Arthur completou dois meses e não sou mais uma puérpera, dizem. E sei que muitas vezes fui sarcástica ou irônica quanto aos acontecimentos deste período, mas isso não significa que eu não tenha tido boas vivências ao longo do processo de conhecimento do meu filho.
Acho importante frisar que, para mim, o mais importante e bacana desses dois meses de Arthur na minha vida foi conhecer essa pessoinha fofa, doce e risonha que saiu da minha barriga.
Durante a gravidez, não tive muito essa coisa que leio por aí de sacar a personalidade do bebê a partir da sua movimentação e dos seus hábitos intra-uterinos. Na verdade, por mais que sentisse meu filho se mexer dentro de mim, muitas e muitas vezes me pegava pensando, pasma: "nossa, tem um bebê dentro de mim! Que coisa mais louca!" E achando muito doido (e lindo) esse troço de gestar, supunha que seria mais prudente não criar muitas expectativas quanto ao ser que nasceria de mim, pois quanto mais a gente pensa e sonha e projeta, mais corre o risco de se frustrar com a realidade. Não porque ela não seja boa, não. Mas porque ela é diferente. E a diferença, na maioria das vezes, assusta no primeiro olhar.
Então que eu ia gestando do meu jeito: cuidando, amando, questionando, observando, mas procurando não rotular ou projetar algo em meu filho.
Dentro da barriga Arthur era um gentleman: nada de movimentos bruscos, chutes fortes ou empurrões vigorosos. Brincava que ele fazia ioga dentro de mim, pois ele parecia estar buscando espaços dentro de mim e dentro dele. Hoje, fora da barriga, sou muito grata a meu filho por ele continuar, de certo modo, a ser o bebê iogue da gestação e abrir, a cada dia, todos os dias, espaços para mim em sua vida.
Perceber que meu filho me permitia conhecê-lo, porém, não foi algo que se deu de imediato. Levou tempo, exigiu paciência de ambas as partes (ou melhor dizendo, de "tribas" as partes, já que marido também participa, né?) e foi preciso muita dedicação.
Claro que não vou ser ingênua de achar que em dois meses esgotei o meu filho, no que diz respeito ao conhecimento de sua personalidade. No entanto, posso afirmar com total segurança que, hoje, dois meses depois de tê-lo parido, entendo melhor algumas de suas demandas e sei que ele também compreende algumas de minhas necessidades.
E que delícia foi e é esse processo de reconhecimento! Fora as noites insones e os momentos de desespero, sobretudo os do período de baby blues, a coisa foi divertida e repleta de afetividade e boas surpresas!
Sou uma mulher privilegiadíssima porque tive um bebê saudável e eu estou saudável. Quantas e quantas mães não têm essa minha felicidade, de levar o bebê para casa logo após o parto e poder curti-lo, grudadinho consigo, o tempo todo (até mesmo nas horas em que se quer fazer xixi ou dormir, é verdade). Também sei que minha licença-maternidade é algo por que devo ser muito grata, pois me dá tempo para que eu possa me dedicar exclusivamente a meu filho. Tenho consciência de que cada dia que passo com ele pendurado em meu peito, em livre demanda, é importantíssimo e será relembrado com saudade quando eu voltar a trabalhar. Eu sou feliz com meu bebê nos braços e sei disso. Não posso deixar de festejar ainda a alegria com que meu filho foi recebido em todos os lugares, e como tem sido mágico ser mãe, ser responsável por nutrir e fazer crescer (em todos os sentidos) uma pessoinha. E que pessoinha! Não é por ser meu filho, não, mas Arthur é uma coisa! Lindo, risonho (riu com 20 dias pela primeira vez e não parou mais! Agora, ri para quase todo mundo, na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê), ficando cheio de dobrinhas gostosas e difíceis de serem secadas depois do banho, doce. Um sonho de menino. Ainda um gentleman, ainda um iogue, ainda meu bebê, com tanto ainda por descobrirmos juntos.
Por isso, apesar do tom de ironia e sarcasmo, preciso deixar registrado, e de maneira bem clara, que foi uma delícia viver intensamente a maternidade do primeiro (louco e exaustivo) e do segundo (mais calmo) meses. Ter Arthur nos braços e poder me dedicar 100% a ele foi e é uma das melhores experiências da minha vida!
segunda-feira, 20 de agosto de 2012
quarta-feira, 15 de agosto de 2012
Passaporte para o hospício
[Este posté um oferecimento do combo antifúngico+antibiótico]
Então que esta semana temos um hóspede em casa. O amigo do marido também tem um filho. Mas do alto de seus 1 ano e 5 meses, o filho do amigo já fala, anda e faz zilhões de gracinhas. Como 99% das pessoas com filhos já "crescidos", quando viu Arthur e seus 2 meses incompletos, ficou naquela nostalgia louca, sabem? Ah, que gracinha, que saudade (oi??) dessa fase, que época maravilhosa (esse deve ter tido um filho que dormia de madrugada ou uma mulher que não o acordava para ajudar) etc. Acontece que sempre que o rapaz via Arthur ele estava, para variar, acoplado ao peito, e não dava para interagir. Até hoje.
Arthur teve uma noite difícil. Quero dizer, eu tive uma noite difícil e Arthur teve uma noite de muitas mamadas. Resultado: fiquei acordada das 3 às 6 da manhã. E, claro, fiquei num mau-humor fenomenal. Marido, coitado, e sugeriu: por que você não tenta amamentar deitada, para descansar?
Aceitei, deitei, acoplei rebento e amamentei!
Daí, marido veio me avisar que ia sair. Nesse exato momento Arthur espirrou e eu olhei para baixo, para onde deveria estar um bebê e nada vi! Marido riu e explicou: você dormiu e eu deixei o filhote com meu amigo, pois precisava tomar banho e ele estava doido para pegar Arthur no colo.
Meu povo, vou repetir porque vale a gagazice: eu dormi! E não foram 5 minutinhos, não. Dormi quase uma hora inteira! Sabem quando eu pensei que fosse conseguir isso? Nunquinha. Mas eu consegui: amamentei deitadona e dormi durante a mamada. Que beleza!
E o passaporte para o hospício é procurar bebê nas peitolas mesmo escutando um espirro vindo da sala.
Então que esta semana temos um hóspede em casa. O amigo do marido também tem um filho. Mas do alto de seus 1 ano e 5 meses, o filho do amigo já fala, anda e faz zilhões de gracinhas. Como 99% das pessoas com filhos já "crescidos", quando viu Arthur e seus 2 meses incompletos, ficou naquela nostalgia louca, sabem? Ah, que gracinha, que saudade (oi??) dessa fase, que época maravilhosa (esse deve ter tido um filho que dormia de madrugada ou uma mulher que não o acordava para ajudar) etc. Acontece que sempre que o rapaz via Arthur ele estava, para variar, acoplado ao peito, e não dava para interagir. Até hoje.
Arthur teve uma noite difícil. Quero dizer, eu tive uma noite difícil e Arthur teve uma noite de muitas mamadas. Resultado: fiquei acordada das 3 às 6 da manhã. E, claro, fiquei num mau-humor fenomenal. Marido, coitado, e sugeriu: por que você não tenta amamentar deitada, para descansar?
Aceitei, deitei, acoplei rebento e amamentei!
Daí, marido veio me avisar que ia sair. Nesse exato momento Arthur espirrou e eu olhei para baixo, para onde deveria estar um bebê e nada vi! Marido riu e explicou: você dormiu e eu deixei o filhote com meu amigo, pois precisava tomar banho e ele estava doido para pegar Arthur no colo.
Meu povo, vou repetir porque vale a gagazice: eu dormi! E não foram 5 minutinhos, não. Dormi quase uma hora inteira! Sabem quando eu pensei que fosse conseguir isso? Nunquinha. Mas eu consegui: amamentei deitadona e dormi durante a mamada. Que beleza!
E o passaporte para o hospício é procurar bebê nas peitolas mesmo escutando um espirro vindo da sala.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Parem as máquinas e suspendam a água!
PAREM AS MÁQUINAS!
É preciso publicar em todos os jornais a notícia mais importante do semestre! Nada de Mensalão, cavaleiros que sugerem cavalos em lugar de cachorros, disputas acirradas pelas eleições que se aproximam. Não, nada disso. O fato mais importante do segundo semestre é: pela primeira vez em minha vida e na vida do Arthur, amamentei um dia inteiro sem sentir uma dorzinha sequer! Mesmo no mamilo mutilado e com Arthur terminando a mamada com um pedacinho do meu seio na boca (achei que fosse uma afta e meti o mãozão: era um pedaço da minha pele). Notem bem: SEM DOR!
Foi ontem. Sem dor, sem traumas, até queria que Arthur pedisse peito. E ele não se fez de rogado: mamou loucamente, dormia de 2 a 3 horas na sequência (e passou a madrugada acordadão, damn it!) e, então, queria mais peitinho. Ô beleza! Até acho que tem mais bochechinha naquele rostinho lindo (mas só saberemos da verdade verdadeira na outra semana, depois da pesagem no pediatra, e não vou criar expectativas novamente).
Além disso, dessa novidade incrível, tenho outra. Aliás, outras. E preciso que suspendam a distribuição de água aqui no Rio, porque ao meu redor tenho QUATRO grávidas. Isso mesmo: quatro grávidas pertinho de mim. A primeira já está na reta final e também será mãe de um menininho. A segunda está com 12 semanas e acabou de descobrir que também será mãe de um rapaz. A terceira está com 9 semanas e ainda não sabe o sexo, e a última acabou de tomar aquele susto do beta. Sabem qual? Aquele em que você abre o exame e lê no resultado uma vírgula no lugar do ponto e acha que 3 mil é 3 vírgula qualquer coisa, e que "deu negativo, droga, bora seguir com a vida... mas peraí, isso é um ponto e estou MUITO grávida". O mais legal é que todas as 4 grávidas querem um parto normal (e duas delas querem um parto normal natural).
Se por um lado eu fico feliz, por outro fico preocupada, pois por mais que esteja amamentando exclusivamente e tenha, então, meus níveis de prolactina na estratosfera, não pretendo engravidar novamente antes de o Arthur completar um aninho. Por isso que passei a beber só água mineral e a evitar banhos prolongados. Vocês já sabem do poder que a água tem quando o assunto é gravidez, né? Eu, então, por via das dúvidas, tô suspendendo toda água que considero suspeita.
É preciso publicar em todos os jornais a notícia mais importante do semestre! Nada de Mensalão, cavaleiros que sugerem cavalos em lugar de cachorros, disputas acirradas pelas eleições que se aproximam. Não, nada disso. O fato mais importante do segundo semestre é: pela primeira vez em minha vida e na vida do Arthur, amamentei um dia inteiro sem sentir uma dorzinha sequer! Mesmo no mamilo mutilado e com Arthur terminando a mamada com um pedacinho do meu seio na boca (achei que fosse uma afta e meti o mãozão: era um pedaço da minha pele). Notem bem: SEM DOR!
Foi ontem. Sem dor, sem traumas, até queria que Arthur pedisse peito. E ele não se fez de rogado: mamou loucamente, dormia de 2 a 3 horas na sequência (e passou a madrugada acordadão, damn it!) e, então, queria mais peitinho. Ô beleza! Até acho que tem mais bochechinha naquele rostinho lindo (mas só saberemos da verdade verdadeira na outra semana, depois da pesagem no pediatra, e não vou criar expectativas novamente).
Além disso, dessa novidade incrível, tenho outra. Aliás, outras. E preciso que suspendam a distribuição de água aqui no Rio, porque ao meu redor tenho QUATRO grávidas. Isso mesmo: quatro grávidas pertinho de mim. A primeira já está na reta final e também será mãe de um menininho. A segunda está com 12 semanas e acabou de descobrir que também será mãe de um rapaz. A terceira está com 9 semanas e ainda não sabe o sexo, e a última acabou de tomar aquele susto do beta. Sabem qual? Aquele em que você abre o exame e lê no resultado uma vírgula no lugar do ponto e acha que 3 mil é 3 vírgula qualquer coisa, e que "deu negativo, droga, bora seguir com a vida... mas peraí, isso é um ponto e estou MUITO grávida". O mais legal é que todas as 4 grávidas querem um parto normal (e duas delas querem um parto normal natural).
Se por um lado eu fico feliz, por outro fico preocupada, pois por mais que esteja amamentando exclusivamente e tenha, então, meus níveis de prolactina na estratosfera, não pretendo engravidar novamente antes de o Arthur completar um aninho. Por isso que passei a beber só água mineral e a evitar banhos prolongados. Vocês já sabem do poder que a água tem quando o assunto é gravidez, né? Eu, então, por via das dúvidas, tô suspendendo toda água que considero suspeita.
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domingo, 12 de agosto de 2012
Dia dos pais
Hoje comemoramos nosso primeiro dia dos pais. Comemoramos, no plural. Marido porque é o pai (dããã), eu porque tenho o companheiro mais amigo e parceiro desta vida, sem o qual minha vida seria infinitamente mais sem graça e sem paixão (são demais os perigos dessa vida, querido), e Arthur porque tirou a sorte grande com esse pai: carinhoso, amoroso, dedicado, íntegro, trabalhador, lindo, inteligente e mais, muito mais.
Parabéns, meu amor! Você merece meu muito obrigada por tudo e as sete horas ininterruptas que seu filho lhe deu de presente!
Parabéns, meu amor! Você merece meu muito obrigada por tudo e as sete horas ininterruptas que seu filho lhe deu de presente!
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Até que o último homem tombe sobre o solo
Este texto contém palavrões.
Eu tenho um pequeno e bravo guerreiro em casa. Todas as manhãs e todas as tardes ele luta com ferocidade, geralmente sucumbindo somente diante do peitinho franco-atirador, que sua mãe saca quando mais nada parece conseguir fazê-lo parar, ou do som do útero materno, que seu pai aciona quando sua fúria parece sem fim.
As batalhas são muitas: Soneca Para Mãe Dormir Mais Cinco Minutinhos, Soninho Para os Pais Almoçarem, Cochilo Para Frear Mal-humor Vespertino (também conhecida como a Batalha do Boi da Cara-Preta) e, a mais ferrenha, Dorme Para Mamãe Tomar Banho.
Todo dia é a mesma coisa: acordamos, ele de bom-humor, eu caindo pelas tabelas depois de loooongas e doloridas mamadas no meio da madrugada, daí marido fica com ele para que eu possa dormir mais um pouquinho (geralmente entre 20 minutinhos e 1 santa horinha), e então começamos a luta, filhos da pátria! Arthur pede peitinho, eu dou. Ele dorme e solta o peitinho. E chora. Eu reacoplo o menino nas peitolas. Ele chupeita e dorme, relaxa a boquinha e solta o mamilo. Alívio para as doloridas mamas da mãe, mas terror para os ouvidos de todos na casa (e, eventualmente, vizinhança). Pai se apieda dos urros de dor da mãe, que tenta recolocá-lo no seio, e aciona o som secador de cabelo. Arthur chora. Berra. Urra. Se descabela, mesmo sendo meio careca. Mamãe saca o peito para fora da blusa, mas papai inicia o método radical de ninada: pulinhos, mão na testa, som do útero e Boi da Cara-preta cantado ad infinitum. É hora do almoço, mas mamãe nem fez o xixi da manhã ainda. Bebê dorme. Papai pergunta: no berço, na cama, no carrinho, no bebê-conforto ou no balancinho? Mamãe responde: em qualquer lugar, já que ele vai acordar assim que sair do colo ou parar de chacoalhar. O video do Youtube termina, sem que papai ou mamãe percebam. Mas bebê nota. Abre os olhinhos. Pisca. E urra. Berra. E se acopla novamente ao peito rachado e mastitizado. Papai vai comer, porque o exército não pode ter tal baixa. Esquenta a comida e engole qualquer coisa meio requentada. Aproveita e faz um arroz com ovo para a mãe. Toma o bebê dos braços da mãe, que dá uma garfada, duas e... quase! Bebê acorda e a internet caiu, não há som milagroso, somente o colinho (e peitinho) da mamãe. Todos choram, menos papai, que precisa trabalhar e se tranca no home office. Mamãe derruba arroz com ovo no bebê. Uma súbita vontade de arrotar agita o bebê, que puuuuuuxa o mamilo esquerdo, perde a pega e abocanha aquela mutilação. Cai a casquinha. Sangue. Leite. Lágrimas. Home office foi para a puta que o pariu e papai lança mão do Boi da Cara-preta, mas Tutu Marambaia mora no nosso telhado. E ali mantém seu home office. Como Tutu mora no telhado, Arthur não dorme. Mamãe consegue fazer xixi. Mas ainda tem arroz com ovo. Bebê de novo no peito. Dorme. Papai no home office. Mamãe, no sofá, tenta alcançar o antibiótico, que mais parece uma cápsula espacial, sem fazer o bebê perder a pega ou acordá-lo. São cinco da tarde. Um mau-humor generalizado toma conta da casa. Reload de todas as técnicas e estratégias já aqui listadas. Bebê dorme, mas acorda 20 minutos depois graças ao Reflexo de Moro. TománocuMoro! Bora dar uma volta? De carro ou de sling? De sling. Arthur, meu filho, calma, com as pernas esticadas assim, fica difícil te colocar no sling. Segura a perninha, amor. A cabeça tá meio torta. O quê? A cabeça. Meio torta (e entorta a cabeça). O quê? Porra, vou colocar ele na cadeirinha. Você viu chave do carro? O quê? Aaaaaarrrghhhhhh! Shhh, meu filhinho, a gente vai dar uma voltinha para você dormir um pouquinho. Cinto afivelado. Garagem se abre. Que dia é hoje? Terça. Sábado. Sei lá: é o Dia da Marmota. Caralho! Sexta-feira, seis da tarde. Dá dedinho para o Arthur. Já dei. Ele não quer. O quê? O quê? Dedinho, meu filho, não posso te amamentar no carro. O quê? [Este engarrafamento é um oferecimento de Eduardo Paes] Pega a próxima à esquerda, tá mais livre. Ok, ele dormiu? Não, mas tá quase. Que horas são? Sete e meia, falta pouco para o banho, graças a deus! Ele dormiu? Não, mas tá rindo para o móbile. Pelo menos não está chorando. É. Bora voltar. Oito horas. Tira roupa, tira fralda, limpa bumbum, enrola na fralda, liga música, apaga luzes da casa (sempre rola uma topada ou uma canelada em algum canto) e mergulha o menino na água morna. Bocejo. Pais também bocejam. Sai do banho, roupa e fralda limpas, enrola no dudu, dá mais peito mutilado e não mutilado, coloca para arrotar e, enfim, ele dorme.
Lutou até que o último homem tombasse sobre o solo. Neste caso, o último homem é uma mulher.
Eu tenho um pequeno e bravo guerreiro em casa. Todas as manhãs e todas as tardes ele luta com ferocidade, geralmente sucumbindo somente diante do peitinho franco-atirador, que sua mãe saca quando mais nada parece conseguir fazê-lo parar, ou do som do útero materno, que seu pai aciona quando sua fúria parece sem fim.
As batalhas são muitas: Soneca Para Mãe Dormir Mais Cinco Minutinhos, Soninho Para os Pais Almoçarem, Cochilo Para Frear Mal-humor Vespertino (também conhecida como a Batalha do Boi da Cara-Preta) e, a mais ferrenha, Dorme Para Mamãe Tomar Banho.
Todo dia é a mesma coisa: acordamos, ele de bom-humor, eu caindo pelas tabelas depois de loooongas e doloridas mamadas no meio da madrugada, daí marido fica com ele para que eu possa dormir mais um pouquinho (geralmente entre 20 minutinhos e 1 santa horinha), e então começamos a luta, filhos da pátria! Arthur pede peitinho, eu dou. Ele dorme e solta o peitinho. E chora. Eu reacoplo o menino nas peitolas. Ele chupeita e dorme, relaxa a boquinha e solta o mamilo. Alívio para as doloridas mamas da mãe, mas terror para os ouvidos de todos na casa (e, eventualmente, vizinhança). Pai se apieda dos urros de dor da mãe, que tenta recolocá-lo no seio, e aciona o som secador de cabelo. Arthur chora. Berra. Urra. Se descabela, mesmo sendo meio careca. Mamãe saca o peito para fora da blusa, mas papai inicia o método radical de ninada: pulinhos, mão na testa, som do útero e Boi da Cara-preta cantado ad infinitum. É hora do almoço, mas mamãe nem fez o xixi da manhã ainda. Bebê dorme. Papai pergunta: no berço, na cama, no carrinho, no bebê-conforto ou no balancinho? Mamãe responde: em qualquer lugar, já que ele vai acordar assim que sair do colo ou parar de chacoalhar. O video do Youtube termina, sem que papai ou mamãe percebam. Mas bebê nota. Abre os olhinhos. Pisca. E urra. Berra. E se acopla novamente ao peito rachado e mastitizado. Papai vai comer, porque o exército não pode ter tal baixa. Esquenta a comida e engole qualquer coisa meio requentada. Aproveita e faz um arroz com ovo para a mãe. Toma o bebê dos braços da mãe, que dá uma garfada, duas e... quase! Bebê acorda e a internet caiu, não há som milagroso, somente o colinho (e peitinho) da mamãe. Todos choram, menos papai, que precisa trabalhar e se tranca no home office. Mamãe derruba arroz com ovo no bebê. Uma súbita vontade de arrotar agita o bebê, que puuuuuuxa o mamilo esquerdo, perde a pega e abocanha aquela mutilação. Cai a casquinha. Sangue. Leite. Lágrimas. Home office foi para a puta que o pariu e papai lança mão do Boi da Cara-preta, mas Tutu Marambaia mora no nosso telhado. E ali mantém seu home office. Como Tutu mora no telhado, Arthur não dorme. Mamãe consegue fazer xixi. Mas ainda tem arroz com ovo. Bebê de novo no peito. Dorme. Papai no home office. Mamãe, no sofá, tenta alcançar o antibiótico, que mais parece uma cápsula espacial, sem fazer o bebê perder a pega ou acordá-lo. São cinco da tarde. Um mau-humor generalizado toma conta da casa. Reload de todas as técnicas e estratégias já aqui listadas. Bebê dorme, mas acorda 20 minutos depois graças ao Reflexo de Moro. TománocuMoro! Bora dar uma volta? De carro ou de sling? De sling. Arthur, meu filho, calma, com as pernas esticadas assim, fica difícil te colocar no sling. Segura a perninha, amor. A cabeça tá meio torta. O quê? A cabeça. Meio torta (e entorta a cabeça). O quê? Porra, vou colocar ele na cadeirinha. Você viu chave do carro? O quê? Aaaaaarrrghhhhhh! Shhh, meu filhinho, a gente vai dar uma voltinha para você dormir um pouquinho. Cinto afivelado. Garagem se abre. Que dia é hoje? Terça. Sábado. Sei lá: é o Dia da Marmota. Caralho! Sexta-feira, seis da tarde. Dá dedinho para o Arthur. Já dei. Ele não quer. O quê? O quê? Dedinho, meu filho, não posso te amamentar no carro. O quê? [Este engarrafamento é um oferecimento de Eduardo Paes] Pega a próxima à esquerda, tá mais livre. Ok, ele dormiu? Não, mas tá quase. Que horas são? Sete e meia, falta pouco para o banho, graças a deus! Ele dormiu? Não, mas tá rindo para o móbile. Pelo menos não está chorando. É. Bora voltar. Oito horas. Tira roupa, tira fralda, limpa bumbum, enrola na fralda, liga música, apaga luzes da casa (sempre rola uma topada ou uma canelada em algum canto) e mergulha o menino na água morna. Bocejo. Pais também bocejam. Sai do banho, roupa e fralda limpas, enrola no dudu, dá mais peito mutilado e não mutilado, coloca para arrotar e, enfim, ele dorme.
Lutou até que o último homem tombasse sobre o solo. Neste caso, o último homem é uma mulher.
Cândida, ou o pessimismo
Voltaire deve ter dado um duplo twist carpado no túmulo com essa minha apropriação infame do título de seu livro. Mas é um trocadilho (eu já disse que amo trocadilhos?) tão pertinente (embora, ainda assim, nada bom) para a ocasião, que não pude me furtar de fazê-lo.
Explico: no meio das publicações sobre o parto, comecei a sentir uns calafrios e uma moleza no corpo. A princípio achei que fosse a emoção de partilhar aquele momento lindo (e dolorido) com vocês, que meu corpo estivesse tendo um flashback das dores e mal-estares, mas era febre mesmo. Febrão, aliás: 38,5. Achei estranho e resolvi observar, porque meus seios estavam beeem doloridos já desde o dia anterior e a peitola direita, que estava sendo um paraíso da amamentação, voltou a doer bastante quando Arthur mamava.
Não quis esperar muito e dei um pulinho no Instituto Fernandes Figueira (IFF). Resultado: mastite para mim e monilíase para mim e Arthur (também conhecida como sapinho, causada pela velha conhecida das mulheres, a Sra. Candida albicans). Entramos no antifúngico e tudo parecia melhorar até que ontem acordei novamente nas trevas: dores, dores, muitas dores. Liguei para minha médica de confiança e, após exame, entrei foi no antibiótico também. Fui proibida de usar conchas (embora os sintomas da monilíase já estivessem presentes beeeem antes de eu começar a usá-las), pomadas e sutiãs com aro. Com isso, meu seio esquerdo novamente se tornou um martírio tenebroso. Essa madrugada foi fogo! Amamentei apenas 20 minutinhos antes de sucumbir e pedir que marido botasse o filhote pelamordedeus para arrotar e ninar. Muita dor mesmo!
Confesso, pensei: "que amamentação mais cheia das urucubacas, senhor! Primeiro bicos rachados e sangrando, depois monilíase, culminando com uma mastite." Tudo para desistir, né?
Mas nãããããooooo! Bora tratar essa bodega porque acho que já cheguei no fundo do poço da amamentação dolorida e cheia de urucubacas e, embora saiba que sempre dá para cavar mais um pouquinho no poço das mazelas dessa vida, acredito que não haja mais nada que possa acontecer com meus seios (já que a pega está coreta, né?). Quero muito acreditar, apesar de estar sendo bem difícil, que a tendência é só melhorar, porque sem fungos, infecções e pega incorreta, amamentar pode ser que se torne um prazer, enfim, para mim. Ou não.
Explico: no meio das publicações sobre o parto, comecei a sentir uns calafrios e uma moleza no corpo. A princípio achei que fosse a emoção de partilhar aquele momento lindo (e dolorido) com vocês, que meu corpo estivesse tendo um flashback das dores e mal-estares, mas era febre mesmo. Febrão, aliás: 38,5. Achei estranho e resolvi observar, porque meus seios estavam beeem doloridos já desde o dia anterior e a peitola direita, que estava sendo um paraíso da amamentação, voltou a doer bastante quando Arthur mamava.
Não quis esperar muito e dei um pulinho no Instituto Fernandes Figueira (IFF). Resultado: mastite para mim e monilíase para mim e Arthur (também conhecida como sapinho, causada pela velha conhecida das mulheres, a Sra. Candida albicans). Entramos no antifúngico e tudo parecia melhorar até que ontem acordei novamente nas trevas: dores, dores, muitas dores. Liguei para minha médica de confiança e, após exame, entrei foi no antibiótico também. Fui proibida de usar conchas (embora os sintomas da monilíase já estivessem presentes beeeem antes de eu começar a usá-las), pomadas e sutiãs com aro. Com isso, meu seio esquerdo novamente se tornou um martírio tenebroso. Essa madrugada foi fogo! Amamentei apenas 20 minutinhos antes de sucumbir e pedir que marido botasse o filhote pelamordedeus para arrotar e ninar. Muita dor mesmo!
Confesso, pensei: "que amamentação mais cheia das urucubacas, senhor! Primeiro bicos rachados e sangrando, depois monilíase, culminando com uma mastite." Tudo para desistir, né?
Mas nãããããooooo! Bora tratar essa bodega porque acho que já cheguei no fundo do poço da amamentação dolorida e cheia de urucubacas e, embora saiba que sempre dá para cavar mais um pouquinho no poço das mazelas dessa vida, acredito que não haja mais nada que possa acontecer com meus seios (já que a pega está coreta, né?). Quero muito acreditar, apesar de estar sendo bem difícil, que a tendência é só melhorar, porque sem fungos, infecções e pega incorreta, amamentar pode ser que se torne um prazer, enfim, para mim. Ou não.
quinta-feira, 9 de agosto de 2012
O parto (ou O dia em que sambei na cara da sociedade) - considerações finais
Parir é um ato íntimo e solitário, mas quando um nascimento derruba
pré-conceitos e lança a fagulha para que outras mulheres conquistem
partos dignos, respeitosos e seguros, trata-se de um ato social. E se
estou aqui, relatando o momento mais lindo e íntimo da minha vida, é
porque acredito no feminino e tenho a imensa pretensão de plantar a sementinha da
dúvida ou da vontade de parir em pelo menos uma mulher que leia meu
blog.
Depois de contar a melhor história da minha vida, preciso deixar BEM claro que este é um post político e que eu acredito no parto normal. Acho que é a melhor maneira de nascer e estou mais do que convencida de que o parto normal é para a grande maioria das mulheres, embora estejamos sendo convencidas do contrário. No que eu não acredito é que o tipo de parto determine que uma mulher é melhor ou pior mãe que outra. Obviamente eu sou uma mulher muito realizada por ter planejado e conquistado o parto que considero o melhor para mim e meu bebê, e acho que minha conquista de um parto natural respeitoso, digno e seguro é uma vitória feminina, pois prova que o corpo humano é perfeito para gerar e parir, a despeito das inúmeras (e cada vez mais estaparfúdias) desculpas que médicos e pacientes encontram para cesárias desnecessárias. (Mais sobre as desculpas neste maravilhoso artigo!)
Não me crucifiquem antes de ler este parágrafo até o fim, ok? Considero dever da mulher se informar sobre o que vai acontecer durante gravidez, parto e puerpério, e acho que faz parte da boa e saudável preparação feminina para a maternidade buscar esse tipo de informação. Então, conseguir um parto normal seguro e bacana é responsabilidade, sim, da mulher. No entanto, reconheço que nem todo mundo tem interesse ou facilidade em acessar informações sobre o que acontece durante a gravidez e o parto. Também sei que não é fácil bancar determinadas decisões e escolhas porque há pressão familiar, social e, claro, maternal, porque nasce uma mãe, nasce uma culpada, e por mais que a escolha acalente seu coração, muitas vezes gera uma culpa danada por peitar pessoas em que se confia (familiares, médicos, amigos etc.). Acho, por isso, um absurdo inenarrável que profissionais de saúde se valham de seu lugar privilegiado de "especialistas" para convencer, induzir ou até mesmo enganar uma gestante saudável a respeito da necessidade de uma cirurgia de médio porte em lugar de uma via de nascimento natural e mais segura. Acho inadmissível que médicos e enfermeiros enganem ou induzam seus pacientes a acreditar na necessidade de uma cesária. Se é responsabilidade da mulher se informar sobre gravidez e parto, é obrigação dos profissionais de saúde que a atendem e assistem informar a essa gestante sobre suas condições, opções, riscos e alternativas. A escolha é SEMPRE da mulher. O corpo é dela, o filho é dela e a decisão não pode ser pautada jamais em conveniências do profissional que a atende.
Deveria ser realidade, no Brasil e no mundo, que as mulheres tivessem acesso a informação, para que suas escolhas fossem seguras e pautadas em evidências. Ainda não é assim que funciona, e minha briga política é por que cada vez mais mulheres possam se apossar de seus corpos e decisões, contando com os profissionais de saúde relacionados ao nascimento para auxiliá-la em suas escolhas e decisões, o que torna o parto mais seguro, tanto do ponto de vista emocional quanto do ponto de vista prático. Bons profissionais nunca sonegam ou manipulam informações, eles a partilham e estimulam o conhecimento e o crescimento pessoal. Isso em qualquer área, inclusive na médica.
Esta é minha opinião e espero que ninguém se sinta julgada ou menosprezada por ter sido submetida a uma cesária, desnecessária ou não. Os motivos, as vivências e as escolhas são pessoais e intransferíveis. Minha briga é para que mais mulheres escolham um parto normal e de fato conquistem um parto normal, e que não vivam com a frustração de terem sido induzidas a fazer algo que não queriam (ou que temiam) por mera conveniência alheia (seja em relação a uma agenda pré-organizada e que não pode ser mudada, seja por não querer repensar conceitos e crenças já estabelecidos e comodamente reproduzidos).
Dito isto, fico muito feliz em contar que sou uma mulher realizada porque tive o parto perfeito para mim. Sonhado, planejado e executado com muito amor e entrega, como acontece com todas as coisas boas da vida.
Depois de contar a melhor história da minha vida, preciso deixar BEM claro que este é um post político e que eu acredito no parto normal. Acho que é a melhor maneira de nascer e estou mais do que convencida de que o parto normal é para a grande maioria das mulheres, embora estejamos sendo convencidas do contrário. No que eu não acredito é que o tipo de parto determine que uma mulher é melhor ou pior mãe que outra. Obviamente eu sou uma mulher muito realizada por ter planejado e conquistado o parto que considero o melhor para mim e meu bebê, e acho que minha conquista de um parto natural respeitoso, digno e seguro é uma vitória feminina, pois prova que o corpo humano é perfeito para gerar e parir, a despeito das inúmeras (e cada vez mais estaparfúdias) desculpas que médicos e pacientes encontram para cesárias desnecessárias. (Mais sobre as desculpas neste maravilhoso artigo!)
Não me crucifiquem antes de ler este parágrafo até o fim, ok? Considero dever da mulher se informar sobre o que vai acontecer durante gravidez, parto e puerpério, e acho que faz parte da boa e saudável preparação feminina para a maternidade buscar esse tipo de informação. Então, conseguir um parto normal seguro e bacana é responsabilidade, sim, da mulher. No entanto, reconheço que nem todo mundo tem interesse ou facilidade em acessar informações sobre o que acontece durante a gravidez e o parto. Também sei que não é fácil bancar determinadas decisões e escolhas porque há pressão familiar, social e, claro, maternal, porque nasce uma mãe, nasce uma culpada, e por mais que a escolha acalente seu coração, muitas vezes gera uma culpa danada por peitar pessoas em que se confia (familiares, médicos, amigos etc.). Acho, por isso, um absurdo inenarrável que profissionais de saúde se valham de seu lugar privilegiado de "especialistas" para convencer, induzir ou até mesmo enganar uma gestante saudável a respeito da necessidade de uma cirurgia de médio porte em lugar de uma via de nascimento natural e mais segura. Acho inadmissível que médicos e enfermeiros enganem ou induzam seus pacientes a acreditar na necessidade de uma cesária. Se é responsabilidade da mulher se informar sobre gravidez e parto, é obrigação dos profissionais de saúde que a atendem e assistem informar a essa gestante sobre suas condições, opções, riscos e alternativas. A escolha é SEMPRE da mulher. O corpo é dela, o filho é dela e a decisão não pode ser pautada jamais em conveniências do profissional que a atende.
Deveria ser realidade, no Brasil e no mundo, que as mulheres tivessem acesso a informação, para que suas escolhas fossem seguras e pautadas em evidências. Ainda não é assim que funciona, e minha briga política é por que cada vez mais mulheres possam se apossar de seus corpos e decisões, contando com os profissionais de saúde relacionados ao nascimento para auxiliá-la em suas escolhas e decisões, o que torna o parto mais seguro, tanto do ponto de vista emocional quanto do ponto de vista prático. Bons profissionais nunca sonegam ou manipulam informações, eles a partilham e estimulam o conhecimento e o crescimento pessoal. Isso em qualquer área, inclusive na médica.
Esta é minha opinião e espero que ninguém se sinta julgada ou menosprezada por ter sido submetida a uma cesária, desnecessária ou não. Os motivos, as vivências e as escolhas são pessoais e intransferíveis. Minha briga é para que mais mulheres escolham um parto normal e de fato conquistem um parto normal, e que não vivam com a frustração de terem sido induzidas a fazer algo que não queriam (ou que temiam) por mera conveniência alheia (seja em relação a uma agenda pré-organizada e que não pode ser mudada, seja por não querer repensar conceitos e crenças já estabelecidos e comodamente reproduzidos).
Dito isto, fico muito feliz em contar que sou uma mulher realizada porque tive o parto perfeito para mim. Sonhado, planejado e executado com muito amor e entrega, como acontece com todas as coisas boas da vida.
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