No restaurante, estamos todos sentados. Cada qual com uma comida diferente, todos almoçando.
Marido se vira para mim e comenta:
- Você devia provar isso aqui. Você vai adorar!
- É? O que tem?
- Ah, quinoa, cenoura e cheiro verde.
Arthur:
- Que Noah?
Eu:
- É o quê, filho?
Ele repete:
- Que Noah é esse?
Marido:
- Noah?
Eu:
- Filho, o papai tava falando de uma comida, a gente não falou em Noah.
Marido:
- É, o papai tava falando para a mamãe que a comida era feita de quinoa...
E o silêncio da súbita compreensão recai sobre nós.
Quinoa, que Noah...
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quarta-feira, 18 de maio de 2016
segunda-feira, 16 de maio de 2016
Arthur e o esmalte
Eu não uso esmalte. A última vez que fiz minha unha deve ter sido no meu casamento, não me lembro. Então, Arthur nunca me vê de unhas pintadas.
Acontece que essa semana me deu vontade de pintar as unhas de dourado. Saí, catei as moedas no fundo da bolsa e comprei um esmalte e um batom. Batom eu uso de vez em quando, logo não causou muita sensação - embora ele tenha ficado hipnotizado quando passei pela primeira vez esta nova cor, além de ter perguntado por que eu tinha colocado aquilo na boca. O esmalte, porém, era novidade absoluta. Pintei as unhas e mostrei para ele.
- Mamãe, o que é isso?
- Esmalte, filho. Tipo uma tinta para as unhas.
- Por que você fez isso?
- Porque achei que ia ser divertido ter unhas coloridas. Gostou?
- Não. [Ah, a sinceridade infantil!] Você pode lavar a mão e tirar?
- Não, filho. Eu vou ficar assim porque eu estou gostando.
- Vai ficar assim para sempre?
- Ah, não. Quando eu quiser, posso tirar.
- E aí?
- E aí eu posso ficar sem ou usar uma cor nova. Eu posso pintar com qualquer cor!
- Azul?
- Até azul.
- Oba!
Acho que vocês já conseguem adivinhar qual vai ser a próxima cor do meu esmalte.
;)
Acontece que essa semana me deu vontade de pintar as unhas de dourado. Saí, catei as moedas no fundo da bolsa e comprei um esmalte e um batom. Batom eu uso de vez em quando, logo não causou muita sensação - embora ele tenha ficado hipnotizado quando passei pela primeira vez esta nova cor, além de ter perguntado por que eu tinha colocado aquilo na boca. O esmalte, porém, era novidade absoluta. Pintei as unhas e mostrei para ele.
- Mamãe, o que é isso?
- Esmalte, filho. Tipo uma tinta para as unhas.
- Por que você fez isso?
- Porque achei que ia ser divertido ter unhas coloridas. Gostou?
- Não. [Ah, a sinceridade infantil!] Você pode lavar a mão e tirar?
- Não, filho. Eu vou ficar assim porque eu estou gostando.
- Vai ficar assim para sempre?
- Ah, não. Quando eu quiser, posso tirar.
- E aí?
- E aí eu posso ficar sem ou usar uma cor nova. Eu posso pintar com qualquer cor!
- Azul?
- Até azul.
- Oba!
Acho que vocês já conseguem adivinhar qual vai ser a próxima cor do meu esmalte.
;)
quarta-feira, 11 de maio de 2016
Sem TV - dicas para reduzir e controlar a exposição às telas.
Já contei que adotamos aqui regras bastante rígidas quanto ao acesso à televisão/tablet. Se tem alguém se perguntando o que fazemos no nosso dia a dia e, quem sabe, o que será que é preciso fazer para também diminuir bastante a quantidade de tempo de exposição dos pequenos às telas, eis meus palpites furados e o que funciona aqui em casa. Obviamente que minha realidade é de gente que trabalha em casa, que tem só um filho, sem necessidades especiais e tal.
Acho que aqui em casa também ajuda bastante o fato de eu não considerar que a TV é um hobby ou bom passatempo. Eu prefiro fazer outras coisas, então meu filho não me vê assistindo à TV. E a gente já sabe que o que fazemos é mais importante do que o que falamos, certo?
- A primeira e mais importante coisa é estar segura de sua decisão. E também que essa seja uma decisão conjunta da casa. Não adianta ser inconsistente (em uma semana não pode nada de TV, mas na outra pode) ou ter gente boicotando a ideia.
Acho que aqui em casa também ajuda bastante o fato de eu não considerar que a TV é um hobby ou bom passatempo. Eu prefiro fazer outras coisas, então meu filho não me vê assistindo à TV. E a gente já sabe que o que fazemos é mais importante do que o que falamos, certo?
- Outra coisa importante é conhecer a personalidade de sxx filhx e entender em qual fase do desenvolvimento cognitivo elx está. Isso vai ajudar a direcionar as energias e interesses, vai permitir que você identifique sinais de cansaço, estresse ou tédio, vai lhe dar mais ferramentas para conduzir e situação como uma pessoa adulta: tendo consciência do que se está fazendo e ajudando a criança a passar pela situação se sentindo amparada e protegida.
- Depois disso, sugiro fazer uma lista (pode ser no papel ou mesmo mental) de comportamentos que você tem observado e que pensa estarem ligados à TV. Isso é importante para que você possa comparar o antes e o depois, identificando possíveis distúrbios que possam estar surgindo e que não têm nada a ver com TV ou falta dela.
- Como cortar a TV? Aos poucos? De uma vez?
- Já que falamos em lista, vale reestruturar a rotina e segui-la ao máximo possível.
Aqui em casa, a rotina é: acorda, brinca, se arruma, vai para a escola, volta da escola, brinca, almoça, descansa (raramente dormimos, mas descansamos corpo e mente), sai para passear, brinca, toma banho, janta, lê livro e dorme. Às vezes mudamos uma coisinha ou outra, tipo banho depois do jantar, ou logo que chega da escola, mas o básico está bem estruturado, com horários mais ou menos certinhos.
- Crie opções e alternativas atraentes. Engaje sxx filhx na rotina da casa também.
Não adianta tirar a TV e deixar a criança entendiada a tarde toda. Tédio, na minha opinião, é importante e necessário. Mas não pode ficar tão grande que se transforme em outra fonte de estresse. Uma atividade que elx goste de fazer, brincadeiras diferentes e feitas a partir de brinquedos e/ou materiais diferentes dos que elx está acostumado, convites para que amiguinhos venham brincar em casa, pedir ajuda para cozinhar ou limpar a casa, dar pequenas tarefas e responsabilidades diárias, tudo isso ajuda a manter a cabeça e o corpo ocupados. Existem mil sites com sugestões de atividades, ligados à Dona Maria ou não, com materiais tão acessíveis quanto lixo (sucata) e que não demandam grandes habilidades artísticas e/ou manuais.
- Deixe bem claro para a criança que TV não é prêmio e sugiro não negociar bom comportamento com mais horas na frente da telinha. No meu caso, eu quero que meu pequeno entenda que TV é bacana, mas tem momento certo para ser assistida e que existem muitas outras coisas bacanas no mundo, que é grande e merece ser explorado.
Aqui em casa eu regulo bem reguladinho o que ele assiste. Dói no coração falar que ele não vai assistir ao desenho que todos os amiguinhos assistem? Dói. Mas se eu não acho que aquele desenho ou filme é próprio para a idade dele ou até mesmo para a personalidade dele, veto mesmo. Mais uma vez, a mensagem que quero passar é: tem outros desenhos e filmes que também são legais.
E vocês? Como lidam com a TV em casa? Têm estratégias ou regras para reduzir a exposição dos pequenos às telinhas? Vivem uma rotina também com isso?
segunda-feira, 9 de maio de 2016
Sem TV
Um dia eu estava descendo as escadas da escola do Arthur papeando com uma das mães da sala dele. Falávamos sobre amenidades, até que a mãe comenta que a filha está viciada em algum personagem do qual não me lembro o nome. Digamos que fosse algum do Frozen, que ainda não assisti.
Bom, eu não ia comentar nada, porque, geralmente, quando fazia comentários sobre o assunto, causava espanto e rancor. Mas ela perguntou. E eu não tinha como mentir em inglês - em português dá para raciocinar mais rápido e sair pela tangente, neam?
Arthur não assistia TV.
- Nunca?
- Nunca.
- Mas nem...?
- Nem.
- Como você faz?
- Ué, não tenho TV em casa e não mostro filmes pra ele.
- Tá, mas o que ele faz o dia todo?
- Brinca, vê as figurinhas dos livros, sai para passear...
- Nossa, você é uma ótima mãe.
Sou? Não por isso. Definitivamente, não se mede a qualidade de uma mãe assim, tão de bate-pronto, tendo apenas um item como referência.
Mas, sem sombras de dúvida, fui uma mãe pior quando liberei a TV aqui em casa.
(Pausa necessária: se você leu até aqui e, em algum momento do texto, entendeu que estou criticando quem coloca filhx para ver televisão, convido que volte ao texto e releia. Este é o meu blog, onde conto coisas que aconteceram comigo. Cada mãe sabe onde o(s) calo(s) aperta(m) e não cabe a mim julgar nada.)
Eu acho televisão um pé no ovário! Não tenho a menor paciência, não gosto do modelo, não gosto da ideia de grade, não suporto anúncios entre os blocos do programa. A TV on demand, aquela que você escolhe o que e quando assistir, fez mais minha cabeça, mas ainda assim não sou muito afeita à mídia. Prefiro internet. Prefiro outros hobbies.
Quando Arthur morava na pança, eu já não queria muito que ele assistisse TV. Mas quando ele saiu, comecei a ler, pesquisar e muitos estudos apontavam que havia mais malefícios que benefícios na exposição de pequenos às telas, tanto na parte física quanto na psicológica. Também me incomodava a questão do consumismo infantil e da propaganda direcionada às crianças. Por causa dessas convicções e prioridades, de um modo geral, posso dizer que Arthur, de zero a dois anos, teve praticamente nada de exposição a televisão, tablets ou computadores. Óbvio que às vezes ele assistia a uma coisa ou outra, pois não era proibido, mas nunca foi um hábito ou algo estimulado por nós aqui em casa.
No começo da nossa estada aqui, consegui manter a rotina telinha free. Era cansativo, sem dúvida, às vezes meio estressante por conta dos longos períodos trancada dentro de casa por conta do mau tempo. Mas sobrevivemos.
Acontece que depois dos dois anos fiquei bem cansada. As noites ainda picotadas, a rotina extenuante, um filho muito mais ativo e cheio de energia, que não se entretia mais facilmente apenas com meia dúzia de brinquedos e, é claro, o fim da soneca salvadora da tarde contribuíram para um estado de exaustão completa da minha parte. Então um dia, com a desculpa de ir lavar louça, deixei ele assistindo uma coisinha no Netflix. No outro, um vídeo no YouTube. Com a desculpa do estímulo ao português, apresentei desenhos brasileiros. Veio o Amazon Prime, com outros filmes e desenhos. O fato é que, quando eu vi, tinha sido incorporado ao nosso cotidiano muito mais telinha do que eu gostaria que tívessemos em nossas vidas. Arthur já não queria fazer coisas bacanas se elas significassem abrir mão do vídeo. Arthur já brincava com roteiros pré-concebidos das histórias que tinha visto. Arthur desligava do mundo e de mim por quanto tempo ficasse na frente da tela. Arthur começou a ficar difícil. Muito choro, agressividade, irritabilidade, falta de concentração, falta de foco e de empatia, ansiedade, até pesadelos frequentes. Eu, matando os mil leões diários. Marido, idem. Comecei a me perguntar como romper esse círculo vicioso. Até que um dia ele bateu num amigo da escola.
Foi a gota d'água para nós.
Conversamos com Arthur e explicamos que a partir daquele dia, não haveria mais vídeo.
Arthur só pode assistir vídeo nas manhãs de domingo. Fora isso, zero, nada, necas.
Houve muito choro e ranger de dentes nos dois primeiros dias. Mas depois de passado este período, meu menino voltou! Centrado, seguro, risonho, disposto a sair e brincar e explorar, carinhoso, empático. Claro que apronta umas e reage de maneira desproporcional às vezes. Ele tem 3 anos, afinal. No entanto, ele faz isso dentro da personalidade dele.
"Mas, Ártemis, aqui é impossível fazer isso porque..."
Não estou aqui para doutrinar ou julgar alguém. O que tinha em mente ao escrever este post eram duas coisas: 1) destacar a mudança de comportamento que observei tanto quando entramos no círculo vicioso quanto quando entramos no círculo virtuoso; 2) provocar uma auto-reflexão nas mães que estão incomodadas com a quantidade de televisão que x(s) filhx(s) está(estão) assistindo, perguntando se elas não estariam abrindo mão de algo importante para elas em nome de uma comodidade que de repente nem é tão cômoda assim.
"Tudo muito lindo, tudo muito maravilhoso. Mas o que eu faço com essa criança, então?"
Ah, isso é assunto para outro post.
;)
Bom, eu não ia comentar nada, porque, geralmente, quando fazia comentários sobre o assunto, causava espanto e rancor. Mas ela perguntou. E eu não tinha como mentir em inglês - em português dá para raciocinar mais rápido e sair pela tangente, neam?
Arthur não assistia TV.
- Nunca?
- Nunca.
- Mas nem...?
- Nem.
- Como você faz?
- Ué, não tenho TV em casa e não mostro filmes pra ele.
- Tá, mas o que ele faz o dia todo?
- Brinca, vê as figurinhas dos livros, sai para passear...
- Nossa, você é uma ótima mãe.
Sou? Não por isso. Definitivamente, não se mede a qualidade de uma mãe assim, tão de bate-pronto, tendo apenas um item como referência.
Mas, sem sombras de dúvida, fui uma mãe pior quando liberei a TV aqui em casa.
(Pausa necessária: se você leu até aqui e, em algum momento do texto, entendeu que estou criticando quem coloca filhx para ver televisão, convido que volte ao texto e releia. Este é o meu blog, onde conto coisas que aconteceram comigo. Cada mãe sabe onde o(s) calo(s) aperta(m) e não cabe a mim julgar nada.)
Eu acho televisão um pé no ovário! Não tenho a menor paciência, não gosto do modelo, não gosto da ideia de grade, não suporto anúncios entre os blocos do programa. A TV on demand, aquela que você escolhe o que e quando assistir, fez mais minha cabeça, mas ainda assim não sou muito afeita à mídia. Prefiro internet. Prefiro outros hobbies.
Quando Arthur morava na pança, eu já não queria muito que ele assistisse TV. Mas quando ele saiu, comecei a ler, pesquisar e muitos estudos apontavam que havia mais malefícios que benefícios na exposição de pequenos às telas, tanto na parte física quanto na psicológica. Também me incomodava a questão do consumismo infantil e da propaganda direcionada às crianças. Por causa dessas convicções e prioridades, de um modo geral, posso dizer que Arthur, de zero a dois anos, teve praticamente nada de exposição a televisão, tablets ou computadores. Óbvio que às vezes ele assistia a uma coisa ou outra, pois não era proibido, mas nunca foi um hábito ou algo estimulado por nós aqui em casa.
No começo da nossa estada aqui, consegui manter a rotina telinha free. Era cansativo, sem dúvida, às vezes meio estressante por conta dos longos períodos trancada dentro de casa por conta do mau tempo. Mas sobrevivemos.
Acontece que depois dos dois anos fiquei bem cansada. As noites ainda picotadas, a rotina extenuante, um filho muito mais ativo e cheio de energia, que não se entretia mais facilmente apenas com meia dúzia de brinquedos e, é claro, o fim da soneca salvadora da tarde contribuíram para um estado de exaustão completa da minha parte. Então um dia, com a desculpa de ir lavar louça, deixei ele assistindo uma coisinha no Netflix. No outro, um vídeo no YouTube. Com a desculpa do estímulo ao português, apresentei desenhos brasileiros. Veio o Amazon Prime, com outros filmes e desenhos. O fato é que, quando eu vi, tinha sido incorporado ao nosso cotidiano muito mais telinha do que eu gostaria que tívessemos em nossas vidas. Arthur já não queria fazer coisas bacanas se elas significassem abrir mão do vídeo. Arthur já brincava com roteiros pré-concebidos das histórias que tinha visto. Arthur desligava do mundo e de mim por quanto tempo ficasse na frente da tela. Arthur começou a ficar difícil. Muito choro, agressividade, irritabilidade, falta de concentração, falta de foco e de empatia, ansiedade, até pesadelos frequentes. Eu, matando os mil leões diários. Marido, idem. Comecei a me perguntar como romper esse círculo vicioso. Até que um dia ele bateu num amigo da escola.
Foi a gota d'água para nós.
Conversamos com Arthur e explicamos que a partir daquele dia, não haveria mais vídeo.
Arthur só pode assistir vídeo nas manhãs de domingo. Fora isso, zero, nada, necas.
Houve muito choro e ranger de dentes nos dois primeiros dias. Mas depois de passado este período, meu menino voltou! Centrado, seguro, risonho, disposto a sair e brincar e explorar, carinhoso, empático. Claro que apronta umas e reage de maneira desproporcional às vezes. Ele tem 3 anos, afinal. No entanto, ele faz isso dentro da personalidade dele.
"Mas, Ártemis, aqui é impossível fazer isso porque..."
Não estou aqui para doutrinar ou julgar alguém. O que tinha em mente ao escrever este post eram duas coisas: 1) destacar a mudança de comportamento que observei tanto quando entramos no círculo vicioso quanto quando entramos no círculo virtuoso; 2) provocar uma auto-reflexão nas mães que estão incomodadas com a quantidade de televisão que x(s) filhx(s) está(estão) assistindo, perguntando se elas não estariam abrindo mão de algo importante para elas em nome de uma comodidade que de repente nem é tão cômoda assim.
"Tudo muito lindo, tudo muito maravilhoso. Mas o que eu faço com essa criança, então?"
Ah, isso é assunto para outro post.
;)
sexta-feira, 6 de maio de 2016
O rolo do rolo
Arthur me pediu leite. Aqui, ele vem em galão, pesado, difícil de manobrar e jarro com leite na geladeira dá aquele gostinho, né? Então dona Maria que me desculpe, mas nada de Montessori para pegar leite aqui em casa. Fui lá eu.
Arthur resolveu fazer xixi. Fez. Deu descarga. E de novo.
Opa! Duas descargas?
O alerta "deu ruim" começou a tocar e perguntei, com a voz doce, tentando administrar o leite e a calma ao mesmo tempo:
- Filhinho, tudo bem? O que aconteceu?
- Nada, mamãe. Caiu um papel no vaso e eu dei a descarga.
- Ah, tá bom. Então lava a mão e vem buscar seu leite.
Alguns minutos depois derrubei um pouco de café no chão e limpei com papel toalha. Cansada, pensei: ah, vou jogar no vaso mesmo, tá tão mais perto que a lixeira. Joguei.
Noé deve ter sentido a mesma angústia que senti vendo aquela enchente de água de privada se aproximando da borda do vaso. A diferença era que Noé sabia o que estava acontecendo porque deus avisou e quando tudo passou, ele não precisou pegar pano nenhum para limpar água de privada. Portanto, pensando bem, talvez eu tenha ficado mais nervosa e angustiada que Noé.
Felizmente, não transbordou, mas não restava qualquer dúvida de que o vaso estava entupido.
Ora, por mais que a tubulação aqui seja velha, uns pedaços de papel toalha não causam este estrago todo. Foi quando me lembrei das duas descargas que ouvi.
- Filho, lembra quando caiu o papel no vaso?
- Lembro.
- Que papel era esse?
Ele pega um dos milhares rolos vazios de papel higiênico que guardo para fazer brinquedinho reciclado.
- Aqui, ó.
Cogitei chorar. Cogitei fugir. Amaldiçoei minha vocação crafter.
Mas a água ainda fluía, por isso apenas pensei que papel se dissolve na água, né? Era, portanto, tudo uma questão de tempo.
Só que dois dias depois as coisas não iam mais bem. O papelão do rolo não se dissolvia e as muitas descargas que dei na esperança de fazer descer o cilindro, na verdade, devem tê-lo girado, e a água passou a não mais descer. Ou melhor, descia a proporções nanométricas. E paciência tem limite, sobretudo quando estamos falando do único vaso da casa.
Fui a uma loja de ferramentas e utilidades domésticas. O vendedor da loja acabou com as minhas esperanças de comprar uma coisa tipo o bom e velho diabo verde. Mas this is USA, minha gente, e não há problema, real ou inventado, crônico ou agudo que não tenha uma invenção revolucionária para exterminá-lo. O moço, então, me puxou para outro corredor da loja, apontou uma parafernalha estranha e me jurou de pés juntos que uma geringonça que parecia a mistura de uma vara de pescar com manivela para desenrolar cortina de estabelecimento comercial era o que eu precisava. Não tinha muita alternativa a não ser acreditar naquilo.
Voltei com o trambolho na mão, depois de um dia intenso, com direito a compras de supermercado e devolução de livros na biblioteca. Tudo que eu não queria era labutar no vaso. Mas fui eu lá, labutar, lá botar a geringonça no vaso.
Olhei descrente para a vareta. Arthur fez o mesmo. Perguntei:
- Será que vai funcionar, filho?
- Quero ajudar mamãe!
O troço tem uma mola meio brocha que sai de um tubo ligado a uma manivela que não entendi para o que servia. Um mistério que nem a tarja com instruções resolveu. Evoquei a lembrança do vendedor me explicando como deveria usar o aparelho e decidi arriscar. Primeira tentativa e eu achei que nada aconteceu. Nível de água nojenta preservado. Empurrei o cabo e dei uma girada discreta na manivela. Nada. Mais força, Arthur tentando me ajudar, eu tentando preservar meu filho da queda que parecia inevitável naquela água radioativa, mais força, filhinho chega mais para cá, até que... POFT! Funcionou. A água escoou. Puxei a descarga e, sim, o rolo desceu, que alegria! que júbilo!
Virei para Arthur:
- Ah, meu filho, olha, funcionou - dizia eu, visivelmente emocionada, como se o vaso tivesse cantado lindas músicas na festinha de dia das mães para mim.
Ao que meu rebento, igualmente animado, responde:
- Oba, mamãe! Agora eu posso jogar outro rolo lá dentro, porque o aparelho funciona!
Arthur resolveu fazer xixi. Fez. Deu descarga. E de novo.
Opa! Duas descargas?
O alerta "deu ruim" começou a tocar e perguntei, com a voz doce, tentando administrar o leite e a calma ao mesmo tempo:
- Filhinho, tudo bem? O que aconteceu?
- Nada, mamãe. Caiu um papel no vaso e eu dei a descarga.
- Ah, tá bom. Então lava a mão e vem buscar seu leite.
Alguns minutos depois derrubei um pouco de café no chão e limpei com papel toalha. Cansada, pensei: ah, vou jogar no vaso mesmo, tá tão mais perto que a lixeira. Joguei.
Noé deve ter sentido a mesma angústia que senti vendo aquela enchente de água de privada se aproximando da borda do vaso. A diferença era que Noé sabia o que estava acontecendo porque deus avisou e quando tudo passou, ele não precisou pegar pano nenhum para limpar água de privada. Portanto, pensando bem, talvez eu tenha ficado mais nervosa e angustiada que Noé.
Felizmente, não transbordou, mas não restava qualquer dúvida de que o vaso estava entupido.
Ora, por mais que a tubulação aqui seja velha, uns pedaços de papel toalha não causam este estrago todo. Foi quando me lembrei das duas descargas que ouvi.
- Filho, lembra quando caiu o papel no vaso?
- Lembro.
- Que papel era esse?
Ele pega um dos milhares rolos vazios de papel higiênico que guardo para fazer brinquedinho reciclado.
- Aqui, ó.
Cogitei chorar. Cogitei fugir. Amaldiçoei minha vocação crafter.
Mas a água ainda fluía, por isso apenas pensei que papel se dissolve na água, né? Era, portanto, tudo uma questão de tempo.
Só que dois dias depois as coisas não iam mais bem. O papelão do rolo não se dissolvia e as muitas descargas que dei na esperança de fazer descer o cilindro, na verdade, devem tê-lo girado, e a água passou a não mais descer. Ou melhor, descia a proporções nanométricas. E paciência tem limite, sobretudo quando estamos falando do único vaso da casa.
Fui a uma loja de ferramentas e utilidades domésticas. O vendedor da loja acabou com as minhas esperanças de comprar uma coisa tipo o bom e velho diabo verde. Mas this is USA, minha gente, e não há problema, real ou inventado, crônico ou agudo que não tenha uma invenção revolucionária para exterminá-lo. O moço, então, me puxou para outro corredor da loja, apontou uma parafernalha estranha e me jurou de pés juntos que uma geringonça que parecia a mistura de uma vara de pescar com manivela para desenrolar cortina de estabelecimento comercial era o que eu precisava. Não tinha muita alternativa a não ser acreditar naquilo.
Voltei com o trambolho na mão, depois de um dia intenso, com direito a compras de supermercado e devolução de livros na biblioteca. Tudo que eu não queria era labutar no vaso. Mas fui eu lá, labutar, lá botar a geringonça no vaso.
Olhei descrente para a vareta. Arthur fez o mesmo. Perguntei:
- Será que vai funcionar, filho?
- Quero ajudar mamãe!
O troço tem uma mola meio brocha que sai de um tubo ligado a uma manivela que não entendi para o que servia. Um mistério que nem a tarja com instruções resolveu. Evoquei a lembrança do vendedor me explicando como deveria usar o aparelho e decidi arriscar. Primeira tentativa e eu achei que nada aconteceu. Nível de água nojenta preservado. Empurrei o cabo e dei uma girada discreta na manivela. Nada. Mais força, Arthur tentando me ajudar, eu tentando preservar meu filho da queda que parecia inevitável naquela água radioativa, mais força, filhinho chega mais para cá, até que... POFT! Funcionou. A água escoou. Puxei a descarga e, sim, o rolo desceu, que alegria! que júbilo!
Virei para Arthur:
- Ah, meu filho, olha, funcionou - dizia eu, visivelmente emocionada, como se o vaso tivesse cantado lindas músicas na festinha de dia das mães para mim.
Ao que meu rebento, igualmente animado, responde:
- Oba, mamãe! Agora eu posso jogar outro rolo lá dentro, porque o aparelho funciona!
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Fuéééém
Era uma festa diferente. A comemoração estava marcada para acontecer em uma loja-ateliê aqui perto. A aniversariamente era apenas um nome para mim.
Voltei para casa com a sensação de ter saído de uma rave, mas acho que entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
Compramos presente, colocamos roupa bonita, até passei perfume!
Tudo estava correndo dentro dos conformes de normalidade social: nada de bolo na cara do amiguinho, nada de arremesso de argila no teto (sim, era um ateliê de peças de cerâmica e a brincadeira era colocar as crianças para fazer uma tigela). Tudo tranquilo, tudo favorável.
Claro que meu filho era o único a correr por ali. Óbvio que ele foi o único que preferiu esculpir um dinossauro de argila a fazer o que o dono do ateliê nos instruiu a fazer. É evidente que ele começou a cantar BEM ALTO o parabéns porque queria comer logo o bolo. Mas, sinceramente, nada assombroso ou altamente vexatório. Vida que segue e ainda bem que a festa só dura uma hora e meia.
Bom, depois do lanche e do parabéns, estando todas as crianças devidamente munidas de tédio + cornetas e chapéus comemorativos + bastante açúcar no sangue, começou uma pequena algazarra. Não havia correria e nem gritos histéricos, mas "calmas" não era uma definição boa para aquelas crianças.
Arthur, então, resolveu ir interagir com a aniversariante. Eles se davam surpreendentemente bem (surpreendente porque a menina não é muito citada aqui em casa quando pergunto como foi a escola). Eles têm o mesmo nível de energia e potencial de fazer bobagens. Estava lindo.
Foi quando eu vi.
Eu me levantei do banquinho, calça toda suja de barro em seus diversos estados (a saber: sólido, semisólido, líquido e poeira), tentando chegar antes que Arthur começasse a interagir com a MÃE da aniversariante. Acontece que os traquinas estavam todos fartos e zanzavam, os pais ao encalço para evitarem tragédias com as peças delicadas, e, então, não consegui nada além de assistir de longe a interação.
A moça foi chegando perto do Arthur, falando:
- Noooooossa, mas que olhos bonitos que você...
FUÉÉÉÉÉÉÉM
Arthur deu-lhe uma cornetada na fuça. A moça ganhou distância e tentou mais uma vez elogiar o meu rebento munido de corneta, mas desistiu a tempo e eu só cheguei, pateticamente, para falar:
- Filhinho, espaço pessoal, lembra?
Voltei para casa com a sensação de ter saído de uma rave, mas acho que entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
quarta-feira, 30 de março de 2016
Que syrup é esse?
Era meu dia de ficar na cama até mais tarde. Marido, portanto, acordou e foi preparar o café da manhã. Só que fiquei naquele estágio entre o sono e o despertar, ouvindo o amanhecer dos dois. Ora dormia e sonhava, ora acordava e escutava conversas e barulhinhos matutinos, feito café sendo coado e talheres batendo de leve no prato.
Até que Arthur pergunta:
- Papai, que syrup é esse?
Aquilo entrou nas profundezas dos meus devaneios sonolentos e eu sabia que havia alguma coisa se debatendo debaixo da superfície idílica, alguma coisa que queria sair, que precisava sair. Syrup? Será que meu cérebro está preocupado com troca de códigos linguísticos a esta hora da manhã? Não pode ser. Será que estou em um estado tal de estresse que preciso controlar tudo o que acontece mesmo que eu saiba que tudo está bem e todos estão em segurança? Será que estou pensando na lista de compras quando deveria estar sonhando com massagens e piña-coladas à beira-mar? Será que eu sei de alguma coisa que eles também precisam saber?
SIM!
- Ei - gritei eu das fossas abissais de meu torpor sonolento -, isso aí não é xarope de bordo! Vocês estão colocando azeite temperado com alho na panqueca!
Lição do dia: se for reciclar potinhos de vidro, escreva bem grande no rótulo qual a NOVA substância que está ali dentro.
Até que Arthur pergunta:
- Papai, que syrup é esse?
Aquilo entrou nas profundezas dos meus devaneios sonolentos e eu sabia que havia alguma coisa se debatendo debaixo da superfície idílica, alguma coisa que queria sair, que precisava sair. Syrup? Será que meu cérebro está preocupado com troca de códigos linguísticos a esta hora da manhã? Não pode ser. Será que estou em um estado tal de estresse que preciso controlar tudo o que acontece mesmo que eu saiba que tudo está bem e todos estão em segurança? Será que estou pensando na lista de compras quando deveria estar sonhando com massagens e piña-coladas à beira-mar? Será que eu sei de alguma coisa que eles também precisam saber?
SIM!
- Ei - gritei eu das fossas abissais de meu torpor sonolento -, isso aí não é xarope de bordo! Vocês estão colocando azeite temperado com alho na panqueca!
Lição do dia: se for reciclar potinhos de vidro, escreva bem grande no rótulo qual a NOVA substância que está ali dentro.
terça-feira, 29 de março de 2016
Ele é sempre assim?
É uma das frases que eu mais ouço. E eu nem sei por quê. Minhas olheiras deveriam bastar. Mas não bastam, e eu respondo pelo menos uma vez por dia: é, ele é sempre assim.
Um bólido, um dínamo, um ás, um foguete. Zuuuuuuum. Corre, pula, rola, grita, quer tudo agora, quer tudo rápido. Zuuuuuuuuuum. Já foi, não pode tirar o olho um segundo, caiu, levantou, tá lá de novo, já passou.
Ele é sempre assim?
Sempre. Mas não vai ser assim para sempre.
Vai crescer. Vai parar de correr, vai parar de rolar, vai se interessar por outras energias, outras maneiras de explorar o mundo. Pode ser que continue indômito. Pode ser que se transforme. Podem ser tantas coisas, que agora eu prefiro ficar com ele, do jeitinho que ele está, sem tirar nem pôr esses quatro anos que vêm chegando a passos largos: no rosto, no corpo, no cérebro. Quatro anos e ainda cabe no meu colo, embora pareça, cada vez mais, transbordar do meu coração.
Um bólido, um dínamo, um ás, um foguete. Zuuuuuuum. Corre, pula, rola, grita, quer tudo agora, quer tudo rápido. Zuuuuuuuuuum. Já foi, não pode tirar o olho um segundo, caiu, levantou, tá lá de novo, já passou.
Ele é sempre assim?
Sempre. Mas não vai ser assim para sempre.
Vai crescer. Vai parar de correr, vai parar de rolar, vai se interessar por outras energias, outras maneiras de explorar o mundo. Pode ser que continue indômito. Pode ser que se transforme. Podem ser tantas coisas, que agora eu prefiro ficar com ele, do jeitinho que ele está, sem tirar nem pôr esses quatro anos que vêm chegando a passos largos: no rosto, no corpo, no cérebro. Quatro anos e ainda cabe no meu colo, embora pareça, cada vez mais, transbordar do meu coração.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Treta Park
Era um dia de sol. O parquinho, portanto, estava populado: duplas de irmãos corriam aqui, trios de amigos se balançavam acolá, Arthur pulava na caixa de areia. Tudo normal.
Até que o fantasma da treta, o Tretageist, chegou.
O Tretageist é primo do famoso Poltergeist, de quem tem um pouco de inveja e ciúme.
O Tretageist não traz pedras e nem arrasta móveis e objetos. Não! Ele, na verdade, se esconde atrás da polêmica, se alimenta da dinâmica pré-conceituada e de pataquadas e, em vez de se manifestar através de objetos, ele se faz presente em meio às pessoas. Sabe aquela frase infeliz que, assim que saiu da sua boca, você já sabia que ia dar treta com seu irmão? Foi ele. E aquele comentário da sua filha, na hora errada e para a pessoa errada? Ele também. Ultimamente, tretinha encontrou um novo habitat muito confortável e rico em alimentos, e lá tem ficado muitas horas do dia: o Facebook. É treta atrás de treta, de grupos sobre maternidade a páginas pessoais, passando por postagens de empresa e até mesmo chegando ao mundo acadêmico! Mas não se enganem, não. Tretageist não marca touca na vida real e basta um mísero descuido e ele – pá! – se manifesta. Em qualquer língua ou localidade geográfica.
Então estávamos nós no parquinho, fazendo as coisas normais de parquinho – a saber: correndo descabelada atrás da criança, segurando o balanço que ia acertar a boca do garoto brincando de pega-pega, agarrando o tornozelo da garota que ia caindo do trepa-trepa etc.
Mas Arthur, possuído pelo ritmo da Ragatanga e pelo Tretageist, resolveu empurrar um moleque. Chamei atenção, tudo bem, vida que segue. De novo. Chamei atenção, alertei que era o segundo aviso, o terceiro ele sabe que é casa, parou, pediu desculpas. Foi brincar em outro canto. Mas, uma vez evocado o Tretageist, é difícil se livrar dele. Ele curte brincar com efeito dominó. Então o moleque empurrado pelo Arthur resolveu descontar a frustração de ter sido empurrado em outro garoto. Empurrou. Mas o garoto era mais velho, fez que não viu o Tretageist por trás dos olhos empesteados do moleque e seguiu adiante. O moleque foi atrás. De novo. Mas a mãe dele não chamou atenção, nem avisou, nem notou, na verdade. Então o garoto mais velho fez o que ele poderia fazer: empurrou o moleque, que desceu o escorrega chorando, gritando e urrando.
A mãe, do outro lado do parque, gritou com sua voz poderosa:
FULANO (não peguei o nome), ABRE ESSA SUA BOCA E FALA O QUE ACONTECEU EM VEZ DE CHORAR.
Cabeças se viraram para a mãe. Todo mundo naquele lugar viu o Tretageist ganhando corpo. Ficamos imóveis.
O moleque correu para a mãe, abriu a boca e falou. O quê, ninguém sabe. Mas a gente sabe que a mãe continuou no mesmo tom e volume:
NÃO PODE EMPURRAR, VOCÊ TÁ CERTO. QUEM FOI QUE TE EMPURROU?
O moleque responde.
UM GAROTO MAIS VELHO?
Responde de novo.
QUEM É? MOSTRA PRA MIM?
A tensão crescendo. Mães e pais chamam seus filhos para mais perto. A mãe se levanta. O moleque vai andando até apontar um dedão bem apontado para o garoto mais velho.
EI, GAROTO, VOCÊ NÃO PODE EMPURRAR OS OUTROS.
O garoto nada.
GAROTO, TÔ FALANDO COM VOCÊ!
Pensei, meio assustada e bastante ansiosa, cadê a mãe dessa criança, pelamor?!
EI, GAROTO, OLHA PRA MIM, TÁ ME OUVINDO?
Nisso chega a mãe do garoto, esbaforida, sacoleja os braços para chamar a atenção do filho e... começa a fazer perguntas através da linguagem de sinais.
Bróder, o garoto era deficiente auditivo!
As mães conversaram. Dessa vez em voz baixa, não deu para ouvir, mas dava para ver que uma estava sem graça por conta do filho ter empurrado uma criança mais nova e a outra, por conta da deficiência tomada por falta de educação do filho da outra.
Os ânimos se acalmaram, elas ficaram uma meia hora conversando, as crianças todas foram empurrar novos garotos e garotas, Arthur brincou de dar socos e pontapés em duas menininhas, as menininhas eram mais da pá virada que ele, afastamos os indomáveis, Arthur foi brincar de pega-pega ou grita-grita com o moleque, o garoto foi ver passarinhos e assim seguimos a tarde de sol depois de mais um inverno enclausurado.
Tretageist se entediou, ou ficou com fome, ou ficou satisfeito com a treta alcançada e voltou para os memes/posts/discussões acaloradas sobre o futuro político do Brasil.
E nós, bem, nós agora temos um parque rebatizado: o Treta Park. Onde as treta-kids tretam umas com as outras alegremente.
Até que o fantasma da treta, o Tretageist, chegou.
O Tretageist é primo do famoso Poltergeist, de quem tem um pouco de inveja e ciúme.
O Tretageist não traz pedras e nem arrasta móveis e objetos. Não! Ele, na verdade, se esconde atrás da polêmica, se alimenta da dinâmica pré-conceituada e de pataquadas e, em vez de se manifestar através de objetos, ele se faz presente em meio às pessoas. Sabe aquela frase infeliz que, assim que saiu da sua boca, você já sabia que ia dar treta com seu irmão? Foi ele. E aquele comentário da sua filha, na hora errada e para a pessoa errada? Ele também. Ultimamente, tretinha encontrou um novo habitat muito confortável e rico em alimentos, e lá tem ficado muitas horas do dia: o Facebook. É treta atrás de treta, de grupos sobre maternidade a páginas pessoais, passando por postagens de empresa e até mesmo chegando ao mundo acadêmico! Mas não se enganem, não. Tretageist não marca touca na vida real e basta um mísero descuido e ele – pá! – se manifesta. Em qualquer língua ou localidade geográfica.
Então estávamos nós no parquinho, fazendo as coisas normais de parquinho – a saber: correndo descabelada atrás da criança, segurando o balanço que ia acertar a boca do garoto brincando de pega-pega, agarrando o tornozelo da garota que ia caindo do trepa-trepa etc.
Mas Arthur, possuído pelo ritmo da Ragatanga e pelo Tretageist, resolveu empurrar um moleque. Chamei atenção, tudo bem, vida que segue. De novo. Chamei atenção, alertei que era o segundo aviso, o terceiro ele sabe que é casa, parou, pediu desculpas. Foi brincar em outro canto. Mas, uma vez evocado o Tretageist, é difícil se livrar dele. Ele curte brincar com efeito dominó. Então o moleque empurrado pelo Arthur resolveu descontar a frustração de ter sido empurrado em outro garoto. Empurrou. Mas o garoto era mais velho, fez que não viu o Tretageist por trás dos olhos empesteados do moleque e seguiu adiante. O moleque foi atrás. De novo. Mas a mãe dele não chamou atenção, nem avisou, nem notou, na verdade. Então o garoto mais velho fez o que ele poderia fazer: empurrou o moleque, que desceu o escorrega chorando, gritando e urrando.
A mãe, do outro lado do parque, gritou com sua voz poderosa:
FULANO (não peguei o nome), ABRE ESSA SUA BOCA E FALA O QUE ACONTECEU EM VEZ DE CHORAR.
Cabeças se viraram para a mãe. Todo mundo naquele lugar viu o Tretageist ganhando corpo. Ficamos imóveis.
O moleque correu para a mãe, abriu a boca e falou. O quê, ninguém sabe. Mas a gente sabe que a mãe continuou no mesmo tom e volume:
NÃO PODE EMPURRAR, VOCÊ TÁ CERTO. QUEM FOI QUE TE EMPURROU?
O moleque responde.
UM GAROTO MAIS VELHO?
Responde de novo.
QUEM É? MOSTRA PRA MIM?
A tensão crescendo. Mães e pais chamam seus filhos para mais perto. A mãe se levanta. O moleque vai andando até apontar um dedão bem apontado para o garoto mais velho.
EI, GAROTO, VOCÊ NÃO PODE EMPURRAR OS OUTROS.
O garoto nada.
GAROTO, TÔ FALANDO COM VOCÊ!
Pensei, meio assustada e bastante ansiosa, cadê a mãe dessa criança, pelamor?!
EI, GAROTO, OLHA PRA MIM, TÁ ME OUVINDO?
Nisso chega a mãe do garoto, esbaforida, sacoleja os braços para chamar a atenção do filho e... começa a fazer perguntas através da linguagem de sinais.
Bróder, o garoto era deficiente auditivo!
As mães conversaram. Dessa vez em voz baixa, não deu para ouvir, mas dava para ver que uma estava sem graça por conta do filho ter empurrado uma criança mais nova e a outra, por conta da deficiência tomada por falta de educação do filho da outra.
Os ânimos se acalmaram, elas ficaram uma meia hora conversando, as crianças todas foram empurrar novos garotos e garotas, Arthur brincou de dar socos e pontapés em duas menininhas, as menininhas eram mais da pá virada que ele, afastamos os indomáveis, Arthur foi brincar de pega-pega ou grita-grita com o moleque, o garoto foi ver passarinhos e assim seguimos a tarde de sol depois de mais um inverno enclausurado.
Tretageist se entediou, ou ficou com fome, ou ficou satisfeito com a treta alcançada e voltou para os memes/posts/discussões acaloradas sobre o futuro político do Brasil.
E nós, bem, nós agora temos um parque rebatizado: o Treta Park. Onde as treta-kids tretam umas com as outras alegremente.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2016
Chegamos!
A biblioteca pública daqui é ótima. Especialmente durante o inverno, quando as opções de lazer passar a ficar mais restritas devido ao clima. É, portanto, um dos nossos passeios favoritos e vamos lá pelo menos duas vezes na semana.
Ontem fomos.
Logo na entrada eu ouvi uma moça falar "Ali na máquina, filha", em português. Era a minha xará, brasileira, que conheci lá mesmo, na biblioteca. Uma fofa. As filhas (são duas) também. Conversamos um pouco, mas Arthur quis brincar de alguma coisa. Ele mesmo, sozinho, deu boa tarde aos bibliotecários que estavam ali, explicou o que queria e escolheu o brinquedo. Aqui, a gente "aluga" uns jogos e brinquedos para usar dentro da biblioteca. Conversei um pouco com os funcionários, todos muito simpáticos, e perguntamos uns aos outros sobre coisas do dia a dia: "melhorou da gripe?" ou "e esse frio?!" ou "planos para o fim de semana?". Conversas comezinhas. Nada especial. Mas Arthur quis ir logo jogar o jogo que escolheu.
Era Monopólio. A gente joga free style, porque ele é muito novo para aquele tanto de regra. Isso significa que a gente escolhe os bonequinhos, roda o dado e fica andando no tabuleiro, pega o quanto quiser de dinheiro (que escolhemos pela cor, não pelo valor), coloca casinhas quando e onde quer, vaipara a cadeira a cada rodada (Arthur acha muito engraçado, embora não entenda por que tem uma cadeia se é um jogo de casinha. "Mamãe, mas quem é o ladrão? O que ele fez?", pergunta ele todas as vezes). Basicamente, a gente faz o que quer, quando quer.
Então estávamos no meio do jogo quando chegaram Finn e Colin. O Finn tem pouco mais de um ano e é filho do Colin, marido de uma colega de trabalho do marido. São ótimos, os três, e papeamos um pouco, marcamos um play date para os meninos e logo o pequeno Finn ficou com fome, fazendo gestos (ele usa a linguagem de sinais para bebês para se comunicar. Um fofo!), e eles se foram.
Guardamos o jogo e quando nos levantamos para devolvê-lo à mesa dos bibliotecários, onde ele fica, encontramos no caminho nosso ex-vizinho. Antes de se mudar para cá aquele meu vizinho que morreu, vivia uma família aqui embaixo. O menino é bem mais velho que Arthur, deve ter uns 8 anos, então eles não interagem muito. Mas os pais são muito simpáticos e o ex-vizinho veio perguntar do zica e conversamos longamente sobre zica, dengue e malária.
Arthur, entediado, saiu correndo e eu fui atrás, pedindo desculpas, toda enrolada.
Encontrei meu filhote sentado em um dos computadores. A seu lado, Vidhya, uma amiguinha fofa da sala dele. Eles ficaram quietinhos, interagindo com um joguinho de palavras/histórias que ela estava vendo/brincando, e eu conversei com a babá. O irmãozinho da Vidhya é um bebê redondo e sorridente e foi bem difícil me concentrar na conversa com aquele ser todo simpático para cima de mim.
Já tinha enfiado gorro, luvas e casaco no Arthur quando chegou meu próprio marido.
Então eu me dei conta de que, enfim, chegamos aqui. Chegamos na comunidade. Chegamos na nossa vida. Chegamos a um ponto em que conversamos, conhecemos e reconhecemos as pessoas, sabemos coisas sobre suas vidas e nos preocupamos com elas e elas conosco. Chegamos ao momento em que o coração se divide: amigos aqui, amigos lá. E vocês sabem, em coração dividido cabe mais amor. Então eu acho que está bom. Muito bom.
Ontem fomos.
Logo na entrada eu ouvi uma moça falar "Ali na máquina, filha", em português. Era a minha xará, brasileira, que conheci lá mesmo, na biblioteca. Uma fofa. As filhas (são duas) também. Conversamos um pouco, mas Arthur quis brincar de alguma coisa. Ele mesmo, sozinho, deu boa tarde aos bibliotecários que estavam ali, explicou o que queria e escolheu o brinquedo. Aqui, a gente "aluga" uns jogos e brinquedos para usar dentro da biblioteca. Conversei um pouco com os funcionários, todos muito simpáticos, e perguntamos uns aos outros sobre coisas do dia a dia: "melhorou da gripe?" ou "e esse frio?!" ou "planos para o fim de semana?". Conversas comezinhas. Nada especial. Mas Arthur quis ir logo jogar o jogo que escolheu.
Era Monopólio. A gente joga free style, porque ele é muito novo para aquele tanto de regra. Isso significa que a gente escolhe os bonequinhos, roda o dado e fica andando no tabuleiro, pega o quanto quiser de dinheiro (que escolhemos pela cor, não pelo valor), coloca casinhas quando e onde quer, vaipara a cadeira a cada rodada (Arthur acha muito engraçado, embora não entenda por que tem uma cadeia se é um jogo de casinha. "Mamãe, mas quem é o ladrão? O que ele fez?", pergunta ele todas as vezes). Basicamente, a gente faz o que quer, quando quer.
Então estávamos no meio do jogo quando chegaram Finn e Colin. O Finn tem pouco mais de um ano e é filho do Colin, marido de uma colega de trabalho do marido. São ótimos, os três, e papeamos um pouco, marcamos um play date para os meninos e logo o pequeno Finn ficou com fome, fazendo gestos (ele usa a linguagem de sinais para bebês para se comunicar. Um fofo!), e eles se foram.
Guardamos o jogo e quando nos levantamos para devolvê-lo à mesa dos bibliotecários, onde ele fica, encontramos no caminho nosso ex-vizinho. Antes de se mudar para cá aquele meu vizinho que morreu, vivia uma família aqui embaixo. O menino é bem mais velho que Arthur, deve ter uns 8 anos, então eles não interagem muito. Mas os pais são muito simpáticos e o ex-vizinho veio perguntar do zica e conversamos longamente sobre zica, dengue e malária.
Arthur, entediado, saiu correndo e eu fui atrás, pedindo desculpas, toda enrolada.
Encontrei meu filhote sentado em um dos computadores. A seu lado, Vidhya, uma amiguinha fofa da sala dele. Eles ficaram quietinhos, interagindo com um joguinho de palavras/histórias que ela estava vendo/brincando, e eu conversei com a babá. O irmãozinho da Vidhya é um bebê redondo e sorridente e foi bem difícil me concentrar na conversa com aquele ser todo simpático para cima de mim.
Já tinha enfiado gorro, luvas e casaco no Arthur quando chegou meu próprio marido.
Então eu me dei conta de que, enfim, chegamos aqui. Chegamos na comunidade. Chegamos na nossa vida. Chegamos a um ponto em que conversamos, conhecemos e reconhecemos as pessoas, sabemos coisas sobre suas vidas e nos preocupamos com elas e elas conosco. Chegamos ao momento em que o coração se divide: amigos aqui, amigos lá. E vocês sabem, em coração dividido cabe mais amor. Então eu acho que está bom. Muito bom.
domingo, 24 de janeiro de 2016
Golden Retriever
Ele é um fofo, um verdadeiro amorzinho, mas ao mesmo tempo, uma peste! Corre, pisa nas poças geladas de lama espalhando sujeira para todos os lados, dispara pela calçada mesmo que eu diga "não!" diversas vezes e, principalmente, carrega para casa toda a sorte de coisas achadas na rua. Gravetos, pinhas, pedras, pedrinhas e pedregulhos, galhos inteiros com ou sem folhas ou só as folhas.
A última que aprontou foi achar um galho imeeenso, com uma forquilha na ponta, tão pesado que mal consegue erguê-lo, carregá-lo consigo a despeito de minhas argumentações contrárias e dizer que era seu "snow plow". Não joga fora de jeito nenhum e agora eu carrego, carrinho, criança e um pedaço considerável de árvore. Às vezes ele arrasta o galho na frente do corpo, segurando-o pela forquilha, e vai limpando toda a neve pela frente. Ao menos toda a que o galho consegue arrastar. Depois se cansa e entrega a madeira a mim, que preciso guardá-la, ai de mim se jogo fora!
E assim, caros leitorxs, concluo que pari Arthur, um golden retriever.
A última que aprontou foi achar um galho imeeenso, com uma forquilha na ponta, tão pesado que mal consegue erguê-lo, carregá-lo consigo a despeito de minhas argumentações contrárias e dizer que era seu "snow plow". Não joga fora de jeito nenhum e agora eu carrego, carrinho, criança e um pedaço considerável de árvore. Às vezes ele arrasta o galho na frente do corpo, segurando-o pela forquilha, e vai limpando toda a neve pela frente. Ao menos toda a que o galho consegue arrastar. Depois se cansa e entrega a madeira a mim, que preciso guardá-la, ai de mim se jogo fora!
E assim, caros leitorxs, concluo que pari Arthur, um golden retriever.
terça-feira, 19 de janeiro de 2016
Tutorial para fazer seu filho comer o que tem à mesa
1. More em um lugar frio. Bem frio. Beeeeeem frio.
2. Saia com ele de tarde, enfrentando temperaturas próximas a -25C, com ventos fortes e rascantes que entram pela única parte desnuda do corpo (a saber, os olhos).
3. Chegue em casa e ofereça o jantar de sempre, o qual ele prontamente irá recusar com esgares e comentários mil.
4. Acate. Diga "ok, não precisa comer _____ [insira aqui o alimento ou prato disponível]. Vamos, então, nos vestir para ir ao supermercado comprar o que você quiser."
5. Sente-se à mesa com seu filho de apetite revigorado e assista a ele raspar o prato feliz.
Fim
2. Saia com ele de tarde, enfrentando temperaturas próximas a -25C, com ventos fortes e rascantes que entram pela única parte desnuda do corpo (a saber, os olhos).
3. Chegue em casa e ofereça o jantar de sempre, o qual ele prontamente irá recusar com esgares e comentários mil.
4. Acate. Diga "ok, não precisa comer _____ [insira aqui o alimento ou prato disponível]. Vamos, então, nos vestir para ir ao supermercado comprar o que você quiser."
5. Sente-se à mesa com seu filho de apetite revigorado e assista a ele raspar o prato feliz.
Fim
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