Em dias sem trânsito, a distância entre minha casa e a maternidade é
de aproximadamente 10 minutinhos. Era um domingo, meio-dia, não havia
trânsito: tive 5 contrações entre minha casa e a maternidade. CINCO. Fui
abraçando o banco de trás do carro, com bolsa de água quente na lombar e
travesseiro aparando minha barriga. Nas contrações, queria que tirassem
a bolsa de água quente, porque aquilo me incomodava demais e eu estava
morrendo de calor!
Chegamos na porta da maternidade e a ruazinha
que dá acesso ao estabelecimento tinha um carro parado. Marido buzinou e
gritou que eu estava parindo. O motorista, que falava ao celular,
apenas colocou a mão para fora com o polegar voltado para baixo, como
quem diz "quebrou, se vira aí". Marido buzinou de novo e o cara não se
mexeu. Daí, a EO virou-se para ele e falou: "vamos empurrar?" Marido mal
respondeu e já foi saindo do carro, seguido por ela. Quando eles
colocaram a mão no carro enguiçado o motorista saiu, na disposição de
brigar, falando "o que está acontecendo? Tirem a mão daí." Marido
respondeu: "você está na porta de uma maternidade e minha mulher está
parindo!" Na mesma hora o motorista se desculpou e ajudou a empurrar. A
cena, então, era: uma mulher descabelada, de saia, top, barrigão de
fora, em pleno trabalho de parto, urrando e berrando palavrões no banco
de trás do carro, marido e EO empurrando o carro de um estranho
mal-educado. Acho muito curioso que eu me lembre com muitos detalhes
dessa cena porque, como eu disse, as coisas ficaram um pouco
embaralhadas na minha memória e algumas coisas eu não sei se aconteceram
antes ou depois de determinados fatos.
Carro empurrado, chegamos na maternidade. Aqui vale uma pausa dramática.
Uma
família, dou minha cara a tapa que a mulher tinha agendado a cesária,
vinha saindo, com bolas, flores e malas naquele carrinho estilo hotel.
Todos ficaram muito chocados com a minha pessoa, descabelada e
mal-ajambrada, de chinelo, berrando palavrões e agarrada na minha EO
(que é cheia de tatuagens!). Brotou na minha frente uma cadeira de
rodas, que eu recusei prontamete porque não conseguia conceber me
sentar. A dor triplicava quando eu não podia escolher a melhor posição
para aquela contração. Subi (ou desci, sei lá) para o centro cirúrgico
somente com a EO, pois marido ficou resolvendo burocracias de internação
e depois ia por outro caminho se vestir para entrar no centro cirúrgico
(ainda não entendo porque uma sala de parto natural fica dentro de um
CC, mas tudo bem). A EO entrou na sala em que se troca de roupa, pegou
uma camisola bunda de fora, uma touquinha e pantufas, e pediu que
chamassem minha GO. Sei lá como me vesti (exceto pela touquinha, que nem
sei onde foi parar) e fui caminhando, meio trôpega, pelos corredores
até que minha GO surgiu na minha frente. "Oi! Tudo bem? Eu estava na
passeata. Olha, até me pintaram..." Eu fiquei olhando para ela, como se
estivesse vendo uma pessoa verde com bolinhas roxas falando em grego
arcaico comigo. Bom, eu suponho que esta fosse minha expressão, já que
eu não entendi uma palavra do que ela disse e fiquei pensando: "oi? tudo
bem? passeata? pintada? o que ela quer dizer com isso?" Seguimos centro
cirúrgico adentro e entramos, enfim, na sala de parto humanizado, que
era nada mais que um quarto de hospital, com um banheiro dentro do qual
havia uma banheira enchendo (eu podia escutar, mas não via nada, porque a
porta do banheiro estava fechada), uma cama que virava cadeira e uma
luz fraquinha, criando uma penumbra. Depois de me instalar na
cama/cadeira, entendi o que a médica dissera ao me encontrar: "ah, a
passeata contra a violência obstétrica..." Eu estava meio aérea.
Dentro
da sala estávamos eu, minha GO e duas enfermeiras da maternidade.
Depois de um tempinho, entraram também marido e a minha querida EO. Em
algum momento, já dentro da sala de parto, minha GO perguntou se eu
queria tomar o antibiótico para o strepto positiv que tive no fim da
gravidez. Havíamos conversado previamente sobre as minhas opções e
escolhi tomar. Assim, as enfermeiras da maternidade entraram em ação
para colocarem o acesso intravenoso. Achei muito curioso sentir a picada
do acesso, pois jurava que depois de dores tão intensas, eu mal
sentiria a picada de uma agulha. Ledo engano! Senti, e senti direitinho.
Esse, sem sombra de dúvidas, foi o pior momento do parto, em termos de
dor. Não por conta da picada, mas porque precisei ficar reclinada na
cadeira/cama, e colocaram uma barra de ferro diante de mim (era uma
cadeira para parto de cócoras, depois processei a informação. Contudo,
sinceramente, não faço ideia de como alguém consegue parir ali em cima.
Mas devem conseguir, porque cada mulher é uma e cada parto é único
também). Aquela barra de ferro, naquele momento do TP, com contrações
tão doloridas e seguidinhas, era uma barreira intransponível entre dores
insuportáveis e algum conforto durante as contrações. Não conseguia
sair dali e, aboletada naquela cadeira, sem conseguir me libertar
(contrações + barrigão + acesso = imobilidade ou maior lentidão), tive
três contrações terríveis. TERRÍVEIS. Sentia cada músculo do meu corpo
se contrair de dor e experienciei uma coisa que nunca tnha vivido antes:
eu tremia de tanta dor. Marido percebeu e, segundo me confessou mais
tarde, foi o único momento do parto em que ficou nervoso, pois viu que
eu estava sofrendo muitíssimo. Em meio a esse sofrimento intenso,
gritei, pedi, implorei (sei lá qual foi meu tom!) que tirassem aquela
barra de ferro e que me tirassem dali. Minha GO pediu que eu aguentasse
mais um pouquinho porque já estava acabando o antibiótico e eu procurei
relaxar ao máximo, sabendo que o sofrimento estava com minutos contados
para acabar. Assim que me liberaram para que eu me movesse, só tive
forças para virar de frente para a cadeira/cama, me agachar no chão,
enfiar a cara nos travesseiros que estavam por ali (alguém deve ter
colocado para me dar mais conforto) e urrar a cada contração.
Neste
momento a GO e a EO cochicharam alguma coisa entre si e marido logo
quis saber o que estava acontecendo. Assim, saíram ele e EO para o
corredor do centro cirúrgico. Eu, que estava cheia de hormônio nas
ideias mas nã sou boba, fiquei paranoica: o que está acontecendo? onde
eles estão? A GO me acalmou, dizendo que marido foi buscar água (e de
fato ele foi) e eu aproveitei para pedir água também. Bebi um golinho
mínimo e comentei: "é que não quero vomitar." E a GO respondeu: "você
vai conseguir, né? Vai passar a gravidez todinha sem vomitar uma única
vez." E eu ri em resposta. Marido entrou de novo na sala junto com EO e
alguém começou a ajeitar o acesso intravenoso para que eu pudesse me
locomover melhor, sem aquele tubo para lá e para cá. Acontece que eu
entrei na paranoia ocitocínica e, desesperada, falei: "ai, meu deus,
vocês vão me levar para a cesária, né? Foi isso que vocês cochicharam,
que eu vou para a cesária. Eu não quero..." Todo mundo riu, porque eles
realmente estavam apenas ajeitando o acesso. Porém, os cochichos foram
porque eu tive um rebordo de colo e a GO estava esperando que meu corpo
desse um jeito sozinho, mas avisou à EO e ao marido que se eu
precisasse, ela iria intervir. Felizmente não foi necessário!
Lembro
de perguntar à GO quando a coisa ia ficar legal, porque eu sempre havia
lido relatos em que a mulher adorava sentir contração e que ficava
feliz porque o bebê estava nascendo e eu só queria que aquele ser saísse
de dentro de mim logo, e acabasse imediatamente com meus sofrimento
(gente, sem romantismos: dói pacas e eu não estava nada feliz que Arthur
nascia. Eu só pensava: "tá acabando, tá acabando, tá acabando...").
Fiquei tendo umas contrações agachada (e segundo marido, em um momento
eu levantei a cabe;a e exclamei: "Arthur, meu filho, sai logo que sua
mãe tá muito zoada") e depois de um tempo (não faço ideia de quanto)
minha GO disse que eu poderia fazer força quando sentisse vontade. Eu
pensei: "Ela está louca! Eu vou sentir vontade de fazer força com essas
dores? De jeito nenhum!" Mas respondi apenas: "Tá bom." O fato é que
alguns instantes depois dela falar isso, comecei a sentir uma vontade de
fazer força. Não dá para explicar muito bem o que isso significa, era
apenas uma vontade de fazer uma força. E eu fiz. Uma, duas, três... e
gemi: "Estou com medo!" É que o expulsivo foi, para mim, o momento mais
intenso do parto todo. Primeiro porque sempre foi meu grande medo. Eu
estava OK com as contrações, mas morria de medo do expulsivo. Além
disso, o expulsivo foi um momento muito, muito, muito animalesco para
mim. Eu iniciava o movimento de maneira consciente, mas a tal força
tomava conta de mim, jogava meu ego para escanteio, e terminava o
processo só com o id. Eu começava a força e ela se concluía, sem que eu
conseguisse interferir, controlar ou interrromper nada. Uma força
brutal, que começava onde outrora estava a boca do meu estômago e agora
estava o fundo do útero e seguia contraindo todos os músculos abdominais
até o baixo ventre. Foi quando perdi completamente o controle do
processo, e fiquei com muito medo. Então, gemi baixinho. E minha super
GO escutou, e disse: "Ártemis, lembra quando eu disse que parir é como
pular de pára-quedas? Então, você está na porta do avião e vai precisar
pular, não tem mais volta!" Isso, de alguma maneira louca me deixou mais
calma (eu morro de medo de avião e de pular de pára-quedas. Sabe-se lá
por que a metáfora funcionou para me acalmar, né?). Fiz mais um ou duas
forças e falei: "Estou sentindo arder!" E pensei: "Círcuclo de fogo. Mas
não diziam que o expulsivo não era dolorido? Mentiram para mim. Tudo
dói, o tempo todo!" Entre uma força e outra alguém sugeriu que eu me
acomodasse melhor, porque estava agachada em frente à cadeira/cama havia
muito tempo e sei lá como meus músculos da perna estavam aguentando! Eu
respondi, numa frase meio sem-sentido: "Não quero perder o que já
conquistei." Marido disse que riu, porque eu estava doidona de hormônios
e não fazia o menor sentido essa resposta, mas depois eu expliquei que
só estava cansada demais para fazer todo o raciocínio, que era: eu estou
sentindo que cada força que faço chego mais perto do fim, e não quero
mudar de posição para não correr o risco de perder os centímetros que já
conquistei, não quero arriscar me mexer e fazer o bebê recuar no canal
de parto. Vai, gente, era uma resposta muito complexa para alguém em
pleno expulsivo, cheia de ocitocina na cabeça!
Depois que avisei
que sentia arder, devo ter feito umas três ou quatro forças e Arthur fez
POP. Foi assim que senti: POP. Um movimento nada suave, de algo
desentalando (confessem: este é o relato de parto menos frufruzento que
vocês já leram, né? Nada de "oh, que coisa linda, maravilhosa,
divina!"). Eu estava com a cara enfiada nos travesseiros, urrando, e não
via nada. E estava tão focada nos puxos e nas minhas dores e sensações,
que não escutava nada, não percebia muito bem o ambiente. Sei que senti
um cheiro de queimado muito forte e falei para minha GO: "Disseram que
depois que a cabeça saía parava de doer, mas é mentira. Quando vai ficar
bom?" Fiz mais uma força e escutei: "Uma circular de cordão, heim!"
Outra força e: "Ártemis, pega o seu filho!" E vi um serzinho de braços
abertos, branquelo, chorando horrores, bem embaixo de mim. Vi e pensei:
"É meu filho? Eu pari? Esse chinês é meu filho? Eu devo estar com muita
cara de idiota, porque não estou entendendo nada e deveria estar
sorrindo, chorando, sei lá... Será que esse bebê não está com frio?
Preciso aquecê-lo porque não quero ele na incubadora." Daí eu segurei o
Arthur. Depois de todos esses pensamentos em um segundo. Segurei, toda
atrapalhada, aquele corpinho magricelo, escorregadio, quentinho e macio.
Ainda com o cordão ligado a mim. Lembrei que tinha um marido, procurei
por ele e, enfim, sorri. Fiquei ainda agachada uns instantes, até que
alguém teve a boa ideia de me sentar na tal cadeira/cama. Pedi uns panos
para aquecer o Arthur (eu estava muito paranoica de ele perder calor e
ir para a incubadora. Vocês se lembram do episódio de visita à maternidade, né? Queria evitar a todo custo a tal "luzinha") e fiquei
sentada, contando dedinhos, pensando "nossa, esse bebê tem tantas rugas!
E não se parece com ninguém! Nem comigo, nem com meu marido!" e sendo
abraçada e beijada pelo marido. Tentei dar de mamar no seio esquerdo,
mas não consegui (sempre ele me dando problemas!). Arthur continuava
dando demonstrações vocacionais (será cantor de ópera, pois tem um dó de
peito daqueles!) até que eu consegui espetar o seio direito em sua
boquinha, e ele então mamou por cerca de vinte minutos na asala de
parto! A pediatra comentou: "Nossa, como ele mama!" Pois é: tinha uma
pediatra na sala de parto e eu só percebi isso quando, logo depois que
Arthur nasceu, ela falou: "Esse aí já nasceu chorando. Vai ganhar APGAR
10!" Pois é, Arthur, reza a lenda, colocou a cabeça para fora do meu
corpo, com o corpinho ainda dentro de mim, e BERROU. Eu não vi nem ouvi
nada, porque estava constatando que o expulsivo não era nada um passeio
no campo, como muitas mulheres diziam, embora em um momento bem
específico do processo eu tenha sentido certo prazer, porque o bebê
passou pelo meu clitóris e foi até gostosinho (mas não se enganem:
gostosinho superrápido, porque depois veio uma cacetada de dor). Quando
Arthur começou a mamar, alguém apareceu com um novo refletor. Pois é, o
refletor da sala de parto QUEIMOU e eu não vi nada (nem ninguém na sala
de parto, bem na hora em que Arthur coroou!), pois estava com a cara
enfiada nos travesseiros (mas senti o cheiro de queimado, lembram?).
Esperamos
o cordão parar de pulsar e marido o cortou. Então esperamos pela
placenta, que saiu sem me causar qualquer dor (aliás, muito pelo
contrário pois foi com sua saída que todo e qualquer incômodo passou).
Aí chegou a hora da verdade. Mas a verdade não era ruim: uma laceração
grau 1 (apenas pele), que exigiu uns 4 pontinhos. Tentei negociar, mas a
GO disse que era necessário suturar. Ela, então, aplicou anestesia e
começou. Eu falei: "Vou me dar ao luxo de reclamar, viu? Tá doendo!"
E
doeu mesmo. E mesmo com anestesia o troço incomodou. A curiosidade
desse momento foi que eu fiquei com a língua completamente dormente, sei
lá por que cargas d'água!
Enquanto eu tomava meus pontinhos,
marido desceu com o rebento, para o check-in no berçário. Arthur mediu
50cm e pesou 3,310kg. Nada mal para um bebê saído da minha pequena
barriga!
Depois de dados os pontos e de a adrenalina ter baixado,
comecei a sentir as pernas tremerem: só naquele momento foi que os meus
músculos enfim sucumbiram. Fui ajudada pelas enfermeiras da maternidade a
me limpar (eu parecia uma personagem de filme de terror: coberta de
sangue dos pés à cabeça) e passei sozinha para a maca que me levaria ao
quarto. Assim que cheguei no quarto telefonei para ao berçário e pedi
que trouxessem meu filho: não queria ficar mais um segundo sem ele. E
então, depois de uns dois minutinhos, chegou marido, empurrando aquele
bercinho que tinha meu lindo bebê chinês dentro. Chinês? É. Arthur
nasceu com os olhinhos tão puxados que parecia um chinezinho, mas dias
mais tarde ele mostrou que não era oriental coisa nenhuma.
Em
nenhum momento do meu trabalho de parto e parto eu achei que a coisa não
fosse funcionar. O único instante de medo foi no começo do expulsivo.
Não tive medo de parir no carro ou em casa, de o TP não engrenar, de eu
chegar na maternidade e a coisa estagnar, nada. Não tive medo.
Mergulhei, me entreguei. E se tiver outo filho, outro parto, pretendo
fazer o mesmo, embora saiba que cada parto é único.
Entrei em TP efetivo por volta das 8 da manhã e às 13h meu filhote já havia nascido.
Não
sofri intervenções desnecessárias, meu filho também não. Não ficou na
"luzinha", nem foi aspirado, não teve colírio e nem banho. Eu quis a
vitamina K injetável e o antibiótico que fizeram em mim.
Eu sambei
na cara da sociedade médica intervencionista, pois tive um parto
natural, com quadril estreito, bebê de bom tamanho, strepto positivo,
circular de cordão.
Espero que da próxima vez, no meu próximo
filho, eu tenha a mesma sorte que tive no primeiro: partaço empoderador e
maravilhoso (apesar da dor, porque o lelê dói mesmo, porém dá para
aguentar, sim!). Mas espero ainda mais que mais mulheres tenham o
direito de escolher e de ter sua escolha respeitada na gravidez, parto e
pós-parto.
quarta-feira, 8 de agosto de 2012
O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 3
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terça-feira, 7 de agosto de 2012
O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 2
O processo do parto vocês acompanharam de pertinho aqui: teve
gincana, estresse, cansaço, introspecção catártica e recolhimento ao
ninho. No dia 16, portanto, sentia, mais uma vez, umas contrações que
poderiam sinalizar ou não o início do trabalho de parto. Para tentar dar
uma mãozinha para a mãe-natureza, fui caminhar. Escolhi um lugar muito
significativo (onde dei o primeiro beijo no homem que hoje é meu marido)
e fui com minha família passear: marido, cachorro e filhote na barriga.
Eram contrações doloridas, mas espaçadas. Liguei para a enfermeira que
me acompanharia e avisei: "Pode engrenar ou não, mas estou avisando que é
para deixá-la de sobreaviso."
Cheguei em casa e nada mais aconteceu... até que às duas da manhã, já no dia 17, comecei a sentir contrações suaves, porém ritmadas. Estava na internet, insone (como vinha acontecendo com frequência no fim da gravidez), quando senti umas dores parecidas com cólicas menstruais. Procurei me distrair, mas fiquei de olho na frequência, se estavam vindo com algum ritmo. Não me precupei neste momento em marcar os minutos certinho, apenas via se a cada 10 ou 15 minutos eu tinha tido contrações. Por volta das 4 da manhã, as contrações ficaram mais poderosas e eu não conseguia me concentrar em outra coisa quando elas apareciam: se eu estivesse lendo algo, não conseguia entender muito bem o trecho, se estivesse escutando uma música, não prestava atenção na letra. Meu marido dormia, e confesso que a tentação de acordá-lo foi grande, mas pensei que ele precisaria dirigir e, por isso, não poderia estar muito cansado e eu ainda teria muitas horas de trabaho de parto pela frente. Eu sabia que estava começando o trabalho de parto e passei a contar os intervalos das contrações. Então, às 6 da manhã, eu não conseguia mais cronometrar nada, e acordei meu marido para me ajudar a contar a contrações. Ele, sonado, não levou muito a sério meu pedido porque achou que as contrações fossem estar espaçadas ainda. Quando, às 6h30, ele notou que a cada 3 minutos eu contraía, levantou e passou a anotar tudinho. Perguntou, então, se eu queria entrar em contato com a minha equipe, mas eu ainda achava que era cedo demais (ninguém merece ser acordado num domingo, às 6h30 da matina, para um trabalho de parto ainda no comecinho, né?). A cada contração eu agachava na beirada da cama e soltava uns gritinhos. Também ia muito ao banheiro, porque a impressão que eu tinha era de que eu faria xixi durante as contrações e a última coisa que eu queria era limpar chão em pleno trabalho de parto. Fui levando, com ajuda do maridão, até às 8 da manhã, quando contatei a equipe e comecei a mergulhar mais fundo no processo. As contrações ainda vinham de 3 em 3 minutos, mas estavam mais fortes. Lembro que entre uma contração e outra eu não sentia nada, exceto por uma dor bastante forte e incômoda (mais incômoda que a própria contração) no músculo adutor da perna esquerda assim que a contração passava. Na hora, pelo telefone, comentei o fato com a enfermeira que me acompanharia e não me lembro o que ela disse, mas era normal. Hoje, pensando sobre o assunto, faz todo sentido que eu estivesse estirando/dilatando o meu músculo mais resistente e atrofiado.
Também liguei para minha GO para avisar do progresso (eu já havia telefonado no dia anterior e minha enfermeira tinha contatado ela) e, mais tade, depois de Arthur nascer, fiquei sabendo que minha GO ligou para a minha EO e avisou: "ela está em trabalho de parto, sim, porque está gritando. Você já viu a Ártemis gritar por alguma coisa?"
O combinado era minha enfermeira vir me acompanhar em casa, pelo máximo de tempo que eu aguentasse, até que eu quisesse ir para o hospital. Minha GO seguiria diretamente para a maternidade.
Por volta das 9h30 a enfermeira, então, chegou aqui em casa e foi devidamente recepcionada por meus gritos (que agora já não eram baixinhos como antes, mas mais fortes, intensos e poderosos) e por meu boxer. Não lembro a sequência certinha, mas sei que logo que chegou a enfermeira obstétrica pediu para auscultar o bebê e para verificar a dilatação. Aceitei tudo, mas disse que não queria, de jeito nenhum, saber a quantas andava minha dilatação. Primeiro porque eu estava com dores havia bastante tempo, e elas não estavam fraquinhas, não. Assim, se eu descobrisse que estava com 1cm apenas, depois de tanta dor e de tanto tempo, eu ficaria louca. Disse isso para ela, de maneira um pouco mais dramática ("Se eu estiver com 1cm, me jogo da varanda"). Outra razão para não querer saber da dilatação devia-se ao fato de eu ser muito controladora, e fiquei realmente com medo de saber da dilatação e ficar fazendo contas e previsões sobre quando Arthur nasceria. Eu queria e precisava mergulhar cada vez mais fundo no processo, me entregar às contrações, ao parto e deixar tudo acontecer, sem tentar controlar ou prever qualquer coisa. A EO, então, auscultou o bebê (tudo certo! Tudo lindo!) e verificou a dilatação (já estava com 5cm!). Vendo que as contrações estavam intensas, a EO sugeriu que eu entrasse no banho,o que recusei porque nãoqueria ficar de cabelo molhado, o que me incomoda muito (e, confesso, também pensava que eu teria que pentear cabelo, fiquei com preguiça e com medo de ficar descabelada e parecer muito maluca quando chegasse a hora de ir para a maternidade). Marido aproveitou a chegada dela para levar o cachorro para passear e eu fiquei curtindo minhas dores. Lembro de conversar bastante com a enfermeira (que é uma fofa, uma doçura, super divertida e carinhosa) e também de estar bem contente. Marido aproveitou a saída e, a meu pedido, comprou chocolate e água de côco. Eu sabia que precisava me manter hidratada e, como tenho pânico de vômito, não quis comer nada em grande quantidade, para não correr o risco de vomitar (sim, ocitocina é um hormônio que dá náusea e é bem comum vomitar durante o trabalho de parto). Fiquei mordiscando o chocolate e bebericando a água de côco, mas, para falar a verdade, comi e bebi muito pouco: meu medo falou mais alto.
Em algum momeno entre 10 e 11 da manhã a EO sugeriu que eu trocasse as bolsas de água quente (que eu vinha usando desde cerca das 8h) por um banho quente e eu aceitei. Mas não sem antes vestir uma blusa e justificar para a enfermeira: "não quero ficar com os peitos ao léu, balançando." Eu, heim! Lá fui eu, então, seminua, para o banho. De repente surgiu, sei lá de onde, minha bola de pilates (que eu nem sei onde estava guardada), uma toalha e um chuveiro ligado. Entrei no meu boxe minúsculo com bola e toalha (para sentar em cima e para, caso a bolsa estourasse, a gente pudesse ver a cor do líquido amniótico e contorlar se havia mecônio) e fiquei lá, gemendo alto, gritando, relaxando com a água quente. Para quem se lembra, já falei aqui que meu banheiro dá para o vão central do prédio, então todo mundo ouve todo mundo no banheiro, e se não fecharmos a porta do banheiro, nossa privacidade pode ficar um pouco afetada. No começo do TP, me preocupava em fechar a porta do banheiro cada vezque ia fazer xixi, para que meus gritinhos (e depois gritos e gemidos) não assustassem a vizinhança. Nesse momento, dentro do banho, lembro de ter pensado: os vizinhos vão me escutar, mas que se dane. Tá doendo e ninguém tem nada com a minha vida.
Saí do banho porque senti falta de ar. Não sei como é com vocês, mas eu, às vezes, me sinto meio sufocada em um banho quente. E aquele era um banho beeeeem quente. Me sequei e me vesti (já a roupa que eu havia separado para ir para a maternidade) com a ajuda da enfermeira, que também sugeriu que eu colocasse um absorvente pós-parto (que é IMENSO, quase uma fralda!) para relaxar durante as contrações (lembram que eu ficava com a sensação de que faria xixi?) e para evitar que eu molhasse tudo caso a bolsa estourasse (e, novamente, para garantir que veríamos a cor do líquido). Foi realmente ótimo, porque relaxei bem. Lembro que nesse momento eu notei que as contrações deram uma espaçada e comentei com a enfermeira, que disse ser algo normal, já que eu havia relaxado. Em uma das primeiras contrações pós-banho, ainda sem absorvente, senti uma água escorrer e falei: "acho que minha bolsa estourou." Ela verificou e viu que o líquido estava claro. Isso, confesso, é um grande mistério no meu TP, porque eu jurava que minha bolsa havia estourado ali, naquele momento, e o absorvente serviria para evitar que o líquido, que fatalmente sairia, molhasse tudo. Mas, mais tarde, minha GO, dentro da sala de parto, disse: "Sua bolsa acabou de estourar!" Então, confesso, não faço ideia de quando a bolsa estourou.
Depois do banho a EO perguntou se poderia fazer novo toque e eu permiti, desde que, novamente, ela não me revelasse a dilatação. Assim foi feito e a EO telefonou para a GO. Ao desligar, veio falar comigo: "você decide se quer ir para a maternidade agora ou se prefere esperar mais um pouco." Eu quis ir. E ri: "passei nove meses falando que não queria parir ao meio-dia, e vou parir o meio-dia." A EO disse que eu não iria parir ao meio-dia e começamos a organizar minha ida. Eu queria chegar rápido ao hospital porque as contrações estavam muito fortes e eu não imaginava entrar num carro, ficar restringida em minha liberdade de locomoção e fadada a manter a mesma posição dentro do carro, com dores ainda mais intensas e, quem sabe, até mesmo menos espaçadas. Falei isso com a EO e ela entrou em contato com a GO, que partiu para a maternidade, onde nos encontraríamos. Nosso plano inicial era ir para uma maternidade aqui no Rio que tem sala de parto humanizado, com banheira e ambiente menos "frio" (embora fique dentro de um centro cirúrgico). Só que existem duas dessas maternidades aqui, uma mais perto da minha casa, mas que só tem uma sala de parto humanizado, e outra mais distante, que conta com mais salas desse tipo. Isso significa que nossa ideia inicial era tentar chegar na maternidade com mais salas de parto humanizado, mas eu estava com muitas dores e 9cm de dilatação (embora eu ainda não soubesse disso) e resolvemos ir para a maternidade mais próxima.
Cheguei em casa e nada mais aconteceu... até que às duas da manhã, já no dia 17, comecei a sentir contrações suaves, porém ritmadas. Estava na internet, insone (como vinha acontecendo com frequência no fim da gravidez), quando senti umas dores parecidas com cólicas menstruais. Procurei me distrair, mas fiquei de olho na frequência, se estavam vindo com algum ritmo. Não me precupei neste momento em marcar os minutos certinho, apenas via se a cada 10 ou 15 minutos eu tinha tido contrações. Por volta das 4 da manhã, as contrações ficaram mais poderosas e eu não conseguia me concentrar em outra coisa quando elas apareciam: se eu estivesse lendo algo, não conseguia entender muito bem o trecho, se estivesse escutando uma música, não prestava atenção na letra. Meu marido dormia, e confesso que a tentação de acordá-lo foi grande, mas pensei que ele precisaria dirigir e, por isso, não poderia estar muito cansado e eu ainda teria muitas horas de trabaho de parto pela frente. Eu sabia que estava começando o trabalho de parto e passei a contar os intervalos das contrações. Então, às 6 da manhã, eu não conseguia mais cronometrar nada, e acordei meu marido para me ajudar a contar a contrações. Ele, sonado, não levou muito a sério meu pedido porque achou que as contrações fossem estar espaçadas ainda. Quando, às 6h30, ele notou que a cada 3 minutos eu contraía, levantou e passou a anotar tudinho. Perguntou, então, se eu queria entrar em contato com a minha equipe, mas eu ainda achava que era cedo demais (ninguém merece ser acordado num domingo, às 6h30 da matina, para um trabalho de parto ainda no comecinho, né?). A cada contração eu agachava na beirada da cama e soltava uns gritinhos. Também ia muito ao banheiro, porque a impressão que eu tinha era de que eu faria xixi durante as contrações e a última coisa que eu queria era limpar chão em pleno trabalho de parto. Fui levando, com ajuda do maridão, até às 8 da manhã, quando contatei a equipe e comecei a mergulhar mais fundo no processo. As contrações ainda vinham de 3 em 3 minutos, mas estavam mais fortes. Lembro que entre uma contração e outra eu não sentia nada, exceto por uma dor bastante forte e incômoda (mais incômoda que a própria contração) no músculo adutor da perna esquerda assim que a contração passava. Na hora, pelo telefone, comentei o fato com a enfermeira que me acompanharia e não me lembro o que ela disse, mas era normal. Hoje, pensando sobre o assunto, faz todo sentido que eu estivesse estirando/dilatando o meu músculo mais resistente e atrofiado.
Também liguei para minha GO para avisar do progresso (eu já havia telefonado no dia anterior e minha enfermeira tinha contatado ela) e, mais tade, depois de Arthur nascer, fiquei sabendo que minha GO ligou para a minha EO e avisou: "ela está em trabalho de parto, sim, porque está gritando. Você já viu a Ártemis gritar por alguma coisa?"
O combinado era minha enfermeira vir me acompanhar em casa, pelo máximo de tempo que eu aguentasse, até que eu quisesse ir para o hospital. Minha GO seguiria diretamente para a maternidade.
Por volta das 9h30 a enfermeira, então, chegou aqui em casa e foi devidamente recepcionada por meus gritos (que agora já não eram baixinhos como antes, mas mais fortes, intensos e poderosos) e por meu boxer. Não lembro a sequência certinha, mas sei que logo que chegou a enfermeira obstétrica pediu para auscultar o bebê e para verificar a dilatação. Aceitei tudo, mas disse que não queria, de jeito nenhum, saber a quantas andava minha dilatação. Primeiro porque eu estava com dores havia bastante tempo, e elas não estavam fraquinhas, não. Assim, se eu descobrisse que estava com 1cm apenas, depois de tanta dor e de tanto tempo, eu ficaria louca. Disse isso para ela, de maneira um pouco mais dramática ("Se eu estiver com 1cm, me jogo da varanda"). Outra razão para não querer saber da dilatação devia-se ao fato de eu ser muito controladora, e fiquei realmente com medo de saber da dilatação e ficar fazendo contas e previsões sobre quando Arthur nasceria. Eu queria e precisava mergulhar cada vez mais fundo no processo, me entregar às contrações, ao parto e deixar tudo acontecer, sem tentar controlar ou prever qualquer coisa. A EO, então, auscultou o bebê (tudo certo! Tudo lindo!) e verificou a dilatação (já estava com 5cm!). Vendo que as contrações estavam intensas, a EO sugeriu que eu entrasse no banho,o que recusei porque nãoqueria ficar de cabelo molhado, o que me incomoda muito (e, confesso, também pensava que eu teria que pentear cabelo, fiquei com preguiça e com medo de ficar descabelada e parecer muito maluca quando chegasse a hora de ir para a maternidade). Marido aproveitou a chegada dela para levar o cachorro para passear e eu fiquei curtindo minhas dores. Lembro de conversar bastante com a enfermeira (que é uma fofa, uma doçura, super divertida e carinhosa) e também de estar bem contente. Marido aproveitou a saída e, a meu pedido, comprou chocolate e água de côco. Eu sabia que precisava me manter hidratada e, como tenho pânico de vômito, não quis comer nada em grande quantidade, para não correr o risco de vomitar (sim, ocitocina é um hormônio que dá náusea e é bem comum vomitar durante o trabalho de parto). Fiquei mordiscando o chocolate e bebericando a água de côco, mas, para falar a verdade, comi e bebi muito pouco: meu medo falou mais alto.
Em algum momeno entre 10 e 11 da manhã a EO sugeriu que eu trocasse as bolsas de água quente (que eu vinha usando desde cerca das 8h) por um banho quente e eu aceitei. Mas não sem antes vestir uma blusa e justificar para a enfermeira: "não quero ficar com os peitos ao léu, balançando." Eu, heim! Lá fui eu, então, seminua, para o banho. De repente surgiu, sei lá de onde, minha bola de pilates (que eu nem sei onde estava guardada), uma toalha e um chuveiro ligado. Entrei no meu boxe minúsculo com bola e toalha (para sentar em cima e para, caso a bolsa estourasse, a gente pudesse ver a cor do líquido amniótico e contorlar se havia mecônio) e fiquei lá, gemendo alto, gritando, relaxando com a água quente. Para quem se lembra, já falei aqui que meu banheiro dá para o vão central do prédio, então todo mundo ouve todo mundo no banheiro, e se não fecharmos a porta do banheiro, nossa privacidade pode ficar um pouco afetada. No começo do TP, me preocupava em fechar a porta do banheiro cada vezque ia fazer xixi, para que meus gritinhos (e depois gritos e gemidos) não assustassem a vizinhança. Nesse momento, dentro do banho, lembro de ter pensado: os vizinhos vão me escutar, mas que se dane. Tá doendo e ninguém tem nada com a minha vida.
Saí do banho porque senti falta de ar. Não sei como é com vocês, mas eu, às vezes, me sinto meio sufocada em um banho quente. E aquele era um banho beeeeem quente. Me sequei e me vesti (já a roupa que eu havia separado para ir para a maternidade) com a ajuda da enfermeira, que também sugeriu que eu colocasse um absorvente pós-parto (que é IMENSO, quase uma fralda!) para relaxar durante as contrações (lembram que eu ficava com a sensação de que faria xixi?) e para evitar que eu molhasse tudo caso a bolsa estourasse (e, novamente, para garantir que veríamos a cor do líquido). Foi realmente ótimo, porque relaxei bem. Lembro que nesse momento eu notei que as contrações deram uma espaçada e comentei com a enfermeira, que disse ser algo normal, já que eu havia relaxado. Em uma das primeiras contrações pós-banho, ainda sem absorvente, senti uma água escorrer e falei: "acho que minha bolsa estourou." Ela verificou e viu que o líquido estava claro. Isso, confesso, é um grande mistério no meu TP, porque eu jurava que minha bolsa havia estourado ali, naquele momento, e o absorvente serviria para evitar que o líquido, que fatalmente sairia, molhasse tudo. Mas, mais tarde, minha GO, dentro da sala de parto, disse: "Sua bolsa acabou de estourar!" Então, confesso, não faço ideia de quando a bolsa estourou.
Depois do banho a EO perguntou se poderia fazer novo toque e eu permiti, desde que, novamente, ela não me revelasse a dilatação. Assim foi feito e a EO telefonou para a GO. Ao desligar, veio falar comigo: "você decide se quer ir para a maternidade agora ou se prefere esperar mais um pouco." Eu quis ir. E ri: "passei nove meses falando que não queria parir ao meio-dia, e vou parir o meio-dia." A EO disse que eu não iria parir ao meio-dia e começamos a organizar minha ida. Eu queria chegar rápido ao hospital porque as contrações estavam muito fortes e eu não imaginava entrar num carro, ficar restringida em minha liberdade de locomoção e fadada a manter a mesma posição dentro do carro, com dores ainda mais intensas e, quem sabe, até mesmo menos espaçadas. Falei isso com a EO e ela entrou em contato com a GO, que partiu para a maternidade, onde nos encontraríamos. Nosso plano inicial era ir para uma maternidade aqui no Rio que tem sala de parto humanizado, com banheira e ambiente menos "frio" (embora fique dentro de um centro cirúrgico). Só que existem duas dessas maternidades aqui, uma mais perto da minha casa, mas que só tem uma sala de parto humanizado, e outra mais distante, que conta com mais salas desse tipo. Isso significa que nossa ideia inicial era tentar chegar na maternidade com mais salas de parto humanizado, mas eu estava com muitas dores e 9cm de dilatação (embora eu ainda não soubesse disso) e resolvemos ir para a maternidade mais próxima.
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segunda-feira, 6 de agosto de 2012
O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - parte 1
Caríssimos leitores, finalmente meu relato de parto (escrito em meio a mamadas, com a mão esquerda e tendo eu os olhos embotados pelas lágrimas - da dor da amamentação, que fique bem claro porque sou uma cronista da vida real e a vida real não é tão cor-de-rosa assim, né?).
Para dar mais dramaticidade, dividi em 4 partes (na verdade, dividi para não cansar a beleza de ninguém. Acontece que sou prolixa pra cacete e mesmo divididinho, o relato é para os fortes). Por favor comentem. Este foi o momento mais importante da minha vida selvagem e estou muito feliz de partilhá-lo com vocês.
Quando minha médica entrou no quarto para me dar alta apenas 24 horas depois de eu parir Arthur, ela falou: "Você sambou na cara da sociedade!"
E foi assim mesmo!
Não sambei na cara da sociedade porque tive um parto normal, mas sim porque ouvi, durante muitos e muitos anos que meu corpo não era capaz. E mesmo assim tive um parto normal.
Na infância, meu corpo era incapaz de crescer, engordar e se estruturar da maneira adequada, e passei boa parte dos primeiros anos em dieta alimentar hipercalórica, tomando suplementos vitamínicos e remédios que me ajudassem a metabolizar alimentos. Isso apenas porque eu era uma criança pequena, estilo mignon.
Pois esta criança mignon se tornou uma adolescente mignon e logo após a primeira menstruação uma jovem portadora de uma patologia denominada "ovários policísticos". Mais uma vez, meu corpo não era capaz de produzir. Ou melhor, meu corpo era falho em se reproduzir, e certamente eu precisaria de remédios indutores de ovulação quando decidisse que era hora de engravidar. Além disso, a adolescente mignon se tornou uma adulta pequena, que com 1,60m de altura e meros 42kg, certamente não teria passagem no quadril estreito para um parto normal saudável.
Assim, desde o começo da minha vida eu me via fadada ao fracasso do meu corpo: incapaz de se nutrir, de se manter, de se reproduzir e de parir.
Meu primeiro passo de samba foi quando eu me dei conta de que, mesmo mignon, fui uma criança extremamente saudável: sem nunca ter tido qualquer intercorrência grave até uma apendicite me levar a um hospital em 2010. Fora isso, uma catapora muito da mixuruca e umas gripinhas.
Meu segundo passo de samba foi ter optado, mesmo com meros 17 anos, por não tomar anticoncepcional para "tratar" meus ovários policísticos. Primeiro porque a pílula não trata (ajuda, em muitos casos, claro, mas não é promessa de cura e redenção), segundo porque eu dependeria de conhecer meu corpo para dar o terceiro e muito importante passo de samba: engravidar naturalmente, mesmo tendo a prescrição de indutores de ovulação. Se consegui engravidar sem indutores foi porque pude conhecer meu corpo e suas sutilezas a partir da observação diária. Com calma e paciência, sabia exatamente o que acontecia com meu corpo e quando havia alguma coisa errada (prova disso foi ir ao hospital com uma crise de apendicite tão incipiente que ajudou no processo de recuperação pós-cirúrgico).
O quarto e último passo foi entender que se eu queria um parto natural como eu havia sonhado e planejado, não poderia nunca me deixar nas mãos de um profissional que não confiasse em mim e no meu corpo: saí da ginecologista que me atendia muito satisfatoriamente havia muitos anos e procurei uma profissional cujas ideias se afinassem com as minhas.
E o resultado desse aprendizado foi o grande espetáculo que protagonizei, modéstia a parte, no dia 17 de junho de 2012.
Para dar mais dramaticidade, dividi em 4 partes (na verdade, dividi para não cansar a beleza de ninguém. Acontece que sou prolixa pra cacete e mesmo divididinho, o relato é para os fortes). Por favor comentem. Este foi o momento mais importante da minha vida selvagem e estou muito feliz de partilhá-lo com vocês.
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Quando minha médica entrou no quarto para me dar alta apenas 24 horas depois de eu parir Arthur, ela falou: "Você sambou na cara da sociedade!"
E foi assim mesmo!
Não sambei na cara da sociedade porque tive um parto normal, mas sim porque ouvi, durante muitos e muitos anos que meu corpo não era capaz. E mesmo assim tive um parto normal.
Na infância, meu corpo era incapaz de crescer, engordar e se estruturar da maneira adequada, e passei boa parte dos primeiros anos em dieta alimentar hipercalórica, tomando suplementos vitamínicos e remédios que me ajudassem a metabolizar alimentos. Isso apenas porque eu era uma criança pequena, estilo mignon.
Pois esta criança mignon se tornou uma adolescente mignon e logo após a primeira menstruação uma jovem portadora de uma patologia denominada "ovários policísticos". Mais uma vez, meu corpo não era capaz de produzir. Ou melhor, meu corpo era falho em se reproduzir, e certamente eu precisaria de remédios indutores de ovulação quando decidisse que era hora de engravidar. Além disso, a adolescente mignon se tornou uma adulta pequena, que com 1,60m de altura e meros 42kg, certamente não teria passagem no quadril estreito para um parto normal saudável.
Assim, desde o começo da minha vida eu me via fadada ao fracasso do meu corpo: incapaz de se nutrir, de se manter, de se reproduzir e de parir.
Meu primeiro passo de samba foi quando eu me dei conta de que, mesmo mignon, fui uma criança extremamente saudável: sem nunca ter tido qualquer intercorrência grave até uma apendicite me levar a um hospital em 2010. Fora isso, uma catapora muito da mixuruca e umas gripinhas.
Meu segundo passo de samba foi ter optado, mesmo com meros 17 anos, por não tomar anticoncepcional para "tratar" meus ovários policísticos. Primeiro porque a pílula não trata (ajuda, em muitos casos, claro, mas não é promessa de cura e redenção), segundo porque eu dependeria de conhecer meu corpo para dar o terceiro e muito importante passo de samba: engravidar naturalmente, mesmo tendo a prescrição de indutores de ovulação. Se consegui engravidar sem indutores foi porque pude conhecer meu corpo e suas sutilezas a partir da observação diária. Com calma e paciência, sabia exatamente o que acontecia com meu corpo e quando havia alguma coisa errada (prova disso foi ir ao hospital com uma crise de apendicite tão incipiente que ajudou no processo de recuperação pós-cirúrgico).
O quarto e último passo foi entender que se eu queria um parto natural como eu havia sonhado e planejado, não poderia nunca me deixar nas mãos de um profissional que não confiasse em mim e no meu corpo: saí da ginecologista que me atendia muito satisfatoriamente havia muitos anos e procurei uma profissional cujas ideias se afinassem com as minhas.
E o resultado desse aprendizado foi o grande espetáculo que protagonizei, modéstia a parte, no dia 17 de junho de 2012.
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sábado, 4 de agosto de 2012
Sonecas, leitinho e rock'n'roll
Eu fui uma adolescente cheia de atitude rock'n'roll, sobretudo no que dizia respeito ao visual. Tive cabelo rosa, azul, roxo, usei tachas, spikes e metais, vestia meus jeans ao avesso, customizava minhas roupas e tinha piercing quando poucas pessoas sabiam o que era isso. E meu grande sonho era ter um piercing nos mamilos, o que nunca fiz por falta de coragem. Daí foi-se a adolescência, os cabelos voltaram à cor natural, as roupas precisaram se adequar ao ambiente profissional, mas eu ainda acalentava o sonho do piercing nos mamilos. Daí eu engravidei. Daí o Arthur nasceu. E agora, meu piercing de mamilo de vez em quando sorri para mim.
sexta-feira, 3 de agosto de 2012
Cenas do próximo capítulo
Só digo que meu relato de parto está quase, quase pronto.
Espero que vocês queiram lê-lo.
=)
Espero que vocês queiram lê-lo.
=)
quinta-feira, 2 de agosto de 2012
Guia de internação
Cena 1
Alta madrugada e o bebê chora. A mãe acalenta, dá leite e o bebê, enfim, dorme. A mãe, exausta depois de uma hora e meia entre mamada e aconchego, acorda o pai e pede:
- Querido, você pode, por favor, colocar o Arthur para arrotar e niná-lo um pouquinho?
O pai dá uma resmungada de quem acabou de acordar, levanta, esfrega os olhos e, carinhosamente, coloca para arrotar e nina... O TRAVESSEIRO!
Cena 2
Começo de noite e o bebê, finalmente, dormiu. Mãe dá boa noite ao pai, sai correndo para trocar de roupa e tentar escovar os dentes. No banheiro, pega a escova de dentes e aplica uma porção generosa de... HIPOGLÓS!
Se um médico ler isso aqui, vai me dar a guia de internação para o hospício.
Alta madrugada e o bebê chora. A mãe acalenta, dá leite e o bebê, enfim, dorme. A mãe, exausta depois de uma hora e meia entre mamada e aconchego, acorda o pai e pede:
- Querido, você pode, por favor, colocar o Arthur para arrotar e niná-lo um pouquinho?
O pai dá uma resmungada de quem acabou de acordar, levanta, esfrega os olhos e, carinhosamente, coloca para arrotar e nina... O TRAVESSEIRO!
Cena 2
Começo de noite e o bebê, finalmente, dormiu. Mãe dá boa noite ao pai, sai correndo para trocar de roupa e tentar escovar os dentes. No banheiro, pega a escova de dentes e aplica uma porção generosa de... HIPOGLÓS!
Se um médico ler isso aqui, vai me dar a guia de internação para o hospício.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
Ainda sobre amamentação, maternidade e amor
Meu filho mama como se fosse uma coisa preciosa. É lindo demais: ele se aconchega no meu colo, procura o seio, abocanha revirando os olhinhos e suspirando fundo, como quem diz "era disso que eu precisava", coloca as mãozinhas sobre meu seio, assegurando-se de que nada lhe escapará, nem o alimento, nem o amor, e mama com vontade. Cada hora, uma vontade: dormir, sonhar, se acalmar, receber o carinho da mãe, passar soluço, aliviar a necessidade de sucção e até se alimentar. No fim, ele sorri, ainda com meu seio na boca, e sejoga para trás, demonstrando a confiança cega que deposita em mim. Justo em mim! Mulher falha, cheia de defeitos, inseguranças e não-sabismos. Por mais que eu leia, me informe e me empenhe em melhorar, sinto que estou ainda muito distante da perfeição que é meu filho. Porém, numa das muitas contradições da maternidade, e sem qualquer modéstia, me acho uma ótima mãe para Arthur. Não pelos sacrifícios que fiz, faço e farei por ele, mas pelo imenso prazer que encontro em ser sua mãe. É bom, muito bom, acordar de madrugada e saber que tenho o poder de aliviar sua angústia, sua fome ou se desconforto. É muito poderoso saber que minha voz o acalma, meu colo o embala e meu seio o sacia. E hoje entendo porque, mesmo com tanto sofrimento (e ainda me dói muito o seio esquerdo), insisti na amamentação, mesmo sem ter um motivo muito claro: percebi que o contato íntimo e visceral promovido pela amamentação é o que tenho de mais parecido com a intimidade da gravidez e com a força do parto que tivemos. É, portanto, através da amamentação que mergulho mais e mais fundo na relação com meu filho. É assim que me nutro da força que preciso (e quero) ter para fazer crescer meu filho, meu amor, minha alegria.
PS: Arthur está com apenas 4kg. Torçam comigo para que não precisemos complementar sua alimentação.
PS: Arthur está com apenas 4kg. Torçam comigo para que não precisemos complementar sua alimentação.
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