência.
Que o espírito de luta, militância e busca por um mundo melhor estejam sempre presentes em sua vida, Arthur. Que seus próximos anos venham repletos e perfeitos, como foi este primeiro.
Não desista dos seus sonhos. Não se acovarde diante dos obstáculos. Não se engane. Não deixe de colocar o amor acima de tudo.
E por isso, meu amor, meu filho, meu pequeno, não posso deixar de dizer, através de Victor Hugo, o meu Desejo (e do seu pai):
Desejo primeiro que você ame,
E que amando, também seja amado.
E que se não for, seja breve em esquecer.
E que esquecendo, não guarde mágoa.
Desejo, pois, que não seja assim,
Mas se for, saiba ser sem desesperar.
Desejo também que tenha amigos,
Que mesmo maus e inconsequentes,
Sejam corajosos e fiéis,
E que pelo menos num deles
Você possa confiar sem duvidar.
E porque a vida é assim,
Desejo ainda que você tenha inimigos.
Nem muitos, nem poucos,
Mas na medida exata para que, algumas vezes,
Você se interpele a respeito
De suas próprias certezas.
E que entre eles, haja pelo menos um que seja justo,
Para que você não se sinta demasiado seguro.
Desejo depois que você seja útil,
Mas não insubstituível.
E que nos maus momentos,
Quando não restar mais nada,
Essa utilidade seja suficiente para manter você de pé.
Desejo ainda que você seja tolerante,
Não com os que erram pouco, porque isso é fácil,
Mas com os que erram muito e irremediavelmente,
E que fazendo bom uso dessa tolerância,
Você sirva de exemplo aos outros.
Desejo que você, sendo jovem,
Não amadureça depressa demais,
E que sendo maduro, não insista em rejuvenescer.
E que sendo velho, não se dedique ao desespero.
Porque cada idade tem o seu prazer e a sua dor e
é preciso deixar que eles escorram por entre nós.
Desejo por sinal que você seja triste,
Não o ano todo, mas apenas um dia.
Mas que nesse dia descubra
Que o riso diário é bom,
O riso habitual é insosso e o riso constante é insano.
Desejo que você descubra,
Com o máximo de urgência,
Acima e a respeito de tudo, que existem oprimidos,
Injustiçados e infelizes, e que estão à sua volta.
Desejo ainda que você afague um gato,
Alimente um cuco e ouça o joão-de-barro
Erguer triunfante o seu canto matinal
Porque, assim, você se sentirá bem por nada.
Desejo também que você plante uma semente,
Por mais minúscula que seja,
E acompanhe o seu crescimento,
Para que você saiba de quantas
Muitas vidas é feita uma árvore.
Desejo, outrossim, que você tenha dinheiro,
Porque é preciso ser prático.
E que pelo menos uma vez por ano
Coloque um pouco dele
Na sua frente e diga "Isso é meu",
Só para que fique bem claro quem é o dono de quem.
Desejo também que nenhum de seus afetos morra,
Por ele e por você,
Mas que se morrer, você possa chorar
Sem se lamentar e sofrer sem se culpar.
Desejo por fim que você sendo homem,
Tenha uma boa mulher,
E que sendo mulher,
Tenha um bom homem
E que se amem hoje, amanhã e nos dias seguintes,
E quando estiverem exaustos e sorridentes,
Ainda haja amor para recomeçar.
E se tudo isso acontecer,
Não tenho mais nada a te desejar.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
Asas
Numa noite, há algumas noites, ela surgiu no quarto. Arthur não poderia deixar de notá-la. Nunca. Uma borboleta branca, com as asas tão diáfanas que me fazem crer que, ao longo de tantos dias, ela tem se alimentado de sonhos. Dos nossos sonhos. Ali, naquelas asas transparentes.
Flapeando noite adentro, durante o dia ela me alenta, ao rememorar meu filho, com seu dedinho em riste, minihumano, apontando para ela.
Arthur não tem consciência, nem a borboleta, mas eles formam o que hoje há de mais poético no meu dia. E com ternura, nas madrugadas de trabalho incessante, cuido da borboleta, que passeia entre meus livros e papeis, e de Arthur, que mora todinho em mim.
Um dia a borboleta vai-se embora, eu sei, e um dia Arthur vai ter sua própria vida, longe (espero que não muito) de mim. E aí, tenho certeza, quem se alimentará de sonhos serei eu: de ter de volta as noites diáfanas de Arthur e borboleta, lado a lado, sob meus cuidados.
Flapeando noite adentro, durante o dia ela me alenta, ao rememorar meu filho, com seu dedinho em riste, minihumano, apontando para ela.
Arthur não tem consciência, nem a borboleta, mas eles formam o que hoje há de mais poético no meu dia. E com ternura, nas madrugadas de trabalho incessante, cuido da borboleta, que passeia entre meus livros e papeis, e de Arthur, que mora todinho em mim.
Um dia a borboleta vai-se embora, eu sei, e um dia Arthur vai ter sua própria vida, longe (espero que não muito) de mim. E aí, tenho certeza, quem se alimentará de sonhos serei eu: de ter de volta as noites diáfanas de Arthur e borboleta, lado a lado, sob meus cuidados.
quinta-feira, 30 de maio de 2013
O sono do vizinho é sempre mais tranquilinho
Eu estava feliz.
Arthur dorme bem. Tem uma rotininha bem estabelecida, indo para a cama entre 19 e 20h, todos os dias, e adormece relativamente fácil. Só dorme no peito. Comigo. Acorda 21h, 23h, 00h, 03h e 05h. Às vezes pula uma acordada dessas, às vezes tem o soninho inicial mais agitado, acordando de hora em hora até meia-noite. Mas eu achava tudo isso digno e bem tranquilo.
Sem contar que ele tira sonecas comigo na parte da manhã ou de tardinha, então eu durmo picadinho, mas durmo.
Daí, hoje, fui passear com pessoas queridas que também têm filho. O bebê é dois meses mais novo que Arthur. Lindo! Fofo! Doce!
Daí, lá pelas 11h os dois começaram a esfregar olhinhos, dar aquela reclamadinha e a pedir colinho. Sono. Eu lasquei Arthur no peito e me levantei para ver se o balancinho ajudava a embalá-lo (ele não precisa desse recurso, mas achei que ali seria válido, já que ele estava excitadíssimo com as novidades todas). Do outro lado, o pai do outro bebê colocou ele no colo, deu umas chacoalhadas e finalizou o moleque. Pá! Dormindo.
E Arthur nada. Queria ver o mundo e as folhas do jardim que balançavam ao vento (♥).
Então o pai do menino ficou cansado de segurá-lo no colo: sentou-se no tapetinho de atividades, estendeu uma manta e pousou o bebê. Que acordou. Abriu os olhos, se remexeu, virou-se e revirou-se e olhou bem onde estava. Daí o pai foi lá, colocou a chupeta na boca do filho, fez um carinho e saiu de perto. O bebê amigo do Arthur se ajeitou, fechou os olhinhos e... DORMIU.
Sozinho.
Vou repetir: dormiu SOZINHO.
Mais uma vez: dormiu sozinho. Fechou os olhos e PLUFT. Capotou.
E Arthur nada.
Sabe como eu me senti depois disso? Feliz.
Ué, e aquele verbo no passado ali no começo?
Estratégia narrativa, confesso.
;-)
Ainda estou feliz porque, depois de pensar um pouquinho sobre a situação, concluí que o sono do Arthur, embora tenha um padrão beeeeem diferente do do amigo, nunca foi uma questão para mim. Então, por que agora deveria passar a ser? Não faz sentido, faz? Então desencanei e fui para casa, ninar Arthur fora do frenesi das novidades e estímulos, e ele dormiu por três horas seguidas, depois, às 19h20 capotou para seu sono revigorante até amanhã de manhã. Já acordou, claro, duas vezes (e são apenas 20h50). Mas tô aqui, blogando, flanando no Facebook, procrastinando o frila que preciso entregar na segunda. Ou seja, tudo lindo!
Daí, como eu estou aqui flanando, com tempo, vida ganha, nada para fazer (cof! cof! cof!), pensei mais um pouco sobre essa questão toda de comparações entre bebês e pessoas.
Senta que lá vem a verborragia!
Nunca gostei de comparar Arthur com ninguém. Acho que sobretudo porque sempre me comparei muito às demais pessoas do mundo, e como sempre fui bastante diferente (quem não é, na verdade?), me sentia muitas vezes "perdedora". Perdedora de uma competição que eu mesma tinha inventado e cujas regras eram criadas por quem? Por quem? Por mim mesma! Pô, que coisa mais dura é criar um jogo em que você só pode perder. E só pode perder porque suas regras sempre são pautadas em duas coisas muito importantes (e também bastante imparciais): 1) aquilo que lhe incomoda; 2) o conhecimento profundo de como você realmente pensa/age/sente. Cara, na boa, olha que bodega! Você se sente incomodada porque tem um defeito. Tipo celulite. Quem aí tem celulite e se incomoda com elas? Ok. Aí você começa a se comparar com outras mulheres, na rua, na fazenda, na Caras, e claro que acaba quase sempre perdendo. Por quê? Porque as outras mulheres ou não se importam (ou fingem não se importar, o que dá no mesmo nesse caso) com os furinhos, ou elas "não têm" (na verdade, elas não mostram porque escolhem bem as roupas, ou não vão à praia de biquíni micro, ou as fotos estão cheias de Photoshop). E aí, você, que conhece seu corpo do avesso, que se incomoda horrores com a porcaria da celulite, perdeu no próprio jogo.
Cruel, né?
Mas quem nunca?
Eu, o tempo todo.
Daí que quando Arthur surgiu na minha vida eu decidi que não seria mais assim, porque eu queria curtir: a vida, minha gravidez, minha família, o nascimento dele, o parto, o puerpério, meu filho, minhas descobertas, nossas alegrias e tristezas, que, afinal, são nossas.
Claro que escorrego de vez em quando. Tipo hoje, com relação ao padrão de sono, ou mesmo em relação ao tamanho/peso dos amigos (Arthur é dois meses mais velho, mas é mais de 1kg mais leve que o amigo, e alguns centímetros menor).
Eu, porém, tento ficar alerta, porque não quero ser injusta com meu filho lindo, tão esperto, tão esperado, tão amado e tão ÚNICO.
E aí, voltando para casa, com marido, filho e pensamentos ao meu redor, percebi que Arthur tem 11 meses e já anda. Mas esse mesmo Arthur tem os mesmos 11 meses e não come direito. E que assim como ele vai ter habilidades e aptidões desenvolvidas e rapidamente conquistadas, também vai ter dificuldades e conquistas mais demoradas. E sabem? Eu vou amar meu filho igualzinho. E vou lutar para fazê-lo feliz do mesmo jeito. Então, mais importante, para mim, do que comparar, é observar: meu filho tem tantas características carismáticas e deliciosas, que fico encantada por ter parido um serzinho delícia como ele é. E tenho certeza de que todas as mães vão concordar comigo, porque se pararmos de parear "feitos" e tamanhos, iremos descobrir pessoinhas tão lindas, pessoinhas em franco desenvolvimento e, mais ainda, pessoinhas em nos permitem entrar também em franco desenvolvimento.
Com isso, desejo um ótimo feriadão para todo mundo. Vão à praia, com ou sem celulite! Curtam seus filhos, acordando a madrugada toda ou com bebês auto-ninantes. Amem! Vivam! Porque só vale a pena de verdade quando nos entregamos profundamente.
♥
(Ih, acordou de novo!)
Arthur dorme bem. Tem uma rotininha bem estabelecida, indo para a cama entre 19 e 20h, todos os dias, e adormece relativamente fácil. Só dorme no peito. Comigo. Acorda 21h, 23h, 00h, 03h e 05h. Às vezes pula uma acordada dessas, às vezes tem o soninho inicial mais agitado, acordando de hora em hora até meia-noite. Mas eu achava tudo isso digno e bem tranquilo.
Sem contar que ele tira sonecas comigo na parte da manhã ou de tardinha, então eu durmo picadinho, mas durmo.
Daí, hoje, fui passear com pessoas queridas que também têm filho. O bebê é dois meses mais novo que Arthur. Lindo! Fofo! Doce!
Daí, lá pelas 11h os dois começaram a esfregar olhinhos, dar aquela reclamadinha e a pedir colinho. Sono. Eu lasquei Arthur no peito e me levantei para ver se o balancinho ajudava a embalá-lo (ele não precisa desse recurso, mas achei que ali seria válido, já que ele estava excitadíssimo com as novidades todas). Do outro lado, o pai do outro bebê colocou ele no colo, deu umas chacoalhadas e finalizou o moleque. Pá! Dormindo.
E Arthur nada. Queria ver o mundo e as folhas do jardim que balançavam ao vento (♥).
Então o pai do menino ficou cansado de segurá-lo no colo: sentou-se no tapetinho de atividades, estendeu uma manta e pousou o bebê. Que acordou. Abriu os olhos, se remexeu, virou-se e revirou-se e olhou bem onde estava. Daí o pai foi lá, colocou a chupeta na boca do filho, fez um carinho e saiu de perto. O bebê amigo do Arthur se ajeitou, fechou os olhinhos e... DORMIU.
Sozinho.
Vou repetir: dormiu SOZINHO.
Mais uma vez: dormiu sozinho. Fechou os olhos e PLUFT. Capotou.
E Arthur nada.
Sabe como eu me senti depois disso? Feliz.
Ué, e aquele verbo no passado ali no começo?
Estratégia narrativa, confesso.
;-)
Ainda estou feliz porque, depois de pensar um pouquinho sobre a situação, concluí que o sono do Arthur, embora tenha um padrão beeeeem diferente do do amigo, nunca foi uma questão para mim. Então, por que agora deveria passar a ser? Não faz sentido, faz? Então desencanei e fui para casa, ninar Arthur fora do frenesi das novidades e estímulos, e ele dormiu por três horas seguidas, depois, às 19h20 capotou para seu sono revigorante até amanhã de manhã. Já acordou, claro, duas vezes (e são apenas 20h50). Mas tô aqui, blogando, flanando no Facebook, procrastinando o frila que preciso entregar na segunda. Ou seja, tudo lindo!
Daí, como eu estou aqui flanando, com tempo, vida ganha, nada para fazer (cof! cof! cof!), pensei mais um pouco sobre essa questão toda de comparações entre bebês e pessoas.
Senta que lá vem a verborragia!
Nunca gostei de comparar Arthur com ninguém. Acho que sobretudo porque sempre me comparei muito às demais pessoas do mundo, e como sempre fui bastante diferente (quem não é, na verdade?), me sentia muitas vezes "perdedora". Perdedora de uma competição que eu mesma tinha inventado e cujas regras eram criadas por quem? Por quem? Por mim mesma! Pô, que coisa mais dura é criar um jogo em que você só pode perder. E só pode perder porque suas regras sempre são pautadas em duas coisas muito importantes (e também bastante imparciais): 1) aquilo que lhe incomoda; 2) o conhecimento profundo de como você realmente pensa/age/sente. Cara, na boa, olha que bodega! Você se sente incomodada porque tem um defeito. Tipo celulite. Quem aí tem celulite e se incomoda com elas? Ok. Aí você começa a se comparar com outras mulheres, na rua, na fazenda, na Caras, e claro que acaba quase sempre perdendo. Por quê? Porque as outras mulheres ou não se importam (ou fingem não se importar, o que dá no mesmo nesse caso) com os furinhos, ou elas "não têm" (na verdade, elas não mostram porque escolhem bem as roupas, ou não vão à praia de biquíni micro, ou as fotos estão cheias de Photoshop). E aí, você, que conhece seu corpo do avesso, que se incomoda horrores com a porcaria da celulite, perdeu no próprio jogo.
Cruel, né?
Mas quem nunca?
Eu, o tempo todo.
Daí que quando Arthur surgiu na minha vida eu decidi que não seria mais assim, porque eu queria curtir: a vida, minha gravidez, minha família, o nascimento dele, o parto, o puerpério, meu filho, minhas descobertas, nossas alegrias e tristezas, que, afinal, são nossas.
Claro que escorrego de vez em quando. Tipo hoje, com relação ao padrão de sono, ou mesmo em relação ao tamanho/peso dos amigos (Arthur é dois meses mais velho, mas é mais de 1kg mais leve que o amigo, e alguns centímetros menor).
Eu, porém, tento ficar alerta, porque não quero ser injusta com meu filho lindo, tão esperto, tão esperado, tão amado e tão ÚNICO.
E aí, voltando para casa, com marido, filho e pensamentos ao meu redor, percebi que Arthur tem 11 meses e já anda. Mas esse mesmo Arthur tem os mesmos 11 meses e não come direito. E que assim como ele vai ter habilidades e aptidões desenvolvidas e rapidamente conquistadas, também vai ter dificuldades e conquistas mais demoradas. E sabem? Eu vou amar meu filho igualzinho. E vou lutar para fazê-lo feliz do mesmo jeito. Então, mais importante, para mim, do que comparar, é observar: meu filho tem tantas características carismáticas e deliciosas, que fico encantada por ter parido um serzinho delícia como ele é. E tenho certeza de que todas as mães vão concordar comigo, porque se pararmos de parear "feitos" e tamanhos, iremos descobrir pessoinhas tão lindas, pessoinhas em franco desenvolvimento e, mais ainda, pessoinhas em nos permitem entrar também em franco desenvolvimento.
Com isso, desejo um ótimo feriadão para todo mundo. Vão à praia, com ou sem celulite! Curtam seus filhos, acordando a madrugada toda ou com bebês auto-ninantes. Amem! Vivam! Porque só vale a pena de verdade quando nos entregamos profundamente.
♥
(Ih, acordou de novo!)
sexta-feira, 17 de maio de 2013
Onze meses
As mãos gorduchas não prendem mais no reflexo: acertam, manipulam, refinam a coordenação e arrastam meu olhar para os detalhes que passam correndo nesta vida: a poeira, o grão, o mínimo. Como tão pequena semente engolfa minha vida desse jeito? Como tão minúscula musculatura provoca espasmos tão intensos, instiga, belisca, bate e aperta bem forte meu peito, meu corpo, minhas emoções?
Onze meses, meu filho. Onze meses parece a crise dos trinta anos: uma nostalgia de uma vida distante, uma saudade daquelas vivências loucas e intensas do tempo de recém-nascido e certo medo do que vem pela frente, não pelo que viverei, mas medo de deixar de viver porque tendemos a esquecer os detalhes.
Filho, mamãe é terrível com datas e marcos, não se lembra de anotar quase nada. Por um lado porque estou vivendo os momentos e não catalogando-os em coleções de números e letras; por outro lado porque as transformações são sutis: levanta-se num dia, no outro fica mais meio segundo de pé, até que dá um passo, depois outro: quando começou a andar? Com dez meses é certo, mas sem dia definido e definitivo (talvez porque dentro do andar está o devir). Quando começou a sorrir? Quando engatinhou? Sentou-se? Comeu? É bom, sob certo aspecto, que se um dia vier um irmãozinho teu, não haverá comparações desonestas (desonestas porque impossíveis! Como comparar pessoas diferentes e com habilidades e interesses diferentes?). Mas fica o medo de tudo ser estrangulado pela linha do tempo que torna tudo grande (gente grande, tarefas grandes, fases) e deixa fugir o detalhe.
E você, com as mãozinhas gorduchas, futucando o chão em busca de migalhas do cotidiano, me dá uma dor e uma lição: que eu saiba selecionar, conter e dedicar-me minuciosamente ao pequeno, que das pequenas migalhas cotidianas é que é feita a vida.
Meu filho, onze meses, quase um ano: meu melhor.
Onze meses, meu filho. Onze meses parece a crise dos trinta anos: uma nostalgia de uma vida distante, uma saudade daquelas vivências loucas e intensas do tempo de recém-nascido e certo medo do que vem pela frente, não pelo que viverei, mas medo de deixar de viver porque tendemos a esquecer os detalhes.
Filho, mamãe é terrível com datas e marcos, não se lembra de anotar quase nada. Por um lado porque estou vivendo os momentos e não catalogando-os em coleções de números e letras; por outro lado porque as transformações são sutis: levanta-se num dia, no outro fica mais meio segundo de pé, até que dá um passo, depois outro: quando começou a andar? Com dez meses é certo, mas sem dia definido e definitivo (talvez porque dentro do andar está o devir). Quando começou a sorrir? Quando engatinhou? Sentou-se? Comeu? É bom, sob certo aspecto, que se um dia vier um irmãozinho teu, não haverá comparações desonestas (desonestas porque impossíveis! Como comparar pessoas diferentes e com habilidades e interesses diferentes?). Mas fica o medo de tudo ser estrangulado pela linha do tempo que torna tudo grande (gente grande, tarefas grandes, fases) e deixa fugir o detalhe.
E você, com as mãozinhas gorduchas, futucando o chão em busca de migalhas do cotidiano, me dá uma dor e uma lição: que eu saiba selecionar, conter e dedicar-me minuciosamente ao pequeno, que das pequenas migalhas cotidianas é que é feita a vida.
Meu filho, onze meses, quase um ano: meu melhor.
sexta-feira, 10 de maio de 2013
Feliz dia das mães
Certeza. Se eu pudesse pedir uma única coisa de presente para o dia das mães (e quiçá para aniversários, natais e outras efemérides consumistas), eu pediria para ter certeza!
Certeza de que a roupinha que coloquei na mochila da creche vai ser boa para aquele dia e ele não vai sentir frio ou calor, certeza de que ele mamou o suficiente, de que eu entendi o que ele quer e o atendi direitinho (e ele, portanto, não sente qualquer desconforto físico ou emocional), certeza de que ele está crescendo e se desenvolvendo. Queria certeza de que estou atendendo às demandas que meu filho tem, certeza de que vou ter dinheiro para sustentar um padrão de vida confortável para todos da família, certeza de que estou criando uma pessoa segura e confiante porque muito amada e compreendida. Se eu pudesse escolher qualquer coisa no mundo todo, queria ter certeza de que minhas escolhas estão no caminho certo, de que meu filho vai ter saúde para todos os planos e sonhos que tenho para ele, certeza de que eu vou ter saúde para acompanhá-lo em seus momentos mais importantes, certeza de que ele vai viver, e viver uma vida boa, feliz e longeva.
Mas eu ganhei uma bolsa.
E diante desse fato tão prosaico, e já que uma bolsa não me dá muitas certezas (talvez apenas a de que posso carregar com mais facilidades minhas tranqueiras), precisei pensar minhas certezas, e vi que, se eu pensar direito, bem direitinho mesmo, não queria ganhar nada de dia das mães porque eu não preciso de nada: não preciso de menos tempo com meu filho, não preciso de descanso já que escolhi parir e criar Arthur, não preciso de um tempo para mim porque mu filho me falta quando longe, não preciso de nada material, não preciso de café na cama, de mimos, de emblemas da maternidade, não preciso de nada, afinal. Nem da tal certeza, porque Arthur, com seu corpinho morno, seus olhos ternos, seu sorriso contagiante, sua vida pulsante me dá a única certeza que basta e me faz ir adiante: a certeza de que sou toda amor para ele.
Este post foi inspirado nos dois vídeos bem batutas sobre presentes no dia das mães (os melhores e os piores) Minha Mãe que Disse e também na enquete de uma amiga, que queria saber o que eu pediria de dia das mães se não houvesse qualquer tipo de restrição (financeira, logística, realística - tipo dormir 12h seguidas, coisa que, suspeito, meu corpo nem sabe mais como fazer).
Certeza de que a roupinha que coloquei na mochila da creche vai ser boa para aquele dia e ele não vai sentir frio ou calor, certeza de que ele mamou o suficiente, de que eu entendi o que ele quer e o atendi direitinho (e ele, portanto, não sente qualquer desconforto físico ou emocional), certeza de que ele está crescendo e se desenvolvendo. Queria certeza de que estou atendendo às demandas que meu filho tem, certeza de que vou ter dinheiro para sustentar um padrão de vida confortável para todos da família, certeza de que estou criando uma pessoa segura e confiante porque muito amada e compreendida. Se eu pudesse escolher qualquer coisa no mundo todo, queria ter certeza de que minhas escolhas estão no caminho certo, de que meu filho vai ter saúde para todos os planos e sonhos que tenho para ele, certeza de que eu vou ter saúde para acompanhá-lo em seus momentos mais importantes, certeza de que ele vai viver, e viver uma vida boa, feliz e longeva.
Mas eu ganhei uma bolsa.
E diante desse fato tão prosaico, e já que uma bolsa não me dá muitas certezas (talvez apenas a de que posso carregar com mais facilidades minhas tranqueiras), precisei pensar minhas certezas, e vi que, se eu pensar direito, bem direitinho mesmo, não queria ganhar nada de dia das mães porque eu não preciso de nada: não preciso de menos tempo com meu filho, não preciso de descanso já que escolhi parir e criar Arthur, não preciso de um tempo para mim porque mu filho me falta quando longe, não preciso de nada material, não preciso de café na cama, de mimos, de emblemas da maternidade, não preciso de nada, afinal. Nem da tal certeza, porque Arthur, com seu corpinho morno, seus olhos ternos, seu sorriso contagiante, sua vida pulsante me dá a única certeza que basta e me faz ir adiante: a certeza de que sou toda amor para ele.
Feliz dia das mães!
Este post foi inspirado nos dois vídeos bem batutas sobre presentes no dia das mães (os melhores e os piores) Minha Mãe que Disse e também na enquete de uma amiga, que queria saber o que eu pediria de dia das mães se não houvesse qualquer tipo de restrição (financeira, logística, realística - tipo dormir 12h seguidas, coisa que, suspeito, meu corpo nem sabe mais como fazer).
sexta-feira, 3 de maio de 2013
Eu sou demais!
Rio, 2013.
Zona sul-maravilha.
[entra música incidental - plano geral da praia de Ipanema ao pôr do sol]
[plano geral se transforma em plano americano, enfocando uma mãe. No caso, eu, a mãe do Arthur.]
Digo para as câmeras: eu sou demais! E dou uma piscadela marota, oferecendo ao espectador um olhar sedutor e divertido.
Corta.
Rebobina, porque ninguém está entendendo lhufas dessa viagem.
Play.
Um dia acordei e atinei para um fato perplexizante: eu sou demais.
Acho que isso foi no dia em que marido voltou da creche meio furibundo (e com razão) porque a psicóloga do estabelecimento o chamou de lado "oi, você tem um minutinho?" (sempre sorrindo, ensaboada) e descascou o sling: Arthur não engatinha porque fica tempo demais no sling, no colo de vocês, vocês precisam deixar seu filho no chão, precisam andar de carrinho, precisam parar de usar sling porque está atrasando o desenvolvimento psicomotor do seu filho. Rá! Eu ri. Ri e comprei, na mesmíssima semana, um novo sling. E agora revezo: sling assim, sling assado. E ainda virá mais um carregador de pano por aí!
Agora, no entanto, pensando bem, pode ser que eu tenha chegado à conclusão de que eu sou demais quando, ao voltar a trabalhar, descobri que ordenhar na salinha gelada de depósito, três ou quatro vezes por dia, meia hora a cada vez, é um desafio a qualquer esquema de gerenciamento do tempo e de tarefas. E que é preciso muito jogo de cintura e muito respirar fundo para dar conta de um serviço em caráter urgente no fim do expediente enquanto seu marido, ao telefone, avisa que o filhote chora e se recusa a dormir. É saudade. Dos dois lados. E o trabalho que era "rapidinho, em cinco minutos você está liberada" entra uma hora extra inteirinha na noite que tenho com o filhote. E eu chego em casa e ele abre o maior e mais lindo sorriso do universo, pede peito e capota. POF! Mas ao menos é nos meus braços que ele embala o sono. E então eu penso: sou demais!
Acho, porém, que se eu pensar direitinho, talvez descubra que a certeza de que eu sou demais tenha vindo já no parto, ou até mesmo no pré-parto, na gravidez ou até na pré-gravidez, porque quanto mais eu penso sobre maternar e quanto mais eu vivo o maternar, mais vou vendo que está muito além da sociedade em que vivemos conseguir de fato conciliar maternidade e vida profissional, maternidade e vida social, maternidade e vida consumidora consciente, maternidade e vida política. Parece que sobra, sabem? E a culpa, é claro, é sempre da mãe.
Confuso? Deixa eu explicar melhor, então.
A sociedade ocidental contemporânea não sabe o que fazer com as mães. Ou melhor, tem dificuldades imensas com o nascimento e com a maternagem, e com isso, nós, mães e bebês, ficamos perdidos, rastejando de um clichê a um padrão, de um padrão até uma fórmula pronta, e então de volta aos clichês.
Somos todas demais, porque excedemos o papel que nos cabe. E se a mulher resolve largar o emprego para cuidar da cria, está deixando de lado sua carreira. Por outro lado, se insiste em se manter profissionalmente ativa, enfrenta não apenas o drama do "deixar o filho com outras pessoas", mas também muito preconceito, machismo e certa "domesticação", de modo que é preciso impedir nossos corpos de serem corpos maternos: nada de leite, ordenhas, nada de gordurinhas, nada de fome fora de hora, de ritmo biológico alterado, nada de sentir sono durante o dia mesmo que se acorde várias vezes ao longo da madrugada, nem pensar em se enxergar sexualizada (quem quer uma funcionária grávida poucos meses depois de voltar de licença-maternidade?).
Mas para quem pensa que fora do plano profissional a coisa vai melhor, evoco a claquete das risadas [AHAHAHAHA] e afirmo: vai mal demais!
Mães são consumidoras, que vão educar seus filhos a consumirem também. Conquistar um é conquistar os dois (ou mais), e conquistar por longo tempo ("vou comprar produto X porque minha mãe usava comigo quando eu era pequena"). Mas mães são consumidoras apenas daquilo que vem enlatado, porque o consumo fora da linha será reprimido: não pode sling; dá logo chupeta; ficar na creche desenvolve mais a criança; compre o brinquedo XYZ, que vai tornar seu filho um gênio.
Mães não são politizadas. Não podem ser: devem seguir um senso-comum tradicional, e nunca devem questionar. Médicos estão para a vida e o bem-estar assim como as embalagens de alimentos estão para o valor nutricional: enriquecido com cálcio camufla o sódio excessivo; cesária urgentemente necessária esconde a agenda que não se pode desorganizar.
Mães não podem lutar, não podem namorar, não podem, não podem, não podem. Mas aí vem uma avalanche de comentários e reportagens e de repente as mães devem lutar, devem namorar, devem, devem, devem.
E aí chegamos ao grande ponto da coisa: as mães DEVEM. Não importa o que façamos, quais sejam nossas ações, o que dizemos: estamos sempre devendo alguma coisa porque nossa sociedade não tem espaço para a maternidade. Nossa sociedade não sabe o que fazer e onde alocar seres que cuidam, nutrem, produzem e reproduzem. O mundo, na maioria das vezes, não sabe o que fazer conosco, mães, totalmente demais!
Zona sul-maravilha.
[entra música incidental - plano geral da praia de Ipanema ao pôr do sol]
[plano geral se transforma em plano americano, enfocando uma mãe. No caso, eu, a mãe do Arthur.]
Digo para as câmeras: eu sou demais! E dou uma piscadela marota, oferecendo ao espectador um olhar sedutor e divertido.
Corta.
Rebobina, porque ninguém está entendendo lhufas dessa viagem.
Play.
Um dia acordei e atinei para um fato perplexizante: eu sou demais.
Acho que isso foi no dia em que marido voltou da creche meio furibundo (e com razão) porque a psicóloga do estabelecimento o chamou de lado "oi, você tem um minutinho?" (sempre sorrindo, ensaboada) e descascou o sling: Arthur não engatinha porque fica tempo demais no sling, no colo de vocês, vocês precisam deixar seu filho no chão, precisam andar de carrinho, precisam parar de usar sling porque está atrasando o desenvolvimento psicomotor do seu filho. Rá! Eu ri. Ri e comprei, na mesmíssima semana, um novo sling. E agora revezo: sling assim, sling assado. E ainda virá mais um carregador de pano por aí!
Agora, no entanto, pensando bem, pode ser que eu tenha chegado à conclusão de que eu sou demais quando, ao voltar a trabalhar, descobri que ordenhar na salinha gelada de depósito, três ou quatro vezes por dia, meia hora a cada vez, é um desafio a qualquer esquema de gerenciamento do tempo e de tarefas. E que é preciso muito jogo de cintura e muito respirar fundo para dar conta de um serviço em caráter urgente no fim do expediente enquanto seu marido, ao telefone, avisa que o filhote chora e se recusa a dormir. É saudade. Dos dois lados. E o trabalho que era "rapidinho, em cinco minutos você está liberada" entra uma hora extra inteirinha na noite que tenho com o filhote. E eu chego em casa e ele abre o maior e mais lindo sorriso do universo, pede peito e capota. POF! Mas ao menos é nos meus braços que ele embala o sono. E então eu penso: sou demais!
Acho, porém, que se eu pensar direitinho, talvez descubra que a certeza de que eu sou demais tenha vindo já no parto, ou até mesmo no pré-parto, na gravidez ou até na pré-gravidez, porque quanto mais eu penso sobre maternar e quanto mais eu vivo o maternar, mais vou vendo que está muito além da sociedade em que vivemos conseguir de fato conciliar maternidade e vida profissional, maternidade e vida social, maternidade e vida consumidora consciente, maternidade e vida política. Parece que sobra, sabem? E a culpa, é claro, é sempre da mãe.
Confuso? Deixa eu explicar melhor, então.
A sociedade ocidental contemporânea não sabe o que fazer com as mães. Ou melhor, tem dificuldades imensas com o nascimento e com a maternagem, e com isso, nós, mães e bebês, ficamos perdidos, rastejando de um clichê a um padrão, de um padrão até uma fórmula pronta, e então de volta aos clichês.
Somos todas demais, porque excedemos o papel que nos cabe. E se a mulher resolve largar o emprego para cuidar da cria, está deixando de lado sua carreira. Por outro lado, se insiste em se manter profissionalmente ativa, enfrenta não apenas o drama do "deixar o filho com outras pessoas", mas também muito preconceito, machismo e certa "domesticação", de modo que é preciso impedir nossos corpos de serem corpos maternos: nada de leite, ordenhas, nada de gordurinhas, nada de fome fora de hora, de ritmo biológico alterado, nada de sentir sono durante o dia mesmo que se acorde várias vezes ao longo da madrugada, nem pensar em se enxergar sexualizada (quem quer uma funcionária grávida poucos meses depois de voltar de licença-maternidade?).
Mas para quem pensa que fora do plano profissional a coisa vai melhor, evoco a claquete das risadas [AHAHAHAHA] e afirmo: vai mal demais!
Mães são consumidoras, que vão educar seus filhos a consumirem também. Conquistar um é conquistar os dois (ou mais), e conquistar por longo tempo ("vou comprar produto X porque minha mãe usava comigo quando eu era pequena"). Mas mães são consumidoras apenas daquilo que vem enlatado, porque o consumo fora da linha será reprimido: não pode sling; dá logo chupeta; ficar na creche desenvolve mais a criança; compre o brinquedo XYZ, que vai tornar seu filho um gênio.
Mães não são politizadas. Não podem ser: devem seguir um senso-comum tradicional, e nunca devem questionar. Médicos estão para a vida e o bem-estar assim como as embalagens de alimentos estão para o valor nutricional: enriquecido com cálcio camufla o sódio excessivo; cesária urgentemente necessária esconde a agenda que não se pode desorganizar.
Mães não podem lutar, não podem namorar, não podem, não podem, não podem. Mas aí vem uma avalanche de comentários e reportagens e de repente as mães devem lutar, devem namorar, devem, devem, devem.
E aí chegamos ao grande ponto da coisa: as mães DEVEM. Não importa o que façamos, quais sejam nossas ações, o que dizemos: estamos sempre devendo alguma coisa porque nossa sociedade não tem espaço para a maternidade. Nossa sociedade não sabe o que fazer e onde alocar seres que cuidam, nutrem, produzem e reproduzem. O mundo, na maioria das vezes, não sabe o que fazer conosco, mães, totalmente demais!
domingo, 28 de abril de 2013
Como seu filho brinca? - elucubrações de uma criança solitária
Eu era bem pequena, lá pelos 3 ou 4 anos, e ganhei uma bolsinha de presente. Ela era feita de plástico rígido, numa cor vibrante, que eu não lembro se era azul-turquesa, vermelho-sangue ou amarelo-canário. Dentro dela iam os itens que, segundo minha experiência, seriam fundamentais e indispensáveis: cédulas de um dinheiro já vencido pela inflação da louca década de 1980 (cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real, por aí afora), caneta, papel, documento de identificação (feito por mim mesma, com "foto 3X4" desenhada dentro de um retângulo no canto) e um mini frasquinho de soro fisiológico (para o caso de, deus me livre!, cair um perigoso cisco no meu olho). Na minha representação de mundo, do alto da minha primeira infância, era importante: minha identidade e meu papel social, dinheiro e, claro, remédios.
Eu fui uma criança solitária. Muito solitária. Sem irmãos ou primos, morando num prédio sem play ou crianças, uma baixinha tímida e magrela, alvo de bullying na escola, pais separados, mãe trabalhando fora o dia inteiro, realmente não tinha muito com quem brincar. E eu me lembro das longas horas gastas em brincadeiras ou em frente à televisão (sem a qual eu não almoçava!). E me lembro de ter um quartinho só de brinquedos (pequeno, como um armário grande, devia medir 1X2m), abarrotado de bonecas, panelinhas, pôneis de plástico, moranguinhos, acessórios de Barbie, jogos individuais (resta 1, jogos de encaixar, carimbos etc.).
Não sei se esses são valores bacanas para que uma criança de 3 ou 4 anos tenha. O que eu sei é que minha bolsinha representava meu mundo, e os objetos que iam lá dentro mostravam o que eu considerava importante.
Um dia, esqueci a bolsa em um restaurante (eu ia muito a restaurantes quando pequena).
***
Eu fui uma criança solitária. Muito solitária. Sem irmãos ou primos, morando num prédio sem play ou crianças, uma baixinha tímida e magrela, alvo de bullying na escola, pais separados, mãe trabalhando fora o dia inteiro, realmente não tinha muito com quem brincar. E eu me lembro das longas horas gastas em brincadeiras ou em frente à televisão (sem a qual eu não almoçava!). E me lembro de ter um quartinho só de brinquedos (pequeno, como um armário grande, devia medir 1X2m), abarrotado de bonecas, panelinhas, pôneis de plástico, moranguinhos, acessórios de Barbie, jogos individuais (resta 1, jogos de encaixar, carimbos etc.).
Num Natal meu padrinho me deu uma bicicleta, e eu pedi para a minha mãe um jogo caro (o nome era "O tesouro do Faraó"), que me custou muito dever de casa feito e muita arrumação de quarto.
A bicicleta era uma Caloi Ceci linda, eu customizei o selim e fiz mil planos de uso. Andei de bicicleta um dia, na Lagoa, e depois voltei com ela para casa, onde eu ia da sala ao quarto, num corredor de pouco mais de 3 metros de comprimento, só quando os adultos não estavam por perto para brigar comigo (porque "não pode andar de bicicleta dentro de casa!"). Em cima do banco da Caloi morava a casa da Moranguinho. O guidom guardava uma corda de pular e eu sempre montava na bicicleta, girando os pedais para trás, fingindo dar muitos passeios divertidos com ela. Já quanto ao jogo, bom, ele era para de dois a quatro participantes, e só havia uma pessoa disponível para jogar: eu. Assim, acho que só consegui brincar uma vez, com a minha mãe, e me lembro até hoje que eu chorei muito na hora de doar o jogo porque eu "não brincava mais com ele". Chorei de pena de mim mesma. E me senti muito sozinha.
***
Arthur tem acesso a muitos brinquedos: os que eu comprei para ele, os que ele ganhou, os que ele herdou, os que ele usa na creche. Toda criança deveria ter acesso ao espaço lúdico da brincadeira. Mas esse espaço, penso eu, não pode e nem deve ser limitado e (muito menos!) determinado pelos publicitários.
Confesso que aqui em casa temos muitas tranqueiras barulhentas de plástico: Fischer Price, Tiny Love e companhia. Brinquedos que, com tristeza, depois de alguns meses, notei que eram os equivalentes ao meu quartinho da infância: peças soltas, sem vida, com funções bem definidas e que tolhiam minha criatividade porque eram Moranguinhos (com roupa, voz e até cheiro pré-determinados), pôneis com nomes certos, bicicletas sem espaço para se pedalar e jogos múltiplos que frustam o jogador solitário. Além disso, os valores que eu estava incutindo no meu filhote não me parecem muito saudáveis: mamãe não está, mas veja que lindo relógio cantante que você tem!; você TEM muitos brinquedos; vamos substituir afeto e amor por algo material e que seja um simulacro do contato humano (vozes cantantes gravadas, figuras antropofórmicas). Eu estava reproduzindo o padrão sem perceber.
Na verdade, acho, não estava reproduzindo o padrão ainda. Mas assustei quando pensei nisso. E mais ainda quando pensei que, muito em breve, ficaria sozinha com Arthur, para ser responsável por uma infância feliz e divertida para ele. É extremamente assustador pensar na responsabilidade que tenho pela frente: aprender brincar com Arthur de modo a fazer do espaço lúdico uma possibilidade de experimentação e uma forma de representação de seu mundinho (e com isso, espero ter a chance de compreendê-lo mais e mais, de estar mais perto, mais integrada).
Na verdade, acho, não estava reproduzindo o padrão ainda. Mas assustei quando pensei nisso. E mais ainda quando pensei que, muito em breve, ficaria sozinha com Arthur, para ser responsável por uma infância feliz e divertida para ele. É extremamente assustador pensar na responsabilidade que tenho pela frente: aprender brincar com Arthur de modo a fazer do espaço lúdico uma possibilidade de experimentação e uma forma de representação de seu mundinho (e com isso, espero ter a chance de compreendê-lo mais e mais, de estar mais perto, mais integrada).
Enfim, mais uma vez penso que a maternagem consciente (além de trabalhosa porque nunca deixamos de pensar e repensar sobre as escolhas e decisões) é um caminho tortuoso, em que devemos ser responsáveis por aquilo que optamos, mas tendo o conforto de saber que sempre dá tempo de reformular as ideias e seguir novos rumos. Assim, em Chicago, nova vida, novas brincadeiras para o meu pequeno!
Com amor, sempre.
Com amor, sempre.
quinta-feira, 11 de abril de 2013
Uma vida, uma nova vida
Marido, hoje fazemos aniversário de relacionamento. Nove anos. Uma vida juntos, rumo à primeira década.
E hoje, quando completamos mais um ano de pura alegria enlouquecida e tanta parceria amorosa, você está prestes a me dar uma nova vida. De novo. Um pouco diferente, dessa vez, mas quase tão transformadora e libertadora quanto a nova vida que parimos em junho de 2012.
Espero que ainda consigamos ter muitas novas vidas dentro da nossa vida. Espero que sigamos neste caminho. Juntos. Sempre.
Com amor, sua.
E hoje, quando completamos mais um ano de pura alegria enlouquecida e tanta parceria amorosa, você está prestes a me dar uma nova vida. De novo. Um pouco diferente, dessa vez, mas quase tão transformadora e libertadora quanto a nova vida que parimos em junho de 2012.
Espero que ainda consigamos ter muitas novas vidas dentro da nossa vida. Espero que sigamos neste caminho. Juntos. Sempre.
Com amor, sua.
segunda-feira, 1 de abril de 2013
Filosofando
(Na verdade, roubando ideias do marido.)
Eu tenho um medo. Na verdade, tenho vários, mas um deles é bem grandão, e recebe o nome de fobia. Emetofobia. Trata-se do pânico irracional que tenho de vomitar (o que inclui, é claro, ver alguém vomitando).
Marido, por sua vez, detesta (e tem ânsias de vômito) com cocôs: do filhote ou do cachorro. Então, aqui em casa, temos um pacto: cocôs são meus, vômitos são dele. Eu sei que me dou mal na conta final, pois Arthur fará muito mais cocôs nessa vida do que vomitará, mas estou muito satisfeita com a divisão de tarefas, marido também, então seguimos assim, felizes.
Sexta-feira. Arthur está dormindo. Eu, a seu lado, vejo que ele vai acordar, pois se remexe para lá e para cá, vira-se de bruços, torna a ficar de barriga para cima. Ao se sentar e chorar, faço o que toda mãe faria: tomo-o em meus braços. E o que ele faz, minha gente?
Vomita. Com ânsia e tudo! Três vezes: na cama, em mim e no chão. E digo mais: essa foi a segunda vomitada do dia! A primeira foi na cozinha, depois de provar (e detestar, é claro) caqui.
Claro que fiquei desesperada, tanto pelo vômito (será que ele está bem? o que será que o fez vomitar?) quanto pelo fato de estar toda vomitada (eca!). Mas venci a fobia e consegui dar conforto a meu filho e nem dei chilique, como costumo fazer.
Sábado. É hora do banho. Arthur não anda muito bem, pois pegou uma virose e anda meio estranho por causa dos remédios, ou da virose, não sei. O fato é que o banho, decidimos, vai ser de banheira, bem quentinho e relaxante, nada de sabonete, pois ele já tomou banho hoje e o objetivo desse é só relaxar para ter um bom soninho. Marido entra com ele na banheira e fica ali, curtindo umas brincadeiras bacanérrimas, relaxando o menino, até que... Arthur faz um supercocozão! Marido, corajosamente, levanta-se, sai da banheira, dá banho de chuveiro no menino (agora, é claro, com todo o sabonete do mundo!) e comemoramos a superação de todos os limites em um único fim de semana: eu toda vomitada e marido todo cocozado.
Então, depois de nos autocongratularmos e parabenizarmos um ao outro, chegamos à conclusão de que ter um filho é um grande tiro que sai pela culatra, pois a decisão mais egoísta que você toma se transforma em puro altruísmo.
Eu tenho um medo. Na verdade, tenho vários, mas um deles é bem grandão, e recebe o nome de fobia. Emetofobia. Trata-se do pânico irracional que tenho de vomitar (o que inclui, é claro, ver alguém vomitando).
Marido, por sua vez, detesta (e tem ânsias de vômito) com cocôs: do filhote ou do cachorro. Então, aqui em casa, temos um pacto: cocôs são meus, vômitos são dele. Eu sei que me dou mal na conta final, pois Arthur fará muito mais cocôs nessa vida do que vomitará, mas estou muito satisfeita com a divisão de tarefas, marido também, então seguimos assim, felizes.
Sexta-feira. Arthur está dormindo. Eu, a seu lado, vejo que ele vai acordar, pois se remexe para lá e para cá, vira-se de bruços, torna a ficar de barriga para cima. Ao se sentar e chorar, faço o que toda mãe faria: tomo-o em meus braços. E o que ele faz, minha gente?
Vomita. Com ânsia e tudo! Três vezes: na cama, em mim e no chão. E digo mais: essa foi a segunda vomitada do dia! A primeira foi na cozinha, depois de provar (e detestar, é claro) caqui.
Claro que fiquei desesperada, tanto pelo vômito (será que ele está bem? o que será que o fez vomitar?) quanto pelo fato de estar toda vomitada (eca!). Mas venci a fobia e consegui dar conforto a meu filho e nem dei chilique, como costumo fazer.
Sábado. É hora do banho. Arthur não anda muito bem, pois pegou uma virose e anda meio estranho por causa dos remédios, ou da virose, não sei. O fato é que o banho, decidimos, vai ser de banheira, bem quentinho e relaxante, nada de sabonete, pois ele já tomou banho hoje e o objetivo desse é só relaxar para ter um bom soninho. Marido entra com ele na banheira e fica ali, curtindo umas brincadeiras bacanérrimas, relaxando o menino, até que... Arthur faz um supercocozão! Marido, corajosamente, levanta-se, sai da banheira, dá banho de chuveiro no menino (agora, é claro, com todo o sabonete do mundo!) e comemoramos a superação de todos os limites em um único fim de semana: eu toda vomitada e marido todo cocozado.
Então, depois de nos autocongratularmos e parabenizarmos um ao outro, chegamos à conclusão de que ter um filho é um grande tiro que sai pela culatra, pois a decisão mais egoísta que você toma se transforma em puro altruísmo.
sábado, 23 de março de 2013
Dos cansaços
No meu chá de bebê, ainda 26 dias antes do nascimento do Arthur, eu estava mal: cansada, pesada, com muita falta de ar e de saco cheio de estar grávida (e trabalhando fora). Daí, as pessoas comentavam como eu estava linda, magra, parecendo estar muito bem, saudável, feliz, e virava e mexia alguém me perguntava com real interesse como eu me sentia.
E eu me sentia assim, como acabei de contar.
Então, conversando com o marido da minha tia (que tem com ela uma filha de 5 anos), ele falou: aproveite enquanto ele está na barriga, porque depois é que você vai ver o que é cansaço.
Arthur nasceu, mamou de hora em hora, depois queria colinho 24h por dia, aprendeu a rolar, a se sentar sozinho, a se levantar sozinho na cama, a engatinhar, a subir nas coisas e, agora, a caminhar com apoio.
Eu, do meu lado, acordo cedíssimo, trabalho pesado, chego em casa tenho casa, marido, filho e frila para me entreter até altas da madrugada.
Estou bem cansada.
Exausta até, diria.
(Em breve venho contar, espero, o motivo a mais de tamanha exaustão.)
E aí eu me lembro das palavras do marido da minha tia. E aí eu olho para o lado, vejo o sorriso do meu filho no meio do sono. E aí eu penso que não é possível comparar, em nenhum nível, as experiências de se ter um bebê na barriga e se ter um bebê nos braços. E também penso que ser dona novamente de todas as minhas hemácias, senhora de minha ferritina, egoisticamente única usuária do meu sistema circulatório, sem placenta, feto ou outras adjacências gravídicas para me roubar o ar, a disposição, a agilidade de movimentos, o equilíbrio e a (má) postura bípede é realmente muito melhor. E que por mais que a gravidez seja um momento lindo, que a minha experiência tenha sido num esbanjamento de saúde e que seja um importante rito de passagem (social e pessoal), não há comparação: ter um bebê do lado de fora é infinitamente melhor.
Sentir seu cheiro, o toque suave de sua pele, saber seus sons, seus risos, conhecer sua personalidade e caras engraçadas é incrível, indescritível.
E aí eu me lembro daquele domingo de maio, entre amigos queridos e familiares. Penso na conversa com o marido da minha tia e concluo: ter Arthur do lado de fora é infinitamente melhor que ter estado grávida dele. Sobretudo por causa da maldita falta de ar que eu sentia desde as vinte e pouquinhas semanas. Mas aí eu percebo que, em termos de falta de ar, não ando lá muito melhor com ele aqui fora: basta vê-lo sorrir ou chorar, crescer e se desenvolver para que, mesmo senhora das minhas fisiologias todas, eu saiba que para sempre minha circulação foi alterada: vai ali naquele menino antes de voltar para mim tudo o que existe dentro de mim.
(E ainda me perguntam por que quero ter outro filho.)
E eu me sentia assim, como acabei de contar.
Então, conversando com o marido da minha tia (que tem com ela uma filha de 5 anos), ele falou: aproveite enquanto ele está na barriga, porque depois é que você vai ver o que é cansaço.
Arthur nasceu, mamou de hora em hora, depois queria colinho 24h por dia, aprendeu a rolar, a se sentar sozinho, a se levantar sozinho na cama, a engatinhar, a subir nas coisas e, agora, a caminhar com apoio.
Eu, do meu lado, acordo cedíssimo, trabalho pesado, chego em casa tenho casa, marido, filho e frila para me entreter até altas da madrugada.
Estou bem cansada.
Exausta até, diria.
(Em breve venho contar, espero, o motivo a mais de tamanha exaustão.)
E aí eu me lembro das palavras do marido da minha tia. E aí eu olho para o lado, vejo o sorriso do meu filho no meio do sono. E aí eu penso que não é possível comparar, em nenhum nível, as experiências de se ter um bebê na barriga e se ter um bebê nos braços. E também penso que ser dona novamente de todas as minhas hemácias, senhora de minha ferritina, egoisticamente única usuária do meu sistema circulatório, sem placenta, feto ou outras adjacências gravídicas para me roubar o ar, a disposição, a agilidade de movimentos, o equilíbrio e a (má) postura bípede é realmente muito melhor. E que por mais que a gravidez seja um momento lindo, que a minha experiência tenha sido num esbanjamento de saúde e que seja um importante rito de passagem (social e pessoal), não há comparação: ter um bebê do lado de fora é infinitamente melhor.
Sentir seu cheiro, o toque suave de sua pele, saber seus sons, seus risos, conhecer sua personalidade e caras engraçadas é incrível, indescritível.
E aí eu me lembro daquele domingo de maio, entre amigos queridos e familiares. Penso na conversa com o marido da minha tia e concluo: ter Arthur do lado de fora é infinitamente melhor que ter estado grávida dele. Sobretudo por causa da maldita falta de ar que eu sentia desde as vinte e pouquinhas semanas. Mas aí eu percebo que, em termos de falta de ar, não ando lá muito melhor com ele aqui fora: basta vê-lo sorrir ou chorar, crescer e se desenvolver para que, mesmo senhora das minhas fisiologias todas, eu saiba que para sempre minha circulação foi alterada: vai ali naquele menino antes de voltar para mim tudo o que existe dentro de mim.
(E ainda me perguntam por que quero ter outro filho.)
domingo, 3 de março de 2013
Profissão: bebê
Arthur nasceu ativista político pró-humanização do parto. Além de ter escolhido nascer justo no dia da passeata pela humanização do parto que teve aqui no Rio, nasceu de mãe e com equipe defensoras da causa. Ele também já nasceu cantor de ópera, com um choro no estilo dó de peito que fez o vizinho da frente, músico profissional, professor universitário, comentar "chora forte, né?".
Depois, um pouco mais crescido, quis ser o novo beijoqueiro do novo Maracanã: fazia bicos e mais bicos, quase por 24 horas. Ou então, pensou em ser atleta olímpico na modalidade arremesso. Como não tinha nada em sua mão que estivesse disponível para treinar, arremessava mesmo era o xixi, assim que abríamos a fralda.
Também quis ser cabeleireiro (agarrando os cabelos que dessem sopa), feirante (só entrar no sling e ele berrava "ahhhhhh" durante todo o trajeto), bailarino (fazia poses e mais poses), contorcionista (queria mamar de bruços), carrasco (mordendo e beliscando o mamilo da mamãe e depois dando uma risadinha sádica), faxineiro (limpando a casa quando encontrava uma sujeirinha no chão, usando os dedinhos em pinça para recolher o microobjeto e examiná-lo), espeleólogo (tentando se enfiar em buracos escuros), contador ou arquivista (revirando nosso arquivo de contas), acadêmico (rasgando o livro que estávamos lendo), operador de caixa (querendo digitar minha senha na maquininha do cartão), Don Juan (sorrindo para todas as mulheres do caminho), político (tentando convencer-nos de seu ponto de vista só na lábia, quero dizer, no lábio: seja chorando ou sorrindo), engenheiro eletriscista (mexendo em todos os fios da casa e tentando enfiar o dedo nos buracos das tomadas), e tantas outras possibilidades que mal consigo me lembrar.
O fato, porém, é que adulto não pode ver uma criança ou bebê fazendo uma coisa que logo quer tascar um rótulo bem rotuladinho: "ih, esse aí vai ser _______ porque faz _______."
Só que não, né, gente?
Arthur é um bebê, e seus gestos e atos não têm a ver com suas aptidões ou habilidades. Tudo nele evolui e involui numa velocidade impressionante. E quando ele crescer mais um pouco, terá na infância o espaço de experimentação tão fundamental para seu desenvolvimento e para o processo de construção de sua auto-imagem.
Agora, se eu fosse dar um palpite (e ignorar tudo isso que acabei de falar), acho que a grande potencialidade de Arthur é a coisa mais incrível e sem limites que um ser humano pode vivenciar: meu filho tem grande vocação para a felicidade (a própria e a que nos desperta) e para ser livre para experimentar!
E que assim seja!
Depois, um pouco mais crescido, quis ser o novo beijoqueiro do novo Maracanã: fazia bicos e mais bicos, quase por 24 horas. Ou então, pensou em ser atleta olímpico na modalidade arremesso. Como não tinha nada em sua mão que estivesse disponível para treinar, arremessava mesmo era o xixi, assim que abríamos a fralda.
Também quis ser cabeleireiro (agarrando os cabelos que dessem sopa), feirante (só entrar no sling e ele berrava "ahhhhhh" durante todo o trajeto), bailarino (fazia poses e mais poses), contorcionista (queria mamar de bruços), carrasco (mordendo e beliscando o mamilo da mamãe e depois dando uma risadinha sádica), faxineiro (limpando a casa quando encontrava uma sujeirinha no chão, usando os dedinhos em pinça para recolher o microobjeto e examiná-lo), espeleólogo (tentando se enfiar em buracos escuros), contador ou arquivista (revirando nosso arquivo de contas), acadêmico (rasgando o livro que estávamos lendo), operador de caixa (querendo digitar minha senha na maquininha do cartão), Don Juan (sorrindo para todas as mulheres do caminho), político (tentando convencer-nos de seu ponto de vista só na lábia, quero dizer, no lábio: seja chorando ou sorrindo), engenheiro eletriscista (mexendo em todos os fios da casa e tentando enfiar o dedo nos buracos das tomadas), e tantas outras possibilidades que mal consigo me lembrar.
O fato, porém, é que adulto não pode ver uma criança ou bebê fazendo uma coisa que logo quer tascar um rótulo bem rotuladinho: "ih, esse aí vai ser _______ porque faz _______."
Só que não, né, gente?
Arthur é um bebê, e seus gestos e atos não têm a ver com suas aptidões ou habilidades. Tudo nele evolui e involui numa velocidade impressionante. E quando ele crescer mais um pouco, terá na infância o espaço de experimentação tão fundamental para seu desenvolvimento e para o processo de construção de sua auto-imagem.
Agora, se eu fosse dar um palpite (e ignorar tudo isso que acabei de falar), acho que a grande potencialidade de Arthur é a coisa mais incrível e sem limites que um ser humano pode vivenciar: meu filho tem grande vocação para a felicidade (a própria e a que nos desperta) e para ser livre para experimentar!
E que assim seja!
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Por que ter uma enfermeira obstétrica
Quando a porta se abriu, a sensação que tive foi que a desconstrução começara ali.
Eu vinha crescendo, junto com minha barriga, ideias e vontades em relação a meu parto. Mas sabia que corria o risco sério, seríssimo de querer que a ideia sobrepujasse a realidade, e essa, meus caros, é a fórmula mais certeira para a frustração. Assim sendo, eu tinha certeza de que precisava começar a desconstruir algumas coisas dentro de mim para poder fazer nascer. Isso, em grande parte, porque todo nascimento é também uma espécie de morte. Morte na entrega ao desconhecido, morte social (fazemos a passagem de filhas a mães), morte da gravidez e do casal (agora seremos três ou mais!).
Então, quando ela abriu aquela porta e minha enfermeira - a quem eu imaginara como alguém mais ou menos da minha altura, de cabelos lisos e compridos presos num rabo-de-cavalo prático e quase desleixado, camiseta larga e calça de linho - surgiu no explendor de seus cabelos curtos, tatuagens grandes e coloridas (e bem visíveis) e presença física muito forte (ela ESTAVA ali, ela SE MOVIA, ela PARAVA, tudo sem qualquer espaço para dúvidas), eu sabia que as coisas dariam certo.
Quero dizer: eu sabia que eu tinha um caminho a trilhar e sabia que muita coisa precisava de ajuste, de reflexão, de aprendizado. Mas ali eu tinha algo em que me fiar.
Bem que a obstetra avisara: há mulheres que criam vínculos mais intensos com a enfermeira obstétrica do que comigo. Não foi assim logo de cara, confesso. Ter a imagem mental que eu desenhara sobre como seria aquela pessoa pulverizada por aquela presença me fez pensar se eu seria capaz de criar vínculo com alguém diferente. Não diferente de mim. Mas diferente das expectativas que eu havia criado.
Eu não sabia, porém aceitei a porta aberta e entrei.
Ali dentro, naquele apartamento com algumas coisas diferentes (uns corações flamejantes nas paredes, umas caveiras, a coluna espinhal num molde em tamanho natural feito de gesso, dois gatos, uma atmosfera meio bruxonesca), ali eu encontrei a pessoa mais sensível que já conheci na vida. E sensível aqui não é sinônimo para "docinha", "fofinha" ou qualquer outro adjetivo que geralmente atribuímos ao lado pejorativo da sensibilidade. Quando eu falo de sensibilidade, quero dizer que aquela pessoa extremamente forte, presente, segura e firme estava tomando muito, muito, muito cuidado com meus sentimentos. Ela sabia até onde poderia ir. Sempre. E eu senti isso desde o começo. Não que ela tenha feito algo específico, mas a gente sabe quando a outra pessoa está se importando de verdade com o que sentimos e pensamos.
E foi aí que ela me arrebatou.
Hoje, olhando para trás, vejo a importância que minha enfermeira teve em minha gravidez, no nosso parto e no meu pós-parto. É difícil ser grávida e mãe hoje em dia, na sociedade em que vivemos. Não estamos preparadas para a solidão que nos atropela, para a força selvagem que nos arrebata, para a sexualidade, para nosso corpo (transformando-se, duplicando-se, abrindo-se, rompendo tabus), para nossa sensibilidade. Que conveniente que minha enfermeira, no momento mais delicado, fosse sensível e soubesse, só de olhar para mim, quando eu precisava de um empurrãozinho, quando eu precisava de um abraço, aonde ela deveria mandar as palavras. Também foi de uma conveniência ímpar que minha enfermeira entendesse do corpo: por dentro (ossos, músculos, formação acadêmica, meandros da mente grávida e feminina) e por fora (posturas, gestos, cores, ritmos). E, certamente, foi a coisa mais conveniente do universo todinho ter a meu lado uma pessoa capacitada para auscultar Arthur durante o trabalho de parto, para tomar para si a tarefa de controlar o progresso do processo fisiológico do parto, para coordenar com a médica esquemas, horários, medidas e burocracias. Sua sensibilidade me permitiu fugir do controle. Fugir mesmo: eu queria mergulhar em minhas contrações porque eu sabia que era minha única chance de parir. Se eu me mantivesse racional, poderia pôr tudo a perder, e era minha única chance de parir, porque cada chance que temos é única. Então, arrumei minhas malas e parti da vida controladora e racional rumo ao louco mundo do sentir e pulsar e contrair e dilatar e, sobretudo, não querer saber quanto de dilatação e nem como ou quando iriam chamar minha médica.
Foi assim que eu pari. Ela que abriu a porta, praticamente depois de um jeté, quando o refletor da sala de parto queimou e Arthur coroou no escuro, chorando. Foi ela que esteve comigo antes, durante e depois. Foi quem me contrabandeou frutas secas e nozes quando a maternidade me negou o almoço imediatamente após o parto (e assim, ela salvou minha energia, que andava em baixa depois de uma madrugada inteirinha sem comer ou dormir). Foi quem me salvou do empedramento na apojadura, das fissuras na pega errada, do baby blues. Eu ligava para ela chorosa, porque os hormônios estavam loucos, e ela veio com flores no dia do meu aniversário! Ela não se esqueceu! Também foi ela a responsável por me apresentar a mães muito especiais, que mudaram radicalmente minha maternagem e minha alegria de viver este momento, pessoas doces e fortes e lindas que me ensinam muitíssimo e que sabem. É ainda ela que pensa na minha monília recorrente e dá dicas especiais. Ela que pergunta e se interessa de verdade, porque ama. E se só damos o que temos, essa moça é toda amor.
Por tudo isso (e outras coisas muito mais subjetivas e delicadas), eu acho que toda mulher deveria ter em seu parto a benesse de uma enfermeira obstétrica competente e sensível. E por tudo isso, e pelo privilégio incrível de saber que meu filho poderá perguntar a mim sobre a equipe que o ajudou nascer e ter como resposta nomes, histórias e rostos (e não somente um relato com profissões - médicos e enfermeiras), eu digo: obrigada, minha querida. Você fez e faz minha nova vida especialmente maravilhosa!
Eu vinha crescendo, junto com minha barriga, ideias e vontades em relação a meu parto. Mas sabia que corria o risco sério, seríssimo de querer que a ideia sobrepujasse a realidade, e essa, meus caros, é a fórmula mais certeira para a frustração. Assim sendo, eu tinha certeza de que precisava começar a desconstruir algumas coisas dentro de mim para poder fazer nascer. Isso, em grande parte, porque todo nascimento é também uma espécie de morte. Morte na entrega ao desconhecido, morte social (fazemos a passagem de filhas a mães), morte da gravidez e do casal (agora seremos três ou mais!).
Então, quando ela abriu aquela porta e minha enfermeira - a quem eu imaginara como alguém mais ou menos da minha altura, de cabelos lisos e compridos presos num rabo-de-cavalo prático e quase desleixado, camiseta larga e calça de linho - surgiu no explendor de seus cabelos curtos, tatuagens grandes e coloridas (e bem visíveis) e presença física muito forte (ela ESTAVA ali, ela SE MOVIA, ela PARAVA, tudo sem qualquer espaço para dúvidas), eu sabia que as coisas dariam certo.
Quero dizer: eu sabia que eu tinha um caminho a trilhar e sabia que muita coisa precisava de ajuste, de reflexão, de aprendizado. Mas ali eu tinha algo em que me fiar.
Bem que a obstetra avisara: há mulheres que criam vínculos mais intensos com a enfermeira obstétrica do que comigo. Não foi assim logo de cara, confesso. Ter a imagem mental que eu desenhara sobre como seria aquela pessoa pulverizada por aquela presença me fez pensar se eu seria capaz de criar vínculo com alguém diferente. Não diferente de mim. Mas diferente das expectativas que eu havia criado.
Eu não sabia, porém aceitei a porta aberta e entrei.
Ali dentro, naquele apartamento com algumas coisas diferentes (uns corações flamejantes nas paredes, umas caveiras, a coluna espinhal num molde em tamanho natural feito de gesso, dois gatos, uma atmosfera meio bruxonesca), ali eu encontrei a pessoa mais sensível que já conheci na vida. E sensível aqui não é sinônimo para "docinha", "fofinha" ou qualquer outro adjetivo que geralmente atribuímos ao lado pejorativo da sensibilidade. Quando eu falo de sensibilidade, quero dizer que aquela pessoa extremamente forte, presente, segura e firme estava tomando muito, muito, muito cuidado com meus sentimentos. Ela sabia até onde poderia ir. Sempre. E eu senti isso desde o começo. Não que ela tenha feito algo específico, mas a gente sabe quando a outra pessoa está se importando de verdade com o que sentimos e pensamos.
E foi aí que ela me arrebatou.
Hoje, olhando para trás, vejo a importância que minha enfermeira teve em minha gravidez, no nosso parto e no meu pós-parto. É difícil ser grávida e mãe hoje em dia, na sociedade em que vivemos. Não estamos preparadas para a solidão que nos atropela, para a força selvagem que nos arrebata, para a sexualidade, para nosso corpo (transformando-se, duplicando-se, abrindo-se, rompendo tabus), para nossa sensibilidade. Que conveniente que minha enfermeira, no momento mais delicado, fosse sensível e soubesse, só de olhar para mim, quando eu precisava de um empurrãozinho, quando eu precisava de um abraço, aonde ela deveria mandar as palavras. Também foi de uma conveniência ímpar que minha enfermeira entendesse do corpo: por dentro (ossos, músculos, formação acadêmica, meandros da mente grávida e feminina) e por fora (posturas, gestos, cores, ritmos). E, certamente, foi a coisa mais conveniente do universo todinho ter a meu lado uma pessoa capacitada para auscultar Arthur durante o trabalho de parto, para tomar para si a tarefa de controlar o progresso do processo fisiológico do parto, para coordenar com a médica esquemas, horários, medidas e burocracias. Sua sensibilidade me permitiu fugir do controle. Fugir mesmo: eu queria mergulhar em minhas contrações porque eu sabia que era minha única chance de parir. Se eu me mantivesse racional, poderia pôr tudo a perder, e era minha única chance de parir, porque cada chance que temos é única. Então, arrumei minhas malas e parti da vida controladora e racional rumo ao louco mundo do sentir e pulsar e contrair e dilatar e, sobretudo, não querer saber quanto de dilatação e nem como ou quando iriam chamar minha médica.
Foi assim que eu pari. Ela que abriu a porta, praticamente depois de um jeté, quando o refletor da sala de parto queimou e Arthur coroou no escuro, chorando. Foi ela que esteve comigo antes, durante e depois. Foi quem me contrabandeou frutas secas e nozes quando a maternidade me negou o almoço imediatamente após o parto (e assim, ela salvou minha energia, que andava em baixa depois de uma madrugada inteirinha sem comer ou dormir). Foi quem me salvou do empedramento na apojadura, das fissuras na pega errada, do baby blues. Eu ligava para ela chorosa, porque os hormônios estavam loucos, e ela veio com flores no dia do meu aniversário! Ela não se esqueceu! Também foi ela a responsável por me apresentar a mães muito especiais, que mudaram radicalmente minha maternagem e minha alegria de viver este momento, pessoas doces e fortes e lindas que me ensinam muitíssimo e que sabem. É ainda ela que pensa na minha monília recorrente e dá dicas especiais. Ela que pergunta e se interessa de verdade, porque ama. E se só damos o que temos, essa moça é toda amor.
Por tudo isso (e outras coisas muito mais subjetivas e delicadas), eu acho que toda mulher deveria ter em seu parto a benesse de uma enfermeira obstétrica competente e sensível. E por tudo isso, e pelo privilégio incrível de saber que meu filho poderá perguntar a mim sobre a equipe que o ajudou nascer e ter como resposta nomes, histórias e rostos (e não somente um relato com profissões - médicos e enfermeiras), eu digo: obrigada, minha querida. Você fez e faz minha nova vida especialmente maravilhosa!
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Dois dentinhos e a introdução alimentar
No dia em que comemoramos seus sete meses, dois risquinhos desenharam o sorriso do meu filhote. Dois, logo de cara, como se anunciassem: um para a mamãe, outro para o papai. E agora, meu bebê tem dentinhos. Serrilhados. Separadinhos. Uma fofura!
Quando Arthur ri, os dentinhos se fazem arteiros, e dão a ele aquele ar sapeca, de quem quer abocanhar a vida, mas ainda está aprendendo: dois dentinhos embaixo e nenhum em cima. A vida que se prende por um lado e que escorrega por outro.
Quando Arthur chora, aquele choro sentido e magoado de quem quer colinho da mamãe, os dentinhos se entristecem, se fazem solitários, mesmo que estejam em dupla, mesmo que acompanhados por si mesmos. E estreitos feito olhinhos que choram, mostram para quem está aqui fora a boca escancarada do protesto: não quero ficar sozinho, quero colinho da mamãe, não gosto do que está acontecendo.
Mas talvez o mais importante que os dentinhos do meu filho me disseram (uma vez que sua alegria e sua tristeza eu já conheço e reconheço, mesmo sendo Arthur um banguela) é que chegou a hora de comer.
Não sei se li em algum canto (minhas leituras transversais sobre BLW), se alguém me contou, mas o fato é que encasquetei que Arthur ia exclusivo no peito até seis meses, pelo menos, e depois ainda mais um pouco enquanto não se sustentasse sozinho sentado e enquanto não tivesse dentinhos. Também incluí nos critérios para introdução de alimentos a mudança na consistência das fezes, que indicam mudança no aparelho digestivo do bebê.
Acho (de puro achismo mesmo) importante que o bebê atinja esses dois marcos de desenvolvimento que, a meu ver (não sou médica, não estou defendendo nenhuma tese de maneira consciente), indicam que ele está realmente pronto para ingerir alimentos sólidos.
Então, com os dois dentinhos do pequeno e com ele dominando o sentar-se sozinho, começamos a oferecer frutinhas.
O pediatra liberou as tradicionais: maçã, pêra, banana e mamão. Eu liberei essas e também manga e água de côco. Sei lá por que pensei que ele gostaria de manga, e foi certeiro: cuspiu o mamão, teve ânsias com banana, rejeitou maçã e pêra, mas se acabou na manga. A água de côco também foi aposta vencedora: bebeu 50ml de primeira, e agora já toma 100ml, deliciando-se.
Em breve introduziremos novas frutinhas, suquinhos e também alimentos salgados, mas posso dizer, com meus 32 dentes bem sorridentes (sim, eu tenho todos os sisos), que estou satisfeita de, mais uma vez, respeitar o ritmo e o gosto do meu filho.
Arthur, em resposta, me dá o sorriso banguela mais lindo do mundo!
Quando Arthur ri, os dentinhos se fazem arteiros, e dão a ele aquele ar sapeca, de quem quer abocanhar a vida, mas ainda está aprendendo: dois dentinhos embaixo e nenhum em cima. A vida que se prende por um lado e que escorrega por outro.
Quando Arthur chora, aquele choro sentido e magoado de quem quer colinho da mamãe, os dentinhos se entristecem, se fazem solitários, mesmo que estejam em dupla, mesmo que acompanhados por si mesmos. E estreitos feito olhinhos que choram, mostram para quem está aqui fora a boca escancarada do protesto: não quero ficar sozinho, quero colinho da mamãe, não gosto do que está acontecendo.
Mas talvez o mais importante que os dentinhos do meu filho me disseram (uma vez que sua alegria e sua tristeza eu já conheço e reconheço, mesmo sendo Arthur um banguela) é que chegou a hora de comer.
Não sei se li em algum canto (minhas leituras transversais sobre BLW), se alguém me contou, mas o fato é que encasquetei que Arthur ia exclusivo no peito até seis meses, pelo menos, e depois ainda mais um pouco enquanto não se sustentasse sozinho sentado e enquanto não tivesse dentinhos. Também incluí nos critérios para introdução de alimentos a mudança na consistência das fezes, que indicam mudança no aparelho digestivo do bebê.
Acho (de puro achismo mesmo) importante que o bebê atinja esses dois marcos de desenvolvimento que, a meu ver (não sou médica, não estou defendendo nenhuma tese de maneira consciente), indicam que ele está realmente pronto para ingerir alimentos sólidos.
Então, com os dois dentinhos do pequeno e com ele dominando o sentar-se sozinho, começamos a oferecer frutinhas.
O pediatra liberou as tradicionais: maçã, pêra, banana e mamão. Eu liberei essas e também manga e água de côco. Sei lá por que pensei que ele gostaria de manga, e foi certeiro: cuspiu o mamão, teve ânsias com banana, rejeitou maçã e pêra, mas se acabou na manga. A água de côco também foi aposta vencedora: bebeu 50ml de primeira, e agora já toma 100ml, deliciando-se.
Em breve introduziremos novas frutinhas, suquinhos e também alimentos salgados, mas posso dizer, com meus 32 dentes bem sorridentes (sim, eu tenho todos os sisos), que estou satisfeita de, mais uma vez, respeitar o ritmo e o gosto do meu filho.
Arthur, em resposta, me dá o sorriso banguela mais lindo do mundo!
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