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domingo, 1 de abril de 2018

É só um momento miserável

Arthur estava dormindo. Eu estava na cama, já quase tomando o mesmo destino quando me sobressaltei com um berro: MÃÃÃEEEEE!
Dei um pulo e em dois segundos estava ao lado dele, que estava visivelmente chateado, mau humorado mesmo.
- O que foi, filho? Quer água?
- Não! (Ainda muito chateado.)
- Quer fazer xixi?
- Não!
- Teve um pesadelo?
- Não, I'm just having a miserable time*.

E durma-se com um vocabulário desses!!

*Tradução: "eu só tô passando por um momento miserável".

terça-feira, 5 de julho de 2016

Arte de fogo

- Mamãe, a gente vai poder fazer arte de fogo?
- Ih, filho, não sei o que é isso, mas me parece meio perigoso, né? Não quer brincar de massinha?
- Ah...
Marido intervém.
- Ártemis, acho que ele quer dizer outra coisa.
- É? O quê?
- Mamãe, arte de fogo, aquilo que brilha.
- Que brilha?
- Ahhh - marido é, então, iluminado. - Fogos de artifício, Arthur?
- É! Isso!

Amanhã volto para contar como foi nosso primeiro 4 de julho em terras norte-americanas cheio de arte de fogo.
;)

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Nomes bilíngues?

Hoje estava em um grupo virtual de mães lendo sobre nomes. Uma moça queria sugestões de nomes que funcionassem tanto em inglês quanto em português, e eu fiquei pensando nisso.
Alguns nomes que surgiram na discussão eram bem furados, como Feliph (isso não funciona aqui nos EUA, precisaria ser Philipe) ou Tiago (para quem não sabe, Tiago em inglês é James, e Guilherme é William). Mas outros eram bem factíveis, como Oliver/Olivia, Sophia, Vivian e Noah.
Se você está nesse dilema, vou dar meus pitacos furados aqui embaixo para ver se ajudo.

O português e o inglês são línguas bastante diferentes. Isso porque a raiz comum entre eles data de muito tempo atrás. O indo-europeu deu origem à maioria das línguas faladas na Europa (e suas posteriores colônias), no Irã e no norte da Índia, mas, certamente, depois de mais de 5 mil anos de diferenciação linguística, as semelhanças que todas essas línguas modernas guardam entre si é pequena. Por que estou falando isso? Porque apesar de o português ter uma origem em comum com o inglês, fazemos parte de dois grupos diferentes: o inglês é uma língua germânica (assim como o alemão, por exemplo) e o português é uma língua neolatina (prima do francês, italiano, espanhol e romance). Dito isto, friso que é praticamente impossível haver um nome que seja exatamente igual, em termos de pronúncia e de grafia, em ambas as línguas. O que temos são nomes cuja grafia pode ser aceita em ambas as línguas ou nomes que não soam estranhos porque foram popularizados pela cultura .
Noah é, para mim, um dos melhores exemplos de como um nome estrangeiro pode ser bem aceito no Brasil. Noah existe em português: Noé. Mas por questões culturais, Noah passou a ser um nome "novo", inclusive muita gente nem sabe que é a tradução de Noé. Alguns outros exemplos de nomes importados que acabaram interpretados como nomes "novos", diferentes de suas traduções, são o já citado James (Tiago) e Elisabeth (Isabel).
Arthur é um bom exemplo de como a grafia estrageira pode ser bem aceita. Em português não temos o som do TH, como no inglês. Como no português o H é mudo, o que fazemos ao ver o TH (assim como acontece com outros nomes, feito Thiago, Nathalia, Martha ou Thomas) é justamente ignorar a letra e entendê-la como um "enfeite". Essa aceitação da grafia diferente acontece também com os nomes Sophia (não temos mais o PH com som de F, como tínhamos até pouco tempo atrás), Olivia (que pelas regras do português culto padrão deveria receber um acento), Thomas (que deveria, pelas regras, ser Tomaz ou Tomás) e Vivian (que deveria receber M ao final). Na verdade, os exemplos são muitos! O Brasil tende a ser bastante flexível, sobretudo se comparado a Portugal, no que diz respeito a aceitar a grafia não aportuguesada dos nomes. Contudo, alguns nomes foram estigmatizados como sendo "de pobre" por questões culturais complexas que não conseguirei explicar aqui. Quero frisar que não compactuo com este preconceito, viu? Por isso, não listarei nome algum que possa ter recebido o estigma. 
A mudança da pronúncia é um caso mais complexo que a grafia, porque acontece e é praticamente impossível de ser evitada na dupla inglês-português. Temos maneiras diferentes de dar ênfase às sílabas e questões fonológicas que influenciam diretamente a ortoépia (modo como as palavras são pronunciadas). Para ficar mais claro, basta pensarmos nos nomes da vogais em inglês. São completamente diferentes do português, então será praticamente impossível termos grafia+pronúncia coincidindo.
Arthur, em casa, se chama "Ar"; já na rua, ele é "Árthur" (com o som do TH e os Rs norte-americanos, claro). O mesmo acontece com nomes já citados aqui e cuja pronúncia muda consideravelmente: Elisabeth (Elizabete X Ezabeth), Thomas (Tomás X Thômas), Philipe (Fipi X lip), Julia (lha X Djúlia), Daniel (Daniél X niel), Laura (ura X ra), Benjamin (que deveria ser grafado Benjamim, segundo as regras do português: Benmim X Bênjamin), Sarah (ra X rah) etc.

Na minha breve experiência aqui, os norte-americanos não costumam ser muito resistentes a nomes "diferentes". Mas vale prestar muita atenção nos equivalentes aos nomes em espanhol, porque alguns deles são bastante populares por aqui. Lembrando ainda que: 1) os mexicanos são a maioria dos imigrantes, atualmente; 2) o espanhol é uma língua MUITO falada aqui; 3) muita gente não sabe MESMO que no Brasil se fala português em vez de espanhol; 4) mesmo que saibam, muitas vezes os anglófonos podem ter dificuldades de compreender o que falamos (assim como nós a eles) e preencherem a lacuna de compreensão com algo que eles já conhecem. Arthur aqui ficou Árthur mesmo porque em espanhol Arthur é Arturo, e eu não curto. Se for para chamar de um modo diferente, que pelo menos seja um que eu não precise soletrar - um trabalho a menos, né? Outra dica importante é que eles não conseguem fazer a nasal do ÃO. Portanto, nomes como João ou Sebastião vão ser pronunciados errado para todo o sempre, amém.

Segue abaixo uma listinha com nomes de meninos e meninas que vão funcionar minimamente nas duas línguas.

Legenda: * mudança na pronúncia
                # grafia diferente em português

Nome em inglês (nome em português)

Alex*
Arthur *# (Artur)
Bruce
Daniel *
David*# (Davi)
Douglas
Erik/Erick/Eric *# (Éric)
Gabriel *
George# (Jorge)
Ian*
Jonas
Jonathan*
Kevin
Logan
Luca
Max*
Luke*# (Lucas)
Martin *# (Martim)
Nathan *# (Natan)
Nicholas *# (Nícolas)
Noel *
Oliver *
Oscar *
Philip # (Felipe)
Robin*
Roger *# (Rogério)
Samuel *
Sidney/Sydney *# (Sidnei)
Thomas *# (Tomás/Tomaz)
Victor *# (Vítor)


Abgail *
Agnes *
Alice *
Amanda *
Angela *
Bernadette *# (Bernadete)
Brenda
Charlotte *# (Charlote)
Chloe *# (Cloé)
Cleo *# (Cléo)
Christina *# (Cristina)
Claudia *# (Cláudia)
Daisy # (Deise)
Deborah *# (Débora)
Diana *
Denise *
Doris # (Dóris)
Elaine *
Eliza *
Elizabeth *# (Elizabete)
Erica *# (Érica)
Erin *
Eunice *
Geraldine *
Glenda
Grace *# (Greice ou Graça)
Helen *# (Helena)
Hilda *
Ingrid
Iris *# (Íris)
Isabel/Isabella # (Isabela)

Jacqueline # (Jaqueline)


E você? Como escolheu o nome dx filhote? Tem alguma sugestão para ser acrescentada aqui?

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Gracinhas bilíngues

No meio da noite, Arthur acorda.
- Mamãe, cadê os policiais?
- Não tem policial nenhum aqui, filho. Só o papai e a mamãe.
- Ah, então foi só um dream?

*

- Mamãe, vamos brincar?
- Vamos.
[brinca, brinca, brinca, até que lá pelas tantas]
- Oba! We did it! Ele está sound and safe!

(de onde esse menino tirou uma expressão idiomática dessas?)

*

Na volta da escola, conversamos:
- Arthur, como foi seu dia?
- Bom.
-Você brincou com quem?
- Com o Ethan.
- Ah, o Ethan.
- Não, mamãe. Não é íítan. É Ethan.
- Tá. Íííthan.
- Não. Ethan.
- Ííítaaaaan.
- Não. Ethan.

(E assim fomos por dois quarteirões inteiros.)

sábado, 21 de março de 2015

Curtinhas bilíngues


1
Lendo um livrinho, estávamos brincando de falar os nomes dos bichos em português e em inglês:
- Aqui, este, meu filho.
- Vaca.
- E em inglês?
- Cow.
- Aquele?
- Ovelha.
- E em inglês?
- Sheep.
E assim fomos, elencando uma arca de Noé, até que chegamos ao pintinho.
- E como é que fala pinto em inglês, Arthur?
- Pint.

2
À mesa do jantar, todos reunidos, Arthur começa a falar em inglês (sabe-se lá por que raios!). Vamos respondendo, brincando, perguntando, interagindo, até que ele pede:
- Can you please give me the suc?
- Whaaaaat?
- The suc, daddy.
E aponta para o suco.


3
Lendo um livrinho (para variar), Arthur pede:
- Mamãe, você pode ler este livro em por-tu-guês?
(Ele pede assim, pausadinho mesmo.)
- Claro.
(E leio.)
- Agora, você pode ler em inglês?
- Claro.
- Agora, mamãe, em chinês.


Filhos bilíngues, fofuras linguísticas em dobro!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Tragam comida. E livros. (Ou: a lapada de final de ano.)

Eu sei que estamos nos últimos suspiros de 2014 e que eu deveria escrever uma retrospectiva aqui, contando todas as coisas bacanudas e desesperadoras que meu rebento de dois anos e meio sabe fazer, falar e viver. Eu sei, mas vocês também sabem que eu não sou muito seguidora desses protocolos internéticos de escrita de blog, né?
[Aliás, se você ainda me lê e me segue, beijo e obrigada!]
Então eu vou escrever mesmo sobre o dia 18 de dezembro.
Eu, a diva das panelas, a apaixonada por cozinha, a toda-poderosa dos pratos e alimentos, a ironia em pessoa, levei arroz, frango, salada e molho para a escola do Arthur. As coisas foram em potinhos desconexos de outras comidas (tipo o arroz, no pote que era de iogurte e a salada, no pote dos salgadinhos que sobraram de uma festa a que fomos) exalando seu inebriante aroma pelas ruas daqui da vizinhança, encheram o ar na antessala da escola e foram parar nas mãos de uma das mães. A filha dela estuda com o meu filho. E ela teve um bebê.
Outra menina. Loirinha igual à irmã. Mas que acorda de hora em hora, diferente da irmã. Os pais estão no clima de "all joy, no fun" dos primeiros dias, sabem? E foi organizado um rodízio entre as mães da turma do meu pequeno para que a (coitada da) nova mãe de duas não precisasse cozinhar nos primeiros dias com o bebezico.
Gente, eu vou repetir, porque só de pensar nisso eu sinto vontade de sorrir e gargalhar, antecipando o júbilo e o regozijo que deve ser receber tal dádiva generosa. AS PESSOAS COZINHARAM PARA ELA! E entregaram comidinhas gostosinhas (menos eu), prontinhas, saudáveis e maravilhosas para que os pais pudessem focar a energia no que era mesmo importante: as filhas.
Ah, que coisa linda! Fiz o frango com gosto (ou com o máximo de gosto que meu horror à cozinha permite) e fiquei realmente feliz de ter dado um presente útil e maravilhoso desses.
E aí eu fiquei pensando, que se eu tiver um segundinho, um dia, em 2026, não vou fazer chá de fraldas uma pinoia! Vou é fazer um chá de comida. Cada pessoa contribui com o valor de uma quentinha saudável e eu passo um puerpério menos miserável.
Aliás, antes disso eu já tinha pensado em outra alternativa ao chá de fraldas ou chá de bebês: o chá de livros, para montar uma tremenda biblioteca para o pequeno.
E por falar em livros, preciso registrar que ando cortando um dobrado com a questão leituras aqui em casa.
Arthur ama, adora, idolatra livros. Lê todos os dias, sem exceção. Fica entretido sozinho, acompanhado, lê no banho, enquanto come, pede até para ler no carrinho (quando não está fazendo menos vinte, tipo hoje). Acontece que (sempre tem um porém, né?) ele só quer que a gente leia os livros para ele em português. A biblioteca daqui é fabulosa e podemos pegar quantos livros quisermos, praticamente. Então sempre vamos até lá e voltamos com alguns títulos. Todos, óbvio, em inglês. Ao chegarmos em casa com os livrinhos novos, filhote quer ler to-dos e, claro, quer que eu leia para ele em português. Alguns livros têm tradução fácil, com estruturas sintáticas simples e palavras conhecidas. Outros, contudo, são difíceis pacas! Outro dia pegamos um sobre uns caminhões que apostavam corrida em uma cidade dos caminhões (Truckville). Cada caminhão tinha um nome e o livro brincava com o abecedário. Impossível casar a tradução, pois a betoneira não caía na letra B e as aliterações eram irreproduzíveis. Me julguem, mas escondi o livro. Depois desse teve o do trem que apostava corrida com um carro esporte (já viram que veículos que correm é hit aqui em casa, né?). Quinze expressões idiomáticas por página e cada vagão tinha um nome diferente de acordo com a função que exercia. Inventei uma história nova, óbvio. E assim vamos. Hoje Arthur escolheu um livro sobre dinossauros que, como se não bastasse ter aqueles nomes escabrosos que eu só sei por causa do Jurassic Park, é todo em versos. Versos sobre dinossauros. Vão vendo...
Então, tudo isso para dizer que nos vemos em 2015. Que eu desejo tudo de bom para vocês e suas famílias. E quem quiser vir me visitar, por favor traga comida e livros. Em português. Agradecida.

sábado, 6 de dezembro de 2014

Aqui!

Cheguei na escolinha (Arthur está na escolinha agora) e uma das professoras estava agachada, como sempre, se despedindo dos alunos. Mas meus ouvidos tupiniquins dispararam o alarme, porque o que ela dizia não parecia nada com um "bye, see you tomorrow". Nem mesmo soava como o "tchau" que ela aprendeu a falar logo na primeira semana. Nem como o "oi", nem como o "tudo bem", todos ensinamentos do meu filho a ela.
Cheguei mais perto. Mais perto. Ela, baixinho, repetia: aqui, aqui, aqui, treinando pronúncia e entonação, repetindo o que Arthur dizia para uma coleguinha mais adiante, tentando devolver à menininha o papel que ela deixara cair no chão.
Nos despedimos com o "tchau, see you tomorrow" de todo dia e eu fui pensando pelo caminho. Não sei se filhote está aprendendo inglês na escola, mas que está ensinando o português, ah, isso ele está!

domingo, 12 de janeiro de 2014

Despedidas

Tem gente que não gosta de despedidas. Esse, definitivamente, não é o caso do Arthur.
Lembram que ainda pequenininho ele aprendeu a dar tchau e me deixou de queixo caído? Pois aqui, já dominando a fina arte do balançar a mãozinha de um lado para o outro, girando-a em seu próprio eixo, Arthur nos surpreendeu de novo.
Tínhamos mais ou menos um mês de vida estadunidense e fomos a um restaurante. Ou melhor, a um "restaurante". Sabem, aquelas redes de comida nada saudável (embora não sanduíche) e cheias de sal e gordura? Então, era um lugar desses, onde fomos parar por necessidade. Arthur ainda estava na fase "vivo de luz, não preciso dessas coisas mundanas que querem me enfiar goela abaixo" e não aceitou a única opção saudável do cardápio, nem nada do que levamos para ele, nem deu a menor pelota para a nossa comida junk. Estávamos, portando, desavisados. Nada no comportamento dele anunciava qualquer mudança.
Pois bem, comemos, bebemos, pagamos e fomos em direção à porta. Na saída, uma mocinha simpática do lugar dá o "obrigada por comerem aqui" do manual de atendimento ao cliente e emenda: bye! Ao que o meu pequeno responde, em alto e bom som, com a mímica relacionada: bye!
Assim, minha gente. Na lata. Dentro do contexto! Balançando a mãozinha, que é para ninguém achar que foi uma coincidência ou algo que ouvimos errado. BYE!
Eu não estava pronta para isso e passei uns bons minutos embasbacada, repetindo para marido que ele dissera "bye" e, claro, pedindo para ele repetir a gracinha.
Agora, o bye-bye está mais do que estabelecido, e nos acompanha com frequência (nem sempre ele está a fim de fazer). Mas eis que outro dia, mais uma surpresa: Arthur termina a mamada, olha para o seio e, com  a mãozinha estendida e balançante, diz: bye!