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segunda-feira, 22 de abril de 2013

O renascimento do parto

A prima de uma amiga está grávida. Reta final. Daí veio avisar toda prosa: não passa do dia 25. Como ela sabe? Como o médico que a acompanha sabe? O bebê vai se transformar em um gremlin se continuar no útero dela, mesmo dando sinais de que está bem e saudável? 
Há longos anos, no Brasil, os valores do nascimento vêm sendo invertidos, e o que deveria ser um momento lindo, maravilhoso e fundamental passa a ser um perigo, um descaso, uma dor e algo regido pelo dinheiro.
Se você, como eu, sonha que mais e mais mulheres possam ter um parto ativo, saudável, respeitoso, fisiológico e repleto de amor, então lute comigo! 
Você pode, como eu, encher o saco de todos que conhece com dados, estatísticas, causos e indicações de pesquisas científicas, pode escolher uma equipe porreta e parir seu filho sem intervenções no dia da marcha pela humanização dos nascimentos, pode ficar conhecida como "a maluca do parto natural" aonde quer que vá (hoje no trabalho, quando eu estava no almoço, surgiu o tema "parto" e TODAS as pessoas da empresa vieram falar comigo depois: ih, Fulana estava falando de parto hoje!). Mas se você não pode ou não quer se envolver nesse nível, porém acha a causa justa e bacana, existem outras maneiras de ajudar, claro. Até o dia 18 de junho, por exemplo, basta clicar neste link e fazer sua doação e/ou ajudar a divulgar a causa! Conscientizar as pessoas de que existem outras formas de nascer abre horizontes e traz para a mulher mais liberdade. Mudar a maneira de nascer é, de certo modo, mudar uma sociedade. E, parafraseando Michel Odent, que humanidade será essa, que nasce na violência obstétrica, na cesária mal indicada, nas artificialidades desnecessárias? É preciso mudar a forma de nascer para se mudar a forma de viver.


PS: Eu já doei. Quero ver todo mundo nos cinemas tentando adivinhar meu nome real quando passarem os créditos, hein!

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Carta para minha GO (Feliz dia do obstetra!)

Sabe quando você lê uma coisa e pensa "que ideia genial, queria ter tido essa sacada!"? Então, Anne Rammi, essa moça com nome que rima, e que boxa, rema, pinta e milita (e mora no meu coração, embora nem saiba quem sou!), essa moça fez assim comigo hoje.
Eu aqui, quietinha, vivendo meu mundinho de aniversários de relacionamento, idas para Chicago, bebê-delícia me deliciando, e ela veio e PAF! Levou embora meu rebolado num post lindo, que só não me fez realmente querer ter sido a autora porque não se trata de um nascimento bonito, e isso exclusivamente porque ELA foi desrespeitada no momento mais sublime de sua vida. (Desperta uma fúria solidária em mim saber que outra mulher, com outra história, não teve a alegria que eu pude ter.)
Solapada e desnorteada (sim, eu tinha preparado um post bobinho mesmo, todo água com açúcar, tipo beste-seller de aeroporto, sabem? Foi para o lixo. Deu vergoinha.), achei que eu queria ter tido essa ideia genial de escrever uma carta para minha GO no dia do obstetra, e assim militar um bocadinho, coisa que, de uns tempos para cá, foi eclipsada pelo meu umbigo e suas mudanças (Chicago) e permanências (marido).
Então, inspirada pela moça que eu tanto admiro, também fiz minha cartinha. Homenagem a minha querida obstetra.

Querida Dra. F.,

Não vou expor seu nome porque seria injusto ficar no mocó e sair bradando aos quatro ventos sua identidade. Na verdade, porém, eu deveria. Eu deveria para que todas as mulheres cariocas que realmente querem um parto digno, um parto seguro, um parto saudável, um parto fisiológico, sem intervenções e terrorismo, sem traumas, com respeito e muito, muito amor encontrassem a grande parceira que você foi para minha família.
Nossa relação foi de construção e parceria. Sempre. Eu cheguei colocando as cartas na mesa (timidamente): três exames de BHCG, um medo danado (e infundado) de abortar, 40kg, um histórico de "nãos" (não vai engravidar naturalmente, não vai ter passagem, não vai ter saúde para nutrir seu bebê, não vai conseguir parto normal sendo tão pequena etc.) e toda minha ansiedade. E você devolveu o que não deveria ser gestado ali, entre mim e você, bem em cima do meu bebê. Meu bebê, você já sabia, não merecia sobre ele o peso que às vezes lhe atribuía. Às vezes eu era os 40kg mais pesados que existiam. E você soube mostrar o caminho. E me receitou todos os anti-histamínicos permitidos para me ajudar a lidar com a fobia que tenho de vômito. Não vomitei nem uma vezinha. Parece bobagem, um detalhe, mas aí é que está toda a diferença: nos detalhes, nas "bobagens" - aliás, você nunca fez pouco das minhas perguntas, angústias ou reclamações; ao contrário, sempre me incentivava a falar e perguntar sobre qualquer coisa que me afligisse ou inquietasse. E era isso que eu queria: respeito, paciência, compreensão de que sou um ser vivo, pensante, pulsante e temente.

Aliás, bota ser temente, pensante e pulsante nisso!

Cheguei até você com ideias prontas e com você aprendi a não tentar encaixá-la nas minhas pré-concepções. Antes de você, querida Dra. F., eu vivia às turras com os obstetras, porque eles radicalizavam e fincavam pé em bobagens e absurdos, e minha resposta óbvia era fincar pé do outro lado, radicalizar também, e assim começar um infrutífero cabo de guerra (que era muito mais bonito antes do novo acordo, quando ainda tinha os hífens como que desenhando o puxa-puxa). Quando você disse para mim, com todas as letras "pode parar de lutar porque você já conseguiu o que queria", isso foi como soltar a corda do cabo de guerra, me deixando estatelada do chão de minhas convicções, tendo que catar ao redor aquilo que era realmente importante e o que me pertencia de verdade. Ou seja, precisei entender que eu não encontrara uma boa adversária, mas sim a melhor parceira! Caí de bunda no chão, sim. Mas você foi lá, me deu a mão e perguntou por que eu tinha puxado a corda tão forte. Bastava conversarmos.

E conversamos.

Eu sei que você sabe disso, Dra. F., mas ainda assim eu quero muito explicitar: eu tinha muito medo do parto. Não só pela mítica imagem que a sociedade contemporânea criou em torno dos nascimentos, não só por desconhecer o que me esperava, não só por saber que doía, não só por conhecer, inclusive, muitos dos riscos que existiam (eu já discutia sobre partos, nascimentos e gravidez havia muitos e muitos anos, tipo um terço da minha vida tinha sido assim, catando e memorizando esse tipo de informação). Eu tinha muito, muito, muito mais medo do parto porque eu sabia que era minha única chance de parir.
Aliás, isso é assombrosa e paralisantemente aterrorizante: saber que o primeiro filho é sua única chance. Claro que existem VBACs, VBA2Cs, 3Cs, mas, a verdade é que o primeiro parto é a única vez que você pode viver o parto. Se você cair numa cesária logo de cara (seja ela necessária ou não), seu próximo parto será, na verdade, o espelho do seu primeiro não parto.

(Sabe, Dra. F., eu vou publicar este texto no meu blog, e espero imensamente que ninguém se ofenda com essa minha ideia, porque incomoda pensar que o que temos de mais precioso - e aqui eu tiro meu chapéu em uma respeitosíssima reverência, pois VBA(1,2,3)Cs são para aquelas fortes, guerreiras, determinadas e poderosas! - possa não ser bom por si só, mas porque tem um lado bem ruim para criar o contraponto. Mas eu realmente acho isso. Uma vez uma amiga, paciente sua também, vinda de um VBAC maravilhoso, me disse que o parto normal depois de uma cesária tinha um gostinho até melhor, porque a pessoa conseguia o que vinha querendo desde há muito. Concordo que o VBAC deve ter um gostinho especial, e que, assim como uma experiência ruim torna as conquistas boas ainda mais especiais, enfim parir depois de ter tido seu direito usurpado deve ser realmente redentor. No entanto, eu só conheço a pureza do arrebatamento do parto natural. E acho, de verdade, que meu parto existiu por ele mesmo, em termos absolutos, sem comparações dolorosas, sem traumas prévios, sem parâmetros. E isso, só as primíparas podem ter!)

Retomando o fio da meada: eu tinha muito medo de fracassar no meu parto. Quando aqui digo fracassar, quero deixar bem claro duas coisas: 1) vivam as cesarianas salvadoras de vidas, bem indicadas e feitas para garantir saúde para mãe e bebês!; 2) eu, apenas eu, posso dizer como eu me sentiria se eu passasse pela cesária depois de tanta luta por um parto natural. Isso porque eu (e você) sabia (sabíamos) que eu tinha absolutamente tudo para ter um parto natural. Ou seja, no fundo do meu coração eu sabia que meu corpo estava ali para mim, que ele seria a primeira morada e o primeiro desafio do meu filho, que ele responderia e  corresponderia às necessidades. Eu acreditava no meu parto. E isso dava um medo danado! Medo porque eu sabia (e você também!) que meu parto aconteceria 1% na minha vagina, 3% no colo do meu útero, 6% no meu útero e 90% na minha cabeça. Era da cabeça que eu tinha medo. Aliás, medo duplo, e das duas cabeças: da minha falhar e travar meu processo, empacar minha dilatação, medrar minha fisiologia e interromper o curso natural; e da cabeça do meu filho passando pela minha vagina (e, confesso, mesmo tendo parido, até hoje tenho um nervosinho medroso de pensar que a CABEÇA de um BEBÊ passa pela nossa VAGINA!). Se eu contraísse, dilatasse e travasse, minasse, roubasse de mim a possibilidade de parir, me sentiria uma frustrada.

Quero destacar uma coisa bem importante (e por isso abro este parágrafo meio sem propósito): se EU roubasse de mim mesma a possibilidade de parir. Porque eu sabia, depois das consultas sempre incentivadoras e esclarecedoras, que você não roubaria de mim a possibilidade de parir. Eu sabia que se eu fosse para a faca, não seria por conveniência de agendas e horários (ou honorários), mas por segurança. E por isso o grande medo de fracassar: porque a responsabilidade era dividida (você monitorava e via se o processo fisiológico caminhava conforme deveria; e eu encaminhava e deixava acontecer o processo), mas ao mesmo dependia apenas de mim não me roubar o direito de parir. Em outras palavras: se eu não resistisse e medrasse e travasse, não por inexplicáveis desígnios que às vezes surgem nas nossas vidas - e vias -, mas se resistisse e medrasse e travasse por não me entregar ao processo, por desconfiar de mim, por ansiar e querer mudar o compasso do tempo, aí eu fracassaria: não pela cesária somente, veja bem, porque cesária não é sinônimo de fracasso. Mas eu fracassaria em lidar com a situação. E me frustraria se eu aceitasse desculpas para não enfrentar de peito aberto o que surgisse diante de mim.

Mas eu consegui. E você me respeitou. Aliás, eu consegui também porque você me respeitou.

Cada escolha, cada decisão, cada ideia, tudo que envolveu o nascimento do ser mais amado do (meu) mundo foi conversado, respeitado e pautado no amor. No meu amor, no fruto do amor entre mim e marido, no amor que você tem pela sua profissão e pelas suas pacientes. Porque eu realmente acredito que você me ame. De verdade. As consultas não eram vazias e sépticas: elas traziam histórias minhas e suas, partilhamos momentos, eu escolhi você para estar no momento mais íntimo e importante da minha vida, e todas as vezes eu que conversamos eu sinto que você, em algum nível, me ama e se identifica comigo. Se não fosse assim, não teria funcionado, porque ambas, eu e você, só funcionamos de verdade com a verdade: não fingimos. Nem fugimos. Enfrentamos, mas sempre em parceria, porque não nos enfrentamos, mas sim aos problemas, medos e dificuldades. E isso é uma forma de amar.

Hoje, no dia do obstetra, quero dar os parabéns não só pela mera convenção das efemérides, mas porque você honra a profissão que escolheu, porque orgulha aos seus pares por respeitar e tratar ética e medicamente suas pacientes. As Marias, as Joanas, as Silvias, Lauras, Renatas, Lúcias, Mauras, Cíntias e até as mais diferentes, como as Luzitânias e Petruskas. Todas com suas histórias, seus medos, suas limitações, seus amores e vivências.

Espero que seu modelo de atendimento se espalhe. Espero que outros profissionais se inspirem em sua competência e na excelência de seu ofício. Espero que outras mulheres tenham, como eu, a chance de parir, a chance de não desperdiçarem a chance de parir, a chance de terem, nesses tempos de violência obstétrica, a experiência do amor obstétrico. Um amor de obstetra.
Um beijo meu e outro do Arthur!

domingo, 24 de fevereiro de 2013

Por que ter uma enfermeira obstétrica

Quando a porta se abriu, a sensação que tive foi que a desconstrução começara ali.
Eu vinha crescendo, junto com minha barriga, ideias e vontades em relação a meu parto. Mas sabia que corria o risco sério, seríssimo de querer que a ideia sobrepujasse a realidade, e essa, meus caros, é a fórmula mais certeira para a frustração. Assim sendo, eu tinha certeza de que precisava começar a desconstruir algumas coisas dentro de mim para poder fazer nascer. Isso, em grande parte, porque todo nascimento é também uma espécie de morte. Morte na entrega ao desconhecido, morte social (fazemos a passagem de filhas a mães), morte da gravidez e do casal (agora seremos três ou mais!).
Então, quando ela abriu aquela porta e minha enfermeira - a quem eu imaginara como alguém mais ou menos da minha altura, de cabelos lisos e compridos presos num rabo-de-cavalo prático e quase desleixado, camiseta larga e calça de linho - surgiu no explendor de seus cabelos curtos, tatuagens grandes e coloridas (e bem visíveis) e presença física muito forte (ela ESTAVA ali, ela SE MOVIA, ela PARAVA, tudo sem qualquer espaço para dúvidas), eu sabia que as coisas dariam certo.
Quero dizer: eu sabia que eu tinha um caminho a trilhar e sabia que muita coisa precisava de ajuste, de reflexão, de aprendizado. Mas ali eu tinha algo em que me fiar.
Bem que a obstetra avisara: há mulheres que criam vínculos mais intensos com a enfermeira obstétrica do que comigo. Não foi assim logo de cara, confesso. Ter a imagem mental que eu desenhara sobre como seria aquela pessoa pulverizada por aquela presença me fez pensar se eu seria capaz de criar vínculo com alguém diferente. Não diferente de mim. Mas diferente das expectativas que eu havia criado.
Eu não sabia, porém aceitei a porta aberta e entrei.
Ali dentro, naquele apartamento com algumas coisas diferentes (uns corações flamejantes nas paredes, umas caveiras, a coluna espinhal num molde em tamanho natural feito de gesso, dois gatos, uma atmosfera meio bruxonesca), ali eu encontrei a pessoa mais sensível que já conheci na vida. E sensível aqui não é sinônimo para "docinha", "fofinha" ou qualquer outro adjetivo que geralmente atribuímos ao lado pejorativo da sensibilidade. Quando eu falo de sensibilidade, quero dizer que aquela pessoa extremamente forte, presente, segura e firme estava tomando muito, muito, muito cuidado com meus sentimentos. Ela sabia até onde poderia ir. Sempre. E eu senti isso desde o começo. Não que ela tenha feito algo específico, mas a gente sabe quando a outra pessoa está se importando de verdade com o que sentimos e pensamos.
E foi aí que ela me arrebatou.
Hoje, olhando para trás, vejo a importância que minha enfermeira teve em minha gravidez, no nosso parto e no meu pós-parto. É difícil ser grávida e mãe hoje em dia, na sociedade em que vivemos. Não estamos preparadas para a solidão que nos atropela, para a força selvagem que nos arrebata, para a sexualidade, para nosso corpo (transformando-se, duplicando-se, abrindo-se, rompendo tabus), para nossa sensibilidade. Que conveniente que minha enfermeira, no momento mais delicado, fosse sensível e soubesse, só de olhar para mim, quando eu precisava de um empurrãozinho, quando eu precisava de um abraço, aonde ela deveria mandar as palavras. Também foi de uma conveniência ímpar que minha enfermeira entendesse do corpo: por dentro (ossos, músculos, formação acadêmica, meandros da mente grávida e feminina) e por fora (posturas, gestos, cores, ritmos). E, certamente, foi a coisa mais conveniente do universo todinho ter a meu lado uma pessoa capacitada para auscultar Arthur durante o trabalho de parto, para tomar para si a tarefa de controlar o progresso do processo fisiológico do parto, para coordenar com a médica esquemas, horários, medidas e burocracias. Sua sensibilidade me permitiu fugir do controle. Fugir mesmo: eu queria mergulhar em minhas contrações porque eu sabia que era minha única chance de parir. Se eu me mantivesse racional, poderia pôr tudo a perder, e era minha única chance de parir, porque cada chance que temos é única. Então, arrumei minhas malas e parti da vida controladora e racional rumo ao louco mundo do sentir e pulsar e contrair e dilatar e, sobretudo, não querer saber quanto de dilatação e nem como ou quando iriam chamar minha médica.
Foi assim que eu pari. Ela que abriu a porta, praticamente depois de um jeté, quando o refletor da sala de parto queimou e Arthur coroou no escuro, chorando. Foi ela que esteve comigo antes, durante e depois. Foi quem me contrabandeou frutas secas e nozes quando a maternidade me negou o almoço imediatamente após o parto (e assim, ela salvou minha energia, que andava em baixa depois de uma madrugada inteirinha sem comer ou dormir). Foi quem me salvou do empedramento na apojadura, das fissuras na pega errada, do baby blues. Eu ligava para ela chorosa, porque os hormônios estavam loucos, e ela veio com flores no dia do meu aniversário! Ela não se esqueceu! Também foi ela a responsável por me apresentar a mães muito especiais, que mudaram radicalmente minha maternagem e minha alegria de viver este momento, pessoas doces e fortes e lindas que me ensinam muitíssimo e que sabem. É ainda ela que pensa na minha monília recorrente e dá dicas especiais. Ela que pergunta e se interessa de verdade, porque ama. E se só damos o que temos, essa moça é toda amor.
Por tudo isso (e outras coisas muito mais subjetivas e delicadas), eu acho que toda mulher deveria ter em seu parto a benesse de uma enfermeira obstétrica competente e sensível. E por tudo isso, e pelo privilégio incrível de saber que meu filho poderá perguntar a mim sobre a equipe que o ajudou nascer e ter como resposta nomes, histórias e rostos (e não somente um relato com profissões - médicos e enfermeiras), eu digo: obrigada, minha querida. Você fez e faz minha nova vida especialmente maravilhosa!

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Para onde vão os sonhos depois que parimos?

Meu sonho sempre foi Parir. Com letra maiúscula, sem anestesia, nada de véu e grinalda: parir. Dilatar, contrair, fazer nascer de dentro de mim o amor maior da vida de tanta gente - eu, marido, avós, futura companheira (ou companheiro) e quem mais quiser e puder amar meu filho. E assim, por anos, cultivei esse sonho, acalentei esse sonho, cuidei, acarinhei e busquei trilhar caminhos que me fizessem realizá-lo. Fiz minhas oferendas à Nossa Senhora do Bom Parto, tendo sempre cuidado com minha saúde e minha mente, para que o parto fluísse e, no que dependesse de mim, acontecesse.
E aconteceu. Foi lindo, intenso, mágico, fundador. E, se por um lado ficou (na lembrança, na memória, no Arthur e na mulher que hoje sou), por outro, passou. Foi um momento, brevíssimo nessa vida longa (ainda bem!) que venho tendo. Onze horas em trinta anos é um átimo.
[Suspiro]
Agora, claro que continuo sonhando com os próximos partos. Meus e alheios, sonhando com uma melhoria significativa das condições de nascimento no Brasil e no mundo, sonhando com ocitocina natural democratizada. Mas, confesso, tenho e tive outros sonhos, que diante da beleza e da magnitude da maternidade se tornaram sonhos outros, sonhos distantes, não porque irrealizáveis, já que Parir, com maiúscula, dá uma sensação de tudo poder, mas distante porque as prioridades são outras e as vontades acompanham risadinhas e mãozinhas na boca.
Em termos profissionais, por mais que ame minha ocupação extra-casa, dá uma vontade muito grande de não voltar quando a licença-maternidade acabar. Porém, trabalhar é preciso, maternar é impreciso, e temos necessidade aqui em casa do meu salário no fim do mês. Ossos da luta pela igualdade de gêneros. Além disso, tenho um projeto profissional em suspenso no espaço etéreo do sonho.
E aí eu me pergunto (e a quem mais quiser responder, claro) para onde vão os sonhos depois que parimos? Porque meu espaço se multiplicou e se expandiu, abarcando outros mundos. Mundos em que Arthur e marido vivem, e meu caminho não pode mais ser trilha, aberta no facão da tentativa-e-erro que tantas coisas exigem. Não penso em pedir demissão, não penso em dar um passo rumo ao impalpável. E sofro sorrindo (porque tenho meus amores a meu lado) porque não sei como e quando dar vazão a minhas aspirações de outrora. Notem bem, não digo que não tenho meus pequenos sonhos, minhas ambições profissionais imediatas e plausíveis. Falo daquela conquista epopeica que, ao lado do parto, fundaria uma Ártemis completamente completa e realizadora das forças em potencial. Claro que trabalho e continuarei a trabalhar, mas onde e quando ousar?
Faz-se necessário, portanto, um mapa. O mapa dos lugares alcançáveis depois da realização de dois grandes sonhos: parir e maternar. Para onde rumar agora que tenho meus olhos postos na plena alegria de querer, lutar, conquistar e ser feliz? Como continuar (em moto contínuo) a ser feliz? Os sonhos param em um momento? Ser feliz é mesmo uma condição imanente aos seres, ou apenas "estamos felizes" e o devir, graça da vida, acabará com tal estado tão logo entremos no rio caudaloso do cotidiano? E se somente "estamos felizes", como manter-se feliz se não sabemos onde os sonhos estão?
Quem souber responder, agradecida. Por enquanto vou feliz, querendo continuar assim por tempos imortais.

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Há um ano

Há um ano, a essa hora, eu engravidei. Tá, mentira que eu sei exatamente quadno eu engravidei, mas as contas deram assim e eu vou fingir que foi assim porque é aniversário da minha gravidez e eu faço o quiser no aniversário da minha gravidez, né?
Achei bom engravidar em setembro porque combinou com essa coisa de querer um parto natural, afinal as fêmeas engravidam, geralmente, na primavera. E com tudo ao redor florescendo, acabei me sentindo ainda mais em sintonia com a natureza. Que beleza!
Mas fora esse motivo meio Discovery Channel, engravidar em setembro faz com que:
- seu primeiro trimestre termine às vésperas do Natal, e aí você pode anunciar a altos brados que está grávida, dando de presente de Natal a boa nova e recebendo em troca 2.784 presentinhos para o bebê  (dos quais, 2.416 serão sapatinhos de crochê) e um óleo de amêndoas para você, ou melhor, para a parte de fora daquilo que carrega o bebê;
- seu verão seja passado com uma barriga modesta, mas já definida, e aí você pode colocar um biquininho fio-dental e... ops! Você pode colocar um biquini de mãe de família (conhecido como sunquini) e até ir para o carnaval fantasiada de havaiana safadinha (coisa que você não fazia desde os 15 aninhos);
- você tenha temperaturas agradáveis nos dois extremos da gravidez, pois enjoará em meio a pólen, flores e temperaturas amenas primaveris, e parirá em meio à neve, se não morar no Rio de Janeiro (porque se morar, parirá mesmo debaixo de um solzaço, num dia quente e que deu praia);
- você possa se cobrir bastante no fim da gravidez, o que é genial, se você, como eu, teve estrias até na testa;
- ao final de todo o processo, você tenha um marido, namorado ou companheiro mais compreensivo, pois, sentirá calor aos 16 graus e ligará o ar-condicionado ou ventilador, enquanto ele se encolhe debaixo de três cobertores. Assim, ele saberá como você se sente sem o combo progesterona-prolactina aloprando sua sensação térmica e será mais parceiro na próxima vez que você pedir "amor, diminui o ar?";
- seu parto caia no inverno. E parir no inverno é ótimo para se enroscar bem enroscadinho com o filhote recém-nascido e curtir o calorzinho gostoso que todo bebê exala!

Diz se não é ótimo engravidar em setembro?!

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Parem as máquinas e suspendam a água!

PAREM AS MÁQUINAS!

É preciso publicar em todos os jornais a notícia mais importante do semestre! Nada de Mensalão, cavaleiros que sugerem cavalos em lugar de cachorros, disputas acirradas pelas eleições que se aproximam. Não, nada disso. O fato mais importante do segundo semestre é: pela primeira vez em minha vida e na vida do Arthur, amamentei um dia inteiro sem sentir uma dorzinha sequer! Mesmo no mamilo mutilado e com Arthur terminando a mamada com um pedacinho do meu seio na boca (achei que fosse uma afta e meti o mãozão: era um pedaço da minha pele). Notem bem: SEM DOR!
Foi ontem. Sem dor, sem traumas, até queria que Arthur pedisse peito. E ele não se fez de rogado: mamou loucamente, dormia de 2 a 3 horas na sequência (e passou a madrugada acordadão, damn it!) e, então, queria mais peitinho. Ô beleza! Até acho que tem mais bochechinha naquele rostinho lindo (mas só saberemos da verdade verdadeira na outra semana, depois da pesagem no pediatra, e não vou criar expectativas novamente).

Além disso, dessa novidade incrível, tenho outra. Aliás, outras. E preciso que suspendam a distribuição de água aqui no Rio, porque ao meu redor tenho QUATRO grávidas. Isso mesmo: quatro grávidas pertinho de mim. A primeira já está na reta final e também será mãe de um menininho. A segunda está com 12 semanas e acabou de descobrir que também será mãe de um rapaz. A terceira está com 9 semanas e ainda não sabe o sexo, e a última acabou de tomar aquele susto do beta. Sabem qual? Aquele em que você abre o exame e lê no resultado uma vírgula no lugar do ponto e acha que 3 mil é 3 vírgula qualquer coisa, e que "deu negativo, droga, bora seguir com a vida... mas peraí, isso é um ponto e estou MUITO grávida". O mais legal é que todas as 4 grávidas querem um parto normal (e duas delas querem um parto normal natural).
Se por um lado eu fico feliz, por outro fico preocupada, pois por mais que esteja amamentando exclusivamente e tenha, então, meus níveis de prolactina na estratosfera, não pretendo engravidar novamente antes de o Arthur completar um aninho. Por isso que passei a beber só água mineral e a evitar banhos prolongados. Vocês já sabem do poder que a água tem quando o assunto é gravidez, né? Eu, então, por via das dúvidas, tô suspendendo toda água que considero suspeita.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - considerações finais

Parir é um ato íntimo e solitário, mas quando um nascimento derruba pré-conceitos e lança a fagulha para que outras mulheres conquistem partos dignos, respeitosos e seguros, trata-se de um ato social. E se estou aqui, relatando o momento mais lindo e íntimo da minha vida, é porque acredito no feminino e tenho a imensa pretensão de plantar a sementinha da dúvida ou da vontade de parir em pelo menos uma mulher que leia meu blog.
Depois de contar a melhor história da minha vida, preciso deixar BEM claro que este é um post político e que eu acredito no parto normal. Acho que é a melhor maneira de nascer e estou mais do que convencida de que o parto normal é para a grande maioria das mulheres, embora estejamos sendo convencidas do contrário. No que eu não acredito é que o tipo de parto determine que uma mulher é melhor ou pior mãe que outra. Obviamente eu sou uma mulher muito realizada por ter planejado e conquistado o parto que considero o melhor para mim e meu bebê, e acho que minha conquista de um parto natural respeitoso, digno e seguro é uma vitória feminina, pois prova que o corpo humano é perfeito para gerar e parir, a despeito das inúmeras (e cada vez mais estaparfúdias) desculpas que médicos e pacientes encontram para cesárias desnecessárias. (Mais sobre as desculpas neste maravilhoso artigo!)
Não me crucifiquem antes de ler este parágrafo até o fim, ok? Considero dever da mulher se informar sobre o que vai acontecer durante gravidez, parto e puerpério, e acho que faz parte da boa e saudável preparação feminina para a maternidade buscar esse tipo de informação. Então, conseguir um parto normal seguro e bacana é responsabilidade, sim, da mulher. No entanto, reconheço que nem todo mundo tem interesse ou facilidade em acessar informações sobre o que acontece durante a gravidez e o parto. Também sei que não é fácil bancar determinadas decisões e escolhas porque há pressão familiar, social e, claro, maternal, porque nasce uma mãe, nasce uma culpada, e por mais que a escolha acalente seu coração, muitas vezes gera uma culpa danada por peitar pessoas em que se confia (familiares, médicos, amigos etc.). Acho, por isso, um absurdo inenarrável que profissionais de saúde se valham de seu lugar privilegiado de "especialistas" para convencer, induzir ou até mesmo enganar uma gestante saudável a respeito da necessidade de uma cirurgia de médio porte em lugar de uma via de nascimento natural e mais segura. Acho inadmissível que médicos e enfermeiros enganem ou induzam seus pacientes a acreditar na necessidade de uma cesária. Se é responsabilidade da mulher se informar sobre gravidez e parto, é obrigação dos profissionais de saúde que a atendem e assistem informar a essa gestante sobre suas condições, opções, riscos e alternativas. A escolha é SEMPRE da mulher. O corpo é dela, o filho é dela e a decisão não pode ser pautada jamais em conveniências do profissional que a atende.
Deveria ser realidade, no Brasil e no mundo, que as mulheres tivessem acesso a informação, para que suas escolhas fossem seguras e pautadas em evidências. Ainda não é assim que funciona, e minha briga política é por que cada vez mais mulheres possam se apossar de seus corpos e decisões, contando com os profissionais de saúde relacionados ao nascimento para auxiliá-la em suas escolhas e decisões, o que torna o parto mais seguro, tanto do ponto de vista emocional quanto do ponto de vista prático. Bons profissionais nunca sonegam ou manipulam informações, eles a partilham e estimulam o conhecimento e o crescimento pessoal. Isso em qualquer área, inclusive na médica.
Esta é minha opinião e espero que ninguém se sinta julgada ou menosprezada por ter sido submetida a uma cesária, desnecessária ou não. Os motivos, as vivências e as escolhas são pessoais e intransferíveis. Minha briga é para que mais mulheres escolham um parto normal e de fato conquistem um parto normal, e que não vivam com a frustração de terem sido induzidas a fazer algo que não queriam (ou que temiam) por mera conveniência alheia (seja em relação a uma agenda pré-organizada e que não pode ser mudada, seja por não querer repensar conceitos e crenças já estabelecidos e comodamente reproduzidos).
Dito isto, fico muito feliz em contar que sou uma mulher realizada porque tive o parto perfeito para mim. Sonhado, planejado e executado com muito amor e entrega, como acontece com todas as coisas boas da vida.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 3

Em dias sem trânsito, a distância entre minha casa e a maternidade é de aproximadamente 10 minutinhos. Era um domingo, meio-dia, não havia trânsito: tive 5 contrações entre minha casa e a maternidade. CINCO. Fui abraçando o banco de trás do carro, com bolsa de água quente na lombar e travesseiro aparando minha barriga. Nas contrações, queria que tirassem a bolsa de água quente, porque aquilo me incomodava demais e eu estava morrendo de calor!
Chegamos na porta da maternidade e a ruazinha que dá acesso ao estabelecimento tinha um carro parado. Marido buzinou e gritou que eu estava parindo. O motorista, que falava ao celular, apenas colocou a mão para fora com o polegar voltado para baixo, como quem diz "quebrou, se vira aí". Marido buzinou de novo e o cara não se mexeu. Daí, a EO virou-se para ele e falou: "vamos empurrar?" Marido mal respondeu e já foi saindo do carro, seguido por ela. Quando eles colocaram a mão no carro enguiçado o motorista saiu, na disposição de brigar, falando "o que está acontecendo? Tirem a mão daí." Marido respondeu: "você está na porta de uma maternidade e minha mulher está parindo!" Na mesma hora o motorista se desculpou e ajudou a empurrar. A cena, então, era: uma mulher descabelada, de saia, top, barrigão de fora, em pleno trabalho de parto, urrando e berrando palavrões no banco de trás do carro, marido e EO empurrando o carro de um estranho mal-educado. Acho muito curioso que eu me lembre com muitos detalhes dessa cena porque, como eu disse, as coisas ficaram um pouco embaralhadas na minha memória e algumas coisas eu não sei se aconteceram antes ou depois de determinados fatos.
Carro empurrado, chegamos na maternidade. Aqui vale uma pausa dramática.
Uma família, dou minha cara a tapa que a mulher tinha agendado a cesária, vinha saindo, com bolas, flores e malas naquele carrinho estilo hotel. Todos ficaram muito chocados com a minha pessoa, descabelada e mal-ajambrada, de chinelo, berrando palavrões e agarrada na minha EO (que é cheia de tatuagens!). Brotou na minha frente uma cadeira de rodas, que eu recusei prontamete porque não conseguia conceber me sentar. A dor triplicava quando eu não podia escolher a melhor posição para aquela contração. Subi (ou desci, sei lá) para o centro cirúrgico somente com a EO, pois marido ficou resolvendo burocracias de internação e depois ia por outro caminho se vestir para entrar no centro cirúrgico (ainda não entendo porque uma sala de parto natural fica dentro de um CC, mas tudo bem). A EO entrou na sala em que se troca de roupa, pegou uma camisola bunda de fora, uma touquinha e pantufas, e pediu que chamassem minha GO. Sei lá como me vesti (exceto pela touquinha, que nem sei onde foi parar) e fui caminhando, meio trôpega, pelos corredores até que minha GO surgiu na minha frente. "Oi! Tudo bem? Eu estava na passeata. Olha, até me pintaram..." Eu fiquei olhando para ela, como se estivesse vendo uma pessoa verde com bolinhas roxas falando em grego arcaico comigo. Bom, eu suponho que esta fosse minha expressão, já que eu não entendi uma palavra do que ela disse e fiquei pensando: "oi? tudo bem? passeata? pintada? o que ela quer dizer com isso?" Seguimos centro cirúrgico adentro e entramos, enfim, na sala de parto humanizado, que era nada mais que um quarto de hospital, com um banheiro dentro do qual havia uma banheira enchendo (eu podia escutar, mas não via nada, porque a porta do banheiro estava fechada), uma cama que virava cadeira e uma luz fraquinha, criando uma penumbra. Depois de me instalar na cama/cadeira, entendi o que a médica dissera ao me encontrar: "ah, a passeata contra a violência obstétrica..." Eu estava meio aérea.
Dentro da sala estávamos eu, minha GO e duas enfermeiras da maternidade. Depois de um tempinho, entraram também marido e a minha querida EO. Em algum momento, já dentro da sala de parto, minha GO perguntou se eu queria tomar o antibiótico para o strepto positiv que tive no fim da gravidez. Havíamos conversado previamente sobre as minhas opções e escolhi tomar. Assim, as enfermeiras da maternidade entraram em ação para colocarem o acesso intravenoso. Achei muito curioso sentir a picada do acesso, pois jurava que depois de dores tão intensas, eu mal sentiria a picada de uma agulha. Ledo engano! Senti, e senti direitinho. Esse, sem sombra de dúvidas, foi o pior momento do parto, em termos de dor. Não por conta da picada, mas porque precisei ficar reclinada na cadeira/cama, e colocaram uma barra de ferro diante de mim (era uma cadeira para parto de cócoras, depois processei a informação. Contudo, sinceramente, não faço ideia de como alguém consegue parir ali em cima. Mas devem conseguir, porque cada mulher é uma e cada parto é único também). Aquela barra de ferro, naquele momento do TP, com contrações tão doloridas e seguidinhas, era uma barreira intransponível entre dores insuportáveis e algum conforto durante as contrações. Não conseguia sair dali e, aboletada naquela cadeira, sem conseguir me libertar (contrações + barrigão + acesso = imobilidade ou maior lentidão), tive três contrações terríveis. TERRÍVEIS. Sentia cada músculo do meu corpo se contrair de dor e experienciei uma coisa que nunca tnha vivido antes: eu tremia de tanta dor. Marido percebeu e, segundo me confessou mais tarde, foi o único momento do parto em que ficou nervoso, pois viu que eu estava sofrendo muitíssimo. Em meio a esse sofrimento intenso, gritei, pedi, implorei (sei lá qual foi meu tom!) que tirassem aquela barra de ferro e que me tirassem dali. Minha GO pediu que eu aguentasse mais um pouquinho porque já estava acabando o antibiótico e eu procurei relaxar ao máximo, sabendo que o sofrimento estava com minutos contados para acabar. Assim que me liberaram para que eu me movesse, só tive forças para virar de frente para a cadeira/cama, me agachar no chão, enfiar a cara nos travesseiros que estavam por ali (alguém deve ter colocado para me dar mais conforto) e urrar a cada contração.
Neste momento a GO e a EO cochicharam alguma coisa entre si e marido logo quis saber o que estava acontecendo. Assim, saíram ele e EO para o corredor do centro cirúrgico. Eu, que estava cheia de hormônio nas ideias mas nã sou boba, fiquei paranoica: o que está acontecendo? onde eles estão? A GO me acalmou, dizendo que marido foi buscar água (e de fato ele foi) e eu aproveitei para pedir água também. Bebi um golinho mínimo e comentei: "é que não quero vomitar." E a GO respondeu: "você vai conseguir, né? Vai passar a gravidez todinha sem vomitar uma única vez." E eu ri em resposta. Marido entrou de novo na sala junto com EO e alguém começou a ajeitar o acesso intravenoso para que eu pudesse me locomover melhor, sem aquele tubo para lá e para cá. Acontece que eu entrei na paranoia ocitocínica e, desesperada, falei: "ai, meu deus, vocês vão me levar para a cesária, né? Foi isso que vocês cochicharam, que eu vou para a cesária. Eu não quero..." Todo mundo riu, porque eles realmente estavam apenas ajeitando o acesso. Porém, os cochichos foram porque eu tive um rebordo de colo e a GO estava esperando que meu corpo desse um jeito sozinho, mas avisou à EO e ao marido que se eu precisasse, ela iria intervir. Felizmente não foi necessário!
Lembro de perguntar à GO quando a coisa ia ficar legal, porque eu sempre havia lido relatos em que a mulher adorava sentir contração e que ficava feliz porque o bebê estava nascendo e eu só queria que aquele ser saísse de dentro de mim logo, e acabasse imediatamente com meus sofrimento (gente, sem romantismos: dói pacas e eu não estava nada feliz que Arthur nascia. Eu só pensava: "tá acabando, tá acabando, tá acabando..."). Fiquei tendo umas contrações agachada (e segundo marido, em um momento eu levantei a cabe;a e exclamei: "Arthur, meu filho, sai logo que sua mãe tá muito zoada") e depois de um tempo (não faço ideia de quanto) minha GO disse que eu poderia fazer força quando sentisse vontade. Eu pensei: "Ela está louca! Eu vou sentir vontade de fazer força com essas dores? De jeito nenhum!" Mas respondi apenas: "Tá bom." O fato é que alguns instantes depois dela falar isso, comecei a sentir uma vontade de fazer força. Não dá para explicar muito bem o que isso significa, era apenas uma vontade de fazer uma força. E eu fiz. Uma, duas, três... e gemi: "Estou com medo!" É que o expulsivo foi, para mim, o momento mais intenso do parto todo. Primeiro porque sempre foi meu grande medo. Eu estava OK com as contrações, mas morria de medo do expulsivo. Além disso, o expulsivo foi um momento muito, muito, muito animalesco para mim. Eu iniciava o movimento de maneira consciente, mas a tal força tomava conta de mim, jogava meu ego para escanteio, e terminava o processo só com o id. Eu começava a força e ela se concluía, sem que eu conseguisse interferir, controlar ou interrromper nada. Uma força brutal, que começava onde outrora estava a boca do meu estômago e agora estava o fundo do útero e seguia contraindo todos os músculos abdominais até o baixo ventre. Foi quando perdi completamente o controle do processo, e fiquei com muito medo. Então, gemi baixinho. E minha super GO escutou, e disse: "Ártemis, lembra quando eu disse que parir é como pular de pára-quedas? Então, você está na porta do avião e vai precisar pular, não tem mais volta!" Isso, de alguma maneira louca me deixou mais calma (eu morro de medo de avião e de pular de pára-quedas. Sabe-se lá por que a metáfora funcionou para me acalmar, né?). Fiz mais um ou duas forças e falei: "Estou sentindo arder!" E pensei: "Círcuclo de fogo. Mas não diziam que o expulsivo não era dolorido? Mentiram para mim. Tudo dói, o tempo todo!" Entre uma força e outra alguém sugeriu que eu me acomodasse melhor, porque estava agachada em frente à cadeira/cama havia muito tempo e sei lá como meus músculos da perna estavam aguentando! Eu respondi, numa frase meio sem-sentido: "Não quero perder o que já conquistei." Marido disse que riu, porque eu estava doidona de hormônios e não fazia o menor sentido essa resposta, mas depois eu expliquei que só estava cansada demais para fazer todo o raciocínio, que era: eu estou sentindo que cada força que faço chego mais perto do fim, e não quero mudar de posição para não correr o risco de perder os centímetros que já conquistei, não quero arriscar me mexer e fazer o bebê recuar no canal de parto. Vai, gente, era uma resposta muito complexa para alguém em pleno expulsivo, cheia de ocitocina na cabeça!
Depois que avisei que sentia arder, devo ter feito umas três ou quatro forças e Arthur fez POP. Foi assim que senti: POP. Um movimento nada suave, de algo desentalando (confessem: este é o relato de parto menos frufruzento que vocês já leram, né? Nada de "oh, que coisa linda, maravilhosa, divina!"). Eu estava com a cara enfiada nos travesseiros, urrando, e não via nada. E estava tão focada nos puxos e nas minhas dores e sensações, que não escutava nada, não percebia muito bem o ambiente. Sei que senti um cheiro de queimado muito forte e falei para minha GO: "Disseram que depois que a cabeça saía parava de doer, mas é mentira. Quando vai ficar bom?" Fiz mais uma força e escutei: "Uma circular de cordão, heim!" Outra força e: "Ártemis, pega o seu filho!" E vi um serzinho de braços abertos, branquelo, chorando horrores, bem embaixo de mim. Vi e pensei: "É meu filho? Eu pari? Esse chinês é meu filho? Eu devo estar com muita cara de idiota, porque não estou entendendo nada e deveria estar sorrindo, chorando, sei lá... Será que esse bebê não está com frio? Preciso aquecê-lo porque não quero ele na incubadora." Daí eu segurei o Arthur. Depois de todos esses pensamentos em um segundo. Segurei, toda atrapalhada, aquele corpinho magricelo, escorregadio, quentinho e macio. Ainda com o cordão ligado a mim. Lembrei que tinha um marido, procurei por ele e, enfim, sorri. Fiquei ainda agachada uns instantes, até que alguém teve a boa ideia de me sentar na tal cadeira/cama. Pedi uns panos para aquecer o Arthur (eu estava muito paranoica de ele perder calor e ir para a incubadora. Vocês se lembram do episódio de visita à maternidade, né? Queria evitar a todo custo a tal "luzinha") e fiquei sentada, contando dedinhos, pensando "nossa, esse bebê tem tantas rugas! E não se parece com ninguém! Nem comigo, nem com meu marido!" e sendo abraçada e beijada pelo marido. Tentei dar de mamar no seio esquerdo, mas não consegui (sempre ele me dando problemas!). Arthur continuava dando demonstrações vocacionais (será cantor de ópera, pois tem um dó de peito daqueles!) até que eu consegui espetar o seio direito em sua boquinha, e ele então mamou por cerca de vinte minutos na asala de parto! A pediatra comentou: "Nossa, como ele mama!" Pois é: tinha uma pediatra na sala de parto e eu só percebi isso quando, logo depois que Arthur nasceu, ela falou: "Esse aí já nasceu chorando. Vai ganhar APGAR 10!" Pois é, Arthur, reza a lenda, colocou a cabeça para fora do meu corpo, com o corpinho ainda dentro de mim, e BERROU. Eu não vi nem ouvi nada, porque estava constatando que o expulsivo não era nada um passeio no campo, como muitas mulheres diziam, embora em um momento bem específico do processo eu tenha sentido certo prazer, porque o bebê passou pelo meu clitóris e foi até gostosinho (mas não se enganem: gostosinho superrápido, porque depois veio uma cacetada de dor). Quando Arthur começou a mamar, alguém apareceu com um novo refletor. Pois é, o refletor da sala de parto QUEIMOU e eu não vi nada (nem ninguém na sala de parto, bem na hora em que Arthur coroou!), pois estava com a cara enfiada nos travesseiros (mas senti o cheiro de queimado, lembram?).
Esperamos o cordão parar de pulsar e marido o cortou. Então esperamos pela placenta, que saiu sem me causar qualquer dor (aliás, muito pelo contrário pois foi com sua saída que todo e qualquer incômodo passou). Aí chegou a hora da verdade. Mas a verdade não era ruim: uma laceração grau 1 (apenas pele), que exigiu uns 4 pontinhos. Tentei negociar, mas a GO disse que era necessário suturar. Ela, então, aplicou anestesia e começou. Eu falei: "Vou me dar ao luxo de reclamar, viu? Tá doendo!"
E doeu mesmo. E mesmo com anestesia o troço incomodou. A curiosidade desse momento foi que eu fiquei com a língua completamente dormente, sei lá por que cargas d'água!
Enquanto eu tomava meus pontinhos, marido desceu com o rebento, para o check-in no berçário. Arthur mediu 50cm e pesou 3,310kg. Nada mal para um bebê saído da minha pequena barriga!
Depois de dados os pontos e de a adrenalina ter baixado, comecei a sentir as pernas tremerem: só naquele momento foi que os meus músculos enfim sucumbiram. Fui ajudada pelas enfermeiras da maternidade a me limpar (eu parecia uma personagem de filme de terror: coberta de sangue dos pés à cabeça) e passei sozinha para a maca que me levaria ao quarto. Assim que cheguei no quarto telefonei para ao berçário e pedi que trouxessem meu filho: não queria ficar mais um segundo sem ele. E então, depois de uns dois minutinhos, chegou marido, empurrando aquele bercinho que tinha meu lindo bebê chinês dentro. Chinês? É. Arthur nasceu com os olhinhos tão puxados que parecia um chinezinho, mas dias mais tarde ele mostrou que não era oriental coisa nenhuma.
Em nenhum momento do meu trabalho de parto e parto eu achei que a coisa não fosse funcionar. O único instante de medo foi no começo do expulsivo. Não tive medo de parir no carro ou em casa, de o TP não engrenar, de eu chegar na maternidade e a coisa estagnar, nada. Não tive medo. Mergulhei, me entreguei. E se tiver outo filho, outro parto, pretendo fazer o mesmo, embora saiba que cada parto é único.
Entrei em TP efetivo por volta das 8 da manhã e às 13h meu filhote já havia nascido.
Não sofri intervenções desnecessárias, meu filho também não. Não ficou na "luzinha", nem foi aspirado, não teve colírio e nem banho. Eu quis a vitamina K injetável e o antibiótico que fizeram em mim.
Eu sambei na cara da sociedade médica intervencionista, pois tive um parto natural, com quadril estreito, bebê de bom tamanho, strepto positivo, circular de cordão.
Espero que da próxima vez, no meu próximo filho, eu tenha a mesma sorte que tive no primeiro: partaço empoderador e maravilhoso (apesar da dor, porque o lelê dói mesmo, porém dá para aguentar, sim!). Mas espero ainda mais que mais mulheres tenham o direito de escolher e de ter sua escolha respeitada na gravidez, parto e pós-parto.

terça-feira, 7 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 2

O processo do parto vocês acompanharam de pertinho aqui: teve gincana, estresse, cansaço, introspecção catártica e recolhimento ao ninho. No dia 16, portanto, sentia, mais uma vez, umas contrações que poderiam sinalizar ou não o início do trabalho de parto. Para tentar dar uma mãozinha para a mãe-natureza, fui caminhar. Escolhi um lugar muito significativo (onde dei o primeiro beijo no homem que hoje é meu marido) e fui com minha família passear: marido, cachorro e filhote na barriga. Eram contrações doloridas, mas espaçadas. Liguei para a enfermeira que me acompanharia e avisei: "Pode engrenar ou não, mas estou avisando que é para deixá-la de sobreaviso."
Cheguei em casa e nada mais aconteceu... até que às duas da manhã, já no dia 17, comecei a sentir contrações suaves, porém ritmadas. Estava na internet, insone (como vinha acontecendo com frequência no fim da gravidez), quando senti umas dores parecidas com cólicas menstruais. Procurei me distrair, mas fiquei de olho na frequência, se estavam vindo com algum ritmo. Não me precupei neste momento em marcar os minutos certinho, apenas via se a cada 10 ou 15 minutos eu tinha tido contrações. Por volta das 4 da manhã, as contrações ficaram mais poderosas e eu não conseguia me concentrar em outra coisa quando elas apareciam: se eu estivesse lendo algo, não conseguia entender muito bem o trecho, se estivesse escutando uma música, não prestava atenção na letra. Meu marido dormia, e confesso que a tentação de acordá-lo foi grande, mas pensei que ele precisaria dirigir e, por isso, não poderia estar muito cansado e eu ainda teria muitas horas de trabaho de parto pela frente. Eu sabia que estava começando o trabalho de parto e passei a contar os intervalos das contrações. Então, às 6 da manhã, eu não conseguia mais cronometrar nada, e acordei meu marido para me ajudar a contar a contrações. Ele, sonado, não levou muito a sério meu pedido porque achou que as contrações fossem estar espaçadas ainda. Quando, às 6h30, ele notou que a cada 3 minutos eu contraía, levantou e passou a anotar tudinho. Perguntou, então, se eu queria entrar em contato com a minha equipe, mas eu ainda achava que era cedo demais (ninguém merece ser acordado num domingo, às 6h30 da matina, para um trabalho de parto ainda no comecinho, né?). A cada contração eu agachava na beirada da cama e soltava uns gritinhos. Também ia muito ao banheiro, porque a impressão que eu tinha era de que eu faria xixi durante as contrações e a última coisa que eu queria era limpar chão em pleno trabalho de parto. Fui levando, com ajuda do maridão, até às 8 da manhã, quando contatei a equipe e comecei a mergulhar mais fundo no processo. As contrações ainda vinham de 3 em 3 minutos, mas estavam mais fortes. Lembro que entre uma contração e outra eu não sentia nada, exceto por uma dor bastante forte e incômoda (mais incômoda que a própria contração) no músculo adutor da perna esquerda assim que a contração passava. Na hora, pelo telefone, comentei o fato com a enfermeira que me acompanharia e não me lembro o que ela disse, mas era normal. Hoje, pensando sobre o assunto, faz todo sentido que eu estivesse estirando/dilatando o meu músculo mais resistente e atrofiado.
Também liguei para minha GO para avisar do progresso (eu já havia telefonado no dia anterior e minha enfermeira tinha contatado ela) e, mais tade, depois de Arthur nascer, fiquei sabendo que minha GO ligou para a minha EO e avisou: "ela está em trabalho de parto, sim, porque está gritando. Você já viu a Ártemis gritar por alguma coisa?"
O combinado era minha enfermeira vir me acompanhar em casa, pelo máximo de tempo que eu aguentasse, até que eu quisesse ir para o hospital. Minha GO seguiria diretamente para a maternidade.
Por volta das 9h30 a enfermeira, então, chegou aqui em casa e foi devidamente recepcionada por meus gritos (que agora já não eram baixinhos como antes, mas mais fortes, intensos e poderosos) e por meu boxer. Não lembro a sequência certinha, mas sei que logo que chegou a enfermeira obstétrica pediu para auscultar o bebê e para verificar a dilatação. Aceitei tudo, mas disse que não queria, de jeito nenhum, saber a quantas andava minha dilatação. Primeiro porque eu estava com dores havia bastante tempo, e elas não estavam fraquinhas, não. Assim, se eu descobrisse que estava com 1cm apenas, depois de tanta dor e de tanto tempo, eu ficaria louca. Disse isso para ela, de maneira um pouco mais dramática ("Se eu estiver com 1cm, me jogo da varanda"). Outra razão para não querer saber da dilatação devia-se ao fato de eu ser muito controladora, e fiquei realmente com medo de saber da dilatação e ficar fazendo contas e previsões sobre quando Arthur nasceria. Eu queria e precisava mergulhar cada vez mais fundo no processo, me entregar às contrações, ao parto e deixar tudo acontecer, sem tentar controlar ou prever qualquer coisa. A EO, então, auscultou o bebê (tudo certo! Tudo lindo!) e verificou a dilatação (já estava com 5cm!). Vendo que as contrações estavam intensas, a EO sugeriu que eu entrasse no banho,o que recusei porque nãoqueria ficar de cabelo molhado, o que me incomoda muito (e, confesso, também pensava que eu teria que pentear cabelo, fiquei com preguiça e com medo de ficar descabelada e parecer muito maluca quando chegasse a hora de ir para a maternidade). Marido aproveitou a chegada dela para levar o cachorro para passear e eu fiquei curtindo minhas dores. Lembro de conversar bastante com a enfermeira (que é uma fofa, uma doçura, super divertida e carinhosa) e também de estar bem contente. Marido aproveitou a saída e, a meu pedido, comprou chocolate e água de côco. Eu sabia que precisava me manter hidratada e, como tenho pânico de vômito, não quis comer nada em grande quantidade, para não correr o risco de vomitar (sim, ocitocina é um hormônio que dá náusea e é bem comum vomitar durante o trabalho de parto). Fiquei mordiscando o chocolate e bebericando a água de côco, mas, para falar a verdade, comi e bebi muito pouco: meu medo falou mais alto.
Em algum momeno entre 10 e 11 da manhã a EO sugeriu que eu trocasse as bolsas de água quente (que eu vinha usando desde cerca das 8h) por um banho quente e eu aceitei. Mas não sem antes vestir uma blusa e justificar para a enfermeira: "não quero ficar com os peitos ao léu, balançando." Eu, heim! Lá fui eu, então, seminua, para o banho. De repente surgiu, sei lá de onde, minha bola de pilates (que eu nem sei onde estava guardada), uma toalha e um chuveiro ligado. Entrei no meu boxe minúsculo com bola e toalha (para sentar em cima e para, caso a bolsa estourasse, a gente pudesse ver a cor do líquido amniótico e contorlar se havia mecônio) e fiquei lá, gemendo alto, gritando, relaxando com a água quente. Para quem se lembra, já falei aqui que meu banheiro dá para o vão central do prédio, então todo mundo ouve todo mundo no banheiro, e se não fecharmos a porta do banheiro, nossa privacidade pode ficar um pouco afetada. No começo do TP, me preocupava em fechar a porta do banheiro cada vezque ia fazer xixi, para que meus gritinhos (e depois gritos e gemidos) não assustassem a vizinhança. Nesse momento, dentro do banho, lembro de ter pensado: os vizinhos vão me escutar, mas que se dane. Tá doendo e ninguém tem nada com a minha vida.
Saí do banho porque senti falta de ar. Não sei como é com vocês, mas eu, às vezes, me sinto meio sufocada em um banho quente. E aquele era um banho beeeeem quente. Me sequei e me vesti (já a roupa que eu havia separado para ir para a maternidade) com a ajuda da enfermeira, que também sugeriu que eu colocasse um absorvente pós-parto (que é IMENSO, quase uma fralda!) para relaxar durante as contrações (lembram que eu ficava com a sensação de que faria xixi?) e para evitar que eu molhasse tudo caso a bolsa estourasse (e, novamente, para garantir que veríamos a cor do líquido). Foi realmente ótimo, porque relaxei bem. Lembro que nesse momento eu notei que as contrações deram uma espaçada e comentei com a enfermeira, que disse ser algo normal, já que eu havia relaxado. Em uma das primeiras contrações pós-banho, ainda sem absorvente, senti uma água escorrer e falei: "acho que minha bolsa estourou." Ela verificou e viu que o líquido estava claro. Isso, confesso, é um grande mistério no meu TP, porque eu jurava que minha bolsa havia estourado ali, naquele momento, e o absorvente serviria para evitar que o líquido, que fatalmente sairia, molhasse tudo. Mas, mais tarde, minha GO, dentro da sala de parto, disse: "Sua bolsa acabou de estourar!" Então, confesso, não faço ideia de quando a bolsa estourou.
Depois do banho a EO perguntou se poderia fazer novo toque e eu permiti, desde que, novamente, ela não me revelasse a dilatação. Assim foi feito e a EO telefonou para a GO. Ao desligar, veio falar comigo: "você decide se quer ir para a maternidade agora ou se prefere esperar mais um pouco." Eu quis ir. E ri: "passei nove meses falando que não queria parir ao meio-dia, e vou parir o meio-dia." A EO disse que eu não iria parir ao meio-dia e começamos a organizar minha ida. Eu queria chegar rápido ao hospital porque as contrações estavam muito fortes e eu não imaginava entrar num carro, ficar restringida em minha liberdade de locomoção e fadada a manter a mesma posição dentro do carro, com dores ainda mais intensas e, quem sabe, até mesmo menos espaçadas. Falei isso com a EO e ela entrou em contato com a GO, que partiu para a maternidade, onde nos encontraríamos. Nosso plano inicial era ir para uma maternidade aqui no Rio que tem sala de parto humanizado, com banheira e ambiente menos "frio" (embora fique dentro de um centro cirúrgico). Só que existem duas dessas maternidades aqui, uma mais perto da minha casa, mas que só tem uma sala de parto humanizado, e outra mais distante, que conta com mais salas desse tipo. Isso significa que nossa ideia inicial era tentar chegar na maternidade com mais salas de parto humanizado, mas eu estava com muitas dores e 9cm de dilatação (embora eu ainda não soubesse disso) e resolvemos ir para a maternidade mais próxima.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 1

Caríssimos leitores, finalmente meu relato de parto (escrito em meio a mamadas, com a mão esquerda e tendo eu os olhos embotados pelas lágrimas - da dor da amamentação, que fique bem claro porque sou uma cronista da vida real e a vida real não é tão cor-de-rosa assim, né?).
Para dar mais dramaticidade, dividi em 4 partes (na verdade, dividi para não cansar a beleza de ninguém. Acontece que sou prolixa pra cacete e mesmo divididinho, o relato é para os fortes). Por favor comentem. Este foi o momento mais importante da minha vida selvagem e estou muito feliz de partilhá-lo com vocês.

***

Quando minha médica entrou no quarto para me dar alta apenas 24 horas depois de eu parir Arthur, ela falou: "Você sambou na cara da sociedade!"
E foi assim mesmo!
Não sambei na cara da sociedade porque tive um parto normal, mas sim porque ouvi, durante muitos e muitos anos que meu corpo não era capaz. E mesmo assim tive um parto normal.
Na infância, meu corpo era incapaz de crescer, engordar e se estruturar da maneira adequada, e passei boa parte dos primeiros anos em dieta alimentar hipercalórica, tomando suplementos vitamínicos e remédios que me ajudassem a metabolizar alimentos. Isso apenas porque eu era uma criança pequena, estilo mignon.
Pois esta criança mignon se tornou uma adolescente mignon e logo após a primeira menstruação uma jovem portadora de uma patologia denominada "ovários policísticos". Mais uma vez, meu corpo não era capaz de produzir. Ou melhor, meu corpo era falho em se reproduzir, e certamente eu precisaria de remédios indutores de ovulação quando decidisse que era hora de engravidar. Além disso, a adolescente mignon se tornou uma adulta pequena, que com 1,60m de altura e meros 42kg, certamente não teria passagem no quadril estreito para um parto normal saudável.
Assim, desde o começo da minha vida eu me via fadada ao fracasso do meu corpo: incapaz de se nutrir, de se manter, de se reproduzir e de parir.
Meu primeiro passo de samba foi quando eu me dei conta de que, mesmo mignon, fui uma criança extremamente saudável: sem nunca ter tido qualquer intercorrência grave até uma apendicite me levar a um hospital em 2010. Fora isso, uma catapora muito da mixuruca e umas gripinhas.
Meu segundo passo de samba foi ter optado, mesmo com meros 17 anos, por não tomar anticoncepcional para "tratar" meus ovários policísticos. Primeiro porque a pílula não trata (ajuda, em muitos casos, claro, mas não é promessa de cura e redenção), segundo porque eu dependeria de conhecer meu corpo para dar o terceiro e muito importante passo de samba: engravidar naturalmente, mesmo tendo a prescrição de indutores de ovulação. Se consegui engravidar sem indutores foi porque pude conhecer meu corpo e suas sutilezas a partir da observação diária. Com calma e paciência, sabia exatamente o que acontecia com meu corpo e quando havia alguma coisa errada (prova disso foi ir ao hospital com uma crise de apendicite tão incipiente que ajudou no processo de recuperação pós-cirúrgico).
O quarto e último passo foi entender que se eu queria um parto natural como eu havia sonhado e planejado, não poderia nunca me deixar nas mãos de um profissional que não confiasse em mim e no meu corpo: saí da ginecologista que me atendia muito satisfatoriamente havia muitos anos e procurei uma profissional cujas ideias se afinassem com as minhas.
E o resultado desse aprendizado foi o grande espetáculo que protagonizei, modéstia a parte, no dia 17 de junho de 2012.

sexta-feira, 3 de agosto de 2012