Nem parece que tem crise. Nem zica. Nem curva perigosa (perigosíssima) à direita. Todo mundo nada em dinheiro e sou a única que conta moedinha já dez dias depois do pagamento.
É que de repente todo mundo emprenhou!
Tudo começou quando voltamos do Brasil. Logo na volta às aulas descobri que uma amiguinha querida do Arthur iria ganhar umx irmxx. A mãe já estava quase parindo e a partir daí minha vida foi uma sucessão de charadas no estilo "adivinha só?" cujas respostas eu já sabia antes mesmo do fim da pergunta.
Foi gente na blogosfera. Foi gente que tinha ligado tubas uterinas. Gente que escorregou na conta da tabelinha e gente que nunca quis ser mãe, mas tá lá agora, buchuda e feliz. Tem gente que me contou antes. Tem gente que viajou e de lembrancinha trouxe uma semente germinando na pança. Tem gente que me procurou para saber onde e com quem parir. Tem gente que já pariu, de novo. Tem gente que contou para as pessoas via Facebook. Via zapzap. Via SMS. Olha, eu tenho até cogitado usar camisinha para pegar no telefone ou no computador, vai que...
Mas o que mais me impressiona nessa história é a quantidade de terceirinhxs encomendadxs. Nos últimos seis meses fiquei sabendo da gravidez e/ou do nascimento de nada mais, nada menos que cinco rebentos terceiros! Para uma geração cujxs amiguinhxs quase todxs eram filhxs únicxs, isso é um tremendo baby boom!
Eu fiz tanto sapatinho para dar de presente para as crianças que nasceram por aqui que minha família estava desconfiada, mas perceberam que só se eu estivesse prestes a parir uma centopeia é que faria sentido aquele bando de micro calçados, de todas as cores e modelos.
E vocês? Muita gente nova chegando por aí?
;)
quarta-feira, 27 de abril de 2016
segunda-feira, 25 de abril de 2016
Fuéééém
Era uma festa diferente. A comemoração estava marcada para acontecer em uma loja-ateliê aqui perto. A aniversariamente era apenas um nome para mim.
Voltei para casa com a sensação de ter saído de uma rave, mas acho que entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
Compramos presente, colocamos roupa bonita, até passei perfume!
Tudo estava correndo dentro dos conformes de normalidade social: nada de bolo na cara do amiguinho, nada de arremesso de argila no teto (sim, era um ateliê de peças de cerâmica e a brincadeira era colocar as crianças para fazer uma tigela). Tudo tranquilo, tudo favorável.
Claro que meu filho era o único a correr por ali. Óbvio que ele foi o único que preferiu esculpir um dinossauro de argila a fazer o que o dono do ateliê nos instruiu a fazer. É evidente que ele começou a cantar BEM ALTO o parabéns porque queria comer logo o bolo. Mas, sinceramente, nada assombroso ou altamente vexatório. Vida que segue e ainda bem que a festa só dura uma hora e meia.
Bom, depois do lanche e do parabéns, estando todas as crianças devidamente munidas de tédio + cornetas e chapéus comemorativos + bastante açúcar no sangue, começou uma pequena algazarra. Não havia correria e nem gritos histéricos, mas "calmas" não era uma definição boa para aquelas crianças.
Arthur, então, resolveu ir interagir com a aniversariante. Eles se davam surpreendentemente bem (surpreendente porque a menina não é muito citada aqui em casa quando pergunto como foi a escola). Eles têm o mesmo nível de energia e potencial de fazer bobagens. Estava lindo.
Foi quando eu vi.
Eu me levantei do banquinho, calça toda suja de barro em seus diversos estados (a saber: sólido, semisólido, líquido e poeira), tentando chegar antes que Arthur começasse a interagir com a MÃE da aniversariante. Acontece que os traquinas estavam todos fartos e zanzavam, os pais ao encalço para evitarem tragédias com as peças delicadas, e, então, não consegui nada além de assistir de longe a interação.
A moça foi chegando perto do Arthur, falando:
- Noooooossa, mas que olhos bonitos que você...
FUÉÉÉÉÉÉÉM
Arthur deu-lhe uma cornetada na fuça. A moça ganhou distância e tentou mais uma vez elogiar o meu rebento munido de corneta, mas desistiu a tempo e eu só cheguei, pateticamente, para falar:
- Filhinho, espaço pessoal, lembra?
Voltei para casa com a sensação de ter saído de uma rave, mas acho que entre mortos e feridos, salvaram-se todos.
segunda-feira, 18 de abril de 2016
O apresentável
Arthur teve um dia intenso. O primeiro de sol a pino depois de muito tempo de chuvas e tempo nublado. Com isso, fez o que raramente faz: tirou uma soneca de tarde.
Acontece que tínhamos um compromisso, eu e marido, e sem babá ou família a única opção que temos, se quisermos ir a algum lugar ou comparecer a algum evento, é levar o pequeno conosco.
Acordei Arthur. O sono era forte, ele mal abria o olho, mas disse que queria ir (dei a opção, lógico, de ele ficar em casa comigo). Se quer ir, então vamos!
Na sala, lutava para manter as pálpebras abertas. Foi quando resolvi dar uma forcinha:
- Filho, vamos. O papai está doido para apresentar você aos amigos dele!
- Ah, mamãe. Eu não sou uma pessoa fácil de apresentar.
- Não? Por quê?
- Porque eu tenho a very long name*.
*Porque eu tenho um nome muito comprido. E é verdade. Arthur tem o nome + 4 sobrenomes, o que nos EUA é tipo ser verde com bolinhas roxas.
Acontece que tínhamos um compromisso, eu e marido, e sem babá ou família a única opção que temos, se quisermos ir a algum lugar ou comparecer a algum evento, é levar o pequeno conosco.
Acordei Arthur. O sono era forte, ele mal abria o olho, mas disse que queria ir (dei a opção, lógico, de ele ficar em casa comigo). Se quer ir, então vamos!
Na sala, lutava para manter as pálpebras abertas. Foi quando resolvi dar uma forcinha:
- Filho, vamos. O papai está doido para apresentar você aos amigos dele!
- Ah, mamãe. Eu não sou uma pessoa fácil de apresentar.
- Não? Por quê?
- Porque eu tenho a very long name*.
*Porque eu tenho um nome muito comprido. E é verdade. Arthur tem o nome + 4 sobrenomes, o que nos EUA é tipo ser verde com bolinhas roxas.
quarta-feira, 30 de março de 2016
Que syrup é esse?
Era meu dia de ficar na cama até mais tarde. Marido, portanto, acordou e foi preparar o café da manhã. Só que fiquei naquele estágio entre o sono e o despertar, ouvindo o amanhecer dos dois. Ora dormia e sonhava, ora acordava e escutava conversas e barulhinhos matutinos, feito café sendo coado e talheres batendo de leve no prato.
Até que Arthur pergunta:
- Papai, que syrup é esse?
Aquilo entrou nas profundezas dos meus devaneios sonolentos e eu sabia que havia alguma coisa se debatendo debaixo da superfície idílica, alguma coisa que queria sair, que precisava sair. Syrup? Será que meu cérebro está preocupado com troca de códigos linguísticos a esta hora da manhã? Não pode ser. Será que estou em um estado tal de estresse que preciso controlar tudo o que acontece mesmo que eu saiba que tudo está bem e todos estão em segurança? Será que estou pensando na lista de compras quando deveria estar sonhando com massagens e piña-coladas à beira-mar? Será que eu sei de alguma coisa que eles também precisam saber?
SIM!
- Ei - gritei eu das fossas abissais de meu torpor sonolento -, isso aí não é xarope de bordo! Vocês estão colocando azeite temperado com alho na panqueca!
Lição do dia: se for reciclar potinhos de vidro, escreva bem grande no rótulo qual a NOVA substância que está ali dentro.
Até que Arthur pergunta:
- Papai, que syrup é esse?
Aquilo entrou nas profundezas dos meus devaneios sonolentos e eu sabia que havia alguma coisa se debatendo debaixo da superfície idílica, alguma coisa que queria sair, que precisava sair. Syrup? Será que meu cérebro está preocupado com troca de códigos linguísticos a esta hora da manhã? Não pode ser. Será que estou em um estado tal de estresse que preciso controlar tudo o que acontece mesmo que eu saiba que tudo está bem e todos estão em segurança? Será que estou pensando na lista de compras quando deveria estar sonhando com massagens e piña-coladas à beira-mar? Será que eu sei de alguma coisa que eles também precisam saber?
SIM!
- Ei - gritei eu das fossas abissais de meu torpor sonolento -, isso aí não é xarope de bordo! Vocês estão colocando azeite temperado com alho na panqueca!
Lição do dia: se for reciclar potinhos de vidro, escreva bem grande no rótulo qual a NOVA substância que está ali dentro.
terça-feira, 29 de março de 2016
Ele é sempre assim?
É uma das frases que eu mais ouço. E eu nem sei por quê. Minhas olheiras deveriam bastar. Mas não bastam, e eu respondo pelo menos uma vez por dia: é, ele é sempre assim.
Um bólido, um dínamo, um ás, um foguete. Zuuuuuuum. Corre, pula, rola, grita, quer tudo agora, quer tudo rápido. Zuuuuuuuuuum. Já foi, não pode tirar o olho um segundo, caiu, levantou, tá lá de novo, já passou.
Ele é sempre assim?
Sempre. Mas não vai ser assim para sempre.
Vai crescer. Vai parar de correr, vai parar de rolar, vai se interessar por outras energias, outras maneiras de explorar o mundo. Pode ser que continue indômito. Pode ser que se transforme. Podem ser tantas coisas, que agora eu prefiro ficar com ele, do jeitinho que ele está, sem tirar nem pôr esses quatro anos que vêm chegando a passos largos: no rosto, no corpo, no cérebro. Quatro anos e ainda cabe no meu colo, embora pareça, cada vez mais, transbordar do meu coração.
Um bólido, um dínamo, um ás, um foguete. Zuuuuuuum. Corre, pula, rola, grita, quer tudo agora, quer tudo rápido. Zuuuuuuuuuum. Já foi, não pode tirar o olho um segundo, caiu, levantou, tá lá de novo, já passou.
Ele é sempre assim?
Sempre. Mas não vai ser assim para sempre.
Vai crescer. Vai parar de correr, vai parar de rolar, vai se interessar por outras energias, outras maneiras de explorar o mundo. Pode ser que continue indômito. Pode ser que se transforme. Podem ser tantas coisas, que agora eu prefiro ficar com ele, do jeitinho que ele está, sem tirar nem pôr esses quatro anos que vêm chegando a passos largos: no rosto, no corpo, no cérebro. Quatro anos e ainda cabe no meu colo, embora pareça, cada vez mais, transbordar do meu coração.
sexta-feira, 11 de março de 2016
Treta Park
Era um dia de sol. O parquinho, portanto, estava populado: duplas de irmãos corriam aqui, trios de amigos se balançavam acolá, Arthur pulava na caixa de areia. Tudo normal.
Até que o fantasma da treta, o Tretageist, chegou.
O Tretageist é primo do famoso Poltergeist, de quem tem um pouco de inveja e ciúme.
O Tretageist não traz pedras e nem arrasta móveis e objetos. Não! Ele, na verdade, se esconde atrás da polêmica, se alimenta da dinâmica pré-conceituada e de pataquadas e, em vez de se manifestar através de objetos, ele se faz presente em meio às pessoas. Sabe aquela frase infeliz que, assim que saiu da sua boca, você já sabia que ia dar treta com seu irmão? Foi ele. E aquele comentário da sua filha, na hora errada e para a pessoa errada? Ele também. Ultimamente, tretinha encontrou um novo habitat muito confortável e rico em alimentos, e lá tem ficado muitas horas do dia: o Facebook. É treta atrás de treta, de grupos sobre maternidade a páginas pessoais, passando por postagens de empresa e até mesmo chegando ao mundo acadêmico! Mas não se enganem, não. Tretageist não marca touca na vida real e basta um mísero descuido e ele – pá! – se manifesta. Em qualquer língua ou localidade geográfica.
Então estávamos nós no parquinho, fazendo as coisas normais de parquinho – a saber: correndo descabelada atrás da criança, segurando o balanço que ia acertar a boca do garoto brincando de pega-pega, agarrando o tornozelo da garota que ia caindo do trepa-trepa etc.
Mas Arthur, possuído pelo ritmo da Ragatanga e pelo Tretageist, resolveu empurrar um moleque. Chamei atenção, tudo bem, vida que segue. De novo. Chamei atenção, alertei que era o segundo aviso, o terceiro ele sabe que é casa, parou, pediu desculpas. Foi brincar em outro canto. Mas, uma vez evocado o Tretageist, é difícil se livrar dele. Ele curte brincar com efeito dominó. Então o moleque empurrado pelo Arthur resolveu descontar a frustração de ter sido empurrado em outro garoto. Empurrou. Mas o garoto era mais velho, fez que não viu o Tretageist por trás dos olhos empesteados do moleque e seguiu adiante. O moleque foi atrás. De novo. Mas a mãe dele não chamou atenção, nem avisou, nem notou, na verdade. Então o garoto mais velho fez o que ele poderia fazer: empurrou o moleque, que desceu o escorrega chorando, gritando e urrando.
A mãe, do outro lado do parque, gritou com sua voz poderosa:
FULANO (não peguei o nome), ABRE ESSA SUA BOCA E FALA O QUE ACONTECEU EM VEZ DE CHORAR.
Cabeças se viraram para a mãe. Todo mundo naquele lugar viu o Tretageist ganhando corpo. Ficamos imóveis.
O moleque correu para a mãe, abriu a boca e falou. O quê, ninguém sabe. Mas a gente sabe que a mãe continuou no mesmo tom e volume:
NÃO PODE EMPURRAR, VOCÊ TÁ CERTO. QUEM FOI QUE TE EMPURROU?
O moleque responde.
UM GAROTO MAIS VELHO?
Responde de novo.
QUEM É? MOSTRA PRA MIM?
A tensão crescendo. Mães e pais chamam seus filhos para mais perto. A mãe se levanta. O moleque vai andando até apontar um dedão bem apontado para o garoto mais velho.
EI, GAROTO, VOCÊ NÃO PODE EMPURRAR OS OUTROS.
O garoto nada.
GAROTO, TÔ FALANDO COM VOCÊ!
Pensei, meio assustada e bastante ansiosa, cadê a mãe dessa criança, pelamor?!
EI, GAROTO, OLHA PRA MIM, TÁ ME OUVINDO?
Nisso chega a mãe do garoto, esbaforida, sacoleja os braços para chamar a atenção do filho e... começa a fazer perguntas através da linguagem de sinais.
Bróder, o garoto era deficiente auditivo!
As mães conversaram. Dessa vez em voz baixa, não deu para ouvir, mas dava para ver que uma estava sem graça por conta do filho ter empurrado uma criança mais nova e a outra, por conta da deficiência tomada por falta de educação do filho da outra.
Os ânimos se acalmaram, elas ficaram uma meia hora conversando, as crianças todas foram empurrar novos garotos e garotas, Arthur brincou de dar socos e pontapés em duas menininhas, as menininhas eram mais da pá virada que ele, afastamos os indomáveis, Arthur foi brincar de pega-pega ou grita-grita com o moleque, o garoto foi ver passarinhos e assim seguimos a tarde de sol depois de mais um inverno enclausurado.
Tretageist se entediou, ou ficou com fome, ou ficou satisfeito com a treta alcançada e voltou para os memes/posts/discussões acaloradas sobre o futuro político do Brasil.
E nós, bem, nós agora temos um parque rebatizado: o Treta Park. Onde as treta-kids tretam umas com as outras alegremente.
Até que o fantasma da treta, o Tretageist, chegou.
O Tretageist é primo do famoso Poltergeist, de quem tem um pouco de inveja e ciúme.
O Tretageist não traz pedras e nem arrasta móveis e objetos. Não! Ele, na verdade, se esconde atrás da polêmica, se alimenta da dinâmica pré-conceituada e de pataquadas e, em vez de se manifestar através de objetos, ele se faz presente em meio às pessoas. Sabe aquela frase infeliz que, assim que saiu da sua boca, você já sabia que ia dar treta com seu irmão? Foi ele. E aquele comentário da sua filha, na hora errada e para a pessoa errada? Ele também. Ultimamente, tretinha encontrou um novo habitat muito confortável e rico em alimentos, e lá tem ficado muitas horas do dia: o Facebook. É treta atrás de treta, de grupos sobre maternidade a páginas pessoais, passando por postagens de empresa e até mesmo chegando ao mundo acadêmico! Mas não se enganem, não. Tretageist não marca touca na vida real e basta um mísero descuido e ele – pá! – se manifesta. Em qualquer língua ou localidade geográfica.
Então estávamos nós no parquinho, fazendo as coisas normais de parquinho – a saber: correndo descabelada atrás da criança, segurando o balanço que ia acertar a boca do garoto brincando de pega-pega, agarrando o tornozelo da garota que ia caindo do trepa-trepa etc.
Mas Arthur, possuído pelo ritmo da Ragatanga e pelo Tretageist, resolveu empurrar um moleque. Chamei atenção, tudo bem, vida que segue. De novo. Chamei atenção, alertei que era o segundo aviso, o terceiro ele sabe que é casa, parou, pediu desculpas. Foi brincar em outro canto. Mas, uma vez evocado o Tretageist, é difícil se livrar dele. Ele curte brincar com efeito dominó. Então o moleque empurrado pelo Arthur resolveu descontar a frustração de ter sido empurrado em outro garoto. Empurrou. Mas o garoto era mais velho, fez que não viu o Tretageist por trás dos olhos empesteados do moleque e seguiu adiante. O moleque foi atrás. De novo. Mas a mãe dele não chamou atenção, nem avisou, nem notou, na verdade. Então o garoto mais velho fez o que ele poderia fazer: empurrou o moleque, que desceu o escorrega chorando, gritando e urrando.
A mãe, do outro lado do parque, gritou com sua voz poderosa:
FULANO (não peguei o nome), ABRE ESSA SUA BOCA E FALA O QUE ACONTECEU EM VEZ DE CHORAR.
Cabeças se viraram para a mãe. Todo mundo naquele lugar viu o Tretageist ganhando corpo. Ficamos imóveis.
O moleque correu para a mãe, abriu a boca e falou. O quê, ninguém sabe. Mas a gente sabe que a mãe continuou no mesmo tom e volume:
NÃO PODE EMPURRAR, VOCÊ TÁ CERTO. QUEM FOI QUE TE EMPURROU?
O moleque responde.
UM GAROTO MAIS VELHO?
Responde de novo.
QUEM É? MOSTRA PRA MIM?
A tensão crescendo. Mães e pais chamam seus filhos para mais perto. A mãe se levanta. O moleque vai andando até apontar um dedão bem apontado para o garoto mais velho.
EI, GAROTO, VOCÊ NÃO PODE EMPURRAR OS OUTROS.
O garoto nada.
GAROTO, TÔ FALANDO COM VOCÊ!
Pensei, meio assustada e bastante ansiosa, cadê a mãe dessa criança, pelamor?!
EI, GAROTO, OLHA PRA MIM, TÁ ME OUVINDO?
Nisso chega a mãe do garoto, esbaforida, sacoleja os braços para chamar a atenção do filho e... começa a fazer perguntas através da linguagem de sinais.
Bróder, o garoto era deficiente auditivo!
As mães conversaram. Dessa vez em voz baixa, não deu para ouvir, mas dava para ver que uma estava sem graça por conta do filho ter empurrado uma criança mais nova e a outra, por conta da deficiência tomada por falta de educação do filho da outra.
Os ânimos se acalmaram, elas ficaram uma meia hora conversando, as crianças todas foram empurrar novos garotos e garotas, Arthur brincou de dar socos e pontapés em duas menininhas, as menininhas eram mais da pá virada que ele, afastamos os indomáveis, Arthur foi brincar de pega-pega ou grita-grita com o moleque, o garoto foi ver passarinhos e assim seguimos a tarde de sol depois de mais um inverno enclausurado.
Tretageist se entediou, ou ficou com fome, ou ficou satisfeito com a treta alcançada e voltou para os memes/posts/discussões acaloradas sobre o futuro político do Brasil.
E nós, bem, nós agora temos um parque rebatizado: o Treta Park. Onde as treta-kids tretam umas com as outras alegremente.
terça-feira, 23 de fevereiro de 2016
Língua
Olha, sem favor (e sem modéstia), duas coisas estão de parabéns: meu inglês e a burocracia estadunidense.
Que mês, minha gente!
Existem alguns processos administrativos (normais) abertos por mim. E quando eu me lembro que reclamava da burocracia brasileira, agora eu coloco em perspectiva e vejo que é um luxo discutir sobre os meandros oficiais e oficiosos que um processo pode trilhar na língua pátria. É um luxo soletrar o nome sem pensar em cada letra (por que as vogais aqui têm nomes tão diferentes?). É puro glamour discutir sem tentar se lembrar da ordem dos adjetivos ou adjuntos adnominais em uma simples frase.
Se eu fosse dona de cursinho de inglês no Brasil, faria as provas assim: por telefone, com atendentes falando bem rápido e em termos técnicos do outro lado, e você precisando anotar números e códigos enquanto conta ao interlocutor coisas bastante complexas, como o resumo do seu caso em aberto.
Números são um mistério. Uma vez uma linguista me disse que dá para ter uma boa pista da língua dominante de um falante ao pedir para ele fazer uma conta: ele vai pensar nos números na língua com a qual se sente mais confortável. Tem gente, é verdade, que não se sente confortável com números em língua nenhuma, mas ainda assim vai contar e somar ou subtrair aos trancos e barrancos da língua dominante.
Dei sorte até agora, porque as pessoas que me atenderam foram solíticas, pacientes e simpáticas. Até uma bênção eu recebi ao fim de um dos inúmeros telefonemas. Mas já lidei com atendentes modorrentos que tudo o que mais queriam era, aparentemente, fazer coro com o Trump e me mandar de volta (de preferência de bote) para meu país de origem.
Todas as vezes que passo por situações difíceis ou desafiadoras por ser imigrante, penso automaticamente em duas coisas: 1) como as pessoas que estão ilegais em países diferentes do que nasceram devem sofrer e ficar realmente à margem; 2) como as pessoas fantasiam a respeito da vida que levo aqui nos EUA.
Tem coisa boa? Claro que tem! Tem coisa linda? Óbvio que sim! Vale à pena? Bom, por enquanto está valendo e, como diria Pessoa, "tudo vale à pena quando a alma não é pequena". A alma é grande, mas a paciência e a perseverança também precisam ser imensas. Frustração é meu nome do meio, quando tento ser a mesma pessoa que sou no Brasil e não consigo. Costumo brincar que sou muito mais inteligente em português, mas é verdade: as limitações da linguagem ainda são um empecilho (será que um dia deixarão de ser? Não sei. Minha avó é imigrante, está no Brasil há mais de 40 anos, e até hoje a linguagem impõe sua cancela em certas situações). Cansaço é meu nome quando, depois de pensar em português por questões profissionais, preciso rapidamente mudar o código e me comunicar em inglês. Dá preguiça de sair de casa, dá medo de falar no guichê, dá nervoso repetir, repetir, repetir e saber que não, a pessoa do outro lado não entendeu o sotaque. E, é evidente, as dificuldades não param por aí. A língua é só a primeira de uma série de barreiras alfandegárias de uma aduana perene. A língua é o passaporte arregaçado na primeira frase, embora às vezes errem um pouco a geografia e me localizem no leste europeu. A língua é a mais óbvia e mais eficaz ferramenta de separação entre mim e eles. Entre mim e tantas coisas. Entre uma vida confortável e uma vida desafiadora.
Poderia eu dizer que só os bilíngues são felizes, mas eu tenho alma, e das grandes, então prefiro dizer que são felizes aqueles que, apesar da língua, vão contar a história. A história de se estar deslocada, em deslocamento, fora do eixo da acomodação.
Espero que um dia essa seja a minha história.
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