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sábado, 2 de novembro de 2013

Primeiro Halloween

Vocês, que me acompanham, sabem que eu não faço muito o estilo "querido diário", né? Geralmente faço um texto gaiato ou drama queen das coisas que me acontecem e vamos que vamos. Mas hoje eu vou fazer diferente. É que meu pequeno teve seu primeiro Halloween, e isso foi tão importante que merece nota.
Mas, já que vamos fazer, que façamos direito: deixem-me começar de novo o post.


Querido diário,

ontem foi Halloween aqui nos Estados Unidos. Nunca curti muito a data, non creo en las brujas (pero que las hay, las hay) e achava essa coisa toda meio estranha, porque carnaval era tão mais interessante em termos de fantasia, e logo depois vinha finados, que no Brasil é uma data tristonha, melancólica, então achava a coisa meio fora do eixo, meio desesperada. Mas eu não estou mais no Brasil, né, Di? Tô aqui, no Tio Sam halloweenesco, cheia dos frios e dos R retroflexos para tentar me comunicar, cheia do espírito de imigrante-vamos-nos-integrar-à-comunidade, essas coisas todas. E cheia dos hormônios de amamentação também. Porque, né, a ocitocina ajuda. O quê, Di? Não entendeu a conexão entre ocitocina e Halloween? Pô, Di, eu comprei um raio de uma fantasia de raposa para o Arthur! RAPOSA! Laranjinha, com rabo e enchimento na barriga! E Arthur, que já é a coisa mais fofa e deliciosa do universo todinho, ficou dolorosamente divino! Tudo bem que ele não curtiu muito o capuz que fazia a cara da raposa, mas durante o passeio, incomodado pelo frio e pela chuva (sim, choveu, como sempre acontece no dia dos mortos... uma tradição brasileira que talvez tenhamos importado), ele deixou ficar aquela cara de raposa, e não houve uma única pessoa que não tivesse elogiado a criatura!
Bom, mas deixa eu voltar aqui pro começo, antes de contar como foi.
Eu comprei a fantasia, espetei a criança lá dentro e, culpa da ocitocina, fiquei louca! Tirei 312 fotos (literalmente), suspirei, pirei e... broxei. Olhei para fora e a garoa fina da manhã virara chuva de verdade. Aqui, Di, o Halloween é tipo Carnaval no Brasil: tem anúncio de início e término (mas não dura uma semana; e se durasse, acho que eu infartava com tanta fofura!), e ao contrário do que mostram os filmes, não acontece de noitão. Porque é uma festa principalmente das crianças, é preciso se pensar na segurança, e a cidade onde moro decretou o horário oficial das 16 às 19h. E às 16h30, chovia canivete (ou gatos e cachorros, para gracejar com o idioma que agora speakamos). Deprimi. Mas aí comecei a ver a criançada nas ruas, todo mundo fantasiado, e pensei: "pô, primeiro Halloween do pequeno, e eu aqui no maior bode. Vou colocar isso no livrinho dele? 'Filhinho, no seu primeiro Halloween você e sua mãe ficaram dentro de casa, vendo a chuva, assistindo as crianças brincarem. Mas, ó, tirei baciada de fotos!' Eu não! Sapequei o moleque dentro do carregador de bebês (achei que seria mais prático, apesar de o carrinho ter capa de chuva), atochei o capuz de raposa, máquina de um lado, bolsa do outro, e bora enfiar a cara nessa de mergulhar na cultura. Ou melhor, bora pular de bomba nesse mergulho.
Nossa rua é bem residencial. Aliás, nossa vizinhança toda. E por isso fomos dar uma volta no quarteirão. Arthur ficou todo feliz, porque rua é com ele mesmo! E quando viu as primeiras crianças fantasiadas começou a apontar e fazer "ãhn-ãhn-ãhn", como quem diz: "caceta, mãe, olha essa cambada fantasiada! Que porra é essa?" (Porque ele é meu filho, e vai aprender logo umas palavras pesadas, não tem jeito.) Eram princesas, ladrões, roqueiros, pêras, coelhos, jilós e outras coisas que não fui capaz de identificar (o povo é criativo e crafter por aqui). E Arthur ficou embasbacado. Acompanhou-as com olhar e... logo descobriu que elas iam até as casas das pessoas. Casas essas que estavam decoradas e repleta de brinquedos (ou que pelo menos assim pareciam ser). Pronto!
Di, o menino enlouqueceu! Foi "ãhn-ãhn-ãhn" e dedinho em riste o tempo todo. E quando eu perguntava: "Meu filho, você quer entrar nesta casa?", ele sacolejava as duas cabeças (a dele e da raposa) e ficava com os olhinhos vidrados. Liguei pro marido aos prantos, tocada pela comoção que o evento causa: crianças fofas e felizes brincando nas ruas, todo poder ao povo! Ah, chorei mesmo. E fiz marido largar trabalho e vir ficar com a gente, afinal era uma festividade familiar.
O que era para ser uma voltinha no quarteirão virou uma peregrinação pela vizinhança. Vimos casas com decorações simples, casas que pareciam saídas de filmes de terror, casas com pessoas simpáticas, casas com pessoas ultra-simpáticas, casas com cachorros, com gatos, com outras crianças. Pegamos mais de trinta guloseimas (noventa porcento chocolate, uma pena!) e uma mini-tangerina com carinha de abóbora! Fiz questão de visitar minha casa favorita (aqui perto, em frente à igreja, Di. Espetáculo de casa!) e dar uma bisoiada em quem mora, como vive, o que come gente que tem casas lindas como aquela.
Era um cara de uns 40 anos, com cara de rico, roupa de rico (e três carrões na garagem), um cachorro (que pelo latido era grande), bebendo vinho e ouvindo The Doors enquanto distribuía chocolates em meio a uma bomba de fumaça (Arthur ficou fascinado). Ele nos mandou assistir este vídeo, que, segundo ele, já era viral (a filha dele, na faculdade, mandou para ele porque todo mundo estava assistindo). Bom, eu sei lá como é que a raposa faz, mas a minha raposa fazia "ãhn-ãhn-ãhn" a cada casa, e no fim da noite já estava enfiando a mãozinha gorda nas tigelas cheias de doces e enfiando um pirulito verde-euforia na boca. Claro que eu não tirei o papel. Claro que duzentas e doze pessoas vieram me avisar que o pirulito estava embrulhado.
Enfim, foi um dia muito especial, porque além de gostoso fez com que eu me sentisse parte de algo, fez com que eu conhecesse alguns vizinhos e que eu visse que crianças são crianças, e são felizes com pouco.
Agora, Di, o Halloween fez sentido para mim: encheu de esperança e renovou minhas energias para enfrentar o inverno que vem chegando impiedosamente. Mas eu, marido e minha pequena raposa enfrentamos o tempo ruim e, juntos, unidos, nos divertimos.

Beijo, Di. Volto outro dia.

Criançada aqui na rua. <3
OBS: Valeu pela dicas, Helen!

sábado, 21 de setembro de 2013

Nossos filhos, esses estranhos

Eu me lembro até hoje: veio na agenda da creche "Arthur disse a palavra 'bola' diversas vezes hoje." E foi assim que eu fiquei sabendo da primeira palavra do meu bebê. Muito triste, achei.
Essa coisa de deixar em creche sempre me deixou deprimida. Ainda grávida, sofria antecipadamente ao pensar que chegaria o dia em que deixaria meu filhotinho, gestado e parido com tanto amor, acalentado com tantas mamadas e atenções, na creche, aos cuidados de pessoas estranhas, que certamente não teriam o mesmo amor que eu tenho por ele. Sofria. Sofri. Muito.
Daí, tive a oportunidade de ouro de largar carreira, dinheiro e canudo, e ir cuidar do meu molecote, sozinha, no conforto do meu lar, 24h por dia, sete dias na semana, inclusive sábados, domingos, feriados e dias de doença e convalescença. Oportunidade de ouro, eu sei, tenho consciência dela a cada diazinho que acordo e não preciso me arrumar para ir ao trabalho, só ao parquinho; a cada tarde que curto meu bebezinho grudado a mim, aprendendo as coisas do mundo, da vida e sobre mim bem diante dos meus olhos. Eu sei. Mas não é porque eu sei da minha sorte que eu não sinta cansaço, que eu não fique estressada e até mesmo frustrada de vez em quando. Quem cuida de um bebê em tempo integral sabe do que estou falando, e é óbvio que essa foi minha escolha consciente, livre e deliberada: aceitei seus bônus e seus ônus, e acho que, sim, fiz muito bem a mim, a ele, à família.
Então, hoje, quero falar um pouco sobre o cansaço e a frustração de ser mãe integral, sobretudo depois de ter sido mãe proletária com CLT.
Quando eu trabalhava nove horas num escritório, sentada numa mesa toda minha, com prazos e projetos que dependiam de mim e somente de mim para irem adiante, eu me sentia frustrada e estressada. Cansei de sonhar acordada no meio do expediente, pensando no programa de fim de semana que iria fazer, antecipando o momento em que meu filho deitaria os olhos em mim, jogaria os bracinhos para o alto e viria diretamente ser acarinhado em meu seio. No mundo cor-de-rosa dos que estão infelizes com a realidade em que vivem (eu amava meu trabalho, claro, mas havia uma confluência de fatores intra e extra-empresariais que me despertavam outras ambições), mudar a realidade significa viver em um paraíso cristão: sem dores, sem sofrimento, com alguma culpa. Acontece, minha gente, que aqui na Terra, ao menos até onde me conste, tal paraíso não existe, e é por isso que o nosso livre-arbítrio é tão fundamental para sermos felizes. Não vou me alongar muito nesse quesito porque todo mundo sabe disso e eu não estou aqui para escrever um post de auto-ajuda alheia (auto-ajuda própria, sim, certamente!). Vamos então só passar adiante, e eu conto para vocês que, mesmo sabendo que eu estava idealizando a maternagem em tempo integral, eu achava que não haveria frustrações e estresses do mesmo nível de intensidade que eu vivia na panela de pressão social chamada "dupla jornada feminina": mãe-e-proletária-CLT.
Mais uma cuspidela para o alto, né? O que me faz questionar o gênero de Murphy: será mesmo um homem? Porque está com cara mesmo é de mulher, que entende do babado de se lascar na vida, então, por isso, cumpre seu papel com maestria.
Digressei, eu sei. Volto.
Bom, então, estava eu, com meu filho que dizia "bola", agora vivendo o Eldorado das attached mommies, em casa em tempo integral, levando ao parquinho, à biblioteca, ao ginásio de atividades, vendo de perto ele enfiar mãos cheias de areia nojenta na boca, assistindo ele descer às gargalhadas o escorrega, ficando apavorada quando ele se estabacava de cara no concreto (abriu o lábio duas vezes, o safado!), quase até adivinhando qual brinquedinho babado que ele enfiara na boca havia causado a gripe que ele pegou, quando eu me dei conta de uma coisa muito, mas muito, muito, muito importante. Meu filho, naquele momento, era quase um estranho para mim.
Quando ele saiu de dentro de mim, berrando, escorregadio, macio e quente, ele era um estranho completo. Não reconheci nele nada: suas feições eram novas, seu choro nunca fora ouvido, suas expressões, manias ou seus trejeitos eram todos inéditos. Até mesmo espirros e bocejos eram surpreendentemente ímpares. Quem pariu sabe (e quem teve o bebê por cirurgia ou adotou, também, é claro!). É uma delícia ir descobrindo e conhecendo nosso bebê, e talvez porque você está ali, num processo íntimo, delicado e sensível, de mútuo conhecimento (no caso do bebê, muita coisa de reconhecimento acontece), é que irritem tantos os pitacos: mexe com a nossa insegurança normal de mães recém-nascidas, que não sabe NADA sobre o próprio filho. E não sabe nada, mesmo que tenha feito mil cursos, quinze ultras 4D por mês, mesmo que tenha dezenove filhos mais velhos. Esse bebê que acabou de sair da sua barriga é inteiramente novo e uma incógnita absoluta.
Bom, daí você fica no chamego ocitocínico dos primeiros dias, depois se apaixona por cada pedacinho daquela pessoinha nova (até pedacinhos fedorentinhos), curte, ama, se doa, se dói, se entrega e, enfim, depois de uns três meses, você finalmente está apta a dizer que conhece seu filhote. Se chora assim, é sono; se come a mão assado, é fome; cocô mole, dente; risada de banda, fez xixi; agitou as mãozinhas, chega de balanço; os pezinhos não param, está ansioso. E por aí vai. O processo às vezes vai mais rápido, às vezes, mais devagar, mas, geralmente, quando terminam os três primeiros meses a mulher que nasceu mãe já sabe alguma coisa do bebê que nasceu...bem, bebê.
Porém, no injusto mundo das mãe-proletárias-CLT, é logo depois desse período e desse processo tão importantes e complexos que elas são obrigadas a delegarem os cuidados dos pequenos seres a pessoas que, tendo laços de sangue, de amizade ou monetários, passarão a anotar ou informar sobre o que acontece com seus pequenos durante o período em que mãe e filho(s) estão afastados. É cruel. Há quem não ache e goste de voltar ao mercado de trabalho, quem sinta até certo alívio por ter interações sociais que não versem sobre filhos e maternidade. Essas mulheres estão felizes com sua escolha. Mas eu não estava, lembram? Então esse post vai um pouco enviesado: sob o ângulo da frustração de um dia, em casa, ao abrir a agenda da creche, ler que meu filho falou "bola". (E frustração enorme, para mim: ele chegava em casa dormindo já, então nem dava para pedir que ele repetisse a gracinha!)
Frustrada, criei um mundo idealmente maravilhoso, em que eu acordava, dava bom dia para marido, filho e flores do jardim, ia preparar café da manhã, comia, brincava com o pequeno, dava até logo para marido, passeava pela cidade, comprava morangos frescos, sentia a brisa bater nos cabelos, ensinava para filhote os nomes de todas as coisas do mundo, sorria, vivia leve como uma pluma. Claro que eu precisaria fazer xixi com ele no colo, comer rapidinho, de repente interromper um programa bacana porque Arthur não estaria muito contente naquele momento, com sono, fome ou algum outro incômodo. E com essa visão foi que eu me demiti.
E foi com essa mesma visão que, ao chegar aqui, nos EUA, eu notei uma coisa muito importante: Arthur, depois de tanto tempo na creche, era um estranho para mim. De novo. Eu não sabia suas músicas favoritas, não conseguia criar uma rotina para nós, não sabia muito bem o que ele comia, o que não comia, o que gostava de fazer, como ele brincava. E isso foi um baque, porque com um bebê de 1 ano você acha que já sabe alguma coisa, né?
Pois é, mas eu tinha muitas coisas para reaprender: horários, ritmos, sinais, hábitos, choros e necessidades.
E eu sofri. Fiquei estressada, com um bebê super-ativo em casa, que tinha energia para dar e vender, energia essa que eu não sabia para onde canalizar. Também tinha um bebê com gostos e paladares que eu precisava descobrir e perceber. E, muitas vezes, ele me fazia gestos que não compreendi: devia ser alguma coisa da creche que vinha à tona e que lá ele se fazia entender. Precisei lidar com essa frustração de ter um pequeno estranho em meus braços, que muitas vezes se frustrava em mim, com minha ignorância sobre sua vida, rotina e preferências. (E olha que, modéstia a parte, eu era uma mãe interessada e dedicada quando não estava no trabalho.)
Enfim, além de tudo isso, acho que é importantíssimo também falar de uma frustração imensa e sobre a qual não pensei muito bem quando fantasiei sobre maternagem 24h por dia: a frustração do tempo. Nos meus delírios pré-demissionais eu faria xixi com Arthur no colo e teria algumas restrições em termos temporais, claro. Mas o impacto foi muito profundo para mim. 
Quando Arthur era pequenininho, um recém-nascido, eu não tinha tempo para nada: xixi, comer, tomar banho, escovar dentes. NADA. Passava o dia em função do meu bebê e das novas funções que ele havia criado: mais roupas para lavar e arrumar, comidinhas para mim, organização da casa e do espaço habitável etc. Então, depois de quatro meses e meio de licença-maternidade, voltei a trabalhar, e passei a ter uma hora inteirinha de almoço, o que me dava espaço na agenda para atividades como bater perna no shopping, fazer unhas, depilação, ir ao supermercado, sentar-me sozinha e pensar na vida, ler um livro... As possibilidades eram muitas e eu as aproveitei bastante! Curti ter um tempinho para mim novamente. Daí, quando voltei a ser mamãe em tempo integral, afundei na falta de rotina, desesperei no infindável mundo de atividades inadiáveis, fui soterrada por 40 unhas a mais para cortar, dois pés a mais para calçar, dez dentes a mais para escovar, um estômago para alimentar, uma cabeça para lavar, entretenimento, cuidados pessoais, necessidades básicas e imediatas (fome, sono, frio, calor), tudo dele primeiro, muitas vezes tudo dele exclusivamente, porque não havia (não há) tempo para mim. Fico dias sem lavar o cabelo, horas sem escovar os dentes, durmo mal, sempre tenho algo a fazer e nunca consigo realmente relaxar ou descansar, pois Arthur está realmente encantado por ter a mamãe em tempo integral e absoluto com ele, e me quer praticamente de sol a sol. E com isso, confesso, me frustrei, porque meu tempo não é mais meu. Por isso, demorei para encontrar o prazer de ser mãe integral - admito, sem orgulho. Demorei para sorrir com a alma em paz, sem a angústia da necessária (é claro) frivolidade apertando minha garganta num sufoco de minutos contados: preciso tomar banho; estou com fome; preciso dormir; queria ficar quieta agora; puxa, que livro bacana; nossa, minha perna está cabeluda!
Demorei para chegar a conclusão de que meu estresse e minhas frustrações de mãe em tempo integral podem até ter um grau intenso, como os estresses e frustrações de mãe-proletária-CLT que fui. Mas, por serem de naturezas diferentes, essas coisas precisam ter um impacto diferente. E, sobretudo, porque eu ESCOLHI estar onde estou hoje, o lado B da maternagem intensa deve ser encarado como desafio e oportunidade, e não como castigo e pesar.
Então, agora, mesmo com perna cabeluda (outro dia, no meio da ioga, a professora veio ajeitar minha postura e quase morri de vergonha porque quase dava para fazer trancinhas nos cabelos da minha perna!), mesmo estressada quando estou sozinha em casa, querendo comer e Arthur cisma em subir na mesa ou escalar a estante, quando ele chora, se joga, quando o cocô vaza na última roupa limpa e eu preciso descer com bebê, roupa, sabão em pó, moedinhas e paciência até a lavanderia, mesmo assim eu ainda sorrio ao ver meu filho, na minha frente, aprender a imitar um cavalinho (é a coisa mais LINDA DO MUNDO!).
E aí, no meio dessa confusão intensa e louca, no meio de todos esses pensamentos, dessas novas sensações, eu fiz uma descoberta incrível, talvez o grande segredo da maternagem para mim. Por mais perto que estejamos, por mais que acompanhemos cada crescimento, cada aprendizado, por mais que estejamos presentes em cada descoberta, nossos filhos são e sempre serão aqueles estranhos que parimos, porque nossos filhos vivem e experimentam e aprendem e vivem na individualidade. São, portanto, seres únicos, que apreenderão o mundo de maneira única. E a cada vivência e novidade, mudarão, se transformarão. Nosso papel, então, é estar presente, como quisermos ou pudermos, para, com todos esses aprendizados e transformações, sermos a constância de que eles precisam para poderem voltar, sempre que quiserem, à segurança imutável do amor materno. Só a solidez do amor permanece quando o assunto é filhos, esses estranhos.

(Pode não parecer, mas este post é fruto de muitas reflexões em relação ao post anterior. Obrigada a todas que me responderam! De coração. Gente que nunca tinha comentado, gente que sempre comenta, gente que voltou a comentar. Obrigadíssima por partilharem opiniões e sentimentos. Isso é o que realmente importa nas redes maternas: trocas e acolhimento. Prometo voltar para falar sobre minhas ideias a respeito de segundar.)

domingo, 28 de abril de 2013

Como seu filho brinca? - elucubrações de uma criança solitária

Eu era bem pequena, lá pelos 3 ou 4 anos, e ganhei uma bolsinha de presente. Ela era feita de plástico rígido, numa cor vibrante, que eu não lembro se era azul-turquesa, vermelho-sangue ou amarelo-canário. Dentro dela iam os itens que, segundo minha experiência, seriam fundamentais e indispensáveis: cédulas de um  dinheiro já vencido pela inflação da louca década de 1980 (cruzado, cruzado novo, cruzeiro, cruzeiro real, por aí afora), caneta, papel, documento de identificação (feito por mim mesma, com "foto 3X4" desenhada dentro de um retângulo no canto) e um mini frasquinho de soro fisiológico (para o caso de, deus me livre!, cair um perigoso cisco no meu olho). Na minha representação de mundo, do alto da minha primeira infância, era importante: minha identidade e meu papel social, dinheiro e, claro, remédios.
Não sei se esses são valores bacanas para que uma criança de 3 ou 4 anos tenha. O que eu sei é que minha bolsinha representava meu mundo, e os objetos que iam lá dentro mostravam o que eu considerava importante.
Um dia, esqueci a bolsa em um restaurante (eu ia muito a restaurantes quando pequena).

***

Eu fui uma criança solitária. Muito solitária. Sem irmãos ou primos, morando num prédio sem play ou crianças, uma baixinha tímida e magrela, alvo de bullying na escola, pais separados, mãe trabalhando fora o dia inteiro, realmente não tinha muito com quem brincar. E eu me lembro das longas horas gastas em brincadeiras ou em frente à televisão (sem a qual eu não almoçava!). E me lembro de ter um quartinho só de brinquedos (pequeno, como um armário grande, devia medir 1X2m), abarrotado de bonecas, panelinhas, pôneis de plástico, moranguinhos, acessórios de Barbie, jogos individuais (resta 1, jogos de encaixar, carimbos etc.). 
Num Natal meu padrinho me deu uma bicicleta, e eu pedi para a minha mãe um jogo caro (o nome era "O tesouro do Faraó"), que me custou muito dever de casa feito e muita arrumação de quarto. 
A bicicleta era uma Caloi Ceci linda, eu customizei o selim e fiz mil planos de uso. Andei de bicicleta um dia, na Lagoa, e depois voltei com ela para casa, onde eu ia da sala ao quarto, num corredor de pouco mais de 3 metros de comprimento, só quando os adultos não estavam por perto para brigar comigo (porque "não pode andar de bicicleta dentro de casa!"). Em cima do banco da Caloi morava a casa da Moranguinho. O guidom guardava uma corda de pular e eu sempre montava na bicicleta, girando os pedais para trás, fingindo dar muitos passeios divertidos com ela. Já quanto ao jogo, bom, ele era para de dois a quatro participantes, e só havia uma pessoa disponível para jogar: eu. Assim, acho que só consegui brincar uma vez, com a minha mãe, e me lembro até hoje que eu chorei muito na hora de doar o jogo porque eu "não brincava mais com ele". Chorei de pena de mim mesma. E me senti muito sozinha.

***

Arthur tem acesso a muitos brinquedos: os que eu comprei para ele, os que ele ganhou, os que ele herdou, os que ele usa na creche. Toda criança deveria ter acesso ao espaço lúdico da brincadeira. Mas esse espaço, penso eu, não pode e nem deve ser limitado e (muito menos!) determinado pelos publicitários.
Confesso que aqui em casa temos muitas tranqueiras barulhentas de plástico: Fischer Price, Tiny Love e companhia. Brinquedos que, com tristeza, depois de alguns meses, notei que eram os equivalentes ao meu quartinho da infância: peças soltas, sem vida, com funções bem definidas e que tolhiam minha criatividade porque eram Moranguinhos (com roupa, voz e até cheiro pré-determinados), pôneis com nomes certos, bicicletas sem espaço para se pedalar e jogos múltiplos que frustam o jogador solitário. Além disso, os valores que eu estava incutindo no meu filhote não me parecem muito saudáveis: mamãe não está, mas veja que lindo relógio cantante que você tem!; você TEM muitos brinquedos; vamos substituir afeto e amor por algo material e que seja um simulacro do contato humano (vozes cantantes gravadas, figuras antropofórmicas). Eu estava reproduzindo o padrão sem perceber.
Na verdade, acho, não estava reproduzindo o padrão ainda. Mas assustei quando pensei nisso. E mais ainda quando pensei que, muito em breve, ficaria sozinha com Arthur, para ser responsável por uma infância feliz e divertida para ele. É extremamente assustador pensar na responsabilidade que tenho pela frente: aprender brincar com Arthur de modo a fazer do espaço lúdico uma possibilidade de experimentação e uma forma de representação de seu mundinho (e com isso, espero ter a chance de compreendê-lo mais e mais, de estar mais perto, mais integrada).
Enfim, mais uma vez penso que a maternagem consciente (além de trabalhosa porque nunca deixamos de pensar e repensar sobre as escolhas e decisões) é um caminho tortuoso, em que devemos ser responsáveis por aquilo que optamos, mas tendo o conforto de saber que sempre dá tempo de reformular as ideias e seguir novos rumos. Assim, em Chicago, nova vida, novas brincadeiras para o meu pequeno!
Com amor, sempre.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Quando Nietzsche se revirou no túmulo (ou distorcendo a filosofia)

Aqui em casa temos um rotina. Todo dia, mais ou menos nas mesmas horas, fazemos as mesmas coisas. E assim vamos vivendo um dia de cada vez, aprendendo, errando, acertando, vendo Arthur se desenvolver e também nos desenvolvendo. Porém, por mais que tenhamos uma rotininha, nenhum dia é igual ao outro (e, segundo Nietzsche, por isso mesmo todos os dias são iguais, porque são diferentes, e todos os dias tudo pode acontecer - mas vamos voltar ao planeta Terra).
Acho importante falar isso aqui porque, de vez em quando, vejo que as pessoas ficam muito impressionadas com meu relato de parto e de amamentação, e algumas chegam a dizer: espero que não seja tão dolorido/difícil assim comigo. Gente, eu também espero que toda a mulherada tenha um parto bacanudo, de preferência com dores suportáveis (e por pouco tempo), e uma amamentação espetacular, daquelas que a gente sonha: espeta o mamilo no menino e lê/assiste TV/dorme enquanto ele mama (porque, vocês sabem, no começo da amamentação, eu me retorcia tremendamente, sem conseguir me concentrar em nadica de nada, nem relaxar para dormir). Acho, então, que minha experiência não deve ser encarada como destino inexorável para quem engravida e vai um dia parir (se o médico e o sistema deixarem) e amamentar (novamente, se o médico e o sistema deixarem). Não, gente! Há um mundo cor-de-rosa na maternidade. Acreditem! Pode ser que com você, querida leitora, tudo seja absolutamente fantástico e indolor e fácil e instintivo e anatomicamente perfeito. Há mulheres que não sentem nenhuma dor no parto, há aquelas que amamentam seu filho (e o meu, o nosso e o do vizinho) como quem chupa um Chicabon (ai, Nelson Rodrigues!). Quando eu venho aqui contar que meu parto, apesar de lindo, incrível, totalmente perfeito e transformador, doeu bagarái, quero mostrar que, caso você não se sinta assim tão incrível porque sentiu contrações doloridas por 12h enquanto a vizinha da irmã do jornaleiro da esquina chegou no hospital "com uma sensação esquisita" e pariu rindo ou espirrando, tudo bem. Se você tem o mamilo invertido (ou simplesmente plano e com cistos, como o meu), você PODE e deve amamentar. Vai doer, vai ser complicado, mas tudo bem. A gente encontra na blogosfera materna todo o apoio de que precisa para ir em frente e ficar sabendo que a coisa toda é linda e blá-blá-blá, mas também tem o dark side. (Eu poderia citar Victor Hugo, mas vou mesmo é de Angélica: "a Lua também tem uma face escura".) E aí, eu venho aqui contar que comigo não foi tão simples, porque quando a gente percebe que tem alguém igualzinho a gente, que sofre, que luta, que não acha tudo tão supimpa o tempo todo, a gente se sente parte do mundo. Eu não sou filósofa (ao menos não fora de um botequim), mas acho que podemos voltar a Nietzsche e distorcer um bocadinho a coisa toda para dizer que, se encontramos pessoas que vivem experiências semelhantes às nossas, nos sentimos parte do mundo e da vida porque, assim como os dias são todos iguais porque têm sempre o potencial para qualquer acontecimento, todas as pessoas são iguais, porque sendo elas diferentes, guardam em si todas as possibilidades.

Pri, este post foi inspirado no seu comentário (e em muitos outros também), mas não é recado ou mensagem para ninguém, viu? Só que seu comentário me fez matutar sobre como trocamos experiências nessa vida ( = vida real + vida virtual).
=)
Depois volto para contar como sobrevivi até agora sem meu piercing de mamilo (ohhhh, céus!!!).

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

IFF, eu te amo mais que quiabo!

Mantendo os níveis de excentricidade do blog, afirmo que eu amo quiabo. Com frango, com carne moída, puro, em qualquer formato e até o babado, amo, amo, amo! Mas preciso dizer que, como na vida tudo é relativo, apareceu outro amor, que me faria abrir mão de todo o quiabo do mundo: o Instituto Fernandes Figueira.
Desde antes de engravidar já ouvia muitos elogios a respeito da qualidade dessa instituição pública, mas viver a experiência do ótimo atendimento superou as expectativas que eu nutria.
Como todo mundo aqui está careca de saber, tive (e ainda estou tendo) muitos problemas com a amamentação, e só não desisto porque, além de mão de vaca, tenho minhas convicções. Aliás, não desisto porque sou mão de vaca, tenho minhas convicções e o IFF para me ajudar a seguir adiante.
Logo na minha primeira visita, já depois do fim do horário de expediente, fui muito bem-recebida e, embora não tenha podido ser atendida, fui orientada com muita calma, educação e clareza. Com isso, minha pega no seio esquerdo se resolveu. Na segunda visita, dessa vez no horário certinho, fui novamente bem-atendida: ouviram meu relato e minhas queixas com paciência, sanaram minhas muitas dúvidas, deram dicas e esclarecimentos e diagnosticaram minha monília (lembram que amamentei sem dor? Que beleza!). Saí com as esperanças em uma amamentação bacana e prazerosa renovadas.
E de fato fiquei boa, me tratei da monília, da mastite e do medo de amamentar com dor. No entanto, essa semana, notei que meus sintomas de monília haviam voltado. Fiquei apreensiva e combinei com marido de visitar mais uma vez o IFF. Acontece que Arthur vacinou e reagiu, então meus peitos fcaram para depois, já que sair com um bebê com febre não é uma opção para mim. Hoje, porém, senti bastante dor e me dei conta de que estávamos na sexta-feira, que teria um fim de semana pela frente e precisava de uma orientação. Catei no site o telefone do Insitituto, liguei, pedi para falar no Banco de Leite Humano, expliquei minha situação e acabei com a seguinte resposta: todas as atendentes estavam ocupadas e meu nome e telefone seriam anotados para que, quando liberada uma profissional, ela entrasse em contato comigo. Meio incrédula, forneci os dados e, confesso, me esqueci completamente do telefonema e da promessa. Então, cerca de vinte minutos depois, toca meu telefone, chamam meu nome e, para minha total surpresa, era uma médica pediatra do Fernandes Figueira, que escutou com paciência e muita educação minha exposição e explicou tim-tim por tim-tim o que eu deveria fazer, sugerindo alternativas muito pertinentes para meu caso.
Gente, hospital público! Eles telefonaram para minha casa, me escutaram e resolveram meu problema com educação, boa-vontade e competência. Se não fosse por isso, teria sofrido por mais três dias desnecessariamente e, se eu não estivesse tão determinada a prosseguir na amamentação exclusiva, quem sabe, essa seria a diferença entre desistir ou não de amamentar. Exemplo de que é possível um atendimento público de qualidade, o Instituto Fernandes Figueira merece meu mais terno agradecimento por tornar viável e menos sofrido o sonho de oferecer o que há de melhor a meu filho: amor.

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Parem as máquinas e suspendam a água!

PAREM AS MÁQUINAS!

É preciso publicar em todos os jornais a notícia mais importante do semestre! Nada de Mensalão, cavaleiros que sugerem cavalos em lugar de cachorros, disputas acirradas pelas eleições que se aproximam. Não, nada disso. O fato mais importante do segundo semestre é: pela primeira vez em minha vida e na vida do Arthur, amamentei um dia inteiro sem sentir uma dorzinha sequer! Mesmo no mamilo mutilado e com Arthur terminando a mamada com um pedacinho do meu seio na boca (achei que fosse uma afta e meti o mãozão: era um pedaço da minha pele). Notem bem: SEM DOR!
Foi ontem. Sem dor, sem traumas, até queria que Arthur pedisse peito. E ele não se fez de rogado: mamou loucamente, dormia de 2 a 3 horas na sequência (e passou a madrugada acordadão, damn it!) e, então, queria mais peitinho. Ô beleza! Até acho que tem mais bochechinha naquele rostinho lindo (mas só saberemos da verdade verdadeira na outra semana, depois da pesagem no pediatra, e não vou criar expectativas novamente).

Além disso, dessa novidade incrível, tenho outra. Aliás, outras. E preciso que suspendam a distribuição de água aqui no Rio, porque ao meu redor tenho QUATRO grávidas. Isso mesmo: quatro grávidas pertinho de mim. A primeira já está na reta final e também será mãe de um menininho. A segunda está com 12 semanas e acabou de descobrir que também será mãe de um rapaz. A terceira está com 9 semanas e ainda não sabe o sexo, e a última acabou de tomar aquele susto do beta. Sabem qual? Aquele em que você abre o exame e lê no resultado uma vírgula no lugar do ponto e acha que 3 mil é 3 vírgula qualquer coisa, e que "deu negativo, droga, bora seguir com a vida... mas peraí, isso é um ponto e estou MUITO grávida". O mais legal é que todas as 4 grávidas querem um parto normal (e duas delas querem um parto normal natural).
Se por um lado eu fico feliz, por outro fico preocupada, pois por mais que esteja amamentando exclusivamente e tenha, então, meus níveis de prolactina na estratosfera, não pretendo engravidar novamente antes de o Arthur completar um aninho. Por isso que passei a beber só água mineral e a evitar banhos prolongados. Vocês já sabem do poder que a água tem quando o assunto é gravidez, né? Eu, então, por via das dúvidas, tô suspendendo toda água que considero suspeita.

quinta-feira, 9 de agosto de 2012

O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - considerações finais

Parir é um ato íntimo e solitário, mas quando um nascimento derruba pré-conceitos e lança a fagulha para que outras mulheres conquistem partos dignos, respeitosos e seguros, trata-se de um ato social. E se estou aqui, relatando o momento mais lindo e íntimo da minha vida, é porque acredito no feminino e tenho a imensa pretensão de plantar a sementinha da dúvida ou da vontade de parir em pelo menos uma mulher que leia meu blog.
Depois de contar a melhor história da minha vida, preciso deixar BEM claro que este é um post político e que eu acredito no parto normal. Acho que é a melhor maneira de nascer e estou mais do que convencida de que o parto normal é para a grande maioria das mulheres, embora estejamos sendo convencidas do contrário. No que eu não acredito é que o tipo de parto determine que uma mulher é melhor ou pior mãe que outra. Obviamente eu sou uma mulher muito realizada por ter planejado e conquistado o parto que considero o melhor para mim e meu bebê, e acho que minha conquista de um parto natural respeitoso, digno e seguro é uma vitória feminina, pois prova que o corpo humano é perfeito para gerar e parir, a despeito das inúmeras (e cada vez mais estaparfúdias) desculpas que médicos e pacientes encontram para cesárias desnecessárias. (Mais sobre as desculpas neste maravilhoso artigo!)
Não me crucifiquem antes de ler este parágrafo até o fim, ok? Considero dever da mulher se informar sobre o que vai acontecer durante gravidez, parto e puerpério, e acho que faz parte da boa e saudável preparação feminina para a maternidade buscar esse tipo de informação. Então, conseguir um parto normal seguro e bacana é responsabilidade, sim, da mulher. No entanto, reconheço que nem todo mundo tem interesse ou facilidade em acessar informações sobre o que acontece durante a gravidez e o parto. Também sei que não é fácil bancar determinadas decisões e escolhas porque há pressão familiar, social e, claro, maternal, porque nasce uma mãe, nasce uma culpada, e por mais que a escolha acalente seu coração, muitas vezes gera uma culpa danada por peitar pessoas em que se confia (familiares, médicos, amigos etc.). Acho, por isso, um absurdo inenarrável que profissionais de saúde se valham de seu lugar privilegiado de "especialistas" para convencer, induzir ou até mesmo enganar uma gestante saudável a respeito da necessidade de uma cirurgia de médio porte em lugar de uma via de nascimento natural e mais segura. Acho inadmissível que médicos e enfermeiros enganem ou induzam seus pacientes a acreditar na necessidade de uma cesária. Se é responsabilidade da mulher se informar sobre gravidez e parto, é obrigação dos profissionais de saúde que a atendem e assistem informar a essa gestante sobre suas condições, opções, riscos e alternativas. A escolha é SEMPRE da mulher. O corpo é dela, o filho é dela e a decisão não pode ser pautada jamais em conveniências do profissional que a atende.
Deveria ser realidade, no Brasil e no mundo, que as mulheres tivessem acesso a informação, para que suas escolhas fossem seguras e pautadas em evidências. Ainda não é assim que funciona, e minha briga política é por que cada vez mais mulheres possam se apossar de seus corpos e decisões, contando com os profissionais de saúde relacionados ao nascimento para auxiliá-la em suas escolhas e decisões, o que torna o parto mais seguro, tanto do ponto de vista emocional quanto do ponto de vista prático. Bons profissionais nunca sonegam ou manipulam informações, eles a partilham e estimulam o conhecimento e o crescimento pessoal. Isso em qualquer área, inclusive na médica.
Esta é minha opinião e espero que ninguém se sinta julgada ou menosprezada por ter sido submetida a uma cesária, desnecessária ou não. Os motivos, as vivências e as escolhas são pessoais e intransferíveis. Minha briga é para que mais mulheres escolham um parto normal e de fato conquistem um parto normal, e que não vivam com a frustração de terem sido induzidas a fazer algo que não queriam (ou que temiam) por mera conveniência alheia (seja em relação a uma agenda pré-organizada e que não pode ser mudada, seja por não querer repensar conceitos e crenças já estabelecidos e comodamente reproduzidos).
Dito isto, fico muito feliz em contar que sou uma mulher realizada porque tive o parto perfeito para mim. Sonhado, planejado e executado com muito amor e entrega, como acontece com todas as coisas boas da vida.

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Ainda sobre amamentação, maternidade e amor

Meu filho mama como se fosse uma coisa preciosa. É lindo demais: ele se aconchega no meu colo, procura o seio, abocanha revirando os olhinhos e suspirando fundo, como quem diz "era disso que eu precisava", coloca as mãozinhas sobre meu seio, assegurando-se de que nada lhe escapará, nem o alimento, nem o amor, e mama com vontade. Cada hora, uma vontade: dormir, sonhar, se acalmar, receber o carinho da mãe, passar soluço, aliviar a necessidade de sucção e até se alimentar. No fim, ele sorri, ainda com meu seio na boca, e sejoga para trás, demonstrando a confiança cega que deposita em mim. Justo em mim! Mulher falha, cheia de defeitos, inseguranças e não-sabismos. Por mais que eu leia, me informe e me empenhe em melhorar, sinto que estou ainda muito distante da perfeição que é meu filho. Porém, numa das muitas contradições da maternidade, e sem qualquer modéstia, me acho uma ótima mãe para Arthur. Não pelos sacrifícios que fiz, faço e farei por ele, mas pelo imenso prazer que encontro em ser sua mãe. É bom, muito bom, acordar de madrugada e saber que tenho o poder de aliviar sua angústia, sua fome ou se desconforto. É muito poderoso saber que minha voz o acalma, meu colo o embala e meu seio o sacia. E hoje entendo porque, mesmo com tanto sofrimento (e ainda me dói muito o seio esquerdo), insisti na amamentação, mesmo sem ter um motivo muito claro: percebi que o contato íntimo e visceral promovido pela amamentação é o que tenho de mais parecido com a intimidade da gravidez e com a força do parto que tivemos. É, portanto, através da amamentação que mergulho mais e mais fundo na relação com meu filho. É assim que me nutro da força que preciso (e quero) ter para fazer crescer meu filho, meu amor, minha alegria.

PS: Arthur está com apenas 4kg. Torçam comigo para que não precisemos complementar sua alimentação.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Ah, a progesterona!

Se existe um hormônio delícia nessa vida é a progesterona. Ainda não provei a ocitocina matadora, é verdade, mas a progesterona está causando nesta gravidez.
Logo no comecinho, nas primeiras semanas, me fez cair de sono pelos cantos e sentir um enjoo contínuo e insuperável. No segundo trimestre deu uma folguinha, porque seriam muitas emoções, afinal. E agora, no terceiro e último trimestre, além de ter trazido os enjoos de volta às paradas de sucesso, ainda me faz esquecer tudo. No trabalho, preciso anotar tudo, e outro dia enviei um documento para a pessoa que havia acabado de me mandar o envelope. Se eu trabalhasse nos Correios, isso equivaleria a enviar a carta ao remetente, e não ao destinatário. Também tenho ficado lenta, no melhor estilo 486, e tarefas simples demandam um esforço mental e um tempo de planejamento enormes. E para completar a alegria, a progesterona tem me feito dormir pesado, e então eu chego atrasada todos os dias, e esqueço carteira em casa, esqueço que comprei um produto pela internet e fico muito surpresa quando ele chega na minha portaria, esqueço que marquei compromissos sociais e esqueço tudo o que não tem a ver com meu filho.
É um hormônio muito doido e com frequência bem incômodo, mas ao qual tenho sido muito grata. É que nessa vida louca e estressante de múltipla jornada que levamos, é graças à progesterona que me lembro de que preciso prestar atenção ao meu umbigo (e ao que vai por debaixo dele, principalmente) e também é preciso ir com mais vagar e cuidado, não porque haja algum problema, mas porque tudo o que é delicado e sensível merece um carinho a mais.

Agora, minha gente, falta pouco! O contador ali embaixo marca 36 semanas, e a partir de sábado meu filhote não é mais prematuro!
Torçam comigo!
=)

segunda-feira, 19 de março de 2012

Tudo azul, todo mundo nu

Eu detesto Lulu Santos, ao contrário da Mariliz. Acho ele chato, pretensioso e bobão. Mas preciso dar o braço a torcer quanto ao fato de que essa música não me sai da cabeça ultimamente.
É que meu corpo resolveu ficar azul. Nada a ver com sangue nobre ou delírios cogumélicos de Smurf: é só porque eu sou branquelinha e minhas veias resolveram suuuuuuper aparecer. Ando toda azul. Colo azul, braços azuis, pernocas azuis, barriga azul.
Tudo azul.
E o todo mundo nu?
É o calor, minha gente. Eu queria fazer a louca do show do Zezé di Camargo&Luciano, tirar a roupa e curtir uns momentos menos Wally Salomão, uma vida menos "Me segura que eu vou dar um troço".
É a continuação da música: culpa do verão, culpa de "no Brasil, sol de norte a sul".
Mas tudo bem, tudo zen, meu bem.
O importante é que, para alegria da mamãe Smurf aqui, estamos prestes a mudar de música, e as águas de março levarão consigo o calor infernal e trarão a alegria do terceiro e último tri, que, como todas sabem, é pauleira, é pedrada, mas também é o fim do caminho. É a promessa de vida no meu coração.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2012

A desilusão da maternidade

Antes que todo mundo se apavore, explico logo que a maternidade do título e a desilusão a que me refiro não têm absolutamente nada a ver com o post anterior. Os enjoos melhoraram (yey!!) e não me sinto de jeito nenhum abatida pela experiência de me construir mãe.

É que nesse último fim de semana fui visitar uma maternidade badalada aqui no Rio. Fui com marido, a fim de tirar umas dúvidas, conhecer os procedimentos e saber um pouco mais sobre como seria no big day.
A mocinha que nos recebeu, muito sorridente, logo nos levou para um dos quartos (miudinhos, mas dignos) e danou de explicar que chegaríamos na data agendada pelo médico, faríamos os procedimentos de internação, subiríamos para o quarto, onde seríamos preparadas para sermos levadas ao centro cirúrgico e, então, seríamos operadas, voltaríamos para o quarto e, cerca de uma hora depois, viria o bebê, que - olhem só que alegria! - poderia ficar o tempo todo com a gente.
Ela sorriu, piscou os olhos cheios de rímel, e perguntou, mais por educação e protocolo que real interesse:
- Alguma dúvida?
Sim. Eu tenho muitas, mas vou começar por uma: e quem vai parir, e não se submeter a uma cirurgia?
Ela riu, e ainda fazendo graça, respondeu:
- Bom, no caso de parto normal é assim: você vai chegar com muitas dores, vai deixar todo mundo assustado e confuso, daí vamos tentar te ajudar a fazer tudo o mais rápido possível. Mas vai ser uma correria danada, uma confusão.
Olhei para o marido, incrédula, e não consegui rir. A vontade era de chorar. Como uma instituição que se diz "maternidade" tem essa visão a respeito do nascimento? Só existe um jeito, e se não for da maneira protocolar e artificial a que eles estão acostumados (e para o qual estão preparados) o evento mais importante da vida de uma mulher (e de um homem, por que não?) será tratado primeiro com deboche e depois com falta de profissionalismo (como assim "vai ser a maior confusão?" Melhor eu correr para um hospital ortopédico, então, onde os profissionais sabem lidar com dores agudas sem "confusão e correria")?!
Estava eu, revoltada assim, transmitindo minha completa indignação ao marido somente com o olhar (uma das vantagens de uma parceria de longa data) quando o marido de uma grávida que também estava no tour pergunta, muito sério: "Acompanhante tem direito a refeição?"
Depois dessa, fui conhecer o banheiro, olhar para aquele chuveiro minúsculo, me perguntar onde caberia meu marido ali dentro, comigo, na hora do trabalho de parto e tentar respirar fundo para me acalmar. Deu certo. Ouvi mais umas três ou quatro abobrinhas burocráticas, fui questionada sobre qual era o meu plano de saúde (e informada de que meu marido tem direito a refeições pelo plano. Ufa, não é mesmo?) e perguntei: e a sala de parto humanizado?
Ah, ela existe. Mas fica dentro do centro cirúrgico, por isso tem ar condicionado forte (legal, né? Achei super humano. Ainda mais que eu MORRO de frio o tempo todo, mesmo grávida), e pode ser usada, pasmem, por gestantes que serão submetidas a uma cirurgia! Bacana, heim. Enquanto a que está parindo, cheia de contrações e precisando da banheira (ou da piscina, segundo da mocinha sorridente de rímel) para aliviar as dores fica espremida no chuveiro, toda desconfortável, a que vai ser operada faz fotos em um banho de espuma enquanto espera a manicure chegar.
Fiquei pensando em como seria tentar parir em um hospital que não se diz humanizado e concluí que seria melhor fazer como os pinguins de Madagascar, o filme (sorrir e acenar), antes que meu nome fosse parar na lista negra da maternidade, com um aviso em letras garrafais: PROBLEMA!
Ouvi mais perguntas importantíssimas, tipo: vocês têm serviços de foto e filmagem? Ou: a lojinha fica aberta 24 horas? E segui o grupo para visitar o berçário.
Era ali que eu queria chegar: no tratamento oferecido ao recém-nascido. Estava cheia de dúvidas e inseguranças e esperava que ao menos alguma coisa me fosse ser esclarecida. Ledo engano!
Ao chegarmos ao berçário, a mocinha sorridente de rímel ficou ainda mais sorridente e, tal como as vendedoras de lojas de vestido de noivas, ficou nos fitando, esperando que as lágrimas caíssem diante daqueles bebezinhos lindos, fofos, rosinhas e... chorando SOZINHOS em seus bercinhos aquecidos.
Sabe, sou super sentimental, amo bebês, sempre sonhei ser mãe, sou canceriana assumida e convicta, mas comigo, não, violão! Os bebês eram lindos e deliciosos, mas minha sensibilidade, naquele momento, não foi aflorada por isso, mas sim pelo fato de eles estarem sozinhos!
Pensem comigo: você é um recém-nascido. Até poucas horas atrás, você estava em um lugar quentinho, escurinho, escutando a voz da sua mãe e seus batimentos cardíacos o tempo todo, sentindo as paredes do útero te protegendo e tendo sua sensação de peso dimiuída pela bolsa amniótica. Mas agora, você está nu, solto no espaço, sem a voz, o coração ou a pele da sua mãe para te acalmar, sentindo que tem um peso diferente, sentindo pela primeira vez cheiros e gostos, ouvindo e respirando também pela primeira vez, e você está SOZINHO. Horror dos horrores, não? Bom, eu não sei vocês, que leem essa maluca aqui, mas eu realmente acho isso meio filme de terror, sabem? Então, se EU puder evitar que isso aconteça com o MEU filho, assim o farei (embora, lógico, eu saiba também que o bercinho aquecido e as enfermeiras do berçário têm suas excelentes serventias, sobretudo para as mamães que tiveram problemas sérios na gestação e no parto e precisam de alguém qualificado para cuidar de seus filhotes. O que eu questiono é a necessidade de deixar o bebê ali, quando mãe e filho estão bem. É como internar uma pessoa com quadro estável e relativamente saudável em um CTI).
A mocinha grávida que fazia o tour comigo não devia pensar em nada disso, certamente, pois olhou para o marido, acariciou a barriga e suspirou.
Já o meu marido, chegou do meu lado e perguntou: esses bebês são prematuros? São tão pequenos...
Eu respondi que do jeito que se devia fazer cesárias ali, não havia como saber se todos aqueles bebês tinham nascido a termo, e falei que era provável que alguns fossem, sim, prematuros. Mas acho que falei isso meio alto e a mocinha sorridente olhou para mim.
Alguma pergunta?
Coitada! Ela não deveria ter sido gentil naquela hora, porque perguntei quais eram os procedimentos obrigatórios, por que os bebês ficavam naqueles bercinhos, para que servia toda aquela parafernália tecnológica e se eu poderia ficar o tempo todinho com o meu bebê nos braços ou no quarto.
Ela assustou, murmurou umas respostas bem sem sentido e disse "não sei" para a serventia do bercinho. Disse que os pediatras todos enviavam os bebês para o bercinho por cerca de uma hora e encerrou a visita perguntando se havíamos gostado e dizendo que, assim que o médico marcasse a data do parto (tal e qual um deus), era para fazermos a pré-internação no site. Mais uma vez a chata maluca e perguntadora aqui lembrou que em caso de parto normal, a coisa não funcionava assim, tão burocraticamente. Ela bateu os cílios cheios de rímel, disse que eu fizesse a pré-internação com a data provável para o parto e nos acompanhou até a porta.
Nos despedimos, a outra grávida me desejou boa sorte, desejei boa sorte a outra grávida e saí com mais dúvidas e inseguranças do que quando entrei.
Marido viu meu choque e propôs: vamos tomar um lanche ali, naquele café?
Fui, aliviada e amando muito esse homem que me entende como ninguém!
Nos sentamos, fizemos os pedidos, olhamos a decoração, até que marido não aguentou e perguntou: foi impressão minha ou a mocinha sorridente de rímel disse que mulheres que querem parto normal são mais difíceis?
Eu ri e respondi que eu não tinha ouvido nada, mas que eu, com certeza, seria bem difícil. E que meu parto, se tudo der certo, será uma bela de uma confusão... para eles.

sábado, 24 de dezembro de 2011

Querido Papai Noel

Acho que eu fui uma menina boazinha na maior parte do ano (se você, é claro, descontar os momentos de TPM e a loucura hormonal da gravidez). Assim, gostaria de pedir uma coisinha neste Natal.
Querido Papai Noel, eu queria muito ter um parto digno, saudável e seguro. Mas não gostaria disso só para mim, não. Um parto assim deveria um direito para todas as mulheres aqui no Brasil, mesmo as que não foram tão boazinhas ao longo do ano.
Seria ótimo se parir com respeito, dignidade e segurança fosse algo certo e comum, que mais mulheres pudessem escolher a posição em que dar à luz, que pudessem escolher com quem gostariam de partilhar este momento mágico (se com o pai da criança, com a própria mãe, se com amigos próximos, ou até mesmo em meio a uma festa familiar, como quer a Wanessa ex-Carmago), que as mulheres tivessem o direito de comer, beber e se locomover como quisessem, que elas também pudessem seguir a risca a determinação da OMS e escolhessem em que lugar se sentiriam mais seguras para seus filhos nascerem. Seria ótimo se TODAS as mulheres de baixa renda tivessem um tratamento carinhoso e respeitoso nos locais onde vão para dar à luz, que elas fossem respeitadas em seus gritos, urros, gemidos e dores, que seus medos e apreensões fossem levados a sério e que pudessem escolher um parto normal porque este é mais seguro e mais saudável, e não fossem alijadas de seu direito a uma cesárea (caso ela se mostre necessária) porque parto via vaginal é mais barato. Sabe, Papai Noel, isso tiraria aquele ar de glamour com que a cesárea tem sido vista, porque se as redes pública e privada de saúde brasileira oferecessem partos normais dignos, não seria necessário lançar mão de um recurso radical como uma cirurgia de médio porte para que as mulheres se sentissem mulheres de verdade, sem aquele papinho de "na hora de fazer foi gostoso, agora aguenta" e outras (muitas) formas de violência contra as mulheres no momento mais importante, transformador e delicado de suas vidas. Afinal, quando o parto normal passa a ser anormal porque cercado de mitos, preconceitos, limitações (não pode ficar de quatro, não pode beber nada etc.), falta de respeito e de sensibilidade, realmente fica complicado criar uma política de saúde eficaz para o problema do excesso desmedido de cesarianas no país.
Muito obrigada,
Ártemis

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Das coisas que ficam

Eu ainda estou enjoando. São dez semanas de náuseas diárias e constantes, e não há gelo, água com gás, suco de limão, suco de laranja, frutas cítricas, beliscadas de hora em hora (eu já comia de 3 em 3 horas), bolachinha de água e sal e reza braba que deem jeito. Nem remédios funcionam muito bem, exceto por um (mas é que ele me dopa e, por isso, não sinto enjoo), que me deixa mongol e, portanto, é caso de emergências emergenciais urgentes.
Minha barriguinha já se nota. Mui discretamente (prometo fotos, junto com a tal do elástico na calça jeans), mas hoje foi a primeira vez que uma pessoa completamente desconhecida me perguntou assim, na lata: você está grávida? (Corajosa a pessoa, não? Imaginem se eu não estivesse grávida...) Fiquei toda boba, claro. E até demorei para entender que ela falava comigo. Acho que passei tanto tempo fingindo que papos sobre gravidez e bebês não eram comigo que ainda vai demorar um pouco para responder rapidamente (quem respondeu a essa pergunta foi uma colega de trabalho, que estava comigo na hora e não está desmiolada como eu - aliás, tenho certeza de que estou passando TODOS os meus neurônios para esse bebê! Como estou lenta e tapada, minha gente!).
Embora o auge dos desejos tenham se manifestado lá pela nona semana, de vez em nunca ainda sinto verdadeira obsessão pela coisa mais inusitada: cerveja de trigo. Quem me conhece sabe que eu não sou de beber cerveja (embora a de trigo sempre tenha mexido com meu coração). Mas não sei o que os hormônios fizeram comigo que eu não posso ver um copo de cerveja, principalmente se for de trigo, que eu fico LOUCA. Óbvio que eu fiquei só na vontade e, quando a intimidade permitia, pedia para dar uma cheiradinha no copo da pessoa que estivesse bebendo cerveja perto de mim. Marido é que adorou. Durante uma semana eu danei de comprar cervejas importadas que ele achava que eram para ele. Tolinho! Mal sabia que tamanha generosidade travestia um egoísmo sem precedentes, e eu comprava as garrafas só para que eu pudesse apreciar o aroma daquele líquido divinamente dourado. Outra obsessão dessa gravidez é milho: cereais matinais, salgadinhos gordurentos, milho cozido com ou sem manteiga, pipoca, creme de milho, qualquer modalidade está valendo! Imagino que essa criança nascerá amarelinha, porque cerveja e milho, né?
Então, é isso que fica: a família que estou construindo (e gerando), a certeza de que Natal não é só correria de presentes, amigos-ocultos burocráticos ou confraternizações loucas (no bom ou no mau sentido da palavra "louca"), mas sim um momento de refletirmos sobre os significados dos nossos gestos e nos prepararmos para tentarmos ser pessoas melhores para o mundo.
Não volto antes do Natal e, por isso, desejo a todos os que passam por aqui (comentando ou não) um dia especial, cheio de amor, paz, família, milho e cerveja de trigo. Que o Natal faça renascer em vocês a esperança e a alegria de que nos valemos para viver o ano novo.