Nenhum discurso é neutro. Não se iluda: cada palavra proferida carrega uma ordem, uma visão de mundo, um recorte e valores. Podemos até escolher nossas frases e falas de maneira inconsciente, mas isso não quer dizer que elas sejam neutras ou descompromissadas com um viés político. Mesmo que você odeie política, seu discurso é quase uma entidade autônoma, anunciando com doze mil megafones o seu posicionamento político frente ao mundo.
Dito isto, preciso comentar os cartazes que andaram bombando na internet por esses dias.
Se você não sabe do que estou falando, não vou colocar um link, porque isso faria com que os tais cartazes tivessem ainda mais visualizações, do que, sinceramente, nosso mundo não precisa.
Pois bem, a primeira vez que vi foi quando uma amiga de Facebook postou o link, rindo-se horrores das falas sempre repetidas das mães. Depois veio outra. E mais outra. Todas com ensino superior completo, duas com mestrado até.
Depois a coisa se espalhou num crescente tedioso (todo viral é meio tedioso, já que você vê a mesma postagem umas doze vezes no dia). E todo mundo rindo, achando graça, compartilhando com as mãaes: olha aí, progenitora, o que você me falava!
Pois eu digo que eu achei terrível!
Além de feios, os cartazes servem a um propósito absolutamente apavorante e, de quebra, testemunham como as diretrizes da educação na minha realidade (classe média carioca, zona sul maravilha) não poderiam, como de fato não o fizeram, construir seres humanos mais humanos, engajados, críticos e empáticos.
O hedonismo da coisa começa na estética. O projeto é a esteticização de frases que ouvimos (sim, eu ouvi) das nossas mães. Quando você torna a coisa estética, você insere ela em outros valores. Então, além das palavras, temos nos tais cartazes o discurso reforçado pelos elementos visuais, que, em consonância com os padrões vigentes, nos dizem: olhem, tudo o que nos é dito pelas mães é uma regra, um mandamento lindo e maravilhoso de se ter como referência. Sim, porque é nisso que as tais imagens se constróem, referências. Quando se quiser, a partir de agora, reproduzir os discursos maternos ali estampados, a preferência vai ser pelos cartazes, porque além de estéticos (e afinados, como disse, com a estética vigente), eles são práticos, e se espalham com o simples clique num botão.
Aliás, o botão compartilhar do Facebook merecia um post a parte, mas vou poupar os meus parcos leitores dessa ladainha crítica e continuar com a digressão sobre os tais cartazes (ciente de que não se trata, porém, de menos ladainha crítica. Mas aqui o espaço é democrático e fica quem quer ler).
As peças são, ao mesmo tempo, chocantes, tristes e curiosos. Curiosos porque desde a essência captam valores embrenhados na nossa cultura. Poderiam ser oito, ou quinze, mas são dez, como os mandamentos da religião mais seguida (ainda é?) no Brasil. Eis, então, que isso já sacraliza o discurso, o que se confirma, ainda, com o fato de serem falas maternas, e não parentais. Ou seja, reforça-se o estereótipo da mãe como figura sagrada, indelével e perfeita. E isso, minha gente, esmaga o feminino, achatando-o numa categoria plana (mães são todas iguais), estanque (ai daquela que ousar sair do padrão!) e machista. Mãe, dez mandamentos e falas sacralizadas. A coisa está ficando feia, e você aí ainda rindo no Facebook.
Mas como eu disse, os cartazes não são apenas curiosos, também são tristes e chocantes. Tristes porque a esteticização da disciplina autoritária serve para reforçar o modelo, e para fazer deles leves e aceitáveis, do tipo que se pendurados na parede da sala não fariam feio com as visitas. E como modelos, referenciam e, pior, não questionam a ordem vigente. São, portanto, retrógrados. E são ainda chocantes, pois denunciam que tanta gente foi criada nessa disciplina opressora, arrogante, sacralizante e agressiva (engole o choro???) e, de quebra, acabaram por me mostrar como tanta gente inteligente do meu Facebook postou sem questionar a mensagem por trás da brincadeira.
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quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
domingo, 2 de fevereiro de 2014
Os dentinhos e o colar de âmbar
Aos quase vinte meses Arthur tem quase catorze dentes. Digo quase porque os caninos superiores apenas apontaram, rasgando a gengiva, mas ainda não nasceram por completo. Então, ele tem, digamos, doze dentes e meio (1/4 de cada canino).
Os primeiros dentes que vieram, conforme os manuais indicam, foram os incisivos centrais inferiores. Dois de uma vez. Como meu pequeno já vinha usando colar de âmbar, não notei grandes mudanças, sobretudo porque Arthur nunca babou. Pelo menos não daquele jeito que babam muitos bebês, de molhar babador, camiseta e calça.
Esperei os primeiros dentes apontarem para, oficialmente, iniciar a introdução de outros alimentos que não o leite materno. A minha escolha foi pessoal e nada científica, apenas baseada na crença de que a natureza daria os primeiros sinais de que Arthur estaria pronto para ingerir novas texturas e sabores. Esperei, portanto, que ele se sentasse com firmeza e que tivesse dentinhos.
Durante o período, para ajudar a aliviar e também porque era muito divertido, ofereci ao meu molecote cenoura geladinha (devidamente descascada e limpa, sob supervisão para que, caso um pedacinho se soltasse, ele não engasgasse) e picolé de leite materno. A cenoura foi uma curtição, principalmente porque os dentinhos vieram bem no carnaval e fantasiei Arthur de coelhinho, com a cenoura-mordedor fazendo parte dos adereços de mão! E o picolé de leite materno era moleza de fazer: congelava meu leite em uma forminha de picolé (vende em supermercados e lojas de utilidades para o lar, bem baratinho), o menino pronto para se melecar e deixava que ele mesmo guiasse o geladinho para onde quisesse.
(Sobre o picolé, existe uma ressalva importante: como Arthur nunca apresentou qualquer problema crônico nas vias superiores, como eu morava no Hell de Janeiro e seus 70 graus na sombra, oferecia o picolezinho com parcimônia e ciente de que não era a coisa mais recomendada do mundo, embora aliviasse calor e dentinhos e, de lambuja, ainda proporcionasse uma visível diversão ao meu filho. Escolhas que fazemos nessa vida.)
Depois dos incisivos inferiores, vieram os superiores, e então aquelas gengivinhas rosadas e nuas começaram a ficar povoadas de dentinhos branquinhos e graciosos... que me mordiam os mamilos!
Fiquei desesperada, confesso, com o fato de que depois de sofrer quase todas as urucubacas da amamentação então precisasse encarar um bebê mordedor. Mas fazer o quê? Amamentar era preciso, ficar sem dor não era preciso, segui, portanto, em frente. Quando ele mordia, eu enfiava meu dedinho mindinho na gengiva dele, por trás dos novos dentinhos, e impedia, explicando que machucava a mamãe, um estrago maior. Claro que não funcionava muito. E claro que ele continuou testando no lugar mais seguro do mundo (para ele) a função dos novos apetrechos de seu corpinho. Se seu bebê está fazendo isso contigo, infelizmente, só tenho a dizer: paciência, paciência, amor e muito cuidado para que ele não fira seu mamilo e abra, assim, a porta para infecções.
Pois a vida continuou e veio a nossa loucura da mudança.
Arthur continuava com seu colar de âmbar, e os dentes foram chegando de maneira relativamente suave. Nunca febre, diarreia ou irritação extrema. Um ou outro dia de mordeção (mordedores, dedos e, claro, meus peitos!). Até que um dia eu dei um morango para o pequeno. Não comentei aqui, mas desde que Arthur saiu da creche que eu adotei como método de alimentação o baby led weaning (um pouco sobre aqui e aqui), mais prático. Pois que ele estava atracado ao morango, comigo supervisionando, e de repente o morango acabou: foi devorado com uma rapidez nunca antes vista! Achei curioso, mas nem pensei muito mais sobre o assunto (provavelmente porque, na sequência do morango, Arthur deve ter ido aprontar altas confusões e aventuras). Alguns dias mais tarde, em meio a uma gargalhada, gelei. Ali dentro daquela boquinha lindinha havia manchas brancas. Como tive uma monília carente até mais ou menos uns três meses atrás, fiquei apavorada achando que o fungo tinha passado para meu bebê, e que as manchinhas brancas (características da patologia) eram colônias de cândida na boquinha do meu cândido! Surtei. Um pouco. E por pouco. Fazendo Arthur gargalhar mais uma vez, descobri, completamente perplexa, que os quatro molares haviam nascido ao mesmo tempo (a julgar pelo tamanho uniforme) e eu nem sequer notara! E, não, eu não notara porque estava atarantada demais com as coisas da mudança, mas sim porque ele superou o nascimento quádruplo sem qualquer tipo de reclamação!
Agora, com os caninos apontando, ele tem ficado mais irritadiço e angustiado, levando brinquedinhos e os dedinhos à boca com mais frequência, mas ainda assim tem levado numa boa.
Embora não haja qualquer comprovaçã científica de que o colar de âmbar seja realmente eficaz, por aqui a fase crítica do nascimentos dos dentinhos foi superada com relativa tranquilidade e sem maiores traumas. O risco de estrangulamento e de aspiração das contas de âmbar existe, e todos que optarem por usar tal acessório em seu(s) filho(s) devem estar cientes disso (uma pesquisa rápida no Google oferecerá diversos resultados e advertências). Por aqui, no entanto, essa foi a opção que mais se adequou às minhas crenças e ao meu estilo de vida, e pretendo manter meu pequeno usando-o sob supervisão por mais um bom tempo, já que suas propriedades antiinflamatórias não servem somente para a dentição.
E só para fins de curiosidade, já que nunca experimentei, existe ainda uma outra alternativa natural para aliviar os sintomas do nascimentos dos dentinhos: trata-se da raiz de íris.
Alguém conhece mais algum método não-farmacológico (ou seja, nada de remédios!) de alívio para o período de nascimento de dentinhos?
Os primeiros dentes que vieram, conforme os manuais indicam, foram os incisivos centrais inferiores. Dois de uma vez. Como meu pequeno já vinha usando colar de âmbar, não notei grandes mudanças, sobretudo porque Arthur nunca babou. Pelo menos não daquele jeito que babam muitos bebês, de molhar babador, camiseta e calça.
Esperei os primeiros dentes apontarem para, oficialmente, iniciar a introdução de outros alimentos que não o leite materno. A minha escolha foi pessoal e nada científica, apenas baseada na crença de que a natureza daria os primeiros sinais de que Arthur estaria pronto para ingerir novas texturas e sabores. Esperei, portanto, que ele se sentasse com firmeza e que tivesse dentinhos.
Durante o período, para ajudar a aliviar e também porque era muito divertido, ofereci ao meu molecote cenoura geladinha (devidamente descascada e limpa, sob supervisão para que, caso um pedacinho se soltasse, ele não engasgasse) e picolé de leite materno. A cenoura foi uma curtição, principalmente porque os dentinhos vieram bem no carnaval e fantasiei Arthur de coelhinho, com a cenoura-mordedor fazendo parte dos adereços de mão! E o picolé de leite materno era moleza de fazer: congelava meu leite em uma forminha de picolé (vende em supermercados e lojas de utilidades para o lar, bem baratinho), o menino pronto para se melecar e deixava que ele mesmo guiasse o geladinho para onde quisesse.
(Sobre o picolé, existe uma ressalva importante: como Arthur nunca apresentou qualquer problema crônico nas vias superiores, como eu morava no Hell de Janeiro e seus 70 graus na sombra, oferecia o picolezinho com parcimônia e ciente de que não era a coisa mais recomendada do mundo, embora aliviasse calor e dentinhos e, de lambuja, ainda proporcionasse uma visível diversão ao meu filho. Escolhas que fazemos nessa vida.)
Depois dos incisivos inferiores, vieram os superiores, e então aquelas gengivinhas rosadas e nuas começaram a ficar povoadas de dentinhos branquinhos e graciosos... que me mordiam os mamilos!
Fiquei desesperada, confesso, com o fato de que depois de sofrer quase todas as urucubacas da amamentação então precisasse encarar um bebê mordedor. Mas fazer o quê? Amamentar era preciso, ficar sem dor não era preciso, segui, portanto, em frente. Quando ele mordia, eu enfiava meu dedinho mindinho na gengiva dele, por trás dos novos dentinhos, e impedia, explicando que machucava a mamãe, um estrago maior. Claro que não funcionava muito. E claro que ele continuou testando no lugar mais seguro do mundo (para ele) a função dos novos apetrechos de seu corpinho. Se seu bebê está fazendo isso contigo, infelizmente, só tenho a dizer: paciência, paciência, amor e muito cuidado para que ele não fira seu mamilo e abra, assim, a porta para infecções.
Pois a vida continuou e veio a nossa loucura da mudança.
Arthur continuava com seu colar de âmbar, e os dentes foram chegando de maneira relativamente suave. Nunca febre, diarreia ou irritação extrema. Um ou outro dia de mordeção (mordedores, dedos e, claro, meus peitos!). Até que um dia eu dei um morango para o pequeno. Não comentei aqui, mas desde que Arthur saiu da creche que eu adotei como método de alimentação o baby led weaning (um pouco sobre aqui e aqui), mais prático. Pois que ele estava atracado ao morango, comigo supervisionando, e de repente o morango acabou: foi devorado com uma rapidez nunca antes vista! Achei curioso, mas nem pensei muito mais sobre o assunto (provavelmente porque, na sequência do morango, Arthur deve ter ido aprontar altas confusões e aventuras). Alguns dias mais tarde, em meio a uma gargalhada, gelei. Ali dentro daquela boquinha lindinha havia manchas brancas. Como tive uma monília carente até mais ou menos uns três meses atrás, fiquei apavorada achando que o fungo tinha passado para meu bebê, e que as manchinhas brancas (características da patologia) eram colônias de cândida na boquinha do meu cândido! Surtei. Um pouco. E por pouco. Fazendo Arthur gargalhar mais uma vez, descobri, completamente perplexa, que os quatro molares haviam nascido ao mesmo tempo (a julgar pelo tamanho uniforme) e eu nem sequer notara! E, não, eu não notara porque estava atarantada demais com as coisas da mudança, mas sim porque ele superou o nascimento quádruplo sem qualquer tipo de reclamação!
Agora, com os caninos apontando, ele tem ficado mais irritadiço e angustiado, levando brinquedinhos e os dedinhos à boca com mais frequência, mas ainda assim tem levado numa boa.
Embora não haja qualquer comprovaçã científica de que o colar de âmbar seja realmente eficaz, por aqui a fase crítica do nascimentos dos dentinhos foi superada com relativa tranquilidade e sem maiores traumas. O risco de estrangulamento e de aspiração das contas de âmbar existe, e todos que optarem por usar tal acessório em seu(s) filho(s) devem estar cientes disso (uma pesquisa rápida no Google oferecerá diversos resultados e advertências). Por aqui, no entanto, essa foi a opção que mais se adequou às minhas crenças e ao meu estilo de vida, e pretendo manter meu pequeno usando-o sob supervisão por mais um bom tempo, já que suas propriedades antiinflamatórias não servem somente para a dentição.
E só para fins de curiosidade, já que nunca experimentei, existe ainda uma outra alternativa natural para aliviar os sintomas do nascimentos dos dentinhos: trata-se da raiz de íris.
Alguém conhece mais algum método não-farmacológico (ou seja, nada de remédios!) de alívio para o período de nascimento de dentinhos?
quarta-feira, 22 de janeiro de 2014
Duende
Tem um duende aqui em casa. Ele mora em algum buraco que ainda não descobri onde fica, e no meio da noite sai para passear.
Quando eu morava com os meus pais, também tínhamos um duende, e eu, quando cheguei aqui, preferia o duende tupiniquim, que enquanto eu saía para trabalhar, arrumava a sala, lavava e estendia a roupa, fazia comida, varria a casa, lavava a louça. E eu preferia o duende brasileiro porque o daqui faz justamente o contrário!
E, por culpa desse maroto, embora eu seja agora uma dona de casa, as coisas não andam arrumadíssimas por aqui.
É que como agora eu passo muito mais tempo em casa, o tal duende, quando sai, não tem tempo de bagunçar e depois arrumar, como é da natureza desses seres.
Mas querem saber? Bagunceiro ou não, o duende já faz parte da família, e embora me deixe bem cansada, pois há momentos em que não é possível simplesmente deixar para lá a confusão de louça na pia ou a pilha de roupas por lavar, ele trouxe consigo um presente incrível: permitir que eu assista, todos os dias, o dia inteiro, meu filho descobrir o mundo e a si mesmo.
terça-feira, 10 de dezembro de 2013
Só as mães são felizes
Não sabe quem dorme oito horas ininterruptas. Não sabe quem não mede a febre nos dias de vacina com a preocupação de quem tateia a própria vida. Não sabe quem dorme fora despreocupado, quem trabalha acima de qualquer coisa, quem não repete a mesmíssima palavra, ordem ou pedido à exaustão. Não sabe quem ainda é só barriga, quem cuidou dos cinco sobrinhos de irmã ou irmão vivos e participativos, não faz ideia quem fez bilu-bilu na cria dos amigos.
Quem pariu, quem operou, quem gestou e cultivou a vidinha tão rica, delicada e tenaz que traz nos braços, na pele, na alma, na lama, só essa pessoa sabe por que raios eu quero, mesmo com todo o trabalho de Sísifo da maternidade, não passar por esta vida - que até onde eu saiba é única - sem ver ainda mais, muito mais amor vingar, vencer, nascer e desabrochar.
Só as mães são felizes, em suas ignorância e sublimação intencionalmente involuntárias.
Quem pariu, quem operou, quem gestou e cultivou a vidinha tão rica, delicada e tenaz que traz nos braços, na pele, na alma, na lama, só essa pessoa sabe por que raios eu quero, mesmo com todo o trabalho de Sísifo da maternidade, não passar por esta vida - que até onde eu saiba é única - sem ver ainda mais, muito mais amor vingar, vencer, nascer e desabrochar.
Só as mães são felizes, em suas ignorância e sublimação intencionalmente involuntárias.
sábado, 21 de setembro de 2013
Nossos filhos, esses estranhos
Eu me lembro até hoje: veio na agenda da creche "Arthur disse a palavra 'bola' diversas vezes hoje." E foi assim que eu fiquei sabendo da primeira palavra do meu bebê. Muito triste, achei.
Essa coisa de deixar em creche sempre me deixou deprimida. Ainda grávida, sofria antecipadamente ao pensar que chegaria o dia em que deixaria meu filhotinho, gestado e parido com tanto amor, acalentado com tantas mamadas e atenções, na creche, aos cuidados de pessoas estranhas, que certamente não teriam o mesmo amor que eu tenho por ele. Sofria. Sofri. Muito.
Daí, tive a oportunidade de ouro de largar carreira, dinheiro e canudo, e ir cuidar do meu molecote, sozinha, no conforto do meu lar, 24h por dia, sete dias na semana, inclusive sábados, domingos, feriados e dias de doença e convalescença. Oportunidade de ouro, eu sei, tenho consciência dela a cada diazinho que acordo e não preciso me arrumar para ir ao trabalho, só ao parquinho; a cada tarde que curto meu bebezinho grudado a mim, aprendendo as coisas do mundo, da vida e sobre mim bem diante dos meus olhos. Eu sei. Mas não é porque eu sei da minha sorte que eu não sinta cansaço, que eu não fique estressada e até mesmo frustrada de vez em quando. Quem cuida de um bebê em tempo integral sabe do que estou falando, e é óbvio que essa foi minha escolha consciente, livre e deliberada: aceitei seus bônus e seus ônus, e acho que, sim, fiz muito bem a mim, a ele, à família.
Então, hoje, quero falar um pouco sobre o cansaço e a frustração de ser mãe integral, sobretudo depois de ter sido mãe proletária com CLT.
Quando eu trabalhava nove horas num escritório, sentada numa mesa toda minha, com prazos e projetos que dependiam de mim e somente de mim para irem adiante, eu me sentia frustrada e estressada. Cansei de sonhar acordada no meio do expediente, pensando no programa de fim de semana que iria fazer, antecipando o momento em que meu filho deitaria os olhos em mim, jogaria os bracinhos para o alto e viria diretamente ser acarinhado em meu seio. No mundo cor-de-rosa dos que estão infelizes com a realidade em que vivem (eu amava meu trabalho, claro, mas havia uma confluência de fatores intra e extra-empresariais que me despertavam outras ambições), mudar a realidade significa viver em um paraíso cristão: sem dores, sem sofrimento, com alguma culpa. Acontece, minha gente, que aqui na Terra, ao menos até onde me conste, tal paraíso não existe, e é por isso que o nosso livre-arbítrio é tão fundamental para sermos felizes. Não vou me alongar muito nesse quesito porque todo mundo sabe disso e eu não estou aqui para escrever um post de auto-ajuda alheia (auto-ajuda própria, sim, certamente!). Vamos então só passar adiante, e eu conto para vocês que, mesmo sabendo que eu estava idealizando a maternagem em tempo integral, eu achava que não haveria frustrações e estresses do mesmo nível de intensidade que eu vivia na panela de pressão social chamada "dupla jornada feminina": mãe-e-proletária-CLT.
Mais uma cuspidela para o alto, né? O que me faz questionar o gênero de Murphy: será mesmo um homem? Porque está com cara mesmo é de mulher, que entende do babado de se lascar na vida, então, por isso, cumpre seu papel com maestria.
Digressei, eu sei. Volto.
Bom, então, estava eu, com meu filho que dizia "bola", agora vivendo o Eldorado das attached mommies, em casa em tempo integral, levando ao parquinho, à biblioteca, ao ginásio de atividades, vendo de perto ele enfiar mãos cheias de areia nojenta na boca, assistindo ele descer às gargalhadas o escorrega, ficando apavorada quando ele se estabacava de cara no concreto (abriu o lábio duas vezes, o safado!), quase até adivinhando qual brinquedinho babado que ele enfiara na boca havia causado a gripe que ele pegou, quando eu me dei conta de uma coisa muito, mas muito, muito, muito importante. Meu filho, naquele momento, era quase um estranho para mim.
Quando ele saiu de dentro de mim, berrando, escorregadio, macio e quente, ele era um estranho completo. Não reconheci nele nada: suas feições eram novas, seu choro nunca fora ouvido, suas expressões, manias ou seus trejeitos eram todos inéditos. Até mesmo espirros e bocejos eram surpreendentemente ímpares. Quem pariu sabe (e quem teve o bebê por cirurgia ou adotou, também, é claro!). É uma delícia ir descobrindo e conhecendo nosso bebê, e talvez porque você está ali, num processo íntimo, delicado e sensível, de mútuo conhecimento (no caso do bebê, muita coisa de reconhecimento acontece), é que irritem tantos os pitacos: mexe com a nossa insegurança normal de mães recém-nascidas, que não sabe NADA sobre o próprio filho. E não sabe nada, mesmo que tenha feito mil cursos, quinze ultras 4D por mês, mesmo que tenha dezenove filhos mais velhos. Esse bebê que acabou de sair da sua barriga é inteiramente novo e uma incógnita absoluta.
Bom, daí você fica no chamego ocitocínico dos primeiros dias, depois se apaixona por cada pedacinho daquela pessoinha nova (até pedacinhos fedorentinhos), curte, ama, se doa, se dói, se entrega e, enfim, depois de uns três meses, você finalmente está apta a dizer que conhece seu filhote. Se chora assim, é sono; se come a mão assado, é fome; cocô mole, dente; risada de banda, fez xixi; agitou as mãozinhas, chega de balanço; os pezinhos não param, está ansioso. E por aí vai. O processo às vezes vai mais rápido, às vezes, mais devagar, mas, geralmente, quando terminam os três primeiros meses a mulher que nasceu mãe já sabe alguma coisa do bebê que nasceu...bem, bebê.
Porém, no injusto mundo das mãe-proletárias-CLT, é logo depois desse período e desse processo tão importantes e complexos que elas são obrigadas a delegarem os cuidados dos pequenos seres a pessoas que, tendo laços de sangue, de amizade ou monetários, passarão a anotar ou informar sobre o que acontece com seus pequenos durante o período em que mãe e filho(s) estão afastados. É cruel. Há quem não ache e goste de voltar ao mercado de trabalho, quem sinta até certo alívio por ter interações sociais que não versem sobre filhos e maternidade. Essas mulheres estão felizes com sua escolha. Mas eu não estava, lembram? Então esse post vai um pouco enviesado: sob o ângulo da frustração de um dia, em casa, ao abrir a agenda da creche, ler que meu filho falou "bola". (E frustração enorme, para mim: ele chegava em casa dormindo já, então nem dava para pedir que ele repetisse a gracinha!)
Frustrada, criei um mundo idealmente maravilhoso, em que eu acordava, dava bom dia para marido, filho e flores do jardim, ia preparar café da manhã, comia, brincava com o pequeno, dava até logo para marido, passeava pela cidade, comprava morangos frescos, sentia a brisa bater nos cabelos, ensinava para filhote os nomes de todas as coisas do mundo, sorria, vivia leve como uma pluma. Claro que eu precisaria fazer xixi com ele no colo, comer rapidinho, de repente interromper um programa bacana porque Arthur não estaria muito contente naquele momento, com sono, fome ou algum outro incômodo. E com essa visão foi que eu me demiti.
E foi com essa mesma visão que, ao chegar aqui, nos EUA, eu notei uma coisa muito importante: Arthur, depois de tanto tempo na creche, era um estranho para mim. De novo. Eu não sabia suas músicas favoritas, não conseguia criar uma rotina para nós, não sabia muito bem o que ele comia, o que não comia, o que gostava de fazer, como ele brincava. E isso foi um baque, porque com um bebê de 1 ano você acha que já sabe alguma coisa, né?
Pois é, mas eu tinha muitas coisas para reaprender: horários, ritmos, sinais, hábitos, choros e necessidades.
E eu sofri. Fiquei estressada, com um bebê super-ativo em casa, que tinha energia para dar e vender, energia essa que eu não sabia para onde canalizar. Também tinha um bebê com gostos e paladares que eu precisava descobrir e perceber. E, muitas vezes, ele me fazia gestos que não compreendi: devia ser alguma coisa da creche que vinha à tona e que lá ele se fazia entender. Precisei lidar com essa frustração de ter um pequeno estranho em meus braços, que muitas vezes se frustrava em mim, com minha ignorância sobre sua vida, rotina e preferências. (E olha que, modéstia a parte, eu era uma mãe interessada e dedicada quando não estava no trabalho.)
Enfim, além de tudo isso, acho que é importantíssimo também falar de uma frustração imensa e sobre a qual não pensei muito bem quando fantasiei sobre maternagem 24h por dia: a frustração do tempo. Nos meus delírios pré-demissionais eu faria xixi com Arthur no colo e teria algumas restrições em termos temporais, claro. Mas o impacto foi muito profundo para mim.
Quando Arthur era pequenininho, um recém-nascido, eu não tinha tempo para nada: xixi, comer, tomar banho, escovar dentes. NADA. Passava o dia em função do meu bebê e das novas funções que ele havia criado: mais roupas para lavar e arrumar, comidinhas para mim, organização da casa e do espaço habitável etc. Então, depois de quatro meses e meio de licença-maternidade, voltei a trabalhar, e passei a ter uma hora inteirinha de almoço, o que me dava espaço na agenda para atividades como bater perna no shopping, fazer unhas, depilação, ir ao supermercado, sentar-me sozinha e pensar na vida, ler um livro... As possibilidades eram muitas e eu as aproveitei bastante! Curti ter um tempinho para mim novamente. Daí, quando voltei a ser mamãe em tempo integral, afundei na falta de rotina, desesperei no infindável mundo de atividades inadiáveis, fui soterrada por 40 unhas a mais para cortar, dois pés a mais para calçar, dez dentes a mais para escovar, um estômago para alimentar, uma cabeça para lavar, entretenimento, cuidados pessoais, necessidades básicas e imediatas (fome, sono, frio, calor), tudo dele primeiro, muitas vezes tudo dele exclusivamente, porque não havia (não há) tempo para mim. Fico dias sem lavar o cabelo, horas sem escovar os dentes, durmo mal, sempre tenho algo a fazer e nunca consigo realmente relaxar ou descansar, pois Arthur está realmente encantado por ter a mamãe em tempo integral e absoluto com ele, e me quer praticamente de sol a sol. E com isso, confesso, me frustrei, porque meu tempo não é mais meu. Por isso, demorei para encontrar o prazer de ser mãe integral - admito, sem orgulho. Demorei para sorrir com a alma em paz, sem a angústia da necessária (é claro) frivolidade apertando minha garganta num sufoco de minutos contados: preciso tomar banho; estou com fome; preciso dormir; queria ficar quieta agora; puxa, que livro bacana; nossa, minha perna está cabeluda!
Demorei para chegar a conclusão de que meu estresse e minhas frustrações de mãe em tempo integral podem até ter um grau intenso, como os estresses e frustrações de mãe-proletária-CLT que fui. Mas, por serem de naturezas diferentes, essas coisas precisam ter um impacto diferente. E, sobretudo, porque eu ESCOLHI estar onde estou hoje, o lado B da maternagem intensa deve ser encarado como desafio e oportunidade, e não como castigo e pesar.
Então, agora, mesmo com perna cabeluda (outro dia, no meio da ioga, a professora veio ajeitar minha postura e quase morri de vergonha porque quase dava para fazer trancinhas nos cabelos da minha perna!), mesmo estressada quando estou sozinha em casa, querendo comer e Arthur cisma em subir na mesa ou escalar a estante, quando ele chora, se joga, quando o cocô vaza na última roupa limpa e eu preciso descer com bebê, roupa, sabão em pó, moedinhas e paciência até a lavanderia, mesmo assim eu ainda sorrio ao ver meu filho, na minha frente, aprender a imitar um cavalinho (é a coisa mais LINDA DO MUNDO!).
E aí, no meio dessa confusão intensa e louca, no meio de todos esses pensamentos, dessas novas sensações, eu fiz uma descoberta incrível, talvez o grande segredo da maternagem para mim. Por mais perto que estejamos, por mais que acompanhemos cada crescimento, cada aprendizado, por mais que estejamos presentes em cada descoberta, nossos filhos são e sempre serão aqueles estranhos que parimos, porque nossos filhos vivem e experimentam e aprendem e vivem na individualidade. São, portanto, seres únicos, que apreenderão o mundo de maneira única. E a cada vivência e novidade, mudarão, se transformarão. Nosso papel, então, é estar presente, como quisermos ou pudermos, para, com todos esses aprendizados e transformações, sermos a constância de que eles precisam para poderem voltar, sempre que quiserem, à segurança imutável do amor materno. Só a solidez do amor permanece quando o assunto é filhos, esses estranhos.
(Pode não parecer, mas este post é fruto de muitas reflexões em relação ao post anterior. Obrigada a todas que me responderam! De coração. Gente que nunca tinha comentado, gente que sempre comenta, gente que voltou a comentar. Obrigadíssima por partilharem opiniões e sentimentos. Isso é o que realmente importa nas redes maternas: trocas e acolhimento. Prometo voltar para falar sobre minhas ideias a respeito de segundar.)
domingo, 15 de setembro de 2013
Segundinho: ter ou não ter, eis a questão!
Sou filha única. Marido não. Odeio ser filha única. Marido não tem problemas em ter só um filhote.
E aí Arthur é praticamente homem feito, fala português, inglês e bebezês. Poliglota, o rapaz. Hoje, no parquinho, ganhou o primeiro beijo na boca da vida. Dirige um carro, na verdade, um tratorzinho de madeira. Cheio das vontades, come rabanete. Gente, alguém que come rabanete, raiz que arde na boca, já está grande e crescido, né?
Então que eu tenho pensado: segundaremos ou não?
Meu sonho de menina (e adolescente e burra velha) era ter uma mesa cheia de gente no Natal: filhos, filhas, noras, genros, netos, netas, cachorro, papagaio e marido. Também queria ter um filho em cada braço, outro na barriga e um mais velho em pezinho enquanto eu abria a porta para o Correio, sorrindo, e recebia um telegrama de amor do marido.
[pausa para vocês gargalharem]
Bom, daí eu engravidei do Arthur.
A gravidez foi exemplar, em termos médicos, mas me sentia muito cansada, com falta de ar e sem energia. Na verdade, eu me sentia EXAUSTA como nunca me senti. Nem antes, nem depois. E eu tive estrias. Então acabei dando uma desanimada da minha surtação inicial de querer cinco filhos.
Na sequência, Arthur foi um bebezico. E eu pirei no puerpério, com hormônios doidos dando festa na minha corrente sanguínea, com peito rachado, monília, fome, dieta APLV, sovaco cabeludo e sei lá quantos dias sem tomar banho.
Daí, ele aprendeu a se sentar, acabou licença-maternidade, voltei a trabalhar feito mula de carga manca, e ele aprendeu a engatinhar, e depois a andar, e agora corre, fala duas línguas e um dialeto, beija na boca no parquinho e dirige! E eu surtei, pirei, me descabelei em cada uma das fases com ele.
Meu pequenininho já não é mais tão pequenininho assim.
E, então, os hormônios doidos entraram numa discussão aparentemente infindável com minha conta bancária, meu lado racional, com meus sonhos de menina, meu relógio biológico,com meu relógio social, e eu tô surtadinha, perguntando a mim mesma: é justo passar por esta vida tendo essa alegria imensamente exaustiva e enlouquecedora que é ter filhos apenas uma única vez?
Sinceramente, ainda não tenho resposta para esses questionamentos, e nem ovulação para tentativas, mas sigo aqui, matutando, curtindo filhote, dando minhas surtadinhas diárias, tanto de amor e fofura (sério, Arthur ainda vai infartar as pessoas na rua de tanta fofura que espalha nesse mundo!), quanto de desespero e estresse!
E vocês? Segundaram? Não segundaram? Por que sim ou não? Ajudem a amiga aqui a pensar na vida!
E aí Arthur é praticamente homem feito, fala português, inglês e bebezês. Poliglota, o rapaz. Hoje, no parquinho, ganhou o primeiro beijo na boca da vida. Dirige um carro, na verdade, um tratorzinho de madeira. Cheio das vontades, come rabanete. Gente, alguém que come rabanete, raiz que arde na boca, já está grande e crescido, né?
Então que eu tenho pensado: segundaremos ou não?
Meu sonho de menina (e adolescente e burra velha) era ter uma mesa cheia de gente no Natal: filhos, filhas, noras, genros, netos, netas, cachorro, papagaio e marido. Também queria ter um filho em cada braço, outro na barriga e um mais velho em pezinho enquanto eu abria a porta para o Correio, sorrindo, e recebia um telegrama de amor do marido.
[pausa para vocês gargalharem]
Bom, daí eu engravidei do Arthur.
A gravidez foi exemplar, em termos médicos, mas me sentia muito cansada, com falta de ar e sem energia. Na verdade, eu me sentia EXAUSTA como nunca me senti. Nem antes, nem depois. E eu tive estrias. Então acabei dando uma desanimada da minha surtação inicial de querer cinco filhos.
Na sequência, Arthur foi um bebezico. E eu pirei no puerpério, com hormônios doidos dando festa na minha corrente sanguínea, com peito rachado, monília, fome, dieta APLV, sovaco cabeludo e sei lá quantos dias sem tomar banho.
Daí, ele aprendeu a se sentar, acabou licença-maternidade, voltei a trabalhar feito mula de carga manca, e ele aprendeu a engatinhar, e depois a andar, e agora corre, fala duas línguas e um dialeto, beija na boca no parquinho e dirige! E eu surtei, pirei, me descabelei em cada uma das fases com ele.
Meu pequenininho já não é mais tão pequenininho assim.
E, então, os hormônios doidos entraram numa discussão aparentemente infindável com minha conta bancária, meu lado racional, com meus sonhos de menina, meu relógio biológico,com meu relógio social, e eu tô surtadinha, perguntando a mim mesma: é justo passar por esta vida tendo essa alegria imensamente exaustiva e enlouquecedora que é ter filhos apenas uma única vez?
Sinceramente, ainda não tenho resposta para esses questionamentos, e nem ovulação para tentativas, mas sigo aqui, matutando, curtindo filhote, dando minhas surtadinhas diárias, tanto de amor e fofura (sério, Arthur ainda vai infartar as pessoas na rua de tanta fofura que espalha nesse mundo!), quanto de desespero e estresse!
E vocês? Segundaram? Não segundaram? Por que sim ou não? Ajudem a amiga aqui a pensar na vida!
segunda-feira, 27 de maio de 2013
Mãe maluca, filho sem palhaçada
Vocês sabem que toda creche tem uma mãe maluca, né? Então, eu tenho certeza de que sou a mãe maluca da creche do Arthur.
Eu chego de sling (e tenho sling de tudo quanto é jeito: wrap, argola, tipoia, só me falta a mochilinha), mando todo santo dia meu potinho de LM congelado, a mamadeira do Arthur é cheia de nove horas para ele não desmamar, quando pediram para mandar copinho de treinamento eu mandei, mas sem tampa (de propósito, óbvio!) e assim sigo lutando contra o sistema na instituição social de poder por excelência: a escola que normatiza e socializa o indivíduo.
Daí, na semana passada, veio um panfleto colado na agenda. Papel couché, muitas cores, um texto de vendedor pittbull tentando me convencer que o evento que se anunciava ali era bacana. Eu li, reli e não acreditando no que meus olhos viam, mostrei para marido, que também bestificou. (É, ele é o pai maluco da creche!)
O evento que anunciava-se como a grande maravilha das maravilhas era o show de uma dupla de palhaços, que aconteceria das 13 às 15h, na creche-escola, sem custos para os pais, pois a contrapartida seria a divulgação do kit com DVD + miniaturas dos palhaços, à disposição para compra nas dependências da escola até uma semana depois do evento.
Gonguei na hora. E marido endossou.
Por vários motivos.
Em primeiríssimo lugar, não gosto da ideia de que as pessoas encarem meu filho como um consumidor em potencial. Eu me preocupo muitíssimo com o consumismo infantil (sobretudo agora, indo morar em um dos países que mais incentiva o consumo) e sei que meu papel de mãe é, entre outras coisas, proteger meu filho. E, sim, as crianças precisam ser protegidas das campanhas e estratégias de vendas agressivamente apelativas, que se valem da vulnerabilidade infantil para multiplicar cifras e oferecem produtos de qualidade duvidosa e criam hábitos nem sempre saudáveis. Achei ardiloso que se ofereça um show "gratuito" em troca da divulgação de um produto diretamente ligado a esse show, pois as crianças, vulneráveis, se tornam consumidores quase certos do tal kit. Além disso, a estratégia parece ardilosa também para com os pais, que confiam na escola e em seu ambiente para a educação de seus filhos e, portanto, sob o guarda-chuva da instituição que valida e credita o evento, creem de boa-fé que aquilo será benéfico a seus filhos. Afinal, que mal há em um espetáculo musical com uma dupla de palhaços?
Bom, para mim e meu marido, além de haver a ideia de que meu filhote, de apenas 11 meses, é um consumidor em potencial, também houve a possibilidade de expor meu filho a uma atração que poderia causar nele estímulos que considero excessivamente precoces: associação de músicas a marcas (a tal dupla de palhaços, afinal, é uma marca, com diversos produtos licenciados em seu nome!), associação de prazer e alegria a produtos e consumo e, por fim, a compreensão de que a diversão precisa ser barulhenta e altamente produzida. Além disso, me causa pavor a ideia de que pudesse estranhar as pinturas, os gestos, o barulho e as fantasias e se sentisse desnecessariamente desamparado, tendo de lidar com medo, ansiedade e angústia sem o conforto da mamãe por perto (claro que sei que Arthur, em algum momento da vida dele passará por situações desse nível sem ter a mamãe por perto; claro que eu sei que ele já pode, inclusive, ter experimentado isso na creche, tendo se assustado com qualquer coisa ou se sentido sozinho e desamparado; mas a questão toda é: se posso evitar, por que vou expô-lo espontaneamente a isso?).
E por fim, como se não bastasse tudo isso que acabei de apresentar, o tal evento trazia o patrocínio de um refresco em pó (corante + açúcar + aroma artificial? Não, obrigada. Nesses refrescos, a única coisa saudável é justamente a parte que não vem neles e que precisa ser acrescentada: a água) - e eu me recuso a frequentar ou consumir produtos, eventos e marcas com patrocínios com os quais não concordo ou que ferem minha filosofia de vida -, e, cereja do sundae, vinha com uma frasezinha no panfleto: "Deus é fiel!"
Sou ateia e respeito absolutamente todas as escolhas religiosas. Não concordo com algumas práticas em determinadas religiões, mas acho que cada ser humano na face da terra é livre para escolher no que quer acreditar ou no que não quer acreditar. Cada pessoa é senhora de si, e nada nem ninguém deve forçar que crenças ou valores sejam impostos ou reprimidos.
Assim, como eu poderia achar bacana que um evento, numa só tacada, trouxesse para o meu filho a possibilidade de: incentivar nele o consumo; atrelar momentos de prazer a marcas e produtos; apresentar a ele outros produtos que se vendem como inócuos, mas que induzem a uma alimentação desequilibrada e vazia de nutrientes; impor a ele qualquer prática religiosa, sendo que é minha escolha mantê-lo livre, porém informado, a respeito de vivências religiosas e/ou espirituais.
Preciso dizer que foi um alívio muito grande saber que em breve Arthur não precisará mais ficar na creche, pois esta me parece ser a ponta do iceberg das frustrações em relação a esta instituição. Outras práticas, claro, já haviam me deixado incomodada, mas foi realmente decepcionante ver que a escola autorizou o evento, que as outras mães não acharam nada demais nisso e, sobretudo, que eu tenha ido reclamar na diretoria e tenha escutado que "as crianças mais velhas vão ficar malucas".
Bom, se o objetivo da creche era deixar as pessoas malucas, comigo funcionou direitinho!
E lá fui eu hoje, de sling, com meus potinhos de LM congelado e mamadeira anti-desmame, copo de treinamento sem tampa, escova de dentes sem pasta e colar de âmbar para a dentição explicar que estava buscando o menino mais cedo por um posicionamento político, que me fazia discordar da exposição precoce ao consumismo e blá-blá-blá. As cuidadoras riram um pouco, porque, afinal, eu sou a mãe maluca. Mas acho que no fim das contas elas entenderam direitinho quando eu disse, para completar tudo, que, na minha humilde opinião, muito melhor e mais bacana do que ter palhaços vendedores de DVD fazendo um show altamente produzido, era mesmo o carinho que elas têm com meu pequeno, entretendo-o e estimulando-o todos os dias. Aí, elas riram diferente. E acho que nem me acharam tão maluca assim.
Eu chego de sling (e tenho sling de tudo quanto é jeito: wrap, argola, tipoia, só me falta a mochilinha), mando todo santo dia meu potinho de LM congelado, a mamadeira do Arthur é cheia de nove horas para ele não desmamar, quando pediram para mandar copinho de treinamento eu mandei, mas sem tampa (de propósito, óbvio!) e assim sigo lutando contra o sistema na instituição social de poder por excelência: a escola que normatiza e socializa o indivíduo.
Daí, na semana passada, veio um panfleto colado na agenda. Papel couché, muitas cores, um texto de vendedor pittbull tentando me convencer que o evento que se anunciava ali era bacana. Eu li, reli e não acreditando no que meus olhos viam, mostrei para marido, que também bestificou. (É, ele é o pai maluco da creche!)
O evento que anunciava-se como a grande maravilha das maravilhas era o show de uma dupla de palhaços, que aconteceria das 13 às 15h, na creche-escola, sem custos para os pais, pois a contrapartida seria a divulgação do kit com DVD + miniaturas dos palhaços, à disposição para compra nas dependências da escola até uma semana depois do evento.
Gonguei na hora. E marido endossou.
Por vários motivos.
Em primeiríssimo lugar, não gosto da ideia de que as pessoas encarem meu filho como um consumidor em potencial. Eu me preocupo muitíssimo com o consumismo infantil (sobretudo agora, indo morar em um dos países que mais incentiva o consumo) e sei que meu papel de mãe é, entre outras coisas, proteger meu filho. E, sim, as crianças precisam ser protegidas das campanhas e estratégias de vendas agressivamente apelativas, que se valem da vulnerabilidade infantil para multiplicar cifras e oferecem produtos de qualidade duvidosa e criam hábitos nem sempre saudáveis. Achei ardiloso que se ofereça um show "gratuito" em troca da divulgação de um produto diretamente ligado a esse show, pois as crianças, vulneráveis, se tornam consumidores quase certos do tal kit. Além disso, a estratégia parece ardilosa também para com os pais, que confiam na escola e em seu ambiente para a educação de seus filhos e, portanto, sob o guarda-chuva da instituição que valida e credita o evento, creem de boa-fé que aquilo será benéfico a seus filhos. Afinal, que mal há em um espetáculo musical com uma dupla de palhaços?
Bom, para mim e meu marido, além de haver a ideia de que meu filhote, de apenas 11 meses, é um consumidor em potencial, também houve a possibilidade de expor meu filho a uma atração que poderia causar nele estímulos que considero excessivamente precoces: associação de músicas a marcas (a tal dupla de palhaços, afinal, é uma marca, com diversos produtos licenciados em seu nome!), associação de prazer e alegria a produtos e consumo e, por fim, a compreensão de que a diversão precisa ser barulhenta e altamente produzida. Além disso, me causa pavor a ideia de que pudesse estranhar as pinturas, os gestos, o barulho e as fantasias e se sentisse desnecessariamente desamparado, tendo de lidar com medo, ansiedade e angústia sem o conforto da mamãe por perto (claro que sei que Arthur, em algum momento da vida dele passará por situações desse nível sem ter a mamãe por perto; claro que eu sei que ele já pode, inclusive, ter experimentado isso na creche, tendo se assustado com qualquer coisa ou se sentido sozinho e desamparado; mas a questão toda é: se posso evitar, por que vou expô-lo espontaneamente a isso?).
E por fim, como se não bastasse tudo isso que acabei de apresentar, o tal evento trazia o patrocínio de um refresco em pó (corante + açúcar + aroma artificial? Não, obrigada. Nesses refrescos, a única coisa saudável é justamente a parte que não vem neles e que precisa ser acrescentada: a água) - e eu me recuso a frequentar ou consumir produtos, eventos e marcas com patrocínios com os quais não concordo ou que ferem minha filosofia de vida -, e, cereja do sundae, vinha com uma frasezinha no panfleto: "Deus é fiel!"
Sou ateia e respeito absolutamente todas as escolhas religiosas. Não concordo com algumas práticas em determinadas religiões, mas acho que cada ser humano na face da terra é livre para escolher no que quer acreditar ou no que não quer acreditar. Cada pessoa é senhora de si, e nada nem ninguém deve forçar que crenças ou valores sejam impostos ou reprimidos.
Assim, como eu poderia achar bacana que um evento, numa só tacada, trouxesse para o meu filho a possibilidade de: incentivar nele o consumo; atrelar momentos de prazer a marcas e produtos; apresentar a ele outros produtos que se vendem como inócuos, mas que induzem a uma alimentação desequilibrada e vazia de nutrientes; impor a ele qualquer prática religiosa, sendo que é minha escolha mantê-lo livre, porém informado, a respeito de vivências religiosas e/ou espirituais.
Preciso dizer que foi um alívio muito grande saber que em breve Arthur não precisará mais ficar na creche, pois esta me parece ser a ponta do iceberg das frustrações em relação a esta instituição. Outras práticas, claro, já haviam me deixado incomodada, mas foi realmente decepcionante ver que a escola autorizou o evento, que as outras mães não acharam nada demais nisso e, sobretudo, que eu tenha ido reclamar na diretoria e tenha escutado que "as crianças mais velhas vão ficar malucas".
Bom, se o objetivo da creche era deixar as pessoas malucas, comigo funcionou direitinho!
E lá fui eu hoje, de sling, com meus potinhos de LM congelado e mamadeira anti-desmame, copo de treinamento sem tampa, escova de dentes sem pasta e colar de âmbar para a dentição explicar que estava buscando o menino mais cedo por um posicionamento político, que me fazia discordar da exposição precoce ao consumismo e blá-blá-blá. As cuidadoras riram um pouco, porque, afinal, eu sou a mãe maluca. Mas acho que no fim das contas elas entenderam direitinho quando eu disse, para completar tudo, que, na minha humilde opinião, muito melhor e mais bacana do que ter palhaços vendedores de DVD fazendo um show altamente produzido, era mesmo o carinho que elas têm com meu pequeno, entretendo-o e estimulando-o todos os dias. Aí, elas riram diferente. E acho que nem me acharam tão maluca assim.
segunda-feira, 6 de maio de 2013
Doe-se
José nasceu pequenino. Pequenino, cabendo na palma da mão de seu pai, que tomou um susto com a bolsa arrebentando no meio da madrugada, muito tempo antes que fosse a "hora certa". Mas para José parecia a hora certa. E mesmo prematuro, com baixo peso, franzino, pele finíssima e algumas dificuldades de adaptação José parecia feliz com aquele amor: pai e mãe torcendo e lutando por sua saúde, vibrando com cada pequena conquista.
No entanto, apesar de todo amor e dedicação, houve um problema sério. Mais um susto, o pequeno José precisando de muitos cuidados, e a mãe, que se doou integralmente, não conseguiu ordenhar por um dia. E nem no outro. E o leite minguou.
Essa história é fictícia. Mas tenho certeza de que, assim como o pequenino José e seus pais inventados, muitos bebês prematuros e suas famílias enfrentam o drama das dificuldades de amamentação, o que, para alguém tão frágil e tão leve, é realmente um desafio que precisa ser vencido.
Assim, se você, como eu, vê sobrar leite, em qualquer quantidade, que tal se tornar uma doadora de leite?
No Rio de Janeiro, e acredito que em muuuuitas outras cidades do Brasil, o processo é simples, rápido e eficaz: você se cadastra como doadora, informa se vai precisar de potinhos de armazenamento (e quantos serão necessários), é avisada do dia da coleta da sua rota (quem faz o recolhimento dos potinhos com leite são os bombeiros) e pronto! Simples, rápido, indolor e um gesto de muito amor, que salva vidas e ajuda que pequenas esperanças se tornem grandes sonhos realizados.
Para saber mais sobre amamentação de prematuros, visite o IBC (não ligue para os deslizes no português, o que vale é a informação!).
Para saber mais sobre como doar leite para os bancos de leite humano, visite o site do IFF. Você também pode se informar através do 0800-026-88-77.
Hoje, por conta de sua recente greve de LM na creche, eu e Arthur doamos 1.560 ml!
No entanto, apesar de todo amor e dedicação, houve um problema sério. Mais um susto, o pequeno José precisando de muitos cuidados, e a mãe, que se doou integralmente, não conseguiu ordenhar por um dia. E nem no outro. E o leite minguou.
Essa história é fictícia. Mas tenho certeza de que, assim como o pequenino José e seus pais inventados, muitos bebês prematuros e suas famílias enfrentam o drama das dificuldades de amamentação, o que, para alguém tão frágil e tão leve, é realmente um desafio que precisa ser vencido.
Assim, se você, como eu, vê sobrar leite, em qualquer quantidade, que tal se tornar uma doadora de leite?
No Rio de Janeiro, e acredito que em muuuuitas outras cidades do Brasil, o processo é simples, rápido e eficaz: você se cadastra como doadora, informa se vai precisar de potinhos de armazenamento (e quantos serão necessários), é avisada do dia da coleta da sua rota (quem faz o recolhimento dos potinhos com leite são os bombeiros) e pronto! Simples, rápido, indolor e um gesto de muito amor, que salva vidas e ajuda que pequenas esperanças se tornem grandes sonhos realizados.
Para saber mais sobre amamentação de prematuros, visite o IBC (não ligue para os deslizes no português, o que vale é a informação!).
Para saber mais sobre como doar leite para os bancos de leite humano, visite o site do IFF. Você também pode se informar através do 0800-026-88-77.
Hoje, por conta de sua recente greve de LM na creche, eu e Arthur doamos 1.560 ml!
domingo, 28 de abril de 2013
Como seu filho brinca? - elucubrações de uma criança solitária
Eu era bem pequena, lá pelos 3 ou 4 anos, e ganhei uma bolsinha de presente. Ela era feita de plástico rígido, numa cor vibrante, que eu não lembro se era azul-turquesa, vermelho-sangue ou amarelo-canário. Dentro dela iam os itens que, segundo minha experiência, seriam fundamentais e indispensáveis: cédulas de um dinheiro já vencido pela inflação da louca década de 1980 (cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real, por aí afora), caneta, papel, documento de identificação (feito por mim mesma, com "foto 3X4" desenhada dentro de um retângulo no canto) e um mini frasquinho de soro fisiológico (para o caso de, deus me livre!, cair um perigoso cisco no meu olho). Na minha representação de mundo, do alto da minha primeira infância, era importante: minha identidade e meu papel social, dinheiro e, claro, remédios.
Eu fui uma criança solitária. Muito solitária. Sem irmãos ou primos, morando num prédio sem play ou crianças, uma baixinha tímida e magrela, alvo de bullying na escola, pais separados, mãe trabalhando fora o dia inteiro, realmente não tinha muito com quem brincar. E eu me lembro das longas horas gastas em brincadeiras ou em frente à televisão (sem a qual eu não almoçava!). E me lembro de ter um quartinho só de brinquedos (pequeno, como um armário grande, devia medir 1X2m), abarrotado de bonecas, panelinhas, pôneis de plástico, moranguinhos, acessórios de Barbie, jogos individuais (resta 1, jogos de encaixar, carimbos etc.).
Não sei se esses são valores bacanas para que uma criança de 3 ou 4 anos tenha. O que eu sei é que minha bolsinha representava meu mundo, e os objetos que iam lá dentro mostravam o que eu considerava importante.
Um dia, esqueci a bolsa em um restaurante (eu ia muito a restaurantes quando pequena).
***
Eu fui uma criança solitária. Muito solitária. Sem irmãos ou primos, morando num prédio sem play ou crianças, uma baixinha tímida e magrela, alvo de bullying na escola, pais separados, mãe trabalhando fora o dia inteiro, realmente não tinha muito com quem brincar. E eu me lembro das longas horas gastas em brincadeiras ou em frente à televisão (sem a qual eu não almoçava!). E me lembro de ter um quartinho só de brinquedos (pequeno, como um armário grande, devia medir 1X2m), abarrotado de bonecas, panelinhas, pôneis de plástico, moranguinhos, acessórios de Barbie, jogos individuais (resta 1, jogos de encaixar, carimbos etc.).
Num Natal meu padrinho me deu uma bicicleta, e eu pedi para a minha mãe um jogo caro (o nome era "O tesouro do Faraó"), que me custou muito dever de casa feito e muita arrumação de quarto.
A bicicleta era uma Caloi Ceci linda, eu customizei o selim e fiz mil planos de uso. Andei de bicicleta um dia, na Lagoa, e depois voltei com ela para casa, onde eu ia da sala ao quarto, num corredor de pouco mais de 3 metros de comprimento, só quando os adultos não estavam por perto para brigar comigo (porque "não pode andar de bicicleta dentro de casa!"). Em cima do banco da Caloi morava a casa da Moranguinho. O guidom guardava uma corda de pular e eu sempre montava na bicicleta, girando os pedais para trás, fingindo dar muitos passeios divertidos com ela. Já quanto ao jogo, bom, ele era para de dois a quatro participantes, e só havia uma pessoa disponível para jogar: eu. Assim, acho que só consegui brincar uma vez, com a minha mãe, e me lembro até hoje que eu chorei muito na hora de doar o jogo porque eu "não brincava mais com ele". Chorei de pena de mim mesma. E me senti muito sozinha.
***
Arthur tem acesso a muitos brinquedos: os que eu comprei para ele, os que ele ganhou, os que ele herdou, os que ele usa na creche. Toda criança deveria ter acesso ao espaço lúdico da brincadeira. Mas esse espaço, penso eu, não pode e nem deve ser limitado e (muito menos!) determinado pelos publicitários.
Confesso que aqui em casa temos muitas tranqueiras barulhentas de plástico: Fischer Price, Tiny Love e companhia. Brinquedos que, com tristeza, depois de alguns meses, notei que eram os equivalentes ao meu quartinho da infância: peças soltas, sem vida, com funções bem definidas e que tolhiam minha criatividade porque eram Moranguinhos (com roupa, voz e até cheiro pré-determinados), pôneis com nomes certos, bicicletas sem espaço para se pedalar e jogos múltiplos que frustam o jogador solitário. Além disso, os valores que eu estava incutindo no meu filhote não me parecem muito saudáveis: mamãe não está, mas veja que lindo relógio cantante que você tem!; você TEM muitos brinquedos; vamos substituir afeto e amor por algo material e que seja um simulacro do contato humano (vozes cantantes gravadas, figuras antropofórmicas). Eu estava reproduzindo o padrão sem perceber.
Na verdade, acho, não estava reproduzindo o padrão ainda. Mas assustei quando pensei nisso. E mais ainda quando pensei que, muito em breve, ficaria sozinha com Arthur, para ser responsável por uma infância feliz e divertida para ele. É extremamente assustador pensar na responsabilidade que tenho pela frente: aprender brincar com Arthur de modo a fazer do espaço lúdico uma possibilidade de experimentação e uma forma de representação de seu mundinho (e com isso, espero ter a chance de compreendê-lo mais e mais, de estar mais perto, mais integrada).
Na verdade, acho, não estava reproduzindo o padrão ainda. Mas assustei quando pensei nisso. E mais ainda quando pensei que, muito em breve, ficaria sozinha com Arthur, para ser responsável por uma infância feliz e divertida para ele. É extremamente assustador pensar na responsabilidade que tenho pela frente: aprender brincar com Arthur de modo a fazer do espaço lúdico uma possibilidade de experimentação e uma forma de representação de seu mundinho (e com isso, espero ter a chance de compreendê-lo mais e mais, de estar mais perto, mais integrada).
Enfim, mais uma vez penso que a maternagem consciente (além de trabalhosa porque nunca deixamos de pensar e repensar sobre as escolhas e decisões) é um caminho tortuoso, em que devemos ser responsáveis por aquilo que optamos, mas tendo o conforto de saber que sempre dá tempo de reformular as ideias e seguir novos rumos. Assim, em Chicago, nova vida, novas brincadeiras para o meu pequeno!
Com amor, sempre.
Com amor, sempre.
quinta-feira, 25 de abril de 2013
À indiana
Por volta dos três meses de idade Arthur, num belo dia, mamou, mamou, mamou e, logo a seguir, vomitou. Não era uma golfadinha, não. Era quantidade. De bater no chão e fazer barulho, de escorrer pelo meu braço, fazer poça no chão (olá, vida escatológica!). Fiquei preocupada e aguardei mais um pouco para ver o que aconteceria. Mais alguns dias e ele continuava dando umas vomitadas e o pior: passara a acordar muitas vezes durante a noite, chorava, se retorcia e remexia. Assim, diante do quadro preocupante, ligamos para o pediatra que, por telefone mesmo, sugeriu que eu testasse uma dieta completamente livre de leite de vaca e derivados para ver como Arthur se comportava. Eu, que estava na fase da obsessão por doce de leite, falei que no dia seguinte, então, começaria a dieta e o médico foi taxativo: não! Comece hoje! Em duas horas de dieta você já terá consideravelmente menos proteína do leite de vaca no seu organismo.
Como aqui, meu amigo, missão dada é missão cumprida, larguei o pote de doce de leite deliciosamente cremoso pela metade na geladeira, dei um pulinho no supermercado para comprar algo que eu pudesse comer, e desde então sou a maluca do "tem leite?". Tipo uma indiana radical, que considera pecado supremo comer partes da vaca. Até mesmo as excretadas (olá, fisiologia escatológica!). Tipo uma vegana.
Arthur de fato melhorou e na consulta que se seguiu ao tal telefonema o pediatra confirmou: alergia à proteína do leite de vaca (ALPV, para os íntimos).
Com diagnóstico e instruções para cortar da minha vida todo e qualquer vestígio de proteína do leite de vaca, me senti meio Gloria Gaynor: at first I was afraid, I was petrified. Mas aí pensei nos veganos, e nas pessoas que têm alergia à lactose, e nas pessoas que não gostam de leite e seus derivados e comecei a acreditar que seria difícil, porém não impossível, sobreviver à dieta.
É incrível a quantidade de coisas gostosas que precisei cortar da minha vida. E sobretudo, é surrealmente incrível a quantidade de DOCES que precisei abolir. Praticamente todos os doces de restaurante (exceto o quindim e doces de fruta, tipo goiabada e bananada), bolos (raros são os que usam margarina 100% vegetal e mais raros ainda os que substituem o leite por óleo ou suco), biscoitos e sorvetes. Mas o que realmente me impressionou demais foi começar a ler os rótulos das embalagens dos industrializados e descobrir, por exemplo, que algumas marcas de biscoito waffer não levam leite (mesmo o sabor chocolate) e que quase todos os sabores do bolinho Ana Maria não têm leite ou derivados.
Eu brinco, depois de virar profunda conhecedora dos rótulos de produtos que antes eu consumia sem ler os ingredientes, que eu estou, apesar de parecer ser muito vantajosa e saudável, na dieta do "estrago". Querem ver?
Eu, como vocês bem sabem, trabalho pacas, nove horas num escritório, então sou obrigada a comer na rua praticamente em todas as refeições. Meu chefe não quer pessoas comendo nas dependências da empresa, então não temos microondas e somos proibidos de consumir alimentos que deixem cheiro no ambiente (ou seja, tudo aquilo que possa ser esquentado, praticamente). Claro que eu poderia viver de sanduíche, mas eu sou daquele tipo de pessoa, sobretudo nesse período de amamentação (fome de peão feelings), que PRECISA de comer comida de verdade: arroz, feijão, bife, batata, salada, legume, purê... Ou seja, não rola levar sanduichinho para o trabalho e passar o dia com aquela sensação de vazio, né? Então, não tenho saída e sou obrigada a comer na rua. E, quanto aos lanchinhos e beliscadas do dia, claro que eu tenho a opção de levar (aí, sim) o sanduíche ou uma fruta e tal, mas haja disciplina para todo santo dia, antes de me despencar para o trabalho, fazer mochila de filho, ferver apetrechos de tirar leite, arrumar minhas duas bolsas (de ordenha e de trabalho), carregar moleque para creche (de ônibus, já que agora moramos relativamente longe de onde Arthur "estuda") e, ainda de lambuja, comprar, montar e carregar (visualizem: carrego Arthur no sling, mochila nas costas, duas bolsas de banda, e realmente não tenho estrutura física para suportar o peso de muito mais coisa) lanchinhos para a manhã e para a tarde (fome de peão, lembram? Como MESMO! De hora em hora. Uma loucura!).
Assim, com o almoço eu me viro bem (já conto a saga diária), mas com os lanchinhos da tarde, me esfalfo. Fico tentando encontrar soluções gostosas, saudáveis e viáveis (financeira e logisticamente falando), mas acabo sempre na alfarroba com coco, na pipoca de canjica, no chocolate de soja e no biscoito vegano. De vez em quando, picolé de fruta ou fruta in natura. É duro.
Então, eu, que antes adorava uma vida saudável, um iogurte com granola no meio da tarde, agora me vejo na dieta do estrago. Porque eu posso tranqueiras e mais tranqueiras, mas não posso coisas bacanas.
De manhã, por exemplo, tenho comido três ovos mexidos, biscoito de arroz, duas bananas, um copo de suco de laranja e um copo de mate. Claro que isso não vai me sustentar até a hora do almoço, então, ali perto do meu trabalho, a única opção que encontrei foi hambúrguer no pão integral (pão de hambúrguer tem leite, meu povo!). Ou seja, vitamina de mamão, morango, laranja, banana e aveia pode? Não pode! Mas hambúrguer na chapa, com bacon e ovo? Pode. Pão com manteiga e média pode? Não pode! Mas linguicinha calabresa com batata frita? Pode. No lanche da tarde não muda muito: bolo de laranja com chá pode? Só o chá. Mas e quibe frito e refresco de caju? Pode! Sanduíche natural, com peito de peru, ricota e salada pode? Não pode. Mas bolinho Ana Maria e biscoito waffer pode.
E assim, vou eliminando da minha vida tudo que traz no rótulo "leite em pó, leite em pó integral, soro de leite em pó, creme de leite, leite condensado, leite desnatado", mas continuo consumindo "lecitina de soja, fermentos químicos pirofosfato ácido de sódio e bicarbonato de sódio, conservador propionato de cálcio". Pura saúde, não?
E como se não bastasse minha junky new life, ainda passo por louca, porque vira e mexe sou obrigada a chamar o garçon em restaurantes e solicitar que ele fale, por favor, com o cozinheiro, para saber se o arroz do lugar é refogado na manteiga, na margarina, no óleo ou no azeite. Há os que me olham com enfado, os que me lançam olhares de empáfia e existem os que até me veem com desconfiança, como se eu estivesse tentando roubar os segredos do mestre-cuca. Uma lástima.
Mas a gente se adapta, não é mesmo? Os restaurantes que eu mais frequento já têm um pessoal que sabe das minhas restrições e até me avisam se houve mudanças no modo de preparo (já aconteceu duas vezes, em restaurantes diferentes). Eu já consegui encontrar umas soluções para o lanchinho da tarde que são menos trash que bolinho Ana Maria e biscoito waffer. Mas o hambúrguer da manhã ainda espreita meu colesterol e, definitivamente, me chuta da categoria vegana ou indiana, o que me faz comer feito um peão, um peão alérgico à proteína do leite de vaca, que não gosta de junky food (das comidas trevas que listei, não como quase nada, porque não gosto) e que não sobrevive apenas com frutinhas no meio da tarde. Ah, e antes que me sugiram: cream cracker leva leite e biscoito maizena também.
É dura a vida da bailarina!
Como aqui, meu amigo, missão dada é missão cumprida, larguei o pote de doce de leite deliciosamente cremoso pela metade na geladeira, dei um pulinho no supermercado para comprar algo que eu pudesse comer, e desde então sou a maluca do "tem leite?". Tipo uma indiana radical, que considera pecado supremo comer partes da vaca. Até mesmo as excretadas (olá, fisiologia escatológica!). Tipo uma vegana.
Arthur de fato melhorou e na consulta que se seguiu ao tal telefonema o pediatra confirmou: alergia à proteína do leite de vaca (ALPV, para os íntimos).
Com diagnóstico e instruções para cortar da minha vida todo e qualquer vestígio de proteína do leite de vaca, me senti meio Gloria Gaynor: at first I was afraid, I was petrified. Mas aí pensei nos veganos, e nas pessoas que têm alergia à lactose, e nas pessoas que não gostam de leite e seus derivados e comecei a acreditar que seria difícil, porém não impossível, sobreviver à dieta.
É incrível a quantidade de coisas gostosas que precisei cortar da minha vida. E sobretudo, é surrealmente incrível a quantidade de DOCES que precisei abolir. Praticamente todos os doces de restaurante (exceto o quindim e doces de fruta, tipo goiabada e bananada), bolos (raros são os que usam margarina 100% vegetal e mais raros ainda os que substituem o leite por óleo ou suco), biscoitos e sorvetes. Mas o que realmente me impressionou demais foi começar a ler os rótulos das embalagens dos industrializados e descobrir, por exemplo, que algumas marcas de biscoito waffer não levam leite (mesmo o sabor chocolate) e que quase todos os sabores do bolinho Ana Maria não têm leite ou derivados.
Eu brinco, depois de virar profunda conhecedora dos rótulos de produtos que antes eu consumia sem ler os ingredientes, que eu estou, apesar de parecer ser muito vantajosa e saudável, na dieta do "estrago". Querem ver?
Eu, como vocês bem sabem, trabalho pacas, nove horas num escritório, então sou obrigada a comer na rua praticamente em todas as refeições. Meu chefe não quer pessoas comendo nas dependências da empresa, então não temos microondas e somos proibidos de consumir alimentos que deixem cheiro no ambiente (ou seja, tudo aquilo que possa ser esquentado, praticamente). Claro que eu poderia viver de sanduíche, mas eu sou daquele tipo de pessoa, sobretudo nesse período de amamentação (fome de peão feelings), que PRECISA de comer comida de verdade: arroz, feijão, bife, batata, salada, legume, purê... Ou seja, não rola levar sanduichinho para o trabalho e passar o dia com aquela sensação de vazio, né? Então, não tenho saída e sou obrigada a comer na rua. E, quanto aos lanchinhos e beliscadas do dia, claro que eu tenho a opção de levar (aí, sim) o sanduíche ou uma fruta e tal, mas haja disciplina para todo santo dia, antes de me despencar para o trabalho, fazer mochila de filho, ferver apetrechos de tirar leite, arrumar minhas duas bolsas (de ordenha e de trabalho), carregar moleque para creche (de ônibus, já que agora moramos relativamente longe de onde Arthur "estuda") e, ainda de lambuja, comprar, montar e carregar (visualizem: carrego Arthur no sling, mochila nas costas, duas bolsas de banda, e realmente não tenho estrutura física para suportar o peso de muito mais coisa) lanchinhos para a manhã e para a tarde (fome de peão, lembram? Como MESMO! De hora em hora. Uma loucura!).
Assim, com o almoço eu me viro bem (já conto a saga diária), mas com os lanchinhos da tarde, me esfalfo. Fico tentando encontrar soluções gostosas, saudáveis e viáveis (financeira e logisticamente falando), mas acabo sempre na alfarroba com coco, na pipoca de canjica, no chocolate de soja e no biscoito vegano. De vez em quando, picolé de fruta ou fruta in natura. É duro.
Então, eu, que antes adorava uma vida saudável, um iogurte com granola no meio da tarde, agora me vejo na dieta do estrago. Porque eu posso tranqueiras e mais tranqueiras, mas não posso coisas bacanas.
De manhã, por exemplo, tenho comido três ovos mexidos, biscoito de arroz, duas bananas, um copo de suco de laranja e um copo de mate. Claro que isso não vai me sustentar até a hora do almoço, então, ali perto do meu trabalho, a única opção que encontrei foi hambúrguer no pão integral (pão de hambúrguer tem leite, meu povo!). Ou seja, vitamina de mamão, morango, laranja, banana e aveia pode? Não pode! Mas hambúrguer na chapa, com bacon e ovo? Pode. Pão com manteiga e média pode? Não pode! Mas linguicinha calabresa com batata frita? Pode. No lanche da tarde não muda muito: bolo de laranja com chá pode? Só o chá. Mas e quibe frito e refresco de caju? Pode! Sanduíche natural, com peito de peru, ricota e salada pode? Não pode. Mas bolinho Ana Maria e biscoito waffer pode.
E assim, vou eliminando da minha vida tudo que traz no rótulo "leite em pó, leite em pó integral, soro de leite em pó, creme de leite, leite condensado, leite desnatado", mas continuo consumindo "lecitina de soja, fermentos químicos pirofosfato ácido de sódio e bicarbonato de sódio, conservador propionato de cálcio". Pura saúde, não?
E como se não bastasse minha junky new life, ainda passo por louca, porque vira e mexe sou obrigada a chamar o garçon em restaurantes e solicitar que ele fale, por favor, com o cozinheiro, para saber se o arroz do lugar é refogado na manteiga, na margarina, no óleo ou no azeite. Há os que me olham com enfado, os que me lançam olhares de empáfia e existem os que até me veem com desconfiança, como se eu estivesse tentando roubar os segredos do mestre-cuca. Uma lástima.
Mas a gente se adapta, não é mesmo? Os restaurantes que eu mais frequento já têm um pessoal que sabe das minhas restrições e até me avisam se houve mudanças no modo de preparo (já aconteceu duas vezes, em restaurantes diferentes). Eu já consegui encontrar umas soluções para o lanchinho da tarde que são menos trash que bolinho Ana Maria e biscoito waffer. Mas o hambúrguer da manhã ainda espreita meu colesterol e, definitivamente, me chuta da categoria vegana ou indiana, o que me faz comer feito um peão, um peão alérgico à proteína do leite de vaca, que não gosta de junky food (das comidas trevas que listei, não como quase nada, porque não gosto) e que não sobrevive apenas com frutinhas no meio da tarde. Ah, e antes que me sugiram: cream cracker leva leite e biscoito maizena também.
É dura a vida da bailarina!
segunda-feira, 22 de abril de 2013
O renascimento do parto
A prima de uma amiga está grávida. Reta final. Daí veio avisar toda prosa: não passa do dia 25. Como ela sabe? Como o médico que a acompanha sabe? O bebê vai se transformar em um gremlin se continuar no útero dela, mesmo dando sinais de que está bem e saudável?
Há longos anos, no Brasil, os valores do nascimento vêm sendo invertidos, e o que deveria ser um momento lindo, maravilhoso e fundamental passa a ser um perigo, um descaso, uma dor e algo regido pelo dinheiro.
Se você, como eu, sonha que mais e mais mulheres possam ter um parto ativo, saudável, respeitoso, fisiológico e repleto de amor, então lute comigo!
Você pode, como eu, encher o saco de todos que conhece com dados, estatísticas, causos e indicações de pesquisas científicas, pode escolher uma equipe porreta e parir seu filho sem intervenções no dia da marcha pela humanização dos nascimentos, pode ficar conhecida como "a maluca do parto natural" aonde quer que vá (hoje no trabalho, quando eu estava no almoço, surgiu o tema "parto" e TODAS as pessoas da empresa vieram falar comigo depois: ih, Fulana estava falando de parto hoje!). Mas se você não pode ou não quer se envolver nesse nível, porém acha a causa justa e bacana, existem outras maneiras de ajudar, claro. Até o dia 18 de junho, por exemplo, basta clicar neste link e fazer sua doação e/ou ajudar a divulgar a causa! Conscientizar as pessoas de que existem outras formas de nascer abre horizontes e traz para a mulher mais liberdade. Mudar a maneira de nascer é, de certo modo, mudar uma sociedade. E, parafraseando Michel Odent, que humanidade será essa, que nasce na violência obstétrica, na cesária mal indicada, nas artificialidades desnecessárias? É preciso mudar a forma de nascer para se mudar a forma de viver.
PS: Eu já doei. Quero ver todo mundo nos cinemas tentando adivinhar meu nome real quando passarem os créditos, hein!
segunda-feira, 8 de abril de 2013
A vida dá voltas (e nós também vamos passear)
Engraçado como as coisas acontecem nessa vida, né?
Eu sempre disse que queria ser mãe antes dos 30, mas, conforme a famosa idade vinha se aproximando, mais eu pensava que lá se ia mais uma meta, mais um sonho pelo ralo. Assim, decidi focar em outra coisa enquanto tentava engravidar. Daí, em 2011 eu escrevi que talvez tivesse novidades, mas que não seria um bebê. Que ironia! Porque no mesmo ano eu vim aqui contar que estava grávida, gravidíssima, mas nada da outra novidade, né? Ninguém notou porque o que é uma novidade em potencial diante de uma gravidez "cinética", em pleno curso rumo ao Big Bang do parto? Nada! Então ninguém se lembrou, nem perguntou e eu quis deixar a novidade em potencial queitinha, sendo alimentada das matérias mais preciosas que existem no mundo: amor, sonho e planejamento.
Então, em 2013, dois anos e um bebê depois, venho aqui contar a novidade que plantamos (eu e marido) com tanto carinho na época em que éramos apenas dois: vamos nos mudar!
Não compramos a sonhada casa própria, mas demos uma guinada profissional em nossas vidas e as malas para Chicago estão quase prontas!
Estamos ansiosos, cansados (se mudar já é o caos, para outro país e com um bebê a tiracolo é ainda mais insano!) e animados. Cada dia que passa o frio na barriga aumenta - e é bom nos acostumarmos com frio, já que Chicago não é Rio de Janeiro, e adeus aos verões escaldantes seguidos de invernos amenos: agora é pauleira de neve, vento e temperaturas negativas! Que tudo dê certo! - e, é claro, as saudades também.
Deixaremos 30 anos de vida para trás: trinta anos de amizades, trinta anos de lugares especiais, histórias, cantinhos e casas. Trinta anos de pessoas, ruas, paisagens e pores do sol. Mas, em compensação, teremos pela frente um país novinho, cheio de novas pessoas para conhecermos e nos tornarmos amigas, repleto de paisagens e lugares que, aos poucos, serão nossos também. E o melhor e mais importante de tudo: Arthur crescerá bilíngue, um desejo meu que se realiza!
Assim, aviso que no começo teremos muitas novidades e pouco tempo, mas prometo que venho aqui contar como andam as coisas e nossas vidas. Afinal, este meu cantinho selvagem é universal e me acompanha onde quer que eu vá.
Torçam por nós!
Eu sempre disse que queria ser mãe antes dos 30, mas, conforme a famosa idade vinha se aproximando, mais eu pensava que lá se ia mais uma meta, mais um sonho pelo ralo. Assim, decidi focar em outra coisa enquanto tentava engravidar. Daí, em 2011 eu escrevi que talvez tivesse novidades, mas que não seria um bebê. Que ironia! Porque no mesmo ano eu vim aqui contar que estava grávida, gravidíssima, mas nada da outra novidade, né? Ninguém notou porque o que é uma novidade em potencial diante de uma gravidez "cinética", em pleno curso rumo ao Big Bang do parto? Nada! Então ninguém se lembrou, nem perguntou e eu quis deixar a novidade em potencial queitinha, sendo alimentada das matérias mais preciosas que existem no mundo: amor, sonho e planejamento.
Então, em 2013, dois anos e um bebê depois, venho aqui contar a novidade que plantamos (eu e marido) com tanto carinho na época em que éramos apenas dois: vamos nos mudar!
Não compramos a sonhada casa própria, mas demos uma guinada profissional em nossas vidas e as malas para Chicago estão quase prontas!
Estamos ansiosos, cansados (se mudar já é o caos, para outro país e com um bebê a tiracolo é ainda mais insano!) e animados. Cada dia que passa o frio na barriga aumenta - e é bom nos acostumarmos com frio, já que Chicago não é Rio de Janeiro, e adeus aos verões escaldantes seguidos de invernos amenos: agora é pauleira de neve, vento e temperaturas negativas! Que tudo dê certo! - e, é claro, as saudades também.
Deixaremos 30 anos de vida para trás: trinta anos de amizades, trinta anos de lugares especiais, histórias, cantinhos e casas. Trinta anos de pessoas, ruas, paisagens e pores do sol. Mas, em compensação, teremos pela frente um país novinho, cheio de novas pessoas para conhecermos e nos tornarmos amigas, repleto de paisagens e lugares que, aos poucos, serão nossos também. E o melhor e mais importante de tudo: Arthur crescerá bilíngue, um desejo meu que se realiza!
Assim, aviso que no começo teremos muitas novidades e pouco tempo, mas prometo que venho aqui contar como andam as coisas e nossas vidas. Afinal, este meu cantinho selvagem é universal e me acompanha onde quer que eu vá.
Torçam por nós!
segunda-feira, 4 de março de 2013
Pollyanna na Páscoa
Arthur tem APLV, como vocês sabem.
Arthur me obriga a manter uma dieta rigorosa, na qual me privo de coisas de que gosto muitíssimo.
Arthur está experimentando novos alimentos (sopinhas, frutinhas, suquinhos, ontem de manhã rolou até um pedaço de pão francês).
A Páscoa está chegando e...
...graças à APLV Arthur não poderá nem chegar perto de chocolates.
Que alegria mantê-lo por mais um tempo sem experimentar besteiras! E nem precisar dar aquela de antipática neurótica. Basta proferir as palavrinhas mágicas: ele tem alergia à leite de vaca. Que peninha, né?!
;-)
Arthur me obriga a manter uma dieta rigorosa, na qual me privo de coisas de que gosto muitíssimo.
Arthur está experimentando novos alimentos (sopinhas, frutinhas, suquinhos, ontem de manhã rolou até um pedaço de pão francês).
A Páscoa está chegando e...
...graças à APLV Arthur não poderá nem chegar perto de chocolates.
Que alegria mantê-lo por mais um tempo sem experimentar besteiras! E nem precisar dar aquela de antipática neurótica. Basta proferir as palavrinhas mágicas: ele tem alergia à leite de vaca. Que peninha, né?!
;-)
segunda-feira, 17 de dezembro de 2012
6 meses e nós conseguimos!
O meu bico plano não facilitou a primeira mamada. Nem as demais. Visitei um centro de referência em amamentação com reputação internacional e me disseram que não era impeditivo ter um bico plano ou mesmo um invertido. Não era impeditivo e não foi, mas doeu e dói até hoje.
Os dois cistos que eu tinha no mamilo não fizeram da amamentação um mar de rosas. Até hoje, de vez em quando, Arthur pega de mal jeito e me faz ver estrelas sem olhar para o céu (e sem qualquer poesia). Fui visitada por uma especialista em amamentação, mestre (de verdade, pela UFF!) no assunto, que me garantiu que o melhor tratamento para os cistos inoperáveis que moravam no meu mamilo seria a boquinha voraz de meu filho, mamando. Doeu horrores, muitíssimo, mais que qualquer rachadura, e ainda dói, mas um dos cistos sumiu de fato. O outro está bem menor e menos dolorido. Só de vez em quando sobem as lágrimas (e não são lágrimas de felicidade ou emoção, garanto).
Sair do hospital com uma monília que não foi diagnosticada tão cedo não facilitou minhas primeiras semanas. Eu ouvia, de todas as mães a quem me queixava, que as dores passariam logo, e que depois do primeiro mês tudo melhoraria muitíssimo e dar de mamar seria fantástico. Não foi nada assim. Arthur fez dois, três, quatro meses e a primeira abocanhada me fazia querer chutar o mundo, me retorcia os dedos do pé, numa tentativa inútil de desviar a atenção da dor intensa e aguda para outra parte do corpo, de preferência uma bem distante. Seis meses depois, ainda dói, porque a monília que me pegou é carente e encontrou em mim uma mãe carinhosa, dedicada, afetuosa; apaixonou.
Sentir meu corpo ferver e amolecer em um febrão no momento em que as que pariram comigo estavam começando a gostar muito de amamentar não ajudou a construir uma ideia positiva do meu futuro como provedora de leite do meu filho. A mastite e seus medicamentos abalaram minha ideia romântica de amamentar meu pequeno, embalando-o na cadeira de balanço, com um sorriso nos lábios e toda a placidez que tal imagem evoca. No entanto, não abalou minha vontade de querer insistir em oferecer ao Arthur o melhor alimento que eu poderia.
Ter um bebê alérgico à proteína do leite de vaca, o que me obrigou e ainda obriga a seguir uma dieta rígida e bastante limitadora, não tornou minha vida mais prática. O trabalho que uma mãe que oferece fórmula tem, eu também devo ter. O gasto que essa mesma mãe tem, eu também devo ter. Menos o desgaste emocional de não saber por que seu filho chora e vomita, menos a vontade que passo por não comer chocolate, leite condensado, bolos, manteiga e outras delícias. Limita, dói, incomoda.
Voltar a trabalhar depois de apenas quatro meses e meio não fez com que minha vida se tornasse libertadora. Ir para o trabalho, além do próprio trabalho, implicou em jornada extra: em casa, com o pequeno, é claro, mas também no trabalho, três ou quatro vezes por dia trancafiada num quartinho de depósito gelado como o inferno (detesto passar frio, logo, o inferno deve ser gelado!), ordenhando, lutando para manter estoque para o bebê que, na creche e em casa, longe de mim, mama de tres a quatro mamadeiras diárias com cerca de 150ml cada. É preciso muita disciplina e foco, para conseguir dar conta de toda a jornada.
Colocar o Arthur na creche, que tem uma psicóloga toupeira, que vive insinuando que eu devo inserir alimentos sólidos na dieta do meu filho (entre outras bizarrices irritantes), não foi receber exatamente o apoio de que eu precisava nesse momento de transição. Muito menos com as ameaças subjacentes ao discurso ensaboado de quem lida com "mãezinhas" o tempo todo: olha, ele vai ficar subnutrido, ele precisará de mais calorias, ele pode não se adaptar à mamadeira, e como ficamos?, vai deixar seu filho com fome? Precisei acreditar em mim, nas minhas escolhas e convicções, e buscar apoio em outros lugares, no pediatra, no marido, em outras mães. Doeu e deu medo de estar escolhendo errado. Mas os números do crescimento do filhote não deixam mais espaço para dúvidas.
Bico plano, empedramento, bicos rachados, faltando um pedaço, cistos no mamilo, monília, mastite, dieta para ALPV, ordenha no trabalho, ordenhas na madrugada para manter a produção. Amamentar foi e continua a ser um desafio para mim. Dói, incomoda, cerceia e exige.
Por isso, hoje, quando Arthur completa seis meses, eu venho aqui, com muitíssimo orgulho, me achando o suprassumo humano, para anunciar que conseguimos! Amamentação exclusiva! Nem água, nem chá, nem suquinho, nem fórmula. Só peito. Seis meses perfeitos em sua imperfeição. Seis meses muito sofridos, doloridos física e emocionalmente, mas, como acontece em maratonas e outras situações em que precisamos superar as limitações do corpo, da mente e do espaço (físico e temporal), eu venci! Nós vencemos! E isso dá um prazer, um orgulho de rei, de rainha, de mãe: eu que fiz, eu que nasci, eu que fiz crescer!
Agora, vamos em frente.
Arthur começará a experimentar frutinhas, e depois comidinhas salgadas. E nós continuaremos com a amamentação, que pode agora durar muito ou durar pouco, ele escolhe, mas certamente foi fundamental para que construíssemos um vínculo maravilhoso, este sim eterno em nossa perenidade.
Arthur, meu filho, nós podemos mais! Nós podemos tudo!
Os dois cistos que eu tinha no mamilo não fizeram da amamentação um mar de rosas. Até hoje, de vez em quando, Arthur pega de mal jeito e me faz ver estrelas sem olhar para o céu (e sem qualquer poesia). Fui visitada por uma especialista em amamentação, mestre (de verdade, pela UFF!) no assunto, que me garantiu que o melhor tratamento para os cistos inoperáveis que moravam no meu mamilo seria a boquinha voraz de meu filho, mamando. Doeu horrores, muitíssimo, mais que qualquer rachadura, e ainda dói, mas um dos cistos sumiu de fato. O outro está bem menor e menos dolorido. Só de vez em quando sobem as lágrimas (e não são lágrimas de felicidade ou emoção, garanto).
Sair do hospital com uma monília que não foi diagnosticada tão cedo não facilitou minhas primeiras semanas. Eu ouvia, de todas as mães a quem me queixava, que as dores passariam logo, e que depois do primeiro mês tudo melhoraria muitíssimo e dar de mamar seria fantástico. Não foi nada assim. Arthur fez dois, três, quatro meses e a primeira abocanhada me fazia querer chutar o mundo, me retorcia os dedos do pé, numa tentativa inútil de desviar a atenção da dor intensa e aguda para outra parte do corpo, de preferência uma bem distante. Seis meses depois, ainda dói, porque a monília que me pegou é carente e encontrou em mim uma mãe carinhosa, dedicada, afetuosa; apaixonou.
Sentir meu corpo ferver e amolecer em um febrão no momento em que as que pariram comigo estavam começando a gostar muito de amamentar não ajudou a construir uma ideia positiva do meu futuro como provedora de leite do meu filho. A mastite e seus medicamentos abalaram minha ideia romântica de amamentar meu pequeno, embalando-o na cadeira de balanço, com um sorriso nos lábios e toda a placidez que tal imagem evoca. No entanto, não abalou minha vontade de querer insistir em oferecer ao Arthur o melhor alimento que eu poderia.
Ter um bebê alérgico à proteína do leite de vaca, o que me obrigou e ainda obriga a seguir uma dieta rígida e bastante limitadora, não tornou minha vida mais prática. O trabalho que uma mãe que oferece fórmula tem, eu também devo ter. O gasto que essa mesma mãe tem, eu também devo ter. Menos o desgaste emocional de não saber por que seu filho chora e vomita, menos a vontade que passo por não comer chocolate, leite condensado, bolos, manteiga e outras delícias. Limita, dói, incomoda.
Voltar a trabalhar depois de apenas quatro meses e meio não fez com que minha vida se tornasse libertadora. Ir para o trabalho, além do próprio trabalho, implicou em jornada extra: em casa, com o pequeno, é claro, mas também no trabalho, três ou quatro vezes por dia trancafiada num quartinho de depósito gelado como o inferno (detesto passar frio, logo, o inferno deve ser gelado!), ordenhando, lutando para manter estoque para o bebê que, na creche e em casa, longe de mim, mama de tres a quatro mamadeiras diárias com cerca de 150ml cada. É preciso muita disciplina e foco, para conseguir dar conta de toda a jornada.
Colocar o Arthur na creche, que tem uma psicóloga toupeira, que vive insinuando que eu devo inserir alimentos sólidos na dieta do meu filho (entre outras bizarrices irritantes), não foi receber exatamente o apoio de que eu precisava nesse momento de transição. Muito menos com as ameaças subjacentes ao discurso ensaboado de quem lida com "mãezinhas" o tempo todo: olha, ele vai ficar subnutrido, ele precisará de mais calorias, ele pode não se adaptar à mamadeira, e como ficamos?, vai deixar seu filho com fome? Precisei acreditar em mim, nas minhas escolhas e convicções, e buscar apoio em outros lugares, no pediatra, no marido, em outras mães. Doeu e deu medo de estar escolhendo errado. Mas os números do crescimento do filhote não deixam mais espaço para dúvidas.
Bico plano, empedramento, bicos rachados, faltando um pedaço, cistos no mamilo, monília, mastite, dieta para ALPV, ordenha no trabalho, ordenhas na madrugada para manter a produção. Amamentar foi e continua a ser um desafio para mim. Dói, incomoda, cerceia e exige.
Por isso, hoje, quando Arthur completa seis meses, eu venho aqui, com muitíssimo orgulho, me achando o suprassumo humano, para anunciar que conseguimos! Amamentação exclusiva! Nem água, nem chá, nem suquinho, nem fórmula. Só peito. Seis meses perfeitos em sua imperfeição. Seis meses muito sofridos, doloridos física e emocionalmente, mas, como acontece em maratonas e outras situações em que precisamos superar as limitações do corpo, da mente e do espaço (físico e temporal), eu venci! Nós vencemos! E isso dá um prazer, um orgulho de rei, de rainha, de mãe: eu que fiz, eu que nasci, eu que fiz crescer!
Agora, vamos em frente.
Arthur começará a experimentar frutinhas, e depois comidinhas salgadas. E nós continuaremos com a amamentação, que pode agora durar muito ou durar pouco, ele escolhe, mas certamente foi fundamental para que construíssemos um vínculo maravilhoso, este sim eterno em nossa perenidade.
Arthur, meu filho, nós podemos mais! Nós podemos tudo!
domingo, 28 de outubro de 2012
Levando bolo (ou da solidão que me aflige)
(Eu deveria estar frilando, mas estou aqui, blogando.)
Quem lê meus posts, quem me vê de longe na vida deve pensar que eu sou a popular do pedaço. Não que meu blog seja bombante ou nada do tipo, mas é que aqui, com a graça do santo protetor das blogueiras (há de ter um desses!), só recebo elogios nos comentários (obrigada de verdade! Quem tem blog sabe o valor de um comentário), e aí parece que sou bacana, né? Na vida vista de longe, provavelmente também é um pouco assim, porque sou do tipo que não pesa na vida dos amigos porque não existe na vida dos amigos, do tipo que cresceu brincando de boneca em um prédio que só tinha adulto. E aí que eu aprendi a ser bem sozinha, como se não houvesse, na verdade, adultos no meu prédio, na minha rua, no meu quarteirão, na minha cidade. Sozinha.
Às vezes eu me importo muito com isso. Fico triste e me sentindo culpada por enfiar os pés pelas mãos quando o assunto é manter contato, cativar amigos para além do momento inicial. Outras vezes, porém, vou levando numa boa, achando bom ser meio Billy Idol porque a vida fica um pouco mais do meu jeito (afinal, "Well there's nothing to lose/And there's nothing to prove").
Acontece que desde que Arthur nasceu recebemos poucas visitas. E eu tenho ficado sentida com isso (hello, hormônios!). Muito pelo descaso das pessoas, que marcam milhares de coisas conosco ("querida, vamos aí neste fim de semana", "vamos fazer um passeio assim, assado dia tal?", "te ligo para combinarmos, sem falta") e somem, se esquecendo de que temos uma rotininha com o pequeno e, se a alteramos um pouquinho, corremos o risco de bagunçar o coreto e, depois, quem se lasca somos nós, eu e marido: ninando madrugada adentro, amamentando por horas a fio etc. Logo, se alteramos essa rotininha com Arthur é porque queremos partilhar este momento de alegria que vivemos com pessoas de quem gostamos. E a gente arrisca porque somos pais corujas e orgulhosos, porque estamos felizes, porque a gente acha que vale a pena. E às vezes não vale.
Não vale e eu volto a brincar sozinha de boneca, em um prédio só de adultos.
Quem lê meus posts, quem me vê de longe na vida deve pensar que eu sou a popular do pedaço. Não que meu blog seja bombante ou nada do tipo, mas é que aqui, com a graça do santo protetor das blogueiras (há de ter um desses!), só recebo elogios nos comentários (obrigada de verdade! Quem tem blog sabe o valor de um comentário), e aí parece que sou bacana, né? Na vida vista de longe, provavelmente também é um pouco assim, porque sou do tipo que não pesa na vida dos amigos porque não existe na vida dos amigos, do tipo que cresceu brincando de boneca em um prédio que só tinha adulto. E aí que eu aprendi a ser bem sozinha, como se não houvesse, na verdade, adultos no meu prédio, na minha rua, no meu quarteirão, na minha cidade. Sozinha.
Às vezes eu me importo muito com isso. Fico triste e me sentindo culpada por enfiar os pés pelas mãos quando o assunto é manter contato, cativar amigos para além do momento inicial. Outras vezes, porém, vou levando numa boa, achando bom ser meio Billy Idol porque a vida fica um pouco mais do meu jeito (afinal, "Well there's nothing to lose/And there's nothing to prove").
Acontece que desde que Arthur nasceu recebemos poucas visitas. E eu tenho ficado sentida com isso (hello, hormônios!). Muito pelo descaso das pessoas, que marcam milhares de coisas conosco ("querida, vamos aí neste fim de semana", "vamos fazer um passeio assim, assado dia tal?", "te ligo para combinarmos, sem falta") e somem, se esquecendo de que temos uma rotininha com o pequeno e, se a alteramos um pouquinho, corremos o risco de bagunçar o coreto e, depois, quem se lasca somos nós, eu e marido: ninando madrugada adentro, amamentando por horas a fio etc. Logo, se alteramos essa rotininha com Arthur é porque queremos partilhar este momento de alegria que vivemos com pessoas de quem gostamos. E a gente arrisca porque somos pais corujas e orgulhosos, porque estamos felizes, porque a gente acha que vale a pena. E às vezes não vale.
Não vale e eu volto a brincar sozinha de boneca, em um prédio só de adultos.
sábado, 27 de outubro de 2012
Sobre madrugadas e James Brown
Ontem tivemos a pior madrugada desde que Arthur nasceu. Nem quando ele era um recém-nascido petitico sofremos tanto, acordamos tanto, choramos tanto. Foi caótico. Ele, tadinho, estava com febre e dor, reação às vacinas de quarto mês.
Hoje, em compensação, tivemos a melhor madrugada desde que filhote nasceu. Ele mamou meia-noite, acordou para mamar somente seis da manhã e levantou de vez às dez. Dez da manhã! Marido, que não amamenta, dormiu dez horas seguidas. E isso porque foi se deitar à meia-noite! Puro luxo.
E aí, nessa montanha-russa do sono, fiquei pensando sobre noites em claro e noites de sono.
* Quando as pessoas me perguntam "E aí, como vão as coisas? E a vida de mãe? Sofrendo muito com as noites em claro?" eu sempre respondo que nem acho ruim passar as noites acordada, não. Isso porque Arthur acorda, me acorda e, assim, acordados, mas juntinhos, seguimos madrugadas adentro. No entanto, mãe maluca que sou, sei que quando meu pequeno tiver 18 anos e for para festinhas, ficarei tão acordada quanto agora, madrugadas sem conta, mas com o agravante de não saber onde ele está, se está bem, se está seguro. Agora, pelo menos, sei onde ele está e que está alimentado, seguro e feliz.
* Antes de eu engravidar escutava muito a ladainha dos que não têm filho ou dos que acham que a vida é plana como suas vidas, e tudo deve funcionar segundo os padrões já conhecidos (assim, quem gosta de sair, acha que todos do mundo gostam de sair; quem gosta de pêssego, acha um absurdo que existam pessoas que não gostem da fruta, etc.). Essa ladainha funciona assim (e todo mundo já escutou): vai ter filho agora? Sua vida social acabará, você não conseguirá mais sair de noite, nunca mais verá seus amigos, diga adeus para festas e coisas boas da vida, porque você passará noites e mais noites dando de mamar, trocando fraldas, esgotada, e esse bebê vai sugar sua vida, lhe deixar sem opções, estressada, mal amada, infeliz... e por aí vai o trololó.
Trololó mesmo! E dos bons! Porque, confesso, não sinto a menor falta de festas, badalações e eventos sociais que terminem tarde, envolvam música alta, ambientes fechados, bebidas e muita fumaça. Não que eu não goste de uma festa e de vez em quando não lamente perder umas comemorações ou shows ou eventos noturnos que gostaria de ir. Mas é que é tão bom, mas tão bom passar madrugadas em claro, em um ambiente fechado (nosso quarto), com música alta (mas agora é MEC FM), cheirinho de bebida (leite materno na boquinha do meu filho) e muita alegria (Arthur a-do-ra dar altas risadas de noite e de madrugada, seja dormindo quanto na hora de trocar fralda), que nem ligo de perder baladas bafônicas. O foco é outro. A vida é outra. E se acordo todos os dias cansada, esgotada e exaurida, isso tem o mesmo sabor dos meus tempos de roqueira frenética, em que voltava para casa às dez da manhã, depois de dançar até quase morrer nas festas. É o gostinho de estar no lugar exato onde se queria estar.
E por isso, nesse dia especial (como são, na verdade, todos os dias com meu filho), acordei meio James Brown. Acordei feliz, feliz, feliz...
Hoje, em compensação, tivemos a melhor madrugada desde que filhote nasceu. Ele mamou meia-noite, acordou para mamar somente seis da manhã e levantou de vez às dez. Dez da manhã! Marido, que não amamenta, dormiu dez horas seguidas. E isso porque foi se deitar à meia-noite! Puro luxo.
E aí, nessa montanha-russa do sono, fiquei pensando sobre noites em claro e noites de sono.
* Quando as pessoas me perguntam "E aí, como vão as coisas? E a vida de mãe? Sofrendo muito com as noites em claro?" eu sempre respondo que nem acho ruim passar as noites acordada, não. Isso porque Arthur acorda, me acorda e, assim, acordados, mas juntinhos, seguimos madrugadas adentro. No entanto, mãe maluca que sou, sei que quando meu pequeno tiver 18 anos e for para festinhas, ficarei tão acordada quanto agora, madrugadas sem conta, mas com o agravante de não saber onde ele está, se está bem, se está seguro. Agora, pelo menos, sei onde ele está e que está alimentado, seguro e feliz.
* Antes de eu engravidar escutava muito a ladainha dos que não têm filho ou dos que acham que a vida é plana como suas vidas, e tudo deve funcionar segundo os padrões já conhecidos (assim, quem gosta de sair, acha que todos do mundo gostam de sair; quem gosta de pêssego, acha um absurdo que existam pessoas que não gostem da fruta, etc.). Essa ladainha funciona assim (e todo mundo já escutou): vai ter filho agora? Sua vida social acabará, você não conseguirá mais sair de noite, nunca mais verá seus amigos, diga adeus para festas e coisas boas da vida, porque você passará noites e mais noites dando de mamar, trocando fraldas, esgotada, e esse bebê vai sugar sua vida, lhe deixar sem opções, estressada, mal amada, infeliz... e por aí vai o trololó.
Trololó mesmo! E dos bons! Porque, confesso, não sinto a menor falta de festas, badalações e eventos sociais que terminem tarde, envolvam música alta, ambientes fechados, bebidas e muita fumaça. Não que eu não goste de uma festa e de vez em quando não lamente perder umas comemorações ou shows ou eventos noturnos que gostaria de ir. Mas é que é tão bom, mas tão bom passar madrugadas em claro, em um ambiente fechado (nosso quarto), com música alta (mas agora é MEC FM), cheirinho de bebida (leite materno na boquinha do meu filho) e muita alegria (Arthur a-do-ra dar altas risadas de noite e de madrugada, seja dormindo quanto na hora de trocar fralda), que nem ligo de perder baladas bafônicas. O foco é outro. A vida é outra. E se acordo todos os dias cansada, esgotada e exaurida, isso tem o mesmo sabor dos meus tempos de roqueira frenética, em que voltava para casa às dez da manhã, depois de dançar até quase morrer nas festas. É o gostinho de estar no lugar exato onde se queria estar.
E por isso, nesse dia especial (como são, na verdade, todos os dias com meu filho), acordei meio James Brown. Acordei feliz, feliz, feliz...
I feel so nice, so nice 'cause I got Arthur!
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
A angústia do anonimato
Como todos vocês sabem, Ártemis é meu pseudônimo para escrever este blog. Na minha família, temos alguma tradição no assunto, pois minha bisavó fazia versos em uma época que mulheres poetas não eram bem-vistas e/ou levadas a sério e minha avó foi atriz numa época em que ser atriz não era ocupação para "moças de família". Hoje, claro, as coisas melhoraram e meu anonimato não é necessário para escapar de opressões machistas e preconceituosas, mas sim para evitar constrangimentos (meus) em relação ao que falo por aqui.
Até onde eu saiba, existem seis pessoas que leem este blog e sabem meu nome: marido, minha melhor amiga, a Anna, duas amigas do mundo "real" que estão grávidas e uma que já é mamãe. Esta última vive me dando força para que eu divulgue o blog entre meus amigos do mundo não virtual e generosamente elogia meus textos.
Fato é que muito do que escrevo aqui acaba envolvendo pessoas do meu convívio e tenho medo de que minhas palavras ofendam ou exponham. E sigo escondida atrás de um nome escolhido (Ártemis tem tudo a ver com parto, nascimento e vida selvagem!).
Porém, desde que Arthur nasceu, tenho tido muita pena de ficar escondida atrás de um nome fantasia que, se por um lado me garante a liberdade de falar o que quiser, como quiser e como quiser, por outro me prende à uma identidade que, embora bastante sincera (já disse que escrevo por aqui com o coração, sendo muito honesta com meus sentimentos e ideias), não está completa. Essa espécie de vida dupla que levo acaba me deixando muito cansada, já que não posso sair falando do meu blog, um espaço tão importante na minha vida, na minha vida não virtual. Isso cansa, minha gente.
Por outro lado, o que fazer? Existem coisas que escrevo aqui que não gostaria de sair divulgando mundo afora, mas, por outro lado, são informações, muitas vezes, interessantes para quem quer engravidar ou está lutando por um parto humanizado. Já pensei, como tentativa de solução, apagar ou editar os textos. Mas além de um trabalho cão, acho que muitas coisas que escrevo têm valor sentimental para mim, um pedacinho da minha vida, e deixar os textos que representam esses momentos nos rascunhos seria doloroso para mim e, para completar, acho que o blog perderia uma "unidade" conseguida nessa coisa de autorreferenciação.
E aí, sigo aqui, angustiada com o anonimato, angustiada com a possibilidade de sair dele. Pensando muito no que a Anne Rammi disse uma vez.
sexta-feira, 28 de setembro de 2012
E o bom conselho?
Vocês já me viram dando muito ataque de pelanca por conta dos pitacos que recebi e ainda recebo sobre como criar o meu filho e tocar a minha vida. Acontece que, conversando com uma das amigas grávidas (uma que agora é ex-grávida porque o filhote lindíssimo dela nasceu!), e dando meus pitacos (quem resiste? hipocrisia com sinceridade pode?), percebi que alguns conselhos que recebi foram surpreendentemente bons!
Daí, resolvi fazer uma listinha do que funcionou aqui em casa e que pode ajudar alguma grávida ou mãe recente nesse mundão wireless e 3G de meu deus.
E se você for adepta do ditado que diz que "se conselho fosse bom não se dava: vendia-se", aceito o depósito de uns caraminguás na minha conta... heheheh
Daí, resolvi fazer uma listinha do que funcionou aqui em casa e que pode ajudar alguma grávida ou mãe recente nesse mundão wireless e 3G de meu deus.
E se você for adepta do ditado que diz que "se conselho fosse bom não se dava: vendia-se", aceito o depósito de uns caraminguás na minha conta... heheheh
- Sobreviva - acho que esse foi um dos melhores conselhos que recebi para o puerpério. Nossa sociedade midiática e imagética cria estereótipos tão distantes da realidade que não raro nos frustramos com a doce vida que levamos. Eu, como representante da classe média achatada e (mal-)resolvida da zona sul carioca digo, minha realidade é doce, sim, pois tenho comida no prato (chã, patinho ou lagarto do Prezunic, mas é comida!), um teto (alugado) e pequenos luxos (creche para o filhote, tv a cabo e queijo brie na geladeira de vez em quando). Mas o que vemos na mídia são supermães, que perdem todos os quilos da gravidez no primeiro mês, têm peles maravilhosas e sem estrias, espinhas ou cravos, cabelos sedosos, nada de olheiras, corpos recuperados (em termos estéticos) em poucos dias. Males da nossa sociedade (desde os tempos de Pessoa, mas talvez ainda mais distante no tempo e mais profundamente em nossa cultura, não sei) que são potencializados pela mídia, até mesmo a mídia "informal", como os blogs. Afinal, minha gente, quem nunca viu por aí, nos blogs, supermães cujos filhos são lindos, espertos, maravilhosos e irretocáveis, cujos partos foram enlouquecedoramente perfeitos e cujos puerpérios são tirados de letra, sem estresses, sem tristezas, e elas nunca, jamais, em momento algum erram (e se erram é somente para fazer algo ainda mais brilhante na sequência)? Então, minhas amigas, sobreviver é um conselho maravilhoso! Porque uma mãe de primeira viagem não sabe um monte de coisas, precisa se adaptar e adaptar a família toda a uma série de coisas novas, porque uma mãe recém-nascida está louca de hormônios e está sendo sugada literal e emocionalmente por um serzinho absolutamente desconhecido e muitas vezes idealizado (o que leva a frustrações quando, por exemplo, o bebê não dorme a noite toda desde que voltou da maternidade, como o bebê da vizinha da prima da tia do marido). Logo, sobreviver, fazer o que dá, como dá, quando dá é ótimo. Não tente ser supermãe logo de cara. Não dá. Por maior que seja o instinto materno, você vai errar ou se desesperar ou as duas coisas juntas em meio a uma crise de choro do baby blues. Sobreviva. Aos poucos monte rotina, conheça seu filho, descubra o melhor caminho para vocês.
- Respire - quando nada parece estar sob seu controle ainda existe uma coisa que você pode controlar e que vai realmente te ajudar a ir adiante e ultrapassar a agrura da vez: respirar. Respire de maneira consciente, inspirando e expirando.
- Durma quando o bebê dormir - dane-se que tem visita na sala. Ela provavelmente dormiu a noite toda e vai dormir essa madrugada também. Quanto a você, já não há garantias. Então, durma!
- Faça uma cestinha - em uma cestinha com alça (ou qualquer outra coisa com alça), coloque comidinhas (frutas, barrinhas de cereais, nozes etc.), uma garrafa de água, os telefones (celular e sem-fio), um caderninho e uma caneta. Carregue com você pela casa. No começo você se sente uma idiota fazendo isso, mas depois você vai perceber quão independente se tornará.
- Dê banho enrolando o bebê numa fralda de pano - sério, isso mudou minha vida! Arthur odiava tomar banho, até que ouvimos o sábio conselho de enrolar o bacuri na fraldinha. É assim: você tira toda a roupa da criança,tira a fralda, limpa as partes pudentas e enrola o bebê numa fralda de pano. Daí, emerge o "pacotinho" na banheirinha e, para lavar, vai desembrulhando as partes: perninhas, bracinhos, peito... Tiro e queda! Arthur hoje em dia AMA tomar banho. Ah, e tem que notar o que seu bebê prefere: água mais quentinha ou mais morninha.
- Rotina, rotina, rotina - "lavar roupa todo diaaaaa, que agoniaaaaa...". Ninguém sabe o que é rotina de verdade, só o Bill Murray naquele filme do Dia da Marmota (aproveite a licença-maternidade para ver Sessão da Tarde!) e os pais de bebês e crianças pequenas. E realmentte é fundamental estabelecer uma rotininha para que seu bebê se sinta mais seguro e feliz, e para que você consiga se organizar para fazer outras coisas na vida além de amamentar e trocar fralda, tipo ir ao banheiro, escovar os dentes e, com sorte, até tomar banho. Aqui em casa, a rotina foi crescendo a partir da hora de dormir. Ou seja, primeiro ensinamos ao Arthur que existia dia e noite, e que de noite ele deveria dormir. Assim, às 19h começávamos a entrar no modo "hora de dormir" e falávamos mais baixo, reduzíamos a intensidade das brincadeiras, ficávamos na penumbra e vetamos visitas pós oito da noite. Às 20h preparávamos o banho, com tudo absolutamente igual e ritualizado: mesma hora, mesma música, mesmo sabonete líquido (cheiro), mesma ordem de limpeza na banheira, mesmas frases na hora do banho, tudo igualzinho. Daí, sentávamos no sofá, só com a tv ligada (no mudo), e eu amamentava até que filhote dormisse. Ele aprendeu bem rápido e em poucos dias já estava no esquema. A partir daí, conseguimos ir montando uma rotininha, que ainda não está 100% estabelecida, mas que já é uma boa estrutura com a qual operamos muito bem, obrigada. Vale a pena, portanto, investir nesse sistema depressivo de repetir tudo de maneira idêntica, pois depois tudo fica melhor e mais fácil de gerir. Como dizia Renato Russo, "disciplina é liberdade".
- Os 5 S - esse truque aprendemos na marra mesmo! Marido e eu íamos lá pelo quinto ou sexto dia do Arthur zumbizão, chorando horrores, dormindo nada. Daí marido foi catar na internet explicações para o inexplicável e deu de cara com um artigo científico de psicologa que citava o sistema dos 5 S do pediatra norte-americano Harvey Karp. Finalmente dei bom uso aos famosos cueiros do Arthur e resolvemos 98% das choradas desesperadas com o barulhinho infernal do útero materno (o que temos salvo em todos os computadores, no dropbox e em pelo menos 3 cds). Nos deixa meio surdos, é verdade, mas Arthur adora e fica visivelmente mais calmo. Funciona que é uma maravilha com o secador de cabelos e, se seu bebê não for muito criterioso, com tv ou rádio fora de sintonia (o chiadão mesmo). Arthur é seletivo e só se acalma com o som "original" ou com o secador. Mas voltando ao método, não curto todos os S propostos pelo cara e, por mais que treinasse, nunca consegui fazer aquele suave chacoalhar de lado com meu pequeno. E como não usamos chupeta, aqui em casa os 5 S viraram 2 S mesmo: swaddle e shhh.
- Você vive para isso - essa descoberta eu fiz sozinha, e acho que pode ajudar alguém, embora eu saiba que não funciona para todo mundo. No começo do puerpério eu ficava muito angustiada por "não ter tempo para mais nada", até que um dia me dei conta de que cuidar do Arthur era absolutamente tudo o que eu tinha para fazer na vida e parei de "brigar" com meu lado "quero fazer tudo". Passei a curtir bem mais meu filho e fiquei mais feliz por ter o privilégio de poder cuidar dele nesses primeiros meses. Então, mamãe recém-nascida e angustiada com a mesmice do púerpério, tente pensar que você, agora, vive para isso: para cuidar do seu filho.
- Ser mãe (e ser pai) é tarefa exaustiva não só porque os filhos, no começo, dependem absolutamente de nós para sobreviverem. Mas também porque existem mil caminhos, um verdadeiro jardim borgiano, em que se vai escolhendo uma das muitas possibilidades de resolução de um problema imediato (o que elimina automaticamente todas as demais possibilidades de resolução daquele problema, naquele momento) e, assim, vai-se construindo um labirinto (muito mais que caminho) por onde devemos transitar e para o qual não há qualquer garantia de resolução, pois mesmo que sigamos os passos e escolhas alheios, nossos filhos são únicos e podem ter necessidades ou podem interpretar o mundo de modo diferente de outro bebê. Ou seja, cada pai e cada mãe tem a mui árdua tarefa de buscar, por conta própria, sem garantias de sucesso e arcando com as consequências dessas escolhas, aquilo que é (ou parece ser) mais certo naquele momento para si, para seu bebê e sua família. Por isso, meu conselho final não poderia ser outro: ame e faça escolhas conscientes. A maternidade (e a paternidade) é sem garantias. E é assim para todo mundo.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - considerações finais
Parir é um ato íntimo e solitário, mas quando um nascimento derruba
pré-conceitos e lança a fagulha para que outras mulheres conquistem
partos dignos, respeitosos e seguros, trata-se de um ato social. E se
estou aqui, relatando o momento mais lindo e íntimo da minha vida, é
porque acredito no feminino e tenho a imensa pretensão de plantar a sementinha da
dúvida ou da vontade de parir em pelo menos uma mulher que leia meu
blog.
Depois de contar a melhor história da minha vida, preciso deixar BEM claro que este é um post político e que eu acredito no parto normal. Acho que é a melhor maneira de nascer e estou mais do que convencida de que o parto normal é para a grande maioria das mulheres, embora estejamos sendo convencidas do contrário. No que eu não acredito é que o tipo de parto determine que uma mulher é melhor ou pior mãe que outra. Obviamente eu sou uma mulher muito realizada por ter planejado e conquistado o parto que considero o melhor para mim e meu bebê, e acho que minha conquista de um parto natural respeitoso, digno e seguro é uma vitória feminina, pois prova que o corpo humano é perfeito para gerar e parir, a despeito das inúmeras (e cada vez mais estaparfúdias) desculpas que médicos e pacientes encontram para cesárias desnecessárias. (Mais sobre as desculpas neste maravilhoso artigo!)
Não me crucifiquem antes de ler este parágrafo até o fim, ok? Considero dever da mulher se informar sobre o que vai acontecer durante gravidez, parto e puerpério, e acho que faz parte da boa e saudável preparação feminina para a maternidade buscar esse tipo de informação. Então, conseguir um parto normal seguro e bacana é responsabilidade, sim, da mulher. No entanto, reconheço que nem todo mundo tem interesse ou facilidade em acessar informações sobre o que acontece durante a gravidez e o parto. Também sei que não é fácil bancar determinadas decisões e escolhas porque há pressão familiar, social e, claro, maternal, porque nasce uma mãe, nasce uma culpada, e por mais que a escolha acalente seu coração, muitas vezes gera uma culpa danada por peitar pessoas em que se confia (familiares, médicos, amigos etc.). Acho, por isso, um absurdo inenarrável que profissionais de saúde se valham de seu lugar privilegiado de "especialistas" para convencer, induzir ou até mesmo enganar uma gestante saudável a respeito da necessidade de uma cirurgia de médio porte em lugar de uma via de nascimento natural e mais segura. Acho inadmissível que médicos e enfermeiros enganem ou induzam seus pacientes a acreditar na necessidade de uma cesária. Se é responsabilidade da mulher se informar sobre gravidez e parto, é obrigação dos profissionais de saúde que a atendem e assistem informar a essa gestante sobre suas condições, opções, riscos e alternativas. A escolha é SEMPRE da mulher. O corpo é dela, o filho é dela e a decisão não pode ser pautada jamais em conveniências do profissional que a atende.
Deveria ser realidade, no Brasil e no mundo, que as mulheres tivessem acesso a informação, para que suas escolhas fossem seguras e pautadas em evidências. Ainda não é assim que funciona, e minha briga política é por que cada vez mais mulheres possam se apossar de seus corpos e decisões, contando com os profissionais de saúde relacionados ao nascimento para auxiliá-la em suas escolhas e decisões, o que torna o parto mais seguro, tanto do ponto de vista emocional quanto do ponto de vista prático. Bons profissionais nunca sonegam ou manipulam informações, eles a partilham e estimulam o conhecimento e o crescimento pessoal. Isso em qualquer área, inclusive na médica.
Esta é minha opinião e espero que ninguém se sinta julgada ou menosprezada por ter sido submetida a uma cesária, desnecessária ou não. Os motivos, as vivências e as escolhas são pessoais e intransferíveis. Minha briga é para que mais mulheres escolham um parto normal e de fato conquistem um parto normal, e que não vivam com a frustração de terem sido induzidas a fazer algo que não queriam (ou que temiam) por mera conveniência alheia (seja em relação a uma agenda pré-organizada e que não pode ser mudada, seja por não querer repensar conceitos e crenças já estabelecidos e comodamente reproduzidos).
Dito isto, fico muito feliz em contar que sou uma mulher realizada porque tive o parto perfeito para mim. Sonhado, planejado e executado com muito amor e entrega, como acontece com todas as coisas boas da vida.
Depois de contar a melhor história da minha vida, preciso deixar BEM claro que este é um post político e que eu acredito no parto normal. Acho que é a melhor maneira de nascer e estou mais do que convencida de que o parto normal é para a grande maioria das mulheres, embora estejamos sendo convencidas do contrário. No que eu não acredito é que o tipo de parto determine que uma mulher é melhor ou pior mãe que outra. Obviamente eu sou uma mulher muito realizada por ter planejado e conquistado o parto que considero o melhor para mim e meu bebê, e acho que minha conquista de um parto natural respeitoso, digno e seguro é uma vitória feminina, pois prova que o corpo humano é perfeito para gerar e parir, a despeito das inúmeras (e cada vez mais estaparfúdias) desculpas que médicos e pacientes encontram para cesárias desnecessárias. (Mais sobre as desculpas neste maravilhoso artigo!)
Não me crucifiquem antes de ler este parágrafo até o fim, ok? Considero dever da mulher se informar sobre o que vai acontecer durante gravidez, parto e puerpério, e acho que faz parte da boa e saudável preparação feminina para a maternidade buscar esse tipo de informação. Então, conseguir um parto normal seguro e bacana é responsabilidade, sim, da mulher. No entanto, reconheço que nem todo mundo tem interesse ou facilidade em acessar informações sobre o que acontece durante a gravidez e o parto. Também sei que não é fácil bancar determinadas decisões e escolhas porque há pressão familiar, social e, claro, maternal, porque nasce uma mãe, nasce uma culpada, e por mais que a escolha acalente seu coração, muitas vezes gera uma culpa danada por peitar pessoas em que se confia (familiares, médicos, amigos etc.). Acho, por isso, um absurdo inenarrável que profissionais de saúde se valham de seu lugar privilegiado de "especialistas" para convencer, induzir ou até mesmo enganar uma gestante saudável a respeito da necessidade de uma cirurgia de médio porte em lugar de uma via de nascimento natural e mais segura. Acho inadmissível que médicos e enfermeiros enganem ou induzam seus pacientes a acreditar na necessidade de uma cesária. Se é responsabilidade da mulher se informar sobre gravidez e parto, é obrigação dos profissionais de saúde que a atendem e assistem informar a essa gestante sobre suas condições, opções, riscos e alternativas. A escolha é SEMPRE da mulher. O corpo é dela, o filho é dela e a decisão não pode ser pautada jamais em conveniências do profissional que a atende.
Deveria ser realidade, no Brasil e no mundo, que as mulheres tivessem acesso a informação, para que suas escolhas fossem seguras e pautadas em evidências. Ainda não é assim que funciona, e minha briga política é por que cada vez mais mulheres possam se apossar de seus corpos e decisões, contando com os profissionais de saúde relacionados ao nascimento para auxiliá-la em suas escolhas e decisões, o que torna o parto mais seguro, tanto do ponto de vista emocional quanto do ponto de vista prático. Bons profissionais nunca sonegam ou manipulam informações, eles a partilham e estimulam o conhecimento e o crescimento pessoal. Isso em qualquer área, inclusive na médica.
Esta é minha opinião e espero que ninguém se sinta julgada ou menosprezada por ter sido submetida a uma cesária, desnecessária ou não. Os motivos, as vivências e as escolhas são pessoais e intransferíveis. Minha briga é para que mais mulheres escolham um parto normal e de fato conquistem um parto normal, e que não vivam com a frustração de terem sido induzidas a fazer algo que não queriam (ou que temiam) por mera conveniência alheia (seja em relação a uma agenda pré-organizada e que não pode ser mudada, seja por não querer repensar conceitos e crenças já estabelecidos e comodamente reproduzidos).
Dito isto, fico muito feliz em contar que sou uma mulher realizada porque tive o parto perfeito para mim. Sonhado, planejado e executado com muito amor e entrega, como acontece com todas as coisas boas da vida.
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quarta-feira, 8 de agosto de 2012
O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 3
Em dias sem trânsito, a distância entre minha casa e a maternidade é
de aproximadamente 10 minutinhos. Era um domingo, meio-dia, não havia
trânsito: tive 5 contrações entre minha casa e a maternidade. CINCO. Fui
abraçando o banco de trás do carro, com bolsa de água quente na lombar e
travesseiro aparando minha barriga. Nas contrações, queria que tirassem
a bolsa de água quente, porque aquilo me incomodava demais e eu estava
morrendo de calor!
Chegamos na porta da maternidade e a ruazinha que dá acesso ao estabelecimento tinha um carro parado. Marido buzinou e gritou que eu estava parindo. O motorista, que falava ao celular, apenas colocou a mão para fora com o polegar voltado para baixo, como quem diz "quebrou, se vira aí". Marido buzinou de novo e o cara não se mexeu. Daí, a EO virou-se para ele e falou: "vamos empurrar?" Marido mal respondeu e já foi saindo do carro, seguido por ela. Quando eles colocaram a mão no carro enguiçado o motorista saiu, na disposição de brigar, falando "o que está acontecendo? Tirem a mão daí." Marido respondeu: "você está na porta de uma maternidade e minha mulher está parindo!" Na mesma hora o motorista se desculpou e ajudou a empurrar. A cena, então, era: uma mulher descabelada, de saia, top, barrigão de fora, em pleno trabalho de parto, urrando e berrando palavrões no banco de trás do carro, marido e EO empurrando o carro de um estranho mal-educado. Acho muito curioso que eu me lembre com muitos detalhes dessa cena porque, como eu disse, as coisas ficaram um pouco embaralhadas na minha memória e algumas coisas eu não sei se aconteceram antes ou depois de determinados fatos.
Carro empurrado, chegamos na maternidade. Aqui vale uma pausa dramática.
Uma família, dou minha cara a tapa que a mulher tinha agendado a cesária, vinha saindo, com bolas, flores e malas naquele carrinho estilo hotel. Todos ficaram muito chocados com a minha pessoa, descabelada e mal-ajambrada, de chinelo, berrando palavrões e agarrada na minha EO (que é cheia de tatuagens!). Brotou na minha frente uma cadeira de rodas, que eu recusei prontamete porque não conseguia conceber me sentar. A dor triplicava quando eu não podia escolher a melhor posição para aquela contração. Subi (ou desci, sei lá) para o centro cirúrgico somente com a EO, pois marido ficou resolvendo burocracias de internação e depois ia por outro caminho se vestir para entrar no centro cirúrgico (ainda não entendo porque uma sala de parto natural fica dentro de um CC, mas tudo bem). A EO entrou na sala em que se troca de roupa, pegou uma camisola bunda de fora, uma touquinha e pantufas, e pediu que chamassem minha GO. Sei lá como me vesti (exceto pela touquinha, que nem sei onde foi parar) e fui caminhando, meio trôpega, pelos corredores até que minha GO surgiu na minha frente. "Oi! Tudo bem? Eu estava na passeata. Olha, até me pintaram..." Eu fiquei olhando para ela, como se estivesse vendo uma pessoa verde com bolinhas roxas falando em grego arcaico comigo. Bom, eu suponho que esta fosse minha expressão, já que eu não entendi uma palavra do que ela disse e fiquei pensando: "oi? tudo bem? passeata? pintada? o que ela quer dizer com isso?" Seguimos centro cirúrgico adentro e entramos, enfim, na sala de parto humanizado, que era nada mais que um quarto de hospital, com um banheiro dentro do qual havia uma banheira enchendo (eu podia escutar, mas não via nada, porque a porta do banheiro estava fechada), uma cama que virava cadeira e uma luz fraquinha, criando uma penumbra. Depois de me instalar na cama/cadeira, entendi o que a médica dissera ao me encontrar: "ah, a passeata contra a violência obstétrica..." Eu estava meio aérea.
Dentro da sala estávamos eu, minha GO e duas enfermeiras da maternidade. Depois de um tempinho, entraram também marido e a minha querida EO. Em algum momento, já dentro da sala de parto, minha GO perguntou se eu queria tomar o antibiótico para o strepto positiv que tive no fim da gravidez. Havíamos conversado previamente sobre as minhas opções e escolhi tomar. Assim, as enfermeiras da maternidade entraram em ação para colocarem o acesso intravenoso. Achei muito curioso sentir a picada do acesso, pois jurava que depois de dores tão intensas, eu mal sentiria a picada de uma agulha. Ledo engano! Senti, e senti direitinho. Esse, sem sombra de dúvidas, foi o pior momento do parto, em termos de dor. Não por conta da picada, mas porque precisei ficar reclinada na cadeira/cama, e colocaram uma barra de ferro diante de mim (era uma cadeira para parto de cócoras, depois processei a informação. Contudo, sinceramente, não faço ideia de como alguém consegue parir ali em cima. Mas devem conseguir, porque cada mulher é uma e cada parto é único também). Aquela barra de ferro, naquele momento do TP, com contrações tão doloridas e seguidinhas, era uma barreira intransponível entre dores insuportáveis e algum conforto durante as contrações. Não conseguia sair dali e, aboletada naquela cadeira, sem conseguir me libertar (contrações + barrigão + acesso = imobilidade ou maior lentidão), tive três contrações terríveis. TERRÍVEIS. Sentia cada músculo do meu corpo se contrair de dor e experienciei uma coisa que nunca tnha vivido antes: eu tremia de tanta dor. Marido percebeu e, segundo me confessou mais tarde, foi o único momento do parto em que ficou nervoso, pois viu que eu estava sofrendo muitíssimo. Em meio a esse sofrimento intenso, gritei, pedi, implorei (sei lá qual foi meu tom!) que tirassem aquela barra de ferro e que me tirassem dali. Minha GO pediu que eu aguentasse mais um pouquinho porque já estava acabando o antibiótico e eu procurei relaxar ao máximo, sabendo que o sofrimento estava com minutos contados para acabar. Assim que me liberaram para que eu me movesse, só tive forças para virar de frente para a cadeira/cama, me agachar no chão, enfiar a cara nos travesseiros que estavam por ali (alguém deve ter colocado para me dar mais conforto) e urrar a cada contração.
Neste momento a GO e a EO cochicharam alguma coisa entre si e marido logo quis saber o que estava acontecendo. Assim, saíram ele e EO para o corredor do centro cirúrgico. Eu, que estava cheia de hormônio nas ideias mas nã sou boba, fiquei paranoica: o que está acontecendo? onde eles estão? A GO me acalmou, dizendo que marido foi buscar água (e de fato ele foi) e eu aproveitei para pedir água também. Bebi um golinho mínimo e comentei: "é que não quero vomitar." E a GO respondeu: "você vai conseguir, né? Vai passar a gravidez todinha sem vomitar uma única vez." E eu ri em resposta. Marido entrou de novo na sala junto com EO e alguém começou a ajeitar o acesso intravenoso para que eu pudesse me locomover melhor, sem aquele tubo para lá e para cá. Acontece que eu entrei na paranoia ocitocínica e, desesperada, falei: "ai, meu deus, vocês vão me levar para a cesária, né? Foi isso que vocês cochicharam, que eu vou para a cesária. Eu não quero..." Todo mundo riu, porque eles realmente estavam apenas ajeitando o acesso. Porém, os cochichos foram porque eu tive um rebordo de colo e a GO estava esperando que meu corpo desse um jeito sozinho, mas avisou à EO e ao marido que se eu precisasse, ela iria intervir. Felizmente não foi necessário!
Lembro de perguntar à GO quando a coisa ia ficar legal, porque eu sempre havia lido relatos em que a mulher adorava sentir contração e que ficava feliz porque o bebê estava nascendo e eu só queria que aquele ser saísse de dentro de mim logo, e acabasse imediatamente com meus sofrimento (gente, sem romantismos: dói pacas e eu não estava nada feliz que Arthur nascia. Eu só pensava: "tá acabando, tá acabando, tá acabando..."). Fiquei tendo umas contrações agachada (e segundo marido, em um momento eu levantei a cabe;a e exclamei: "Arthur, meu filho, sai logo que sua mãe tá muito zoada") e depois de um tempo (não faço ideia de quanto) minha GO disse que eu poderia fazer força quando sentisse vontade. Eu pensei: "Ela está louca! Eu vou sentir vontade de fazer força com essas dores? De jeito nenhum!" Mas respondi apenas: "Tá bom." O fato é que alguns instantes depois dela falar isso, comecei a sentir uma vontade de fazer força. Não dá para explicar muito bem o que isso significa, era apenas uma vontade de fazer uma força. E eu fiz. Uma, duas, três... e gemi: "Estou com medo!" É que o expulsivo foi, para mim, o momento mais intenso do parto todo. Primeiro porque sempre foi meu grande medo. Eu estava OK com as contrações, mas morria de medo do expulsivo. Além disso, o expulsivo foi um momento muito, muito, muito animalesco para mim. Eu iniciava o movimento de maneira consciente, mas a tal força tomava conta de mim, jogava meu ego para escanteio, e terminava o processo só com o id. Eu começava a força e ela se concluía, sem que eu conseguisse interferir, controlar ou interrromper nada. Uma força brutal, que começava onde outrora estava a boca do meu estômago e agora estava o fundo do útero e seguia contraindo todos os músculos abdominais até o baixo ventre. Foi quando perdi completamente o controle do processo, e fiquei com muito medo. Então, gemi baixinho. E minha super GO escutou, e disse: "Ártemis, lembra quando eu disse que parir é como pular de pára-quedas? Então, você está na porta do avião e vai precisar pular, não tem mais volta!" Isso, de alguma maneira louca me deixou mais calma (eu morro de medo de avião e de pular de pára-quedas. Sabe-se lá por que a metáfora funcionou para me acalmar, né?). Fiz mais um ou duas forças e falei: "Estou sentindo arder!" E pensei: "Círcuclo de fogo. Mas não diziam que o expulsivo não era dolorido? Mentiram para mim. Tudo dói, o tempo todo!" Entre uma força e outra alguém sugeriu que eu me acomodasse melhor, porque estava agachada em frente à cadeira/cama havia muito tempo e sei lá como meus músculos da perna estavam aguentando! Eu respondi, numa frase meio sem-sentido: "Não quero perder o que já conquistei." Marido disse que riu, porque eu estava doidona de hormônios e não fazia o menor sentido essa resposta, mas depois eu expliquei que só estava cansada demais para fazer todo o raciocínio, que era: eu estou sentindo que cada força que faço chego mais perto do fim, e não quero mudar de posição para não correr o risco de perder os centímetros que já conquistei, não quero arriscar me mexer e fazer o bebê recuar no canal de parto. Vai, gente, era uma resposta muito complexa para alguém em pleno expulsivo, cheia de ocitocina na cabeça!
Depois que avisei que sentia arder, devo ter feito umas três ou quatro forças e Arthur fez POP. Foi assim que senti: POP. Um movimento nada suave, de algo desentalando (confessem: este é o relato de parto menos frufruzento que vocês já leram, né? Nada de "oh, que coisa linda, maravilhosa, divina!"). Eu estava com a cara enfiada nos travesseiros, urrando, e não via nada. E estava tão focada nos puxos e nas minhas dores e sensações, que não escutava nada, não percebia muito bem o ambiente. Sei que senti um cheiro de queimado muito forte e falei para minha GO: "Disseram que depois que a cabeça saía parava de doer, mas é mentira. Quando vai ficar bom?" Fiz mais uma força e escutei: "Uma circular de cordão, heim!" Outra força e: "Ártemis, pega o seu filho!" E vi um serzinho de braços abertos, branquelo, chorando horrores, bem embaixo de mim. Vi e pensei: "É meu filho? Eu pari? Esse chinês é meu filho? Eu devo estar com muita cara de idiota, porque não estou entendendo nada e deveria estar sorrindo, chorando, sei lá... Será que esse bebê não está com frio? Preciso aquecê-lo porque não quero ele na incubadora." Daí eu segurei o Arthur. Depois de todos esses pensamentos em um segundo. Segurei, toda atrapalhada, aquele corpinho magricelo, escorregadio, quentinho e macio. Ainda com o cordão ligado a mim. Lembrei que tinha um marido, procurei por ele e, enfim, sorri. Fiquei ainda agachada uns instantes, até que alguém teve a boa ideia de me sentar na tal cadeira/cama. Pedi uns panos para aquecer o Arthur (eu estava muito paranoica de ele perder calor e ir para a incubadora. Vocês se lembram do episódio de visita à maternidade, né? Queria evitar a todo custo a tal "luzinha") e fiquei sentada, contando dedinhos, pensando "nossa, esse bebê tem tantas rugas! E não se parece com ninguém! Nem comigo, nem com meu marido!" e sendo abraçada e beijada pelo marido. Tentei dar de mamar no seio esquerdo, mas não consegui (sempre ele me dando problemas!). Arthur continuava dando demonstrações vocacionais (será cantor de ópera, pois tem um dó de peito daqueles!) até que eu consegui espetar o seio direito em sua boquinha, e ele então mamou por cerca de vinte minutos na asala de parto! A pediatra comentou: "Nossa, como ele mama!" Pois é: tinha uma pediatra na sala de parto e eu só percebi isso quando, logo depois que Arthur nasceu, ela falou: "Esse aí já nasceu chorando. Vai ganhar APGAR 10!" Pois é, Arthur, reza a lenda, colocou a cabeça para fora do meu corpo, com o corpinho ainda dentro de mim, e BERROU. Eu não vi nem ouvi nada, porque estava constatando que o expulsivo não era nada um passeio no campo, como muitas mulheres diziam, embora em um momento bem específico do processo eu tenha sentido certo prazer, porque o bebê passou pelo meu clitóris e foi até gostosinho (mas não se enganem: gostosinho superrápido, porque depois veio uma cacetada de dor). Quando Arthur começou a mamar, alguém apareceu com um novo refletor. Pois é, o refletor da sala de parto QUEIMOU e eu não vi nada (nem ninguém na sala de parto, bem na hora em que Arthur coroou!), pois estava com a cara enfiada nos travesseiros (mas senti o cheiro de queimado, lembram?).
Esperamos o cordão parar de pulsar e marido o cortou. Então esperamos pela placenta, que saiu sem me causar qualquer dor (aliás, muito pelo contrário pois foi com sua saída que todo e qualquer incômodo passou). Aí chegou a hora da verdade. Mas a verdade não era ruim: uma laceração grau 1 (apenas pele), que exigiu uns 4 pontinhos. Tentei negociar, mas a GO disse que era necessário suturar. Ela, então, aplicou anestesia e começou. Eu falei: "Vou me dar ao luxo de reclamar, viu? Tá doendo!"
E doeu mesmo. E mesmo com anestesia o troço incomodou. A curiosidade desse momento foi que eu fiquei com a língua completamente dormente, sei lá por que cargas d'água!
Enquanto eu tomava meus pontinhos, marido desceu com o rebento, para o check-in no berçário. Arthur mediu 50cm e pesou 3,310kg. Nada mal para um bebê saído da minha pequena barriga!
Depois de dados os pontos e de a adrenalina ter baixado, comecei a sentir as pernas tremerem: só naquele momento foi que os meus músculos enfim sucumbiram. Fui ajudada pelas enfermeiras da maternidade a me limpar (eu parecia uma personagem de filme de terror: coberta de sangue dos pés à cabeça) e passei sozinha para a maca que me levaria ao quarto. Assim que cheguei no quarto telefonei para ao berçário e pedi que trouxessem meu filho: não queria ficar mais um segundo sem ele. E então, depois de uns dois minutinhos, chegou marido, empurrando aquele bercinho que tinha meu lindo bebê chinês dentro. Chinês? É. Arthur nasceu com os olhinhos tão puxados que parecia um chinezinho, mas dias mais tarde ele mostrou que não era oriental coisa nenhuma.
Em nenhum momento do meu trabalho de parto e parto eu achei que a coisa não fosse funcionar. O único instante de medo foi no começo do expulsivo. Não tive medo de parir no carro ou em casa, de o TP não engrenar, de eu chegar na maternidade e a coisa estagnar, nada. Não tive medo. Mergulhei, me entreguei. E se tiver outo filho, outro parto, pretendo fazer o mesmo, embora saiba que cada parto é único.
Entrei em TP efetivo por volta das 8 da manhã e às 13h meu filhote já havia nascido.
Não sofri intervenções desnecessárias, meu filho também não. Não ficou na "luzinha", nem foi aspirado, não teve colírio e nem banho. Eu quis a vitamina K injetável e o antibiótico que fizeram em mim.
Eu sambei na cara da sociedade médica intervencionista, pois tive um parto natural, com quadril estreito, bebê de bom tamanho, strepto positivo, circular de cordão.
Espero que da próxima vez, no meu próximo filho, eu tenha a mesma sorte que tive no primeiro: partaço empoderador e maravilhoso (apesar da dor, porque o lelê dói mesmo, porém dá para aguentar, sim!). Mas espero ainda mais que mais mulheres tenham o direito de escolher e de ter sua escolha respeitada na gravidez, parto e pós-parto.
Chegamos na porta da maternidade e a ruazinha que dá acesso ao estabelecimento tinha um carro parado. Marido buzinou e gritou que eu estava parindo. O motorista, que falava ao celular, apenas colocou a mão para fora com o polegar voltado para baixo, como quem diz "quebrou, se vira aí". Marido buzinou de novo e o cara não se mexeu. Daí, a EO virou-se para ele e falou: "vamos empurrar?" Marido mal respondeu e já foi saindo do carro, seguido por ela. Quando eles colocaram a mão no carro enguiçado o motorista saiu, na disposição de brigar, falando "o que está acontecendo? Tirem a mão daí." Marido respondeu: "você está na porta de uma maternidade e minha mulher está parindo!" Na mesma hora o motorista se desculpou e ajudou a empurrar. A cena, então, era: uma mulher descabelada, de saia, top, barrigão de fora, em pleno trabalho de parto, urrando e berrando palavrões no banco de trás do carro, marido e EO empurrando o carro de um estranho mal-educado. Acho muito curioso que eu me lembre com muitos detalhes dessa cena porque, como eu disse, as coisas ficaram um pouco embaralhadas na minha memória e algumas coisas eu não sei se aconteceram antes ou depois de determinados fatos.
Carro empurrado, chegamos na maternidade. Aqui vale uma pausa dramática.
Uma família, dou minha cara a tapa que a mulher tinha agendado a cesária, vinha saindo, com bolas, flores e malas naquele carrinho estilo hotel. Todos ficaram muito chocados com a minha pessoa, descabelada e mal-ajambrada, de chinelo, berrando palavrões e agarrada na minha EO (que é cheia de tatuagens!). Brotou na minha frente uma cadeira de rodas, que eu recusei prontamete porque não conseguia conceber me sentar. A dor triplicava quando eu não podia escolher a melhor posição para aquela contração. Subi (ou desci, sei lá) para o centro cirúrgico somente com a EO, pois marido ficou resolvendo burocracias de internação e depois ia por outro caminho se vestir para entrar no centro cirúrgico (ainda não entendo porque uma sala de parto natural fica dentro de um CC, mas tudo bem). A EO entrou na sala em que se troca de roupa, pegou uma camisola bunda de fora, uma touquinha e pantufas, e pediu que chamassem minha GO. Sei lá como me vesti (exceto pela touquinha, que nem sei onde foi parar) e fui caminhando, meio trôpega, pelos corredores até que minha GO surgiu na minha frente. "Oi! Tudo bem? Eu estava na passeata. Olha, até me pintaram..." Eu fiquei olhando para ela, como se estivesse vendo uma pessoa verde com bolinhas roxas falando em grego arcaico comigo. Bom, eu suponho que esta fosse minha expressão, já que eu não entendi uma palavra do que ela disse e fiquei pensando: "oi? tudo bem? passeata? pintada? o que ela quer dizer com isso?" Seguimos centro cirúrgico adentro e entramos, enfim, na sala de parto humanizado, que era nada mais que um quarto de hospital, com um banheiro dentro do qual havia uma banheira enchendo (eu podia escutar, mas não via nada, porque a porta do banheiro estava fechada), uma cama que virava cadeira e uma luz fraquinha, criando uma penumbra. Depois de me instalar na cama/cadeira, entendi o que a médica dissera ao me encontrar: "ah, a passeata contra a violência obstétrica..." Eu estava meio aérea.
Dentro da sala estávamos eu, minha GO e duas enfermeiras da maternidade. Depois de um tempinho, entraram também marido e a minha querida EO. Em algum momento, já dentro da sala de parto, minha GO perguntou se eu queria tomar o antibiótico para o strepto positiv que tive no fim da gravidez. Havíamos conversado previamente sobre as minhas opções e escolhi tomar. Assim, as enfermeiras da maternidade entraram em ação para colocarem o acesso intravenoso. Achei muito curioso sentir a picada do acesso, pois jurava que depois de dores tão intensas, eu mal sentiria a picada de uma agulha. Ledo engano! Senti, e senti direitinho. Esse, sem sombra de dúvidas, foi o pior momento do parto, em termos de dor. Não por conta da picada, mas porque precisei ficar reclinada na cadeira/cama, e colocaram uma barra de ferro diante de mim (era uma cadeira para parto de cócoras, depois processei a informação. Contudo, sinceramente, não faço ideia de como alguém consegue parir ali em cima. Mas devem conseguir, porque cada mulher é uma e cada parto é único também). Aquela barra de ferro, naquele momento do TP, com contrações tão doloridas e seguidinhas, era uma barreira intransponível entre dores insuportáveis e algum conforto durante as contrações. Não conseguia sair dali e, aboletada naquela cadeira, sem conseguir me libertar (contrações + barrigão + acesso = imobilidade ou maior lentidão), tive três contrações terríveis. TERRÍVEIS. Sentia cada músculo do meu corpo se contrair de dor e experienciei uma coisa que nunca tnha vivido antes: eu tremia de tanta dor. Marido percebeu e, segundo me confessou mais tarde, foi o único momento do parto em que ficou nervoso, pois viu que eu estava sofrendo muitíssimo. Em meio a esse sofrimento intenso, gritei, pedi, implorei (sei lá qual foi meu tom!) que tirassem aquela barra de ferro e que me tirassem dali. Minha GO pediu que eu aguentasse mais um pouquinho porque já estava acabando o antibiótico e eu procurei relaxar ao máximo, sabendo que o sofrimento estava com minutos contados para acabar. Assim que me liberaram para que eu me movesse, só tive forças para virar de frente para a cadeira/cama, me agachar no chão, enfiar a cara nos travesseiros que estavam por ali (alguém deve ter colocado para me dar mais conforto) e urrar a cada contração.
Neste momento a GO e a EO cochicharam alguma coisa entre si e marido logo quis saber o que estava acontecendo. Assim, saíram ele e EO para o corredor do centro cirúrgico. Eu, que estava cheia de hormônio nas ideias mas nã sou boba, fiquei paranoica: o que está acontecendo? onde eles estão? A GO me acalmou, dizendo que marido foi buscar água (e de fato ele foi) e eu aproveitei para pedir água também. Bebi um golinho mínimo e comentei: "é que não quero vomitar." E a GO respondeu: "você vai conseguir, né? Vai passar a gravidez todinha sem vomitar uma única vez." E eu ri em resposta. Marido entrou de novo na sala junto com EO e alguém começou a ajeitar o acesso intravenoso para que eu pudesse me locomover melhor, sem aquele tubo para lá e para cá. Acontece que eu entrei na paranoia ocitocínica e, desesperada, falei: "ai, meu deus, vocês vão me levar para a cesária, né? Foi isso que vocês cochicharam, que eu vou para a cesária. Eu não quero..." Todo mundo riu, porque eles realmente estavam apenas ajeitando o acesso. Porém, os cochichos foram porque eu tive um rebordo de colo e a GO estava esperando que meu corpo desse um jeito sozinho, mas avisou à EO e ao marido que se eu precisasse, ela iria intervir. Felizmente não foi necessário!
Lembro de perguntar à GO quando a coisa ia ficar legal, porque eu sempre havia lido relatos em que a mulher adorava sentir contração e que ficava feliz porque o bebê estava nascendo e eu só queria que aquele ser saísse de dentro de mim logo, e acabasse imediatamente com meus sofrimento (gente, sem romantismos: dói pacas e eu não estava nada feliz que Arthur nascia. Eu só pensava: "tá acabando, tá acabando, tá acabando..."). Fiquei tendo umas contrações agachada (e segundo marido, em um momento eu levantei a cabe;a e exclamei: "Arthur, meu filho, sai logo que sua mãe tá muito zoada") e depois de um tempo (não faço ideia de quanto) minha GO disse que eu poderia fazer força quando sentisse vontade. Eu pensei: "Ela está louca! Eu vou sentir vontade de fazer força com essas dores? De jeito nenhum!" Mas respondi apenas: "Tá bom." O fato é que alguns instantes depois dela falar isso, comecei a sentir uma vontade de fazer força. Não dá para explicar muito bem o que isso significa, era apenas uma vontade de fazer uma força. E eu fiz. Uma, duas, três... e gemi: "Estou com medo!" É que o expulsivo foi, para mim, o momento mais intenso do parto todo. Primeiro porque sempre foi meu grande medo. Eu estava OK com as contrações, mas morria de medo do expulsivo. Além disso, o expulsivo foi um momento muito, muito, muito animalesco para mim. Eu iniciava o movimento de maneira consciente, mas a tal força tomava conta de mim, jogava meu ego para escanteio, e terminava o processo só com o id. Eu começava a força e ela se concluía, sem que eu conseguisse interferir, controlar ou interrromper nada. Uma força brutal, que começava onde outrora estava a boca do meu estômago e agora estava o fundo do útero e seguia contraindo todos os músculos abdominais até o baixo ventre. Foi quando perdi completamente o controle do processo, e fiquei com muito medo. Então, gemi baixinho. E minha super GO escutou, e disse: "Ártemis, lembra quando eu disse que parir é como pular de pára-quedas? Então, você está na porta do avião e vai precisar pular, não tem mais volta!" Isso, de alguma maneira louca me deixou mais calma (eu morro de medo de avião e de pular de pára-quedas. Sabe-se lá por que a metáfora funcionou para me acalmar, né?). Fiz mais um ou duas forças e falei: "Estou sentindo arder!" E pensei: "Círcuclo de fogo. Mas não diziam que o expulsivo não era dolorido? Mentiram para mim. Tudo dói, o tempo todo!" Entre uma força e outra alguém sugeriu que eu me acomodasse melhor, porque estava agachada em frente à cadeira/cama havia muito tempo e sei lá como meus músculos da perna estavam aguentando! Eu respondi, numa frase meio sem-sentido: "Não quero perder o que já conquistei." Marido disse que riu, porque eu estava doidona de hormônios e não fazia o menor sentido essa resposta, mas depois eu expliquei que só estava cansada demais para fazer todo o raciocínio, que era: eu estou sentindo que cada força que faço chego mais perto do fim, e não quero mudar de posição para não correr o risco de perder os centímetros que já conquistei, não quero arriscar me mexer e fazer o bebê recuar no canal de parto. Vai, gente, era uma resposta muito complexa para alguém em pleno expulsivo, cheia de ocitocina na cabeça!
Depois que avisei que sentia arder, devo ter feito umas três ou quatro forças e Arthur fez POP. Foi assim que senti: POP. Um movimento nada suave, de algo desentalando (confessem: este é o relato de parto menos frufruzento que vocês já leram, né? Nada de "oh, que coisa linda, maravilhosa, divina!"). Eu estava com a cara enfiada nos travesseiros, urrando, e não via nada. E estava tão focada nos puxos e nas minhas dores e sensações, que não escutava nada, não percebia muito bem o ambiente. Sei que senti um cheiro de queimado muito forte e falei para minha GO: "Disseram que depois que a cabeça saía parava de doer, mas é mentira. Quando vai ficar bom?" Fiz mais uma força e escutei: "Uma circular de cordão, heim!" Outra força e: "Ártemis, pega o seu filho!" E vi um serzinho de braços abertos, branquelo, chorando horrores, bem embaixo de mim. Vi e pensei: "É meu filho? Eu pari? Esse chinês é meu filho? Eu devo estar com muita cara de idiota, porque não estou entendendo nada e deveria estar sorrindo, chorando, sei lá... Será que esse bebê não está com frio? Preciso aquecê-lo porque não quero ele na incubadora." Daí eu segurei o Arthur. Depois de todos esses pensamentos em um segundo. Segurei, toda atrapalhada, aquele corpinho magricelo, escorregadio, quentinho e macio. Ainda com o cordão ligado a mim. Lembrei que tinha um marido, procurei por ele e, enfim, sorri. Fiquei ainda agachada uns instantes, até que alguém teve a boa ideia de me sentar na tal cadeira/cama. Pedi uns panos para aquecer o Arthur (eu estava muito paranoica de ele perder calor e ir para a incubadora. Vocês se lembram do episódio de visita à maternidade, né? Queria evitar a todo custo a tal "luzinha") e fiquei sentada, contando dedinhos, pensando "nossa, esse bebê tem tantas rugas! E não se parece com ninguém! Nem comigo, nem com meu marido!" e sendo abraçada e beijada pelo marido. Tentei dar de mamar no seio esquerdo, mas não consegui (sempre ele me dando problemas!). Arthur continuava dando demonstrações vocacionais (será cantor de ópera, pois tem um dó de peito daqueles!) até que eu consegui espetar o seio direito em sua boquinha, e ele então mamou por cerca de vinte minutos na asala de parto! A pediatra comentou: "Nossa, como ele mama!" Pois é: tinha uma pediatra na sala de parto e eu só percebi isso quando, logo depois que Arthur nasceu, ela falou: "Esse aí já nasceu chorando. Vai ganhar APGAR 10!" Pois é, Arthur, reza a lenda, colocou a cabeça para fora do meu corpo, com o corpinho ainda dentro de mim, e BERROU. Eu não vi nem ouvi nada, porque estava constatando que o expulsivo não era nada um passeio no campo, como muitas mulheres diziam, embora em um momento bem específico do processo eu tenha sentido certo prazer, porque o bebê passou pelo meu clitóris e foi até gostosinho (mas não se enganem: gostosinho superrápido, porque depois veio uma cacetada de dor). Quando Arthur começou a mamar, alguém apareceu com um novo refletor. Pois é, o refletor da sala de parto QUEIMOU e eu não vi nada (nem ninguém na sala de parto, bem na hora em que Arthur coroou!), pois estava com a cara enfiada nos travesseiros (mas senti o cheiro de queimado, lembram?).
Esperamos o cordão parar de pulsar e marido o cortou. Então esperamos pela placenta, que saiu sem me causar qualquer dor (aliás, muito pelo contrário pois foi com sua saída que todo e qualquer incômodo passou). Aí chegou a hora da verdade. Mas a verdade não era ruim: uma laceração grau 1 (apenas pele), que exigiu uns 4 pontinhos. Tentei negociar, mas a GO disse que era necessário suturar. Ela, então, aplicou anestesia e começou. Eu falei: "Vou me dar ao luxo de reclamar, viu? Tá doendo!"
E doeu mesmo. E mesmo com anestesia o troço incomodou. A curiosidade desse momento foi que eu fiquei com a língua completamente dormente, sei lá por que cargas d'água!
Enquanto eu tomava meus pontinhos, marido desceu com o rebento, para o check-in no berçário. Arthur mediu 50cm e pesou 3,310kg. Nada mal para um bebê saído da minha pequena barriga!
Depois de dados os pontos e de a adrenalina ter baixado, comecei a sentir as pernas tremerem: só naquele momento foi que os meus músculos enfim sucumbiram. Fui ajudada pelas enfermeiras da maternidade a me limpar (eu parecia uma personagem de filme de terror: coberta de sangue dos pés à cabeça) e passei sozinha para a maca que me levaria ao quarto. Assim que cheguei no quarto telefonei para ao berçário e pedi que trouxessem meu filho: não queria ficar mais um segundo sem ele. E então, depois de uns dois minutinhos, chegou marido, empurrando aquele bercinho que tinha meu lindo bebê chinês dentro. Chinês? É. Arthur nasceu com os olhinhos tão puxados que parecia um chinezinho, mas dias mais tarde ele mostrou que não era oriental coisa nenhuma.
Em nenhum momento do meu trabalho de parto e parto eu achei que a coisa não fosse funcionar. O único instante de medo foi no começo do expulsivo. Não tive medo de parir no carro ou em casa, de o TP não engrenar, de eu chegar na maternidade e a coisa estagnar, nada. Não tive medo. Mergulhei, me entreguei. E se tiver outo filho, outro parto, pretendo fazer o mesmo, embora saiba que cada parto é único.
Entrei em TP efetivo por volta das 8 da manhã e às 13h meu filhote já havia nascido.
Não sofri intervenções desnecessárias, meu filho também não. Não ficou na "luzinha", nem foi aspirado, não teve colírio e nem banho. Eu quis a vitamina K injetável e o antibiótico que fizeram em mim.
Eu sambei na cara da sociedade médica intervencionista, pois tive um parto natural, com quadril estreito, bebê de bom tamanho, strepto positivo, circular de cordão.
Espero que da próxima vez, no meu próximo filho, eu tenha a mesma sorte que tive no primeiro: partaço empoderador e maravilhoso (apesar da dor, porque o lelê dói mesmo, porém dá para aguentar, sim!). Mas espero ainda mais que mais mulheres tenham o direito de escolher e de ter sua escolha respeitada na gravidez, parto e pós-parto.
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