quarta-feira, 17 de abril de 2013

Dez meses

Quatro dentes. Sorridentes. Aliás, sempre sorridente esse menino. Um fofo! As mãozinhas gordas têm covinhas em cada um dos dez dedinhos. Dedinhos que me beliscam (assim como os dentinhos que me mordem, e depois riem). Dedinhos que se fecham em pinça, catando migalhinhas no chão. Chão que é o lugar favorito da casa. Às vezes mais predileto que meu colo. Já deu dois passinhos sem apoio e notadamente diz "mamá" quando me quer e não estou por perto. Como sempre que estou por perto estou com ele no colo ou brincando ou amamentando, só escutei "mamá" duas vezes. Engatinha feito um bólido. Um cometa! Um raio! Um raio cortando o céu de noite. Ainda acorda de noite. Acorda e se senta na cama, bêbado de sono, olhinhos arregalados, uma vontade de morder! Adora a creche. Abre o sorriso mais lindo do universo quando me vê na volta para casa, e já vem para o meu colo de banda, inclinando-se para mamar. Ainda mama. E ainda tenho leite (todo mundo rezando para continuar assim. Grata).
Dez meses e apenas mais um mês para ser todo meu novamente (aviso prévio, meu povo! Pedi demissão!).
Dez meses. 73cm. 8,5kg. Todo meu amor.

segunda-feira, 15 de abril de 2013

Depois de tudo, o choque de realidade (ou: Mães são todas LOUCAS)

Depois da notícia da mudança (muito obrigada pelas mensagens carinhosas de apoio, incentivo e felicitações!), depois do aniversário de relacionamento, depois da carta para a obstetra, eis que eu me encontro aqui, uma da matina de domingo para segunda, bebê capotado ao meu lado (amém!), cheia de mate na cabeça, angustiando-me por quê? Por quê? Ora, porque sou mãe, e sendo mãe, sou incoerente.
Senta que lá vem o trololó!
Todo mundo aqui está careca de saber que eu sofri quando Arthur foi para a creche. Todo mundo sabe que eu ainda sofro porque estou longe do meu bebê-delícia durante a semana (mas ontem eu o vi dando seu primeiro passinho! Chorem comigo!). Todo mundo sabe que estou me mudando para Chicago. E, juntando lé com cré, não fica difícil deduzir que, sem precisar ter de trabalhar nove horas num escritório, vou ficar com bebê-delícia full time nos States. Ótimo, não?
Sim, claro. Esse sorriso histérico no meu rosto, essa ruga entre as sobrancelhas, as unhas roídas e o fio de cabelo branco que acabou de brotar no cimo de minha cabeça não são nada, porque, afinal de contas, seria bem incoerente que eu ficasse doida para estar mais tempo com filhote e, tendo a oportunidade, eu acabasse desesperadamente preocupada e tensa de não ter mais tempo para mim (oi? eu tinha tempo antes? tenho tempo agora? claro que não!), de ficar exausta a ponto de mal saber meu nome no fim do dia (oi? eu ando supersoltinha e desacansada, dormindo todos os dias até duas da tarde? claro que não!), de ficar tão estressada a ponto de rosnar para "eu te amo" e gritar "o que fooooooi???" em resposta à simples menção do meu nome (oi? que foooooi???). Não seria?
Claro que não!
E eu estou exatamente assim: tensa, ansiosa, angustiada, prevendo os piores cenários da anulação pessoal e profissional (drama queen), antevendo catástrofes domésticas do tipo: marido chega em casa e eu, sentada no sofá, olhar catatônico, Arthur rabiscando a tela da TV (as paredes já não têm mais espaço), fumaça negra sobe das panelas no fogão e eu suspiro "acabou o papel higiênico". Dona de casa fail. Mamãe fail. Vida glamour com bebê-delícia fail.
Depois da euforia das alegrias e emoções, a realidade enfiou-me a mão na cara. CATAPLAF!
Eu nunca fui dona de casa: vai acabar o papel higiênico, vou queimar o arroz, bebê-delícia (que ultimamente tem se mostrado deliciosamente tocador de terror!) vai comer pasta de dente e jogar toalhas dentro do vaso, vou acumular roupa para lavar, não vou conseguir manter a faxina em dia, a comida vai ficar insossa e ora será muita, ora será pouca, meu cabelo continuará grudado, minhas olheiras se arrastarão pelo chão, minhas roupas continuarão desconjuntadas, minhas unhas ainda ficarão por fazer e escovar dentes permanecerá atividade recreativa para fins de semana.
Então, por que raios ando tão ansiosa por ter minha vida de pernas para o ar, um caos, só que sem faxineira, sem vovôs e vovós para dar aquela ajuda marota, num frio de lascar e tendo que falar outra língua?
Ora, simples: porque, além de serem todas LOUCAS, mães são seres que respiram cabelos, comem sorrisos, bebem palminhas, dormem passinhos, sentem bá-bá-bás e se saciam com os corpinhos mornos de seus filhos.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Carta para minha GO (Feliz dia do obstetra!)

Sabe quando você lê uma coisa e pensa "que ideia genial, queria ter tido essa sacada!"? Então, Anne Rammi, essa moça com nome que rima, e que boxa, rema, pinta e milita (e mora no meu coração, embora nem saiba quem sou!), essa moça fez assim comigo hoje.
Eu aqui, quietinha, vivendo meu mundinho de aniversários de relacionamento, idas para Chicago, bebê-delícia me deliciando, e ela veio e PAF! Levou embora meu rebolado num post lindo, que só não me fez realmente querer ter sido a autora porque não se trata de um nascimento bonito, e isso exclusivamente porque ELA foi desrespeitada no momento mais sublime de sua vida. (Desperta uma fúria solidária em mim saber que outra mulher, com outra história, não teve a alegria que eu pude ter.)
Solapada e desnorteada (sim, eu tinha preparado um post bobinho mesmo, todo água com açúcar, tipo beste-seller de aeroporto, sabem? Foi para o lixo. Deu vergoinha.), achei que eu queria ter tido essa ideia genial de escrever uma carta para minha GO no dia do obstetra, e assim militar um bocadinho, coisa que, de uns tempos para cá, foi eclipsada pelo meu umbigo e suas mudanças (Chicago) e permanências (marido).
Então, inspirada pela moça que eu tanto admiro, também fiz minha cartinha. Homenagem a minha querida obstetra.

Querida Dra. F.,

Não vou expor seu nome porque seria injusto ficar no mocó e sair bradando aos quatro ventos sua identidade. Na verdade, porém, eu deveria. Eu deveria para que todas as mulheres cariocas que realmente querem um parto digno, um parto seguro, um parto saudável, um parto fisiológico, sem intervenções e terrorismo, sem traumas, com respeito e muito, muito amor encontrassem a grande parceira que você foi para minha família.
Nossa relação foi de construção e parceria. Sempre. Eu cheguei colocando as cartas na mesa (timidamente): três exames de BHCG, um medo danado (e infundado) de abortar, 40kg, um histórico de "nãos" (não vai engravidar naturalmente, não vai ter passagem, não vai ter saúde para nutrir seu bebê, não vai conseguir parto normal sendo tão pequena etc.) e toda minha ansiedade. E você devolveu o que não deveria ser gestado ali, entre mim e você, bem em cima do meu bebê. Meu bebê, você já sabia, não merecia sobre ele o peso que às vezes lhe atribuía. Às vezes eu era os 40kg mais pesados que existiam. E você soube mostrar o caminho. E me receitou todos os anti-histamínicos permitidos para me ajudar a lidar com a fobia que tenho de vômito. Não vomitei nem uma vezinha. Parece bobagem, um detalhe, mas aí é que está toda a diferença: nos detalhes, nas "bobagens" - aliás, você nunca fez pouco das minhas perguntas, angústias ou reclamações; ao contrário, sempre me incentivava a falar e perguntar sobre qualquer coisa que me afligisse ou inquietasse. E era isso que eu queria: respeito, paciência, compreensão de que sou um ser vivo, pensante, pulsante e temente.

Aliás, bota ser temente, pensante e pulsante nisso!

Cheguei até você com ideias prontas e com você aprendi a não tentar encaixá-la nas minhas pré-concepções. Antes de você, querida Dra. F., eu vivia às turras com os obstetras, porque eles radicalizavam e fincavam pé em bobagens e absurdos, e minha resposta óbvia era fincar pé do outro lado, radicalizar também, e assim começar um infrutífero cabo de guerra (que era muito mais bonito antes do novo acordo, quando ainda tinha os hífens como que desenhando o puxa-puxa). Quando você disse para mim, com todas as letras "pode parar de lutar porque você já conseguiu o que queria", isso foi como soltar a corda do cabo de guerra, me deixando estatelada do chão de minhas convicções, tendo que catar ao redor aquilo que era realmente importante e o que me pertencia de verdade. Ou seja, precisei entender que eu não encontrara uma boa adversária, mas sim a melhor parceira! Caí de bunda no chão, sim. Mas você foi lá, me deu a mão e perguntou por que eu tinha puxado a corda tão forte. Bastava conversarmos.

E conversamos.

Eu sei que você sabe disso, Dra. F., mas ainda assim eu quero muito explicitar: eu tinha muito medo do parto. Não só pela mítica imagem que a sociedade contemporânea criou em torno dos nascimentos, não só por desconhecer o que me esperava, não só por saber que doía, não só por conhecer, inclusive, muitos dos riscos que existiam (eu já discutia sobre partos, nascimentos e gravidez havia muitos e muitos anos, tipo um terço da minha vida tinha sido assim, catando e memorizando esse tipo de informação). Eu tinha muito, muito, muito mais medo do parto porque eu sabia que era minha única chance de parir.
Aliás, isso é assombrosa e paralisantemente aterrorizante: saber que o primeiro filho é sua única chance. Claro que existem VBACs, VBA2Cs, 3Cs, mas, a verdade é que o primeiro parto é a única vez que você pode viver o parto. Se você cair numa cesária logo de cara (seja ela necessária ou não), seu próximo parto será, na verdade, o espelho do seu primeiro não parto.

(Sabe, Dra. F., eu vou publicar este texto no meu blog, e espero imensamente que ninguém se ofenda com essa minha ideia, porque incomoda pensar que o que temos de mais precioso - e aqui eu tiro meu chapéu em uma respeitosíssima reverência, pois VBA(1,2,3)Cs são para aquelas fortes, guerreiras, determinadas e poderosas! - possa não ser bom por si só, mas porque tem um lado bem ruim para criar o contraponto. Mas eu realmente acho isso. Uma vez uma amiga, paciente sua também, vinda de um VBAC maravilhoso, me disse que o parto normal depois de uma cesária tinha um gostinho até melhor, porque a pessoa conseguia o que vinha querendo desde há muito. Concordo que o VBAC deve ter um gostinho especial, e que, assim como uma experiência ruim torna as conquistas boas ainda mais especiais, enfim parir depois de ter tido seu direito usurpado deve ser realmente redentor. No entanto, eu só conheço a pureza do arrebatamento do parto natural. E acho, de verdade, que meu parto existiu por ele mesmo, em termos absolutos, sem comparações dolorosas, sem traumas prévios, sem parâmetros. E isso, só as primíparas podem ter!)

Retomando o fio da meada: eu tinha muito medo de fracassar no meu parto. Quando aqui digo fracassar, quero deixar bem claro duas coisas: 1) vivam as cesarianas salvadoras de vidas, bem indicadas e feitas para garantir saúde para mãe e bebês!; 2) eu, apenas eu, posso dizer como eu me sentiria se eu passasse pela cesária depois de tanta luta por um parto natural. Isso porque eu (e você) sabia (sabíamos) que eu tinha absolutamente tudo para ter um parto natural. Ou seja, no fundo do meu coração eu sabia que meu corpo estava ali para mim, que ele seria a primeira morada e o primeiro desafio do meu filho, que ele responderia e  corresponderia às necessidades. Eu acreditava no meu parto. E isso dava um medo danado! Medo porque eu sabia (e você também!) que meu parto aconteceria 1% na minha vagina, 3% no colo do meu útero, 6% no meu útero e 90% na minha cabeça. Era da cabeça que eu tinha medo. Aliás, medo duplo, e das duas cabeças: da minha falhar e travar meu processo, empacar minha dilatação, medrar minha fisiologia e interromper o curso natural; e da cabeça do meu filho passando pela minha vagina (e, confesso, mesmo tendo parido, até hoje tenho um nervosinho medroso de pensar que a CABEÇA de um BEBÊ passa pela nossa VAGINA!). Se eu contraísse, dilatasse e travasse, minasse, roubasse de mim a possibilidade de parir, me sentiria uma frustrada.

Quero destacar uma coisa bem importante (e por isso abro este parágrafo meio sem propósito): se EU roubasse de mim mesma a possibilidade de parir. Porque eu sabia, depois das consultas sempre incentivadoras e esclarecedoras, que você não roubaria de mim a possibilidade de parir. Eu sabia que se eu fosse para a faca, não seria por conveniência de agendas e horários (ou honorários), mas por segurança. E por isso o grande medo de fracassar: porque a responsabilidade era dividida (você monitorava e via se o processo fisiológico caminhava conforme deveria; e eu encaminhava e deixava acontecer o processo), mas ao mesmo dependia apenas de mim não me roubar o direito de parir. Em outras palavras: se eu não resistisse e medrasse e travasse, não por inexplicáveis desígnios que às vezes surgem nas nossas vidas - e vias -, mas se resistisse e medrasse e travasse por não me entregar ao processo, por desconfiar de mim, por ansiar e querer mudar o compasso do tempo, aí eu fracassaria: não pela cesária somente, veja bem, porque cesária não é sinônimo de fracasso. Mas eu fracassaria em lidar com a situação. E me frustraria se eu aceitasse desculpas para não enfrentar de peito aberto o que surgisse diante de mim.

Mas eu consegui. E você me respeitou. Aliás, eu consegui também porque você me respeitou.

Cada escolha, cada decisão, cada ideia, tudo que envolveu o nascimento do ser mais amado do (meu) mundo foi conversado, respeitado e pautado no amor. No meu amor, no fruto do amor entre mim e marido, no amor que você tem pela sua profissão e pelas suas pacientes. Porque eu realmente acredito que você me ame. De verdade. As consultas não eram vazias e sépticas: elas traziam histórias minhas e suas, partilhamos momentos, eu escolhi você para estar no momento mais íntimo e importante da minha vida, e todas as vezes eu que conversamos eu sinto que você, em algum nível, me ama e se identifica comigo. Se não fosse assim, não teria funcionado, porque ambas, eu e você, só funcionamos de verdade com a verdade: não fingimos. Nem fugimos. Enfrentamos, mas sempre em parceria, porque não nos enfrentamos, mas sim aos problemas, medos e dificuldades. E isso é uma forma de amar.

Hoje, no dia do obstetra, quero dar os parabéns não só pela mera convenção das efemérides, mas porque você honra a profissão que escolheu, porque orgulha aos seus pares por respeitar e tratar ética e medicamente suas pacientes. As Marias, as Joanas, as Silvias, Lauras, Renatas, Lúcias, Mauras, Cíntias e até as mais diferentes, como as Luzitânias e Petruskas. Todas com suas histórias, seus medos, suas limitações, seus amores e vivências.

Espero que seu modelo de atendimento se espalhe. Espero que outros profissionais se inspirem em sua competência e na excelência de seu ofício. Espero que outras mulheres tenham, como eu, a chance de parir, a chance de não desperdiçarem a chance de parir, a chance de terem, nesses tempos de violência obstétrica, a experiência do amor obstétrico. Um amor de obstetra.
Um beijo meu e outro do Arthur!

quinta-feira, 11 de abril de 2013

Uma vida, uma nova vida

Marido, hoje fazemos aniversário de relacionamento. Nove anos. Uma vida juntos, rumo à primeira década.
E hoje, quando completamos mais um ano de pura alegria enlouquecida e tanta parceria amorosa, você está prestes a me dar uma nova vida. De novo. Um pouco diferente, dessa vez, mas quase tão transformadora e libertadora quanto a nova vida que parimos em junho de 2012.
Espero que ainda consigamos ter muitas novas vidas dentro da nossa vida. Espero que sigamos neste caminho. Juntos. Sempre.
Com amor, sua.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A vida dá voltas (e nós também vamos passear)

Engraçado como as coisas acontecem nessa vida, né?
Eu sempre disse que queria ser mãe antes dos 30, mas, conforme a famosa idade vinha se aproximando, mais eu pensava que lá se ia mais uma meta, mais um sonho pelo ralo. Assim, decidi focar em outra coisa enquanto tentava engravidar. Daí, em 2011 eu escrevi que talvez tivesse novidades, mas que não seria um bebê. Que ironia! Porque no mesmo ano eu vim aqui contar que estava grávida, gravidíssima, mas nada da outra novidade, né? Ninguém notou porque o que é uma novidade em potencial diante de uma gravidez "cinética", em pleno curso rumo ao Big Bang do parto? Nada! Então ninguém se lembrou, nem perguntou e eu quis deixar a novidade em potencial queitinha, sendo alimentada das matérias mais preciosas que existem no mundo: amor, sonho e planejamento.
Então, em 2013, dois anos e um bebê depois, venho aqui contar a novidade que plantamos (eu e marido) com tanto carinho na época em que éramos apenas dois: vamos nos mudar!
Não compramos a sonhada casa própria, mas demos uma guinada profissional em nossas vidas e as malas para Chicago estão quase prontas!
Estamos ansiosos, cansados (se mudar já é o caos, para outro país e com um bebê a tiracolo é ainda mais insano!) e animados. Cada dia que passa o frio na barriga aumenta - e é bom nos acostumarmos com frio, já que Chicago não é Rio de Janeiro, e adeus aos verões escaldantes seguidos de invernos amenos: agora é pauleira de neve, vento e temperaturas negativas! Que tudo dê certo! - e, é claro, as saudades também.
Deixaremos 30 anos de vida para trás: trinta anos de amizades, trinta anos de lugares especiais, histórias, cantinhos e casas. Trinta anos de pessoas, ruas, paisagens e pores do sol. Mas, em compensação, teremos pela frente um país novinho, cheio de novas pessoas para conhecermos e nos tornarmos amigas, repleto de paisagens e lugares que, aos poucos, serão nossos também. E o melhor e mais importante de tudo: Arthur crescerá bilíngue, um desejo meu que se realiza!
Assim, aviso que no começo teremos muitas novidades e pouco tempo, mas prometo que venho aqui contar como andam as coisas e nossas vidas. Afinal, este meu cantinho selvagem é universal e me acompanha onde quer que eu vá.
Torçam por nós!

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Inominável

Apenas: essa saudade inquietante, uma ansiedade belicosa, uma irritação amorosa e cafonices e contradições. Acordei meio fora de mim, com o coração palpitando e Arthur ficando em pé sozinho (já desde o dia 17 de março, mais ou menos, na verdade). Não anda, mas dizem que se estou longe repete mamamamamama, e quando estou perto chama papapapa.
As grávidas perto de mim já são mães, e eu morro de saudades do parto. Cada dia lembro com mais doçura, com certos arrependimentos (ah, no próximo quero mais fotos da barriga, do trabalho de parto, dos primeiros dias), com muito aperto no peito. Um peito que jorra: Arthur mama bem, mas ainda produzo muito. Ainda bem. Depois de tanta luta, tanto esforço, acho que vou acabar tendo de doar leite, porque ontem joguei fora quase um litro. E aqui fico eu, emotiva, chorando o leite derramado, o leite produzido, o leite que um dia ele vai deixar de mamar para ir viver a vida por conta própria. E então Arthur se levanta, sozinho, abre os bracinhos, olha para mim e sorri. Mas se eu saio de perto, se joga de gatinhas e corre, dispara feito um bólido, engatinhando com um joelho e um dos pés, numa charmosa e fofa demonstração de que somos diferentes em nossas soluções e em nossas vivências.
Diante de mim, uma decisão gigantesca. Aperta, oprime, mas também liberta. Ando emotiva como o diabo, feito Drummond, sem conhaque, com algum Chopin, embora esteja mais para Rossini ou Tchaikovsky. E em meio às bombas e à Marselhesa, vem vindo, vem vindo, vem vindo: essa onda de sentimentos vários. Daí Arthur acorda com calor, pede para mamar e eu me pergunto: por que trabalhar longe do meu filho?
O dia nasce, a vida retoma sua rotina, e, diante de mim, a melhor escolha da vida, a decisão mais importante e a vida que não para.
Como se chama o nome disso?

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Filosofando

(Na verdade, roubando ideias do marido.)

Eu tenho um medo. Na verdade, tenho vários, mas um deles é bem grandão, e recebe o nome de fobia. Emetofobia. Trata-se do pânico irracional que tenho de vomitar (o que inclui, é claro, ver alguém vomitando).
Marido, por sua vez, detesta (e tem ânsias de vômito) com cocôs: do filhote ou do cachorro. Então, aqui em casa, temos um pacto: cocôs são meus, vômitos são dele. Eu sei que me dou mal na conta final, pois Arthur fará muito mais cocôs nessa vida do que vomitará, mas estou muito satisfeita com a divisão de tarefas, marido também, então seguimos assim, felizes.

Sexta-feira. Arthur está dormindo. Eu, a seu lado, vejo que ele vai acordar, pois se remexe para lá e para cá, vira-se de bruços, torna a ficar de barriga para cima. Ao se sentar e chorar, faço o que toda mãe faria: tomo-o em meus braços. E o que ele faz, minha gente?
Vomita. Com ânsia e tudo! Três vezes: na cama, em mim e no chão. E digo mais: essa foi a segunda vomitada do dia! A primeira foi na cozinha, depois de provar (e detestar, é claro) caqui.
Claro que fiquei desesperada, tanto pelo vômito (será que ele está bem? o que será que o fez vomitar?) quanto pelo fato de estar toda vomitada (eca!). Mas venci a fobia e consegui dar conforto a meu filho e nem dei chilique, como costumo fazer.

Sábado. É hora do banho. Arthur não anda muito bem, pois pegou uma virose e anda meio estranho por causa dos remédios, ou da virose, não sei. O fato é que o banho, decidimos, vai ser de banheira, bem quentinho e relaxante, nada de sabonete, pois ele já tomou banho hoje e o objetivo desse é só relaxar para ter um bom soninho. Marido entra com ele na banheira e fica ali, curtindo umas brincadeiras bacanérrimas, relaxando o menino, até que... Arthur faz um supercocozão! Marido, corajosamente, levanta-se, sai da banheira, dá banho de chuveiro no menino (agora, é claro, com todo o sabonete do mundo!) e comemoramos a superação de todos os limites em um único fim de semana: eu toda vomitada e marido todo cocozado.

Então, depois de nos autocongratularmos e parabenizarmos um ao outro, chegamos à conclusão de que ter um filho é um grande tiro que sai pela culatra, pois a decisão mais egoísta que você toma se transforma em puro altruísmo.