quinta-feira, 18 de agosto de 2022

Check listing na madrugada

 Uma e vinte e cinco e cá estou de novo insone.

Vamos ao check list da mudança:

- data: 1 de setembro

- apartamento: ✅

- escola das crianças: 😭😭😭❌

- trabalhos entregues: 0 de 4

- vistos: ✅

- passaportes: 3 de 4

- identidades: 3 de 4

- malas prontas: 0 de 4

- exames completos: 5 de 8

- doença autoimune detectada às vésperas da viagem: ✅ 😭😭😭


Resumo: caos, caos, pânico, desespero, angústia, insônia, caos, não vai dar tempo.









terça-feira, 9 de agosto de 2022

Preparando a partida

 São duas da manhã. Achei que fosse dormir cedo hoje. Tenho tido muita dificuldade para dormir porque passo horas listando as pendências, repassando as listas, tentando equilibrar os pratinhos dos prazos.

Hoje eu achei que fosse dormir cedo. Mas meu cachorro vomitou e cá estou.

Amanhã será um longo dia, mas não vou poder beber muito café porque hoje, estando cansada e precisando fazer mil coisas, bebi muito café e fechei a tarde com uma crise de ansiedade: palpitação, aperto no peito, sensação de morte.

Passou. 

A semana vai ser intensa, pesada.

O que me resta é respirar fundo, ir lidando com as urgências conforme elas aparecem e torcer para dar tudo certo.

sexta-feira, 29 de julho de 2022

Gincana da viagem

 Parece gincana, desafio, teste de aptidões e limites. Parece corrida, maratona, prova de resistência. Parece um lugar novo, embora muito familiar.

Faltam menos de dois meses para a mudança. Com certeza não temos mais dois meses de Brasil, mas ainda não sabemos exatamente quando vamos.

No momento, temos: passaportes. Não todos, ainda faltam dois. Mas é isso. Não temos apartamento alugado, passagens compradas, visto carimbado, móveis, matrícula nas escolas, nada disso. Temos um carrinho com colchão e escrivaninha na Amazon e uma sacola com toalhas e lençóis que uns amigos nos deram na casa de outros amigos. O carrinho é pra gente não chegar sem nada, numa casa completamente vazia. Também devem ter umas panelas, uns talheres, coisas de cozinha, porque tem sempre gente se mudando.

As malas estão longe de estarem prontas. Os trabalhos se acumulam com tantas e tantas urgências pipocando todos os dias.

Pegamos viroses (não covid), atrasamos coisas no trabalho, desmamei completamente o Gael e tô apertadíssima de grana (quem não está?).

Será que vai ter passagem? Será que o voo vai ser tranquilo? Será que vamos conseguir o apartamento do qual gostamos? Será que compro casaco agora ou mais pra frente? 

Uma amiga de lá está grávida! Que loucura! Vai ser lindo estar lá quando o bebê nascer. Vai ser incrível poder ajudar, poder retribuir a ajuda de quando eu fui a puérpera.

Será que vou conseguir um emprego? O que será da gente em 2023? Gael vai gostar? Que bom que ele já sabe um pouco de inglês, pelo menos chega com alguma referência! Arthur está quase indo pra middle school! Onde vamos passar o Natal? Não posso esquecer de levar um estoque de farofa. Saudades do meu pai, que comprava farofa, mate e paio para eu levar na mala.

Vai ser difícil fazer outra mudança daqui a um ano. Tomara que minha família fique bem por aqui no Brasil. Tomara que o Brasil fique bem. E que eu fique bem por lá. Não deu tempo de ir aos médicos que eu queria. Vou fazer o que der nesses 40 ou 50 dias que ainda temos. Pensei em fazer um diário, mas não cabe na minha vida mais uma tarefa, um compromisso. Eu mal consigo cumprir o essencial. Em setembro, lá pelo dia 20, eu acho que consigo tirar umas mini férias, passar uns três dias sem fazer nada, olhando pro teto. Mas até lá, até lá é gincana, maratona, prova de resistência, insanidades cotidianas e burocráticas que não acabam quando pisarmos em solo estadunidense. Essa gincana vai, com certeza, até setembro/outubro. Talvez até mais longe.

Sigamos.

domingo, 15 de maio de 2022

Tudo (novo) de novo

 Já cochichávamos por aqui e por ali, até que o assunto ficou tão constante que fiquei com medo de Arthur escutar e fantasiar: decidi que deveríamos nos sentar com ele e explicar o que estava acontecendo, o que ia acontecer.

Quando terminamos a história, ansiosos, preocupados, cheios de expectativa, Arthur perguntou: quando a gente vai, é depois de junho?

É nessas horas que eu enxergo a criança no meu filho tão crescido, que quer parecer mais velho do que é (e que às vezes me engana nisso). Nossa vida está virando de ponta cabeça mais uma vez e a preocupação dele é com o aniversário dele, uma festa cheia de planos e sonhos, a coisa mais importante para ele neste momento.

Ele não antecipa a ansiedade de entrar numa escola nova, ou de voltar para a mesma escola e perceber que as pessoas todas mudaram, ele não antevê os longos voos, a adaptação do irmão, o frio, a saudade das vovós (hoje tão presentes e constantes na vida dele) e da nossa rotina aqui, ele sequer nota que a televisão e o videogame ficam.

Para ele, o importante é que em junho ele vai poder ter uma festa de aniversário com os amigos. E que vamos poder visitar o Children's Museum outra vez. Ele ainda não entendeu que vamos até poder voltar ao Great Wolf Lodge, o passeio que ele mais gostou de fazer até hoje. 

Para Arthur, só existe o bom, o vibrante, a alegria, o instante vivido e as coisas pelas quais valem a pena se preocupar envolvem felicidade e realização.

***

Se estou com medo de voltar a morar em Evanston por um ano? CLARO QUE SIM!

Mas estou levando comigo o sol da minha vida, e esse amor que ele emana vai me aquecer no inverno intenso na beira do lago Michigan.

segunda-feira, 18 de abril de 2022

Um processo

 Estou me mudando. Não de novo: ainda. Às vezes me pego muito triste por algo que ficou por lá, muito saudosa da vida que levava lá, mas também muito aliviada por tudo que tenho podido aproveitar aqui.

É um processo, a adaptação. Não sei se vou me adaptar integralmente. Nem sei se quero isso. Essa inquietação, esse estranhamento me deixam mais presente nos momentos. 

O que será que teremos em 2023?

sexta-feira, 29 de outubro de 2021

Metas 2022

 Vida profissional

  • Projeto especial 1;
  • Projeto especial 2;
  • Estudar mais: em 2021 eu fiz alguns cursos (3 com certificado e 1 especialização) e também assisti a algumas palestras na minha área de atuação. Espero que em 2022 eu tenha a oportunidade de fazer mais alguns cursos e aprofundar meus conhecimentos com palestras, aulas e afins;
  • Obter uma conquista importante, um reconhecimento público ou um aumento financeiro.
Vida pessoal
  • Viajar para algum lugar de carro;
  • Viajar para algum lugar de avião;
  • Conhecer 3 lugares novos;
  • Revisitar um lugar antigo;
  • Fazer pelo menos 8 meses ininterruptos de exercícios regulares (pelo menos 3x na semana);
  • Continuar na terapia;
  • Fazer uma coisa, qualquer coisa só minha e só para mim;
  • Concluir 3 trabalhos de crochê ou tricô;
  • Ler 4 livros por lazer (meta baixa, eu sei, mas eu conheço minha realidade).
Vida familiar

  • Uma vez a cada 2 meses fazer um programa legal com as crianças;
  • Uma vez por mês fazer um passeio só com marido;
  • Uma vez a cada 2 meses fazer um programa legal com as crianças e as vovós;
  • Uma vez a cada 2 meses visitar minha avó;
  • Comemorar aniversário das crianças;
  • Fazer uma festa de Halloween.
Saúde

  • Fazer um check-up completo;
  • Corrigir o que o check-up indicar que precisa ser corrigido;
  • Comer legumes e verduras 6 dias por semana;
  • Meditar mais vezes.
Consumo

  • Economizar 3% dos ganhos mensais;
  • Trocar de celular;
  • Comprar uma estante para os livros.
Geral

  • Fazer alguma coisa em 2022 que se reflita positivamente em 2023 ou até mesmo por mais tempo.

E vocês? Têm metas para o próximo ano? Já estão sonhando, como eu, com o fim da pandemia e com a volta a uma vida repleta de pessoas?

quarta-feira, 13 de outubro de 2021

Ah, a vida...

Ah, a vida e suas reviravoltas. Marido não foi para os EUA. Ficamos todos no Brasil-il-il. Até quando não sabemos, espero que mais um tempo, porque vida de imigrante é difícil e viver em português, com a família por perto e conhecendo tudo que me cerca é uma delícia.
No mais, seguimos sem aglomerações, festas ou badalações, vivendo uma vidinha privilegiadamente simples, encarando um dia de cada vez, enfrentando os problemas que nos aparecem e aproveitando os refrescos que surgem aqui e ali.
Continuo querendo focar cada vez mais no que quero fazer e, embora não dê para fazer tudo de uma vez, sinto que concluí ou iniciei etapas importantes nesse 1 ano e 4 meses de Brasil. Pendências antigas estão sendo resolvidas, projetos novos ganharam mais estrutura e até mesmo novas ideias surgiram, esperando somente um terreno fértil e o tempo certo para brotarem.
Metas até dezembro: estudar mais, me exercitar mais, dormir melhor e organizar as metas para 2022.
E vocês (se é que alguém ainda vem aqui): já sonhando com 2022?

sexta-feira, 9 de julho de 2021

Quase 2022, em navegação

 Julho chegou. Eu pisquei e a postagem de maio já foi já um tempão.

Gael fala pelos cotovelos. Coisas muito pertinentes e sagazes.

Hoje, por exemplo, o pai falou: tira o dedo do nariz, gael. Ao que ele respondeu: Ah tá, só o papai pode. 😳

Arthur está bem, feliz na escola brasileira e totalmente adaptado à nova realidade.

Eu estou vacinada! Dose única da Janssen numa sorte danada porque eu não sou nem besta de ficar escolhendo vacina. Mas que gostei de ser dose única, isso eu gostei!

Marido vai voltar mesmo para os EUA. Sozinho, coitado. Estou lutando com muito empenho em me restabelecer profissionalmente aqui e dar uma voltinha de um ano nos EUA com certeza não vai me ajudar. As crianças estão felizes e adaptadas aqui, não vemos motivos para mudar a rotina delas só para passarmos um ano fora. Então, em algum momento entre setembro e dezembro de 2021, marido volta aos EUA, sozinho, fica lá até mais ou menos maio de 2022 e aí volta. 

Minha cabeça já está, portanto, em 2022, que é quando nossa vida volta a ser uma grande incógnita profissional, com marido desempregado e eu, bom, eu não sei como estarei até o fim do ano. Tenho procurado emprego, fiz uma entrevista, fui sondada para outra vaga (mas pagava muito pouco e eu precisei recusar), mas nada de muito concreto apareceu. Vou levando, então, no frila. Mês a mês. É o que dá para fazer agora.

Quase fomos morar na Carolina do Norte. Quase fomos morar na Alemanha. Quase fomos morar em Michigan. Mas continuamos mesmo por aqui. 

Estou pensando em fazer um curso no fim do ano. Estou pensando em estudar francês. Estou pensando em aprender programação. Estou pensando mais em mim. E é tão bom! Nem sempre os caminhos são claros ou acertados, mas estou sempre buscando uma conexão com minha essência, olhando para dentro quando preciso de bússola. Às vezes dá ruim, a bússola não basta ou está meio desregulada, mas eu tento. 

Hoje tomei uma decisão importante e segui o caminho do meu coração. Doeu, foi tenso, mas trouxe frutos: um doce, do acolhimento, um amargo, de coisas que ainda nem sei nomear. O importante é seguir com a alma desfraldada e guiando o que singramos. Viver é preciso. Navegar não é preciso.

domingo, 30 de maio de 2021

Um ano de Brasil

 Faltam poucos dias para completarmos um ano de Brasil. Dizem que, depois de morar fora, uma pessoa se sente duplamente deslocada: primeiro no país estrangeiro, depois em seu próprio país.

De fato, notei algumas mudanças profundas em mim, que certamente foram se esgueirando para dentro da minha rotina, da minha personalidade e, só de volta ao Brasil, pude reparar em como sete anos de EUA me impactaram.

(Hoje eu me planejo com antecedência, confirmo compromissos apenas uma vez (e apareço), não chego mais atrasada aos lugares e sempre telefono se vou demorar mais do que 3 minutos a partir da hora marcada, janto super cedo (entre 5 e 6 da tarde) e coloco muito mais a mão na massa nos pequenos reparos da casa.)

Por outro lado, experimentei uma sensação muito menor de deslocamento do que eu vinha esperando. Meus hábitos alimentares foram logo readaptados (embora de vez em quando eu sinta falta de algo que é difícil de encontrar onde moro agora, tipo creamer), estabeleci uma rotina satisfatória, criei hábitos saudáveis e fiquei muito feliz de estar outra vez em um lugar quente e com sol.

No balanço geral, o primeiro ano de Brasil foi bom. Tivemos alguns percalços, mas o saldo total foi positivo. A pandemia não me deixou estar fisicamente perto de muita gente, mas pude abraçar minha mãe e outras pessoas da família (depois de todos fazermos quarentena), vi alguns amigos (de máscara, em espaço aberto, sem chegar perto, mas vi!) e agora temos um cachorro!

Mas, como tudo que é bom dura pouco, marido precisa voltar para os EUA por um ano, e agora estamos tentando decidir o que vai ser melhor para todos: ele ir sozinho e nós ficarmos ou todos embarcarmos em uma nova velha aventura (já que voltaríamos para Evanston de novo).

Aguardem os próximos capítulos.

domingo, 3 de janeiro de 2021

Criando novos hábitos

 Para mim, é um esforço contínuo criar um hábito saudável. Como bem, não bebo, fumo ou uso drogas de qualquer espécie, mas gostaria de cultivar alguns hábitos mais saudáveis: beber mais água, fazer exercício físico regular e ter pelo menos um ato de auto-cuidado diário.

Essa foi uma decisão de ano novo, mas comecei a colocá-la em prática um pouco antes, a partir do fim de novembro. Portanto, acabei de completar um mês de exercícios pelo menos 3x por semana + cuidados diários comigo. 

Engordei 1,5kg desde que comecei a malhar, mas não acredito que já tenha ganhado esse tanto de massa magra. Meus objetivos são, na ordem: melhorar meu condicionamento físico, reduzir gordura e aumentar massa magra, criar o hábito e não precisar mais me esforçar para fazer essas coisas.

Os benefícios que já sinto: meu humor está melhor, minha pele melhorou, a flacidez na barriga pós-gravidez melhorou, tenho muito mais fôlego para as atividades diárias.

Vou postar aqui de vez em quando sobre isso, para servir de estímulo para que eu siga neste caminho.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

Derrota

 Abri a internet e dei de cara com uma matéria de uma revista famosa que trazia na foto uma ex-colega de faculdade. Um sucesso a empresa dela: o reflexo de uma carreira feita em grandes e prestigiosas corporações.

Fiquei muito feliz, sempre gostei da moça que, além de talentosa, sempre foi uma pessoa boa e generosa. Em um país pingando de fel e mau caratismo, dá gosto ver alguém bacana se dando bem para variar.

Enquanto isso, vou enfileirando derrotas. 

Sou um fracasso profissional e mal consigo manter a cabeça para fora da água. Pequenos sucessos cometeram a crueldade de me dar esperança, só para depois confirmarem minha incompetência: eis as chances, todas desperdiçadas. Concursos literários, entrevistas de emprego, projetos bem estudados, planos de carreira. Nada sobrevive ao terremoto que sou. À bomba atômica. Arraso o que se erguer diante de mim, transformando tudo em uma grande planície, para que, quando enfim jazer meu corpo no campo de batalha, todos possam distinguir, sem hesitação ou confusão, a única responsável por esse fracasso.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

Voltei

 Em junho.

A mudança foi a coisa mais difícil que já fiz até agora. Não o dia em que entregamos o apartamento. Não quando entramos no avião. O processo completo.

Começou em março, com a pandemia. Eu tinha um trabalho, marido também. Arthur na escola, Gael com a gente em casa e, BUM, veio o caos. As passagens estavam compradas, já sabíamos da mudança, já era um plano. Mas a pandemia elevou tudo a novas potências.

Eu atrasei a entrega do trabalho. Marido idem. Arthur e Gael e eu e marido e o peixe trancados dentro de um apartamento de quarto e sala, longe da família, vendo as notícias das mortes, assistindo os colapsos, nos perguntando tantas coisas (e se pegarmos? e se não conseguirmos sair? será que no Brasil também veremos caixões pelas ruas? quem perto de nós vai morrer?). O trabalho nos pesava muito, porque não dávamos conta e sentíamos culpa, medo, ansiedade.

Chorei incontáveis vezes. Eu jurei que entraria em colapso. E acho que entrei. Fui diagnosticada com transtorno do estresse pós-traumático, embora eu ache que tenha sido a mistura bombástica de estresse e ansiedade.

Eu empacotei minhas coisas aos prantos. Joguei fora móveis, papéis, brinquedos, livros, roupas. Me despedi de sete anos em Chicago. Mas não uma despedida adequada: não foi possível visitar os lugares que gostaríamos, não conseguimos ver as pessoas, falar adeus para nossa rotina.

Chorei muito. Muito mesmo. De exaustão, medo, ansiedade e sofrimento por ir embora assim, meio fugida. Fugindo do vírus.

O processo durou de março até junho e nunca briguei tanto com as pessoas ao meu redor. Doía tudo: corpo e alma. Sozinha. Só nós 4 e o peixe, que foi doado porque não dava para trazer conosco. Sei lá se morreu. Não tive coragem de perguntar à nova dona. O aquário foi para outra pessoa, uma brasileira que morava perto. A bicicleta foi para o lixo, o sofá a gente vendeu para os garotos que estavam se mudando para o apartamento do lado, onde antes morava um jogador de futebol americado com mais de 2m de altura e que se desmanchava em sorrisos quando via Gael. 

Foram 11 malas despachadas, 4 malas de mão, um carrinho, uma cadeirinha de carro e duas crianças. Era muita responsabilidade para só dois adultos.

No aeroporto foi tenso. O voo foi um pesadelo, com gente sem máscara espirrando e tossindo perto de nós. A mulher na cadeira ao lado pediu para comprar uma passagem de primeira classe ali, na hora, já dentro do avião. Não tinha como. Tudo lotado, disse o comissário de bordo. Lotado. Dormi mal, arrastei todas as malas, carreguei as crianças, coloquei as crianças para dormir, alimentei. Assisti "O diabo veste Prada" - já tinha visto antes. E acho que mais um filme. Não me lembro.

Chegamos e viajamos mais, porque não ficaríamos no Rio.

Ah, que eu não me esqueça que antes disso tivemos passagem cancelada à revelia, compramos briga no guichê do aeroporto porque nos venderam as malas extras erradas e queriam que pagássemos pelo erro deles. E teve correria para fazer passaporte. E trouxemos livros da biblioteca por engano, estou devendo uma fortuna de multa porque ainda não tive tempo de parar e resolver nada. Aliás, eu estava no mercado, na vila com menos de mil habitantes onde estamos, quando tocou o telefone e era a secretária da escola, da ex-escola do Arthur perguntando se eu já sabia para onde iríamos, porque saí de lá sem saber muito bem para onde transferir meu filho. Avisei que estava no Brasil, pedi os documentos. Foi o que consegui resolver até agora.

A mudança, repito, foi muito difícil. Uma mudança internacional, com 15 malas, um carrinho, uma cadeirinha de carro, 2 crianças, no meio de uma pandemia.

Voltei. Daqui a pouco eu chego.

sábado, 21 de março de 2020

Começo do desespero

Este é nosso décimo dia de isolamento.
Hoje o governador do estado de Illinois decretou que todos os habitantes devem permanecer em casa, a não ser para realizar atividades essenciais. São atividades essenciais :comprar comida e medicamentos, cuidar de membros da família que precisam de suporte, levar cachorros para passear, ir ao médico, ir à loja de material de construção, praticar atividades físicas individuais.
O mais difícil do isolamento, para mim, é parar de pensar no que está acontecendo. Os números crescentes, a distância dos meus amigos e familiares e o impedimento de sair de casa me angustiam muitíssimo.
Sei que estamos no começo apenas. As próximas duas ou três semanas serão duríssimas para os EUA, mas sobretudo para o Brasil.
Minha expectativa é terrível: milhões de mortos, falta de hospitais e materiais, meses de sofrimento, saques, depressão econômica, crise política e muito desespero. Serão anos para vermos qualquer sinal de recuperação.
Tomara que eu esteja errada.

sábado, 14 de março de 2020

A chegada da pandemia

Eu nunca estive nas manchetes. Furacões, atentados, epidemias e outras desgraças sempre foram palavras impressas. Um privilégio danado, eu sei. Ou melhor, eu agora sei.
Ontem (sexta 13) foi o dia D na cidade onde moro: as escolas anunciaram o fechamento, o clube e a à biblioteca pública seguiram de perto, os supermercados ficaram com as prateleiras absolutamente vazias e a Universidade vizinha a nossa casa divulgou o primeiro caso de covid-19. Em menos de 24h a quarentena ficou real e presente.
Já prevendo o fechamento inexorável da biblioteca, saí de manhã com as crianças (Arthur já não frequentava a escola desde quinta) para ir buscar livros e garantir um pouco de entretenimento diante da estada compulsória dentro de casa.
As ruas da cidade estavam bem menos movimentadas. O funcionário que entregou os livros a mim parecia tão temeroso quanto eu e o banho de álcool gel que tomei no saguão da parte infantil não causou estranheza a nenhuma pessoa ali presente, muito pelo contrário.
O clima aqui é de muita expectativa tensa. Os mercados vazios estão causando muita ansiedade, afinal, todes precisamos comer e a simples de ideia de passar fome já nos deixa apavorados. Outro privilégio, também sei.
Ontem fui ao mercado fazer estoque de alguns itens. Um caos! Hoje marido foi resolver pendências no trabalho que não poderiam esperar o fim da onda e nem poderiam ser realizadas virtualmente.
Amanhã não pretendo sair de casa. Aliás, nem amanhã, nem ao longo desta semana. Na próxima, precisaremos fazer compras, até porque a Amazon, que geralmente usamos para a entrega das comidas básicas do dia a dia, está com o estoque defasado e as entregas atrasadas.
O clima é bem intenso. Meus vizinhos formaram um grupo no Facebook e a imensa maioria está alerta, preocupada e engajada no confinamento por duas semanas.
Eu estou tensa, ansiosa e preocupada.
O Brasil será o próximo na lista da pandemia. Não se iludam, pessoal! É para levar a sério e se cuidar. Lavar as mãos, deixar as unhas bem aparadas, não partilhar objetos, não beijar/abraçar/apertar a mão como forma de se cumprimentar, se puder ficar em casa, fique! O objetivo é diminuir a circulação do vírus e isso só é possível com a diminuição da circulação de pessoas.

Por hoje é só isso.

Volto em breve com outras notícias da pandemia por aqui.

Lavem as mãos!

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

O dia em que eu perdi a noção do tempo

Depois de perder a batata, achei que a vida entraria nos eixos, já que os exercícios viraram rotina e tudo parecia voltar aos eixos depois de três meses de férias na escola do Arthur.
Ledo engano.
Depois de perder a batata, eu perdi a noção do tempo. E comemorei, toda feliz, com um monte de gente, os dez meses do Gael! Opa! Pera. Dez meses? Pois é. Tô tão doida que errei a idade do meu filho. Mas pior mesmo foi marido, que errou o nome da criança e NÃO PERCEBEU!
Estamos cansados. Mas daqui a pouco melhora.

domingo, 8 de setembro de 2019

Uma gravidez fora da barriga

Tá sentadx? Então, senta. Vou falar uma coisa chocante que NÃO é relacionada com uma nova gravidez.
Posso falar?
Gael está com nove meses.
Uma gravidez fora da barriga.
Ele fala mamamamamã e papapapá para as pessoas certas, bate palmas, engatinha, fica de pé com apoio e come comidinhas.
Já usa roupa de 18 meses e tem sete dentes.
Mês que vem vai se matricular na faculdade e no fim do ano, morar sozinho.
Seguimos mamando, sem percalços depois do início turbulento (fissuras, mastite e noites insones).
Arthur está louco de paixão na mesma medida em que está louco de ciúmes, e vamos, dia após dia, tentando administrar essas duas vidinhas que criamos, marido e eu.
Tenho feito exercícios físicos regulares pela primeira vez na vida. Tenho meditado sempre que posso ou lembro. Tenho comido direito. Sigo 4kg acima do peso com que engravidei, 10kg a mais de quando casei. Como chocolate sem leite todos os dias.
Durmo ok. Trabalho pouco para fora de casa (me contratem! Mandem frilas!). Tenho grandes planos, pouco tempo, muita esperança.
Minha vida está em suspensão dentro de um trem-bala. Ali na frente tem uma bifurcação: não sei se voltamos ou se não voltamos para o Brasil.
A meditação mudou minha maneira de encarar todas essas incertezas. Todos os dias eu estabeleço uma meta simples, única e executável. Com isso, conquisto pequenos espaços, alcanço objetivos modestos e piro menos.
Tem dias que tudo explode. Ou desmorona. Ou derrapa. Ou estanca. No dia seguinte tiro o pó e recomeço. Ou sigo em frente.
Nove meses dentro, nove meses fora. Parece que está tudo equilibrado. Mas mês que vem ele faz dez, e é preciso reorganizar tudo de novo. Para sempre.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

O dia em que eu perdi uma batata

Estou tentando escrever este texto já tem uma semana.
Minha vida está caótica.
Administro uma criança de 7 anos de férias (3 meses), um bebê de 8 meses que coloca tudo na boca e já começou a se deslocar (não engatinha, mas quase), um apartamento com todas as suas necessidades (limpar, cozinhar, guardar, lavar, abastecer...), um casamento, uma carreira a distância (muito mais difícil, já que manter contato de longe é complicado), projetos pessoais e profissionais e, no topo disso, minha sanidade. Minha sanidade precisa de: livros, hobbies, banho, exercício físico e meditação. Minha sanidade precisa de muito, porque além de ser muito exigida, já sei que retomar o prumo é infinitamente pior que manter o eixo.
Pois bem, no meio disso tudo meu bebê começou a comer sólidos. E agora, quando vou ao mercado ou cozinho, preciso ter em mente este novo fato.
Semana passada abri a geladeira e tomei um golpe de ar: não havia nada dentro. Comecei a saga "ida ao mercado".
Lembram que há muito tempo contei como era ir ao mercado com Arthur? (Cata lá nos arquivos, que eu vou ser realista: não vou conseguir colocar o link.) Pois ir ao mercado com Arthur + Gael não ficou exatamente mais fácil.
Primeiro preciso fazer uma lista (de compras), depois outra lista (de coisas que vão na mochila comigo), depois outra lista (roupas que preciso separar para todos aqui se vestirem) e, quando já estou exausta de arrumar tudo e de tentar convencer Arthur a sair de casa, é hora de sair.
Eu saio de carrinho, mas levo o ergobaby porque geralmente Gael chora na volta e eu preciso carregá-lo. Eu saio fazendo mil papagaiadas para distrair Arthur. Eu saio já doida para voltar. E é por isso que, ao pisar no mercado, minha mente está focada em uma e apenas uma coisa :pegar tudo rápido e ir embora o mais rápido possível.
Outro dia marido ficou chocado comigo. Fomos juntos fazer as compras e, enquanto ele pegava uma dúzia de ovos e um potinho de morangos, eu já estava na boca do caixa com absolutamente todos os outros itens da lista + uma barra de chocolate extra. Acho que levei 2 minutos para resolver tudo.
Bom, então semana passada fui ao mercado, determinada a sofrer, digo, passar o menor tempo possível na missão compras. Em poucos minutos tinha resolvido tudo, pegado todos os itens, inclusive uma batata, que viraria um purê para dar para Gael.
Geralmente não compro batata porque 1) Arthur não gosta; 2) dá um trabalho do cão esfregar a casca para limpar a terra (batata aqui vem suja, você que limpe). Mas nesse dia estava determinada a fazer o tal purê.
Cheguei em casa, ainda na vibração purê, comecei a guardar tudo, organizar a cozinha para preparar o jantar e dar sequência à rotina de todos os dias.
Eu não sei vocês, mas eu cozinho assim: corre na sala para ver o bebê, briga com o mais velho porque está apertando o bebê, volta e liga o fogo, vai ver o mais velho pulando do lado do bebê, quebra dois ovos, quase joga os ovos no mais velho ou no bebê, corre para diminuir o fogo e mexer, vai pegar o bebê no colo porque chorou, desliga o fogo para não ter acidente com o bebê no colo e vai lavar louça com uma mão só, briga com o mais velho que não é hora de comer nada antes do jantar, aceita o argumento de que pepino antes do jantar pode, coloca o bebê em frente à porta da cozinha, liga o fogo, grita "outro pepino não!" e se pergunta quando virou essa adulta que grita essas frases sem sentido, tira o livro que estava lendo da boca do bebê, queima o omelete, faz o prato, pega o bebê que chorou, diz "não, chega de pepino" para o mais velho, que também chora, coloca o ergo, coloca o bebê no ergo, consola o mais velho, pede ajuda, descobre que o mais velho pegou os talheres mas parou no meio do caminho para ler revistinha e os talheres estão no chão, pega os talheres, lava os talheres, coloca o prato no micro-ondas, esquece os talheres, grita três vezes antes de ser ouvida pelo mais velho, que largou a revistinha e espalhou 457 cartas de Pokémon no chão, pisa em três cartas e num macarrão velho que não sabe de onde veio, senta, esqueceu o copo de água, volta e o mais velho tá comendo com a mão e o bebê jogou o brócolis no chão... E por aí vai.
Acho que vocês captaram a ideia.
Pois bem, nesse dia eu peguei o raio da batata e comecei a esfregar quando o caos se restabeleceu (não vou falar que ele se instaurou porque pode dar a vocês a ideia errada de que o caos não é o padrão, e sabemos que isso não é verdade). Fui acudir alguma urgência e larguei a batata lá. Que rolou quando peguei o prato para lavar e preparar o jantar. Que rolou de novo quando decidi dar outra coisa para Gael naquele dia porque já estava tarde para preparar o purê. Que se escondeu entre a louça por lavar e, finalmente, se escafedeu.
Não temos triturador de lixo acoplado ao ralo. Marido não se lembra de ter jogado a batata fora. Arthur não mexeu na pia. Eu não guardei batata alguma. Para falar a verdade, só me lembrei dela no dia seguinte, perto do almoço, quando a ideia do purê voltou a me atiçar. Mas aí já era tarde, a batata já se tinha perdido. E, como até hoje eu não sei que fim levou a batata, só posso concluir que, não, ainda não venci! Seguirei na luta diária.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

A ferida

Eu tinha poucos anos, não sei dizer com exatidão, mas foi depois da minhas mortes e antes das minhas vidas. Eu usava um triciclo e corria feliz, naquele clichê de infância com vento no cabelo e despreocupação. Fui fazer uma curva e caí. Rolei. Parei na parte de areia antes da água e levantei já sentindo o cotovelo arder.
Não lembro se chorei. Nem como voltei para casa. 
À casa, que não era minha porque depois das minhas mortes eu não tive mais nada, limpei como tinham me ensinado: água, sabão e álcool. Queria pôr um curativo, porque cotovelo costuma chegar primeiro a muitos lugares — mesa, roupa, pessoa ao lado, colchão —, mas se sobrepuseram a casa que não era minha, sem minha gente, e a história perversa que se disseminou na minha infância de que eu não doía. Por isso, fiquei sem curativo, à mercê da cicatrização natural para diminuir minha dor.
Todos os dias eu passava água oxigenada, para não causar infeção. E seguia de perto a transformação de carne viva, rósea e dorida em crosta. No começo eram raios avermelhados. Depois de alguns dias escureceram, adensaram e ao fim mudaram para uma casca marrom e grossa. 
Ainda doía, só que de um jeito diferente.
Tive muito cuidado ali naquele lugar. Era sozinha e uma inflamação era arriscado.
Fui evitando raspar o cotovelo no cotidiano, segui os rituais de cura que pareceram lógicos e que doeram menos e em algum tempo caiu a casca e ficou uma cicatriz. Está aqui até hoje. 
*
Sozinha, naquele quarto de hospital, nasceu  em mim uma outra ferida. 
Ninguém veio ver Gael. Nem a mim. Rostos estranhos entravam, saíam e nunca voltavam. Eu era um número, um protocolo, um prontuário.
Nenhum amigo ligou. Nem mandou flores. Ou presentes. Ninguém correu para ver o ascendente ou fazer o mapa astral do Gael.
Eu contei que estava passando por um mau momento, que foi um parto intenso, mas as pessoas seguiram em conversas paralelas. Ninguém fez chamada de vídeo. Ou mandou comida para minha casa. Ninguém fez um texto bonito para o meu filho. Tão perfeito. Tão incrível.
Ele nasceu e tudo roçava nessa solidão horrorosa e doloridíssima.
De novo eu não estava em casa. As pessoas seguem descrendo de minha dor. Não houve curativo e há oito meses venho acompanhando com cuidado e interesse a ferida. Todos os dias passo unguentos e em alguns poucos dias tentei usar lágrimas. Parece que tem um ponto que está inflamado, mas sem pus ninguém me leva a sério. A distância também não ajuda: já tentou enxergar estando longe em cerca doze horas de voo? Tudo vira ficção. Você imagina tanto, completa muitas lacunas, tantas, aliás, que tem mais das coisas imaginadas que das experimentadas ou testemunhadas.
Todos os dias doem e sigo sozinha. Não vejo ainda estrias avermelhadas em meio à carne viva. Todos os dias eu busco a cura, a cicatrização. Mas a ferida está em área que chega antes em qualquer lugar.

segunda-feira, 17 de junho de 2019

Sete anos de Arthur!

Hoje meu filho completa sete anos.
Arthur é meu sol. Eu digo isso para ele. Não conheço outra criança tão brilhante e tão intensa como ele. Ele chega e tudo em volta de se apaga porque a luz que ele irradia é a mais vibrante, a mais forte, a mais incrivelmente sedutora.
Hoje, olhando para trás, percebo que não só ele é o filho com o qual eu sempre sonhei, mas também é o filho de que eu preciso para ser melhor, para crescer, para encontrar em mim tantas sementes que só germinam com a força que ele traz.
Arthur chega e muda as órbitas. Um líder nato, generoso, teimoso, determinado, pulsante, feroz, curioso, engraçado, doce, esperto, sagaz, intenso, profundo, sensível, cuidadoso, responsável, fanfarrão, divertido, amigo, adorável. Meu filho. Que há sete anos esquenta (às vezes até quase queimar) a pele delicada da maternidade que me reveste todos os dias.
Como eu amo este menino! ❤

sábado, 2 de março de 2019

O parto — parte 4

O quarto ficava em algum andar mais alto, já não me lembro qual, e dava para ver o templo de Bahá'í. Mas isso eu só descobri mais bem mais tarde, quando consegui me levantar da cama. Porque quando cheguei, precisei me deitar.
Eu me acomodei na cama para, em menos de cinco minutos descobrir que passaria 2 dias sem dormir. Mentira. Na hora eu não sabia disso, mas no fim do dia, já.
É que as camas desse hospital têm um sistema de alteração de pontos de pressão para evitar escaras e dores nos pacientes. Por isso, em intervalos regulares e curtos, esteja a cabeceira erguida ou não, a cama se mexia sozinha. No começo foi engraçado é e confortáv. No fim, desesperador! Porque quando eu finalmente encontrava uma boa posição, a cama mudava o ponto de apoio que eu estava usando e eu ficava desconfortável. Ou Gael acordava no meu colo.
Os primeiros momentos neste quarto são um borrão para mim. Não me lembro mais da ordem dos fatos e certamente já esqueci muitos detalhes.
Eu lembro que a primeira ida ao banheiro para fazer xixi foi um pavor. Eu me levantei e parecia que todos os meus órgãos estavam soltos dentro de mim. (E deveriam estar mesmo.) Me senti tonta, fraca, incapaz. Fiz xixi com ajuda da enfermagem, que me ajudou a colocar calcinha descartável, absorvente de 2m de comprimento, saco de gelo e spray anestésico.
Se o parto não teve qualquer intervenção ou medicação, o pós-parto foi uma enxurrada de tudo isso. E esse "tudo isso" teve um impacto significativo em mim.
Quando Gael chegou, veio para meu colo, para o meu peito.
Aqui, o bebê fica, durante todo o tempo que fica internado, de fralda e cueiro apenas. Isso era bom para o contato pele a pele, mas eu fiquei (outra vez) neurótica com a possibilidade de hipotermia. Até porque, em dado momento, mediram a temperatura dele e me pediram para embrulhar bem ele, porque Gael perderá muito calor.
Ficamos nós três ali, pedi comida (o hospital tinha um cardápio de várias páginas! Eu poderia escolher o que eu quisesse do menu, desde mingau de aveia até pizza) e como eu disse, só me lembro de sentir incômodos: as enfermeiras entrando todas as horas, eu ser a responsável por tomar a dose cavalar de analgésicos que me receitaram (e que tomei por medo da amamentação), eu ser a responsável por pedir comida uma hora antes de eu sentir fome (porque o menu era gigante, mas demorava mais de uma hora para chegar o que tivesse sido escolhido), ir ao banheiro e trocar aquele monte de coisas entre minhas pernas, o fato de eu sentir minha musculatura abdominal e pélvica totalmente flácidas e isso me deixar insegura para ir sozinha ao banheiro, para me levantar. Tudo que me lembro do hospital é incômodo.
Arthur veio conhecer o irmão de tarde, depois da escola. Veio, ganhou um lego, ficou todo feliz, todo enciumado, todo amoroso, todo saudoso e foi embora carregando um pedaço do meu coração, deixando um buraco que demorou para cicatrizar.
Não consegui dormir na primeira noite, mas uma hora lá apareceu uma enfermeira perguntando se eu não queria que eles levassem Gael para o berçário e eu quis. Quis porque sabia que precisava descansar e não tinha qualquer rede de apoio para fazer isso depois, em casa. Quis porque estava fraca, vinda de uma gravidez insone e desconfortável. Quis porque eram só duas horinhas, templo que Gael dormia depois de mamar. E essas duas horinhas foram as únicas horinhas que dormi ao longo da minha estada no hospital.
No dia seguinte, quinta-feira, consegui carregar meu celular, tirar fotos, levantar sem achar que iria morrer, mas ainda não conseguia me mexer com Gael no colo e não me sentia segura para andar com ele por aí. Acontece que marido precisou sair por 4h. Tinha umas coisas para resolver. Coisas inadiáveis — mas que hoje eu pediria para ele adiar mesmo assim. Fiquei sozinha. Ninguém veio me visitar. Ninguém me ligou. Ninguém veio conhecer Gael.
As enfermeiras entravam, apertavam meu útero, mediam temperaturas, pressões, valores e iam embora. Eu estava presa à cama que se mexia. Eu era um emaranhado de panos soltos, que me impediam movimentos. Gael, o tempo todo no meu colo. Eu não queria pedir ajuda para as enfermeiras, não sentia abertura na correria impessoal delas. Eu precisava fazer xixi, mas não tinha onde deixar Gael, porque para me levantar alguém tinha de me ajudar, eu não podia me levantar com ele no colo. Estava com fome com sede, cansada. Marido chegou, me salvou, fiz xixi, comi, bebi, ele chegou a ficar 4h com Gael no colo, mas não consegui pregar o olho. A cama se mexia, os hormônios rugiam dentro de mim. Comecei a sentir dor ao amamentar, os mamilos esfolaram.
Eu estava sozinha, vulnerável, a cada 12 horas mudava a equipe e vinham novos rostos apertar meu útero, medir tudo, verificar a icterícia do Gael.
Na sexta nós poderíamos ir para casa. Isso significava um mundo de burocracias. Certidão de nascimento, cadastro do bebê no plano de saúde, avaliações, assinaturas.
Era perto da hora do almoço e eu estava preenchendo o formulário amarelo da certidão de nascimento quando vi tudo rodar. Não foi uma tonturinha, não. O quarto girou, meu lábio empalideceu. Chamamos enfermagem. Mediram tudo, tudo normal. Eu achei que estivesse tendo um treco, um derrame, um ataque cardíaco, uma trombose. Chamaram a neurologista. Perguntei se eu ia morrer. Eu jurava que ia morrer nessa terra gelada, sozinha, sem visitas ao meu recém-nascido tão lindo e grande, ia morrer porque estava fraca, frágil, vulnerável, sem saber onde colocar no formulário amarelo da certidão de nascimento os 4 sobrenomes que Gael carrega.
A médica não respondeu que não. Ela não pode responder isso porque, se eu morrer, ela é processada. Mas a resposta evasiva dela não me ajudou. Reconheci o ataque de ansiedade. Avisei. Fui ignorada. Foram embora. Foram brigar com a cozinha, que ainda não tinha trazido meu almoço. Foram buscar biscoitinhos. Foram anotar no prontuário. Foram.
E o estrago estava feito: exausta, sozinha, vulnerável, responsável pela vida e bem-estar de duas crianças. Eu sentia a pressão de precisar estar bem para criar de tudo, de toda a minha vida que me esperava em casa. Eu estava me sentindo etérea, aérea, um sopro, uma pluma, leve e insustentável. Frágil.
Mas eu não podia ser frágil. Eu precisava ser forte. Inquebrável. Ágil. Destra. Independente. Responsável. Completa.
Mas toda hora vinha um rosto novo apertar meu útero, medir o mensurável, reforçar a fragilidade. Você está bem, mas pode não estar muito em breve. Você gestou e pariu 3,820kg de bebê, mas precisa de ajuda. Não, mais: precisa de vigia. Não uma vigia cuidadosa, amorosa. Uma vigia preocupada, em busca do erro que você vai cometer: deixar o bebê ir para o berçário, não chamar a enfermagem para ajudar, não ligar para a cozinha na hora certa, se esquecer de tomar os analgésicos. Estamos aqui para aguardar o erro. Inexorável e imenso. O erro está aí, basta termos tempo ou técnica para encontrá-lo.

***

A enfermeira obstétrica da clínica que eu frequentava deveria vir me dar alta. Gael estava de alta já há algumas horas. Não perdeu muito peso, icterícia controlada, meu leite já estava descendo e o colostro já não era amarelado, vinha rajado de branco. Gael estava ótimo, lindo, um mamador profissional, conforme atestou a consultora de amamentação que chamei no quarto para ver a pega.
A enfermeira que me daria alta demorou horas.
Eu me debatia entre a insegurança de ir para casa ainda me sentindo muito mal ou ficar no hospital da cama que se mexia e da imensa solidão.
Marido me pressionava para voltarmos para casa: trabalho, Arthur. A vida não parou lá fora. Eu só tinha ganhado mais uma responsabilidade, mais uma fragilidade da qual cuidar.
Eu queria ficar. Tinha medo de ir para casa e acontecer, enfim, o erro.
Eu queria ir embora, para bem longe do protocolo que não me deixava dormir na mesma cama que Gael. Para longe da cama semovente. Queria ver Arthur, abraçar Arthur, amar meu primeiro filho.
Decidi ir embora.
A enfermeira passou lá de noite.
Você sabia que o risco de eclâmpsia não desaparece com o fim da gravidez? Sabia que ela pode se manifestar até 2 semanas depois do parto?
Eu me lembro de estar sentada na recepção do hospital. Uma enfermeira desceu para nos ajudar. Eu fazia muito esforço para entender o que ela dizia. Eu fazia muito esforço para não desmaiar. Eu tinha comido um sanduíche que fiz questão de comprar naquelas máquinas automáticas antes de ir embora. O que me salvou, porque tudo demorou imensamente. Gael estava todo embrulhadinho em muitas camadas dentro da cadeirinha. Lá fora fazia -11°C. O motorista do carro foi simpático. Dei um passo de cada vez para vencer o trajeto entre a rua e a porta do prédio.
Assim que Gael deitou na nossa cama, reconheceu aquilo como seu lar. Eu vi naqueles olhos escuros que ele sabia que era outro ambiente, um ambiente repleto de erros, mas sem alguém para procurá-los incansavelmente 24h por dia. E isso fez toda a diferença. Porque os erros se misturaram aos acertos já naquele exato instante. Os acertos vieram aos poucos, embalaram meu sono. Um sono abraçado ao meu filho recém-nascido. Um sono na cama imóvel. Um sono que consolidou a rotina e fez nascer nossa nova família de quatro pessoas que erram e acertam.