Tô felizona que a Dona Júlia fez nascer o Biel, num parto lindo, no tempo deles. E estou doida para saber os detalhes!
Parabéns, querida!
Muita paz, saúde e iluminação nessa nova família que vocês fizeram crescer!
(E espero que ela não fique chateada porque eu contei aqui.)
segunda-feira, 18 de março de 2013
quinta-feira, 14 de março de 2013
O natural do Rio é o batidão
A playboyzada e os mano do morrão estão todos com pena de mim! CERTEZA!
Ai de mim, que estou enlouquecida ao cubo com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo agora tudo de uma vez sem parar. Tá rodis, minha gente! Outro dia pensei: quando escovei os dentes pela última vez? E corri para o banheiro que era para ver se eu ainda me lembrava de como fazia.
É que eu acordo na madrugada boladona (vai, seis da matina, para mim - e outras pessoas normais -, ainda é madrugada) porque Arthur é adepto do horário de verão. E daí que tá chegando o outono? Ele curte mesmo essa coisa de abrir os olhos, bater aqueles cílios enoooormes que ele tem, abrir um sorrisão e se sentar feliz da vida: às seis da matina!
Bom, aí eu acordo, né? Quem resiste ao sorriso do bebê-delícia (que está de volta, meu povo! Grata pela reza forte de vocês)? E também é preciso trocar fralda, tocar vida e ir passar o café do marido, um gesto de amor, de carinho... de puro interesse (daí ele acorda e me ajuda com o bacuri).
Acordados os três, marido vai tocar a vida dele e eu fico com o pequeno, brincando na sala, ouvindo música, e nos intervalos dos afazeres do marido vou tomando café da manhã, arrumando mochila para a creche, pensando na roupa que vou botar, preparando a bolsa da bombinha, essas coisas.
Então, às oito horas estamos os três prontos. Arthur para creche, eu para o trabalho e marido para os afazeres dele.
Trabalho até criar calo nos olhos, daí saio para almoçar (com o frila debaixo do braço, porque, claro, não dava para ser fácil), volto e trabalho até não conseguir nem pronunciar meu nome. Chacoalho dentro de um ônibus sem ar-condicionado (alôôôuuu, onde estarão os ônibus - um caso de pluralia tanta tão bacana - fresquinhos? Migram no verão e só dão as caras no inverno? Acho que sim...), cheia de tralha e bolsa a tiracolo, corro para a creche ou para casa (depende do dia). Espeto o menino no peito tão logo adentro meu lar e assim ele dorme, me dando a chance de comer, frilar mais um bocado e desmaiar.
Viu? Será que eu escovei os dentes? Notou que banho não é rotina? Também não tem TV, internet e livro neste relato.
E aí eu pergunto: que horas entro no meu blog? Quem é o novo papa? Que história é essa de Comissão de Direitos Humanos? Sei de trechos de cada notícia bombástica do dia, e nem para perguntar às pessoas ao meu redor sobra tempo.
Com esse longo lamento, venho aqui dizer duas coisas: 1) vou voltar a postar, com parcimônia, mas voltarei; 2) é nóis com muita disciplina/ dábliu, dábliu, dábliu ponto-com brasília.
Ai de mim, que estou enlouquecida ao cubo com tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo agora tudo de uma vez sem parar. Tá rodis, minha gente! Outro dia pensei: quando escovei os dentes pela última vez? E corri para o banheiro que era para ver se eu ainda me lembrava de como fazia.
É que eu acordo na madrugada boladona (vai, seis da matina, para mim - e outras pessoas normais -, ainda é madrugada) porque Arthur é adepto do horário de verão. E daí que tá chegando o outono? Ele curte mesmo essa coisa de abrir os olhos, bater aqueles cílios enoooormes que ele tem, abrir um sorrisão e se sentar feliz da vida: às seis da matina!
Bom, aí eu acordo, né? Quem resiste ao sorriso do bebê-delícia (que está de volta, meu povo! Grata pela reza forte de vocês)? E também é preciso trocar fralda, tocar vida e ir passar o café do marido, um gesto de amor, de carinho... de puro interesse (daí ele acorda e me ajuda com o bacuri).
Acordados os três, marido vai tocar a vida dele e eu fico com o pequeno, brincando na sala, ouvindo música, e nos intervalos dos afazeres do marido vou tomando café da manhã, arrumando mochila para a creche, pensando na roupa que vou botar, preparando a bolsa da bombinha, essas coisas.
Então, às oito horas estamos os três prontos. Arthur para creche, eu para o trabalho e marido para os afazeres dele.
Trabalho até criar calo nos olhos, daí saio para almoçar (com o frila debaixo do braço, porque, claro, não dava para ser fácil), volto e trabalho até não conseguir nem pronunciar meu nome. Chacoalho dentro de um ônibus sem ar-condicionado (alôôôuuu, onde estarão os ônibus - um caso de pluralia tanta tão bacana - fresquinhos? Migram no verão e só dão as caras no inverno? Acho que sim...), cheia de tralha e bolsa a tiracolo, corro para a creche ou para casa (depende do dia). Espeto o menino no peito tão logo adentro meu lar e assim ele dorme, me dando a chance de comer, frilar mais um bocado e desmaiar.
Viu? Será que eu escovei os dentes? Notou que banho não é rotina? Também não tem TV, internet e livro neste relato.
E aí eu pergunto: que horas entro no meu blog? Quem é o novo papa? Que história é essa de Comissão de Direitos Humanos? Sei de trechos de cada notícia bombástica do dia, e nem para perguntar às pessoas ao meu redor sobra tempo.
Com esse longo lamento, venho aqui dizer duas coisas: 1) vou voltar a postar, com parcimônia, mas voltarei; 2) é nóis com muita disciplina/ dábliu, dábliu, dábliu ponto-com brasília.
segunda-feira, 4 de março de 2013
Pollyanna na Páscoa
Arthur tem APLV, como vocês sabem.
Arthur me obriga a manter uma dieta rigorosa, na qual me privo de coisas de que gosto muitíssimo.
Arthur está experimentando novos alimentos (sopinhas, frutinhas, suquinhos, ontem de manhã rolou até um pedaço de pão francês).
A Páscoa está chegando e...
...graças à APLV Arthur não poderá nem chegar perto de chocolates.
Que alegria mantê-lo por mais um tempo sem experimentar besteiras! E nem precisar dar aquela de antipática neurótica. Basta proferir as palavrinhas mágicas: ele tem alergia à leite de vaca. Que peninha, né?!
;-)
Arthur me obriga a manter uma dieta rigorosa, na qual me privo de coisas de que gosto muitíssimo.
Arthur está experimentando novos alimentos (sopinhas, frutinhas, suquinhos, ontem de manhã rolou até um pedaço de pão francês).
A Páscoa está chegando e...
...graças à APLV Arthur não poderá nem chegar perto de chocolates.
Que alegria mantê-lo por mais um tempo sem experimentar besteiras! E nem precisar dar aquela de antipática neurótica. Basta proferir as palavrinhas mágicas: ele tem alergia à leite de vaca. Que peninha, né?!
;-)
domingo, 3 de março de 2013
Profissão: bebê
Arthur nasceu ativista político pró-humanização do parto. Além de ter escolhido nascer justo no dia da passeata pela humanização do parto que teve aqui no Rio, nasceu de mãe e com equipe defensoras da causa. Ele também já nasceu cantor de ópera, com um choro no estilo dó de peito que fez o vizinho da frente, músico profissional, professor universitário, comentar "chora forte, né?".
Depois, um pouco mais crescido, quis ser o novo beijoqueiro do novo Maracanã: fazia bicos e mais bicos, quase por 24 horas. Ou então, pensou em ser atleta olímpico na modalidade arremesso. Como não tinha nada em sua mão que estivesse disponível para treinar, arremessava mesmo era o xixi, assim que abríamos a fralda.
Também quis ser cabeleireiro (agarrando os cabelos que dessem sopa), feirante (só entrar no sling e ele berrava "ahhhhhh" durante todo o trajeto), bailarino (fazia poses e mais poses), contorcionista (queria mamar de bruços), carrasco (mordendo e beliscando o mamilo da mamãe e depois dando uma risadinha sádica), faxineiro (limpando a casa quando encontrava uma sujeirinha no chão, usando os dedinhos em pinça para recolher o microobjeto e examiná-lo), espeleólogo (tentando se enfiar em buracos escuros), contador ou arquivista (revirando nosso arquivo de contas), acadêmico (rasgando o livro que estávamos lendo), operador de caixa (querendo digitar minha senha na maquininha do cartão), Don Juan (sorrindo para todas as mulheres do caminho), político (tentando convencer-nos de seu ponto de vista só na lábia, quero dizer, no lábio: seja chorando ou sorrindo), engenheiro eletriscista (mexendo em todos os fios da casa e tentando enfiar o dedo nos buracos das tomadas), e tantas outras possibilidades que mal consigo me lembrar.
O fato, porém, é que adulto não pode ver uma criança ou bebê fazendo uma coisa que logo quer tascar um rótulo bem rotuladinho: "ih, esse aí vai ser _______ porque faz _______."
Só que não, né, gente?
Arthur é um bebê, e seus gestos e atos não têm a ver com suas aptidões ou habilidades. Tudo nele evolui e involui numa velocidade impressionante. E quando ele crescer mais um pouco, terá na infância o espaço de experimentação tão fundamental para seu desenvolvimento e para o processo de construção de sua auto-imagem.
Agora, se eu fosse dar um palpite (e ignorar tudo isso que acabei de falar), acho que a grande potencialidade de Arthur é a coisa mais incrível e sem limites que um ser humano pode vivenciar: meu filho tem grande vocação para a felicidade (a própria e a que nos desperta) e para ser livre para experimentar!
E que assim seja!
Depois, um pouco mais crescido, quis ser o novo beijoqueiro do novo Maracanã: fazia bicos e mais bicos, quase por 24 horas. Ou então, pensou em ser atleta olímpico na modalidade arremesso. Como não tinha nada em sua mão que estivesse disponível para treinar, arremessava mesmo era o xixi, assim que abríamos a fralda.
Também quis ser cabeleireiro (agarrando os cabelos que dessem sopa), feirante (só entrar no sling e ele berrava "ahhhhhh" durante todo o trajeto), bailarino (fazia poses e mais poses), contorcionista (queria mamar de bruços), carrasco (mordendo e beliscando o mamilo da mamãe e depois dando uma risadinha sádica), faxineiro (limpando a casa quando encontrava uma sujeirinha no chão, usando os dedinhos em pinça para recolher o microobjeto e examiná-lo), espeleólogo (tentando se enfiar em buracos escuros), contador ou arquivista (revirando nosso arquivo de contas), acadêmico (rasgando o livro que estávamos lendo), operador de caixa (querendo digitar minha senha na maquininha do cartão), Don Juan (sorrindo para todas as mulheres do caminho), político (tentando convencer-nos de seu ponto de vista só na lábia, quero dizer, no lábio: seja chorando ou sorrindo), engenheiro eletriscista (mexendo em todos os fios da casa e tentando enfiar o dedo nos buracos das tomadas), e tantas outras possibilidades que mal consigo me lembrar.
O fato, porém, é que adulto não pode ver uma criança ou bebê fazendo uma coisa que logo quer tascar um rótulo bem rotuladinho: "ih, esse aí vai ser _______ porque faz _______."
Só que não, né, gente?
Arthur é um bebê, e seus gestos e atos não têm a ver com suas aptidões ou habilidades. Tudo nele evolui e involui numa velocidade impressionante. E quando ele crescer mais um pouco, terá na infância o espaço de experimentação tão fundamental para seu desenvolvimento e para o processo de construção de sua auto-imagem.
Agora, se eu fosse dar um palpite (e ignorar tudo isso que acabei de falar), acho que a grande potencialidade de Arthur é a coisa mais incrível e sem limites que um ser humano pode vivenciar: meu filho tem grande vocação para a felicidade (a própria e a que nos desperta) e para ser livre para experimentar!
E que assim seja!
domingo, 24 de fevereiro de 2013
Por que ter uma enfermeira obstétrica
Quando a porta se abriu, a sensação que tive foi que a desconstrução começara ali.
Eu vinha crescendo, junto com minha barriga, ideias e vontades em relação a meu parto. Mas sabia que corria o risco sério, seríssimo de querer que a ideia sobrepujasse a realidade, e essa, meus caros, é a fórmula mais certeira para a frustração. Assim sendo, eu tinha certeza de que precisava começar a desconstruir algumas coisas dentro de mim para poder fazer nascer. Isso, em grande parte, porque todo nascimento é também uma espécie de morte. Morte na entrega ao desconhecido, morte social (fazemos a passagem de filhas a mães), morte da gravidez e do casal (agora seremos três ou mais!).
Então, quando ela abriu aquela porta e minha enfermeira - a quem eu imaginara como alguém mais ou menos da minha altura, de cabelos lisos e compridos presos num rabo-de-cavalo prático e quase desleixado, camiseta larga e calça de linho - surgiu no explendor de seus cabelos curtos, tatuagens grandes e coloridas (e bem visíveis) e presença física muito forte (ela ESTAVA ali, ela SE MOVIA, ela PARAVA, tudo sem qualquer espaço para dúvidas), eu sabia que as coisas dariam certo.
Quero dizer: eu sabia que eu tinha um caminho a trilhar e sabia que muita coisa precisava de ajuste, de reflexão, de aprendizado. Mas ali eu tinha algo em que me fiar.
Bem que a obstetra avisara: há mulheres que criam vínculos mais intensos com a enfermeira obstétrica do que comigo. Não foi assim logo de cara, confesso. Ter a imagem mental que eu desenhara sobre como seria aquela pessoa pulverizada por aquela presença me fez pensar se eu seria capaz de criar vínculo com alguém diferente. Não diferente de mim. Mas diferente das expectativas que eu havia criado.
Eu não sabia, porém aceitei a porta aberta e entrei.
Ali dentro, naquele apartamento com algumas coisas diferentes (uns corações flamejantes nas paredes, umas caveiras, a coluna espinhal num molde em tamanho natural feito de gesso, dois gatos, uma atmosfera meio bruxonesca), ali eu encontrei a pessoa mais sensível que já conheci na vida. E sensível aqui não é sinônimo para "docinha", "fofinha" ou qualquer outro adjetivo que geralmente atribuímos ao lado pejorativo da sensibilidade. Quando eu falo de sensibilidade, quero dizer que aquela pessoa extremamente forte, presente, segura e firme estava tomando muito, muito, muito cuidado com meus sentimentos. Ela sabia até onde poderia ir. Sempre. E eu senti isso desde o começo. Não que ela tenha feito algo específico, mas a gente sabe quando a outra pessoa está se importando de verdade com o que sentimos e pensamos.
E foi aí que ela me arrebatou.
Hoje, olhando para trás, vejo a importância que minha enfermeira teve em minha gravidez, no nosso parto e no meu pós-parto. É difícil ser grávida e mãe hoje em dia, na sociedade em que vivemos. Não estamos preparadas para a solidão que nos atropela, para a força selvagem que nos arrebata, para a sexualidade, para nosso corpo (transformando-se, duplicando-se, abrindo-se, rompendo tabus), para nossa sensibilidade. Que conveniente que minha enfermeira, no momento mais delicado, fosse sensível e soubesse, só de olhar para mim, quando eu precisava de um empurrãozinho, quando eu precisava de um abraço, aonde ela deveria mandar as palavras. Também foi de uma conveniência ímpar que minha enfermeira entendesse do corpo: por dentro (ossos, músculos, formação acadêmica, meandros da mente grávida e feminina) e por fora (posturas, gestos, cores, ritmos). E, certamente, foi a coisa mais conveniente do universo todinho ter a meu lado uma pessoa capacitada para auscultar Arthur durante o trabalho de parto, para tomar para si a tarefa de controlar o progresso do processo fisiológico do parto, para coordenar com a médica esquemas, horários, medidas e burocracias. Sua sensibilidade me permitiu fugir do controle. Fugir mesmo: eu queria mergulhar em minhas contrações porque eu sabia que era minha única chance de parir. Se eu me mantivesse racional, poderia pôr tudo a perder, e era minha única chance de parir, porque cada chance que temos é única. Então, arrumei minhas malas e parti da vida controladora e racional rumo ao louco mundo do sentir e pulsar e contrair e dilatar e, sobretudo, não querer saber quanto de dilatação e nem como ou quando iriam chamar minha médica.
Foi assim que eu pari. Ela que abriu a porta, praticamente depois de um jeté, quando o refletor da sala de parto queimou e Arthur coroou no escuro, chorando. Foi ela que esteve comigo antes, durante e depois. Foi quem me contrabandeou frutas secas e nozes quando a maternidade me negou o almoço imediatamente após o parto (e assim, ela salvou minha energia, que andava em baixa depois de uma madrugada inteirinha sem comer ou dormir). Foi quem me salvou do empedramento na apojadura, das fissuras na pega errada, do baby blues. Eu ligava para ela chorosa, porque os hormônios estavam loucos, e ela veio com flores no dia do meu aniversário! Ela não se esqueceu! Também foi ela a responsável por me apresentar a mães muito especiais, que mudaram radicalmente minha maternagem e minha alegria de viver este momento, pessoas doces e fortes e lindas que me ensinam muitíssimo e que sabem. É ainda ela que pensa na minha monília recorrente e dá dicas especiais. Ela que pergunta e se interessa de verdade, porque ama. E se só damos o que temos, essa moça é toda amor.
Por tudo isso (e outras coisas muito mais subjetivas e delicadas), eu acho que toda mulher deveria ter em seu parto a benesse de uma enfermeira obstétrica competente e sensível. E por tudo isso, e pelo privilégio incrível de saber que meu filho poderá perguntar a mim sobre a equipe que o ajudou nascer e ter como resposta nomes, histórias e rostos (e não somente um relato com profissões - médicos e enfermeiras), eu digo: obrigada, minha querida. Você fez e faz minha nova vida especialmente maravilhosa!
Eu vinha crescendo, junto com minha barriga, ideias e vontades em relação a meu parto. Mas sabia que corria o risco sério, seríssimo de querer que a ideia sobrepujasse a realidade, e essa, meus caros, é a fórmula mais certeira para a frustração. Assim sendo, eu tinha certeza de que precisava começar a desconstruir algumas coisas dentro de mim para poder fazer nascer. Isso, em grande parte, porque todo nascimento é também uma espécie de morte. Morte na entrega ao desconhecido, morte social (fazemos a passagem de filhas a mães), morte da gravidez e do casal (agora seremos três ou mais!).
Então, quando ela abriu aquela porta e minha enfermeira - a quem eu imaginara como alguém mais ou menos da minha altura, de cabelos lisos e compridos presos num rabo-de-cavalo prático e quase desleixado, camiseta larga e calça de linho - surgiu no explendor de seus cabelos curtos, tatuagens grandes e coloridas (e bem visíveis) e presença física muito forte (ela ESTAVA ali, ela SE MOVIA, ela PARAVA, tudo sem qualquer espaço para dúvidas), eu sabia que as coisas dariam certo.
Quero dizer: eu sabia que eu tinha um caminho a trilhar e sabia que muita coisa precisava de ajuste, de reflexão, de aprendizado. Mas ali eu tinha algo em que me fiar.
Bem que a obstetra avisara: há mulheres que criam vínculos mais intensos com a enfermeira obstétrica do que comigo. Não foi assim logo de cara, confesso. Ter a imagem mental que eu desenhara sobre como seria aquela pessoa pulverizada por aquela presença me fez pensar se eu seria capaz de criar vínculo com alguém diferente. Não diferente de mim. Mas diferente das expectativas que eu havia criado.
Eu não sabia, porém aceitei a porta aberta e entrei.
Ali dentro, naquele apartamento com algumas coisas diferentes (uns corações flamejantes nas paredes, umas caveiras, a coluna espinhal num molde em tamanho natural feito de gesso, dois gatos, uma atmosfera meio bruxonesca), ali eu encontrei a pessoa mais sensível que já conheci na vida. E sensível aqui não é sinônimo para "docinha", "fofinha" ou qualquer outro adjetivo que geralmente atribuímos ao lado pejorativo da sensibilidade. Quando eu falo de sensibilidade, quero dizer que aquela pessoa extremamente forte, presente, segura e firme estava tomando muito, muito, muito cuidado com meus sentimentos. Ela sabia até onde poderia ir. Sempre. E eu senti isso desde o começo. Não que ela tenha feito algo específico, mas a gente sabe quando a outra pessoa está se importando de verdade com o que sentimos e pensamos.
E foi aí que ela me arrebatou.
Hoje, olhando para trás, vejo a importância que minha enfermeira teve em minha gravidez, no nosso parto e no meu pós-parto. É difícil ser grávida e mãe hoje em dia, na sociedade em que vivemos. Não estamos preparadas para a solidão que nos atropela, para a força selvagem que nos arrebata, para a sexualidade, para nosso corpo (transformando-se, duplicando-se, abrindo-se, rompendo tabus), para nossa sensibilidade. Que conveniente que minha enfermeira, no momento mais delicado, fosse sensível e soubesse, só de olhar para mim, quando eu precisava de um empurrãozinho, quando eu precisava de um abraço, aonde ela deveria mandar as palavras. Também foi de uma conveniência ímpar que minha enfermeira entendesse do corpo: por dentro (ossos, músculos, formação acadêmica, meandros da mente grávida e feminina) e por fora (posturas, gestos, cores, ritmos). E, certamente, foi a coisa mais conveniente do universo todinho ter a meu lado uma pessoa capacitada para auscultar Arthur durante o trabalho de parto, para tomar para si a tarefa de controlar o progresso do processo fisiológico do parto, para coordenar com a médica esquemas, horários, medidas e burocracias. Sua sensibilidade me permitiu fugir do controle. Fugir mesmo: eu queria mergulhar em minhas contrações porque eu sabia que era minha única chance de parir. Se eu me mantivesse racional, poderia pôr tudo a perder, e era minha única chance de parir, porque cada chance que temos é única. Então, arrumei minhas malas e parti da vida controladora e racional rumo ao louco mundo do sentir e pulsar e contrair e dilatar e, sobretudo, não querer saber quanto de dilatação e nem como ou quando iriam chamar minha médica.
Foi assim que eu pari. Ela que abriu a porta, praticamente depois de um jeté, quando o refletor da sala de parto queimou e Arthur coroou no escuro, chorando. Foi ela que esteve comigo antes, durante e depois. Foi quem me contrabandeou frutas secas e nozes quando a maternidade me negou o almoço imediatamente após o parto (e assim, ela salvou minha energia, que andava em baixa depois de uma madrugada inteirinha sem comer ou dormir). Foi quem me salvou do empedramento na apojadura, das fissuras na pega errada, do baby blues. Eu ligava para ela chorosa, porque os hormônios estavam loucos, e ela veio com flores no dia do meu aniversário! Ela não se esqueceu! Também foi ela a responsável por me apresentar a mães muito especiais, que mudaram radicalmente minha maternagem e minha alegria de viver este momento, pessoas doces e fortes e lindas que me ensinam muitíssimo e que sabem. É ainda ela que pensa na minha monília recorrente e dá dicas especiais. Ela que pergunta e se interessa de verdade, porque ama. E se só damos o que temos, essa moça é toda amor.
Por tudo isso (e outras coisas muito mais subjetivas e delicadas), eu acho que toda mulher deveria ter em seu parto a benesse de uma enfermeira obstétrica competente e sensível. E por tudo isso, e pelo privilégio incrível de saber que meu filho poderá perguntar a mim sobre a equipe que o ajudou nascer e ter como resposta nomes, histórias e rostos (e não somente um relato com profissões - médicos e enfermeiras), eu digo: obrigada, minha querida. Você fez e faz minha nova vida especialmente maravilhosa!
terça-feira, 19 de fevereiro de 2013
Nãããoooo...
Era uma vez um dia na minha licença-maternidade. A faxineira estava em casa e veio me perguntar sobre o almoço, o que era para fazer, o que tinha de comprar, essas coisas que as pessoas teimam em perguntar para a dona da casa mesmo quando o lar conta com um dono de casa (obrigada, marido!).
Era uma outra vez, numa sala de parto. A médica me pergunta se quero ficar com a placenta, e eu respondo que sim, claro! E levo a placenta para casa. E congelo a placenta. Até que um belo dia a faxineira vira-se para mim e fala:
- Ártemis (a faxineira me conhece desde que eu sou uma garotinha e não usa o "dona"), é para cozinhar o músculo que está no congelador?
Eu, com cara de quem ouviu um bezerro latir em castelhano, pergunto:
- Músculo? Mas a gente só comprou contra-filé [classe média, minha gente!] essa semana... Que estranho... Ahhhhhh, nãããããããoooooooo... Não cozinhe minha PLACENTA!
Faxineira embasbaca, como se o bezerro agora latisse em polonês e dançasse um tango no teto.
E eu rebato:
- Não pode cozinhar minha placenta porque eu quero plantá-la!
Moral da história: se guardar sua placenta, se alimente somente de peixe até plantá-la, assim você garante que ninguém a cozinhará e nem chocará a faxineira de longa data.
Era uma outra vez, numa sala de parto. A médica me pergunta se quero ficar com a placenta, e eu respondo que sim, claro! E levo a placenta para casa. E congelo a placenta. Até que um belo dia a faxineira vira-se para mim e fala:
- Ártemis (a faxineira me conhece desde que eu sou uma garotinha e não usa o "dona"), é para cozinhar o músculo que está no congelador?
Eu, com cara de quem ouviu um bezerro latir em castelhano, pergunto:
- Músculo? Mas a gente só comprou contra-filé [classe média, minha gente!] essa semana... Que estranho... Ahhhhhh, nãããããããoooooooo... Não cozinhe minha PLACENTA!
Faxineira embasbaca, como se o bezerro agora latisse em polonês e dançasse um tango no teto.
E eu rebato:
- Não pode cozinhar minha placenta porque eu quero plantá-la!
Moral da história: se guardar sua placenta, se alimente somente de peixe até plantá-la, assim você garante que ninguém a cozinhará e nem chocará a faxineira de longa data.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013
Assistência técnica para artigos de fabricação própria (artesanal)
Há algum tempo fabriquei, com peças originais e únicas, um modelo bebê-delícia perfeito: dobrinhas gostosas, dentinhos fofos, risadinhas derretedoras de coração e até mesmo personalidade compreensiva para com esta mãe muitas vezes enrolada. Tudo lindo, tudo caminhando.
Mas aí deu tilt. Bebê-delícia virou bebê-terror e passou três noites dormindo mal, berrando ao acordar (e ele acordava ao menor ruído, a cada meia hora, pelo menos), urrando ao dormir. Bebê-terror queria colo, mas no colo, queria chão, no chão, queria berço, no berço, queria ser ninado, e então berrava, empurrava e pedia peito, rejeitava peito, se sentava, levantava se apoiando nos móveis, se deitava e chorava. Tudo de novo. Fora de ordem. Sem critério.
Cheguei a conclusão que preciso enviar, urgentemente, Arthur para a assistência técnica, porque, como diz uma amiga, isso está dando ruim. Só que eu me lembrei (na verdade, fui lembrada delicadamente por marido) de que a principal especialista no bebê-delícia soy yo. E que yo não faz ideia do que houve, de como consertar e se a avaria é definitiva ou temporária. Espero que bebê-delícia tenha sido fabricado com um dispositivo de autorrecuperação, porque não se pode confiar em ninguém com mais de 25, e eu já sou balzaca, neam?
Mas aí deu tilt. Bebê-delícia virou bebê-terror e passou três noites dormindo mal, berrando ao acordar (e ele acordava ao menor ruído, a cada meia hora, pelo menos), urrando ao dormir. Bebê-terror queria colo, mas no colo, queria chão, no chão, queria berço, no berço, queria ser ninado, e então berrava, empurrava e pedia peito, rejeitava peito, se sentava, levantava se apoiando nos móveis, se deitava e chorava. Tudo de novo. Fora de ordem. Sem critério.
Cheguei a conclusão que preciso enviar, urgentemente, Arthur para a assistência técnica, porque, como diz uma amiga, isso está dando ruim. Só que eu me lembrei (na verdade, fui lembrada delicadamente por marido) de que a principal especialista no bebê-delícia soy yo. E que yo não faz ideia do que houve, de como consertar e se a avaria é definitiva ou temporária. Espero que bebê-delícia tenha sido fabricado com um dispositivo de autorrecuperação, porque não se pode confiar em ninguém com mais de 25, e eu já sou balzaca, neam?
Enfim, tudo isso para justificar o abandono do blog (cof! cof! Já juntando poeira ali no canto) e contar que, por tudo isso, Arthur passou o Carnaval fantasiado de coelhinho felpudo, mas a mamãe aqui, está até hoje com a máscara de panda, já que bebê-terror decidiu aloprar nos dias de folia.
Esquindô! Esquindô!
Esquindô! Esquindô!
*Brincadeirinhas a parte, a coisa anda meio tensa, mas já sei que pode ser dente ou a angústia da separação. E mesmo sem rir o tempo todo, sem ser aquele bebê facinho de lidar, Arthur continua a ser (e sempre será) meu delicinha mais amado do mundo!
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